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Full text of "BERNARDO, João. Poder e dinheiro -- do poder pessoal ao Estado impessoal no regime senhorial, séculos V-XV. Parte III. Sincronia. Família, dinheiro e Estado do século XI ao século XIV. Porto: Afrontamento, 2002."

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João  Bernardo 


PODER  E  DINHEIRO 

Do  Poder  Pessoal  ao  Estado  Impessoal 
no  Regime  Senhorial,  Séculos  V-XV 


Parte  III 


Sincronia 

Família,  Dinheiro  e  Estado 
do  Século  XI  ao  Século  XIV 


Edições  Afrontamento 


Título:  Poder  e  Dinheiro.  Do  Poder  Pessoal  ao  Estado  Impessoal  no  Regime  Senhorial.  Séculos  V-XV. 

Pane  III:  Sincronia.  Família,  Dinheiro  e  Estado,  do  Século  XI  ao  Século  XIV 
Autor:  João  Bernardo 

©  2002,  João  Bernardo  e  Edições  Afrontamento 

Edição:  Edições  Afrontamento/Rua  Costa  Cabral,  859/4200-225  Porto 

Coleccção:  Biblioteca  das  Ciências  do  Homein/História/21 

N"  de  edição:  794 

ISBN:  972-36-0568-6 

Depósito  legal:  1 1 7600/97 

Impressão  e  acabamento:  Rainho  &  Neves  Lda./Santa  Maria  da  Feira 
Maio  de  2002 


Faz  muitos  anos  estudantes  de  História  querem  esse  livro,  porque  é  básico 
para  a  matéria  de  História  medieval  na  faculdade.  Militantes  também 
querem  este  livro  para  guardar  no  computador  (sim,  porque  ler  mesmo 
quase  ninguém  mais  lê,  e  a  formação  política  que  se  foda). 

Só  que  ninguém  queria  scanear.  Uns  porque  o  preço  dos  livros  é  mesmo 
muito  caro,  outros  porque  não  conseguem  achar  em  livrarias,  outros  porque 
não  conseguem  encontrar  em  bibliotecas,  e  assim  a  gente  via  aparecer  um 
monte  de  obstáculos  transformados  em  problemas  sem  solução.  Todo 
mundo  esperando  um  “pdf  ’  cair  do  céu  na  internet. 

A  gente  não  aguentava  mais  tanto  mimimi.  Resolvemos  fazer  alguma  coisa. 
A  gente  foi  atrás  de  alguém  que  tinha  os  livros,  depois  pediu  emprestado 
por  alguns  dias,  dividiu  o  trabalho  de  scanear  e  temos  um  “pdf’  que  não 
caiu  do  céu,  porque  saiu  de  nosso  trabalho  coletivo.  A  gente  não  precisou  de 
mais  de  uma  tarde  para  scanear  cada  livro  num  scaner  velho  que  a  gente 
conseguiu  emprestado.  Enquanto  um  fazia  o  serviço,  outros  estavam  por 
perto  jogando  e  tomando  cerveja.  De  meia  em  meia  hora  um  chegava  para 
trocar  de  lugar  no  computador,  e  assim  a  gente  nem  viu  o  tempo  passar. 

A  gente  estava  pronto  até  para  comprar  os  livros  se  precisasse,  e  é  o  que  vai 
rolar  no  futuro.  Duas  ou  três  noites  fora  do  bar  ou  da  balada  para  cada  um 
não  é  nada.  A  gente  usa  esse  dinheiro  para  comprar  um  livro  importante  na 
biblioteca  da  comunidade.  Arruma  pelo  menos  dez  cabeças  com  a  mesma 
ideia,  junta  a  grana  de  duas  noites  do  mês  e  compra  os  livros.  Ou  alguém  aí 
paga  menos  de  cinquenta  pila  quando  racha  a  conta? 

Problema  se  resolve  com  menos  mimimi  e  mais  mão  na  massa.  Se  nem  para 
isto  a  militância  serve,  então  todo  mundo  merece  essa  situação  em  que  o 
Brasil  e  o  mundo  estão  hoje.  Bora  ver  se  isso  que  a  gente  fez  serve  também 
de  exemplo. 


Maio  de  2019 
DIGITALIZ ADORES  ANÔNIMOS 


ÍNDICE 


Nomenclatura .  9 

PARTE  III 

Sincronia 

Família,  Dinheiro  e  Estado  do  Século  XI  ao  Século  XIV 
O  tempo  e  a  história  .  15 

Secção  I 

Forma  I  do  dinheiro 

1 .  Estruturas  familiares  da  classe  servil .  2 1 

a.  Prevalecimento  do  núcleo  conjugal .  21 

b.  A  família  como  quadro  de  obtenção  de  força  de  trabalho .  36 

c.  Entre  a  família  conjugal  e  o  comunitarismo .  41 

2.  Vciculação  monetária  das  relações  de  dependência .  45 

a.  Génese  e  difusão  dos  tributos  em  moeda .  45 

b.  Circuitos  da  dependência .  62 

c.  A  moeda  nas  relações  familiares  e  parafamiiiares  do  campesinato .  82 

d.  Conteúdo  da  Forma  I  do  dinheiro .  87 

3.  Resistências  à  vciculação  monetária  das  relações  de  dependência .  99 

4.  Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário .  109 

a.  Depreciações  da  moeda .  109 

b.  Cobrança  das  prestações  em  géneros .  121 

c.  Dinheiro  contabilístico .  134 

5.  Vciculação  monetária  do  mundium .  141 

a.  Caridade .  141 

b.  Crédito .  145 


6 


índice 


Secção  II 

Fornia  II  do  dinheiro 

6.  Estruturas  familiares  da  classe  senhorial .  161 

a.  Linhagem  agnática . 161 

b.  Estratégias  matrimoniais .  173 

c.  Continuidade  patrimonial .  179 

d.  A  Igreja  como  factor  de  desenvolvimento  da  linhagem  agnática .  1 88 

7.  Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal . 223 

a.  Linhagem  aristocrática  e  relações  vassálicas . 223 

b.  Senhorias  pecuniárias . 244 

c.  Mercenários . 254 

d.  Prestações  vassálicas  em  dinheiro . 262 

e.  Crédito . 265 

f.  Transformação  dos  agentes  senhoriais  cm  burocracia  assalariada . 279 

g.  Domesticidade  impessoal . 292 

8.  Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro . 295 

Secção  III 

Forma  III  do  dinheiro 

9  Estruturas  familiares  no  meio  urbano . 315 

a.  Estrutura  das  famílias  da  elite . 315 

b.  Estrutura  das  famílias  populares . 345 

c.  Solidariedades  familiares  de  vizinhança . 347 

d.  Solidariedades  familiares  na  actividade  económica . 353 

10.  Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro . 361 

a.  Dinheiro  fiduciário . 361 

b.  Operações  da  Forma  III  do  dinheiro . 380 

c.  Esfera  social  da  Forma  III  do  dinheiro . 421 

d.  Entre  a  oralidade  e  a  escrituração . 428 

c.  Saque . 436 

f.  Amplitude  social  dos  investimentos  comerciais  no  meio  urbano . 448 

g.  Dívida  pública  e  lutas  contra  o  sistema  fiscal . 45 1 

Secção  IV 

Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 

1 1 .  Mecanismos  de  articulação  das  trés  formas  do  dinheiro . 477 

12.  As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial . 485 

a.  As  relações  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial . 485 

b.  A  Igreja  perante  o  crédito . 503 

c.  As  relações  senhoriais  como  quadro  dos  circuitos  monetários  c  das  operações 

mercantis . 524 


índice 


7 


13.  Os  reis  na  convergência  das  irês  formas  do  dinheiro . 537 

a.  Hierarquização  dos  centros  de  cunhagem  e  formação  de  zonas  monetárias . 537 

b.  O  crédito  e  a  reorganização  fiscal . 549 

c.  Imposto  central  e  cortes  gerais . 554 

14.  Lei  do  regime  senhorial  (segunda  versão) . 569 

CONCLUSÃO 

Diacronia 

Crise  nos  Séculos  XIV  e  XV 

15.  Sinais  de  crise . 581 

16.  Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade . 595 

Referências . 625 

índice  de  assuntos  dos  três  volumes . 647 


NOMENCLATURA 


Torna-se  necessário  acrescentar  alguns  lermos  aos  definidos  nas  nomenclaturas  das  Partes  I 
e  11.  Na  lista  alfabética  que  se  segue  os  números  entre  <  >  indicam  a  ordem  por  que  as  palavras 
vêm  referidas, 
alcunha  <12> 
apelido  <13> 
assalariado  <15> 
câmbio  directo  <4> 
câmbio  externo  <5> 
clã  <8> 
corte  <3ü> 
cortes  gerais  <31> 
feira  <21> 

Forma  I  do  dinheiro  <1> 

Forma  II  do  dinheiro  <2> 

Forma  III  do  dinheiro  <3> 
grupo  familiar  urbano  <9> 
jornaleiro  <17> 
mercado  <2()> 
mercenário  <  1 8> 
nome  própno  <  1 0> 
parentesco  espiritual  <7> 
patronímico  <  1 1  > 
salário  <16> 

senhona  pecuniária  <29> 
senhor  preferencial  <27> 
sobrenome  <  1 4> 
sócio  activo  <23> 
sócio  passivo  <22> 
soldo  <I9> 
subvassalo  <28> 
ultimogenitura  <6> 
vassalagem  múltipla  <24> 


10 


Nomenclatura 


vassalagem  preferencial  <25> 

vassalo  preferencial  <26> 

A  Forma  I  do  dinheiro  <1>,  composta  por  peças  de  baixo  valor,  era  o  instrumento  das  rela¬ 
ções  de  dependência  impessoal,  circulando  no  interior  da  classe  servil  e  entre  a  classe  servil  e  a 
classe  senhorial,  bem  como  no  interior  da  arraia-miúda  e  entre  esta  e  a  elite  urbana.  A  Forma  II 
do  dinheiro  <2>.  composta  por  moedas  de  valor  elevado,  ou  relativamente  elevado,  era  o  instru¬ 
mento  das  relações  de  subordinação  impessoal,  circulando  apenas  no  interior  da  classe  senhorial. 
A  emissão  da  Forma  113  do  dinheiro  <3>.  de  carácter  fiduciário  e  ligada  a  operações  de  crédito 
inseridas  nos  negócios,  estava  directamente  a  cargo  de  sectores  restritos  da  classe  senhorial  -  os 
negociantes  profissionais,  algumas  ordens  religiosas  e  as  cidades  enquanto  senhores  colectivos  - 
e  destinava-se  preferencialmeme  ao  mesmo  meio  social  em  que  circulava  a  Forma  11.  O  câmbio 
directo  <4>  é  a  troca  de  numerário  de  um  dado  tipo  por  numerário  de  outro  tipo,  ou  a  troca  entre 
diferentes  séries  do  mesmo  tipo  de  numerário,  no  interior  da  mesma  praça.  O  câmbio  externo 
<5>  processava-se  entre  praças  diferentes,  ou  pelo  menos  processava-se  numa  dada  praça  em 
função  de  taxas  cambiais  praticadas  noutra  praça,  e  implicava  o  recurso  a  instrumentos  financei¬ 
ros  como  as  letras  de  câmbio. 

A  ultimogenitura  <6>  é  a  preferência  dada  na  herança  ao  filho  mais  novo.  O  parentesco 
espiritual  <7>  é  um  elo  familiar  artificial  contraído  no  contexto  de  certas  cerimónias  litúrgicas. 
Nesta  categoria  inserem-se  os  padrinhos  e  madrinhas.  O  clã  <8>  é  uma  forma  de  família  ampla 
aristocrática,  que  definia  a  sua  camada  superior  pela  descendência  através  da  via  masculina  a 
partir  de  um  único  antepassado  comum,  e  que  reunia  no  seu  interior  uma  multiplicidade  de 
linhagens,  definidas  igualmente  por  via  masculina.  O  clã  possuía  uma  identidade  própria,  afir¬ 
mada  pelo  recurso  a  um  conjunto  de  símbolos,  mas  as  linhagens  componentes  detinham  também 
um  considerável  grau  de  autonomia,  embora  sem  entrarem  em  contradição  com  os  objectivos 
gerais  estabelecidos  no  quadro  do  clã.  Enquanto  cada  uma  destas  linhagens  era  obrigatoriamente 
exogâmica,  no  interior  do  clã  tanto  se  praticava  a  exogamia  como  a  endogamia.  Só  um  escasso 
número  de  clãs  resultou  de  uma  formação  deliberadamente  artificial,  o  que  basta  para  distmgui- 
-los  de  outro  tipo  de  família  ampla,  vigente  entre  a  elite  das  cidades,  o  grupo  familiar  urbano 
<9>,  que  conjugava  de  maneira  indissolúvel  o  parentesco  de  sangue  e  o  parentesco  artificial. 
Mesmo  que  o  grupo  familiar  urbano  não  incluísse  pessoas  ou  unidades  familiares  originaria- 
mente  exteriores,  o  carácter  artificial  da  sua  constituição  prevalecia  sobre  os  elos  de  sangue  ou 
de  afinidade.  Embora  cada  um  destes  gnipos  tivesse  uma  identidade  bem  vincada,  eles  eram 
constituídos  por  várias  unidades  familiares  claramente  diferenciadas. 

O  nome  próprio  <I0>  identificava  uma  pessoa  enquanto  indivíduo.  O  patronímico  <1 1> 
era  uma  variante  do  nome  do  pai.  que  se  acrescentava  ao  nome  próprio,  e  que  se  destinava  a 
identificar  uma  dada  pessoa  como  filho  de  alguém.  A  alcunha  <12>  completava  a  identificação 
de  uma  pessoa  enquanto  indivíduo,  referindo-se  a  qualquer  particularidade  física  ou  de  carácter, 
ou  á  ocupação  de  um  dado  cargo  ou  profissão,  ou  recordando  algum  acontecimento  da  sua  vida. 
O  apelido  <13>  era  um  nome  fixo.  acrescentado  ao  nome  próprio  -  ou  ao  conjunto  do  nome 
próprio  com  o  patronímico  -  de  todos  os  membros  de  uma  mesma  família,  e  que  servia  para 
identificar  a  família  tanto  em  cada  geração  como  ao  longo  do  tempo.  Podia  suceder  que  um  dado 
patronímico,  ou  a  alcunha  de  um  antecessor,  fossem  convertidos  em  apelido  familiar  dos  seus 
descendentes.  Chamo  sobrenome  <I4>  a  tudo  o  que  se  acrescentava  ao  nome  próprio.  Tanto  o 
patronímico  como  a  alcunha  e  o  apelido  são  formas  do  sobrenome. 


Nomenilaiurti 


II 


Sendo  uni  prebendado  temporário  em  sistema  impessoal,  o  assalariado  <15>  recebia  uma 
remuneração  monetária.  O  salário  <I6>  era  a  remuneração  do  assalariado  e  consistia  unica¬ 
mente  em  dinheiro-moeda.  Chamo  jornaleiro  <17>  ao  trabalhador  prebendado  temporário 
actuante  no  meio  rural,  inteiramente  desprovido  de  terra,  ambulante  e  que  só  laborava  para  cada 
patrão  por  períodos  curtos  e  limitados.  O  mercenário  <18>  era  um  guerreiro  assalariado,  cujos 
deveres  militares  derivavam  exclusivamente  da  remuneração  que  recebia  para  efectuar  o  serviço 
e  duravam  apenas  o  período  coberto  por  essa  remuneração.  Ao  salário  que  remunerava  o  merce¬ 
nário  chamo  soldo  <lõ>. 

Os  mercados  <20>  dizem  apenas  respeito  à  Forma  I  do  dinheiro.  Eram  lugares  destinados  a 
transacções  de  pequeno  vulto,  mediante  as  quais  os  camponeses  obtinham  moeda  e  que  serviam 
aos  senhores  para  escoar  em  escala  reduzida  alguns  excedentes  agrícolas.  (Refiro-me  aqui  aos 
mercados  na  sua  acepção  física  restrita,  e  não  ao  conceito  de  mercado  enquanto  quadro  geral  de 
trocas.)  As  feiras  <21>  dizem  apenas  respeito  às  Formas  II  e  III  do  dinheiro.  As  transacções 
efectuadas  em  função  das  feiras  serviam  para  inter-relacionar  os  agentes  senhoriais  e  os  nego¬ 
ciantes  profissionais.  O  sócio  passivo  <22>  era  aquele  que  fornecia  apenas  mercadorias  ou 
adiantava  fundos,  na  sua  totalidade  ou  na  sua  maior  parte,  sem  se  deslocar  à  praça  em  que  o 
negócio  se  iria  realizar.  O  sócio  activo  <23>  era  aquele  que,  sem  proporcionar  mercadorias  nem 
fundos,  ou  colaborando  apenas  com  uma  parte  menor,  efectuava  a  viagem  e  realizava  na  prática 
as  operações. 

A  vassalagem  múltipla  <24>  era  a  pluralidade  de  relações  de  subordinação  contraídas 
simultaneamente  por  um  mesmo  vassalo  perante  diversos  senhores  superiores.  Quando,  pre¬ 
vendo-se  o  aparecimento  de  um  conflito  entre  os  vários  deveres  de  fidelidade,  uma  destas  rela¬ 
ções  de  vassalagem  era  considerada  superior  às  restantes,  digo  que  se  tratava  de  vassalagem 
preferencial  <25>.  e  quem  a  prestava  era  um  vassalo  preferencial  <26>.  Aquele  dos  seus 
senhores  superiores  a  quem  um  dado  vassalo  tivesse  prestado  a  homenagem  preferencial  era  o 
senhor  preferencial  <27>.  Refiro-me  assim  à  instituição  denominada  «ligesse»  na  área  de 
expressão  francesa,  e  personificada  pelo  vassalo  «lige >•  e  pelo  senhor  superior  Chamo 

subvassalo  <28>  ao  vassalo  cujo  senhor  superior  é  vassalo  de  outro  senhor  superior.  A  senhoria 
pecuniária  <2Ó>  era  um  tipo  de  senhoria  vassálica  constituído  pela  concessão  periódica  de  uma 
quantia  em  dinheiro,  previamente  estipulada,  e  independente  de  qualquer  relação  com  uma  base 
fundiária  e  uma  população  determinadas. 

A  corte  <30>  era  a  camada  superior  da  domesticidade  do  soberano,  incluindo  tanto  os  fun¬ 
cionários  da  sua  administração  central  como  os  membros  da  aristocracia  que  fizessem  episodica¬ 
mente  parte  do  seu  séquito.  As  cortes  gerais  <31>  eram  assembleias  onde  estavam  representa¬ 
dos  todos  os  estratos  da  classe  senhorial,  que  reuniam  mediante  convocação  formal,  correspon¬ 
dendo  a  uma  instituição  própria,  e  cujas  decisões  abarcavam  uma  área  de  soberania,  quer  reino 
quer  principado. 


Parte  III 
SINCRONIA 

FAMÍLIA,  DINHEIRO  E  ESTADO 
DO  SÉCULO  XI  AO  SÉCULO  XIV 


O  TEMPO  E  A  HISTÓRIA 


A  história  é  sempre  um  discurso  sobre  o  presente.  Não  deve  sê-lo  para  talhar  o  pas¬ 
sado  pelos  moldes  contemporâneos,  numa  tentativa  de  etemização  da  actualidade,  mas 
para  mirar  o  presente  por  contraste,  usando  o  passado  ao  invés  de  um  espelho,  de  modo 
a  afirmar  criticamente  a  especificidade  da  época  em  que  vivemos.  Mas  que  fazer 
quando,  malgrado  a  extremação  de  tantas  diferenças,  as  semelhanças  começam  a 
impressionar-nos? 

Além  do  tempo  do  historiador,  que  sustenta  a  narração  e  ritma  a  acção,  há  o  tempo 
dos  personagens,  que  é  objecto  da  história.  Foi-se  tomando,  ao  longo  deste  período,  um 
tempo  novo.  homogéneo,  com  uma  homogeneidade  induzida  pelo  dinheiro,  e  tal  como 
ele  capaz  de  reduzir  as  desigualdades  substanciais  a  meras  diferenças  de  quantidade. 
Ao  converter-se  na  medida  de  todas  as  relações  humanas  e  de  todas  as  coisas  materiais, 
como  Georg  Simmel  analisou  na  Filosofia  do  Dinheiro  e  Musil  sintetizou  na  figura  de 
Amheim,  o  dinheiro  inspirou  as  suas  características  próprias  à  nova  forma  de  medir  o 
tempo. 

Tempo  que  na  sucessão  regular  das  horas  anulou  a  oposição  entre  o  dia  e  a  noite,  e 
abstraiu  do  quente  e  do  frio  das  estações  do  ano.  Tempo  que  deixou  de  se  sentir  no 
corpo  e  passou  a  ser  calculado  por  máquinas.  Tempo  medido  e  contado  pelos  relógios, 
com  outra  exactidão.  e  proclamado  pelos  toques  de  sineta,  de  maneira  tal  que  não  resul¬ 
tava  já  de  uma  soma  de  avaliações  privadas  e  era  imposto  a  todos  pela  autoridade 
pública.  Que  colossais  expansões,  as  do  Estado  e  do  dinheiro,  para  conseguirem  sujei¬ 
tar  a  população  à  nova  medida  do  tempo,  dando  um  sentido  diferente  à  vida  e  à  morte, 
aos  ciclos  íntimos  dos  indivíduos  e  aos  grandes  ciclos  da  sociedade.  Neste  tempo  reco¬ 
nhece-se  o  leitor,  contemporâneo  dos  herdeiros  directos  daquele  poder  e  daquele 
dinheiro.  Por  isso,  fazer  a  história  dos  instrumentos  financeiros  e  da  autoridade  sobe¬ 
rana  neste  período  é  reflectir  sobre  o  tempo  em  que  nascemos  e  somos  obrigados  a 
viver. 

Não  era  então  a  nossa  época,  e  dela  se  estava  muito  longe  ainda,  afastados  pela  abis¬ 
sal  incompatibilidade  de  estruturas.  Mas  foram  aquelas  as  matérias-primas  com  que  a 
nossa  época  se  fez. 


FORMA  I  DO  DINHEIRO 


Nesta  Parte  III  exponho  de  maneira  sincrónica  os  aspectos  apresentados  já  enquanto 
diaeronia  nas  secções  III,  IV  e  V  da  Parte  II.  Para  reproduzir  nos  moldes  de  uma  estru¬ 
tura  as  análises  que  haviam  seguido  o  fio  dos  conflitos  latentes  e  das  explosões  sociais 
violentas  toma-se  necessário  dar  outra  substância  às  contradições.  Foi  o  dinheiro  a  per¬ 
mitir  que  as  contradições  funcionassem  como  um  sistema.  A  transição  da  diaeronia 
para  a  sincronia  opera-se  mediante  uma  mudança  de  perspectiva,  que  consiste  em 
passar  do  estudo  dos  conflitos  para  o  estudo  do  dinheiro. 

No  período  que  precedeu  a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X  a  riqueza  não  era  mais 
do  que  uma  modalidade  do  poder  e  o  dinheiro  não  tinha  qualquer  relação  unívoca  com 
a  riqueza.  O  desenvolvimento  da  senhoria  impessoal  converteu  o  dinheiro  num  instru¬ 
mento  do  poder,  e  para  isso  remodelou  a  totalidade  das  fornias  pecuniárias,  subme¬ 
tendo-as  à  única  que  decorria  exclusivamente  do  bannunu  a  moeda.  PTOgressivamente, 
a  partir  do  século  XI  e  durante  muito  tempo  ainda,  o  dinheiro-moeda,  e  as  outras  for¬ 
mas  que  a  ele  se  referiam,  foram-se  tomando  o  veículo  de  um  poder  que  cada  vez  mais 
se  assumia  como  riqueza.  Até  que  o  capitalismo  reorganizasse  todos  estes  elementos 
numa  estrutura  completamente  nova  e  fizesse  do  dinheiro  a  realidade  única  tanto  do 
poder  como  da  riqueza. 


CAPÍTULO  1 


ESTRUTURAS  FAMILIARES  DA  CLASSE  SERVIL 


No  regime  senhorial  os  problemas  cia  família  encontram-se  no  centro  de  toda  a 
questão  do  poder.  Se  for  exacto  que  na  génese  do  bannurn  esteve  o  alargamento  do 
âmbito  do  mundium  para  o  exterior  da  domesticidade  (ver  na  Parte  1  o  capítulo  16.c), 
então  qualquer  exercício  do  poder  ocorria  em  formas  parafamiliares.  No  seu  desenvol¬ 
vimento.  para  abarcar  a  globalidade  das  populações  e  dos  territórios  em  novas  modali¬ 
dades  de  comunitarismo.  o  bannum  teve  de  dissolver  antigos  laços  de  parentesco  e  de 
alterar  substancialmente  as  células  da  família.  Deste  modo.  a  reestruturação  da  socie¬ 
dade  rural  que  estudei  na  Parte  II.  levada  a  cabo  entre  a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X 
e  a  crise  desencadeada  na  segunda  metade  do  século  XIV,  foi  possível  somente  porque 
ao  mesmo  tempo  se  reorganizara  o  quadro  familiar  e  parafamiliar  da  classe  servil. 


a.  Prevaledmento  do  núcleo  conjugal 

Numa  sociedade  em  que  a  família  era  a  mais  importante  estrutura  de  enquadra¬ 
mento  e  de  protecção1,  a  redução  das  dimensões  de  uma  unidade  familiar  camponesa 
revela  o  seu  enfraquecimento  social2.  É  certo  que  já  desde  o  período  anterior  (ver  na 
Parte  I  o  capítulo  21. a)  prevalecia  na  classe  servil  a  tendência  para  o  decréscimo  das 
famílias,  até  chegarem  aos  limites  do  núcleo  conjugal,  o  que  à  primeira  vista  dificulta  o 


1  B.  Geremek  (1976»  285  observa  que  a  família  era  um  quadro  de  inserção  social  indispensável  e 
que,  colocada  fora  da  família,  uma  pessoa  definia-se  como  marginal.  Em  sentido  oposlo,  a  propósito 
da  Inglaterra  no  final  do  período,  B.  A.  Hanavvalt  (1986)  8.1-84  pretende  que  os  vínculos  de  paren¬ 
tesco  eram  muito  pouco  significativos  e  que  importavam  sobretudo  as  relações  de  solidariedade  entre 
vizinhos  ou  a  participação  na  clientela  de  um  camponês  abastado.  Mas  esta  autora  não  leva  em  conta 
que  tanto  a  coesão  entre  vizinhos  como  a  situação  de  cliente  obedeceram  a  modalidades  parafamilia¬ 
res  ou  mesmo  a  sistemas  de  família  artificial. 

2  Nas  regiões  onde  prevaleceu  durante  mais  tempo  a  coesão  entre  parentes,  comenta  B.  Phillpotts 
(1967)  7.  os  camponeses  tenderam  a  ser  livres:  enquanto  os  direitos  senhoriais  se  afirmaram  mais  for¬ 
temente  nas  regiões  onde  os  elos  de  solidariedade  familiar  desapareceram  mais  cedo.  A  este  respeito 
ver:  R.  J.  Faith  (1966)  84-85:  Ch.  Middlcton  (198h  110-111  Consultar  igualmente:  G.  Devailly 
(1973)  335.  E,  referindo-se  á  Toscana  durante  o  primeiro  terço  do  século  XV.  Ch.  Klaptsch  ct  al. 
(1972)  885-887  observam  que  os  assalariados  chefiavam  famílias  de  dimensão  inferior  à  média. 


Forma  /  do  dinheiro 


estabelecimento  de  uma  relação  entre  este  processo  e  o  agravamento  das  formas  de 
exploração  a  partir  do  século  Xl\  Mas,  mesmo  antes  de  recorrer  a  outros  elementos, 
que  confirmarão  a  justeza  da  análise,  basta  acompanhar  o  sucedido  com  os  Magiares, 
um  povo  só  tardiamente  senhorializado,  para  se  observar  os  efeitos  da  desagregação 
das  famílias  amplas.  Quando  se  instalaram  na  sua  pátria  definitiva  os  Magiares  organi¬ 
zavam-se  em  vastas  famílias  agnáticas,  cada  uma  detendo  uma  exploração  em  comum. 
Como  as  diversas  famílias  de  uma  mesma  aldeia,  mesmo  que  não  fossem  parentes  por 
via  paterna,  se  aliavam  matrimonialmente,  os  quadros  do  habitat  correspondiam  a  redes 
muito  fortes  de  coesão  familiar.  Ora,  no  final  do  século  X  e  sobretudo  no  começo  do 
século  XI,  para  impulsionar  o  desenvolvimento  do  regime  senhorial,  a  monarquia,  além 
de  promover  o  novo  sistema  económico,  recorreu  a  medidas  de  carácter  jurídico  e  tam¬ 
bém  ideológico  destinadas  a  fraccionar  aquelas  famílias  amplas.  Ficou  proibida  a  prᬠ
tica  de  desposar  a  viúva  do  irmão  e  lhe  gerar  filhos  em  nome  do  defunto,  o  que  até 
então  ajudara  a  assegurar  a  continuidade  do  eixo  patrilinear.  Além  disso,  cada  pessoa 
foi  autorizada  a  partilhar  livremente  os  seus  bens,  doando-os  como  quisesse  aos  mem¬ 
bros  da  sua  família  imediata,  ou  a  outros  parentes,  ou  à  Igreja.  As  grandes  explorações 
detidas  pelas  famílias  amplas  fragmentaram-se  numa  pluralidade  de  explorações  decor¬ 
rentes  de  pequenas  unidades  familiares,  o  que  possibilitou  a  implementação  de  formas 
tributárias  de  tipo  servil.  E  para  o  mesmo  objectivo  contribuiu  a  propagação  do  carácter 
conjugal  da  família  pelo  cristianismo  romano,  que  só  foi  imposto  como  religião  do 
reino  no  último  quartel  do  século  X4.  Este  exemplo  mostra  que  a  dissolução  dos  siste¬ 
mas  familiares  de  tipo  amplo  continuava  a  ser  uma  condição  necessária  ao  progresso  do 
regime  senhorial. 

A  extinção  do  campesinato  independente  e  a  conversão  de  todos  os  rurais  em 
servos,  no  quadro  da  senhoria  impessoal,  só  foram  possíveis  através  da  redução  das 
unidades  familiares.  A  fusão  servil  contribuiu  para  a  ausência  de  diferenciação  entre  as 
famílias  camponesas  e.  por  outro  lado,  sem  esta  convergência  não  teriam  podido  afir¬ 
mar-se  as  modalidades  impessoais  do  bannum,  que  se  caracterizavam  precisamente 
pela  homogeneização  da  população  dos  vários  territórios.  A  limitação  das  famílias  rús¬ 
ticas  ao  núcleo  conjugal  deve  ser  apreciada  sob  um  duplo  ponto  de  vista.  Em  primeiro 
lugar,  é  significativo  observar  que,  quando  existiam,  as  estruturas  familiares  mais  com¬ 
plexas  se  encontravam  entre  os  camponeses  ricos,  aqueles  que  melhor  conseguiam 
defender-se  das  pressões  dos  magnates'’.  Mas  as  implicações  resultantes  da  tendência 
para  a  redução  ao  modelo  conjugal  não  podem  ser  cabalmente  entendidas  se,  em 


-  Segundo  P.  Guichard  (1979)  47.  é  muito  difícil  encontrar  sinais  indesmentíveis  da  existência  de 
comunidades  familiares  arcaicas  na  documentação  referente  a  qualquer  época  do  regime  senhorial:  so 
o  núcleo  conjugal  teria  deixado  traços  permanentes  e  incontestáveis. 

4  A  relação  entre  o  desenvolvimento  do  regime  senhorial  na  Hungria  e  a  desagregação  das  fornias 
amplas  de  família  foi  claramente  estabelecida  por  G.  Gyorffy  ( 1988)  633-634. 

5  M.  Bloch  (1939-1940)  I  193,  216:  F.  Gies  et  ai.  (1987)  169-170:  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  332. 
335-336;  F.  Leverotii  ( 1984)  253-256. 

A  propósito  da  Toscana  durante  o  primeiro  terço  do  século  XV.  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  296 
observam  que  a  complexidade  do  empo  doméstico  dependia  mais  do  estatuto  social  do  que  da  for¬ 
tuna. 


A  \inituras  liiniiluuiw  da  ,Vt'  servil 


2J 


segundo  lugar,  nào  distinguirmos  entre  família  ampla  e  família  numerosa6.  Mesmo  cir¬ 
cunscrita  ao  núcleo  conjugal,  uma  unidade  familiar  podia  conter  muitos  membros,  nem 
todos  necessariamente  parentes7.  E  quando  sabemos  que  o  trabalho  braçal  continuava 
muito  difundido  na  agricultura  deste  período8,  facilmente  deduzimos  que  a  disposição 
de  uma  suficiente  mão-de-obra  familiar  era  uma  das  condições  da  prosperidade.  Por 
isso,  também  nesta  perspectiva  a  superioridade  cabia  aos  camponeses  abastados,  que 
procriavam  uma  prole  mais  abundante9.  As  famílias  rurais  podiam,  além  disso,  possuir 
uma  camada  inferior,  composta  sobretudo  por  trabalhadores  prebendados,  já  que  neste 
período  o  escravismo  desapareceu  em  boa  parte  da  economia  agrária.  Vejamos  a  ques¬ 
tão  com  algum  detalhe. 

A  presença  de  escravos  domésticos,  obrigados  ao  cultivo  diário  do  domínio,  parece 
ter  sido  ainda  corrente  em  toda  a  Gennânia  ao  longo  do  século  XII,  começando  só  a 
reduzir-se  no  século  seguinte  e  apenas  perdurando  os  que  estavam  encarregados  de  fainas 
não  agrícolas.  E  na  baixa  Silésia,  uma  área  sujeita  à  influência  germânica,  os  conventos 
de  Cister  mantiveram  o  escravismo  doméstico  no  final  do  século  Xll  e  durante  o  século 
XIII.  Mas  o  sistema  extinguira-se  praticamente  nas  restantes  regiões  senhorializadas  do 
continente  a  norte  dos  Alpes,  bem  como  na  Espanha  setentrional  e  ocidental,  tendo  os 
antigos  escravos  sido  estabelecidos  como  casati  ou  transformados  em  criados  domésti¬ 
cos.  Na  Inglaterra  o  velho  escravismo  persistiu  por  mais  algum  tempo,  representando 
cerca  de  um  décimo  da  população  masculina  recenseada  no  final  do  século  XI,  o  que 
ajuda  talvez  a  compreender  que  no  começo  desse  século  os  Escandinavos  fixados  no 
norte  da  França  tivessem  promovido  uma  activa  corrente  de  tráfico  humano  e  que 
naquela  época  ocorresse  um  breve  surto  de  escravismo  doméstico  na  Normandia.  Em 
contraste  com  a  evolução  registada  na  generalidade  do  continente  a  oeste  do  Reno  e  a 
norte  dos  Alpes  e  com  a  situação  que  rapidamente  acabou  por  prevalecer  na  própria 
Inglaterra,  sabemos  que  na  orla  mediterrânica  da  península  hispânica,  da  França  e  da 
Itália  se  difundiu  neste  período  uma  nova  vaga  de  escravismo,  resultante  do  comércio  e 
de  razias.  Mas  este  tipo  de  mão-de-obra  era  principalmente  destinado  a  fainas  artesa- 
nais  e  ao  serviço  da  casa,  sobretudo  no  âmbito  urbano,  o  que  o  distinguia  do  tradicional 
escravismo  agrícola  mantido  entre  os  Germanos.  E  certo  que  nas  regiões  da  Espanha 
cristã  mais  próximas  da  fronteira  com  o  Islão,  onde  as  batalhas  permitiam  fazer  um 
número  elevado  de  cativos,  os  grandes  conjuntos  senhoriais  continuaram  até  ao  século 
XII  a  contar  com  mão-de-obra  escrava.  No  entanto,  quando  os  soberanos  cristãos 
começaram  a  conquistar  áreas  vastíssimas  o  sistema  senhorial  não  comportava  já  a  pos¬ 
sibilidade  de  escravizar  toda  a  população  dos  novos  territórios.  Nas  costas  meridionais 


*  Em  crítica  à  noção  de  dimensão  média  das  tamílias  rurais,  Ch.  Klapiseh  ei  al.  ( 1972)  875  e  890 
recordam  que  uma  dada  média  tanto  podia  representar  um  sistema  de  famílias  conjugais  onde  vigo¬ 
rasse  uma  fone  taxa  de  natalidade  como  uma  sistema  de  famílias  amplas  com  uma  mortalidade  ele¬ 
vada.  Por  seu  lado,  J.  Hilairc  ( 1973)  20  indica  que  o  número  de  membros  de.  uma  família  ampla  podia 
ser  inferior  ao  de  um  núcleo  conjugal  provido  de  bastantes  filhos  e  de  criadagem. 

7  A.  Guerreau-Jalabert  ( 1990)  102-103.  J.  Krause  1 1956-1957)  420-423:  I.  Origo  (1955)  340.  Ver 
igualmente:  J.  Heers  f  1 98 1 )  1 7. 

8  R.  Grandel  al.  (1950)  271-272. 

9  D.  Herlihy  ( 1967)  145;  td.  ( 1972-1973)  626-629.  Ver  também:  Z.  Razi  <  1981)9. 


24 


Forma  I  do  dinheiro 


da  Espanha  os  escravos  só  voltaram  a  ser  empregues  com  frequência  na  economia  agrᬠ
ria  em  algumas  regiões  na  órbita  da  coroa  de  Aragão.  especialmente  no  reino  de  Valên¬ 
cia  e  nas  Ilhas  Baleares,  em  menor  medida  na  Catalunha.  Também  em  grandes  senho¬ 
rias  provençais  se  encontravam  escravos  nas  fainas  agrícolas,  e  ainda  na  área  de  sobera¬ 
nia  veneziana,  bem  como  em  partes  da  Itália  meridional  e  na  Sicília.  Mesmo  nestes 
casos,  porém,  declinou  o  uso  de  escravos  na  cultura  extensiva,  e  no  final  do  período 
eles  eram  sobretudo  encarregados  de  plantações  especializadas  e  do  seu  processamento 
em  instalações  dominiais,  com  vista  ao  grande  mercado  de  exportação.  Este  aparente 
paradoxo,  que  consistiu  na  utilização  da  mão-de-obra  escrava  em  produções  de  âmbito 
dominial,  inseridas  portanto  no  quadro  doméstico,  mas  tendo  por  objectivo  a  comercia¬ 
lização  a  grande  distância,  esboçara-se  já  nos  territórios  senhoriais  da  Palestina  e  da 
Síria  e  desenvolveu-se  em  seguida  nos  estabelecimentos  fundados  por  Veneza  e  por 
Génova  no  Levante  e  na  área  do  Império  Bizantino,  até  adquirir  novo  fôlego  do  século 
XV  em  diante,  para  sustentar  as  malhas  com  que  o  Ocidente  europeu  viria  a  dominar  a 
economia  mundial10. 

Mas  essa  é  a  história  futura,  para  além  dos  limites  que  me  restringem.  Durante  o 
período  que  estou  agora  a  analisar,  na  grande  parte  da  sociedade  rural  a  camada  inferior 
das  famílias,  quando  existia,  passara  a  ser  composta  por  pessoas  de  estatuto  livre,  e  é 
útil  talvez  recordar  que  os  eremitas  e  os  reclusos  tinham  servidores,  por  vezes  numero¬ 
sos1  *.  Nestes  casos,  em  que  na  sua  marginalização  um  elemento  da  camada  superior  da 


1(1  Quanto  às  transformações  operadas  no  escravismo  doméstico  durante  este  período,  na  maior 
parte  da  área  do  regime  senhorial:  M.  Bloch  (1939-1940)  1  408:  id.  (1960-1961)  1  88,  II  80.  84;  id. 
(1967)  75;  P.  Bonnassie  (1975-1976)  299-300.  302;  id.  (1980)  34;  A.  Castro  (1964-1979)  V  267;  E. 
Comi  (1965-  )  I  182-183:  P.  Dockès  (1979)  174-175;  R.  Durand  (.1982)  497.  500;  V.  Fumagalli 

(1980)  316-317;  3.  Heers  (1974)  74-75.  70;  id.  (1981)  110-115,  117.  122.  135-138;  J.  N.  Hillgarth 
(1976-1978)  I  87-89:  I.  Origo  (1955)  322-325;  R.  Sanfaçon  (1067)  64:  R.  S.  Smith  (1966)  434;  P. 
Toubert  (1973  a)  11.3,  116;  Ch.  Verlinden  (1937)  193-194:  id.  (1955-1977)  1  73.  116-117.  135-136. 
141-142.  149-151,  172-173,  261-262.  286-289,  427-429,  434-436.  532,  748  e  segs.,  799-801.  11  383. 
402.405,415,426,666. 

A  situação  da  Germânia  é  descrita  por  Ph.  Dollinger  (1949)  153,  264,  278-280  e  Ch.-E.  Perrin 
(1951-1955)  192- 197.  Todavia,  para  F.  L.  Ganshof  et  al.  (1966)  316  o  escravismo  doméstico  entre  os 
Germanos  estaria  já  demasiado  reduzido  para  conseguir  por  si  sõ  assegurar  o  cultivo  do  domínio.  O 
caso  da  Silésia  é  referido  por  S.  Trawkowski  ( 1 959 )  187.  A  situação  inglesa  encontra-se  mencionada 
por:  G.  Duby  (1962)  410;  R.  Hilton  (197.3  a)  57;  id.  (1977-1978)  272-273;  E.  A.  Kosminsky  (1956) 
280-281;  E.  Miller  (1966)  127;  D.  Pelteret  (1981)  99.  Ch.  Dyer  (1990)  121  indica  que  os  escravos 
eram  particularmente  numerosos  em  certas  regiões  do  oeste  da  Inglaterra.  Quanto  ao  sucedido  na 
Normandia.  ver:  M  Bouard  (org.  1970)  126:  L.  Musset  ( 1965)  229-230:  D.  Pelteret  ( 1981 )  109.  Note- 
-se  que  J.-P.  Barraqué  <  1991 )  369  observa  a  presença  de  escravos  nas  domesticidades  da  elite  de  Sara¬ 
goça  no  final  do  século  XIV.  e  J.  Heers  <  1981 )  98  assinala  a  actividade  de  escravos  artesãos  em  con¬ 
ventos  portugueses. 

Acerca  do  novo  tipo  de  escravismo  encetado  nos  estabelecimentos  senhoriais  da  Palestina,  do 
império  de  Constantinopla  e  do  Levante,  ler  C.  Cahen  (1950-1951 )  299:  J.  Heers  ( 1981 )  69  e  segs.; 
G.  Luzzatto  (1961  b)  63:  .1.  Richard  (1977)  337.  351;  S.  Runciman  (1955-1957)  II  296:  F.  Thiriet 
(1959)  314-315;  Ch.  Verlinden  <  1955-1977)  H  717.  876e  segs.  A  este  respeito  consultar  também,  no 
capítulo  15  da  Parte  II,  as  nn.  142  a  144. 

11  H.  Dauphin(  1965)  301-302. 

No  começo  do  século  XII,  na  Grande  Cartuxa  de  São  Bruno,  segundo  J.  Hubert  ( 1965)  483.  foi 
organizado  um  corpo  de  irmãos  conversos,  cumprindo  as  mesmas  funções  que  os  criados  dos  eremi- 


F.slntUt)  ijs  familiares  tia  classe  sei  vi! 


família  se  fez  acompanhar  por  membros  da  camada  inferior,  a  ruptura  da  unidade 
doméstica  operara-se  verticalmente,  o  que  mostra  como  a  articulação  das  duas  camadas 
parecia  naturalmente  estabelecida.  A  situação  estava  longe,  porém,  de  ser  sistemática,  e 
entre  os  camponeses  foram  sobretudo  os  mais  prósperos  a  dispor  de  mão-de-obra  pre¬ 
bendada12. 

Em  resumo,  o  campesinato  abastado  não  só  preservou  por  vezes  algumas  formas 
amplas  de  coesão  familiar,  mas  no  interior  das  suas  unidades  conjugais  eram  mais 
numerosos  os  elementos  tanto  da  camada  superior  como  da  inferior13.  O  que  noutra 
época  podia  ter  aparecido  como  meras  diferenças  de  estatuto  no  seio  de  uma  mesma 
família  apresentava-se  agora  como  afirmação  da  supremacia  exercida  pelas  unidades 
familiares  dos  camponeses  mais  ricos  sobre  as  restantes  famílias  rurais,  apesar  dos 
laços  de  parentesco  que  ainda  pudessem  manter.  Ou,  invertendo  a  formulação,  o  desen¬ 
volvimento  das  modalidades  de  prebenda  e  do  assalariamento  ocorria  no  meio  rural  em 
termos  que  prolongavam  e  transformavam  o  antigo  quadro  familiar14.  Tanto  assim  que 


tas.  Isto  parece  confirmar  que  a  Ordem  dos  Cartuxos  formou  um  estádio  intermédio  na  evolução  do 
eremitismo  para  o  sistema  conventual.  Ainda  quanto  ao  tipo  de  mão-de-obra  empregue  nas  cartuxas 
ver:  L.  K.  Little  1 1978)  85-86;  Th.  Sclafert  (1926)  37-38. 

12  F.  L.  Carsten  (1954)  79;  B.  A  Hanawalt  (1986)  9.3.  165;  R.  Hilton  ( 1977-1978)  276;  E.  Kos 
minsky  ( 1955  b)  25.  27;  L.  A.  Kotiélnikova  referida  em  A.  Lioublinskata  (1963)  742. 

Pelo  menos  na  Inglaterra  e  no  Hainaut.  consoante  indicam  E.  A.  Kosminsky  (1956)  304-305,  M. 
M.  Posian  (1966)  611  e  L.  Vemest  [s.  d.]  216.  era  permitido  que  um  camponês  devedor  de  serviços 
de  trabalho  se  fizesse  substituir  por  um  prebendado.  Também  em  Inglaterra,  segundo  M.  VI.  Postan 
(1978  a)  149,  sucedia  que  caseiros  angariassem  trabalhadores  para  tomarem  o  seu  lugar  no  amanho  da 
parcela,  enquanto  eles  cumpriam  os  serviços  de  trabalho.  Porém,  na  Galiza  do  final  do  período.  R. 
Pastor  ( 1990  b)  85-86  informa  que  não  se  encontram  menções  de  criados  nas  famílias  camponesas. 

D.  Herlihy  ( 1995  b)  141  insiste  no  facto  de  as  domesticidades  dos  ricos  serem  maiores  do  que  as 
dos  pobres  e  incluírem  sempre  criadagem,  não  obstante  defender  (pp.  136-143)  que  neste  período  as 
unidades  domésticas  tanto  da  classe  senhorial  como  da  classe  servil  e  tanto  nos  campos  como  nas 
cidades  teriam  passado  a  assemelhar-se  estruturalmente.  Para  sustentar  esta  tese.  David  Herlihy  argu¬ 
menta  que  o  fim  do  escravismo  eliminara  a  diferença  fundamental  que  no  mundo  antigo  havia  impe¬ 
dido  qualquer  comparação  entre  as  famílias  dos  latifundiários  e  as  dos  camponeses,  enquanto  neste 
período  o  facto  de  os  recenseamentos  usarem  a  domesticidade  enquanto  unidade  estatística  e  aplica¬ 
rem  este  padrão  indiferentemente  aos  ricos  e  aos  pobres  demonstraria  que  todas  as  famílias  tinham  em 
comum  a  mesma  estrutura.  Parece-me.  porém,  que  a  comensurabilidade  das  unidades  domésticas 
dizia  respeito  ao  número  dos  seus  membros,  não  à  sua  forma  de  organização  intenta,  e  apesar  de  as 
disparidades  quantitativas  se  terem  tomado  menos  flagrantes,  as  relações  estabelecidas  pela  unidade 
familiar  com  os  antepassados  e  com  os  parentes  vivos  eram  completamente  distintas  entre  os  senhores 
e  entre  os  serv  os.  Ora.  era  justamente  este  relacionamento  que  caracterizava  os  sistemas  familiares. 

Vários  autores  indicam  que  as  famílias  rurais  mais  prósperas  tendiam  a  incluir  maior  quanti¬ 
dade  de  pessoas;  B.  A.  Hanawalt  (1986)  6;  D.  Herlihy  et  at.  (1985)  288;  Ch.  Klapiseh  et  al.  í  1972) 
886-887.  Porém,  referindo-se  à  Toscana  do  primeiro  terço  do  século  XV,  David  Herlihy  et  al.  em 
op.  cir.  332  consideram  que.  nas  famílias  abastadas  aumentou  o  número  de  criados  e,  nas  pobres,  o 
de  filhos.  A  propósito  da  Polónia,  W.  Kula  ( 1970)  52  pretende  que  não  era  por  serem  mais  ricas  que 
certas  famílias  camponesas  possuíam  maior  quantidade  de  elementos,  mas  que  eram  mais  ricas  por 
serem  mais  numerosas. 

14  No  seu  estudo  sobre  uma  aldeia  dos  Pirenéus  no  final  do  século  XIII  e  no  começo  do  século 
seguinte,  e  a  propósito  de  um  pastor  que  era  assalariado  por  um  primo  direito.  E.  Le  Roy  Ladurie  ( 1975) 
120  chama  a  atenção  para  a  sobreposição  dos  elos  de.  parentesco  e  de  assalariamento,  de  maneira  que  o 
quadro  familiar  acluavn  em  sentido  contrário  à  alienação  suscitada  pela  condição  proletária. 


26 


Forma  I  do  dinheiro 


em  regiões  da  Gennânia,  enquanto  permaneceu  viva/,  o  emprego  de  escravos  na  agri¬ 
cultura,  foi  desconhecido  o  assalariamento15.  O  declínio  da  coesão  dos  elos  de  paren¬ 
tesco,  ao  mesmo  tempo  que  promovia  na  generalidade  da  classe  servil  a  penetração  do 
regime  senhorial,  com  o  consequente  surgimento  de  outras  relações  de  tipo  familiar  e 
parafamiliar,  indicava  igualmente  a  nova  divisão  social  difundida  no  interior  do  campe¬ 
sinato. 

Mas  convém  não  opor  as  famílias  amplas  e  as  famílias  conjugais  como  se  consti¬ 
tuíssem  estruturas  antagónicas.  Antes  de  mais,  nem  sempre  é  possível  distinguir  entre 
uma  verdadeira  família  ampla  e  a  mera  utilização  de  vínculos  familiares  amplos.  Esta 
ambiguidade  estava  ligada  ao  facto  de  a  habitação  em  domesticidades  próprias  não 
indicar,  por  si  só,  que  as  famílias  fossem  estritamente  conjugais  e  não  existissem  outros 
elos  operativas  de  parentesco16.  Nas  associações  ditas  de  irmãos,  que  reuniam  tanto 
irmãos  de  sangue  como  pessoas  originariamente  estranhas,  parece  que  a  comunidade  de 
bens  e  o  trabalho  em  comum  só  eram  acompanhados  pela  residência  colectiva  numa 
minoria  de  casos,  quando  apenas  um  dos  irmãos  era  casado  e  os  demais  permaneciam 
solteiros17.  Na  maior  parte  das  vezes  o  grupo  familiar  que  explorava  em  conjunto  um 
mesmo  casal  repartia-se  por  residências  de  carácter  conjugal,  o  que  não  impedia  as 
implicações  práticas  do  relacionamento  familiar  amplo  de  alargarem  o  escopo  daquelas 
unidades  conjugais.  Em  sentido  inverso,  podia  suceder  também  que  os  filhos,  mesmo 


15  Pelo  menos  na  Baviera,  consoante  informa  Ph.  Dollinger  ( 1949)  156,  166  e  461-462,  o  assala- 
namento  não  parece  ter-se  introduzido  no  trabalho  doméstico  antes  do  século  XIV.  e  fê-lo  primeiro 
nas  cidades,  onde  se  verificara  já  no  século  anterior  uma  tendência  para  a  conversão  das  prebendas 
em  salários. 

16  A.  Guerreau-Jalabert  (1990)  102-103  insiste  na  distinção  entre  a  casa  enquanto  unidade  de  resi¬ 
dência  e  a  casa  enquanto  unidade  de  parentesco.  Por  seu  tumo.  e  referindo-se  ao  Namurois.  L.  Geni- 
cot  ( 1943-1995)  IV  132  sublinha  que  a  indivjsão  do  património  não  era  sinónimo  de  coabitação  dos 
herdeiros. 

17  M.  Bourin  et  al.  (1984)  43,  54;  B.  A.  Hanawalt  1 1986)  91-92,  103;  R.  Hilton  (1977-1978)  275; 
F.  Leverotti  (1984)  242;  Ch.  Middleton  ( 1981 )  1.32  n.  17;  R.  Pastor  ( 1990  a)  185;  P.  Toubert  ( 1973  b) 
717-718.  726,  728.  Ver  também:  E.  Le  Roy  Ladurie  ( 1975)  80;  M.  Montanari  ( 1984)  198. 

Segundo  J.  Bardach  (1977)  345,  esta  situação  verificava-se  igualmente  na  orla  oriental  do  regime 
senhorial,  e  mesmo  mais  além.  apesar  de  naquelas  sociedades  as  famílias  amplas  serem  mais  difundi¬ 
das  e  complexas.  Todavia,  a  crer  em  A.-M.  Landès-Mallet  ( 1985)  161,  no  Rouergue  do  último  terço 
do  século  XIII  e  da  primeira  metade  do  século  seguinte  era  frequente  que  os  casamentos  estipulassem 
a  indivisão  do  património  e  a  coabitação  dos  herdeiros:  e  embora  a  autora  só  muito  raramente  especi¬ 
fique  o  estatuto  social  dos  personagens  que  figuram  na  sua  documentação,  fica-se  com  a  ideia  de  que 
na  maior  parte  dos  casos  se  tratava  de  camponeses.  Referindo-se  ao  Languedoc  mediterrânico.  J. 
Hilaire  1 1 973)  14  e  1 8  escreve  que  os  irmãos  associados  tinham  a  obrigação  de  viver  juntos  na  mesma 
casa,  com  as  respectivas  mulheres  e  filhos,  e  eventualmente  demais  membros  da  família.  Ch.  Klapisch 
et  al.  ( 1972)  880  afirmam  que  no  território  rural  de  Pisa,  no  primeiro  terço  do  século  XV,  a  manuten¬ 
ção  do  património  indiviso  entre  os  irmãos  implicava  geralmente  a  residência  em  comum.  Do  mesmo 
modo,  P.  Bonnassie  1 1975-1976)  548-549  admite  que  na  Catalunha  do  segundo  terço  do  século  XI  a 
transmissão  colectiva  e  indivisa  da  herança  supusesse  a  coabitação  de  todos  os  filhos,  com  as  respecti¬ 
vas  células  conjugais.  Também  G.  C.  Homans  ( 1937-1938)  48  considera  que.  na  Inglaterra  do  século 
Xm  e  do  começo  do  século  XIV,  no  sistema  de  indivisão  da  herança  os  irmãos  viviam  em  comum; 
mas  logo  adiante  (pp.  48-49)  explica  que  no  Kent,  onde  seria  frequente  a  indivisão  das  parcelas  e  a 
sua  detenção  pelo  conjunto  dos  herdeiros,  estes  habitariam  numa  grande  casa  única  ou  num  pequeno 
agrupamento  de  casas  vizinhas. 


F.smiiiinis  fünvhariw  uí\m  servil 


depois  de  casados,  continuassem  a  viver  na  casa  paterna,  cooperando  nas  fainas  agríco¬ 
las;  mas  estes  núcleos  conjugais  demarcavam-se  rigorosamente  e  eram  eles,  não  a  asso¬ 
ciação  de  parentes,  a  formar  as  unidades  económicas18.  Havia  ainda  modalidades  de 
agrupamento  entre  irmãos  que,  embora  com  fins  económicos,  não  diziam  respeito  à 
exploração  agrícola,  por  exemplo  se  o  dote  da  noiva  fosse  constituído  sobre  um  bem 
detido  em  comum  pelos  seus  irmãos  ou.  eventualmente,  por  uma  associação  em  que  os 
irmãos  e  as  irmãs  estavam  juntos  com  o  pai  e  a  mãe19.  Além  disso,  algumas  formas  de 
individualização  da  herança,  como  a  uitimogenitura,  podiam  implicar  na  prática  uma 
associação  entre  irmãos.  Quando  o  beneficiado  era  novo  demais  para  se  encarregar  da 
exploração,  seriam  decerto  os  irmãos  mais  velhos  a  trabalhar  a  terra,  até  que  aquele 
atingisse  a  idade  necessária;  chegava-se  assim,  embora  temporariamente,  a  uma  situa¬ 
ção  idêntica  à  da  herança  em  comum20,  e  o  que  parecia  ser  uma  redução  da  unidade 
familiar  manifestava-se  afinal  enquanto  família  ampla. 

Por  outro  lado,  ao  longo  do  ciclo  de  vida  do  marido  e  da  mulher  o  núcleo  conjugal 
atravessava  fases  sucessivas,  que  podiam  assinalar-se  ora  pelos  limites  conjugais,  ora 
pela  dilatação  destes  limites  até  a  família  se  aproximar  de  formas  amplas,  ou  assumir 
mesmo  durante  algum  tempo  tais  características21.  Aliás,  a  constituição  de  comunida¬ 
des  entre  esposos  mostra  como  modalidades  típicas  da  família  ampla  chegavam  a 
reproduzir-se  no  próprio  cerne  do  núcleo  conjugal.  Na  região  de  Montpellier,  por 
exemplo,  a  partir  do  século  XIII  a  instauração  de  comunidades  entre  marido  e  mulher 
obedeceu  com  frequência  ao  modelo  da  associação  entre  irmãos22.  Que  se  tratou  de 
uma  solução  corrente  é  facilmente  demonstrado  ao  vermos  um  célebre  jurista  francês 
da  segunda  metade  do  século  XIII  incluir  sob  a  mesma  denominação  as  comunidades 
conjugais,  as  comunidades  de  mercadores  e  certos  tipos  de  família  ampla,  eventual¬ 
mente  convertíveis  em  família  artificial23. 

Em  todos  os  casos,  convém  sublinhar  a  fragilidade  da  família  ampla,  que,  quando 
existia,  estava  sempre  em  risco  de  se  fragmentar  e  reduzir  aos  núcleos  conjugais24.  O 


18  M.  Montanari  (1984)  195  menciona  exemplos  deste  tipo  em  Itália  no  começo  do  período,  no 
território  rural  decorrente  de  Ravena. 

19  Segundo  A.-M.  Landès-Mallet  (1985)  55-56  e  161.  estes  casos  seriam  bastante  frequentes  no 
Rouergue  do  último  terço  do  século  XIII  e  da  primeira  metade  do  século  XIV.  Contudo,  acerca  dos 
problemas  de  interpretação  suscitados  por  esta  obra  ver  a  minha  observação  na  n.  17. 

20  R.  J.  Faith  (1966)  83.  Ver  igualmente:  L.  Genicot  ( 1943-1995)  IV  132;  Ch.  Middleton  ( 1981 ) 
139. 

21  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  311;  Ch.  Klapisch  et  al.  ( 1972)  875-877;  A.-M.  Landès-Mallet  (1985) 
124-126.  129-135.  147;  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975)  80:  R.  Pastor  (1990  a)  178-179;  id.  (1990  b)  215- 
-216. 

Note-se  que  na  França,  a  crer  em  J.  Gaudemet  (1963)  100  e  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975)  80.  as 
comunidades  entre  irmãos  não  se  constituíam  apenas  após  a  morte  do  pai  e  existiam  frequentemente 
em  vida  deste. 

22  J.  Hilaire  <  1973)  23  e  segs. 

23  Id.,  ibid..  49  n.  1 15.  É  o  bailio  Philippe  de  Beaumanoir  o  jurista  referido. 

24  Mesmo  no  Rouergue.  onde  A.-M,  Landès  Mallet  (1985)  53.  56.  109-110  e  129  insiste  na 
importância  assumida  pelas  formas  comunitárias  no  final  do  século  XIII  e  no  começo  do  século 
seguinte,  a  autora  afirma  <pp.  241.  365-366)  que  se  anunciava  já  o  prevalecimento  do  núcleo  conju¬ 
gal. 


28 


Forma  I  cio  dinheiro 


importante  nesta  perspectiva  não  é  uma  avaliação  estática,  mas  a  definição  dinâmica  de 
uma  tendência.  É  elucidativo  verificar  o  que  aconteceu  por  vezes  com  regimes  de  indi- 
visão  da  herança  em  que  as  terras  eram  mantidas  juntas.  Poucas  gerações  depois,  e  ape¬ 
sar  de  se  conservar  a  vedação  do  património  originário  e  de  ele  continuar  a  denominar- 
-se  como  se  constituísse  uma  unidade  coesa,  os  campos  estavam  repartidos  pelos 
núcleos  conjugais  saídos  do  tronco  inicial  e  eram  trabalhados  separadamente2'. 

Em  suma,  as  famílias  camponesas  reduziam-se  verticalmente,  na  linha  de  descen¬ 
dentes  a  ascendentes,  pois  não  se  fundavam  na  posse  e  transmissão  de  um  património, 
como  sucedia  com  a  aristocracia26.  Assim,  sem  um  quadro  material  que  justificasse  e 
exigisse  a  continuidade  no  tempo,  os  rurais  tinham  uma  memória  curta,  que  não  ia  além 
dos  avós27.  Isto  significa  que  em  cada  geração  o  elo  matrimonial  era  mais  importante 
do  que  a  tradição  dos  antecessores.  É  neste  sentido  que  o  carácter  conjugal  da  família 
camponesa  assume  todo  o  significado28.  E  como  a  importância  do  núcleo  conjugal 
resultava  aqui  de  uma  tendência  para  a  limitação  das  dimensões  familiares,  o  casa¬ 
mento  não  sustentava  também  qualquer  alargamento  da  família  em  direcção  aos  afins29. 
No  meio  rural,  e  contrariamente  ao  que  acontecia  na  classe  dominante,  o  matrimónio 
não  envolvia  uma  aliança  entre  famílias30,  mas  apenas  a  união  de  duas  pessoas.  O 
modelo  prevalecente  de  família  camponesa  centrava-se  no  marido  e  na  mulher,  com  os 
filhos  e  filhas  solteiros,  secundarizando-se  os  progenitores  e  em  relativo  alheamento 
dos  irmãos  e  cunhados.  Este  modelo  foi  por  vezes  ampliado,  tanto  na  vertical,  em 
direcção  aos  avós,  como  na  horizontal,  em  direcção  aos  imiãos  e  afins,  ou  foi  ampliado 
mediante  a  soma  de  unidades  conjugais,  mas  sem  que  isto  tivesse  alguma  vez  posto  em 
causa  o  seu  predomínio31. 


25  E.  Juillardei  al.  (1057)  77. 

26  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  280. 

Discordo  dc  J.  Gaudemet  ( 1963)  106  e  123,  quando  considera  que  o  património  das  comunidades 
rurais  pertencia  não  só  aos  membros  presentes,  mas  a  todos  os  passados  e  ainda  aos  vindouros,  de 
modo  que  eram  as  gerações  a  suceder-se.  e  não  os  bens  a  ser  transmitidos.  Um  modelo  deste  tipo 
aplica-se  apenas  à  aristocracia. 

27  R.  Pastor  ( 1980  a)  36. 

A  propósito  da  situação  na  Itália,  D  Hcrlihy  et  al.  (1985)  341-342  relacionam  os  contratos  de 
concessão  dos  casais  por  um  prazo  de  três  gerações  com  o  facto  de  os  avós  marcarem  o  limite  da 
memória  familiar  na  classe  servil.  Ver  no  mesmo  sentido  Ch.  Klapiseh  et  al.  (1972)  885.  Parece-me 
estranho  que.  referindo-se  a  casos  semelhantes  ocorridos  em  Portugal.  J.  Mattoso  [  1994  b|  203  consi¬ 
dere  que  os  contratos  por  «três  vidas»  abrangiam  a  vida  do  contraente,  do  seu  cônjuge  e  de  um  filho. 
Note-se  que.  segundo  id.  1 1981)  37.  no  período  anterior  os  membros  das  famílias  reais  conseguiam 
com  frequência  memorizar  os  nomes  dos  ascendentes  até  ã  sétima  geração. 

2S  G.  Duby  I. 1981 )  23-24  observa  que  o  papel  da  instituição  matrimonial  varia  consoante  o  lugar 
ocupado  pela  herança  nas  relações  de  produção  e  consoante  os  níveis  de  fortuna. 

2g  M.  Bourin  et  al.  ( 1984)  43;  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  290. 

'ü  P.  Toubert  ( 1973  bi  733  adverte  que  só  na  aristocracia  se  dava  continuidade  ás  alianças  familia¬ 
res  entre  gerações  e  que  para  os  camponeses  o  passado  não  orientava  os  elos  matrimoniais. 

■’1  Entre  os  numerosos  historiadores  que  sublinham  o  facto  de  o  núcleo  conjugal  ter  prevalecido, 
ou  acabado  por  prevalecer,  nas  estruturas  familiares  camponesas  deste  período,  ver:  M.  Bloch  (19.39- 
-1940)  1  216;  P.  Bonnassie  em  École  Pratique  des  Hautes  Études  t  VF  Section)  (1977 1  225;  M.  Bourin 
et  al.  ( 1984)  43,  44.  51;  C.  Díez  Herrera  1 1990)  149.  152;  R.  Durand  ( 1982)  105  e  segs.;  H.  Enjalbert 
íorg.  1979)  148;  R.  Fos»ier  ( 1984)  39;  ui.  ( 10X6)  361  e  segs,;  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  ( 1990)  77-78: 


h.  •itniiuru.\  [unuliüivs  Ja  <  Ut0c  \cini 


_'y 


A  mesma  tendência  observa-se  a  respeito  daquelas  formas  de  família  artificial  que 
estavam  próximas  do  âmbito  da  domesticidade.  Antes  de  mais,  porque  no  sistema 
agnático  a  divisão  entre  laços  de  sangue  e  laços  artificiais  é  meramente  convencional. 
Nunca  se  podendo  ter  a  certeza  de  quem  é  o  pai  verdadeiro,  a  linha  de  sucessão  mascu¬ 
lina  não  é  definida  biologicamente.  Isto  mostra  como  entre  a  família  de  sangue  e  a 
família  artificial  não  existe  uma  demarcação  natural,  mas  apenas  social.  Assim,  o  que 
haverá  a  distinguir  é,  no  interior  das  estruturas  familiares,  as  relações  fundadas  no  casa¬ 
mento  e  no  baptismo,  e  as  fundadas  na  adopção  e  outros  contratos,  ou  seja.  na  aquisi¬ 
ção  de  parentes  adoptivos'2. 

Nas  associações  artificiais  que  integravam  exclusivamente  camponeses  era  fre¬ 
quente  que  a  totalidade  dos  membros,  ou  uma  boa  parte  deles,  fosse  composta  por 
parentes  de  sangue,  nomeadamente  irmãos,  como  sucedia  numa  das  formas  mais  cor¬ 
rentes".  Devemos,  portanto,  concluir  que  aqueles  vínculos  de  parentesco  vinham  já  a 
ser  insuficientes  para  sustentar  qualquer  solidariedade  efectiva  e  que  estiolariam  se  não 
fossem  reforçados  por  elos  artificiais.  Nestes  casos  a  demarcação  entre  parentesco  de 
sangue  e  parentesco  artificial  é  impossível  de  traçar  com  exactidâo.  Por  isso  as  famílias 
artificiais  camponesas  estiveram  sujeitas  neste  período  aos  mesmos  impulsos  centrífu¬ 
gos  que  comprometeram  a  continuidade  das  famílias  amplas.  Tratava-se  de  associações 
pouco  duradouras,  ameaçadas  pela  perda  de  membros  e  pela  desagregação’4.  As  rela¬ 
ções  artificiais  entre  camponeses  centradas  em  tomo  da  domesticidade  nunca  puseram 
em  causa  o  predomínio  do  núcleo  conjugal. 

Muitas  vezes,  sempre  que  associou  camponeses  e  senhores,  o  parentesco  artificial 
serviu  mesmo  para  desarticular  intemamente  os  elos  familiares  mais  amplos  e  para 
multiplicar  as  células  conjugais,  facilitando  a  penetração  da  aristocracia  em  âmbitos  que 
até  então  lhe  haviam  permanecido  fechados.  O  processo  foi  analisado  com  detalhe  na 
península  hispânica,  onde  era  frequente,  nos  primeiros  séculos  deste  período,  que 


J.  Gaudemei  ( 1963)  1 17-119;  L.  Genieot  (1943-1995)  IV  1 18-119.  121.  132;  J.  Goody  (1985)  205;  P. 
Guichard  ( 1979)  47;  B.  A.  Hanawalt  (1986)  5,  67.  92,  94.  103.  UH;  L.  A.  Kotelnikova  ( 1975)  33;  E. 
Le  Roy  Ludurie  <  1975)  80-82;  R.  Pastor  <  1980  a)  20  e  segs..  31-33;  P.  Toubert  <  1973  b>  710-71 1, 
725-726.731-732. 

Por  seu  lado,  G.  Duby  ( 1977  b)  1 1  considera  que  não  existem  ainda  provas  seguras  que  permitam 
confirmar  a  redução  das  famílias  camponesas  ao  núcleo  conjugal. 

Recorde-se  que  na  Itália,  desde  antes  do  período  anterior,  os  escravos  emancipados  em  con¬ 
junto  eram  legalmente  considerados  como  tendo  as  mesmas  obrigações  recíprocas  que  um  grupo  de 
parentes,  e  encontravam-se  casos  destes  ainda  no  final  do  século  XI:  M.  Bloch  ( 1928  a)  225-226.  229: 
Ch.  Wickham  ( 1981 )  120. 

R.  Aubenas  <  1936)  535:  id.  ( 1960)  1:  J.  Bardach  ( 1977)  340-342:  M.  Bourin  et  al.  11984)  43. 
54:  G.  Devailly  1 1973)  335:  H.  Enjalbert  (org.  1979)  148:  J.  Gaudemei  ( 1963)  93.  95.  101:  R.  Grand 
et  al.  1 1950)  164-165;  J.  Hilaire  ( 1973)  14.  20;  E.  Hinojosa  y  Naveros  ( 1955)  337-339;  L.  A.  Koteini- 
kova  ( 1975)  36;  A.-M.  Landès-Mallet  (1985)  161  e  segs. 

u  M.  Bourin  et  al.  ( 1984)  43:  J.  Gaudemei  ( 1963)  93;  P.  Toubert  (1973  b)  71 1,  720-722,  725. 

No  entanto.  J.  Hilaire  ( 1973)  1 5  afirma  que  nos  contratos  de  affrèrement  realizados  no  Languedoc 
medilerránieo  estavam  previstas  penalidades  severas  contra  quem  pedisse  a  liquidação  da  comuni¬ 
dade.  E.  a  propósito  da  Galiza  e  de  Portugal  no  começo  do  período,  E.  Hinojosa  y  Naveros  (1955)  335 
considera  que  as  comunidades  de  tipo  familiar  que  exploravam  em  comum  um  património  indiviso 
eram  estáveis  e  duradouras,  invocando  o  argumento  de  que  serviam  de  unidades  fiscais. 


Forma  /  do  dinheiro 


30 


senhores  laicos  e  estabelecimentos  eclesiásticos  usassem  pressões  de  vários  tipos  para 
se  fazerem  perfilhar  por  camponeses,  de  modo  a  introduzirem-se  em  comunidades  fami¬ 
liares  detentoras  de  patrimónios,  participarem  em  posição  hegemónica  na  propriedade 
comum  e  finalmente  beneficiarem  da  herança  das  terras.  O  carácter  perverso  deste  sis¬ 
tema  de  parentesco  artificial  era  de  tal  ordem  que,  invertendo  a  situação  normal,  o  filho 
adoptado  preponderava  sobre  o  pai  adoptante,  tomando-se  seu  senhor’*’.  Aliás,  a  expan¬ 
são  senhorial  assimilava  as  relações  familiares  camponesas  sem  sequer  necessitar  dos 
mecanismos  da  adopção.  Foi  o  que  sucedeu  no  princípio  do  período  entre  o  campesinato 
independente  das  regiões  orientais  do  reino  das  Astúrias  e  nos  Pirenéus,  onde  o  direito 
de  propriedade  eminente,  de  carácter  perene  e  que  cabia  ao  grupo  de  parentes,  se  disso¬ 
ciara  do  direito  de  propriedade  útil.  meramente  transitório  e  exercido  por  cada  um  dos 
membros  do  grupo;  a  propriedade  eminente  servia  para  controlar  as  alienações  e  impe¬ 
dir  que  as  terras  saíssem  da  colectividade  familiar,  e  decerto  justificava  também  as  rela¬ 
ções  de  desigualdade  e  de  clientela  instauradas  no  interior  destas  famílias  amplas.  A  dis¬ 
tinção  entre  os  dois  tipos  de  propriedade  foi,  porém,  aproveitada  pelo  regime  senhorial, 
passando  a  aristocracia  a  deter  a  propriedade  eminente  e  restringindo  os  antigos  proprie¬ 
tários  à  mera  propriedade  útil,  ou  seja.  transformando-os  em  servos’6 .  Para  se  expandir 
e  dissolver  os  patrimónios  colectivos,  o  regime  senhorial  empregou  de  maneira  desvir¬ 
tuada  aqueles  quadros  familiares  que  estavam  já  parcialmente  desnaturados  pela  dife¬ 
renciação  interna  do  campesinato  independente  e  que  ficaram  liquidados  no  termo  deste 
processo.  Aliás,  após  o  final  do  período,  nos  principados  romenos,  situados  na  periferia 
do  regime  senhorial,  a  nobreza  fundiária  estabeleceu  também  relações  de  fraternidade 
artificial  com  os  camponeses  para  se  apoderar  das  terras  deles37.  E  a  lei  consuetudinária 
da  Flandres,  quando  assimilava  ao  parricídio  o  assassinato  de  um  senhor  pelos  campo¬ 
neses  do  seu  território38,  não  fazia  mais  do  que  justificar  em  termos  estritamente  intra- 
domésticos  o  que  na  verdade  era  um  antagonismo  entre  esferas  familiares  distintas, 
remetendo  o  bannum  para  o  âmbito  do  rnundium.  Casos  como  este  seriam  incompreen¬ 
síveis  fora  de  um  processo  geral  de  utilização  das  estruturas  da  família  camponesa  com 
o  objectivo  de  assegurar  o  prevalecimento  das  novas  formas  do  regime  senhorial. 

Talvez  esta  perspectiva  contribua  para  explicar  as  novas  regras  do  matrimónio  que  a 
Igreja  se  esforçou  por  aplicar,  enaltecendo  o  elo  conjugal  relativamente  a  todos  os 
demais39.  Tradicionalmente,  a  existência  de  grupos  de  parentes  exercendo  o  direito  de 


35  Acerca  deste  processo  consultar:  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  (1990)  44-45;  A.  Isla  Femández 
(1984)  6-18;  R.  Pastor  (1980  a)  60-62;  id.  ( 1980  b)  212-213. 

Para  ilustrar  outro  tipo  de  situações  em  que  o  filho  adoplivo  prevalecera  também  sobre  o  pai 
adoptivo  ver  na  Parte  I.  no  capítulo  18.  a  n.  63  e,  no  capítulo  19.  a  n.  105. 

Para  penetrarem  nas  comunidades  rurais,  os  senhores  recorreram  ainda  na  península  hispânica  a 
outras  formas  de  parentesco  artificial,  além  da  perfilhação;  R.  Durand  (1982)  447;  A.  Isla  Femández 
(1984)6-18;  R.  Pastor  ( 1990  b)  182. 

36  M  I,  Loring  Garcia  (1990)  16-17.  23-25,  31-34. 

37  J.  Bardach  0977)  347. 

18  L.  Genicot  ( 1943-1995)  III  19. 

-,l)  C.  Díez  Herrera  <  1990)  149-151;  J.  Goody  (1985)  150esegs. 

P.  A.  Brand  et  al.  (1983)  128  observam  que  a  reforma  gregoriana  fez  com  que  o  casamento  pas¬ 
sasse  a  decorrer  apenas  da  vontade  dos  noivos,  sem  intromissão  de  terceiros. 


•nunuas  Jumihares  da  i  ius.se  sen  il 


JJ 


devolução  sobre  quaisquer  terras  transferidas  para  fora  do  grupo  era  uma  das  maneiras 
porque  se  manifestava  a  coesão  familiar  ampla;  considerava-se  que  uma  pessoa,  ou  um 
núcleo  conjugal,  só  podiam  dispor  do  seu  património  próprio  com  a  condição  de  este 
não  sair  do  grupo  de  parentes  e  que,  se  tivesse  sido  alienado,  o  grupo  tinha  direito  de  o 
reaver40.  Ao  reforçarem  as  unidades  conjugais,  de  maneira  que  as  suas  decisões  não 
dependessem  do  consentimento  de  uma  esfera  familiar  mais  vasta,  as  autoridades  reli¬ 
giosas  estavam  a  enfraquecer  o  campesinato  perante  a  expansão  senhorial.  Muitas  das 
transferências  de  terras  que  a  documentação  apresenta  como  vendas  ou  doações  eram 
na  verdade  espoliações  a  que  a  aristocracia  sujeitava  os  rurais.  Como  acentuam  alguns 
autores,  para  a  classe  servil  a  liberdade  de  dispor  da  propriedade  foi  sobretudo  uma 
liberdade  de  perder  a  propriedade41.  Neste  contexto,  o  exercício  de  um  direito  de  devo¬ 
lução  sobre  as  terras  que  houvessem  sido  objecto  de  pseudovendas  ou  pseudodoações 
limitava  as  possibilidades  de  penetração  dos  senhores  eclesiásticos  e  laicos  na  socie¬ 
dade  rural42.  Daí  o  interesse  da  classe  dominante  pela  generalização  do  modelo  conju¬ 
gal  da  família  camponesa,  que.  dissolvendo  os  quadros  mais  amplos  de  coesão  entre 
parentes,  anulava  a  possibilidade  de  reivindicar  a  restituição  das  terras  perdidas.  Aliás, 
ao  mesmo  tempo  que  propagou  o  modelo  conjugal,  a  Igreja  promoveu  o  parentesco 
espiritual,  ou  seja,  o  apadrinhamento43,  que  precisamente  não  implicava  qualquer 
forma  de  participação  na  herança44.  A  multiplicação  de  parentes  espirituais  tinha,  para 
os  senhores,  a  vantagem  de  não  contrariar  a  tendência  para  se  confinar  a  noção  de 
património  camponês  em  limites  cada  vez  mais  estreitos,  nem  interferir  sequer  nestes 
limites. 

Também  a  difusão  da  prática  testamentária,  acalentada  pela  Igreja,  contribuiu  para 
minar  os  elos  de  parentesco,  e  simultaneamente  resultou  da  debilidade  crescente  destes 
elos45.  O  testamento  reconhecia  no  plano  jurídico  a  possibilidade  de  o  chefe  da  família 
dispor  do  património,  ou  de  parte  dele,  independentemente  do  círculo  de  parentes,  e 
mesmo  sem  ter  em  conta  o  conjunto  dos  filhos,  privilegiando  um  em  detrimento  dos 
restantes,  ou  beneficiando  o  cônjuge  acima  da  prole.  A  norma  nas  regiões  mais  arcaicas 
do  sudoeste  da  França  estabelecia  que  até  nove  décimos  do  património  fossem  para  os 
herdeiros  naturais  e  consuetudinários;  mas  nas  regiões  mais  evoluídas,  onde  o  núcleo 
conjugal  se  afirmara  plenamente,  aquele  limite  descia  geralmente  para  um  quarto  do 
património46,  e  uma  proporção  idêntica  encontrava-se  na  Catalunha  desde  o  final  do 


40  Y.  Bongert  ( 1949)  41  e  segs.;  J.  Boussard  ( 1950)  47;  A.-M.  Landès-Maliet  (1985)  56;  M.  I. 
Loring  Garcia  ( 1 990)  14,  16- 1 7,  23. 

41  Ver  a  n.  12  no  capítulo  16  da  Pane  I  e  a  n  8  no  capítulo  9  da  Parte  II.  Consultar  igualmente  M. 
L  Loring  Garcia  (1990)  26. 

42  R.  Grand  et  al.  ( 1950)  163. 

43  J.  Goody  ( 1985)  205  considera  que  a  igreja  promoveu  activamente  o  parentesco  espiritual,  mas 
afirma  (p.  202)  que  do  século  XIV  ao  século  XVI  as  autoridades  eclesiásticas  e  laicas  se  esforçaram 
por  reduzir  o  número  de  padrinhos  e  madrinhas. 

44  Segundo  id.,  ibid.,  198-199,  os  padrinhos  e  madrinhas  não  estavam  incluídos  obrigatoriamente 
na  herança. 

45  D.  O.  Hughes  ( 1976)  931  observa  que  a  progressão  da  liberdade  testamentária  correspondeu  a 
uma  alteração  profunda  das  estruturas  de  parentesco. 

46  ld.,  ibid..  932. 


Forma  I  do  dinheiro 


?2 


primeiro  terço  do  século  XIV,  em  estreita  correspondência  com  o  modelo  conjugal47. 
Consagrava-se  deste  modo  a  fragmentação  de  qualquer  quadro  familiar  um  pouco  mais 
amplo  e,  por  isso,  o  uso  do  testamento  esteve  intimamente  ligado  ao  processo  de  preva- 
lecimento  da  unidade  conjugal48.  Aliás,  mesmo  sem  a  intervenção  de  práticas  testa- 
mentárias,  em  regiões  onde  a  sociedade  rural  se  mantivera  tradicionalmente  alheia  ao 
direito  escrito  evoluía-se  também  no  sentido  da  desagregação  do  património  familiar. 
Não  foi  necessário  o  testamento  para  que  as  novas  soluções  a  que  se  recorria  na  trans¬ 
missão  da  herança  revelassem  a  crescente  falta  de  coesão  dos  irmãos,  uma  vez  faleci¬ 
dos  os  progenitores,  e  a  consequente  dispersão  do  património49.  Do  mesmo  modo, 
aqueles  regimes  sucessórios  que  previam  a  indivisibilidade  da  herança,  mediante  a  sua 
transmissão  a  um  dos  filhos,  nem  sempre  implicaram  que  os  outros  ficassem  completa¬ 
mente  deserdados.  Quando  os  pais  tinham  a  fortuna  necessária,  com  frequência  provi¬ 
denciavam  para  que  os  filhos  segundos,  ou  até  as  filhas  casadas,  recebessem  um  qui¬ 
nhão  dos  bens,  nomeadamente  das  terras  adquiridas50;  e  desta  maneira  não  só  o  grupo 
familiar  não  conservava  qualquer  coesão,  como  se  dissolvia  o  próprio  património  que 
lhe  dera  alguma  solidez.  Devemos  também  lembrar  que  a  redacção  dos  testamentos  era 
posterior  a  certos  actos  de  doação,  e  como  os  testamentos  não  mencionavam  os  filhos  e 
filhas  já  beneficiados  com  tais  doações,  as  ilações  que  se  podem  extrair  deste  tipo  de 
documentos  são  mais  limitadas  do  que  muitas  vezes  se  pretende5'.  Em  resumo,  sem 
testamento,  com  testamento,  ou  apesar  do  testamento,  os  resultados  práticos  levavam  à 
dispersão  mais  ou  menos  completa  das  terras  dos  progenitores. 

Compreende-se  assim  a  fragilidade  das  famílias  amplas,  e  também  daquelas  formas 
de  família  artificial  que  pudessem  ainda  servir  para  preservar  a  comunidade  da 
herança57.  Quando  existiam,  estavam  sempre  em  risco  de  se  fragmentar  e  reduzir  aos 
núcleos  conjugais.  Pelo  menos  no  século  XIII,  parece  terem  sido  frequentes  os  casos 
em  que  o  filho  primogénito,  para  se  antecipar  a  uma  sucessão  que  se  afigurava  difícil 
ou  demorada,  casava  com  uma  viúva  mais  velha  e  adquiria  assim  independência  econó¬ 
mica;  normalmente  a  esposa  morria  primeiro,  passando  os  bens  para  o  marido,  o  qual 
contraía  segundas  núpcias  com  uma  mulher  mais  nova  do  que  ele,  que  ficava  viúva 
cedo.  recomeçando  o  ciclo;  nesta  situação  eram  remotas  as  possibilidades  de  o  filho 


47  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  ( 1990)  79. 

48  Para  uma  cronologia  da  difusão  da  prálíca  testamenlária  no  sul  do  continente,  ver  D.  O.  Hughes 
11976)931. 

49  J .  Gaudemet  ( 1 963 )  1 09;  L.  Genicot  ( 1 943- 1 995 )  I  1 96- 1 97.  1 99. 

50  R.  Aubenas  11936)  533-535;  R.  Fossier  <1968)  270;  B.  A.  Hanawall  <  1986)  70.  78;  R.  Hilion 
(1977-1978)  276,  278;  Z.  Razi  ( 1981  >  7-9. 

Note-se  que  na  Inglaterra  do  século  XIII.  segundo  E.  Miller  (1965  b)  1 18,  o  hábito  de  repanir  a 
herança  entre  os  vários  herdeiros  só  se  observou  em  algumas  regiões  periféricas.  Mas  M.  Bloch 
(1960-1961)  1171  esclarece  que.  contrariamente  ao  que  sucedeu  na  Inglaterra,  a  primogenitura  em 
França  nunca  se  aplicou  no  meio  camponês.  Em  Portugal,  do  Douro  até  à  região  de  Coimbra,  nos 
séculos  XII  e  XIII.  R.  Durand  (1982)  1 17  indica  que  cabia  geralmente  ao  senhor  decidir  qual  dos 
filhos,  ou  filhas,  do  caseiro  sucederia  ao  pai,  devendo  então  o  beneficiado  indemnizar  os  seus  irmãos. 

51  J.  Beauroy  (1992)  175. 

R.  Aubenas  (1936)  535,  536;  id.  (1960)  8;  M.  Bloch  (1928  a)  23-24;  id.  <  1933  bi  35-38:  P. 
Bonnassie  1 1967)  1 17:  R,  Grand  et  al.  <  1950)  166;  I.  Guérin  ( 1960)  223.  243. 


■uuw  as  fuiiuliai  (  S  Ja  classe  semi 


jj 


primogénito  vir  a  herdar  alguma  coisa  em  tempo  útil.  pois  teria  para  isso  de  sobreviver 
a  uma  madrasta  relativamente  jovem  e  a  um  padrasto  mais  jovem  ainda.  Assim,  a  linha 
de  sucessão  tornava-se  muito  oscilante,  indo  de  primeiros  a  segundos  esposos,  con¬ 
soante  as  alternâncias  dos  casamentos,  sem  que  as  terras  se  transmitissem  sistematica¬ 
mente  de  pais  para  filhos'1'.  Casos  deste  tipo.  em  que  um  dos  cônjuges  era  o  herdeiro 
universal  do  outro,  só  podiam  verificar-se  porque  os  elos  matrimoniais  prevaleciam  já 
sobre  todos  os  restantes,  incluindo  os  que  ligavam  os  pais  aos  filhos  e  os  que  relaciona¬ 
vam  marido  e  mulher  com  os  respectivos  parentes  colaterais.  Aliás,  foram  estudadas  na 
Inglaterra  duas  aldeias  vizinhas,  uma  onde  vigorava  a  primogenitura  e  a  outra  onde  a 
herança  era  repartida  por  todos  os  filhos;  ora.  em  ambas  se  observou  o  mesmo  padrão 
de  divisões  e  recombinaçôes  de  terras,  porque  as  soluções  práticas  a  que  se  recorria, 
nomeadamente  a  compra  e  venda  das  parcelas,  e  decerto  também  outras  vias  de  transfe¬ 
rência,  compensavam  os  aspectos  mais  drásticos  do  regime  sucessório54.  Tanto  quanto 
se  sabe,  o  sucedido  no  continente  confirma  esta  fluidez  dos  patrimónios  e  a  dissolução 
dos  vínculos  de  parentesco55. 

É  certo  que  a  generalidade  dos  especialistas  continua  a  distinguir  na  área  do  regime 
senhorial  duas  zonas,  que  se  imbricavam  num  puzzle  complexo,  sem  qualquer  continui¬ 
dade  geográfica.  Numa  destas  zonas  a  grande  parte  da  herança  permanecia  indivisa  e 
era  transmitida  a  um  dos  filhos;  na  outra  todos  os  filhos  eram  contemplados  igualitaria- 
mente,  quer  detendo  em  comum  o  património,  quer  repartindo-o  entre  si56.  Vemos, 
porém,  que  na  sua  aplicação  prática  os  regimes  sucessórios  não  deram  resultados  tão 
diferenciados  como  se  poderia  esperar  do  seu  enunciado  em  termos  jurídicos.  E  muitas 
vezes  sucedeu  que  aqueles  regimes  se  combinaram  em  formas  mistas,  o  que  em  alguns 
casos  se  pode  aliás  interpretar  como  revelando  a  génese  de  um  deles  no  interior  do 
outro57.  O  prevalecimento  do  núcleo  conjugal  e  a  sua  acção  desagregadora  sobre  as 
demais  relações  de  parentesco  fizeram  com  que.  sob  este  ponto  de  vista,  o  regime 
senhorial  não  se  dividisse  em  zonas  bem  demarcadas. 

Todavia,  continuou  muito  forte  o  apego  dos  parentes  ao  direito  de  devolução  das 
terras  saídas  da  esfera  familiar,  reactivando-se  no  final  do  período  e  perdurando  até 
séculos  posteriores-"1*.  E  o  mesmo  aconteceu  com  as  manifestações  de  hostilidade 


53  J.  Z.  Titow  ( 1962»  6-7.  Ver  igualtnente:  R.  Jacob  ( 1989)  4.S-46;  R.  Smith  ( 1988»  205-206. 

Ch.  Klapisch  et  al.  ( 1972»  879  indicam  que  nas  famílias  rurais  da  Toscana,  no  primeiro  terço  do 
século  XV,  os  filhos,  para  se  casarem,  não  aguardavam  a  morte  do  pai  e  a  recepção  da  herança,  o  que 
talvez  se  relacione  com  aquele  tipo  de  processos. 

54  R.  Hilton  «1977-1978)  278. 

No  mesmo  sentido  vão  as  observações  de  B.  A  Hanawalt  (1986)  68-76  e  R.  Smith  (1988)  205- 
-206  a  propósito  da  Inglaterra  em  geral. 

55  R.  Fossier  ( 1968)  270;  J.  Goody  ( 1985)  125. 

56  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  157-158,  176,  G.  C.  Hotnans  (1937-1938)  48  e  segs.;  R.  Jacob  (1989)  44. 
Numa  perspectiva  crítica,  ver:  R.  J.  Faith  (1966)  81  e  segs.;  R.  Smith  ( 1988)  205-206. 

57  P.  Bonnassie  (1967)  1 17-118;  R.  J.  Faith  (1966)  83-84:  B,  A.  Hanawalt  (1986)  70-71:  A.-M. 
Landès-Mallet  1 1985  »  264-268:  M.  Montanari  ( 1984)  198. 

58  Y.  Bongert  (1949)  47;  H.  Bresc  (1986)  394;  R.  Jacob  (1989)  45.  47:  J.  Mattoso  [1994  bf  240; 
Z.  Razi  (1981 )  4,  6. 

Quando  os  cônjuges  eram  acompanhados  pelos  seus  filhos  ao  procederem  a  vendas  ou  doações  de 


34 


Forma  I  do  dinheiro 


perante  a  partilha  do  património,  que  se  afirmaram  com  novo  vigor  numa  época  tar¬ 
dia59.  Estas  foram  algumas  das  derradeiras  batalhas  travadas  pelas  relações  familiares 
amplas.  Se  no  Rouergue,  durante  o  termo  do  século  XIII  e  o  começo  do  século 
seguinte,  a  partilha  da  herança  predominava  entre  as  famílias  modestas  e  era  nos  estra¬ 
tos  abastados  que  se  designava  preferencialmente  um  herdeiro  único  para  a  totalidade 
do  património60,  isto  devia-se  decerto  ao  facto  de.  como  vimos  há  pouco,  as  estruturas 
familiares  mais  complexas  se  encontrarem  entre  os  camponeses  ricos,  porque  eram  pre¬ 
cisamente  eles  quem  melhor  resistia  às  pressões  dos  magnates. 

A  reforma  eclesiástica  do  casamento  continha  outra  faceta.  No  último  quartel  do 
século  XI  a  Igreja  mudou  o  critério  da  contagem  dos  graus  de  parentesco,  duplicando  o 
número  de  graus  entre  os  quais  era  proibido  o  matrimónio,  e  ao  mesmo  tempo  ampliou 
o  escopo  da  interdição,  estendendo-a  aos  afins  e  até  aos  parentes  espirituais61.  Aliás, 
desde  o  período  anterior  o  baptismo  e  a  confirmação  constituíam  cerimónias  distintas, 
o  que  dobrava  a  quantidade  de  padrinhos  e  madrinhas62.  Se  fosse  respeitado,  este  recuo 
da  esfera  da  exogamia  tomaria  praticamente  impossíveis  os  matrimónios  no  interior  de 
urna  mesma  paróquia65:  e  as  dificuldades  continuaram,  porque  embora  as  autoridades 
religiosas  diminuíssem  no  segundo  decénio  do  século  XIII  o  número  de  graus  definidor 
do  incesto64,  foi  precisamente  nesse  século  que  o  papado  mais  se  esforçou  por  impedir 
o  casamento  entre  parentes  espirituais65.  Se  recordarmos  o  papel  que  os  quadros  paro¬ 
quiais  desempenharam  na  formação  e  na  consolidação  do  comunitarismo  camponês 
(ver  o  capítulo  8.b  da  Parte  II).  devemos  deduzir  que  a  Igreja  procurava  que  as  relações 
de  vizinhança  não  fossem  periodicamente  fortalecidas  mediante  a  renovação  ou  o  esta¬ 
belecimento  de  elos  familiares.  É  igualmente  esclarecedor  que  a  partir  do  século  XIV 
tanto  a  Igreja  como  os  soberanos  tivessem  colocado  obstáculos  à  multiplicação  do 
número  de  padrinhos  e  madrinhas66,  quando  este  tipo  de  parentesco  permitia  aos  rurais 
ampliar  as  solidariedades  num  contexto  em  que  a  família  se  reduzia  ao  núcleo  conjugal. 
Mas  a  resistência  da  população  era  grande  e  as  novas  normas  foram  frequentemente 
desrespeitadas67,  o  que  mostra  que  as  perspectivas  familiares  dos  camponeses  enfrenta¬ 
vam  os  interesses  senhoriais  mais  imediatos.  Assim,  os  efeitos  práticos  da  nova  legisla¬ 
ção  religiosa  sobre  o  matrimónio  parece  terem  incidido  menos  no  alargamento  dos 


terras,  como  L.  A.  Kotelnikova  ( 1975)  33  observa  na  Itália,  isto  parece-me  ser  um  resquício  do  direito 
de  devolução. 

59  R.  Aubenas  1 1936)  528,  532-535;  R.  J.  Faith  (1966)  86;  J.  Gaudemet  (  1963)  115,  125;  B.  A. 
Hanawalt  (1986)  68;  R.  Jacob  (1989)  45.  47;  Z.  Razi  (1981)  6-7,  16-22;  P.  Toubert  ( 1960)  448-450. 

60  A.-M.  Landès-Mallet  (1985)  270,  366.  Como  observei  já  na  n.  17.  embora  esta  historiadora 
deixe  geralmente  sem  especificação  o  estatuto  social  dos  personagens  a  que  se  refere,  creio  que  na 
maioria  se  tratava  dc  camponeses  e  que.  neste  caso,  ambas  as  práticas  sucessórias  ocorriam  no  interior 
da  ciasse  servil. 

AI  J.  Goody  ( 1985)  140-142.  147. 

62  Id..  ibid.,201. 

65  Id.,  ibid.,  147. 

64  td.,  ibid..  148. 

65  Id.,  ibid..  200. 

66  Id.,  ibid..  202. 

67  P.  A.  Brand  et  al.  (1983)  I  29:  J.  Goody  (1985)  148 


I  <n  utnias  familiares  da  classe  sen  il 


35 


limites  do  incesto  do  que  no  pagamento  de  multas  pelas  dispensas68,  ou  noutros  tribu¬ 
tos  suplementares  cobrados  pelos  senhores  laicos69.  Mas  como,  por  outro  lado,  a  pró¬ 
pria  estrutura  da  família  rural,  em  que  a  memória  dos  antecessores  não  ia  além  dos 
avós,  impedia  que  os  parentescos  mais  distantes  fossem  conhecidos  com  exactidão70, 
podemos  pôr  em  dúvida  que  as  autoridades  conseguissem  determinar  as  violações  do 
incesto71. 

É  improcedente  a  tentativa  de  explicar  o  prevalecimento  do  núcleo  conjugal  nas 
estruturas  familiares  da  classe  servil  invocando  um  hipotético  crescimento  demográfico, 
numa  taxa  superior  à  capacidade  de  desbravar  e  ocupar  novas  terras72.  Decerto  que.  por 
um  lado,  a  acumulação  de  força  de  trabalho  num  espaço  de  cultivo  limitado  tendia  a 
diminuir  os  rendimentos  médios  per  capita  e,  por  conseguinte,  podia  pressionar  à  frag¬ 
mentação77.  Mas,  por  outro  lado,  a  constituição  de  famílias  amplas  nas  parcelas  tradicio¬ 
nais  possibilitaria  o  aproveitamento  das  economias  de  escala  decorrentes  da  concentra¬ 
ção  de  mão-de-obra;  ora,  a  divisão  das  famílias  e  das  unidades  agrárias  agiu  negativa¬ 
mente  sobre  as  economias  de  escala74.  É  deveras  curioso  que  este  factor  de  ordem  tecno- 


68  J.  Goody  (1985  )  149. 

69  Referindo-se  aos  séculos  XI  e  XII,  G  Duby  (1962)  451  considera  que  a  endogamia  entre  os 
caseiros  não-livres  de  unia  mesma  senhoria  pessoal  era  frequentemente  impossível,  em  virtude  das 
normas  relativas  ao  incesto;  daí  a  necessidade  de  contrair  casamentos  exteriores,  pelos  quais  estes 
caseiros  deviam  pagar  um  tributo  ao  senhor. 

70  F.  Gieset  ai.  ( 1987)  245. 

L.  Genicot  (1943- 1 995)  IV  1 34  considera  que  no  Namurois,  e  qualquer  que  fosse  o  estrato  social, 
todos  conheciam  os  seus  parentes  até  ao  sétimo  grau. 

71  Quando  M.  Bourin  et  al.  ( 1984)  52  escrevem  que  a  esmagadora  maioria  dos  casamentos  entre 
camponeses  se  realizava  no  âmbito  da  aldeia,  não  mostra  isto  o  desrespeito  pelas  normas  da  Igreja 
relativas  ao  incesto'.’  Em  Itália,  referindo-se  aos  contratos  mediante  os  quais  os  caseiros  recebiam  as 
parcelas  por  um  prazo  de  três  gerações,  D.  Herlihy  ct  al.  r  1985 )  342  especificam  que  neste  tipo  de 
situações  cada  pessoa  pertencia  a  vários  grupos  de  parentesco  descendentes  de  um  antepassado 
comum,  homem  ou  mulher,  os  contornos  dos  grupos  variavam  consoante  os  casos,  mas  não  se 
ampliavam  com  o  tempo,  pois  à  medida  que  surgia  uma  nova  geração  perdia-se  a  memória  daqueles 
antecessores  que  estivessem  para  além  dos  avós.  Os  autores  consideram  que  estes  grupos  serviam 
para  marcar  os  limites  das  heranças  recíprocas  e  dos  incestos.  Se  assim  era.  então  ficava  sem  efeito  a 
doutrina  eclesiástica  sobre  o  assunto. 

72  Vários  historiadores  atribuem  ao  crescimento  demográfico  o  predomínio  do  núcleo  conjugal: 
R.  Fossier  (1986)  363-364:  A.-G.  Manry  (org.  1974)  191;  P.  Toubert  ( 1965-1966)  3.  Na  mesma  pers¬ 
pectiva.  há  quem  invoque  o  aumento  da  população  para  explicar  a  fragmentação  das  unidades  agrárias 
tradicionais:  Ph.  Dollinger  ( 1949)  109;  G.  Duby  ( 1962)  208;  G.  Foumier  (1962)  256:  R.  Hiiton  1 1977- 
-1978)  276;  R.  Latouche  ( 1956  c)  315-316;  E.  Mtller  (1964)  33:  M.  Parisse  (org.  1977)  148, 

D.  Herlihy  et  al.  (1985)  332  consideram  que  durante  o  período  de  eontracção  demográfica  ocasio¬ 
nado  pela  grande  peste  dos  meados  do  século  XIV  prevaleceram  factores  que  levaram  à  existência  de 
famílias  múltiplas  ampliadas  verticalmente;  ao  mesmo  tempo,  afirmam  (pp.  335-336)  que  a  peste  sus¬ 
citou  a  proliferação  de  famílias  fragmentárias. 

73  É  este  o  argumento  implícito  em:  R.  Fossier  ( 1986)  364;  J.  Gaudemet  (196.3)  111;  Ch.  Klapisch 
et  al.  (1972)  880-881;  R.  Pastor  ( 1990  b)  217. 

74  A  não  ser  que.  como  pretende  G.  Duby  ( 1962)  208-210.  tivesse  ocorrido,  por  razões  técnicas, 
um  aumento  da  produtividade  do  trabalho,  permitindo  a  cada  família  conjugal  tirar  o  sustento  de  uma 
porção  de  terra  mais  reduzida,  com  o  consequente  fraccionamento  das  unidades  agrárias  tradicionais. 
Quanto  a  esta  tese  e  às  críticas  que  se  lhe  podem  fazer,  ver  a  n.  6  no  capítulo  6  da  Parte  II. 


Forma  I  do  dinheiro 


J6 


lógica  seja  interpretado  por  certos  autores  numa  perspectiva  demográfica,  E  então  as 
pressões  suscitadas  pelo  aumento  populacional,  que  acabámos  há  pouco  de  ver  responsa¬ 
bilizadas  pela  primazia  do  núcleo  conjugal,  passam  a  ser  consideradas  como  determinan¬ 
tes  da  indivisão  da  herança  e  da  formação  de  famílias  amplas75.  Como  neste  campo  o 
absurdo  nunca  parece  ter  limites,  os  mesmos  dados  inspiram  a  outros  especialistas  con¬ 
clusões  inversas,  defendendo  eles  que  o  sistema  de  herança  indivisa  levava  ao  controlo 
dos  nascimentos,  de  modo  a  manter  reduzido  o  número  de  herdeiros,  e  se  relacionava 
portanto  com  uma  situação  de  estabilidade  demográfica76.  Usados  assim,  os  mecanismos 
populacionais  são  o  recurso  fácil  da  profissão  de  historiador,  um  verdadeiro  manancial 
de  milagres  teóricos,  servindo  para  justificar  modelos  de  família  absolutamente  opostos. 


b.  A  família  como  quadro  de  obtenção  de  força  de  trabalho 

Vários  historiadores  afirmam  que  as  famílias  servis,  ao  adoptarem  formas  de 
herança  que  preservavam  a  detenção  em  comum  do  património,  pretendiam  evitar  a 
fragmentação  excessiva  das  terras77.  Esta,  porém,  parece-me  ter  sido  uma  estratégia 
exclusivamente  aristocrática.  Os  rurais  não  se  caracterizavam  por  possuir  a  terra,  mas 
por  a  trabalharem.  Eram  os  senhores  quem  recorria  a  regimes  sucessórios  destinados  a 
assegurar  a  continuidade  e  a  coesão  do  núcleo  patrimonial  através  das  gerações.  Aos 
camponeses  importava  sobretudo  reunir  uma  abundante  mão-de-obra  familiar75.  Aliás, 
isto  confirma-se  quando  observamos  que  dadas  famílias,  em  correspondência  com  os 
ciclos  de  ampliação  e  redução  do  número  de  parentes,  sucessivamente  diminuíam  e 
aumentavam  a  quantidade  dos  seus  servidores  domésticos79.  Por  isso  existem  na  gene- 


75  É  o  que  afirmam  M.  Bourin  et  al.  (1984)  54;  todavia,  e  sem  sequer  mudai  de  página,  escrevem 
também  que  as  famílias  amplas  se  difundiram  sobretudo  nos  séculos  XIV  e  XV,  o  que  corresponde 
precisamente  a  uma  época  de  declínio  demográfico. 

7h  R.  J.  Faith  ( 1966)  84;  F.  Gies  et  al.  <  1987)  157-158,  175;  Ch.  Middleton  ( 1981)  116. 

Para  uma  visão  crítica  destas  concepções  ver  R.  Smith  ( 1988)  205-206. 

77  R.  Aubenas  (1936)  528;  id.  ( 1960)  8;  P  Bonnaxsie  ( 1967)  1 17;  R.  Grand  et  al.  1 1950)  166;  I. 
Guérin  (1960)  223.  243;  D.  Herlihy  et  al.  1 1985)  335, 

75  No  Languedoc  mediterrânico.  segundo  J.  Hilaire  (1973)  13-14,  nas  comunidades  contratuais 
estabelecidas  entre  pais  e  filhos  casados,  a  nova  célula  conjugal  comprometia-se  a  trabalhar  para  a 
comunidade:  e  também  nas  associações  de  irmãos  este  autor  refere  (p.  18)  a  obrigação  de  eles  labora¬ 
rem  para  a  prosperidade  eolectiva.  A  importância  do  trabalho  nas  associações  entre  irmãos  na  França 
meridional  é  confirmada  no  caso  do  Rouergue  por  A.-M.  Landès-Mallet  ( 1985)  162-163.  A  crer  em 
L.  A.  Kolelnikova  (1975)  36.  era  frequente  que  em  Itália  não  existisse  igualdade  no  interior  das  asso¬ 
ciações  familiares,  de  maneira  que  os  mais  ricos  beneficiavam  do  esforço  dos  mais  pobres.  Por  seu 
lado,  R.  Grand  et  al.  ( 1950),  depois  de  indicarem  fpp.  163,  166)  outros  tipos  de  motivo  para  a  forma¬ 
ção  das  comunidades  tácitas  entre  irmãos,  afirmam  também  tp.  718)  que  elas  se  destinavam  a  com¬ 
pensar  a  escassez  de  mão-de-obra  assalariada.  A  mesma  perspectiva  dupla  encontra-se  em  D.  Herlihy 
et  al.  (.  1985)  335.  Finalmente,  na  Ruténia  c  na  Lituânia  dos  séculos  XV  e  XVI  as  comunidades  fami¬ 
liares  mais  vastas,  onde  eram  admitidos,  além  dos  irmãos,  igualmente  os  primos,  os  tios  e  os  sobri¬ 
nhos,  e  que  se  abriam  ainda  ao  parentesco  artificial,  tinham  como  um  dos  objectivos  a  obtenção  de 
mais  mão-de-obra.  de  maneira  a  prosseguir  desbravamentos  ou  cumprir  serviços  de  trabalho,  con¬ 
soante  esclarece  J.  Bardach  (1977)  342  e  345. 

79  F.  Le  Roy  Latlurie  ( 1975 1  80-81 


37 


\inttuMS  familuirêx  da  dassc  .servil 


ralidade  das  regiões  indícios  seguros  de  que  após  a  grande  peste  dos  meados  do  século 
XIV,  que  dizimou  uma  porção  tão  considerável  de  camponeses,  cresceu  o  interesse  das 
unidades  familiares  pela  associação  em  grupos  mais  amplos*0.  Se  o  objeetivo  não  fosse 
a  solicitação  de  um  número  de  braços  suficiente  para  trabalhar  a  terra,  aquele  interesse 
não  se  justificaria  precisamente  numa  epoca  de  declínio  populacional. 

Explica-se  assim  também  que  as  famílias  camponesas  amplas  se  formassem  fre¬ 
quentemente  por  prazos  curtos,  o  que  seria  incompreensível  na  perspectiva  aristocrática 
da  continuidade  patrimonial.  E  não  só  uma  grande  parte  destas  famílias  amplas  era 
pouco  duradoura,  como  os  seus  contornos  mudavam  facilmente  com  o  decurso  das 
gerações.  Eram  muito  fluidas,  ao  contrário  do  que  sucederia  se  se  destinassem  a  preser¬ 
var  a  coerência  de  um  núcleo  de  propriedades.  Nem  me  parece  válido  o  argumento  de 
que,  pelo  facto  de  constituir  uma  unidade  fiscal,  uma  comunidade  familiar  assumiria 
um  carácter  de  elevada  estabilidade*1.  Com  efeito,  podia  suceder  que,  no  interior  dos 
limites  definidos  pelo  sistema  tributário,  essa  família  ampla  perdesse  facilmente  uns 
membros  e  ganhasse  outros,  alterando  com  frequência  o  seu  perfil.  Acontecia  igual- 
mente  que,  com  a  passagem  dos  anos.  uma  família  ampla  ou  um  tronco  familiar  origi¬ 
nário  se  dissolvessem  numa  multiplicidade  de  células  conjugais.  Mas  esta  fragmenta¬ 
ção  não  obrigava  o  senhor  a  reorganizar  a  cobrança  das  exacções,  que  por  vezes  conti¬ 
nuava  a  ter  como  base  os  casais  originários  e.  portanto,  incidia  no  conjunto  das  várias 
unidades  resultantes  da  divisão  da  família  inicial82.  Neste  tipo  de  casos  o  factor  fiscal 
podia  ser  o  único  elemento  de  colectivismo.  sem  que  ocorresse  qualquer  forma  de 
comunidade  na  posse  ou  mesmo  de  solidariedade  nas  fainas  agrárias82. 

Também  não  me  parece  procedente  o  argumento  de  que  se  formavam  comunidades 
familiares  para  evitar  que  o  senhor  se  reapoderasse  do  casal*4.  Em  sentido  contrário,  há 
autores  que  invocam  o  interesse  dos  senhores  em  garantir  a  continuidade  das  culturas, 
fomentando  precisamente  com  tal  objeetivo  a  constituição  de  comunidades  fami¬ 
liares85.  Outros  especialistas  consideram  que  os  senhores  estimulavam  a  primogenitura 
ou  a  ultimogenitura  entre  os  camponeses,  para  assegurar  que  o  casal  não  se  fraccio- 
nasse86.  Em  qualquer  caso,  não  importava  à  classe  dominante  a  terra  sem  braços  que  a 


80  R.  Aubenas  ( 1960)  5;  M.  Bourin  et  al.  (1984)  53-54;  J.  Gaudetnet  ( 1963)  125:  D.  Herlihy  et  al. 
(1985)  332.  335. 

81  E.  Hinojosa  y  Na  vero-,  ( 1955)  335:  L.  A.  Kotelnikova  f  1975)  34. 

8-  G.  Duby  ( 1953)  50-5 1 :  F.  Leverotti  (1984)  242. 

83  Referindo-se  à  Ruténia  e  à  Liíuânia  após  o  termo  deste  período,  J.  Bardach  1 1977)  345  observa 
que  a  indivisão  da  herança  era  suscitada  pelo  facto  de  as  exacções  serem  impostas  por  unidade 
doméstica,  independentemente  da  dimensão  do  casal  e  do  número  de  pessoas  que  nele  habitava,  mas 
acrescenta  que.  apesar  desta  indivisão,  os  núcleos  componentes  da  família  ampla  podiam  conduzir 
uma  vida  bastante  autónoma. 

84  R.  Grand  et  al.  < 1950)  163. 

85  M.  Bloch  ( 1928  a)  23-24.  26;  id.  1 1933  b)  35-38:  J.  Gaudemet  <  1963)  91,  93:  M.  Montanari 
(1984)  196. 

86  R.  Durand  (1982)  1 17;  R.  J.  Faith  (1966)  85;  F.  Gies  et  al.  (1987)  157-158;  J.  Goody  (1985) 
125;  B.  A.  Hanawalt  (1986)  69;  D.  Herlihy  (1961  i  97;  J  Mattoso  [1994  b]  202, 

Acerca  da  Inglaterra,  Ch.  Middleion  1 1981 )  109-1 10,  139  e  152  n.  2  sustenta  que  os  senhores  só 
se  preocupavam  com  o  controlo  da  força  de  trabalho  e  com  a  integridade  das  parcelas  relativamente 


Forma  l  do  dinheiro 


3» 


trabalhassem.  Aliás,  se  os  senhores  pretendessem  reaver  um  casal,  não  seriam  os  expe¬ 
dientes  jurídicos  dos  caseiros  que  os  demoveriam. 

Para  explicar  o  eventual  interesse  dos  camponeses  pela  manutenção  de  famílias 
amplas  parece-me  ser  a  concentração  de  mão-de-obra  o  aspecto  decisivo,  e  outro  ele¬ 
mento  que  confirma  o  meu  ponto  de  vista  é  o  recurso  à  adopção  ou  à  fraternidade  artifi¬ 
cial.  O  objectivo,  se  todos  os  intervenientes  pertencessem  ao  meio  rural,  era  aumentar  a 
força  de  trabalho  de  que  a  unidade  familiar  dispunha87.  Mesmo  que  o  indivíduo  que 
entrava  na  família  não  levasse  consigo  qualquer  património  de  vulto,  contava  sempre 
com  a  robustez  dos  seus  braços88.  No  quadro  da  adopção,  podia  suceder  que  aquele  que 
se  entregava  fosse  recebido  como  pai  de  quem  o  aceitava;  o  pai  adoptado  comprometia- 
-se  então  a  acatar  a  autoridade  do  filho  adoptante  e  a  trabalhar  para  ele  até  que  o  vigor 
lhe  faltasse,  assumindo  este  a  responsabilidade  de  o  sustentar  daí  em  diante89.  Podia 
igualmente  acontecer  que  indivíduos  idosos  cedessem  as  suas  terras  a  outros  mais 
novos,  que  as  lavravam  e  se  comprometiam  a  garantir  o  alimento  e  o  agasalho  dos  que 
apareciam  enquanto  pais  adoptivos,  respeitando  o  seu  ascendente,  até  eles  morrerem. 
No  continente  como  na  Inglaterra  os  contratos  deste  tipo  surgiram  no  termo  de  uma 
evolução  muito  esclarecedora,  porque  até  aos  meados  do  século  XIV  processavam-se 
geralmente  entre  verdadeiros  pais  e  filhos,  consistindo  afinal  numa  antecipação  da 
herança,  a  troco  da  manutenção  dos  progenitores90.  Foi  só  no  fim  do  período  que  estes 
acordos  passaram  a  fundar  famílias  artificiais,  desvendando  assim  que  o  objectivo 
havia  sempre  sido.  em  todos  os  casos,  garantir  a  disponibilidade  de  uma  mão-de-obra 
que  cultivasse  as  terras.  Por  vezes  a  situação  clarificou-se  a  tal  ponto  que  os  quadros  do 
parentesco  artificial  inspiraram  o  que  na  realidade  era  já  um  recrutamento  de  prebenda¬ 
dos  ou  um  assalariamento.  Apesar  de  não  existirem  no  Namurois  fraternidades  artifi¬ 
ciais  nem  comunidades  tácitas  e  de  as  formas  familiares  amplas  só  aparecerem  excep¬ 
cionalmente,  sucedia  que  uma  viúva  juntasse  à  família  um  trabalhador  braçal91,  o  que 
me  parece  constituir  uma  modalidade  prática  de  adopção.  Em  França,  nas  regiões  de 
direito  escrito,  ao  estipular-se  um  aluguer  de  serviços  vitalício  o  patrão  comprometia-se 


àqueles  casais  que  haviam  sido  concedidos  em  estatuto  de  ausência  de  liberdade,  e  cujos  detentores 
prestavam  portanto  serviços  de  trabalho  no  domínio;  apenas  nestas  situações  os  senhores  pretende¬ 
riam  impor  sistemas  de  herança  indivisa,  nomeadamente  mediante  a  primogenitura.  No  mesmo  sen¬ 
tido,  consultar  Ch.  Dyer  ( 1980)  106-107. 

87  Referindo-se  às  regiões  de  França  onde  prevalecia  a  tradição  do  direito  escrito,  R.  Aubenas 
( 1 94 1 )  1 23  e  131  observa  que  a  promessa  de  trabalhar  era  uma  das  cláusulas  fundamentais  nos  contra¬ 
tos  de  dedicado,  mas  não  nos  de  adopção  de  pai  para  filho  e  nos  de  affrèremenv,  acrescenta  (p.  124), 
porém,  que  em  muitos  casos  os  diferentes  tipos  de  contrato  amalgamavam  as  suas  características,  de 
maneira  a  estipular-se  para  o  adoptado  a  obrigação  de  trabalhar.  Ver  também  id.  (1936)  535.  No 
Rouergue,  A.-M.  Landès-Mallet  (1985)  162-163  descreve  um  tipo  de  associação  em  que  um  dos 
irmãos  entrava  com  os  bens  e  os  outros  com  a  sua  força  de  trabalho. 

88  R.  Aubenas  (1941)  129-131:  A.-M.  Landès-Mallet  (1985)  162-163. 

89  R.  Aubenas  (1941)  115,  117.  120.  122-124.  130-131.  133. 

90  Quanto  a  este  tipo  de  contratos  e  à  sua  evolução,  ver  F.  Gies  et  al.  ( 1987  )  1 71-172  e  247. 

Explicam-se  nesta  perspectiva  parte  das  adopções  aliem  júris  em  que  o  adoptado  dependia  de  um 

pater  famílias,  referidas  por  R.  Aubenas  (1934)  708.  A  este  respeito  ver  também  R.  Durand  (1982) 
112-1 14,  embora  o  autor  encare  a  questão  de  maneira  diferente. 

gi  L.  Genicot  (1943-1995)  IV  132  1 33. 


Estruturas  familiares  cia  classe  sen  il 


39 


a  alimentar  o  trabalhador  e  tratá-lo  quando  este  fosse  demasiado  idoso  para  se  ocupar 
das  lides  do  campo,  tal  como  sucedia  naqueles  tipos  de  família  artificial  em  que  um  pai 
adoptado  ficava  ao  serviço  de  um  filho  adoptante92.  Também  em  várias  regiões  da 
França  a  sul  do  Loire  são  conhecidas  centenas  de  contratos  em  que  os  proprietários  de 
terras  recorreram  à  fraternidade  artificial  para  atrair  trabalhadores,  por  vezes  oriundos 
de  lugares  relativamente  distantes93.  E  num  registo  notarial  de  Saragoça,  referente  ao 
primeiro  terço  do  século  XIV.  observa-se  que  os  contratos  de  angariamento  de  criada¬ 
gem  são  comparáveis  àqueles  que  inseriam  alguém  nas  relações  familiares94. 

Aliás,  o  prevalecimento  do  quadro  familiar  verifica-se  quando  um  camponês  que 
devia  prestações  de  trabalho  se  fazia  substituir  por  alguém  ao  seu  serviço95,  pois  as 
exacções  recaíam  sobre  a  família  servil,  e  não  sobre  pessoas  individuais.  Recorde-se 
que.  pelo  menos  em  Itália,  se  várias  unidades  familiares  se  associavam  num  grupo  de 
âmbito  doméstico,  geralmente  os  serviços  de  trabalho  eram  executados  por  todos  os 
núcleos  familiares  em  conjunto,  assim  como  os  tributos  eram  também  pagos  em 
comum".  E  nos  casos  em  que  os  vínculos  artificiais  uniam  camponeses  com  senhores 
laicos  ou  com  instituições  religiosas,  operava-se  a  conversão  dos  parentes  artificiais 
camponeses  em  força  de  trabalho  servil97.  Uma  vez  mais,  embora  com  uma  dimensão 
social  diferente,  tratava-se  de  obter  mão-de-obra. 

Vemos,  assim,  que  ocorria  uma  transição  gradual  das  relações  intrafamiliares  para 
as  relações  interfamiliares.  Na  classe  servil,  as  associações  entre  parentes,  de  sangue  ou 
artificiais,  destinavam-se  a  reforçar  a  capacidade  colectiva  de  trabalho.  Era  isto  que  se 
passava  nos  casos  de  herança  indivisa,  ou  quando  os  herdeiros  decidiam  explorar  em 
comum  os  bens  partilhados.  Mas  em  circunstâncias  jurídicas  aparentemente  contrárias 
os  resultados  práticos  não  foram  muito  diferentes.  Quando  o  sistema  sucessório  privile¬ 
giava  um  irmão  em  detrimento  dos  restantes,  e  estes  ficavam  sem  terras  ou  só  com  par¬ 
celas  ínfimas,  apenas  poderiam  sobreviver  de  duas  maneiras:  talvez  ambicionassem 
estabelecer-se  em  áreas  pioneiras,  embora  pouco  ou  nada  se  saiba  quanto  à  sua  eventual 
participação  nos  desbravamentos  após  a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X  (comparar  na 
Parte  II  os  capítulos  6.a  e  16.b):  mas  seguramente  alugavam  a  força  dos  seus  braços  em 
terras  alheias".  Neste  último  caso  podiam  migrar,  deambulando  de  aldeia  ern  aldeia, 


92  R.  Aubena.sU94t)  123  n.  24 

93  ld.  ( 1960)  9. 

94  J.-P.  Barraqué  { 1991 )  365. 

95  Ver  neste  capítulo  a  n.  12. 

96  L.  A.  Kotelnikova  < 1975)  35. 

97  J.  Bardach  ( 1977)  347;  R.  Dtirand  (1982)  447;  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  (1990)  44-45:  A.  Isla 
Femández  (1984)  6-18;  M.  I.  Loring  Garcia  (1990)  24-25:  R.  Pastor  (1980  a)  60-62;  id.  (1990  b)  182. 

w  Escreve  M.  Mollat  (1978)  70  que  os  filhos  segundos  se  empregavam  em  trabalhos  temporários 
nas  ocasiões  de  maior  concentração  das  fainas  agrícolas.  No  norte  do  continente,  parece  que  os  senho¬ 
res  recrutavam  os  assalariados  entre  os  filhos  segundos  das  famílias  dos  seus  caseiros,  a  crer  em  R.  G. 
Witt  ( 1971 )  974.  Numa  aldeia  dos  Pirenéus,  minuciosamenie  estudada  por  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975), 
vemos  (p.  558)  os  filhos  segundos  oferecerem -se  como  assalariados  ou  prebendados  temporários.  E, 
referindo-se  à  Inglaterra.  Ch.  Middleton  (1981)  124-125  indica  que  os  filhos  segundos  eram  uma 
importante  fonte  de  criadagem  e  de  prebendados  temporários.  O  mesmo  observa  F.  M.  Stenton  (1971) 
475  a  propósito  do  final  da  época  anglo-saxónica  Também  a  respeito  da  Inglaterra,  G.  Duby  (1962) 


40 


Forma  I  Jo  dinheiro 


tantas  vezes  à  beira  da  mendicidade";  ou  podiam  permanecer  na  localidade  onde 
haviam  nascido,  e  então  entre  os  seus  patrões  contar-se-ia.  muito  possivelmente,  o 
irmão  beneficiado.  Sabendo  que  eram  os  estratos  abastados  a  procriar  filhos  com  mais 
abundância100,  deduzo  que  originavam  um  maior  número  relativo  de  filhos  segundos,  e 
seria  decerto  corrente  estes  procurarem  emprego  nas  terras  do  principal  herdeiro101.  E 
assim  se  reconstituíam  transformadamente  quadros  de  domesticidade  que  a  herança 
indivisa  parecia  haver  dissolvido.  A  relação  entre  patrões  e  prebendados  temporários  ou 
assalariados  obedeceu  ainda,  pelo  menos  sob  este  aspecto,  à  velha  inspiração  familiar. 

Nada  disto  significa  que  a  referência  à  família  obnubi lasse  as  relações  de  explora¬ 
ção.  Pelo  contrário,  a  família  havia  tradicionalmente  sido  um  lugar  de  desigualdades  e 
de  exploração102,  e  os  próprios  castigos  corporais,  aplicados  aos  escravos  domésticos 
onde  eles  ainda  existiam,  eram  infligidos  também  pelo  chefe  da  família  à  sua  esposa  e 
aos  filhos103.  Este  tipo  de  influência  era  tão  forte  que  na  Toscana.  já  no  primeiro  terço 
do  século  XV,  um  sistema  de  trabalho  a  meio  caminho  entre  a  servidão  e  o  assalaria- 
rnento  foi  legalmente  assimilado  aos  vínculos  domésticos l04.  Sucedeu,  uma  vez  mais. 


506  recorda  que  quem  dispunha  apenas  de  parcelas  sucessivameme  reduzidas  pelas  partilhas  era  obri¬ 
gado  a  encontrar  o  sustento  trabalhando  por  conta  alheia. 

Q9  P.  Raedts  (1977)  299-300  menciona  as  deambulações  de  grandes  grupos  formados  por  desem¬ 
pregados.  mendigos  e  trabalhadores  eventuais  que  sò  encontravam  ocupação  sazonalmente. 

100  D.  Herlihy  ( 1972- 1973)  626-629. 

11)1  Parece-me  apontarem  neste  sentido  as  observações  de  B.  A.  Hanawall  (1986)  70.  Estudando 
tinta  senhoria  inglesa  situada  a  oeste  de  Birmingham,  no  último  terço  do  século  XIII  e  durante  a  pri¬ 
meira  metade  do  século  seguinte,  Z.  Razi  ( 1981 1  9-10  chega  à  conclusão  de  que  os  camponeses  abas¬ 
tados  colocavam  os  filhos  segundos  nas  novas  terras  que  haviam  conseguido  adquirir,  transmitindo  ao 
herdeiro  principal  um  núcleo  patrimonial  que  se  mantinha  sensivelmente  estável  de  geração  para 
geração;  deste  modo.  a  acumulação  de  terras  pelas  famílias  mais  favorecidas  não  dava  origem  a  uma 
polarização  social  na  aldeia.  No  entanto,  R.  Hilton  (1977-1978)  276-277  considera  que,  sobretudo  nas 
regiões  de  elevada  densidade  populacional,  as  pequenas  parcelas  recebidas  pelos  filhos  segundos  de 
famílias  ricas  e  médias  eram  insuficientes  para  o  seu  sustento  e  que  o  assalariamento  proporcionava 
uma  pane  importante  dos  recursos  dos  pequenos  caseiros.  Com  efeito,  vemos  que  nas  mais  variadas 
regiões  os  detentores  de  pequenas  parcelas  eram  obrigados  a  arranjar  trabalho  adicional  em  domínios 
senhoriais  e  em  terras  de  camponeses  abastados:  F.  L.  Carstcn  ( 1954)  79;  B.  A.  Hanawalt  (1986)  163: 
D.  Herlihy  ( 1968)  275;  J.  M.  Klassen  (1978)  9.  14:  L.  A.  Kotelnikova  ( 1975)  66;  J.  Mattoso  [1994  bj 
224. 

lu-  R.  Aubenas  ( 1941 )  121  e  R.  Pastor  ( 1990  bi  75  observ  am  a  articulação,  no  interior  de  um  qua¬ 
dro  de  parentesco  artificial,  dos  elos  familiares  e  do  angariamento  de  mão-de-obra.  A  propósito  de  utn 
pastor,  numa  aldeia  dos  Pirenéus,  que  era  assalariado  por  um  seu  primo  direito,  E.  Le  Roy  Ladurie 
(1975)  120  e  169  insiste  na  sobreposição  dos  vínculos  de  parentesco  e  de  assalariamento.  e  chama 
depois  a  atenção  para  o  modelo  doméstico  que  presidia  a  estas  relações  de  emprego.  No  caso  italiano, 
alguns  aspectos  terminológicos  decorrentes  da  família  enquanto  quadro  de  parentesco  e  de  exploração 
são  abordados  por  J.  Heers  ( 1981 1  17  e  I.  Origo  (1955)  340. 

103  É  o  que  afirma  I.  Origo  (1955)  340  acerca  da  Toscana  nos  séculos  XIV  e  XV. 

104  Segundo  D.  Herlihy  et  al.  (1985  )  106-107.  os  empréstimos  concedidos  pelos  senhores  aos  cul¬ 
tivadores  no  âmbito  dos  contratos  de  mezzadria  só  muito  raramente  seriam  pagos:  as  autoridades  flo- 
rentinas  assimilavam-nos  aos  empréstimos  contraídos  entre  pessoas  da  mesma  família,  o  que  indica  o 
carácter  das  relações  prevalecentes  naquele  tipo  de  contratos.  Acerca  da  mezzadria  enquanto  forma 
embrionária  de  assalariamento,  e  ainda  a  propósito  da  função  das  dívidas  neste  contexto,  vejam-se  as 
nn.  185  a  192  no  capítulo  10  da  Parte  II 


Estruturas  familiares  da  classe  sen  il 


41 


que  o  regime  senhorial  transformasse  num  relacionamento  entre  famílias  distintas 
aqueles  processos  de  exploração  que  antes  haviam  vigorado  em  âmbitos  familiares  úni¬ 
cos.  Sabemos  já  que  o  fizera  para  as  relações  entre  senhores  e  camponeses.  Verificamos 
agora  que  o  mesmo  ocorreu  no  interior  do  campesinato. 


c.  Entre  a  família  conjugal  e  o  comunitarismo 

Neste  período  confirmou-se  na  classe  servil  o  prevalecimento  do  núcleo  conjugal, 
reduziu-se  o  número  de  membros  da  célula  familiar  e  as  relações  de  parentesco  amplo 
ou  artificial  estiveram  sempre  à  beira  de  se  fragmentar  nas  unidades  componentes. 
Simultaneamente,  porém,  ao  entrar  em  formas  generalizadas  de  dependência  impessoal 
perante  um  mesmo  senhor,  a  população  de  cada  território  rural  reelaborava  os  elos 
comunitários.  O  elemento  mais  forte  de  cooperação  entre  aqueles  camponeses  era  o 
próprio  facto  de  dependerem  do  mesmo  senhor.  É  certo  que,  em  termos  biológicos, 
todas  as  pessoas  de  uma  aldeia  acabavam  por  ficar  mais  ou  menos  relacionadas105.  Mas 
as  ligações  familiares  definem-se  sempre  socialmente,  nunca  geneticamente.  E  como 
no  modelo  conjugal  a  memória  dos  rurais  não  ia  além  dos  avós,  cada  geração  perdia  o 
traço  de  parentescos  anteriores.  Enquanto  os  laços  familiares  distantes,  por  si  só,  deixa¬ 
vam  de  ter  vigor,  era  o  comunitarismo  a  reforçar-se  e  impor-se  como  a  modalidade 
mais  lata  de  família  artificial.  Talvez  os  vínculos  de  sangue106  e  até  o  parentesco  espiri¬ 
tual107  consolidassem  os  elos  artificiais.  Mas  é  mais  exacto  dizer  que,  sem  a  solidarie¬ 
dade  comunitária,  as  relações  de  parentesco  amplas  seriam  ineficazes  na  prática  e 
teriam  caído  no  esquecimento. 

Se  esta  perspectiva  estiver  correcta,  a  dissolução  dos  parentescos  amplos,  dentro  do 
processo  geral  de  formação  de  comunidades  rurais  vastas  e  sólidas,  corresponderia  às 
formas  mais  desenvolvidas  de  senhoria  impessoal,  e  a  preservação  de  elos  familiares 
amplos  corresponderia  a  formas  mais  ténues  de  comunitarismo  de  aldeia,  onde  a  senho¬ 
ria  pessoal  continuaria  a  ocupar  um  lugar  de  relevo.  Penso  que  a  intervenção  no  regime 
sucessório  dos  servos  convinha  exclusivamente  àqueles  aristocratas  que  se  limitavam  a 
possuir  senhorias  pessoais.  Preservar  a  coesão  do  casal,  quer  através  da  selecçâo  de  um 
filho  privilegiado,  nomeadamente  o  primogénito,  quer  mediante  a  constituição  de  gru¬ 
pos  familiares  ou  de  famílias  artificiais  de  pequeno  âmbito  que  explorassem  a  parcela 
em  comum,  mesmo  que  esta  tivesse  sido  formalmente  dividida,  eram  preocupações  que 
só  cabiam  a  senhores  pouco  importantes,  ocupados  directa  e  activamente  em  superin¬ 
tender  o  cultivo  das  terras10*.  Foi  muito  diferente  a  situação  dos  detentores  de  senhorias 


105  M.  Bourin  et  al.  (1984)  52. 

I0<!  J.  Blum  ( 1971 )  164  pretende  que  os  casamentos  entre  as  várias  famílias  camponesas  reforça¬ 
vam  a  comunidade  de  aldeia. 

107  No  Rouergue.  durante  o  último  terço  do  século  XÍH  e  a  primeira  metade  do  século  seguinte, 
A.-M.  Landès-Mallet  1 1985)  53  e  366  indica  que  os  contratos  de  casamento  eram  testemunhados  por 
um  grande  número  de  parentes  e  amigos.  Porém,  quanto  aos  problemas  de  interpretação  levantados 
por  esta  obra  ver  a  n.  17. 

I0Ã  Escreve  D.  Herlihy  ( 1961 l  97  que  os  senhores  procuravam  impedir  as  partilhas  dos  casais,  de 


42 


Forma  I  do  dinheiro 


impessoais,  a  quem  interessava  a  totalidade  dos  tributos  cobrados  aos  camponeses  de 
um  território,  qualquer  que  fosse  a  modalidade  de  herança  que  adoptassem.  A  estraté¬ 
gia  da  classe  dominante  a  este  respeito  só  pode  entender-se  se  distinguirmos  as  conve¬ 
niências  da  senhoria  pessoal  e  as  da  senhoria  impessoal,  E  como  a  expansão  definitiva 
do  regime  senhorial  neste  período  se  deveu  às  formas  impessoais  de  exploração,  que 
liquidaram  os  vestígios  da  independência  rural,  incluindo  os  traços  das  antigas  relações 
de  parentesco  mais  amplas,  foi  na  esfera  da  senhoria  impessoal  que  o  modelo  da  famí¬ 
lia  conjugal  manifestou  plenamente  a  sua  hegemonia.  Se  o  prevalecimento  da  família 
conjugal  revela  a  subjugação  da  classe  servil,  mediante  a  sua  inserção  em  formas  de 
comunitarismo  que  não  eram  mais  do  que  a  renovada  expressão  do  bannum ,  então  os 
interesses  dominantes  da  senhoria  impessoal  opunham-se  a  tudo  o  que  bloqueasse  a 
autonomia  de  decisão  dos  cônjuges,  e  corroíam  tanto  as  ligações  entre  irmãos  como  os 
próprios  elos  entre  pais  e  filhos. 

Teríamos  explicada  assim  a  razão  por  que  é  impossível  delimitar  claramente  zonas 
para  os  regimes  sucessórios  do  campesinato  neste  período.  Os  especialistas  preocupam- 
-se  sobretudo  em  opor  a  primogenitura  à  divisão  da  herança109,  enquanto  sob  o  ponto 
de  vista  que  aqui  adopto  a  distinção  fundamental  se  verificava  entre  a  manutenção  de 
vínculos  de  parentesco  sólidos,  com  a  consequente  debilidade  das  relações  comunitᬠ
rias,  e  a  autonomia  dos  núcleos  conjugais,  considerados  como  elementos  componentes 
de  um  reforçado  comunitarismo.  Ora,  se  a  senhoria  pessoal  tendia  a  dar  aos  sistemas  de 
herança  um  perfil  mais  rigoroso,  contribuindo  para  a  sua  demarcação  geográfica,  a 
senhoria  impessoal  admitia  todas  as  soluções  práticas  que  possibilitavam  aos  núcleos 
conjugais  contornar  ou  mesmo  anular  o  rigor  da  definição  jurídica.  Nestas  circunstân¬ 
cias,  logo  que  começassem  a  formar-se  zonas,  elas  eram  diluídas  e  apagadas. 


maneira  a  aumentarem  a  produtividade  das  terras.  Estudando  um  certo  tipo  de  contratos  na  Galiza  do 
final  do  período,  R.  Pastor  (1990  b)  207  e  209  mostra  que  os  senhores  impunham  várias  cláusulas 
sucessórias,  para  assegurar  a  continuidade  da  exploração  do  casal.  Em  Portugal,  segundo  J.  Mattoso 
[1994  b]  202,  os  senhores  esforçavam-se  por  levar  os  caseiros  a  transmitir  as  parcelas  numa  linha  de 
sucessão  única,  que  evitasse  a  fragmentação.  Quanto  aos  problemas  levantados  pela  definição  desta 
linha  sucessória  em  regiões  entre  o  Douro  e  o  Tejo,  ver  R.  Durand  ( 1982)  117-118.  Referindo-se  à 
Inglaterra  no  final  do  período,  B.  A.  Hanawalt  (1986)  69  admite  que  o  senhor  encontrasse  na  primo- 
genitura  serv  il  a  garantia  de  que  o  casal  não  se  fraccionasse  e  as  suas  terras  não  se  dispersassem.  M. 
Bloch  ( 1928  a)  26,  analisando  alguns  aspectos  do  regime  sucessório  no  norte  e  no  centro  da  França, 
considera  que  os  senhores  procuravam  assegurar  a  continuidade  das  culturas  ao  permitir  que  herdas¬ 
sem  a  parcela  os  descendentes  de  um  caseiro  não-livre  que  habitassem  junto  com  ele.  Do  mesmo 
modo,  e  na  área  rural  dependente  de  Ravena,  onde  eram  muito  diferentes  as  tradições  jurídicas.  M. 
Montanari  (1984)  196  observa  que  os  senhores  tinham  interesse  na  formação  de  comunidades  de  her¬ 
deiros  para  não  se  interromper  o  cultivo  da  parcela. 

Ora,  não  me  parece  haver  dúvida  de  que  estas  preocupações  caracterizavam  a  exploração  de  tipo 
pessoal.  Ch.  Middleton  ( 1981 )  109- 1 10  e  139  comenta  que  os  senhores  ingleses  não  precisavam  de  sc 
ocupar  directamente  com  a  organização  agrária  quando  os  casais  eram  detidos  em  estatuto  de  liber¬ 
dade  e  pagavam  sobretudo  prestações  monetárias:  só  relativamente  aos  casais  delidos  em  estatuto  de 
ausência  de  liberdade,  obrigados  a  serv  iços  de  trabalho  no  domínio,  é  que  os  senhores  tinham  de  con¬ 
trolar  a  mobilidade  dos  servos  e  evitar  que  a  parcela  se  fragmentasse  através  de  heranças.  Para  este 
autor,  os  regimes  de  sucessão  indivisa,  em  especial  a  primogenitura.  eram  típicos  da  dependência 
pessoal.  Ver  no  mesmo  sentido  Ch.  Dyer !  |O80)  106-107. 

100  F.  Gies  et  al.  (1987)  157-158;  G.  C.  Homans  ( 1937-1938)  48:  R.  Jacob  1 1989)  44. 


Estruturas  familiares  da  classe  servil 


43 


No  quadro  das  senhorias  impessoais  definiria  então,  em  regra,  que  enquanto,  por 
um  lado,  se  confirmava  o  prevalecimento  do  núcleo  conjugal,  diminuía  a  dimensão  da 
família  e  se  mantinham  mutáveis  e  precárias  as  formas  mais  limitadas  de  parentesco 
artificial,  reforçavam-se,  por  outro  lado,  os  laços  comunitários,  como  famílias  artificiais 
vastas.  Se  assim  foi,  não  podemos  falar  simplesmente  de  redução  da  família  servil. 
Temos  de  articular  duas  tendências  contrárias:  a  diminuição  das  unidades  familiares  até 
ao  limite  conjugal:  e  a  ampliação  da  família  artificial  global  até  ao  limite  da  comuni¬ 
dade  de  habitantes.  Portanto,  ao  mesmo  tempo  que  se  operou  a  redução  da  família  de 
sangue  e  se  confirmou  a  precaridade  dos  parentescos  artificiais  centrados  em  tomo  da 
domesticidade,  ampliou-se  a  forma  lata  da  família  artificial,  na  sua  modalidade  de 
comunidade  de  aldeia1  lfi.  Passando  já  para  além  do  termo  deste  período,  a  contradição 
entre  as  duas  tendências  extremou-se  e  a  autonomização  dos  núcleos  conjugais  defron- 
tou-se  com  o  absolutismo  régio,  definido  enquanto  organização  colectiva  de  todos  os 
súbditos  de  um  mesmo  soberano111.  Até  que  o  totalitarismo,  económico  ou  também 
político,  dos  Estados  capitalistas  dissolveu  a  própria  célula  familiar  e  autonomizou  o 
indivíduo,  convertendo-o  em  cidadão.  Chegou-se  desta  maneira  a  uma  situação  muito 
diferente,  mas  obedecendo  a  um  princípio  que  parece  idêntico,  o  da  conjugação  entre  a 
redução  das  unidades  familiares  ao  mínimo  e  a  ampliação  ao  máximo  da  comunidade 
considerada  como  forma  parafamiliar. 

A  articulação  destes  dois  movimentos  tomou-se  possível  graças  à  fusão  das  catego¬ 
rias  servis  (ver  o  capítulo  9.a  e  9.b  da  Parte  II).  Foi  porque  as  unidades  familiares  ten¬ 
deram  a  obedecer  a  um  modelo  único  que  todas  elas  puderam  cooperar  numa  eolectivi- 
dade  global.  Em  termos  simples,  a  diminuição  do  número  de  membros  da  família  servil 
e  a  sua  redução  ao  núcleo  conjugal  revelam  a  retracção  das  senhorias  pessoais,  que 
assentavam  na  relação  entre  um  senhor  e  cada  família  de  caseiros  especificamente  con¬ 
siderada,  e  que  vigoravam  em  esferas  inferiores  à  comunitária;  reciprocamente,  a 
ampliação  das  formas  parafamiliares  até  aos  limites  da  comunidade  de  habitantes 
revela  o  prevalecimento  das  senhorias  impessoais,  enquanto  quadro  de  contenção  da 


1,0  M.  Bourin  et  al.  (1984)  51  consideram  a  comunidade  de  aldeia  menos  como  uma  reunião  de 
indivíduos  do  que  de  famílias.  E,  acerca  de  Leão  e  Castela  no  começo  do  período,  R.  Pastor  (1980  a) 
20  especifica  que  as  comunidades  de  aldeia  eram  geralmeme  compostas  por  famílias  conjugais.  Pro¬ 
longando  um  pouco  a  mesma  perspectiva.  P,  Touben  (1973  b)  734  afirma  que  no  Latium  e  na  Sabina 
a  célula  conjugal,  ao  mesmo  tempo  que  exercia  o  seu  predomínio,  incluía-se  em  esferas  de  solidarie¬ 
dade  mais  vastas,  nomeadamente  as  comunidades  de  aldeia.  J.  Chapelot  et  al,  (1980)  148  mencionam 
a  substituição  das  antigas  relações  internas  das  famílias  amplas  por  novas  solidariedades,  exteriores 
ao  parentesco.  Também  R.  Fossier  (1984)  39  observa  que  os  camponeses,  uma  vez  reduzidos  ao 
âmbito  conjugal,  procuraram  apoio  em  laços  de  solidariedade  de  maior  escopo,  como  as  paróquias  e 
as  comunidades.  Um  bom  resumo  destas  tensões  no  caso  inglês  encontra-se  em  Ch.  Middleton  ( 1981) 
1 10-1 12,  ao  estabelecer  que  onde  o  comuniiarismo  era  forte  os  elos  de  parentesco  eram  fracos.  O 
modelo  proposto  por  L.  A.  Kotelnikova  (1975)  34-36  para  a  situação  italiana  é  mais  detalhado: 
começa  por  indicar  que  até  ao  século  XII  o  enfraquecimento  dos  vínculos  de  parentesco  levou  à  for¬ 
mação  de  famílias  artificiais  de.  vocação  doméstica,  sendo  ainda  pouco  significativas  as  solidariedades 
comunitárias;  depois,  à  medida  que  aumentou  a  importância  das  comunidades,  declinaram  as  famílias 
artificiais  de  âmbito  mais  reduzido. 

1 11  A  medida  que  o  Estado  desenvolveu  a  sua  acção,  escreve  J.  Gaudemet  (1963 )  1 19,  a  comuni¬ 
dade  familiar  tornou-se  menos  necessária  e  o  núcleo  conjugal  reforçou-se  e  autonomizou-se. 


44 


Forma  I  do  dinheiro 


globalidade  da  população  rural  num  dado  território;  e  a  transformação  final  das  senho¬ 
rias  pessoais  em  unidades  mínimas  componentes  das  senhorias  impessoais  foi  possível 
porque  as  famílias  conjugais  eram  as  células  componentes  da  família  artificial  comuni¬ 
tária.  Fusão  servil,  novo  tipo  de  comunitarismo,  senhoria  impessoal  e  redução  da  uni¬ 
dade  familiar  ao  âmbito  conjugal  foram  aspectos  de  um  mesmo  processo.  Uma  vez 
mais,  as  hierarquias  senhoriais  resultaram  do  diferente  relacionamento  dos  senhores 
com  os  servos.  Neste  caso.  a  relação  entre  a  senhoria  impessoal  e  a  senhoria  pessoal 
encontrava  correspondência  na  relação  entre  a  comunidade  camponesa  e  a  família  cam¬ 
ponesa  conjugal. 


CAPÍTULO  2 

VEICULAÇÃO  MONETÁRIA 
DAS  RELAÇÕES  DE  DEPENDÊNCIA 


As  relações  impessoais  de  dependência  puderam  desenvolver-se  graças  à  fusão  das 
antigas  categorias  componentes  da  classe  servil  e  suscitaram  o  aparecimento  de  outras 
categorias,  que  se  discriminavam  apenas  pelo  lugar  ocupado  numa  escala  gradativa. 
Entre  as  novas  concepções  de  liberdade  serv  il  e  de  não-liberdade  havia  uma  transição, 
sendo  possíveis  vários  estatutos  mistos,  de  maneira  que  as  distinções  internas  do  cam¬ 
pesinato  acabaram  resumindo-se  aos  níveis  de  fortuna.  A  partir  de  então  a  comunidade 
de  situações  prevaleceu  nas  mentalidades  sobre  as  diferenças  de  origem,  e  os  campone¬ 
ses  começaram  a  entender-se  como  povo.  Nada  melhor  do  que  o  dinheiro  para  exprimir 
esta  condição  de  um  grupo  social  cujos  membros  se  inseriam  num  quadro  global  homo¬ 
géneo  e  eram  distinguidos  somente  por  aspectos  que,  todos  eles,  obedeciam  a  um  crité¬ 
rio  comum.  Por  isso  a  difusão  do  conceito  de  povo  foi  contemporânea  do  progresso  do 
dinheiro  entre  os  rurais.  A  senhoria  impessoal  trouxe  um  novo  vigor  ao  estudo  do 
direito  e  às  formulações  jurídicas,  e  o  dinheiro  veiculou  a  tendência  crescente  para  a 
indiferenciação  dos  camponeses  perante  a  lei.  O  carácter  impessoal  das  novas  relações 
jurídicas  foi  servido  pela  impessoalidade  quantitativa  do  dinheiro.  Nos  termos  do  poder 
impessoal,  a  igualdade  perante  a  lei  proclamada  pelo  soberano  era  a  igualdade  perante 
o  dinheiro  emitido  pelo  soberano. 


a.  Génese  e  difusão  dos  tributos  em  moeda 

No  quadro  da  senhoria  impessoal,  a  dependência  servil  tinha  de  ser  veiculada 
mediante  formas  que  permitissem,  simultaneamente,  o  controlo  senhorial  de  conjuntos 
populacionais  indiferenciados  e  a  mobilidade  de  cada  família  camponesa. 

Não  foi  para  isso  necessário  operar  qualquer  ruptura  drástica  com  o  sistema  de  troca 
de  presentes,  que  havia  servido  de  modelo  geral  no  período  anterior  (ver  o  capítulo  17 
da  Parte  I).  Na  medida  em  que  os  seus  movimentos  podiam  ser  desfasados  temporal- 
mente,  e  deixarem  de  limitar  a  obrigação  de  reciprocidade  a  pares  de  agentes  para  pas¬ 
sarem  a  incluir  outros,  em  perímetros  sempre  mais  amplos,  a  circulação  de  (presentes 
era  susceptível  de  atenuar  a  individualização  dos  participantes.  Mas,  quando  isfrrcome- 
çava  a  suceder,  um  dos  tipos  de  bens  transferidos  assumia  uma  forma  cada  vez  mais 


46 


Forma  I  do  dinheiro 


simbólica,  representando  os  presentes  a  receber  no  futuro,  e  aproximava-se  da  função 
de  dinheiro.  No  contexto  senhorial  em  que  tal  processo  ocorreu,  de  todos  os  instrumen¬ 
tos  existentes,  expressores  do  bannum,  desenvolveu-se  um  como  o  mais  apto  a  veicular 
a  impessoalidade  da  dependência  -  a  moeda'.  O  carácter  indiferenciado  das  moedas, 
cada  uma  igual  às  restantes  saídas  da  mesma  cunhagem,  manifestou  oportunamente  a 
indiferenciação  dos  elementos  da  classe  servil  numa  situação  em  que  era  hegemónica  a 
dependência  impessoal.  E  assim  a  moeda  acabou  também  por  servir  de  instrumento  às 
relações  sociais  no  interior  dos  moldes  tradicionais  da  senhoria,  progressivamente 
penetrados  pelo  exercício  impessoal  do  poder.  Ao  uso  da  moeda  nestas  funções  deno¬ 
mino  Forma  I  do  dinheiro. 

No  final  do  período  anterior  e  durante  a  crise  que  lhe  sucedeu  parece  ter  em  geral 
aumentado  a  parte  ocupada  pela  moeda  nas  prestações1 2,  mas  o  processo  não  foi  homo¬ 
géneo.  Mostrei  já  (no  capítulo  28.g  da  Parte  1)  a  impossibilidade  de  estabelecer  uma 
relação  sistemática  entre  a  difusão  dos  tributos  em  numerário  e  o  declínio  da  indepen¬ 
dência  camponesa.  A  regra  das  variações  tem  de  ser  outra.  Daquela  época  restaram 
menções  especialmente  numerosas  ao  pagamento  de  tributos  monetários  no  norte  da 
Itália3  e,  pelo  menos  em  certos  casos,  também  no  centro4,  regiões  inseridas  numa 
variante  onde  só  numa  minoria  de  senhorias,  e  por  pouco  tempo,  foi  significativa  a  exe¬ 
cução  de  serviços  de  trabalho  agrícola  no  domínio  (ver  na  Parte  1  o  capítulo  lO.a).  E  no 
Mâconnais.  situado  na  zona  a  sul  do  Loire.  onde  os  caseiros  não  eram  praticamente 
obrigados  a  cumprir  serv  iços  de  cultivo  (ver  o  capítulo  9. a  da  Parte  I),  também  as  pres¬ 
tações  pecuniárias  ocupavam  tradicionalmente  um  lugar  importante5.  Do  mesmo  modo, 
na  Northumbria,  no  norte  da  Inglaterra  anglo-saxónica,  onde  o  regime  senhorial  se 
organizava  por  aldeias,  os  servos  não  deviam  serviços  de  trabalho  e  era  frequente  a 


1  D.  Coppet  ( 1970)  39  afirma  que  «a  moeda  figura  como  termo  de  referência  geral  para  todos  os 
actos  humanos  e  como  grau  máximo  de  abstracçào  para  o  pensamento  que  os  interpreta».  Se  isto  pode 
ser  correcto  em  geral,  é-o  sobretudo  nos  contextos  históricos  cm  que  sc  tomou  hegemónica  a  veicula- 
ção  monetária  do  relacionamento  entre  grupos  sociais  e  mesmo  entre  indivíduos.  Ao  analisar  algumas 
das  profundas  transformações  operadas  entre  os  séculos  XI  e  XIV,  L.  K.  Little  (1971)  29-30  indica 
que  passaram  então  a  processar-se  em  lermos  monetários  relações  entre  os  camponeses  e  os  senhores 
que  antes  ocorriam  num  plano  pessoal.  Escrevendo  numa  época,  e  num  país,  em  que  os  rentistas  dis¬ 
punham  ainda  de  uma  posição  social  bastante  forte  e  em  que  a  moeda  cra,  por  isso,  apresentada  e 
gerida  como  um  verdadeiro  valor,  E.  Bridrey  (1906)  143  observa  muito  lucidamente  que  as  pessoas 
na  sociedade  senhorial  entendiam  a  moeda  como  um  simples  instrumento,  e  não  como  algo  detentor 
de  um  valor  próprio,  porque  na  realidade  a  moeda  era  para  elas  apenas  um  instrumento. 

2  P.  Toubert  ( 1990)  67.  Ver  também  a  n.  290  do  capitulo  28  da  Parte  I. 

1  Segundo  Ph.  Dollmger  (1949)  144-145.  o  pagamento  de  tributos  em  moeda  nos  séculos  IX  e  X 
foi  espceialmente  notório  na  Itália  setentrional.  Esta  apreciação  é  confirmada  por:  G.  Duby  ( 1962)  120; 
id.  ( 1973)  106-107;  L.  A.  Kotelnikova  ( 1 975)  30;  G.  Luz/atto  (1967)  94;  Ch.  Wiekham  ( 1 98 1 )  1 1 2. 

4  Na  região  de  Luca,  segundo  D.  Heriihy  (1973  )  369,  os  alugueres  de  terras  contra  prestações 
monetárias,  que  haviam  constituído  50%  dos  alugueres  totais  em  726-750,  desceram  até  cerca  de  15% 
em  751-775,  mas  subiram  regularmente  a  partir  de  então,  até  chegarem  a  90%  em  876-900  e  quase  a 
100%  em  951-1000,  diminuindo  daí  em  diante.  Ver  igualmente:  P.  J.  Jones  (1954-1955)  19.  27;  G. 
Luzzatto  ( 1967)  94,  110. 

Quanto  ao  pagamento  dos  tributos  em  moeda  na  generalidade  da  Itália  centro-setentrional,  ver 
ainda  a  n.  281  no  capitulo  28  da  Parte  I. 

5G.  Duby  (1953)33,  75. 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


47 


inclusão  de  moeda  nas  suas  prestações6.  Mas  não  podemos  generalizar  as  situações 
deste  tipo.  pois  desconhecem-se  prestações  pecuniárias  na  Baviera  dos  séculos  IX  e  X7. 
apesar  de  a  exploração  dominial  se  dever  na  maior  parte  à  mão-de-obra  doméstica  e 
serem  comparativamente  menos  relevantes  os  serviços  de  trabalho  servis,  tanto  assim 
que  a  área  cultivada  do  domínio  ocupava  em  geral  uma  fracção  bastante  reduzida  da 
superfície  arável  total  da  senhoria  (ver  o  capítulo  3.a  da  Parte  I).  E.  por  outro  lado.  no 
ftnal  do  período  as  exacções  em  forma  pecuniária  ocorreram  nalguns  grandes  conjuntos 
senhoriais  situados  na  zona  entre  o  Loire  e  o  Reno8,  onde  vigorava  o  sistema  bipartido 
(ver  o  capítulo  2. a  da  Parte  I).  Não  parece,  portanto,  que  o  tipo  de  relação  estabelecida 
entre  os  caseiros  e  o  senhor  quanto  às  fainas  dominiais  possa,  por  si  só,  elucidar  o  pro¬ 
blema  das  prestações  monetárias  antes  do  século  XI. 

Talvez  o  estatuto  social  ou  jurídico  de  certos  caseiros  explique  a  inclusão  de  moedas 
entre  as  prestações  a  que  estavam  obrigados.  Seria  sem  dúvida  sedutor,  como  há  quem 
o  faça  a  propósito  da  Itália,  reservar  o  pagamento  dos  tributos  pecuniários  a  estratos 
superiores  da  classe  servil9,  que  antecipariam  assim  o  quadro  dó  dependência  impes¬ 
soal;  dispensados  de  participar  no  cultivo  do  domínio,  eles  relacionar-se-iam  com  o 
senhor  de  uma  maneira  menos  vincadamente  pessoal.  A  hipótese,  porém,  deixa  de  per¬ 
suadir  ao  observarmos  que  determinadas  categorias  de  servos,  cuja  condição  jurídica 
pretendia  acentuar  o  carácter  pessoal  da  dependência,  deviam  prestações  monetárias  de 
conotação  simbólica10.  E  aquela  tentativa  de  explicação  cai  pela  base  quando  sabemos 
que  no  Mâconnais,  no  começo  deste  período,  até  os  caseiros  mais  modestos  pagavam 
geralmente  em  forma  de  moeda  uma  parte  das  suas  prestações11.  Além  disso,  na  Ingla¬ 
terra  anglo-saxónica  foram  precisamente  os  servos  de  condição  inferior,  que  cumpriam 
pesados  serviços  agrícolas,  a  deverem  também  tributos  em  numerário12. 

Será  que  a  questão  se  esclarece  ao  averiguarmos  as  condições  em  que  os  senhores 


6  tí.  O.  Sayles  (1948)  245. 

7  Ph.  Dollinger  (1949)  145;  G.  Duby  (1462)  120 

*  Nos  polípticos  do  século  IX  referentes  à  Flandres  e  à  Lotaringia  foram  registadas  com  muita  fre¬ 
quência  prestações  monetárias,  consoante  afirma  H.  van  Wcrveke  (1932)  465.  De  maneira  mais  restri¬ 
tiva.  Ph.  Dollinger  (1949)  144-145  indica  a  existência  de  menções  ao  pagamento  de  tributos  em 
moeda  nas  terras  das  abadias  de  Priim  c  de  Saint-Germain-des-Prés,  nos  séculos  IX  e  X.  Ainda  quanto 
á  difusão  dos  tributos  em  numerário  na  zona  entre  Loire  e  Reno,  ver  no  capimlo  28  da  Parte  1  a  n. 
279.  Todavia.  R.  Fossier  (org.  1974)  112  esclarece  que  na  Picardia,  até  aos  meados  do  século  IX.  só 
fortuitamente  se  encontra  menção  a  prestações  em  moeda. 

9C'h.  Wickham  (1981)  112, 

10  Na  Baviera,  segundo  Ph.  Dollinger  (1949)  145,  os  antigos  escravos  casati,  depois  de  libertos, 
deviam  algumas  moedas  enquanto  tributo  pessoal.  E  id.,  ibid.,  145.  332  e  351  refere  a  existência  de 
uma  categoria  privilegiada  de  servos,  muito  difundida  do  século  X  até  ao  século  XIII  nas  senhorias 
eclesiásticas  do  sul  e  do  oeste  da  Germânia,  da  Flandres  e  em  menor  medida  do  norte  da  França; 
embora  estes  senos  estivessem  em  situação  de  dependência  pessoal  hereditária,  eles  ficavam  dispen¬ 
sados  das  prestações  tipicas  da  ausência  de  liberdade,  graças  ao  pagamento  anual  de  um  tributo  pes¬ 
soal,  de  montante  variado,  tradicionalmente  estabelecido  em  moeda.  Note-se.  porém,  que  este  tributo 
podia  na  prática  ser  pago  em  géneros,  nomeadamente  em  cera,  uma  matéria  provida  de  forte  simbolo- 
uia  religiosa. 

11  G.  Duby  ( 1953)  33.  75. 

12  F.  M.  Stenton  (1971 )  474-475;  D.  Whitclock  (1954)  99-101 . 


48 


Forma  I  do  dinheiro 


iniciaram  a  cobrança  de  prestações  pecuniárias?  Os  estudiosos  desta  matéria  referem  a 
frequente  comutação  de  tributos  em  géneros  por  pagamentos  em  moeda1-.  Se  admitir¬ 
mos  que  este  processo  podia  ocorrer  nos  anos  de  más  colheitas,  quando  os  caseiros  não 
dispunham  de  géneros  suficientes14,  concluímos  que  até  ao  século  XI  o  pagamento  de 
numerário  não  caracterizou  qualquer  evolução  da  condição  servil,  constituindo  apenas 
um  recurso  em  momentos  de  crise.  Noutros  termos,  o  mercado  não  substituiu  então  a 
tendência  para  a  autarcia,  mas  suplementou-a,  permitindo  regressar  a  ela  logo  que  pos¬ 
sível  L\  Na  Inglaterra  anglo-sa.xónica  a  centralização  da  soberania  tomou  caduca  a 
fornia  tradicional  de  recolha  da  contribuição  alimentar  que  cada  aldeia  fornecera  anual¬ 
mente  para  a  manutenção  dos  reis  itinerantes  e  das  suas  cortes  (  ver  na  Parte  I  o  capítulo 
5,a);  em  muitos  casos  a  coroa  substituiu  aquele  tributo  por  prestações  em  numerário, 
mas  mesmo  em  tais  condições,  e  já  na  segunda  metade  do  século  XI,  ele  continuou 
com  frequência  a  ser  cobrado  em  géneros16.  Do  mesmo  modo,  a  substituição  de  servi¬ 
ços  de  trabalho  por  um  tributo  pecuniário,  para  a  qual  se  registam  numerosos  exemplos 
até  ao  século  X17,  incidiu  muitas  vezes  apenas  em  fainas  de  interesse  acessório1  s.  E, 
pelo  menos  na  Inglaterra  do  último  quartel  do  século  IX,  parece  que  os  senhores  estipu¬ 
lavam  sempre  um  número  máximo  de  serviços  de  trabalho,  bastante  superior  às  neces¬ 
sidades  usuais,  prevenindo-se  para  os  momentos  de  maior  acumulação  de  actividade; 
talvez  os  caseiros  ficassem  obrigados  a  substituir  por  prestações  adicionais  em  moeda 
as  tarefas  que  não  haviam  executado1*5.  Em  todos  estes  casos  a  comutação  monetária 
dos  serviços,  tal  como  a  dos  géneros,  aparecia  mais  como  um  recurso  episódico  do  que 
como  um  rumo  de  evolução. 

Durante  o  período  que  se  esgotou  com  a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X  houve  ape¬ 
nas  um  tipo  de  circunstâncias  em  que  as  prestações  pecuniárias  prefiguraram  o  que 
haveria  de  acontecer  ao  longo  do  segundo  período.  Conhecem-se  casos  de  casais  resul¬ 
tantes  de  desbravamentos  que  se  encontravam  sujeitos  a  exacções  monetárias20  e  não 


R.  Doehaerd  (1971)  198;  G.  Duby  (1462)  120.  id.  (1973)  106-107. 

Na  Borgonha,  porém,  a  crer  em  A.  Déléage  (1941)  497  e  500,  a  comutação  monetária  dos  tributos 
em  géneros  difúndiu-se  pouquíssimo  até  ao  início  do  século  X. 

14  H.  van  VVerveke  (1931 )  434. 

15  Estudando  as  senhorias  detidas  pela  abadia  de  Prüm  nas  Ardenas.  nos  séculos  IX  e  X,  G.  Despy 
(1968)  153-168  conclui  que  os  servos  vendiam  os  seus  excedentes  no  mercado  para  poderem  pagar  a 
parte  dos  tributos  estipulada  em  moeda.  Mas  o  autor  considera  que  deste  modo  os  caseiros  consegui¬ 
ram  amealhar  mais  dinheiro  do  que  a  soma  que  deviam  pagar  à  abadia,  contribuindo  para  animar  o 
comércio  regional.  Pelo  contrário,  afigura-se-me  que  naquela  época  o  recurso  ao  mercado  por  parte 
dos  camponeses  era  meramente  secundário  e  que  em  vez  de  comprometer  a  tendência  para  a  autarcia, 
reforçava-a,  na  medida  em  que  lhe  assegurava  a  possibilidade  de  voltar  a  vigorar 

lf'  R.  H.  M.  Dollev  et  al.  (1961)  149,  154.  R.  Lennard  (1959)  113  e  segs..  128-130;  II.  R.  Loyn 
(1963)  305.  J.  A.  Raflis  (1957l  10-1 1;  F.  M.  Stenton  (1971 )  287-288.  Consultar  igualmente  a  n.  288 
do  capítulo  28  da  Parte  1. 

17  A.  Déléage  (1941)  497,  499;  G  Duby  (1962)  120;  id.  (1973)  106-107;  E.  A.  Kosminsky  (1934- 
-1935)  27;  id.  (1956)  353;  Ch.-E.  Perrin  (1051-1955)  75;  ||.  van  Werveke  (1923  a)  655.  Consultar 
ainda,  no  capitulo  28  da  Pane  1.  a  n.  291 . 

1H  A.  Déléage  ( 1941 )  497;  D.  Herlihy  (1959)  61 . 

14  H.  P.  R.  Finberg  (1972)  454-455 . 

*°J.  P.  Devroey  ( 1976)  445;  L.  Genicot  (org.  1973)  108. 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


49 


deviam  serviços  de  trabalho.  Nem  me  parece  que  isto  sucedesse  só  quando  se  tratava  de 
parcelas  isoladas  ou  dispersas,  demasiado  distantes  do  centro  dominial  para  ser  eficaz 
obrigar  os  seus  detentores  a  participar  ali  nas  fainas  agrícolas-1.  Os  novos  casais  fica¬ 
ram  igualmente  onerados  com  tributos  em  moeda  e  dispensados  dos  serviços  de  traba¬ 
lho  em  regiões  onde  ocorreu  uma  aclividade  desbravadora  bastante  generalizada--  e  em 
que  decerto  não  se  colocava  da  mesma  maneira  o  problema  da  dispersão  das  parcelas. 
Portanto,  parece  que  já  naquele  período  se  configurava  uma  articulação  sistemática 
entre  três  factores:  a  colonização  de  novas  terras,  a  ausência  de  uma  estreita  relação  de 
trabalho  entre  as  domesticidades  dos  caseiros  e  a  domesticidade  do  senhor,  e  a  estipula¬ 
ção  de  prestações  em  numerário.  Sabendo-se  o  que  se  passou  no  segundo  período,  esta 
tripla  conjugação  anuncia  uma  tendência  de  desenvolvimento. 

Se  a  análise  estiver  conecta,  fica  confinnada  a  hipótese  que  tinha  esboçado  já  nas 
últimas  páginas  da  Parte  1.  Mas  qualquer  que  seja  a  explicação  que  tentemos  para  a 
existência  de  prestações  monetárias  no  período  anterior,  o  certo  é  que  elas  não  surgiram 
após  o  século  X  como  uma  novidade  absoluta.  Aliás,  a  história  cria  sempre  com  mate¬ 
riais  já  existentes.  Aqui,  transformou-se  em  mecanismo  principal  o  que  antes  fora  ape¬ 
nas  um  recurso  secundário  e  esporádico. 

Ao  longo  deste  período,  cada  vez  mais  as  moedas  veicularam  os  direitos  e  deveres 
entre  senhores  e  servos,  enquanto  seus  símbolos  genéricos.  Uma  faceta  especialmente 
reveladora  desta  situação  foi  a  comutação  monetária  dos  serviços  de  trabalho,  que  se 
difundiu  muitíssimo  em  todas  as  regiões  onde  o  sistema  vigorava-,  embora  obede¬ 
cendo  a  ritmos  diferentes.  Numa  primeira  abordagem,  verifica-se  que  as  comutações  se 
propagaram  bastante  cedo  em  França  e  nas  regiões  limítrofes  da  Borgonha.  Só  no 
século  XIII  o  processo  se  acelerou  e  generalizou  na  Germânia,  especialmente  nas  áreas 
de  povoamento  tradicional  situadas  entre  os  rios  Reno  e  Elba.  Entre  estas  duas  zonas 
extremas,  as  regiões  germânicas  a  oeste  do  Reno  formavam  uma  zona  intermédia,  onde 
os  serviços  de  trabalho  se  extinguiram  ou  passaram  a  desempenhar  uma  função  mera¬ 
mente  acessória  desde  o  século  XII,  mais  tarde  do  que  sucedera  a  oeste,  mas  mais  cedo 
do  que  havia  de  ocorrer  a  leste-4. 

Uma  análise  menos  grosseira  permite  distinguir  outras  divisões  no  interior  de  cada 
uma  das  zonas  principais.  Assim,  nos  campos  de  cultura  cerealífera  situados  entre  os 
rios  Loire  e  Reno  os  serviços  de  trabalho  agrícola  começaram  a  ser  comutados  no 
termo  do  século  XI,  ampliando-sc  o  processo  e  generalizando-se  durante  o  século 


-'  F  esta  a  explicação  proposta  por  Ch.-E.  Perrm  ( 1935)  654.  Também  G.  Duby  ( 1953)  312,  refe¬ 
rindo-se  ao  Mâconnais.  afirma  que  a  maior  parte  das  parcelas  isoladas  pagava  prestações  exclusiva¬ 
mente  em  moeda. 

22  Foi  o  que  sucedeu  na  região  do  Mosa  a  partir  dos  finais  do  século  IX.  consoante  indica  G. 
Duby  11973)  135-136. 

2’  Quanto  a  comutação  monetária  dos  serv  iços  de  trabalho,  em  geral:  M.  Bloch  (1939-1940)  I 
426-427;  O.  Duby  ( 1962)  426-427,  440,  454.  464-470,  513-514;  L.  Genicot  (1966  b)  709-710;  P.  J. 
Jones  (1968)  194;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  252-253:  P.  Spufford  ( 1984)  362  e  segs. 

24  Para  os  aspectos  genéricos  desta  cronologia  ver:  J.  L.  Bessmcrtnyi  referido  em  A.  Lioublin- 
skaía  (1963)  722;  G.  Despy  (1983)  189-192,  203,  Ph.  Dollinger  (1950)  297;  id.  (org.  1970)  106:  H. 
Dubled  (1960  a)  450,  452-453.  td  (1962)  42-43;  F.  L.  Ganshof  et  al.  (1966)  315-316;  L.  Genicot 
( 1943-1995)1  1 16;  M.  Parisse  (org  1977)  197. 


50 


Forma  I  do  dinheiro 


seguinte,  para  só  no  século  XIII  aquelas  fainas  serem  definitivamente  transformadas  em 
prestações  pecuniárias2?.  Na  Picardia  as  comutações  começaram  a  ocorrer  apenas  no 
último  terço  do  século  XII.  culminando  na  passagem  da  segunda  para  a  terceira  década 
do  século  seguinte:  de  então  em  diante  só  restaram  alguns  serviços  de  trabalho  especia¬ 
lizados26.  Também  no  Maine,  onde  aliás  as  prestações  de  trabalho  se  limitavam  às  épo¬ 
cas  de  maior  concentração  das  fainas  agrícolas,  parece  que  no  século  XIII  teria  tido 
lugar  a  sua  conversão  em  numerário27.  Na  França  a  sul  do  Loire.  incluindo  a  Provença, 
onde  os  serviços  de  trabalho  haviam  sempre  sido  muitíssimo  menos  significativos  do 
que  a  norte  (ver  na  Parte  I  os  capítulos  8.a  e  9.a),  as  comutações  divulgaram-se  desde  a 
segunda  metade  do  século  XI.  e  mais  ainda  se  generalizaram  no  século  seguinte28;  é 
certo  que  na  Provença  da  primeira  metade  do  século  XIV  se  conhece  o  caso  de  um 
importante  conjunto  senhorial  onde  subsistiam  prestações  de  trabalho,  mas  estava 
situado  nas  regiões  mais  arcaicas,  relegadas  a  uma  função  meramente  subsidiária29. 

Entre  o  Reno  e  o  Elba  parece  possível  definir,  a  partir  do  século  XIII,  três  zonas.  No 
centro  e  sudoeste,  incluindo  o  Hesse.  a  Francónia  e  a  Suábia.  com  os  seus  prolonga¬ 
mentos  para  a  Alsácia  e  para  o  que  seria  mais  tarde  a  Suíça  germânica,  mantiveram-se. 
embora  em  escala  muito  reduzida,  alguns  serviços  de  trabalho.  Talvez  a  esta  zona  se 
possa  agregar  a  Baviera,  sobretudo  nas  franjas  de  colonização  mais  recente;  certos  ser¬ 
viços  de  trabalho  começaram  a  ser  comutados  na  Baviera  no  século  XI.  ampliando-se 
depois  o  processo  e  difundindo-se  os  tributos  monetários  no  século  XII  e  no  seguinte, 
até  que  finalmente  as  prestações  de  trabalho  passaram  apenas  a  ser  exigidas  a  determi¬ 
nados  caseiros,  especializados  em  certos  tipos  de  produção.  Onde  aqueles  serviços  se 
conservaram  melhor  foi  numa  zona  centro-leste,  cobrindo  a  Turíngia  e  a  Marca  que  a 
prolongava  para  oriente,  ou  seja.  entre  os  rios  Werra  e  Elba,  e  entre  o  Harz  e  os  Erz- 
gebirge.  Enquanto  que  no  noroeste,  especialmente  na  Vestefália  e  na  baixa  Saxónia,  os 
serviços  de  trabalho  acabaram  por  extinguir-se  completamente  '0 

Também  na  Itália  se  verificou  a  comutação  pecuniária  dos  serviços  de  trabalho21, 
encontrando-a  mencionada  no  vale  do  Pó  durante  o  século  XII22  e,  ao  longo  do 
século  XIII,  em  senhorias  na  região  de  Luca'\  Mas  na  península  itálica  a  colabora¬ 
ção  dos  caseiros  no  cultivo  do  domínio  fora  já  escassíssima  no  período  anterior  (ver  o 
capítulo  lO.a  da  Parte  I).  E  neste  período,  embora  os  senhores  tivessem  começado  a 
extorquir  novos  serviços  e  tivessem  imposto  tais  exacções  a  um  maior  número  de 


25  G.  Despy  (1983)  190. 

2h  R.  Fossier  (1968)  588-589,  593;  id.  ( 1 984  >  44. 

27  A.  Bouton  (1975-1976)  11  220. 

Porém,  F.  Lcbrun  (org.  1972)  131  considera  que  no  Maine.  no  início  deste  período,  os  caseiros 
estavam  dispensados  de  prestar  serv  iços  de  trabalho. 

:s  E.  Baratier  (org.  1969)  146:  G.  Duby  (1952)  162;  id.  (1953)312-313,  502-505. 

29  G.  Duby  (1959a)  142. 

10  Cb.-E.  Pcrrin  (1949)  136-137;  id.  (1951-1955)  284.  297-298.  305-307,  311.  Para  a  situação  na 
Baviera:  Pli.  Dollinger  <  1949)  122-123,  127-128.  13o,  145.  148.  152 

11  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  100. 

<2  I  Imberciadori  (1971)211. 

P.  J.  Jones  (1954-1955)  30. 


Veiculação  monetária  das  relações  de  dependência 


51 


camponeses34,  as  prestações  de  trabalho  mantiveram-se  bastante  raras  e  foram  mera¬ 
mente  acessórias35,  pelo  que  as  comutações  são  aqui  pouco  significativas  e  não  se 
podem  tirar  conclusões  acerca  da  data  em  que  ocorreram. 

Mais  esclarecedora  será  a  análise  da  comutação  dos  serviços  de  trabalho  na  Ingla¬ 
terra,  onde  a  participação  dos  servos  na  exploração  dominial  aumentara  entre  os  sécu¬ 
los  VIII  e  IX  (comparar  na  Parte  I  os  capítulos  5.b  e  6,a).  Ora,  ao  longo  do  século  XII 
foi-se  ampliando  a  parte  do  numerário  nos  tributos,  em  substituição  das  prestações  de 
trabalho36.  No  século  seguinte,  por  razões  que  adiante  procurarei  detalhar  (no  capítulo 
4.b),  os  grandes  conjuntos  senhoriais  situados  nas  regiões  do  leste  e  do  sul,  mais  popu¬ 
losas  e  activas  comercialmente,  não  só  interromperam  as  comutações  como  procuraram 
até  restaurar  serviços  agrícolas  que  haviam  entretanto  caído  em  desuso37.  Isto  não  foi, 
contudo,  suficiente  para  inverter  a  tendência  geral  para  o  prosseguimento  das  comuta¬ 
ções,  que  continuou  a  verificar-se  nas  pequenas  senhorias  orientais  e  meridionais  e  em 
todas  as  localizadas  nas  demais  regiões,  onde  era  menor  a  densidade  populacional  e 
mais  reduzida  a  comercialização  dos  produtos  agrícolas38.  Por  isso,  mesmo  nos  meados 
do  século  XIII,  e  praticamente  por  todo  o  lado,  continuavam  a  predominar  as  presta¬ 
ções  em  moeda39.  Aliás,  logo  a  partir  do  terceiro  quartel  do  século  XIII  e  durante  os 
séculos  XIV  e  XV  o  movimento  de  comutação  dos  serviços  de  trabalho  prosseguiu  sem 
quaisquer  excepções40. 


14  V.  Fumagallí  (1976)  176;  ict  (1980)  319;  A.  Grohmann  (1981)  106;  Ph.  Jones  (1966  b)  427; 
P.  Toubert  (1973  b)  501-503. 

-,s  B.  Andreolli  et  al.  (1985)  203;  G.  Chcrubíni  (1967)  114;  E.  Cnstiani  (1962)  154  n.  229; 

G.  Duby  (1973)  169;  D.  Herlihy  (1959)  68;  Ph.  Jones  (1966  b)  399-400;  id.  (1968)  205;  L.  A.  Kotel- 
nikova  ( 1975)  53;  G.  Luzzatto  (1955  b)  187;  G.  Pasquali  (1985)  77;  P.  Toubert  (1973  b)  537,  544;  C. 
Violante  (1953)  77;  Ch.  Wickham  ( 1981 )  1 12. 

Na  região  de  Luca,  ao  mesmo  tempo  que,  como  acabámos  de  ver,  os  serviços  de  trabalho  eram 
comutados  em  algumas  senhorias,  noutras  eles  eram  muito  ligeiros  ou  inteiramente  inexistentes:  P.  J. 
Jones  (1954-1955)  25,  31;  L.  A.  Kotelnikova  (1968)  642.  Em  algumas  regiões  da  Sicília,  porém, 
parece  que  os  serviços  de  trabalho  foram  mais  pesados  do  que  na  península,  a  crer  nas  indicações  de 

H.  Brescl  1980)  643-644. 

M  G.  Duby  (1962)  433-434;  td.  (1973)  253-254.  Ch.  Dyer  ( 1980)  99;  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  19- 
-20;  R.  Hillon  (1973  a)  87;  E.  Kosminsky  (1955  b)  16,  id.  (1963)  73;  E.  Miller  ( 1966)  122;  M.  Postan 
(1937)  1 74  e  segs.;  id.  ( 1966)  606-607;  id.  ( 1978  a)  167. 

47  G.  Duby  (1962)  500-502,  505;  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  20-23;  R.  Hil!on(1973  a)  87;  id.  (1975) 
139;  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  27,  37,  40.  42-44;  id.  (1955  b)  17,  19;  id.  (1956)  x-xi,  168,  192, 
275-276;  id.  ( 1963)  75:  E.  Miller  (1966)  122-123.  129;  M.  Postan  (1937)  185-192;  id.  (1944-1945) 
131;  id.  ( 1966)  607-608;  id.  ( 1978  a)  132,  168-169. 

Acerca  deste  problema  ver  também,  na  Parte  11.  a  n.  1 55  do  capitulo  10. 

•«  G.  Duby  (1962)  503-505;  R.  11.  Hilton  (1969)  30;  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  27,  43-44;  id. 
(1955  b)  19-20;  id.  ( 1956)  x-xi.  131.  168,  171,  177-178,275-276,314;  id.  (1963)76:  E.  Miller  (1966) 
13 1 ;  M.  Postan  (1937)  170-171,  185-1 86;  G.  O.  Say les  ( 1 948)  434-436. 

19  E.  Kosminsky  (1955  b)  19;  id  (1956)  181-192;  id.  (1963)  76. 

40  E.  M.  Canis-Wilson  ( 1959- 1960)  198;  G.  Duby  (1962)  502-503:  Ch.  Dyer  (1980)  82,  120,  141; 
R.  H.  Hilton  (1975)  140,  143-145;  E.  Kosmmski  (1955  b)  21;  id.  (1963)  77;  M.  M.  Postan  (1966) 
608;  id.  (1978  a)  169. 

Mesmo  em  Gwyncdd,  um  principado  galés  conquistado  defmitivaniente  pelos  Ingleses  na  pentil- 
tima  dccada  do  século  XIII,  os  senhores  ocupantes  prosseguiram  e  ampliaram  o  processo  de  comuta- 


52 


Forma  I  do  dinheiro 


Na  zona  das  Espanhas  sujeita  a  um  povoamento  cristão  mais  antigo  parece  ter-se 
verificado  genericamente  a  transformação  gradual  dos  serviços  agrícolas  em  pagamen¬ 
tos  monetários41.  Eni  Leão  e  Castela  o  processo  ocorreu  a  partir  das  últimas  décadas  do 
século  XII,  e  especialmente  na  segunda  metade  do  século  seguinte42.  Conhece-se  um 
caso,  na  fronteira  das  esferas  de  influência  de  Navarra  c  da  Velha  Castela,  em  que  os  ser¬ 
viços  agrícolas,  que  haviam  sido  imprescindíveis  no  século  XI  para  o  cultivo  do  domí¬ 
nio,  se  reduziram  em  seguida  até  serem  progressivamente  comutados  no  último  terço  do 
século  XII45.  Em  sentido  contrário,  porém,  se  os  caseiros  não  colaboravam  no  amanho 
dos  domínios  na  Catalunha  no  início  do  período,  foram  obrigados  a  fazê-lo  desde  o 
segundo  terço  do  século  XI  no  novo  quadro  do  poder  impessoal44,  e  só  para  as  últimas 
décadas  do  século  XIII.  na  região  de  Barcelona,  encontrei  assinalados  casos  de  comuta¬ 
ção45.  Nas  regiões  portuguesas  a  norte  do  rio  Mondego  a  participação  dos  servos  nas 
fainas  dominiais  era  bastante  escassa  e  irregularmente  distribuída40,  havendo  menções  à 
conversão  destes  serviços  em  tributos  pecuniários47.  A  sul.  nas  terras  mais  recentemente 
conquistadas  aos  Muçulmanos,  as  prestações  de  trabalho  eram  mais  raras  ainda,  ou 
mesmo  inexistentes48,  o  que  coloca  o  problema  da  colonização  e  das  migrações. 

Vejamos  então  o  que  sucedeu  nas  novas  fronteiras  do  regime  senhorial.  A  leste  do 
Elba  devem  distinguir-se  duas  variantes,  definidas  mais  por  critérios  sociais  do  que 
geográficos.  Nas  senhorias  anteriores  às  grandes  vagas  de  imigração  as  prestações  de 
trabalho  subsistiram  durante  bastante  tempo.  Entre  os  Eslavos  ocidentais  a  conversão 
dos  serviços  em  somas  monetárias  difundiu-se  gradualmente  ao  longo  do  século  XIII, 
ou  já  desde  o  século  anterior,  iniciando-se  talvez  o  processo  na  Boémia  e  prosseguindo 
um  pouco  depois  na  Polónia49.  Na  Hungria  o  campesinato  autóctone  cumpria  serviços 
de  trabalho,  sendo  a  partir  dos  meados  do  século  XIII  progressivamente  obrigado  ao 
pagamento  adicional  de  prestações  em  géneros  e  em  moeda:  só  no  século  seguinte 
começaram  a  divulgar-se  as  comutações  pecuniárias  entre  os  nativos50.  A  outra  variante 
era  constituída  pelos  novos  campos  resultantes  da  colonização  germânica,  onde  os  ser¬ 
viços  de  trabalho  não  foram  impostos  praticamente  até  ao  final  deste  período51.  Na 
Prússia  dos  Cavaleiros  Teutónicos.  por  exemplo,  coexistiram  ambos  os  sistemas,  pois 


çòes  que  fora  iniciado  pelos  soberanos  autóctones.  Ver  a  esle  respeito  J.  Given  (1989)  24.  Acerca  das 
comutações  cm  Gales,  no  século  XIV.  consultar  também  G.  A.  Holines  (1957)97. 

41  J.  A.  Garcia  dc  Cortazar  ( 1984)  75.  id.  (1990)  99. 

42  R.  Pastor  (1980  a)  225,  230. 

4-  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  etc.  (1969)  328-329. 

44  P.  Bonnassie  (1975-1976)  247-249.  593-594 

48  C.  Cuadradat  1991)  289. 

46  A.  Castro  (1964-1979)  II  319-321;  R.  Durand  ( 1982)  360.  375-377. 

47  A.  Cunhal  (1963)  95. 

48  A.  Castro  (1964-1979)  II  209.  323-324.  R  Durand  (1982)  376. 

44  H.  Aubin  (1966)  468,  478-479;  G.  Barraelnugh  ( 1972)  276;  A.  Gieysztor  ( 1971  b)  102-103, 
109:  M.  Ma/owisil  1957)  574:  id.  (1966)  19 

Todavia,  F.  Graus  ( 1951 )  453  situa  só  no  século  XIV  o  auge  do  processo  dc  comutações  pecuniᬠ
rias  dos  serv  iços  de  trabalho  na  Boémia. 

80  E.  Fiigedt  ( 1 986  a )  6 1  -62. 

81  H.  Aubin  (1966)  468.  478-479.  G  Banaclough  (1972)  276:  F.  Christiansen  (1980)  207: 
F.  Fiigedt  ( 1986  a)  61 


Veicularão  monetária  cias  relações  de  dependem  ia 


5.? 


podia  suceder  que  os  camponeses  nativos  participassem  no  cultivo  dos  domínios, 
enquanto  os  camponeses  de  origem  germânica  não  executavam  serviços  de  carácter 
agrícola52.  A  este  respeito  é  elucidativo  considerar  que  também  na  Síria  e  na  Palestina 
o  regime  senhorial  praticamente  não  obrigara  os  caseiros  à  prestação  de  fainas  agríco¬ 
las53.  Confirma-se  portanto  a  regra,  cujas  raízes  vimos  há  pouco  esboçadas  no  período 
anterior,  de  que  a  abertura  de  novos  campos,  ou  mesmo  a  mera  deslocação  de  massas 
rurais,  dava  origem  a  um  quadro  social  onde  eram  absoiutamente  hegemónicas  as  for¬ 
mas  impessoais  do  bannunt.  veiculadas  pela  moeda,  não  havendo  lugar  para  os  serviços 
de  trabalho  tradicionais54. 

Na  colonização  ocidental  da  antiga  Grécia  bizantina  há  quem  afirme  que  os  serviços 
de  trabalho  que  recaíam  sobre  os  camponeses  não-livres  foram  rapidamente  converti¬ 
dos  em  pagamentos  pecuniários55,  mas  outro  especialista  sustenta  que,  embora  nos 
inventários  do  século  XIV  os  serviços  venham  avaliados  em  termos  monetários,  eles 
eram  efectivamente  cumpridos  sob  a  fornia  de  trabalho56.  Esta  segunda  hipótese 
adquire  maior  credibilidade  quando  sabemos  que  os  Venezianos  em  Creta  e  Chipre 
nunca  prescindiram  dos  serviços  agrícolas  dos  autóctones:  pelo  contrário,  procuraram 
ampliar  o  número  de  camponeses  sujeitos  à  execução  de  tarefas  no  cultivo  do  domínio. 
E  no  final  do  período  inauguraram  mesmo  um  tipo  de  exploração  dominial  virado  para 
a  exportação,  em  que  as  prestações  de  trabalho  se  conjugavam  com  o  abundante 
emprego  de  escravos  e  que  inspiraria  depois  a  colonização  europeia  em  vastas  áreas  do 
mundo57.  Todavia,  contrariamente  às  aparências,  a  situação  no  Oriente  de  tradição 
bizantina  confirma  ainda  a  regra  que  acabei  de  formular,  pois  aquela  região  permane¬ 
ceu  exterior  às  grandes  deslocações  rurais  (ver  o  capítulo  15. a  da  Parte  II).  E  foram  as 
vagas  de  migrantes,  apressando  a  fusão  social  interna  da  classe  servil  e  elevando-a  a 
um  estádio  novo,  que  criaram  as  condições  mais  adequadas  ao  rápido  prevalecimento 


52  A.  Aubin  (1966)  468;  F.  L.  Carsten  (1954)  42,  63-65,  67-68;  E.  Christiansen  (1980)  207; 
Ch.-E.  Pemni  1951-1955)  326. 

C.  Cahen  (1950-195 1  >  297;  H.  F.  Mayer  ( 1972)  1 79;  J.  Prawer  ( 1952-1953)  XXIII  165-166;  id. 
(1969-1970)  I  508;  J  Richard  (1953)  124.  R.  C.  Stnail  ( 1973)  82. 

54  F.  contraditória  a  explicação  proposta  por  W.  Kula  (1970)  51-52  para  o  facto  de  os  desbrava¬ 
mentos  não  terem  implicado  a  prestação  de  serviços  de  trabalho.  Este  historiador  começa  por  afirmar 
que  um  camponês  só  alugava  uma  terra  bravia  contra  tributos  monetários  porque  as  suas  possibilida¬ 
des  dc  efectuar  serviços  de  trabalho  estavam  já  esgotadas  em  virtude  da  participação  no  cultivo  domi¬ 
nial.  VVitold  Kula  deduz  em  seguida  que.  se  a  antiga  parcela  era  suficiente  para  o  consumo  familiar,  o 
produto  da  nova  parcela  destinar-se-ia  á  comercialização,  podendo  melhorar  assim  a  situação  econó¬ 
mica  da  família.  Mas  para  que  isto  sucedesse,  conclui  Kula.  era  necessário  que  o  arroteamento  e  o 
cultivo  da  nova  parcela  não  implicassem  despesas  com  mão-de-obra  auxiliar  e  se  fizessem  apenas 
com  a  força  dc  trabalho  familiar  Ora.  se  aquela  família  de  caseiros  dispunha  dc  reservas  de  trabalho 
para  desbravar  uma  terra,  disporia  de  reservas  também  para  efectuar  mais  serviços  dc  cultivo  no 
domínio.  Na  minha  opinião,  se  os  desbravamentos  se  operavam  mediante  o  pagamento  de  tributos 
monetários,  isto  não  se  devia  a  limitações  de  ordem  técnica,  mas  ao  carácter  impessoal  da  relação  que 
sustentou  neste  período  a  ampliação  das  fronteiras  internas  e  externas  do  regime. 

J.  Longnon  (1962)  25 1 ;  id.  ( 1965)  348. 

56  A.  Carile  1 1976)  560.  564. 

>7  Acerca  de  Creta  e  Chipre  consultar  na  Parte  II  as  nn.  142  a  144  do  capitulo  15.  Além  disso,  ver 
H.  E.  Mayer  (1972)  179-180. 


54 


Forma  I  do  dinheiro 


da  impessoalidade  nas  relações  de  dependência.  A  transferência  de  massas  populacio¬ 
nais  e  a  ocupação  de  territórios  compactos  permitiam  apressar  as  condições  em  que 
vigorava  a  senhoria  impessoal  e,  assim,  a  nova  modalidade  de  exercício  do  bannurn 
infiltrava-se  também  mais  rápida  e  profundamente  nas  senhorias  tradicionais  (ver  o 
capítulo  16.a  da  Parte  II). 

Aparentemente,  os  serviços  de  trabalho  seriam  as  exacções  mais  claramente  pessoa- 
lizadas  e,  portanto,  aquelas  que  não  podenam  deixar  de  ser  transformadas  pelo  desen¬ 
volvimento  da  senhoria  impessoal.  Mas  o  facto  de  serem  exactamente  definidos  os  arti¬ 
gos  que,  em  cada  caso,  deviam  ser  incluídos  nos  tributos  em  géneros  fazia  com  que  a 
individualização  fosse  aí  muito  forte  também.  Por  isso  o  dinheiro-moeda  foi  levado  a 
ocupar  urna  parte  considerável  dos  tributos  totais58,  embora  ao  longo  do  período  os 
géneros  tivessem  conservado  nas  prestações  uma  posição  muito  mais  significativa  do 
que  os  serv  iços  de  trabalho59,  pelo  menos  no  continente.  A  Inglaterra  foi  a  este  respeito 
uma  excepção,  como  veremos  de  seguida.  Aliás,  os  tributos  eram  frequentemente  mis¬ 
tos.  incluindo  numerário  e  géneros,  em  proporções  muito  variáveis  consoante  as 
regiões  e  as  épocas60.  Seria  conveniente,  ou  mesmo  indispensável  a  uma  elucidação 
exaustiva  do  problema,  comparar  a  cronologia  da  comutação  monetária  das  prestações 
em  géneros  com  aquela  que  acabei  de  esboçar  para  a  comutação  dos  serviços  de  traba¬ 
lho.  No  estado  actual  da  pesquisa,  porém,  não  parece  que  tal  seja  possível61.  E  como 
(por  razões  que  constituirão  um  dos  temas  principais  do  capítulo  4)  os  senhores  aban¬ 
donavam  em  certas  conjunturas  a  cobrança  monetária  dos  tributos  para  voltarem  a  reco¬ 
lhê-los  em  géneros,  toma-se  mais  difícil  ainda  definir  os  aspectos  gerais  de  uma  crono¬ 
logia  deste  tipo  de  comutações.  Além  disso,  quando  os  documentos  mencionam  um 
dado  tributo  em  termos  pecuniários,  é  muitas  vezes  impossível  saber-se  se  a  moeda 
funcionava  efectivamente  como  meio  de  pagamento  ou  se  servia  só  para  enunciar  o 


58  Quanto  à  comutação  monetária  dos  tributos  em  géneros  ver,  em  geral:  M  Bloch  (1939-1940)  I 
426-427;  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  1 17;  G.  Duby  (1962)  398-399,  445,  470,  id.  (1973)  250;  L. 
Genicot  (1966  b)  709-710;  P.  SputTord  (1984)  362  e  segs 

59  É  o  que  afirmam,  em  geral,  G.  Duby  (1962)  439-440  e  L.  Genicot  (1966  b)  709-710.  Na 
Lorena.  durante  o  século  XI II,  J.  L.  Bessmertnyi  refendo  em  A.  Lioublinskaia  (1963)  722  sustenta 
que  nas  prestações  os  géneros  predominavam  sobre  a  moeda.  Na  Baviera,  segundo  Ph.  Doliinger 
(1949)  150-152,  os  tributos  pagos  em  numerário  seriam  bastante  inferiores  aos  entregues  em  géneros. 
O  mesmo  sucedeu  na  Picardia  até  ao  século  XIII,  nos  casais  de  ocupação  mais  antiga,  a  crer  em  R. 
Fossier  (org.  1974)  164.  Em  Portugal,  A.  Castro  (1964-1979)  X  282-285  calcula  que.  de  um  total  de 
86  casos  de  tributos  mencionados  entre  o  começo  do  século  XIV  e  o  final  da  segunda  década  do 
século  seguinte,  61,4%  foram  pagos  em  géneros.  31.3%  em  moeda  e  7.2%  numa  forma  mista.  J.  Rut- 
kovvski  (1966)  496-497  indica  que  na  Polónia  as  prestações  monetárias  representariam  uma  pequena 
fracção  das  prestações  em  géneros. 

60  H.  G.  Barros  (1945-1954)  VII  312,  VIII  161  e  segs.;  H.  Bresc  (1980)  643-644;  H.  Dubled 
(1960  a)  451-453;  G.  Duby  (1956)  185;  id.  (1962)  393-394.  439;  G.  Foumier  [1962]  256,  306;  I. 
Imberciadori  <  1 97 1)211.  G.  Labuda  (1960)  64;  R.  Lennard  ( 1959)  176;  A.-G.  Manry  (org.  1974)  186: 
P.  Toubertl  1973  b)  536. 

Quanto  ao  sucedido  em  Portugal,  veja-se  a  nota  anterior. 

61  Referindo-se  à  Germânia  ocidental,  aos  Paises  Baixos  e  à  França  nos  séculos  XII  e  XIII,  F.  L. 
Ganshof  et  al.  (1966)  328-329  advertem  que  é  difícil,  ou  mesmo  impossível,  estabelecer  um  critério 
geral  quanto  à  importância  relativa  dos  tributos  em  géneros  e  em  moeda. 


\  eu  iilnçáo  nionetana  das  relações  de  dependência 


montante,  realizando-se  a  cobrança  em  géneros62.  Este  é  um  terreno  particularmente 
inseguro. 

Talvez  nos  possamos  socorrer  aqui  da  administração  fiscal  dos  soberanos.  O  mais 
antigo  documento  de  contabilidade  geral  dos  condes  da  Flandres  data  da  penúltima 
década  do  século  XII  e.  embora  o  saldo  final  das  rubricas  venha  expresso  em  moeda,  o 
facto  de  as  receitas  e  as  despesas  estarem  agrupadas  consoante  os  produtos  indica  uma 
situação  anterior  em  que  a  maior  parte  das  operações  era  efectuada  em  géneros.  Aliás, 
nessa  época  a  esmagadora  maioria  dos  tributos  era  ainda  recolhida  em  géneros,  que  em 
seguida  os  agentes  condais  convertiam  em  moeda.  Só  no  século  XIV  se  abandonou 
aquele  sistema  de  apresentação  das  contas,  para  se  adoptar  uma  divisão  por  circunscri¬ 
ções,  revelando  a  generalização  da  cobrança  em  numerário.  Por  comparação,  afigura-se 
muito  mais  rápido  o  progresso,  em  termos  monetários,  da  contabilidade  do  ducado  da 
Normandia  no  século  XII.  tendo  talvez  a  mudança  decisiva  ocorrido  durante  o  primeiro 
terço  desse  século,  por  influência  da  reunião  com  a  coroa  inglesa,  que  então  se  reali¬ 
zara.  Infelizmente  é  mal  conhecida  a  evolução  da  contabilidade  dos  reis  de  França63, 
mas  não  parece  que  antes  da  segunda  metade  do  século  XII  obtivessem  rendimentos 
significativos  em  moeda64.  Ora.  se  bem  que  desde  o  século  XI  encontre  menções  à  con¬ 
versão  pecuniária  dos  tributos  em  géneros  na  Picardia66,  no  Mâconnais66  e  também  na 
Provença67.  a  generalidade  das  indicações  fornecidas  pelos  especialistas  parece  revelar 
que  na  maior  parte  da  área  de  influência  francesa,  tanto  a  norte  como  a  sul  do  Loire. 
este  processo  ocorreu  com  maior  frequência  durante  o  século  XII.  talvez  mais  precisa¬ 
mente  na  sua  segunda  metade,  e  ao  longo  do  século  seguinte6*. 

Neste  contexto  parece  confirmar-se  a  precocidade  da  utilização  da  moeda  na  Nor- 
mandia.  onde  a  partir  do  século  XII  se  difundiu  um  novo  sistema  de  arrendamento  dos 
casais,  com  prestações  inteiramente  pecuniárias69.  Ora.  foi  provavelmente  também 
aqui.  nos  meados  do  século  XII  ou  talvez  mesmo  no  final  do  século  anterior,  que  pela 
primeira  vez  um  soberano  lançou  um  tributo  geral  em  moeda70.  Se  recordarmos  (ver  o 
capítulo  5  da  Parte  II)  que  o  estabelecimento  dos  Escandinavos  contribuiu  decisiva- 
mente  para  ultrapassar  a  crise  no  território  normando  e  que,  ao  mesmo  tempo,  a  aristo¬ 
cracia  das  regiões  limítrofes,  sentindo-se  protegida  de  novas  invasões,  não  foi  pressio¬ 
nada  para  reconstituir  com  urgência  hierarquias  coerentes,  compreendemos  o  carácter 
precoce  da  centralização  e  da  coesão  do  poder  soberano  na  Normandia  e  a  sua  singu¬ 
laridade  no  norte  da  França.  A  rapidez  com  que  a  senhoria  impessoal  se  desenvolveu 


62  Ver.  por  exemplo,  R  Fossier  1 1968)  454 

63  Quanto  aos  sistemas  de  contabilidade  destes  trés  soberanos  ver:  B.  I.yon  et  al.  (1967)  37.  48. 
85,  94;  A.  Verhulst  (1966  b)  37-38. 

64  Th.  N.  Bisson  (1979)  40-43. 

65  R.  Fossier  (1968)  453-454. 

66 G.  Dubyt  1953)  312. 

67  J.-P  Poly  (1976)  107. 

68  E.  Baratier  (org  1969)  146;  B  Bligny  (org.  1973)  142;  G.  Duby  (  1957)  312-313;  A.  Dumas 
(1949)  156-157;  F.  L.  Ganshofct  al.  (1966)  328-329;  E.-R.  Labande  (org.  1976)  143. 

69  M.  Bouard  ( org  1970)  161. 

70  Th.  N.  Bisson  (1979)  14,22. 


5ò 


Forma  1  do  dinheiro 


no  ducado  explica  que  também  aí  a  economia  monetária  tivesse  despontado  mais 
cedo71. 

Na  Gennânia  encontrei  apenas  referencias  à  progressão  dos  tributos  em  moeda  na 
Lorena  ao  longo  do  século  XIU72,  na  Alsácia  entre  os  séculos  XI  e  XIII73  e  na  Baviera 
sobretudo  do  século  XII  em  diante74.  São  indicações  demasiado  escassas  para  delas 
poder  extrair  qualquer  conclusão.  A  mesma  incerteza  impede  a  análise  da  situação  na 
Itália.  Pouco  adianta  saber  que  a  tributação  em  termos  pecuniários  progrediu  bastante 
no  vale  do  Pó  durante  o  século  XII75,  se  não  conheço  o  que  se  passava  no  resto  da 
península. 

Quanto  à  Inglaterra,  porém,  as  informações  são  abundantes  e  concludentes.  Nas 
últimas  décadas  da  época  anglo-saxónica  já  a  coroa  havia  convertido  para  numerário  a 
maior  parte  das  prestações  que  antes  cobrara  em  géneros,  e  aquelas  que  continuavam  a 
ser  arrecadadas  dessa  forma  eram  avaliadas  em  termos  monetários76.  A  partir  de  então, 
e  sobretudo  desde  o  começo  do  século  XII.  as  exacções  em  moeda  generalizaram-se  e 
difundiram-se  muitíssimo,  a  tal  ponto  que  os  géneros  acabaram  praticamente  por  ser 
relegados  das  prestações  e  o  valor  dos  tributos  em  numerário  tomou-se  muito  superior 
ao  dos  serviços  de  trabalho77.  Mesmo  no  século  XIII.  quando  a  participação  dos  casei¬ 
ros  no  cultivo  dos  domínios  aumentou  nas  grandes  senhorias  do  leste  e  do  sul  da  ilha. 
os  tributos  pecuniários  continuaram  a  sua  progressão75. 

Sabe-se  que  a  monetarização  das  prestações  ocorreu  igualmente  nos  reinos  cristãos 
da  Espanha79,  e  os  monarcas  de  Leão  começaram  a  receber  tributos  em  moeda  nos 
meados  do  século  XI8ü.  Assim,  não  vejo  como  explicar  que  na  Catalunha  só  a  partir  da 
segunda  metade  do  século  XIII  vá  encontrando  menções  à  comutação  pecuniária  dos 
tributos  em  géneros81.  Verdadeiramente  estranha  se  afigura  a  situação  em  Portugal, 
onde  as  exacções  em  numerário  parece  terem  aumentado  sensivelmente  desde  o 
começo  do  século  XIII  a  norte  do  rio  Douro  e  em  alguns  lugares  da  Beira82,  e  pelo 
menos  a  partir  dos  meados  desse  século  nas  terras  da  coroa  situadas  no  norte  do  país8  ', 
mas  mantendo-se  a  tributação  em  géneros  predominante,  ou  até  exclusiva,  nos  territó- 


71  Acerca  da  precocidade  com  que  a  economia  monetária  sc  apresentou  na  Nonnandia  ver 
L.  Musset  (19591  285-288. 

12  J.  L.  Bcssmcrtnyi  referido  em  A,  Lioublinskaía  ( 1963)  722. 

77  Ph.  Dollinger  (org  1970)  106. 

74  ld.  (1949)  122-123,  136,  144-145. 

75  1.  Imberciadori  ( 1 97 1)211. 

76  B.  Lvon  et  al.  (1967)  58. 

77  G.  Duby  (1973)  241-242;  Ch.  Dyer  (1990)  121;  P  D.  A.  Harvey  ( 1 973 )  19-20;  G.  A.  Holmes 
(1957)  110-111;  E.  Kosminsky  (1955  bl  16-17;  id.  (1963)  73;  R.  Lennard  (1959)  130,  139-140, 
176 

7S  Ch.  Dyer  (1980)  73;  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  43  n.  1;  id.  (1955  bl  19-20;  id.  11956)  1 56- 
-167.  181-192:  G.  O.  Saylcs  (1948)  434.  Ver  ainda:  J.  Given  i  1989)  24  e  segs. 

74  .1.  A.  Garcia  de  Conázar  (1990)  99 
s(l  J.  Vicens  Vives  (1959)  128. 

xl  C  Cuadrada  (1991 )  289;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  Kn. 

s2  H.  ü.  Barros  (1945-1954)  V  32-34.  40,  47.  69.  VII  312.  VIII  83.  161  e  segs. 

83  ld.,  ibitl. .  V  69;  .1.  Mattoso  [1994  bl  139.  253. 


\  cu  tiUiçiio  /uifiietárià  das  rclapius  Jc  dcpakii  i:l  :u 


rios  meridionais*4.  Não  conheço  outro  caso  em  que  as  migrações  e  a  colonização  de 
vastas  áreas  não  estivessem  associadas  à  monetarização  das  exacções. 

Nas  terras  a  leste  do  Elba,  onde  culminou  o  movimento  generalizado  de  deslocações 
populacionais  e  desbravamentos,  divulgou-se  a  conversão  pecuniária  dos  tributos  em 
géneros:  aliás,  a  moeda  foi  empregue  desde  início  da  colonização  nas  áreas  que  acolhe¬ 
ram  mais  tardiamente  os  migrantes**'.  Mas  não  devemos  esquecer  que  não  se  tratou  de 
um  processo  imposto  do  exterior  e,  pelo  contrário,  ele  foi  inseparável  da  evolução  das 
economias  autóctones.  Na  Polónia  a  monetarização  das  prestações  ocorreu  muito  gra¬ 
dualmente  ao  longo  do  século  XIII.  ou  talvez  mesmo  já  desde  o  século  XIIS0.  E  na 
Boémia  a  classe  senhorial  apressou  o  movimento  nos  séculos  XIII  e  XI VS7. 

Apesar  de  todas  as  suas  insuficiências,  esta  cronologia  pode  ser  cotejada  com  a  das 
comutações  monetárias  dos  serviços  de  trabalho  e,  em  primeiro  lugar,  concluímos  que 
ambas  seguiram  a  mesma  linha  de  evolução.  Quando  existem  elementos  de  compara¬ 
ção.  em  caso  algum  se  observa  uma  contradição  entre  as  datas  dos  dois  processos.  Em 
segundo  lugar,  embora  obedecendo  a  um  ritmo  semelhante,  afigura -se  que  a  conversão 
pecuniária  das  prestações  em  géneros  se  difundiu  com  atraso  relativamente  ao  sucedido 
com  os  serviços  de  trabalho,  e  no  termo  do  período  subsistia  muito  melhor  o  paga¬ 
mento  de  tributos  em  géneros  do  que  a  execução  de  fainas  agrícolas  no  domínio.  É  pos¬ 
sível  que  o  carácter  pessoal  da  relação  se  manifestasse  mais  nas  prestações  de  trabalho 
e,  por  isso,  a  sua  remodelação  constituísse  uma  prioridade  para  o  desenvolvimento  da 
senhoria  impessoal.  Só  na  Inglaterra  a  monetarização  dos  tributos  parece  ter  antecedido 
e  sido  mais  extrema  do  que  o  declínio  dos  serviços  de  trabalho. 

Não  é  apenas  a  cronologia  que  nos  permite  seguir  a  progressão  do  uso  da  moeda 
nos  vínculos  de  dependência,  mas  igualmente  o  estudo  comparativo  dos  vários  tipos  de 
prestações.  Muito  sumariamente,  o  estreito  relacionamento  entre  as  novas  formas  de 
exercício  do  bannum  e  o  emprego  de  peças  cunhadas  é  documentado  com  clareza  pelos 
tributos  que  os  detentores  do  poder  impessoal  cobravam  a  conjuntos  populacionais. 
Estes  tributos  eram  predominantemente  pagos  em  numerário**  e,  como  eles  representa¬ 
vam  uma  percentagem  crescente  dos  rendimentos  senhoriais,  concluímos  que,  embora 
se  conservasse  importante  a  parte  ocupada  pelos  géneros  nas  prestações  totais,  recorria- 
-se  à  moeda  nos  aspectos  mais  dinâmicos  do  processo  de  exploração.  O  nexo  entre  os 
tributos  pecuniários  e  a  dependência  impessoal  recebe  outra  confirmação  nos  desbrava¬ 
mentos.  que  melhor  permitiam  afirmar  a  nova  modalidade  de  senhoria.  Vimos  há  pouco 
que  nas  fronteiras  do  regime  os  colonos  eram  poupados  aos  serviços  de  trabalho  agrí¬ 
cola  e  obrigados  apenas  a  tributos.  Nas  áreas  de  povoamento  tradicional  encontram-se 


84  H.  G.  Barros  ( 1045-1954)  V  69,  70 

Gama  Barros  afirma  (V,  pp.  72-73)  que  aquela  situação  se  devia  á  pobreza  da  população  nas 
regiões  meridionais  do  reino  e  à  sua  escassa  densidade,  e  que  a  monetarização  das  prestações  só  pro¬ 
grediu  em  localidades  habitadas  desde  há  muito. 

85  H.  Aubin  ( 1966)  467;  E.  Christiansen  ( 1980)  207. 

86  A.  Gieysztor  (1971  b)  102-103.  109;  M.  Maíowist  <  1957)  574. 

87  J.  M.  Klassen  (1978)  12. 

88  M.  Bloeh  (1933  b)  41-43;  G  Duby  (1953)  326-327;  id.  ( 1962)  488489;  id.  (1973)  254-256;  L. 
Genicot  (org.  1973)  152;  E.  A,  Kosmmsky  (1956)  358. 


Forma  /  do  dinheiro 


5S 


também  indicações  de  aldeias,  e  até  casais  e  pequenas  parcelas,  resultantes  de  arrotea¬ 
mentos  e  cujas  prestações  deviam  ser  pagas  em  moeda89.  A  abertura  de  novos  campos 
de  cultivo  arrastou  consigo  a  ampliação  da  circulação  monetária. 

E  assim,  introduzida  progressivamente  nas  exacções.  a  cunhagem  ampliou  o  âmbito 
da  sua  difusão,  até  permear  toda  a  sociedade  senhorial.  O  aumento  do  número  de  ofici¬ 
nas  monetárias  do  século  X  até  ao  começo  do  século  XIII  não  revela  qualquer  disper¬ 
são  da  soberania,  pois  verificou-se  igualmente  na  Inglaterra,  onde  a  coroa  exercia  um 
poder  centralizado,  e  deveu-se  ao  facto  de  ser  cobrado  em  numerário  um  volume  cres¬ 
cente  de  prestações90.  Podemos  chegar  à  mesma  conclusão  através  de  outros  indícios. 
Em  França,  na  massa  monetária  em  circulação  aumentou  no  século  XI  a  percentagem 
ocupada  pelas  pequenas  moedas  divisionárias,  que  haviam  começado  a  ser  emitidas  sob 
Luís  o  Pio  e  que  até  ao  final  da  era  carolíngia  se  fabricaram  de  maneira  muito  irregu¬ 
lar91.  Sabemos  que  em  geral  foi  antes  do  século  XII  que  a  comutação  pecuniária  dos 
serviços  de  trabalho  se  iniciou  sistematicamente  em  França  e.  obrigadas  a  participar  no 
mercado  para  obter  o  numerário  requerido  pelos  senhores,  as  camadas  mais  humildes 
necessitavam  daquelas  peças  de  mesquinho  valor.  De  então  em  diante  a  cunhagem  de 
uma  quantidade  suficiente  de  moedas  divisionárias  foi  uma  preocupação  das  autorida¬ 
des  do  reino92,  e  no  final  do  período  a  administração  régia  insistia  junto  aos  arrendatᬠ
rios  das  oficinas  para  que  fabricassem  um  grande  número  de  pequenas  moedas93.  Mas 
não  se  deve  imaginar  que  este  tipo  de  dinheiro  fosse  imprescindível.  Por  vezes,  quando 
se  deparavam  com  a  falta  de  moeda  divisionária,  as  autoridades  decretavam  que  fossem 
usados  com  esta  função  certos  símbolos  pecuniários  metálicos94,  que  adiante  estudarei 
mais  detalhadamente.  Por  outro  lado,  o  dinheiro  divisionário  não  foi  fabricado  na  Nor- 
mandia  do  século  XIq-\  apesar  de  já  na  primeira  metade  desse  século  a  economia  mone¬ 
tária  ter  adquirido  no  ducado  uma  importância  precoce,  muito  niaior  do  que  nos  outros 
principados  a  norte  do  Loire,  e  mais  ainda  se  ter  desenvolvido  em  seguida96.  Uma  espe¬ 
cialista  presume  que  se  usassem  fracções  de  moeda97.  Qualquer  que  fosse  a  solução 
prática  a  que  se  recorria,  a  intensidade  da  circulação  de  numerário  na  Normandia 
deveu-se  às  somas  que  os  camponeses  eram  obrigados  a  incluir  nos  tributos98.  Do 


89  Ph.  Dollinger  <  1949)  148;  G.  Duby  <1973)  231  e  segs.,  248-249;  L.  Genicot  <  1943-1995)  I  239- 
-240,  253;  E.  A.  Kosminsky  (1956)  347,  353;  R.  Latouche  <  1944)  218;  M.  Mollat  (org.  1971)  118;  M. 
M.  Postan  ( 1978  a)  102;  J.  A.  Raftis  (1957)  72-75.  83-84;  J.  Z.  Titow  (1969)  61 . 

Nas  terras  recentemente  desbravadas  do  Vermandois  e  do  Laonnois  os  caseiros,  nos  meados  do 
século  XI,  pagavam  metade  das  prestações  em  géneros  e  a  outra  metade  em  moeda;  mas  no  final  do 
século  prevalecia  a  tendência  para  abandonar  o  sistema  misto  e  entregar  o  tributo  exclusivamente 
numa  forma  ou  na  outra.  Ver  a  este  respeito  R.  Fossier  (org.  1974)  1 12. 

90  Ph.  Wolff  ( 1982)  775,  785-787. 

91  F.  Dumas-Dubourg  (1971)  63-64. 

9:  H.  A.  Miskimin  ( 1963)  21. 

93  M.  Rey  ( 1 965  a)  127-128. 

94  J.  Labrot(1989)49. 

95  F.  Dumas-Dubourg  (1971)  64. 

99  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  22-23;  M.  Bouard  (org.  1970)  126,  161-163. 

97  F.  Dumas-Dubourg  ( 1971 )  64. 

98  Referindo-se  ambos  à  Normandia  do  século  XI.  L.  Musset  (1959)  285-288  considera  que  as 
exacções  pecuniárias  foram  um  dos  factores  a  levar  ao  aumento  da  circulação  de  moeda,  e  G.  Duby 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


59 


mesmo  modo.  em  Portugal,  onde  a  cobrança  das  prestações  em  numerário  progrediu 
desde  o  começo  do  século  XII!  em  várias  regiões  do  norte,  e  nas  terras  da  coroa  pelo 
menos  a  partir  de  meados  daquele  século,  sabe-se  que  o  uso  da  moeda,  que  se  ampliara 
na  segunda  metade  do  século  XII.  se  generalizou  a  partir  da  segunda  metade  do  século 
seguinte99.  Continuamos,  portanto,  a  verificar  que  o  aumento  do  âmbito  da  circulação 
das  peças  cunhadas  acompanhou  a  cronologia  da  monetarização  das  prestações.  Esta 
regra  é  confirmada,  pela  negativa,  através  do  sucedido  na  Germânia.  A  dinastia  reinante 
desde  o  final  da  segunda  década  do  século  X  até  se  encerrar  o  primeiro  quartel  do 
século  seguinte  deu  novo  alento  à  cunhagem,  que  os  príncipes  regionais  e  os  altos  dig¬ 
nitários  eclesiásticos  rapidamente  prosseguiram  por  conta  própria.  Pela  primeira  vez  o 
fabrico  e  a  circulação  de  moeda  assumiram  proporções  significativas  a  leste  do 
Reno100.  E,  no  entanto,  como  foi  esta  uma  zona  em  que  só  bastante  tarde  as  prestações 
começaram  a  incluir  sistematicamente  numerário,  aquelas  moedas  destinaram-se  ape¬ 
nas  ao  comércio  de  longo  curso  ou  a  volumosos  pagamentos  internos101,  sem  intervi¬ 
rem  nas  exacções  e,  assim,  sem  participarem  também  nos  mercados  locais.  Aliás,  igual¬ 
mente  em  Itália  a  cunhagem  imperial  não  se  destinou  aos  tributos102.  Vemos  que  nem 
toda  a  circulação  monetária  interessava  às  relações  de  dependência.  O  facto  parece-me 
igualmente  demonstrado  pelo  que  se  passou  nos  três  reinos  limítrofes,  que  só  recente¬ 
mente  haviam  sido  senhorializados.  Tanto  na  Polónia  como  na  Boémia  e  na  Hungria  as 
primeiras  cunhagens  autóctones  reservaram-se  a  finalidades  de  prestígio,  ou  à  importa¬ 
ção  de  artigos  de  luxo  de  que  se  encarregavam  os  mercadores  de  longo  curso101.  Na 
Polónia,  só  na  segunda  metade  do  século  XI  começaram  a  ser  emitidas  regularmente 
peças  destinadas  à  circulação  interna,  e  ao  longo  do  século  seguinte  expandiu-se  a  eco¬ 
nomia  monetária104,  decerto  por  pressão  das  novas  exigências  senhoriais,  pois  as  comu¬ 
tações  de  serviços  de  trabalho  e  a  inclusão  de  numerário  nos  tributos  talvez  se  verificas¬ 
sem  já  a  partir  do  tinal  do  século  XII  e  difundiram-se  ao  longo  do  século  XIII.  Possi¬ 
velmente  a  progressão  para  leste  das  vagas  de  migrantes  contribuiu  também  para  esti¬ 
mular  a  monetarização  das  sociedades  nativas,  porque  o  numerário  era  muito  abundante 
nas  prestações  pagas  pelos  colonos.  O  aumento  do  volume  das  cunhagens  e  a  crescente 
difusão  da  moeda  indicaram,  antes  de  mais,  o  reforço  da  componente  pecuniária  da 
exploração. 

Para  quem  aborde  o  problema  na  perspectiva  em  que  aqui  o  faço,  é  deveras  estranho 
ver  alguns  historiadores  considerarem  o  pagamento  dos  tributos  sob  forma  monetária 


(1962)  227  observa  que.  não  existindo  no  ducado  cidades  com  uma  importância  económica  apreciᬠ
vel.  não  se  pode  atribuir  ao  meio  urbano  o  desenvolvimento  monetário. 

99  H.  G.  Barros  (1945-1954)  V  31-32.  38. 

100  Ph.  Grierson  (1976  a)  69;  D.  Herlihy  (1957-1958)  6-7;  R.  Kiersnowski  (1968)  457;  R.  S. 
Lopezi 1953  a)  13  n.  17;  P.  Spufford  (1988)  74. 

101  R.  Kiersnowski  (1968)  458. 

102  D.  Herlihy  (1957- 1958)  7. 

103  A.  Gieysztor  (1957)  141 ;  id.  ( 1967)  113;  R  Kiersnowski  (1968)458;  T.  Lalik  { 1 968 )  134-135; 
H.  Lowmianski  (1960)  25 

104  A.  Gieysztor  (1961)  478,  483;  id.  (1963)  178.  184;  id.  (1971  b)  91.  107;  B.  Kürbis  em  Centro 
Italiano  di  Studi  suIPAlto  Medioevo  ( 1974)  288;  M.  Malowist  (1966)  16;  S.  Tabaczynski  ( 1962)  23 1  - 
-234;  id.  (1964)  175. 


60 


Formei  I  eh  dinheiro 


como  sintoma  de  declínio  da  autoridade  dos  senhores  ou  mesmo  de  desagregação  do 
regime  senhorial105.  Se  o  poder  impessoal  representou  um  estádio  mais  adiantado  das 
relações  de  dependência,  então  a  circulação  da  moeda  foi  o  instrumento  necessário  a 
essa  intensificação  do  bannum.  Bastaria  isto  para  mostrar  que  a  monetarização  das 
prestações  beneficiou  directamente  a  aristocracia.  Mas  os  seus  ganhos  foram  também 
de  outra  ordem,  pois,  como  tantas  vezes  sucede,  um  instrumento  começa  por  seu  turno 
a  suscitar  efeitos  próprios.  Antes  de  mais,  ficava  remetido  para  os  camponeses  o  ónus 
da  comercialização  daqueles  géneros  agrícolas  que  sustentavam  os  tributos.  Por  outro 
lado,  era  frequente  que  os  senhores  adiantassem  aos  servos  as  somas  que  estes  necessi¬ 
tavam  de  pagar  para  obter  o  direito  à  comutação,  e  então  os  vínculos  do  crédito  junta¬ 
vam-se  às  restantes  obrigações  para  agravar  a  situação  de  dependência.  Expressas  e 
cumpridas  em  dinheiro-moeda,  as  prestações  denotaram  fundamentalmente  a  homoge¬ 
neização  social  da  classe  servil  sob  a  estrita  tutela  do  poder  impessoal,  e  indicaram  que 
a  diferenciação  interna  do  campesinato  havia  passado  a  resultar  apenas  dos  graus  de 
abastança,  ou  de  miséria.  A  difusão  do  numerário  enquanto  veículo  das  novas  relações 
de  dependência,  se  por  um  lado  revelava  a  fusão  interna  da  classe  senil  em  termos 
sociais  e  jurídicos,  por  outro  lado  acentuava  a  sua  estratificação  no  plano  económico. 
Além  dos  senhores,  os  camponeses  abastado.s,  que  dispunham  com  relativa  facilidade 
de  excedentes  comercializáveis,  foram  os  únicos  favorecidos  com  a  transformação  dos 


105  Ch.  Parain  (1971)29  admite  que  a  comutação  monetária  das  prestações  tivesse  correspondido 
a  uma  fase  de  dissolução  do  regime  senhorial,  e  que  a  alta  dos  preços  agrícolas  levasse  à  diminuição 
do  valor  real  dos  tributos  fixados  em  numerário.  Numa  perspectiva  semelhante,  J.  Clemente  Ramos 
(1989)  173-174  considera  que,  para  os  senhores,  a  forma  de  exploração  ideal  consistia  na  extorsão 
de  serv  iços  de  trabalho,  porque  só  assim  conseguiam  obter  o  eontrolo  directo  do  processo  produtivo: 
para  este  autor,  o  pagamento  de  tributos  em  géneros  correspondia  aos  interesses  servis,  e  mais  ainda 
o  pagamento  de  prestações  monetárias,  pois  a  tendência  para  a  depreciação  da  cunhagem  reduziria  a 
taxa  de  exploração  Note-se  que,  na  opinião  de  R.  G.  Witt  (1971)  973,  a  comutação  de  serv  iços  de 
trabalho  não  atenuou  o  eontrolo  exercido  pelos  senhores  sobre  a  produção  agrícola,  já  que  o  trabalho 
forçado  era  muito  ineficiente  e  com  o  dinheiro  obtido  graças  às  prestações  os  senhores  podiam  assa¬ 
lariar  mão-de-obra.  Por  outro  lado,  procurarei  mostrar  (no  capitulo  4.b)  de  que  maneira  a  classe 
dominante  impediu  que  a  quebra  da  moeda  se  repercutisse  negativamente  sobre  as  relações  de  explo¬ 
ração  Agora  pretendo  apenas  salientar  que  para  Julián  Clemente  Ramos  a  comutação  pecuniária  das 
e.xacçòcs.  que  foi  uma  das  tendências  dc  evolução  mais  constantes  do  regime  senhorial  neste 
segundo  período,  não  só  se  deveria  a  pressões  da  classe  serv  il,  mas  teria  também  sido  conforme  aos 
interesses  dos  camponeses,  permitindo-lhes  uma  maior  autonomia  no  processo  produtivo  e,  portanto, 
uma  certa  acumulação  de  excedentes,  com  o  consequente  desenvolvimento  das  operações  mercantis. 
A  tamanho  paradoxo  chegam  os  historiadores  para  quem  a  circulação  monetária  aparece  como  sinó¬ 
nimo  exclusivo  das  relações  comerciais  e  que  eonsideram  o  desenvolvimento  do  mercado  incompatí¬ 
vel  com  o  regime  senhorial.  Já  E.  A.  Kosrnmsky  ( 1934-1935)  24  e  27  criticara  a  tese  segundo  a  qual 
a  conversão  dos  serviços  de  trabalho  em  prestações  monetárias  implicaria  a  desagregação  do  regime 
senhorial,  invocando  o  sucedido  na  Inglaterra  durante  o  século  XIII,  quando  a  comutação  progrediu 
nas  regiões  mais  atrasadas  economicamente  e  parou,  ou  até  se  inverteu,  naquelas  onde  era  mais 
activa  a  comercialização  dos  produtos  agrícolas.  Também  M.  Dobb  (1963)  222-223  observa  lucida¬ 
mente  que  não  se  deve  confundir  a  comutação  pecuniária  dos  serviços  de  trabalho  com  um  qualquer 
declínio  do  regime  senhorial:  c  acrescenta  que  a  luta  de  classes  fundamenta!  opunha  os  produtores 
aos  senhores,  não  os  mercadores  urbanos  aos  senhores,  pelo  que  a  dissolução  do  regime  senhorial 
não  se  deveu  à  expansão  do  mercado  nem  ao  desenvolvimento  de  uma  economia  monetária,  mas  à 
revolta  dos  pequenos  produtores. 


1)1 


\  í  u  iiUuy'âi>  numeiaiui  das  rcLaocs  de  fit  pntdciu  m 


tributos  em  géneros  e  dos  serviços  de  trabalho  em  prestações  pecuniárias.  Quanto  aos 
demais  camponeses,  a  sua  situação  deteriorou-se106. 

Mas  este  processo  complexo  precisa  de  ser  analisado  com  muito  maior  detalhe. 


106  G.  Duby  í 1962)  427  e  478  mostra  que  a  comutação  monetária  das  prestações  representou  um 
bom  negócio  para  a  aristocracia.  Por  seu  lado,  S.  D  Skaskin  (1955)  40-41  explica  que  muitas  vezes 
os  senhores  emprestavam  aos  servos  as  somas  de  que  estes  precisavam  para  obter  a  comutação,  de 
maneira  que  em  tais  casos  a  relação  de  crédito  se  adicionava  à  relação  geral  de  exploração.  E,  invo¬ 
cando  o  sucedido  em  Inglaterra.  P.  D.  A.  Harvey  ( 1973)  19-20  observa  que  os  serv  iços  de  trabalho 
eram  cada  vez  mais  difíceis  de  extorquir,  enquanto  os  tributos  monetários  resultantes  da  comutação 
eram  fáceis  de  cobrar.  Isto  não  impede  vários  historiadores  de  pretenderem  que  o  processo  teria  sido 
sempre  favorável  aos  caseiros;  ver  neste  sentido,  por  exemplo:  Ph.  Dollinger  (1949)  146;  F.  L.  Gans- 
hof  et  al.  (1966)  328-329;  J.  M.  Klassen  (1978)  10.  Na  opinião  de  outros  especialistas  sairia  melho¬ 
rada  tanto  a  situação  dos  senhores  como  a  dos  camponeses;  exemplos  desta  equanimidade  encontram- 
-seem;  Ch.  Dyer  ( 1980)  98-99,  141-142;  I  lmbercíadori  (1971 )  21 1;  Ph.  Jones  1 1966  b 1 410.  Todavia, 
referindo-se  ambos  ao  ocorrido  em  Portugal.  A.  Cunhal  (1963)  95  admite  que  a  conversão  em  moeda 
dos  serviços  e  dos  tributos  em  géneros  não  ocasionou  qualquer  redução  sensível  da  taxa  de  explora¬ 
ção,  e  H.  G.  Barros  (1945-1954)  V  35  e  segs.  e  49-50  vai  mais  longe  ao  considerar  indubitável  que  as 
comutações  acarretassem  o  agravamento  da  exploração.  Antes  de  mais,  como  nota  Sergueí  D.  Skaskin 
em  op.  dl.,  33-38,  sempre  que  urn  camponês,  em  vez  de  entregar  directameme  os  géneros  ao  senhor, 
os  vendia  primeiro,  para  pagar  como  tributo  o  fruto  da  transacção.  estava  a  agravar-se  a  taxa  de  explo¬ 
ração,  pois  o  tempo  perdido  no  mercado  e  o  risco  comercial  recaíam  sobre  o  servo.  R.  Hilton  (1973  a) 
81  escreve  que  as  comutações  interessavam  verdadeiramente  àqueles  camponeses  que  mais  conse¬ 
guiam  beneficiar  do  envolvimento  nas  relações  mercantis.  É  esta  também  a  opinião  de  Georges  Duby 
em  op.  cie ,  532,  ao  salientar  o  aprofundamento  das  disparidades  no  meio  rural.  Analisando  a  situação 
na  Picardia,  R.  Fossier  (1968)  590  assegura  que  a  comutação  favorecia  apenas  os  camponeses  mais 
ricos,  os  únicos  que  conseguiam  reunir  os  montantes  de  moeda  necessários.  E.  a  propósito  de  um 
estudo  de  Robert  Fossier  sobre  a  Picardia,  P.  Spufford  (1984)  362-364  observa  que  as  prestações 
pecuniárias  lançavam  sobre  os  caseiros  os  riscos  de  más  colheitas  e  de  conjunturas  desfavoráveis  no 
mercado,  beneficiando  apenas  os  mais  prósperos,  cujos  excedentes  eram  bastante  superiores  ao  mon¬ 
tante  das  prestações.  As  mesmas  conclusões  chega  E.  Kosminsky  (1955  b)  17  e  (1963)  73  através  do 
estudo  do  caso  inglês,  indicando  que  a  comutação  monetária  dos  serviços  de  trabalho  agravava  a  taxa 
de  exploração  e  favorecia  o  pequeno  número  de  camponeses  abastados.  O  modelo  é  mais  elaborado 
em  id.  (1956)  353-355,  onde  o  autor,  depois  de  afirmar  que  a  difusão  das  prestações  pecuniárias  acen¬ 
tuava  a  clivagem  interna  do  campesinato,  sustenta  que  os  agricultores  mais  ricos  beneficiavam  das 
comutações  porque  dispunham  de  excedentes  para  vender  no  mercado,  enquanto  os  mais  pobres  esta¬ 
vam  igualmente  interessados  no  processo,  já  que  eram  muito  reduzidas  as  somas  de  moeda  que  paga¬ 
vam  e  podiam  obtê-las  mediante  o  assalariamento;  em  suma,  a  transição  para  os  tributos  em  numerᬠ
rio  fora  especialmente  gravosa  para  as  vastas  camadas  médias  da  classe  servil,  que  pouco  se  relacio¬ 
navam  com  o  mercado,  quer  de  produtos  quer  de  trabalho.  Para  estas,  continua  Evgueni  A.  Kos¬ 
minsky  (p.  355),  de  nada  valia  que  a  comutação  dos  serviços  de  trabalho  lhes  deixasse  a  disposição 
integral  da  mão-de-obra  familiar  se  elas  não  tivessem  capacidade  económica  para  adquirir  mais  terras, 
porque  originariamente  as  suas  parcelas  tinham  as  dimensões  adequadas  à  execução  das  fainas  agríco¬ 
las  em  tempo  parcial;  por  si  só,  o  facto  de  aumentar  a  força  de  trabalho  à  disposição  da  família  servil 
não  levava  a  qualquer  acréscimo  significativo  da  produção  do  casal,  agravando-se  ainda  a  situação 
porque  a  comutação  dos  serviços  de  trabalho  se  fazia  à  custa  do  montante  da  colheita  que  até  então  a 
família  servil  havia  destinado  exciusivamente  ao  consumo  próprio.  Afinal,  os  resultados  da  monetari- 
zação  das  prestações  na  Inglaterra  do  século  XIV  são  bem  resumidos  por  B.  H.  Landsberger  et  al. 
(1973)  99,  ao  escreverem  que  aquele  processo  ocasionou  o  aumento  da  diferenciação  no  interior  do 
campesinato.  A  propósito  da  Polónia,  M,  Ma/owist  1 1957)  574  afirma  também  que  as  comutações  só 
eram  vantajosas  para  os  estratos  superiores  da  população  rural,  os  únicos  a  dispor  de  excedentes 
comercializáveis,  pelo  que  se  exacerbaram  as  diferenças  económicas  na  classe  servil.  A  tal  ponto  que, 
como  recorda  G.  Labuda  ( 1960)  63,  frequentemente  o  sistema  de  prestações  pecuniárias  foi  abando- 


62 


Forma  I  do  dinheiro 


b.  Circuitos  da  dependência 

Ao  longo  de  todo  este  período,  e  mesmo  bastante  depois,  apesar  de  a  economia  se 
ter  comercializado  tão  amplamente,  o  emprego  de  moedas  em  rituais  denota  o  carácter 
sagrado  que  continuava  a  ser  atribuído  às  peças  cunhadas.  A  moeda  era  então  um 
objecto  de  grande  ambiguidade.  Talvez  o  dinheiro  o  tenha  sido  sempre,  e  se  encontre  aí 
a  sua  função  perene  e  mais  profunda.  Ao  mesmo  tempo  que  a  circulação  monetária  vei¬ 
culava  a  nova  impessoalidade  das  relações  servis,  paradoxalmente  as  moedas  podiam 
corporalizar  a  emanação  de  uma  personalidade.  Algumas  das  formas  mais  pessoaliza- 
das  da  dependência  tiveram  na  moeda  um  elemento  dos  seus  rituais,  e  embora  nestes 
casos  se  tratasse  de  tradições  herdadas  do  período  anterior107,  o  surgimento  de  outras 
cerimónias,  para  demais  executadas  no  próprio  centro  da  vida  política,  veio  demonstrar 
que  a  aura  envolvendo  a  moeda  de  modo  algum  havia  esmorecido. 

A  senhoria  impessoal  caracterizou  as  novas  modalidades  de  soberania  e  acima  de 
tudo,  nos  seus  vértices,  a  autoridade  dos  monarcas.  A  transformação  simultânea  das 
relações  familiares  e  dos  sistemas  de  poder  acabou  por  fazer  de  cada  reino  como  que 
uma  vastíssima  comunidade  parafamiliar,  que  encontrava  o  seu  quadro  de  inserção  na 
domesticidade  régia.  Se  a  efectiva  redução  das  unidades  familiares  servis  permitiu  a 
homogeneização  social  do  campesinato,  a  progressiva  ampliação  do  poder  da  coroa 
converteu  o  monarca  no  chefe  daquela  enorme  família  artificial  em  que  se  tomara  a 
população  do  reino.  A  impessoalidade  estruturava  este  exercício  da  soberania,  expressa 
nas  abstracções  de  uma  ressuscitada  jurisprudência,  e  ajudada  por  uma  crescente  buro¬ 
cracia  de  administradores  e  por  um  corpo  hierarquizado  e  relativamente  disciplinado  de 
agentes.  Os  historiadores  modernos  gostam  de  encontrar  aqui  a  génese  do  nosso  Estado 
laico  e  do  espírito  racionalista  que  a  ele  preside.  E,  no  entanto,  em  França  e  na  Ingla¬ 
terra,  onde  durante  este  período  se  experimentaram  as  fornias  mais  avançadas  da  cen¬ 
tralização  e  da  burocratização  da  monarquia  em  termos  impessoais,  os  reis  promove¬ 
ram  uma  utilização  inteiramente  inovadora  do  carácter  mágico  conferido  à  moeda. 

Se  o  conjunto  do  reino  era  como  que  uma  domesticidade  artificial,  o  monarca, 
enquanto  chefe  desta  família,  tinha  de  permitir  que  o  seu  muniliurn  se  alargasse  a  todos 
os  súbditos.  A  expressão  mais  flagrante  e  aparatosa  da  virtude  benéfica  era.  sem 
dúvida,  a  capacidade  taumatúrgica.  Em  ambos  os  reinos  os  monarcas,  ao  mesmo  tempo 
que  distribuíam  esmolas,  o  que  era  a  forma  consagrada  de  exercício  do  mumiium. 


nado  pouco  tempo  depois  da  sua  introdução,  pois  era  muito  difícil  ao  campesinato  polaco  reunir  as 
quantidades  de  moeda  necessárias.  Um  exemplo  extremo  ocorreu  em  Gwynedd.  um  antigo  principado 
galês  conquistado  pela  coroa  inglesa  no  final  do  século  XIII;  J.  Given  (1989)  25-26  e  37-43  revela 
que,  numa  situação  de  difícil  acesso  ao  numerário,  a  grande  dimensão  assumida  pelas  comutações 
monetárias  deixou  a  população  tão  empobrecida  que  o  investimento  produtivo  se  reduziu,  o  que  levou 
ao  declinio  dos  rendimentos  agrícolas,  com  repercussões  negativas  sobre  a  capacidade  de  pagamento 
dos  tributos.  Compreende-se  assim  que  no  Brabante,  segundo  relata  G.  Despy  (1983)  203.  várias 
vezes  os  camponeses  tivessem  protestado  contra  a  comutação  e  obtido  o  direito  de  continuar  a  prestar 
os  serviços  de  trabalho  tradicionais. 

107  M.  Bloch  (1928  c)  57;  Ph.  Dollinger  <  1949)  238-239;  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  206-207;  P, 
Petot  (1927)  78;  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  293-274.  H.  van  Wervekc  (1932)  465. 


Veiculaçâo  monetária  das  relações  de  dependência 


63 


começaram  a  tocar  os  doentes  e  a  curar-lhes  as  escrófulas,  ou  a  epilepsia,  manifestando 
assim  a  sua  participação  na  esfera  do  divino108.  Nestes  cerimoniais,  em  que  as  majesta¬ 
des  apareciam  com  todo  o  esplendor,  as  moedas  ocuparam  o  lugar  central,  repartidas 
entre  os  enfermos  que  ambicionavam  ser  tocados  pela  mão  régia109.  Aliás,  eram  muito 
divulgadas  as  cunhagens  especiais  destinadas  a  fins  caritativos110,  e  os  monarcas  esta¬ 
vam  aqui  a  tomar  a  seu  cargo  esse  tipo  de  operações,  conferindo-lhe  o  relevo  adequado 
a  quem  o  exercia.  Na  Inglaterra  aquelas  moedas  tomaram-se  mesmo  um  objecto  de 
culto.  Durante  o  século  XVI  os  monarcas  ingleses  começaram  a  executar  o  gesto  de 
abençoar  as  chagas  segurando  entre  os  dedos  uma  moeda  furada,  pela  qual  passava  um 
fio,  que  em  seguida  era  dada  ao  doente  e  suspensa  ao  seu  pescoço,  consoante  uma  prᬠ
tica  que  os  Stuart  exilados  repetiam  ainda  nos  primeiros  anos  do  século  XIX.  e  mesmo 
no  século  XX  estas  peças  eram  veneradas* 1  *.  Mas  como  as  moedas  que  os  reis  ingleses 
distribuíam  aos  doentes  passaram  a  ser  fabricadas  em  cunhagens  especiais,  embora 
continuassem  até  ao  primeiro  quartel  do  século  XVII  a  correr  como  numerário,  a  sua 
função  económica  cada  vez  mais  se  perdia  e  convertiam-se  plenamente  em  talismãs112. 

Esta  evolução  não  implicou,  contudo,  que  as  conotações  propriamente  económicas 
da  moeda  fossem  afastadas  dos  rituais  mágicos.  Na  Inglaterra,  onde  as  lutas  dinásticas 
obrigaram  os  rivais,  e  os  vencedores  de  curta  data  e  escassa  tradição,  a  ampliar  os 
recursos  propagandísticos1 1  \  os  reis  aproveitaram-se  de  uma  velha  crença  na  virtude 
dos  anéis  fabricados  a  partir  de  moedas114,  para  promover  uma  nova  solenidade  tauma- 
túrgica,  destinada  a  mostrar  o  carácter  imediato  da  sua  relação  com  a  divindade.  O  mais 
tardar  a  partir  do  primeiro  quartel  do  século  XIV,  durante  as  cerimónias  que  cumpriam 
na  Sexta-Feira  Santa,  os  reis  passaram  a  depositar  no  altar  uma  oferenda  constituída 
por  uma  certa  soma  de  boas  moedas  de  ouro  e  prata;  logo  em  seguida  retiravam  estas 
peças  e  substituíam-nas  por  um  montante  equivalente  de  moedas  correntes,  enquanto  as 
moedas  valiosas  serviam  para  fabricar  anéis  que,  abençoados,  eram  reputadamente  efi¬ 
cazes  na  cura  da  epilepsia1  *-\  Ao  executarem  este  ritual  os  monarcas  procediam  publi¬ 
camente  a  uma  série  de  operações  económicas,  cujo  significado  seria  decerto  evidente 
para  os  contemporâneos. 

Primeiro,  ocorria  um  dom  do  rei  a  Deus  e,  dada  a  suprema  condição  de  quem  as 
recebia,  as  moedas  presenteadas  deviam  ser  da  melhor  feitura  e  cortadas  nos  metais 


tos  Accrca  das  funções  taumatúrgicas  dos  reis  ingleses  e  franceses  ver  M.  Bloch  (1924).  Esta 
obra-prima  ainda  hoje  continua  sem  ser  assimilada  pela  historiografia,  e  os  especialistas  analisam  a 
centralização  do  poder  real  e  depois  o  absolutismo  como  se  os  mesmos  monarcas  que  desenvolviam 
as  burocracias  estatais  não  se  dedicassem  com  igual  convicção,  e  não  menos  proveito,  à  realização 
pública  de  operações  mágicas.  Marc  Bloch  foi  um  dos  raros  a  inserir  a  história  da  sociedade  ocidental 
no  amplo  quadro  da  antropologia,  duas  esferas  que  precisamente  a  esmagadora  maioria  dos  autores  se 
esforça  por  separar.  A  este  respeito  ver,  na  Parte  II.  a  n.  177  do  capítulo  1 7. 

109  M.  Bloch  ( 1924)  96-97.  1 14.  319-320. 

110  W.  J.  Courtenay  (1972)  197:  id.  ( 1972-1973)  286;  M.  Mollat  (1978)  189-190. 

111  M.  Bloch  ( 1924)  92,  319,  394-396. 

Id.,  ibid..  320-322,  394-395. 

113  ld„  ibid..  114,  174-175.319-320. 

1,4  Id.,  ibid..  166-170. 

1 15  Para  a  descrição  deste  novo  cerimonial  ver  íd..  ibid..  157,  161,  167esegs. 


M 


Forma  I  do  dinheiro 


mais  nobres.  Logo  de  seguida  processava-se  uma  operação  dupla.  Em  lermos  estrita¬ 
mente  económicos  era  um  escambo,  pois  Deus  restituía  ao  monarca  as  moedas  precio¬ 
sas  e  recebia  em  troca  uma  quantia  equivalente.  Mas,  em  lermos  de  qualidade  e  esta¬ 
tuto,  tratava-se  de  uma  oferta  de  Deus  ao  rei,  pois  o  prestígio  atribuído  às  primeiras 
peças  era  incomparavelmente  superior  ao  atribuído  às  segundas.  Basta  pensar  que  mui¬ 
tos  pobres  juntos  poderiam  reunir  uma  soma  de  moedas  comuns,  mas  não  conseguiriam 
adiantar  uma  só  peça  valiosa.  Na  segunda  operação  o  rei  substituíra  moedas  destinadas 
a  circular  exclusivamente  entre  a  elite  da  classe  dominante  por  moedas  acessíveis  aos 
camponeses  e  à  arraia-miúda,  e  mediante  as  quais  se  veiculavam  as  relações  de  depen¬ 
dência.  Era  a  insuperável  diferença  qualitativa  entre  ambos  os  estatutos  sociais  que 
constituía  a  dádiva  feita  por  Deus  ao  rei.  O  conjunto  das  operações  manifestava-se 
como  uma  troca  de  presentes  de  conteúdo  muito  bem  caracterizado.  O  presente  do  rei 
para  Deus  consistia  numa  qualidade  social,  figurada  por  belas  moedas,  e  numa  quanti¬ 
dade  de  valor,  representada  pela  soma  nominal.  O  presente  de  Deus  para  o  rei  consistia 
só  na  qualidade  social,  visto  que  a  quantidade  de  valor  equivalente  fora  reposta  no  altar. 
Assim,  as  peças  retiradas  do  altar  não  eram  apenas  miraculosas  por  terem  vindo  de 
Deus,  mas  também  por  estarem  reduzidas  à  sua  função  simbólica,  plenamente  carrega¬ 
das  de  qualidade  social. 

A  partir  daqui  é  a  mudança  de  objectos  que  importa  analisar.  Antes  de  mais,  se  as 
moedas  que  na  primeira  operação  foram  depositadas  no  altar  se  destinavam  a  ser  depois 
fundidas,  por  que  razão  não  foram  oferecidos  à  divindade  o  ouro  e  a  prata  em  lingotes? 
Isto  confirma  que  as  moedas,  enquanto  objecto  material,  possuíam  uma  virtude  mágica 
especialmente  acentuada.  Neste  caso.  belas  e  finas  peças  exprimiam  a  relevância  do 
bannum  de  quem  as  havia  mandado  cunhar,  ou  de  quem  podia  usá-las.  Para  o  monarca, 
empregar  tais  moedas  era  como  proclamar  que  se  dirigia  à  divindade  a  partir  do  topo 
das  hierarquias  sociais.  Mas  qual  o  motivo  que  levava  depois  o  dom  celestial  a  abando¬ 
nar  a  forma  de  peças  cunhadas  e  a  transformar-se  em  anéis?  Agora  o  poder  apresen¬ 
tava-se  na  sua  face  exclusivamente  benéfica,  e  fazia-o  numa  das  modalidades  mais 
favoráveis,  a  cura  de  doenças.  A  transmutação  das  moedas  em  anéis  acompanhava  a 
passagem  do  exercício  do  bannum  para  o  exercício  do  tnundium.  Não  tenho  possibili¬ 
dade  de  me  alongar  no  assunto,  mas  parece-me  plausível  a  hipótese  de  que,  usado  para 
as  alianças  matrimoniais  e  para  consolidar  relações  muito  próximas  da  fraternidade 
artificial,  o  anel  pudesse  estar  especialmente  ligado  ao  quadro  doméstico,  aquele  onde 
talvez  primeiro  o  tnundium  se  tivesse  gerado. 

Possivelmente  no  termo  do  primeiro  quartel  do  século  XV.  e  até  ser  abandonado  nos 
meados  do  século  XVI,  o  ritual  sofreu  uma  alteração  muito  significativa.  Os  anéis  pas¬ 
saram  a  ser  fabricados  antecipadamente,  e  eram  eles  agora  que  o  rei  depositava  no  altar, 
trocando-os  em  seguida  por  uma  soma  fixa  de  moedas1  l6.  Deixando  os  anéis  de  resultar 
de  uma  modificação  do  metal  cunhado  e  esquecida  toda  aquela  complexa  troca  de  pre¬ 
sentes.  o  novo  procedimento  realçou  o  poder  dos  monarcas.  Por  isso  nos  finais  do 
século  XV  a  parte  mais  importante  da  cerimónia  já  não  consistia  na  colocação  dos 


“Md.,  ibid..  173.  179. 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


65 


anéis  no  altar,  e  concentrava-se  na  acção  sobre  eles  exercida  pelas  mãos  do  rei1 1 1 .  E  se 
só  na  Inglaterra  os  soberanos  procediam  a  este  tipo  de  manipulações  simbólicas,  as 
convicções  subjacentes  inseriam-se  num  quadro  geográfico  muito  vasto  e  em  vários 
países  do  continente  se  manifestou  o  interesse  por  aqueles  anéis1 l8. 

O  vigor  com  que  continuava  a  revelar-se  a  crença  no  carácter  sagrado  das  peças 
cunhadas  serviu,  neste  período,  para  reforçar  os  elos  tecidos  pela  circulação  monetária. 
Como  sabemos  (ver  na  Parte  I  o  capítulo  28. g),  para  um  camponês  o  uso  de  numerário 
correspondia  à  entrada  em  ciclos  de  dependência  e  sujeição.  O  que  definia  a  função 
social  destes  circuitos  era  o  facto  de  os  camponeses  serem  obrigados  a  pagar  aos  senho¬ 
res  as  prestações  com  símbolos  materiais  de  cuja  emissão  a  própria  classe  senhorial 
possuía  o  exclusivo,  e  de  cujas  principais  vias  de  circulação  mantinha  o  controlo.  A 
moeda  que  alguém  tinha  na  mão,  e  a  que  por  isso  poderia  chamar  sua,  na  verdade  não 
lhe  pertencia.  A  moeda  era  propriedade  última  de  quem  a  havia  emitido  e  lhe  mandara 
gravar  a  sua  efígie  ou  qualquer  outra  marca  de  autoridade119.  Em  sistema  de  troca  de 
presentes  (ver  o  capítulo  24.a  da  Parte  I)  ter  consigo  um  bem  alheio  era  simultanea¬ 
mente  uma  benesse  e  um  risco,  era  como  carregar  a  personalidade  do  outro  e  ficar  colo¬ 
cado  na  sua  área  de  supremacia.  A  monetarização  da  sociedade  não  aboliu  por  si  só 
aqueles  mecanismos  ideológicos,  apenas  os  transferiu  para  outras  esferas  e  lhes  deu 
nova  expressão.  Nas  mãos  de  um  camponês  a  moeda  queimava,  ela  era  a  recordação 
permanente  da  sua  dependência,  a  presença  da  aristocracia  que  inscrevera  no  metal  os 
sinais  indecifráveis  do  hannum.  Por  isso  a  moeda  devia  ser  devolvida  àqueles  de  onde 
provinha.  Na  sua  esmagadora  maioria  os  senos  necessitavam  de  moedas  apenas  para 
cumprir  as  exacções.  e  mal  as  obtinham  perdiam-nas  para  os  senhores1-11.  A  tal  ponto 
que  em  Inglaterra,  onde  vimos  as  prestações  atingirem  um  elevado  grau  de  monetariza¬ 
ção,  a  quantidade  de  numerário  em  circulação  sob  Eduardo  I,  no  último  quartel  do 
século  XIII  e  na  primeira  década  do  século  seguinte,  além  de  ser  relativamente  redu¬ 
zida,  correspondeu  de  perto  ao  montante  cobrado  em  impostos  directos  durante  o  rei¬ 
nado121.  O  fluxo  da  circulação  monetária  atravessava  a  generalidade  das  famílias  rurais 
devido  a  motivações  exteriores,  sem  se  conjugar  estruturalmente  com  o  dia-a-dia  eco¬ 
nómico.  Os  poucos  camponeses  que  conseguiam  efectivamente  monetarizar  a  sua  acti- 
vidade  beneficiavam  com  isto  e  reforçavam-se  enquanto  elite  rural,  ou  começavam 
mesmo  a  converter-se  em  pequenos  senhores.  Como  a  promoção  social  implicava 
algum  ascendente  sobre  a  circulação  da  moeda,  todos  os  que  se  sujeitavam  passiva¬ 
mente  a  esta  circulação  sofriam  uma  dependência  agravada.  Receber  a  moeda  de 
alguém  para  lha  entregar  de  novo  implicava  manter-se  no  âmbito  do  seu  poder,  e 


117  ld..  ibid.,  1X0-183. 

1,8  Id„  ibid.,  324-327. 

119  Segundo  E.  Bndrey  ( 1906)  108-1 10.  mesmo  numa  data  tão  tardia  como  o  século  XIV  os  teóri¬ 
cos  do  poder  real  que  reconheciam  ao  monarca  o  direito  de  alterar  a  moeda  a  seu  bel-prazer,  sem  que 
tivesse  para  isso  de  consultar  os  representantes  da  classe  senhorial,  justificavam-se  com  o  facto  de  as 
peças  cunhadas  ostentarem  a  imagem  do  soberano. 

120  G.  Duby  (1952)  159-160;  id.  (1953)  514;  id.  1 1962)491,  571.  620-621;  R.  H.  Hilton  (1973  b> 
69;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  257;  M.  M  Postan  (1978  ai  225-226;  P.  Spufford  (1984)  386-388. 

121  M.  Prestwich  ( 1972)  195. 


66 


Forma  I  do  dinheiro 


decerto  para  a  mentalidade  da  época  as  consequências  económicas  deste  tipo  de  tributa¬ 
ção  não  seriam  maiores  do  que  as  implicações  mágicas122. 

Como  arranjava  o  camponês  as  moedas  necessárias  para  o  pagamento  das  presta¬ 
ções?  Antes  de  mais,  mediante  as  vendas  no  mercado,  e  parece  que  só  secundariamente 
através  do  assalariamento123.  Vejamos  cada  uma  destas  formas,  começando  pela  menos 
importante. 


1 

Quando  as  moedas  eram  veiculadas  na  forma  de  salário,  o  trabalhador  preben¬ 
dado124  tinha,  para  recebê-las,  de  se  integrar  na  domesticidade  senhorial,  sujeitando-se 
à  disciplina  que  o  chefe  da  família  aplicava  sobre  a  sua  camada  inferior.  Pelo  menos  até 
ao  século  XIV  as  prebendas  começaram  a  incluir  uma  parte  crescente  de  dinheiro- 
-  moeda123,  o  que  converteu  progressivamente  os  prebendados  temporários  em  assalaria- 


122  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  (1990)  158  observa  que  se  conjugavam  nas  exacçòes  um  aspecto 
material,  constituído  pelos  excedentes  que  a  classe  senhorial  retirava  aos  camponeses,  e  um  aspecto 
simbólico,  directamente  expressivo  das  relações  de  dependência.  E  este  historiador  acrescenta  que  a 
revolta  dos  servos  catalàes  na  segunda  metade  do  século  XV  contestou  com  maior  veemência  os  ele¬ 
mentos  simbólicos  das  prestações  do  que  os  puramente  económicos. 

122  Depois  de  discriminar  estas  duas  formas,  J.  M.  KJassen  (1978)  14  pretende  que  os  camponeses 
escolheriam  uma  ou  outra  consoante  os  preços  relativos.  Mas  teremos  oportunidade  de  ver  que  os 
múltiplos  factores  de  rigidez  institucional  impediam  que  vigorasse  um  tal  paraiso  da  livre  concorrên¬ 
cia.  Na  Picardia,  no  começo  do  período,  R.  Fossier  (1968)  449-450  calcula  que  para  a  obtenção  de 
numerário  o  trabalho  prebendado  era  mais  importante  do  que  as  vendas  no  mercado;  só  depois  os  fac¬ 
tores  se  inverteram. 

124  Referindo-se  à  situação  francesa,  E.  Petroy  (1955-1956)  232,  234  e  236  escreve  que  as  lacunas 
da  documentação  deixam-nos  numa  grande  ignorância  acerca  dos  jornaleiros  rurais  propriamente 
ditos,  ambulantes  e  inteiramente  desprovidos  de  terra.  Contudo,  R.  Fossier  (1968)  647  calcula  que  na 
Picardia  do  final  do  século  XIII  1 2%  da  população  camponesa  fosse  constituída  por  mendigos  e  outra 
gente  errante,  que  ocasionalmente  encontravam  emprego  como  prebendados,  e  33%  detivessem  casais 
tão  exiguos  que  não  podiam  subsistir  sem  alugar  suplementarmente  a  força  dos  seus  braços.  No  final 
deste  período,  numa  grande  comunidade  rural  vizinha  de  Florença,  D.  Herlihy  (1968)  258-259  e  263 
avalia  que  10%  ou  20%  da  população  eram  compostos  por  trabalhadores  sem  terra.  Na  Inglaterra  do 
século  XIII,  M.  M.  Postan  (1966)  568  estima  que  talvez  1/3  da  população  rural  estivesse  disponível 
para  alugar  a  força  dos  seus  braços,  episodicamente  ou  durante  todo  o  ano. 

125  Era  muito  raro  que  os  trabalhadores  fossem  remunerados  exclusivamente  em  numerário,  pre¬ 
vine  W.  Kula  (1970)  92.  Contudo,  já  no  começo  do  período,  no  Màconnais,  G.  Duby  (1953)  316-318 
menciona  a  existência  de  jornaleiros  pagos  unicamente  em  moeda,  e  que  por  ocasião  das  grandes  fai¬ 
nas  colaboravam  no  cultivo  do  domínio  com  os  prebendados  a  longo  prazo  e  os  caseiros  que  cum¬ 
priam  serviços  agrícolas.  E  no  final  do  século  XI,  segundo  id.  (1952)  158,  a  abadia  de  Cluny  pagava 
em  moeda  uma  parte  da  prebenda  dos  seus  criados.  Porém,  no  século  XIV,  escreve  id.  ( 1962)  570,  a 
maioria  dos  prebendados  vivia  em  sistema  doméstico  e  era  alimentada  directamente  pelos  patrões.  E, 
Perroy  (1955-1956)  235  informa  que  em  França,  no  século  XV',  os  assalariados  nas  vinhas  recebiam 
uma  escassa  remuneração  em  numerário,  mas  tinham  direito  a  uma  alimentação  abundante  e  de  boa 
qualidade.  Todavia,  para  H.  A.  Miskimin  (1963)  21.  na  França  do  século  XIV  os  trabalhadores  pagos 
em  géneros  recebiam  também  uma  soma  em  moeda,  e  havia  os  remunerados  totalmcnte  em  numerᬠ
rio.  Segundo  Ph.  Dollinger  (1949)  156.  166  e  461-462,  a  evolução  parece  ter  sido  cspecialmente  tar¬ 
dia  na  Baviera,  onde  só  no  século  XIII  surgiram  os  primeiros  sintomas  de  conversão  de  uma  domesti¬ 
cidade  não-livre  em  prebendados  temporários  dispondo  de  mobilidade;  ao  mesmo  tempo  a  moeda 


Veiculaçâo  monetária  das  relações  de  dependência 


67 


dos.  Através  dos  contactos  com  o  restante  campesinato,  estes  trabalhadores  propaga¬ 
ram  a  oferta  monetária  em  direcção  à  globalidade  da  classe  servil.  Aliás,  muitas  vezes 
as  mesmas  pessoas  ocupavam  posições  em  ambas  as  classes,  quando  chefes  de  famílias 
de  caseiros  pobres,  ou  as  suas  mulheres  ou  filhos  e  filhas,  trabalhavam  suplementar¬ 
mente  como  prebendados  ao  serviço  de  senhores  ou  de  camponeses  abastados.  Isto 
sucedia  especialmente  na  altura  em  que  eram  mais  intensas  as  fainas  agrícolas126,  ou 
por  ocasião  de  más  colheitas  que,  requerendo  menos  mão-de-obra  no  âmbito  dos 
casais,  libertavam  braços  para  outros  tipos  de  actividade  nas  instalações  do  domínio127. 
Houve  igualmente  camponeses  a  procurar  emprego  no  artesanato,  quer  inseridos  no  sis¬ 
tema  empresarial  montado  a  partir  das  cidades  (ver  na  Parte  II  os  capítulos  I2.b  e  13.c), 
quer  no  quadro  de  manufacturas  inteiramente  rurais128,  embora  nem  sempre  seja  fácil 
saber  se  quem  trabalhava  nestas  oficinas  eram  camponeses  ou  artesãos  vindos  dos  cen¬ 
tros  urbanos129.  Os  especialistas  discutem  em  que  medida  teriam  assim  aumentado  as 


começou  a  ocupar  um  lugar  secundário  nas  prebendas,  embora  isto  sucedesse  só  excepcionalmente  e 
se  verificasse  nas  cidades  antes  de  se  difundir  pelos  campos.  Na  Itália,  a  crer  em  Ph.  Joncs  (1966  b) 
411.  os  prebendados  temporários  eram  geralmente  remunerados  em  géneros.  E.  Miller  (1966)  131 
indica  que  na  Inglaterra  do  século  XIII  os  prebendados  que  serviam  por  longo  prazo  eram  pagos  ou 
em  géneros,  ou  em  moeda,  ou  de  forma  mista.  Com  efeito.  P.  Coss  (1991)  101-102  e  Ch.  Dyer  (1980) 
142  dão  exemplos  de  remuneração  em  cereais  e  moeda.  Também  relativamente  à  InglateiTa,  M.  M. 
Postan  (1978  a)  224-225  menciona  a  possibilidade  de  as  prebendas  incluírem  adicionalmente  numerᬠ
rio;  mas  P.  Spufford  ( 1984)  365-366  refere  a  existência  de  salários  em  moeda.  Nas  senhorias  inglesas 
de  pequenas  dimensões,  cuja  área  dominial  era  proporcionalmente  superior  à  das  grandes  senhorias  e 
que  empregavam  também  um  maior  número  de  prebendados,  estes  recebiam  geralmente  numerário, 
consoante  esclarece  G.  Duby  (1962)  503-505.  Note-se  que.  segundo  E.  Perroy  (1955-1956)  235. 
enquanto  no  final  do  periodo  a  alimentação  fornecida  à  mão-de-obra  prebendada  era  abundante  em 
França,  ela  era  frugal  na  Inglaterra  do  século  XIII.  Em  Portugal,  A.  Castro  (1964-1979)  V  quadro  VI 
indica  que  a  maior  parte  das  remunerações  dos  prebendados  assumia  uma  forma  mista,  incluindo 
géneros  e  moeda,  mas  o  pagamento  podia  também  efectuar-se  só  em  géneros  ou  só  em  numerário. 
Segundo  A.  H.  O.  Marques  ( 1964)  145  e  (1968)  229,  persistiu  ao  longo  de  todo  o  periodo  a  remunera¬ 
ção  em  moeda,  cereais  e  peças  de  vestuário;  mas  id.  (1964)  146  escreve  que  a  partir  do  final  do  século 
XIV  os  trabalhadores  agrícolas  receberam  praticamente  só  numerário,  além  de  uma  refeição  por  conta 
do  patrão.  H.  G.  Barros  (1945-1954)  IV  336  regista  uma  lei  dos  meados  do  século  XIII  que  fixou  em 
termos  pecuniários  várias  remunerações  de  trabalhadores  rurais 

126  F.  L.  Carsten  (1954)  79;  A.  Castro  (1964-1979)  V  188-189;  G.  Duby  (1962)  515-516;  R. 
Fossier  (1968)  647:  R.  Hilton  (1977-1978)  276-277;  Ph.  Jones  (1966  b)  426;  J.  M.  Klassen  (1978)  9; 
E.  A.  Kosminsky  (1956)  294-296,  298;  L  A.  Kotclnikova  ( 1975)  66:  Ch.  Middleton  (1981)  124-125; 
M.  Mollat  (1978)  70:  E.  Perroy  (1955-1956)  235-236;  M.  M.  Postan  (1966)  622-623;  id.  (1978  a) 
149;  P.  Spufford  (1984)  362-363;  R.  G.  Witt  ( 1971 )  974. 

Nos  campos  cerealíferos  do  sul  da  Itália  e  da  Sicília.  Ph.  Jones  (1966  b)  425-426  indica  que  no 
século  XIV  a  grande  maioria  dos  servos  havia  sido  convertida  em  prebendados  temporários,  ou  parti¬ 
cipava  simultaneamente  de  ambos  os  estatutos. 

127  W.  Kula  (1970)  35. 

128  J.  Birrell  ( 1969)  92  e  segs.;  G.  Duby  (1962)  257;  R.  Fossier  et  al.  (1955)  I  447. 

O  surto  tardio  do  artesanato  têxtil  nas  regiões  rurais  foi  sobretudo  estudado  por  E.  M.  Carus-Wil- 
son  (1954)  e  (1959-1960)  para  o  caso  inglês.  Mas,  segundo  G.  Duby  (1962)  621.  ele  ocorreu  igual- 
mente  na  região  de  Augsburgo,  em  redor  de  Bourg-en-Bresse  e  nos  campos  do  Languedoc.  E  Four- 
nial  (1967)  399  esclarece  que  o  fabrico  têxtil  se  iniciou  no  Forez.  no  século  XIV,  como  uma  activi¬ 
dade  essencialmente  rural. 

129  E.  M.  Carus- Wilson  (1959-1960)  estuda  dois  centros  de  manufactura  têxtil  implantados  em 


68 


Forma  I  do  dinheiro 


oportunidades  de  assalariamento  das  camadas  rurais  mais  pobres110,  mas  há  quem 
defenda  que  talvez  fosse  o  peso  crescente  das  exacções  em  numerário  a  suscitar  em 
várias  regiões  do  continente  e  da  Inglaterra,  a  partir  do  final  do  período,  uma  considerᬠ
vel  ruralização  do  fabrico  de  tecidos111.  De  uma  maneira  ou  outra,  as  moedas  obtidas 
graças  ao  trabalho  prebendado  disseminavam-se  na  classe  servil. 

Desde  cedo  que  os  senhores  empregaram  os  rendimentos  monetários  resultantes  da 
comutação  dos  serviços  de  trabalho,  ou  talvez  mesmo  só  uma  porção  destes  rendimen¬ 
tos.  para  angariar  mão-de-obra  dominial113.  É  desprovida  de  sentido  uma  grande  parte 
da  discussão  que  vários  autores  travam  para  decidir  se  a  aristocracia  lucraria  ou  não 
com  as  comutações  dos  serviços  agrícolas1-13.  Se  avaliássemos  em  dinheiro  as  despesas 


regiões  inteíramente  rurais  da  Inglaterra,  no  final  do  período  e  mesmo  depois.  Quanto  a  uni  deles, 
afirma  (pp.  196-197)  que  a  documentação  é  insuficiente  para  dar  uma  ideia  preeisa  das  condições  dc 
vida  dos  assalariados.  Quanto  ao  outro,  vê-se  (pp.  199.  202)  que  no  século  XV  a  maior  parte  dos  ope¬ 
rários  era  constituída  por  artífices  sem  terra,  e  não  por  caseiros  que  completassem  assim  os  seus  ren¬ 
dimentos;  c  os  empresários  nào  prosseguiam  pessoalmente  qualquer  actividade  agrícola  (p.  202). 
Referindo-se  também  à  Inglaterra,  J.  Thirsk  ( 1961 )  70-71  procura  testar  a  hipótese  de  que  as  instala¬ 
ções  rurais  de  fabrico  têxtil  tivessem  surgido  em  vimidc  do  fraccionamento  das  terras  por  herança,  o 
que  diminuía  as  possibilidades  de  subsistência  dos  camponeses  e  os  obrigava  a  procurar  fontes  de  ren¬ 
dimento  suplementares,  empregando-se  nas  manufacturas  rurais;  estes  estabelecimentos  não  se  deve¬ 
riam  à  iniciativa  empresarial  nem  â  pressão  da  procura,  mas  à  oferta  de  força  de  trabalho.  Na  conti¬ 
nuação.  a  autora  parece  presumir  (pp.  72  e  segs.)  que  a  mera  fixação  no  meio  rural  de  um  centro  de 
fabrico  de  tecidos  implicasse  que  os  seus  operários  fossem  pequenos  camponeses  dos  arredores,  sem 
no  entanto  adiantar  provas  para  tal  suposição  Numa  perspectiva  oposta,  E.  Miller  (1965  a)  70-71 
afirma  que  a  sobrecarga  fiscal  que  começou  a  recair  sobre  as  corporações  do  têxtil  em  Inglaterra 
levou  os  seus  membros  a  fugir  das  cidades  e  a  desenvolverem  a  produção  de  tecidos  no  campo.  Sendo 
assim,  isto  parecc-me  confirmar  a  existência  de  uma  clivagem  social  entre  a  actividade  agrária  e  a 
manufactura  têxtil  rural.  No  entanto,  Edward  Miller  apresenta  (pp.  73-74)  o  sobrepovoamento  dos 
campos  como  um  factor  que  facilitava  a  obtenção  de  mão-de-obra  para  o  artesanato. 

Na  região  de  Aix-la-ChapelIe.  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XII,  J.  B.  Russel!  (1965)  1 14- 
-117  assinala  um  exemplo  extremo,  e  bastante  complexo,  de  hostilidade  de  uma  comunidade  rural 
para  com  os  tecelões  que  aí  haviam  começado  a  fixar-se.  Isto  parece-me  demonstrar  que,  em  tal  caso, 
os  tecelões  nào  vinham  do  campo  e  eram  profissionais  especializados. 

110  R.  H.  Hilton  (1969)  33  considera  duvidoso  que  o  desenvolvimento  do  artesanato  têxtil  em 
várias  regiões  rurais  da  Inglaterra  tivesse  acrescido  significativamente  a  procura  de  força  de  trabalho; 
e  E.  Miller  (1965  a)  64  calcula  que  no  extremo  final  deste  período  a  mão-de-obra  necessária  à  manu¬ 
factura  têxtil  inglesa  nào  representasse  mais  do  que  15.000  pessoas  em  pleno  emprego,  o  que  equiva¬ 
leria  a  0.65%  da  população  do  país. 

131  É  esta  a  explicação  proposta  por  G.  Duby  (1962)  621. 

112  Em  geral,  quanto  ao  pagamento  de  assalariados  com  o  dinheiro  obtido  gTaças  á  comutação  dos 
serviços  de  trabalho,  ver:  H.  Dubled  (1960  a)  451;  G.  Duby  (1962)  506;  R.  Fossier  (1968)  588;  F.  L. 
Ganshof  et  al.  (1966)  314-316.  Note-se  que,  segundo  Ph.  Jones  (1966  b)  41 1,  esta  prática  foi  pouco 
difundida  em  Itália. 

135  Alguns  historiadores  consideram  que,  para  os  senhores,  o  produto  monetário  das  comutações 
de  serv  iços  de  trabalho  era  geralmente  superior  ao  custo  do  assalariamento  da  mão-de-obra  necessária 
para  executar  as  mesmas  tarefas:  G.  Duby  (1962)  427;  L.  K.  Little  (1978)  32;  R.  G.  Witt  (1971)  973. 
Acresce  ainda  que,  como  observam  G.  Duby  (1959  a)  144,  id.  (1973)  107,  M.  M.  Postan  (1966)  601- 
-602  e  R.  G.  Win  (1971)  973,  o  esforço  dos  assalariados  era  mais  produtivo  do  que  o  dos  caseiros 
obrigados  ao  cumprimento  de  serviços  agrícolas.  Além  disso,  segundo  G.  Duby  (1962)  506,  o  trabalho 
assalariado  adaptava-se  melhor  às  necessidades  senhoriais  do  que  os  serviços  dc  trabalho.  No  começo 
do  segundo  terço  do  século  XIV,  num  conjunto  senhorial  dos  Hospitalários  situado  nos  Alpes  meri- 


\  cictiUtijiH*  nit/nt’hinu  tias  rciatões  tic  depende  w.  ia 


o  9 


efectuadas  em  géneros  no  sector  não-monetarizado  da  economia  senhorial,  e  especial¬ 
mente  se  multiplicássemos  o  salário  pago  a  um  jornaleiro  pelo  número  de  caseiros  que 
executavam  serviços  agrícolas  no  domínio,  decerto  a  exploração  dominial  directa  daria 
grandes  prejuízos134.  Mas  um  cálculo  deste  tipo  é  improcedente,  porque  a  massa  dos 
camponeses  laborava  em  condições  estritamente  servis,  sem  alugar  regularmente  a 
força  dos  seus  braços  e,  portanto,  nesta  esfera  social  a  oferta  de  força  de  trabalho  era 
muito  superior  à  procura.  Ao  mesmo  tempo,  como  só  um  número  bastante  limitado  de 
pessoas  estava  disponível  para  se  apresentar  no  mercado  de  trabalho,  a  procura  de  mão- 
-de-obra  aí  podia  ultrapassar  a  oferta  e,  assim,  serem  relativamente  altos  os  salários135. 
E  precisamente  porque  o  volume  dc  mão-de-obra  disponível  no  mercado  estava  limi¬ 
tado  a  curto  e  a  médio  prazo,  aquele  aumento  das  remunerações  não  exercia  qualquer 
efeito  de  estímulo  sobre  a  oferta  de  trabalhadores  prebendados  e  os  salários  podiam 
manter-se  num  nível  elevado136.  Compreende-se,  assim,  que  em  ocasiões  em  que  se 
agudizou  a  escassez  relativa  de  jornaleiros  e  em  que  as  remunerações  subiram  conside¬ 
ravelmente,  como  sucedeu  na  Inglaterra  na  sequência  da  grande  peste  dos  meados  do 
século  XIV,  muitos  senhores  preferissem  raptar  camponeses  a  angariar  jornaleiros  no 
mercado  de  trabalho1-'7.  Em  suma.  é  errado  avaliar  com  critérios  monetários  o  sector 
não-monetarizado  da  economia  e,  portanto,  não  tem  qualquer  cabimento  a  tentativa  de 
apresentar  médias  globais  formuladas  em  termos  pecuniários.  Devemos  ter  isto  em 
conta  para  entendermos  a  conversão  dos  serviços  agrícolas  em  aluguer  de  mão-de-obra. 
O  número  crescente  de  prebendados  temporários  pagos,  pelo  menos  parcialmente,  em 
dinheiro-moeda  estava  em  estreita  relação  com  os  progressos  da  comutação  das  presta¬ 
ções  de  trabalho. 

Aliás,  existiu  um  elo  estrutural  entre  os  dois  processos.  A  execução  dos  serviços  de 
trabalho  representava  uma  forma  temporária  de  inclusão  das  famílias  serv  is  na  domesti- 


dionais,  id.  ( 1959  a)  143-144  calcula  que  o  eventual  montante  monetário  que  resultaria  da  comutação 
dos  serv  iços  de  trabalho  corresponderia  a  metade  dos  salários  pagos  aos  jornaleiros  e  a  outros  preben¬ 
dados;  como,  porém,  os  caseiros  eram  remunerados  durante  a  execução  dos  serviços,  Georges  Duby 
considera  que  este  sistema  sairia  muitas  vezes  mais  caro  do  que  o  recurso  ao  assalanamento.  Todavia, 
id.  (1962)  516-518  avalia  que  as  despesas  com  os  assalariados  e  o  gado  e  com  a  conservação  das 
alfaias  reduziam  muito  os  rendimentos  das  explorações  cerealíferas,  exceptuando  os  casos  em  que  a 
conjuntura  comercial  fosse  particularmente  propicia  ou  em  que  a  produtividade  fosse  superior  a  4/1; 
bastante  mais  rentável,  segundo  este  historiador,  sena  o  emprego  de  assalariados  na  pecuária  e  na  viti¬ 
cultura.  F.  no  conjunto  senhorial  do  bispado  de  Worcester,  na  segunda  metade  do  século  XIV.  os  cus¬ 
tos  do  assalariamento  representavam  uma  parte  muito  considerável  dos  custos  totais  da  exploração 
dominial  directa,  a  crer  em  Ch.  Dyer  (1980)  140 

134W.  Kula  ( 1970)  17-21.  23. 

135  Esta  questão  é  tratada  brilhantemente  por  id..  ibid.,  23. 

136  No  regime  senhorial,  esclarece  id.,  ibid.,  80-81.  não  havia  normalmente  reservas  de  potencial 
produtivo  que  respondessem  a  um  aumento  dos  preços,  visto  que  os  incultos  não  podiam  ser  explora¬ 
dos  a  curto  prazo  e  a  força  dc  trabalho  não  tinha  mobilidade,  além  de  só  uma  pequena  parte  dela  se 
assalariar.  Acerca  deste  problema  ver  ainda  a  p.  37.  Numa  perspectiva  convergente,  e  a  propósito  do 
sucedido  nas  Espanhas,  R.  S.  Smith  (1966)  436  observa  que  a  estreita  margem  existente  entre  as 
necessidades  de  subsistência  e  a  produção  corrente  tendia  a  fazer  com  que  o  senhor  pressionasse  os 
caseiros  a  manterem-se  fixos  e  que  eles  aceitassem  esta  relativa  imobilidade. 

137  R.  H.  Hiltont  1949-1950)  133. 


70 


Forma  J  do  dinheiro 


cidade  senhorial.  Para  além  dos  seus  resultados  materiais  efectivos,  aqueles  serviços 
eram  como  que  o  eco  de  uma  época  já  há  muito  ultrapassada,  quando  as  relações  de 
dependência  mal  se  esboçavam  ainda  no  quadro  de  sujeição  em  que  labutava  a  camada 
inferior  das  famílias  dos  poderosos.  Ora.  a  prebenda  constituía  precisamente  o  sistema 
de  remuneração  em  que  mais  sobressaía  a  autoridade  doméstica,  o  que  explica  que  a 
execução  de  serviços  de  trabalho  desse  tradicionalmente  direito  a  receber  uma  pre¬ 
benda138.  Este  pagamento  começou  pouco  a  pouco  a  incluir  uma  parte  em  moeda139,  a 
tal  ponto  que  seria  às  vezes  difícil  na  prática  discernir  se  alguém  cumpria  serviços  de 
trabalho  e  era  gratificado  predominantemente  em  numerário,  ou  se  se  tratava  de  um 
prebendado  muito  próximo  do  assalariamento140.  A  confusão  atingia  um  grau  extremo 
quando  um  caseiro  assalariava  outra  pessoa  para  ir  em  vez  dele  prestar  os  serviços  de 
trabalho  a  que  estava  obrigado141.  Sob  o  ponto  de  vista  senhorial  tratava-se  de  uma 
exacção  e  era  sob  a  autoridade  do  bannum  que  aquelas  fainas  se  executavam,  mas  no 
contexto  das  relações  entre  camponeses  tratava-se  de  um  assalariamento.  É  um  leque 
de  situações  deveras  interessante  para  definir  a  génese  do  assalariamento  rural,  pois 
esta  forma  de  exploração,  que  o  decurso  da  história  haveria  de  juntar  a  outras  do 
mesmo  tipo  para  inaugurar  um  modo  de  produção  novo,  nasceu  no  quadro  das  domesti¬ 
cidades  senhoriais,  precisamente  onde  se  mantinham  os  traços  mais  fortes  de  arcaísmo. 

E  não  é  menos  curioso  recordar  que,  ao  mesmo  tempo  que  uma  nova  categoria  de 
prebendados,  gente  sem  eira  nem  beira,  recebia  em  numerário  uma  parte  crescente  da  sua 
remuneração,  muitos  prebendados  permanentes  abandonavam  parcialmente  a  domes¬ 
ticidade  senhorial  e  passavam  a  residir  em  minúsculas  parcelas,  adjacentes  à  casa  prin¬ 
cipal,  o  que  lhes  proporcionava  a  constituição  de  unidades  familiares  próprias143.  Ainda 


138  Vários  autores  mencionam  a  distribuição  de  prebendas  aos  caseiros  enquanto  eles  prestavam 
serviços  agrícolas  no  domínio.  Era  o  que  sucedia  na  Lorena:  J.  L.  Bessmertnyi  referido  em  A.  Liou- 
blinskaía  (1963)  722;  na  Alsácia:  H.  Dubled  (1960  a)  449;  na  Baviera:  Ph.  Dotlinger  (1949)  162-163; 
no  Maine:  A.  Bouton  ( 1975-1976)  11  220;  nos  Alpes  meridionais:  G.  Duby  (1959  a)  143-144:  na  Itᬠ
lia:  Ph.  Jones  (1966  b)  41 1;  L.  A.  Kotelnikova  (1968)  642;  id.  (1975)  53:  na  Inglaterra:  G.  Duby 
(1962)  505-506:  E.  A.  Kosminsky  (1956)  303-304,  Sabe-se  também  da  concessão  de  prebendas 
durante  a  execução  de  serviços  de  transporte:  em  Itália:  L.  A.  Kotelnikova  (1968)  642;  id.  ( 1975)  53; 
em  Portugal:  R.  Durand  (1982)  376. 

1,9  Na  Baviera,  ao  longo  dos  séculos  XII  e  XIII.  a  prebenda  concedida  aos  caseiros  que  prestavam 
serviços  de  trabalho  começou  progressivamente  a  incluir  numerário,  consoante  indica  Ph.  Dollinger 
( 1949)  163.  No  Maine,  A.  Bouton  (1975-1976)  II  220  informa  que  a  partir  do  princípio  do  século  XII 
quase  todos  os  que  cumpriam  serviços  de  trabalho  recebiam  como  remuneração  ou  o  alimento  ou  um 
denier  por  dia.  Nos  Alpes  meridionais.  G.  Duby  1 1959  a)  143-144  menciona  o  caso  de  um  conjunto 
senhorial,  no  segundo  terço  do  século  XIV,  onde  por  vezes  sucedia  que  figurassem  moedas  na  pre¬ 
benda  recebida  pelos  caseiros  durante  a  execução  dos  serviços.  Na  Inglaterra  do  século  XIII  os  ali¬ 
mentos  que  por  tradição  eram  dados  a  quem  realizava  serviços  de  trabalho  haviam  sido  frequente¬ 
mente  substituídos  por  gratificações  monetárias,  segundo  afirma  E.  A.  Kosminsky  (1956)  303. 

140  Ph.  Dollinger  (1949)  163  comenta  que.  embora  a  prestação  de  serviços  de  trabalho  se  distin¬ 
guisse  do  assalariamento  pelo  seu  carácter  obrigatório,  o  facto  de  se  receber  uma  remuneração 
incluindo  uma  parte  em  dinheiro-moedas  aproximava  aquela  modalidade  do  trabalho  assalariado. 
Também  E.  A.  Kosminsky  (1956)  302-303  e  306  observa  a  dificuldade  de  distinguir  entre  os  serviços 
de  trabalho  e  o  assalariamento. 

141  Ver  a  n.  1 2  do  capítulo  1 . 

,J*  H.  Aubin  (1966)478-479;  H.  G.  Barros  ( 1945-1954)  VII  313  esegs.:  F.  L  Carstcn  ( 1954)  79; 


i  acuhiçào  monetaria  dtis  rclaçôfs  de  dependência 


71 


aqui  o  grupo  social  dos  prebendados  temporários,  tão  variado  na  sua  composição  e 
múltiplo  nas  suas  origens,  foi  novamente  marcado  por  conotações  acentuadamente 
arcaicas.  Assim,  enquanto  por  um  lado  a  velha  domesticidade  senhorial  continuava  a 
fragmentar-se  no  seu  interior,  por  outro  lado  atraía  elementos  de  fora.  Mais  ainda, 
sujeitava  estes  elementos  exteriores  a  formas  coercivas  idênticas  às  que  haviam  antes 
caracterizado  a  prestação  de  serviços  de  trabalho143.  Nem  pelo  pagamento  que  obti¬ 
nham,  nem  pelo  sistema  que  os  enquadrava,  os  prebendados  se  distinguiam  claramente 
dos  tradicionais  executantes  de  serviços  no  âmbito  da  domesticidade. 

É  nesta  perspectiva  que  devemos  analisar  o  contimam  que  ia  desde  o  escravismo 
doméstico  até  aos  jornaleiros  altamente  móveis  e  assalariados  ao  dia144,  passando  pelos 
não-livres  ligados  à  domesticidade143,  pelos  prebendados  perenes146,  pelos  que  serviam 
durante  longos  períodos  e  por  aqueles  membros  de  famílias  de  caseiros  pobres  que 
arranjavam  um  emprego  suplementar  nas  épocas  de  maior  acumulação  das  fainas  agrí¬ 
colas.  Os  contornos  deste  meio  social  mantinham-se  incertos.  Por  um  lado,  como 
vimos,  sucedia  que  as  mesmas  pessoas  alternassem  entre  a  condição  de  servos  e  a  de 
prebendados,  e  esta  oscilação  reflectia-se  por  vezes  no  vocabulário  que  as  designava147. 
Por  outro  lado,  muitos  dos  que  num  dia  eram  mendigos  podiam  assalariar-se  no  dia 
seguinte  para  voltarem  depois  a  esmolar.  Não  se  encontra  neste  período  qualquer  termo 
que  designasse  o  desemprego,  porque  o  que  na  realidade  existia  eram  pedintes148,  defi¬ 
nidos  em  função  da  caridade,  e  não  desempregados,  que  só  adquiriram  sentido  quando 
se  generalizou  e  tomou  consistência  um  mercado  de  trabalho. 


A.  Castro  (1964-1979)  V  194,  200;  G.  Duby  (1962)  422-423;  id.  (1973)  251-252;  Ph.  Jones (1966  b) 
426. 

Esta  categoria  de  trabalhadores  domésticos  estabelecidos  em  pequeníssimas  parcelas  tem  sido 
objecto  de  especial  atenção  por  parte  dos  historiadores  interessados  pela  situação  em  Inglaterra:  H.  P. 
R.  Finberg  (1972)  510-511;  R.  Hilton  (1973  a)  57;  E.  Kosminsky  (1955  b)  21;  id.  (1956)  275,  298- 
-299,  301-302.  304-306,  310-313.  315-316;  id.  (1963)  77,  86,  F.  M.  Stenton  (1971)  475.  Em  Portugal, 
os  cabaneiros  denominavam-se  assim  por  habitarem  cabanas,  e  a  documentação  estudada  por  H.  G. 
Barros  (1945-1954)  VII  318  revela  que  este  termo  se  aplicava  ao  curral  onde  o  gado  era  recolhido. 
Será  difícil  ilustrar  melhor  o  estatuto  atribuído  a  esta  categoria  social. 

141  H.  G.  Barros  (1945-1954)  III  18-19.  A.  Castro  (1964-1979)  V  236  e  segs.;  A.  Cunhal  (1963) 
99;  E.  A.  Kosminsky  (1956)  303,  306,  3)6. 

144  A  propósito  do  sucedido  no  conjunto  senhonal  do  bispado  de  Worcester,  Ch.  Dyer  (1980)  142 
escreve  que  as  questões  em  tribunal  revelavam  a  aversão  dos  prebendados  aos  contratos  anuais,  sendo 
preferida  a  situação  dc  jornaleiro.  E  em  Portugal,  a  partir  do  termo  do  século  XIV.  os  salários  passa¬ 
ram  a  pagar-se  ao  dia.  e  não  ao  ano.  consoante  indica  A.  H.  O.  Marques  <  1964)  146. 

145  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  1  742-743  relata  que  na  Borgonha  do  século  XIV  perduravam 
ainda  não-livres  domésticos,  que  não  eram  escravos,  pois  tinham  o  direito  de  abandonar  o  senhor  se 
este  não  lhes  fornecesse  o  sustento;  nos  meados  do  século  seguinte,  porém,  já  este  grupo  social  havia 
desaparecido. 

146  E.  A.  Kosminsky  (1956)  292  indica  que  ainda  no  século  XIII  se  encontravam  em  Inglaterra, 
encarregues  do  cultivo  dos  domínios,  prebendados  permanentes  que  descendiam  de  antigos  escravos 
domésticos. 

147  Na  Inglaterra  do  século  XIV,  segundo  B.  A.  Hanawalt  ( 1986)  163,  o  termo  « serviens »  desig¬ 
nava  tanto  os  criados  domésticos  a  tempo  inteiro  como  os  camponeses  que  complementavam  com  o 
trabalho  assalariado  os  rendimentos  provenientes  de  parcelas  exíguas. 

148  Segundo  C.  M.  Cipolla  (1976)  19  não  havia  neste  periodo  palavras  para  denominar  os  desem- 


72 


Forma  l  do  dinheiro 


Neste  contexto,  e  se  ignorássemos  os  caprichos  posteriores  da  história,  diríamos 
certamente  que  o  assalariamento  representava  um  fenómeno  retrógrado.  Por  isso  a  pas¬ 
sagem  das  prestações  de  trabalho  ao  sistema  de  recrutamento  de  mão-de-obra  mediante 
salário,  e  a  transformação  de  um  modo  de  pagamento  no  outro,  não  implicaram,  nas 
condições  da  época,  um  corte  drástico,  mas  pelo  contrário  uma  evolução  gradual.  Tanto 
mais  que  a  relação  se  verificou  também  em  sentido  inverso. 

Com  efeito,  os  géneros  foram  ao  longo  de  todo  este  período  uma  componente  muito 
importante  da  prebenda  concedida  aos  trabalhadores  domésticos  temporários.  Parece 
que  a  maior  parte  deles  se  empregava  por  prazos  anuais,  consistindo  então  a  principal 
remuneração  no  alojamento  e  na  alimentação,  e  sendo  o  pagamento  em  numerário  um 
mero  suplemento149.  A  situação  podia  tomar-se  ainda  mais  complexa  quando  se 
incluíam  na  prebenda  do  trabalhador  temporário  géneros  do  mesmo  tipo  daqueles  que 
cultivava150.  Se  a  prebenda  fosse  fixada  numa  percentagem  da  colheita  do  domínio  em 
cujo  amanho  o  trabalhador  temporário  participara151,  a  diferença  seria  mínima  relativa¬ 
mente  a  um  caseiro  que  detivesse  a  parcela  por  um  prazo  fixo  e  pagasse  como  tributo 
uma  percentagem  da  colheita.  Por  vezes  as  condições  de  caseiro  e  de  prebendado  con¬ 
fundiram-se  na  prática152. 

2 

Foram  os  mercados,  e  não  o  assalariamento,  o  mecanismo  principal  para  a  obtenção 
generalizada  das  moedas  necessárias  à  veiculação  da  dependência  impessoal.  O  uso  de 
peças  cunhadas  não  se  difundiu  para  satisfazer  um  acréscimo  das  transacções  mercan¬ 
tis.  O  processo  causal  foi  exactainente  o  inverso.  A  dependência  impessoal  suscitou  o 
aumento  do  emprego  de  numerário,  cuja  obtenção  exigiu  o  desenvolvimento  do  mer¬ 
cado.  No  meio  rural  o  dinheiro-moeda  funcionou,  antes  de  mais,  como  símbolo  das 
novas  relações  servis,  e  o  mercado  foi  acima  de  tudo  o  lugar  onde  estes  símbolos 
podiam  ser  conseguidos.  As  transacções  no  mercado  aumentaram  para  possibilitar  aos 
camponeses  a  satisfação  das  exigências  pecuniárias  dos  senhores153.  Foi  esta  a  função 
do  dinheiro,  na  sua  Forma  I. 


pregados,  que  se  confundiam  com  os  mendigos.  E,  no  seu  estudo  de  uma  aldeia  dos  Pirenéus  france¬ 
ses.  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975)  557-558  observa  que  « pauper »  classificava  tanto  um  mendigo  como 
um  camponês  obrigado  a  assalariar-se  por  não  possuir  terra  nem  animais  de  tiro.  Ver  igualmente  R. 
Fossier  (1968)  647. 

149  P.  Spufford  11988)  235. 

G.  Duby  ( 1962)  570  afirma  que  no  século  XIV  a  maior  parte  dos  prebendados  vivia  em  sistema 
doméstico,  sendo  directamente  alimentada  pelos  patrões. 

150  G.  Pasquali  ( 1 985)  77-78;  R.  S.  Smith  ( 1 966)  438. 

151  H.  Aubin  (1966)478-479;  P.  J.  Jones  (1968)  199. 

152  Na  Itália,  Ph.  Jones  (1966  b)  413-414  observa  que  era  grande  a  confusão  enlre  os  contratos  de 
mezzadria  e  os  de  assalariamento,  chegando  a  parte  da  colheita  que  cabia  ao  me:: adro  a  ser  denomi¬ 
nada  «salário».  R.  Rmaldi  (1987)  192-193  menciona  na  região  de  Luca.  na  penúltima  década  do 
século  XIII,  um  contrato  de  arrendamento  que  conjugava  características  de  mezzadria  c  dc  assalaria¬ 
mento.  Quanto  a  esta  questão  ver  ainda  D.  Heriihv  ( 1968)  263  e  275. 

I>’  Ao  analisarem  a  génese  histórica  de  todas  estas  questões.  P  Einzig  ( 1948)  vi  e  A.  II  Quiggin 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


73 


Fica  assim  explicado  o  prevalecimenio  dos  mercados  locais  e  das  pequenas  transac- 
ções  de  géneros  agrícolas154.  Mesmo  a  economia  urbana  desenvolveu-se  na  maioria  dos 
casos  em  função  do  comércio  com  as  áreas  rurais  vizinhas155,  apesar  de  tantos  historia¬ 
dores  a  associarem  às  operações  grossistas  de  longo  curso,  nomeadamente  referentes  a 
artigos  manufacturados.  O  mercado  não  se  expandiu  neste  período  devido  a  pressões  da 
oferta  de  produtos,  mas  em  virtude  da  procura  de  numerário.  Por  isso  a  principal  activi- 
dade  económica  não  dizia  respeito  a  bens  desde  início  destinados  ao  mercado  e  fabrica¬ 
dos  por  profissionais  especializados,  mas  aos  excedentes  da  produção  comum,  devidos 
aos  menos  especializados  de  todos  os  trabalhadores  de  então,  os  camponeses.  Só  pode¬ 
mos  entender  a  dinâmica  económica  deste  período  se  analisarmos  o  quadro  de  transac- 
çòes  predominante  na  perspectiva  de  uma  multiplicidade  de  pequenos  actos  de  procura 
de  moeda,  e  não  de  um  número  reduzido  de  grandes  actos  de  oferta  de  produtos. 

O  papel  desempenhado  pelo  dinheiro-moeda  como  instrumento  das  relações  impes¬ 
soais  de  dependência  esclarece  as  características  do  mercado  no  regime  senhorial. 
Defender  que  a  difusão  de  uma  economia  mercantil  aumentou  a  prosperidade  rural, 
como  fazem  certos  autores,  para  em  seguida  reconhecerem  que  o  acréscimo  dos  rendi¬ 
mentos  dos  camponeses  permitiu  à  classe  dominante  extorquir  um  maior  volume  de 
exacções.  não  é  senão  uma  maneira  desviada  de  ocultar  o  processo  real.  A  ampliação 
da  exploração,  tendo  como  instrumento  o  dinheiro-moeda,  engrossava  o  caudal  da  cir¬ 
culação  monetária,  de  modo  que  a  efervescência  económica  no  meio  rural  foi  o  corolᬠ
rio  daquele  fluxo  que  continuameme  alimentava  os  cofres  senhoriais.  O  desenvolvi¬ 
mento  do  mercado  não  acarretou  uma  maior  liberdade  dos  camponeses  nem  correspon¬ 
deu  a  qualquer  génese  do  capitalismo.  Neste  período,  o  mercado  manifestou  o  novo 
modo  de  operar  do  próprio  regime  senhorial156.  Por  outro  lado.  sabendo  nós  (desde  o 


(1949)  7-8  insistem  na  origem  não-comercial  do  dinheiro.  Também  M.  Mauss  (1923-1924)  34 
observa  que  nas  sociedades  de  troca  de  presentes  o  mercado  surgiu  independentemente  do  dinheiro. 

154  Ver  em  geral:  R.  S.  Lope/  (1974)  133.  Acerca  da  situação  cm  Portugal:  A.  H.  O.  Marques 
(1968)  124.  Accrca  da  Polónia:  S.  fabaczynski  (1962)  231-233. 

155  .1.  Ileers  (1990)  161  recorda  que  onginariamente,  e  por  vezes  durante  muito  tempo,  o  mercado 
urbano  leve  uma  vocação  sobretudo  rural  O  mesmo  carácter  agrário  e  local  é  afirmado  por  J.  K.  Hyde 
(1973)  33,  73-74  c  156-157  para  o  comércio  das  cidades  italianas.  E.  na  Inglaterra,  E.  Kosmmsky 
(1955  b)  1 6  e  ( 1963)  73  atribui  aos  camponeses  o  principal  papel  na  venda  de  géneros  alimcntioios  às 
cidades.  R.  Hilton  ( 1979)  10-1  l  desenvolve  esta  constatação  num  modelo  analítico,  distinguindo  dois 
grandes  ttpos  dc  cidades.  A  maioria  desenvolvera-se  a  partir  da  necessidade  sentida  pelos  camponeses 
de  vender  os  seus  excedentes  de  maneira  a  obterem  numerário  com  que  pagar  as  prestações.  Este  tipo 
de  centros  urbanos,  onde  o  excedente  das  colheitas  servis  se  convertia  em  rendimentos  senhoriais,  era 
dominado  pelo  mercado  de  produtos  agrícolas  e  por  um  artesanato  de  artigos  comuns.  No  final  do 
século  XIII.  na  Inglaterra  e  no  norte  do  continente,  pelo  menos  2/3  das  cidades,  talvez  mesmo  3/4, 
obedeciam  a  estas  características,  reunindo  mais  de  metade  da  população  urbana  total.  Numa  segunda 
categoria  de  cidades,  as  maiores  e  mais  prosperas,  aqueles  rendimentos  monetários  senhoriais  eram 
gastos  em  bens  consumidos  exclusivamente  pela  classe  dominante.  Rodney  H.  Hilton  sublinha  (p.  1 1) 
que  estas  categorias  são  meramente  analíticas,  pois  na  realidade  sobrepunham-se  parcialmente.  Era  o 
que  sucedia  nas  mais  importantes  cidades  italianas,  onde  G.  Luzzatto  (1951)  686  detecta  uma  distin¬ 
ção  entre  a  esfera  do  grande  comércio  dc  longo  curso  e  aquela  em  que  se  processavam  as  relações 
com  o  território  rural,  obedecendo  cada  uma  a  orientações  comerciais  muito  diferentes.  Até  nas  men¬ 
talidades,  observa  Gino  Luzzatto,  se  reflectia  esse  misto  de  cosmopolitismo  e  de  municipalismo. 

150  Quando  existia  numa  região  uma  casa  senhorial  importante,  observa  G.  Duby  (1962)  380,  esta 


74 


Forma  l  do  dinheiro 


capítulo  I  .c)  que  foi  no  quadro  da  dependência  impessoal  que  as  famílias  servis  mais  se 
fragmentaram  e  reduziram  e,  ao  mesmo  tempo,  teceram  entre  si  os  elos  de  comunita- 
rismo  mais  fortes  e  vastos,  podemos  então  concluir  que  o  mercado  local  servia  como 
um  dos  centros  de  agregação  da  comunidade  rural  e  que  a  Forma  I  do  dinheiro  veicu¬ 
lava  também  relações  comunitárias.  Através  do  mercado  os  senhores  consolidavam, 
portanto,  a  autoridade  exercida  sobre  a  vida  colectiva  dos  camponeses. 

Por  isso  a  classe  dominante  procurava  impor  uma  hegemonia  absoluta  quanto  aos 
mecanismos  do  mercado.  O  controlo  exercido  sobre  a  emissão  de  numerário  era  insepa¬ 
rável  do  controlo  sobre  a  sua  circulação.  É  nesta  perspectiva  que  devemos  entender  a 
actividade  comercial  dos  senhores,  directa  ou  indirecta.  Os  mercados  sustentavam  um 
sistema  complexo  de  transacções,  imediatamente  favorável  à  aristocracia  e.  como  tal, 
reforçando  por  si  só  a  dependência  camponesa.  Aliás,  na  terminologia  da  época  rara¬ 
mente  a  palavra  « mercatus »  se  referia  às  transacções  em  abstracto,  significando  pri¬ 
meiro  o  direito  senhorial  à  constituição  de  um  mercado  e,  depois,  o  lugar  onde  ele  se 
implantava157.  Além  de  deterem  o  exclusivo  da  emissão  monetária,  os  maiores  senhores 
fiscalizavam  também  aquela  via  de  circulação  do  dinheiro-moeda,  e  manipulavam-na. 

Assim,  os  mercados  não  se  limitaram  a  processar  a  circulação  da  moeda  no  sentido 
da  sua  oferta  dos  senhores  para  os  camponeses.  Desde  logo,  e  antes  de  o  numerário 
prosseguir  em  sentido  inverso  na  forma  de  tributo,  uma  parte  era  transferida  dos  cam¬ 
poneses  para  os  senhores  no  próprio  lugar  do  mercado,  sob  o  pretexto  de  taxas  pela  uti¬ 
lização  daquele  espaço  de  transacções158.  Os  mercados  proporcionaram  directamente 
volumosos  rendimentos  aos  senhores  que  aí  exerciam  direitos  fiscais. 

Mas  vejamos  como  operavam  os  mecanismos  do  mercado.  Os  preços  dos  géneros 
agrícolas  eram  muito  variáveis  consoante  as  estações  do  ano.  Neste  contexto,  verifica- 
-se  que  os  servos,  obrigados  ao  cumprimento  das  prestações  em  datas  certas,  fixadas 
pouco  depois  da  colheita,  tinham  forçosamente  de  vender  os  seus  excedentes  na  época 
de  maior  abundância  e,  portanto,  de  preços  mais  baixos,  para  disporem  de  moeda  na 
altura  necessária159.  A  situação  era-lhes  mais  prejudicial  ainda,  pois  as  vendas  por  parte 


dominava  o  mercado  local  através  das  suas  compras  e  vendas,  determinava  os  preços  no  mercado  de 
trabalho,  impunha  o  calendário  agrícola  graças  aos  ritmos  de  cultura  adoptados  nas  várias  terras  que 
detinha,  dispersas  na  região,  e  fornecia  crédito  aos  camponeses.  E.  Enncn  (1979)  53  resume  a  situação 
afirmando  que  eram  os  senhores  quem  controlava  todos  os  privilégios  relativos  ao  mercado  e  quem 
condicionava  a  sua  organização.  Por  seu  lado,  M.  Dobb  ( 1963)  222-223  escreve  que  a  expansão  do 
mercado  e  a  difusão  de  uma  economia  monetária  não  tiveram  como  consequência  a  dissolução  do 
regime  senhorial.  Também  E.  A.  Kosminsky  (1955  a)  63  adverte  que  o  desenvolvimento  da  produção 
mercantil  não  levou  ao  declínio  do  sistema  senhorial  e,  pelo  contrário,  dando-lhe  novas  oportunidades 
económicas,  consolidou-o  e  agravou  a  taxa  de  exploração.  Mas  este  historiador  acrescenta,  seguindo  o 
clássico  modelo  histórico  marxista,  que  o  crescimento  das  forças  produtivas  motivado  pelo  desenvol¬ 
vimento  da  divisão  social  do  trabalho  entrou  em  contradição  com  as  relações  de  produção  senhoriais. 

157  J.  W.  Thompson  (1959)  287  n.  1. 

158  G.  Duby  (1962)  454;  E.  A.  Kosminsky  ( 1956)  356;  H.  Kraus  1 1979)216  n.  35:  C.  van  de  Kieft 
(1967)172-173. 

150  M.  Bloch  ( 1960-1961 )  II  173-174;  J.  M.  Klassen  (1978)  12;  F.  A.  Kosminsky  (1956)  355;  W. 
Kula  ( 1970)  27. 

Estudando  a  situação  da  Inglaterra  no  primeiro  quartel  do  século  XIV.  I  Kcrshaw  ( 1973)  6  afirma 
que,  mesmo  numa  época  de  inflação  monetária  e  de  subida  acentuada  dos  preços,  os  preços  do  cereal 


Veiculação  monetária  das  relações  de  dependência 


75 


de  todos  os  servos  de  uma  localidade  concentravam-se  no  mesmo  momento,  já  que 
todos  eles  tinham  de  pagar  os  tributos  pecuniários  num  prazo  idêntico.  Além  de  não 
poderem  aguardar  as  épocas  de  escassez,  que  suscitariam  uma  conjuntura  de  preços 
favorável,  os  servos  promoviam  o  afluxo  da  oferta,  deprimindo  duplamente  os  preços, 
em  seu  próprio  prejuízo.  Era  inteiramente  oposta  a  situação  da  classe  dominante  que, 
não  estando  obrigada  a  dispor  de  dinheiro-moeda  em  datas  fixas,  podia  armazenar  os 
excedentes. 

Aliás,  independentemente  dos  mecanismos  devidos  ao  pagamento  das  prestações 
monetárias,  bastava  a  penúria  em  que  vivia  a  esmagadora  maioria  da  população  rural 
para  determinar  uma  posição  de  inferioridade  perante  o  mercado.  Não  dispondo  de 
capacidades  económicas  de  acumulação  nem  de  possibilidades  técnicas  de  armazena¬ 
gem,  a  generalidade  dos  senos  via-se  obrigada  a  vender  quando  colhia  e  a  comprar 
quando  necessitava.  Nos  bons  anos  agrícolas,  em  que  cada  camponês  contava  com  um 
maior  volume  de  excedentes  e  podia  à  vontade  transaccioná-los,  o  acréscimo  da  oferta 
acarretava  uma  baixa  de  preços.  E  quando  os  preços  eram  elevados,  nos  anos  de  escas¬ 
sez,  as  más  colheitas  impediam  os  camponeses  de  aproveitar  a  situação,  pois  não  dispu¬ 
nham  de  excedentes  que  colocassem  no  mercado.  Pior  ainda,  para  não  morrerem  então 
de  fome  os  camponeses  eram  muitas  vezes  obrigados  a  comprar  aos  senhores,  a  preço 
forte,  parte  dos  géneros  que  eles  próprios  haviam  produzido  e  que  lhes  haviam  sido 
cobrados  enquanto  exacções160.  Pelo  contrário,  os  senhores,  ou  os  raros  rurais  abasta¬ 
dos,  e  os  intermediários  profissionais  beneficiavam  sempre  daquele  desfasamento  de 
preços.  Sem  viverem  na  margem  da  subsistência  e  providos  de  celeiros  fartos,  eles 
podiam  comprar  os  cereais  na  baixa  e  vender  na  alta.  Não  conseguindo,  portanto,  apro- 
veitar-se  das  variações  dos  preços  cerealíferos,  os  camponeses  reagiam  de  maneira 
oposta  aos  senhores  perante  as  mudanças  do  mercado.  Quando  os  preços  subiam  os 
camponeses  diminuíam  o  volume  dos  géneros  que  punham  à  venda,  visto  que  lhes  inte¬ 
ressava  apenas  obter  a  soma  de  dinheiro  necessário  ao  pagamento  dos  tributos  pecuniᬠ
rios.  Os  senhores,  por  seu  lado,  aproveitavam  as  conjunturas  de  alta  dos  preços  dos 
cereais  para  aumentar  o  volume  das  suas  vendas,  já  que  o  dinheiro  tinha  para  eles  todo 
um  escopo  de  utilizações  que  estava  vedado  aos  rurais.  Como  os  rendimentos  pecuniᬠ
rios  da  aristocracia  só  em  muito  escassa  medida  seriam  reaplicados  na  produção  agrí¬ 
cola  extensiva1^1,  o  nível  de  despesas  da  classe  dominante  e  a  orientação  destas  despe¬ 


de.sciam  se  a  colheita  tivesse  sido  abundante.  Ora,  afigura-se-me  que  isto  deprimia  mais  ainda  a  situa¬ 
ção  dos  camponeses,  relegados  para  um  sector  em  que  os  preços  baixavam  precisamente  Quando  eles 
tinham  acesso  ao  mercado  do  lado  da  oferta,  enquanto  os  senhores,  em  iguais  circunstâncias,  podiam 
especular  com  mercadorias  de  outro  tipo,  cujos  preços  aumentassem. 

160  M.  Aymard  (1982)  556. 

161  Quanto  ao  destino  que  os  senhores  davam  aos  seus  rendimentos  monetários,  G.  Duby  (1962) 
221-222  afirma  que  cies  adquiriam  bens  de  luxo,  em  especial  vinho  e  tecidos  de  qualidade,  pelo  que 
os  lucros  devidos  ao  progresso  da  agneultura,  em  vez  de  serem  reinvestidos  na  produção  cerealífera, 
eram  aplicados  na  viticultura,  na  enação  de  gado  e  na  produção  das  matérias-primas  necessárias  ao 
artesanato  dc  luxo  R.  H.  Hilton  í 1951)  28  confirma  que  não  havia  qualquer  reinvestimento  dos  lucros 
senhoriais  na  agricultura,  de  modo  a  que  aumentasse  a  produtividade.  A  propósito  da  Inglaterra  nos 
séculos  XII  e  XIII.  F..  A.  Kosmínsky  (1956)  326-327  é  mais  prudente  e,  depois  de  prevenir  que  se 
sabe  muito  pouco  acerca  das  despesas  dos  grandes  senhores,  considera  verosímil  a  hipótese  de  que  na 


76 


Forma  I  do  dinheiro 


sas  não  decorriam  das  condições  vigentes  no  mercado  rural.  E  se  os  preços  cerealíferos 
descessem,  enquanto  os  servos  tinham  de  ampliar  as  áreas  cultivadas  e  de  aumentar  o 
volume  das  suas  vendas  para  perfazerem  o  montante  de  moedas  requerido  pelas  exac- 
ções,  os  senhores  podiam  diminuir  as  áreas  de  cultura  extensiva  do  domínio  ou  reduzir 
as  vendas  de  cereais  ao  mínimo,  esperando  que  os  preços  se  elevassem  para  acrescer  de 
novo  a  sua  produção162. 

Além  disso,  a  dificuldade  de  alimentar  o  gado  durante  o  Inverno  levava  frequente¬ 
mente  os  camponeses  a  adquirirem  os  animais  de  trabalho  na  Primavera  e  a  venderem- 
-nos  no  Outono,  quando  já  não  precisavam  deles.  Assim,  os  camponeses  vendiam  este 
tipo  de  gado  a  preços  baixos,  pois  eles  próprios  motivavam  a  concentração  da  oferta,  e 
do  mesmo  modo  propiciavam  a  acumulação  da  procura  quando  apareciam  como  com¬ 
pradores,  pagando  então  forçosamente  preços  elevados.  Os  senhores  e  os  camponeses 


sua  maior  parte  das  consistissem  na  importação  de  artigos  de  luxo.  Referindo-se  também  à  Inglaterra. 
M.  M.  Postan  (1978  a)  1 14  insiste  no  facto  de  a  aristocracia  se  ter  revelado  sobretudo  interessada  por 
despesas  de  prestígio,  nomeadamente  a  construção  de  castelos  e  a  distribuição  das  dádivas  necessárias 
para  angariar  vastas  clientelas,  em  vez  de  disponibilizar  o  produto  das  exacçõcs  monetárias  para  inves¬ 
timentos  agrícolas. 

,t>:  A.  V.  Chayanov  (1966)  21  apresenta  um  modelo  de  análise  em  que  o  regime  senhorial  é 
imposto  numa  área  de  economia  rural  nào-monetarizada.  de  maneira  que  os  camponeses  pagavam  o 
tributo  em  géneros  e  eram  os  senhores  quem  convertia  estes  géneros  em  dinheiro,  colocando-os  em 
mercados  distantes.  Em  tal  tipo  de  situação,  porém,  os  senhores  sofreriam  passivamente  os  mecanis¬ 
mos  do  mercado,  em  vez  de  os  controlarem,  e  por  isso  o  modelo  proposto  por  W.  Kula  (1970)  22  e  27 
é  mais  apropriado  ao  contexto  económico  prevalecente  neste  segundo  período.  Segundo  Witold  Kula. 
existiria  um  sector  nâo-monetarizado,  em  que  se  processariam  os  aspectos  fundamentais  da  vida  eco¬ 
nómica  dos  camponeses,  e  um  sector  monetanzado,  onde  teria  lugar  a  maior  parte  das  operações  eco¬ 
nómicas  dos  senhores.  A  articulação  entre  ambos  os  sectores  dever-se-ia  às  vendas  realizadas  pelos 
camponeses  no  mercado  local,  onde  obteriam  o  numerário  indispensável  para  o  pagamento  das  exac¬ 
çõcs  pecuniárias.  Quanto  às  restrições  que  se  podem  formular  a  esta  tese.  ver  no  capitulo  4  a  n.  66. 

Acerca  da  posição  antagónica  em  que  servos  e  senhores  sc  encontravam  perante  os  desfasamentos 
de  preços,  ver:  M.  Aymard  (1982)  556;  H.  G.  Barros  (1945-1954)  II  413,  lil  144-145;  M.  Bloch 
(1960-1961)  II  174;  A.  De  Maddalena  (1982)  502-503,  P.  Desportes  (1979)  275;  L.  Genicot  (1966  b) 
678-679;  Ph.  Jones  (1966  b)  387;  .1.  M.  Klassen  (1978)  12.  17;  E.  A.  Kosminsky  (1956)  355;  W.  Kula 
( 197(1)  27;  M  M.  Postan  (1966)  604-605;  P.  Spufford  em  Istitttto  Intemazionaíe  di  Storia  Economica 
«F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  621. 

A  propósito  da  situação  inglesa,  M.  M  Postan  ( 1966)  602-6Ü5  e  (1978  a)  139-141  dá  um  exemplo 
desta  oposição,  afirmando  que  uma  conjuntura  de  baixa  prolongada  dos  preços  podia  levar  os  senhores 
a  reduzirem  a  superfície  cultivada  do  domínio,  enquanto  os  camponeses,  pressionados  por  elevadas 
despesas  monetárias  fixas,  se  viam  obrigados  a  ampliar  as  áreas  semeadas  de  maneira  a  compensarem 
o  declínio  dos  preços  unitários  mediante  o  aumento  dos  rendimentos  mercantis  globais.  Reciproca¬ 
mente,  uma  subida  durável  dos  preços,  se  induzia  os  senhores  a  desenvolverem  a  exploração  dominial 
directa,  podia  fazer  com  que  os  servos  reduzissem  a  produção  de  excedentes  comercializáveis,  já  que 
lhes  bastava  vender  menos.  Quanto  a  este  modelo,  consultar  igualmcnte  E.  Miller  ( 1964)  34. 

W.  Kula  (1970)  80  pretende  que,  se  a  colheita  fosse  abundante,  tanto  os  camponeses  como  os 
aristocratas  ganhavam  mais  com  a  venda  de  grandes  quantidades  de  géneros  do  que  perdiam  pelo 
facto  de  os  preços  diminuírem.  A  questão,  no  entanto,  c  a  dc  que  os  senhores  preferiam  certamente 
aguardar  as  èpoeas  de  más  colheitas  e  de  preços  altos,  c  tinham  condições  para  fazé-lo.  ao  contrário 
do  que  sucedia  com  os  sen  os.  Em  suma,  como  escreve  P  Spufford  1 1984)  364.  as  prestações  monetᬠ
rias  lançavam  sobre  os  servos  o  risco  das  más  colheitas  e  das  conjunturas  desfavoráveis  do  mercado, 
poupando-o  aos  senhores. 


Veicularão  monetário  das  relações  de  dependem  ta 


mais  prósperos,  com  capacidade  económica  suficiente  para  dispor  de  forragem  durante 
a  estação  fria,  podiam  obter  animais  de  trabalho  no  Outono  a  preços  baixos  e  vendê-los 
na  fase  de  alta,  realizando  belos  lucros16'.  Apercebemo-nos  da  dimensão  destas  espe¬ 
culações  ao  sabermos  que.  nos  séculos  XIII  e  XIV,  entre  as  principais  actividades  dos 
mercados  locais  se  contaram  as  trunsacções  relativas  ao  gado  e  aos  seus  subprodu¬ 
tos164. 

A  posição  ocupada  pela  classe  servil  era  ainda  mais  desfavorável,  porque  os  senho¬ 
res,  sobretudo  a  alta  aristocracia  e  a  elite  das  grandes  cidades,  dispondo  de  vastos  celei¬ 
ros  e  armazéns166,  não  só  sabiam  aproveitar  as  oscilações  de  preços  em  cada  lugar,  mas 
especulavam  igualmente  com  as  diferenças  de  preços  entre  os  numerosíssimos  merca¬ 
dos  locais,  além  de  terem  acesso  às  grandes  feiras  regionais.  E  certo  que  as  autoridades 
promulgaram  abundante  legislação  no  sentido  de  impedir  as  exportações  de  cereais  e 
outros  géneros  indispensáveis,  pelo  menos  em  épocas  de  escassez,  de  modo  a  não  agra¬ 
var  a  carestia  no  lugar  de  origem  e  não  exacerbar  a  crise  de  falta  de  alimentos166.  Os 
entraves  multiplicaram-se  até  no  interior  das  mesmas  áreas  de  soberania167.  Mas  estas 


,6?  O  mecanismo  desta  especulação  c  descrito  por  G.  Duby  ( 1962)  231  e  251-252. 

IW  ld..  ibid.,  231-232.  236,  517-518.  624-625. 

165  C.  Batlle  <  1991 )  232;  P.  Desportes  (1979)  275.  465-466;  A.  H.  O.  Marques  (1968)  111,  1 14- 
-116. 

A.  Castro  ( 1964-1979)  Iil  244  escreve  que.  em  Portugal,  as  covas  de  cereais  podiam  conservar  o 
grão  durante  oito  anos  ou  mais. 

166  H.  G  Barros  (1945-1954)  111  126-127,  V  125-148.  153-154.  163,  IX  272-273;  W.  M.  Bovvsky 
(1970)  34;  id.  (1981)  202-203,  205-206:  R.  Caggcsc  ( 1 906)  67-68;  id.  (1922-1930)  1  509  e  segs.;  M. 
C.  Carlé  (1972-1973)  102;  N  Coulet  et  al.  (1987)  41-42:  E.  Dupré  Theseider  ( 1952)  56,  245-246. 
251-252;  H.  Kiumi  (1956)  54.  58;  J.  Glémsson  ( 1951)  306-308,  313;  M.  Hebert  (1979)  163-165;  D. 
Herlihy  (1967)  124,  156-157;  .1.  K.  Hyde  (1966)  45-46;  Ph.  Jones  (1966  b)  390-391;  L.  A.  Kotelm- 
kova  (1968)  638;  E.-R.  Labande  (1950)  7-8;  F.  C  Lane  (1973)  59;  M.-J.  Larenaudie  (1952)  28-34. 
38-39;  G.  Luzzatto  ( 195 1 )  679-680;  id.  (1961  b)  52-54.  158-159;  id.  (1967)  132-133,  152-153.  155- 
-156;  A.  H.  O.  Marques  (1968)  129-130,  257-258,  281;  H.  A.  Miskimin  (1969)  77-78;  R.  Pemoud 
(1949)  243.  245.  246.  352-353;  F.  Thirict  (1959)  232.  318. 

167  H.  G.  Barros  11945-1954)  111  126-127.  V  125-148.  153-154,  163,  IX  272-273;  J.  Giénisson 
(1951)308,  313;  D.  Herlihy  (1958  b)  1 15  n  15;  L.  A  Kotelnikova  ( 1968)  638;  E.-R.  Labande  (1950) 
7;  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  158-159, 

Afirma  A.  H.  O.  Marques  ( 1968)  129  que  a  Inglaterra  foi  sob  este  ponto  de  vista  uma  excepção, 
visto  que  o  comércio  interno  dc  cercais  sc  processou  sem  obstáculos,  salvo  em  raros  períodos  de  crise. 
R.  Pemoud  (1949)  352  indica  que  Carlos  de  Anjou.  no  final  do  século  XIII.  determinou  a  liberdade  do 
comércio  de  trigo  e  vinho  no  interior  das  fronteiras  do  seu  reino.  Contudo,  M.  Boüard  (1938)  485-487 
mostra  que  aquele  monarca  mantinha  uma  posição  absolutamente  hegemónica  no  mercado  cerealífero 
do  reino.  A  ser  assim,  tratava-se  de  assegurar  a  liberdade  das  suas  próprias  transaeções.  Em  Portugal. 
Oliveira  Marques,  etn  op.  cil.  1 73  e  259  e  segs.,  considera  que  os  monarcas  se  esforçaram  por  incen¬ 
tivar  a  formação  de  um  mercado  cerealífero  de  âmbito  nacional,  que  contribuísse  para  assegurar  a 
coesão  do  reino,  enfrentando  neste  objectivo  o  partieularismo  dos  concelhos,  cada  um  interessado  cm 
proibir  a  exportação.  No  entanto,  vemos  <pp  133-134.  257-258.  261-265,  267)  que  a  coroa  portu¬ 
guesa  se  preocupava  com  a  liberdade  do  comércio  interno  sobretudo  para  garantir  o  abastecimento 
das  três  maiores  cidades.  Sc  a  minha  análise  estiver  correcta,  estes  reis  não  pretenderam  fomentar  um 
mercado  interno,  que  naquela  época  seria  completamente  prematuro,  mas  apenas  favorecer  os  princi¬ 
pais  grupos  da  elite  urbana.  Como  procurarei  mostrar  mais  adiante  (no  capítulo  12.0.  a  coincidência 
das  barreiras  proteccionistas  com  as  fronteiras  de  cada  área  de  soberania  só  se  realizou  com  o  mercan¬ 
tilismo,  que  neste  período  ensaiava  ainda  os  primeiros  passos. 


Forma  /  do  dinheiro 


78 


medidas  nem  sempre  devem  ser  tomadas  peio  que  aparentam,  pois  antes  de  mais  a  pró¬ 
pria  alta  dos  preços  numa  dada  região  aumentava  o  lucro  dos  senhores  e  dos  rurais  mais 
prósperos,  os  únicos  a  dispor  de  reservas  comercializáveis  num  ano  de  más  colheitas, 
tomando  as  exportações  menos  atractivas.  E  quando  os  grandes  senhores  e  as  podero¬ 
sas  associações  de  comerciantes  estavam  verdadeiramente  interessados  em  vender  para 
fora  conseguiam  muitas  vezes  contornar  tais  obstáculos,  até  porque  a  sua  influência  era 
preponderante,  mesmo  sobre  os  governos  urbanos168.  As  próprias  autoridades  chega¬ 
vam  a  dispensá-los  de  cumprir  a  lei169.  Noutros  casos  a  fiscalização  não  era  suficiente 
ou  revelava-se  corrupta170  e,  muito  possivelmente,  os  infractores  permaneciam  impu¬ 
nes.  Também  a  oposição  de  interesses  entre  os  vários  lugares  favorecia  os  especulado¬ 
res,  porque  as  mesmas  autoridades  que  interditavam  as  exportações  estavam  empenha¬ 
das  em  estimular  as  importações171.  Além  disso,  se  em  épocas  de  fome  a  exportação 
era  proibida,  ela  era  autorizada  ou  até  incentivada  quando  as  colheitas  se  revelavam 
abundantes172.  Aliás,  os  magnates  não  se  limitavam  a  aproveitar  as  diferenças  de  con¬ 
juntura,  e  ocasionavam-nas  mediante  práticas  especulativas173.  Assim,  enquanto  os 
rurais  estavam  sujeitos  à  situação  local  e  se  viam  obrigados  a  sofrer  as  flutuações  de 


ltó  D.  Herlihy  (1958  b)  1 14-115;  Ph.  Jones  (1966  b)  391;  L.  A.  Kotelnikova  (1968)  639;  E.-R. 
Labande  (1950)  7-8. 

Segundo  R.  Pemoud  ( 1949)  245  e  246.  a  legislação  adoptada  pelas  autoridades  de  Marselha  com 
o  objectivo  de  proibir  a  exportação  de  trigo  tomou-se  progressivamente  mais  severa.  Isto  mostra  que 
não  era  cumprida.  Em  Florença,  R.  de  Roover  (1968)  294  observa  que  só  os  pequenos  mercadores 
eram  punidos  por  vender  acima  do  preço  tabelado,  enquanto  os  grandes  negociantes  e  empresários 
violavam  impunemente  as  disposições  antimonopolistas.  E  se  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  192  indica 
que  os  Ciompi.  que  se  revoltaram  e  pegaram  em  armas  naquela  cidade  no  último  quartel  do  século 
XIV  (ver  o  capitulo  I2.e  da  Parte  II),  tinham  como  um  dos  pontos  do  seu  programa  a  proibição  de 
exportar  cereais  a  partir  do  território  rural,  parece-me  legítimo  inferir  que  as  disposições  existentes 
neste  sentido  eram  letra  morta. 

Icw  R.  Caggese  (1922-1930)  1  516  c  segs.;  J.  Glémsson  (1951 )  317;  A.  H.  O.  Marques  ( 1968)  168 
e  segs. 

170  W.  M.  Bowsky  ( 1981 )  203;  R.  de  Roover  (1958)  430, 433-434;  E.  Dupré  Theseider  ( 1952)  246; 
E.  Fiumi  (1956)  44-51;  J.  Glénisson  ( 1951)  317-318;  E.-R.  Labande  (1950)  8-9.  11-13;  M.-J.  Lare- 
naudic  (1952)  34. 

171  H.  G.  Barros  ( 1945-1954)  III  126-127,  V  125-148,  153-154.  163;  W.  M.  Bowsky  (1981)  205- 
-207;  J.  Glénisson  (1951 1303-309;  M.  Hebert(!979)  164;  D.  Herlihy  ( 1967)  124,  157-158;  Ph.  Jones 
(1966  b)  391;  E.-R.  Labande  ( 1950)  7;  F.  C.  Lane  (1973)  59;  M.-J.  Larenaudte  ( 1952)  28,  30,  32,  34, 
39;  G.  Luzzatto  (1961  b)  52;  id.  (1967)  132-133,  155-156;  A.  H.  O.  Marques  (1968)  133-134,  257- 
-258,  261-265,  267;  R.  Pemoud  (1949)  243,  245-246;  K.  L.  Reyerson  (1985)  129;  J.  Schneider(1950l 
417. 

H.  A.  Miskimin  (1969)  79-80  considera  que  as  cidades  meridionais  seguiram  uma  politica 
monopsonista  mais  rigorosa,  enquanto  nas  do  norte  predominou  a  orientação  livre-concorrencial.  Esta 
divisão  correspondia  decerto  á  oposição  de  interesses  entTe  as  principais  áreas  produtoras  e  exporta¬ 
doras  de  cereais  e  as  áreas  parcialmente  importadoras. 

177  E.  Fiumi  (1956)  44-51,  58;  J.  Glénisson  (1951)  303-305;  M.  Hebert  (1979)  163-165;  M.-J. 
Larenaudie  (1952)  30,  38;  G.  Luzzatto  ( 1951 )  679-680;  id.  ( 1961  b)  54;  id.  (1967)  155-156;  A.  H.  O. 
Marques  ( 1968)  130. 

1  '  Especialmente  reveladoras  foram  as  especulações  com  cereais  realizadas  pelo  rei  de  Nápoles  e 
da  Sicília  no  último  terço  do  século  XIII,  em  anos  de  escassez  ou  de  guerra,  para  grande  prejuízo  dos 
seus  súbditos,  como  relata  M.  Boüard  ( 1938)  490  e  495.  h,  a  crer  em  R.  Caggese  (1922-1930)  1  539- 
-540,  o  mesmo  fazia  o  rei  dc  Nápoles  na  primeira  melade  do  século  XIV. 


Veicularão  numerária  das  relações  de  dependência 


79 


curto  prazo,  os  senhores,  peio  menos  os  mais  importantes,  podiam  operar  numa  varie¬ 
dade  de  mercados  e  faziam-no  a  longo  prazo. 

Sendo  grandes  produtores,  os  senhores  tinham  contactos  directos  e  regulares  com  os 
comerciantes  profissionais  que  adquiriam  por  grosso  os  produtos  agrários174.  Ou  a  pró¬ 
pria  alta  aristocracia,  eclesiástica  e  laica,  através  dos  seus  agentes  colocava  os  exceden¬ 
tes  de  que  dispunha  nas  maiores  praças  internas  e  externas175.  Os  camponeses  encon¬ 
travam-se  confinados  aos  mercados  locais,  mas  os  senhores  tanto  actuavam  nestes 
como  nas  grandes  feiras.  Nas  feiras  apresentavam-se  apenas  os  agentes  da  aristocracia 
rural  e  os  comerciantes  que  se  incluíam  na  camada  superior  das  cidades,  tomadas  como 
senhores  colectivos.  A  distinção  entre  mercados  e  feiras  reflectia  a  oposição  entre  a 
classe  sen  il  e  a  classe  senhorial176,  por  isso  os  mecanismos  de  formação  dos  preços  e  a 
organização  das  transaeções  eram  diferentes  de  uns  para  outras.  Ora,  a  partir  do  final 
do  período  tomou-se  sistemática  a  intervenção  de  intermediários  que  adquiriam  géne¬ 
ros  agrários  nos  mercados  locais  para  os  vender  aos  grossistas  nas  grandes  feiras  regio¬ 
nais177,  especulando  deste  modo  com  os  sistemas  de  preços  de  cada  uma  das  institui¬ 
ções.  E  os  senhores  desfrutavam  de  uma  situação  vantajosa  para  operar  igualmente 
como  intermediários  entre  os  pequenos  produtores  e  o  grande  comércio,  o  que  lhes  ren¬ 
dia  proventos  suplementares178. 

Além  disso,  os  domínios  sob  exploração  senhorial  directa  caracterizavam-se  por 
uma  fertilidade  e  uma  produtividade  superior  à  dos  casais,  pois  estavam  melhor  ama¬ 
nhados  e  eram  intensamente  estrumados179,  o  que  permitia  aos  seus  detentores  uma 
taxa  de  acumulação  mais  elevada  e.  por  conseguinte,  fazia  com  que  os  benefícios  do 
mercado  fossem  proporcionalmente  maiores  do  que  sucedia  para  os  camponeses. 

Como  se  tudo  isto  não  bastasse,  os  senhores,  incluindo  as  cidades,  aplicavam  ainda 
várias  medidas  directamente  decorrentes  do  bannum  para  melhorarem  a  sua  posição  no 
mercado.  Em  primeiro  lugar,  os  maiores  senhores  possuíam  o  exclusivo  das  instalações 
técnicas  mais  importantes  no  meio  rural  (ver  na  Parte  II  os  capítulos  8.d  e  lO.a), 


174  G.  Duby  ( 1962)  230. 

175  E.  A.  Kosmínsky  ( 1956)  324.  326. 

176  J.  W.  Thompson  (1959)  586  distingue  mercados  e  feiras  unicamente  através  de  questões  técni¬ 
cas,  recordando  que  a  feira  obedecia  a  uma  jurisdição  mais  elevada  do  que  o  mercado,  que  serv  ia  um 
público  mais  vasto  e  que  a  sua  periodicidade  era  muito  menor.  A.  P.  Usher  (1943)  110-111  insiste 
também  no  facto  de  os  mercados  serem  mais  frequentes  do  que  as  feiras  e  acrescenta  que  eles  se  res¬ 
tringiam  ao  âmbito  local  e  ao  comércio  a  retalho,  transaccionando  géneros  agrícolas  c  produtos  fabri¬ 
cados  pelo  artesanato  local;  enquanto  as  feiras  eram  centros  do  comércio  grossista  de  longo  curso, 
especializando-se  em  artigos  manufaturados  ou  senumanufacturados  e  em  matérias-primas  e,  a  partir 
do  final  do  período,  operando  também  a  comercialização  por  grosso  de  alguns  géneros  agrános.  Este 
especialista  observa  (p.  1 10)  que  a  diferença  entre  feira  e  mercado  não  era  muito  dara  na  lei  e  na  prᬠ
tica  comercial;  e  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  78,  referindo-se  às  regiões  mediterrânicas,  advertem  que  a 
distinção  entre  os  termos  «mercado»  e  « feira »  não  era  manifesta  e  que  os  coevos  os  usavam  frequen¬ 
temente  como  sinónimos.  Mas  aqui  interessam-me  apenas  as  características  económicas  e  sociais  das 
duas  instituições,  e  sob  este  ponto  de  vista  a  demarcação  pode  ser  rigorosa. 

177  H.  G.  Barros  (1945-1954)  V  153,  X  120;  G.  Duby  (1962)  229.  623-624;  Ph.  Jones  (1966  b) 
387:  A.  H.  O.  Marques  ( 1968)  124,  128;  M.  M.  Postan  ( 1978  a)  233-234;  A.  P.  Usher  ( 1943)  111. 

178  G.  Duby  (1962)  230;  .1.  F.  Madden  1 1963)  343-344. 

179  E.  Millcr  ( 1964)  33-34;  M.  M.  Postan  (1966)601-602:  id.  (1978  a)  137-139. 


80 


Forma  I  do  dinheiro 


estando  portanto  em  condições  óptimas  para  comercializar  os  produtos  nelas  fabrica¬ 
dos,  e  recebendo  ao  mesmo  tempo  uma  taxa  sobre  os  artigos  preparados  pelos  campo¬ 
neses  do  território,  ainda  antes  de  serem  colocados  no  mercado.  Em  segundo  lugar, 
detendo  a  autoridade  superior  sobre  os  incultos,  que  reafirmou  com  particular  empenho 
ao  longo  do  período  (ver  o  capítulo  8.d  da  Parte  II),  a  aristocracia  controlava  directa- 
mente  a  oferta  de  uma  grande  parte  das  matérias-primas  e  das  fontes  de  energia180.  Em 
terceiro  lugar,  a  alta  nobreza  e  algumas  das  principais  cidades  podiam  obrigar  a  popula¬ 
ção  dos  seus  territórios  a  comprar-lhes  regularmente  uma  parte  dos  produtos,  a  preços 
fixos  e  artificialmente  elevados.  Esta  forma  de  privilégio  fiscal  incidiu  sobretudo  no 
sai181.  Em  quarto  lugar,  e  reciprocamente,  acontecia  que  os  senhores  adquirissem  os 
bens  a  preços  tabelados,  inferiores  aos  que  as  demais  pessoas  tinham  de  pagar182.  Em 
quinto  lugar,  os  maiores  senhores  reservavam  para  si  a  prioridade  das  vendas  nos  mer¬ 
cados  locais,  imunizando-se  temporariamente  da  concorrência  camponesa  e  provo¬ 
cando,  deste  modo.  uma  subida  de  preços,  precisamente  quando  eles  se  colocavam  do 
lado  da  oferta182.  No  caso  do  vinho  os  efeitos  do  privilégio  eram  mais  importantes 
ainda,  pois  com  as  técnicas  de  conservação  rudimentares  daquela  época  a  bebida  come¬ 
çava  a  deteriorar-se  no  Verão  e  tomava-se  urgente  vender  o  que  restava,  de  maneira  a 
libertar  os  tonéis  para  a  safra  iminente184.  Numa  variante  deste  tipo  de  medidas,  os 
senhores  resguardavam-se  da  concorrência  impondo  aos  camponeses  um  dado  limite 
no  cultivo  de  certas  matérias-primas  especialmente  rentáveis185.  E,  alcançando  de  outra 
maneira  os  ntesmos  resultados  e  impedindo  os  caseiros  de  comercializarem  um  volume 
de  excedentes  muito  superior  àquele  que  seria  necessário  para  obter  a  soma  exigida 
pelas  exacções  monetárias,  os  senhores  chegavam  até  a  apreender  os  artigos  já  vendi¬ 
dos186.  Em  sexto  lugar,  os  detentores  do  poder  impessoal  atribuíram-se  nos  mercados 
locais  o  direito  de  pagar  só  num  certo  prazo  após  a  aquisição  dos  bens,  o  que  equivalia 
a  um  crédito  obrigatório  por  parte  dos  camponeses187.  Em  sétimo  lugar,  sucedia  que  os 
possuidores  de  senhorias  impessoais  tivessem  direito  de  opção  sobre  todos  os  artigos  à 
venda  no  mercado  do  território188.  Em  oitavo  lugar,  os  magnates  mais  poderosos, 


180  L.  Verriest  (1946)  147-148. 

181  W.  M.  Bowsky  ( 1970)  57-58;  Ch.  M.  La  Roncière  (1968)  158-159.  161. 

182  H.  G  Barrosí  1945-1954)  11  355.413;  T.  H.  Lloyd  (1982)  11.  M.  Prestwich  ( 1972)  118-119, 
128,  135. 

181  .1.  A.  Garcia  de  Cortázar  (1990)  1 14  n.  61;  E.  A.  Kosminsky  (1956)  356;  C.  van  de  Kieft 
(1967)  172-173. 

No  final  do  período,  afirma  E.  Perroy  ( 1 949 )  1 74- 1 75,  os  monarcas  chegavam  a  cobrar  impostos 
cm  géneros  para  os  colocar  no  mercado,  após  terem  limitado,  ou  até  impedido,  as  vendas  dos  concor¬ 
rentes. 

184  G.  Duby  (1962)  453-454:  R.  Durand  (1982)  464;  V.  Renouard  ( 1958)  49. 

188  E.  A.  Kosminsky  ( 1956)  356;  P.  Toubert  (1973  b)  219. 

186  R.  H.  Hilton  (1949-1950)  121  relata  um  caso  deste  tipo  ocorrido  num  conjunto  senhorial  ecle¬ 
siástico.  na  Inglaterra  da  primeira  década  do  século  XIV. 

187  G.  Duby  (1962)  464-465;  C.  van  de  Kieft  ( 1 967 )  172-173. 

Uma  forma  extrema  deste  privilégio,  muito  usada  pela  coroa  inglesa  para  abastecer  a  corte  e  o 
exército,  consistia  em  requisitar  os  géneros  a  crédito,  acabando  frequentemente  por  nào  os  pagar, 
como  indica  M.  Prestwich  ( 1 972 )  1 18- 1 1 9. 

188  C.  van  de  Kieft  (1967)  172-173. 


I  eicuia^ãu  momuina  das  reíaives  de  depende  nau 


A7 


nomeadamente  as  maiores  cidades,  enquanto  senhores  colectivos,  conseguiram  fazer 
com  que  alguns  dos  fluxos  comerciais  que  transitavam  pelo  território  passassem  pelo 
centro  urbano  c  usassem  os  seus  armazéns,  mediante  o  pagamento  de  uma  taxa189.  Por 
todo  o  lado  as  cidades  tenderam  desta  maneira  a  polarizar  regionalmente  as  transac- 
ções,  ficando  os  camponeses  obrigados  a  pôr  pelo  menos  uma  parte  dos  seus  exceden¬ 
tes  à  venda  no  mercado  urbano  e  a  adquirir  aí  artigos  manufacturados;  e  multiplicaram- 
-se  os  rendimentos  senhoriais,  tanto  assim  que  as  autoridades  regulamentavam  o  mer¬ 
cado  da  cidade  e  os  sistemas  de  preços  em  benefício  dos  próprios  habitantes190.  Além 
disso,  a  elite  da  classe  dominante  lucrou  também  com  as  correntes  mercantis  que  se 
dirigiam  para  o  exterior,  pois  mesmo  que  tais  artigos  não  se  destinassem  a  ser  postos  à 
senda  na  cidade  para  onde  haviam  sido  canalizados  e  obrigatoriamente  armazenados, 
tinham  de  pagar  uma  taxa  para  prosseguir  o  seu  percurso.  Em  nono  lugar,  os  senhores 
dificilmente  prescindiram  dos  serviços  de  transporte,  que  não  só  se  contaram  entre  as 
derradeiras  prestações  de  trabalho  a  ser  comutadas  monetariamente191,  mas  foram 
impostos  até  em  regiões  onde  não  eram  cobrados  serv  iços  agrícolas19*.  Como  os  custos 
do  transporte  eram  então  muito  elevados,  isto  significa  que  os  senhores  tinham  acesso 
ao  mercado  a  custos  bastante  inferiores  aos  que  recaíam  sobre  os  camponeses1 93 . 

Os  efeitos  da  oposição  de  situações  sociais  perante  o  mercado  repercutiram-se,  por 
sua  vez,  na  própria  organização  da  produção,  fazendo  com  que  os  domínios  e  os  casais 
obedecessem  a  princípios  de  rentabilidade  distintos  e  recebessem  plantações  diferentes. 
A  esmagadora  maioria  da  classe  servil,  obrigada  a  vender  excedentes  só  para  obter  o 


1149  F  C.  Lane  (19731  59.  62:  H.  A.  Miskimin  ( 1969)  77-78;  D.  Nicholas  ( 1971)  117-124,  348 
M.  Boüard  (1938)  492;  W.  M.  Bowsky  (1970)  34;  R.  Caggese  (1906)  40-42,  66-69;  M.  C. 
Carlé  (1972-1973)  102;  R.  de  Roover  (1958)  428-429;  id.  ( 1974)  283;  D.  Ilerlihy  (1958  b)  1 14-1 15; 
id  (1967)  45;  J.  K.  Hyde  (1966)  46-47;  Ph.  Joncs  (1966  b)  390;  J.  M.  Klassen  (1978)  16-17;  L.  A. 
Kotelnikova  (1968)  638:  G.  Luzzatto  (1951)  679:  id.  ( 1967)  155;  D.  Nicholas  (1971)  1 17;  J.-P.  Poly 
et  al.  (1980)  362;  J.  Schneider  ( 1950)  41 7  e  segs.;  C.  Violante  em  P.  Franeastel  (org  1960)  229. 

191  M.  Bloch  (1967)  94;  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  102;  C.  Duby  (1962)  230,  513-514;  F.  L. 
Ganshof  et  al.  (1966)  316.  328:  L.  Genicot  (1943-1995)  1116. 

192  Na  Italia  do  século  XII.  onde  cra  muito  reduzida  a  prestação  de  serviços  de  trabalho,  L  A. 
Kotelnikova  (1975)  53  afirma  que  os  principais  eram  os  serviços  dc  transporte.  E  id.  (1968)  641-642 
fornece  a  mesma  informação  a  propósito  da  região  de  Luca.  Também  na  Catalunha  do  início  do  periodo 
os  únicos  serv  iços  requeridos  aos  caseiros  diziam  respeito  ao  transporte,  consoante  indica  P.  Bonnassie 
(1975-1976)  248-249  E  em  Portugal,  nas  regiões  entre  Douro  e  Tejo,  R.  Durand  (1982)  376-377  escla¬ 
rece  que  os  serviços  de  transporte  eram  os  mais  frequentes,  sendo  raros  e  irregulares  os  serv  iços  de  cul¬ 
tivo  do  domínio.  Mais  interessante  ainda  é  o  caso  dos  territórios  de  soberania  cristã  na  Síria  e  na  Pales¬ 
tina,  onde  desde  inicio  pratieaniente  não  existiu  exploração  dominial  directa,  mas  em  que  os  senhores 
não  prescindiram  dos  serv  iços  de  transporte,  a  crer  em  C.  Cahen  ( 1 950- 1 95 1 1  289  e  297. 

199  R.  S.  Lopc/  ( 1974)  133  pretende  que  seria  o  elev  ado  custo  dos  transportes  a  fazer  com  que  a 
maior  parte  do  comércio  se  processasse  localmcntc.  Todav  ia,  recorrer  a  um  factor  técnico  para  expli¬ 
car  uma  questão  de  ordem  geral  corresponde  sempre  a  inverter  a  ordem  dos  problemas.  Para  os 
senhores,  grande  parte  dos  transportes  não  representava  qualquer  custo,  já  que  aqueles  serviços  foram 
os  últimos  a  desaparecer.  Na  realidade,  como  prevalecia  o  pequeno  comércio  local  não  existiam  pres¬ 
sões  para  que  o  custo  do  transporte  se  reduzisse,  o  que  só  veio  a  suceder  quando  aumentou  a  impor¬ 
tância  do  grande  comércio  de  longo  curso  Note-se  ainda  que.  a  proposito  da  Itália,  L.  A.  Kotelnikova 
(1968)  643-044  considera  que  para  os  camponeses  mais  ricos  o  custo  da  deslocação  dos  géneros  até 
ao  mercado  não  constituía  um  problema,  contrariamente  ao  que  se  passava  para  os  camponeses 
pobres. 


82 


Forma  I  do  dinheiro 


numerário  com  que  devia  pagar  tributos,  introduziu  uma  dicotomia  nas  suas  culturas 
extensivas.  Para  consumo  próprio  e  para  alimentação  do  gado  os  camponeses  semea¬ 
vam  uma  multiplicidade  de  cereais  pouco  produtivos  e  de  qualidade  inferior,  num  leque 
tanto  mais  variado  quanto  pretendiam  aproveitar  ao  máximo  as  disposições  naturais  de 
cada  parcela;  quanto  ao  bom  trigo,  o  frumento.  ele  era  destinado  à  venda,  pois  obtinha 
melhores  preços  no  mercado.  Por  seu  lado,  a  classe  senhorial,  que  podia  usar  as  exac- 
ções  em  géneros  para  se  apropriar  da  quantidade  de  cereais  pobres  que  reputasse  neces¬ 
sária.  reservava  praticamente  ao  frumento  os  campos  de  cultura  extensiva  do  domínio. 
Como  naquela  época  o  risco  dos  maus  anos  agrícolas  só  podia  ser  minorado  através  da 
variação  das  sementeiras,  em  detrimento  da  produção  especializada  que  tinha  em  vista 
a  comercialização,  recaía  sobre  a  classe  servil  a  responsabilidade  de  garantir  a  margem 
de  segurança  a  ela  própria  e  aos  senhores.  Estes  podiam,  assim,  dedicar-se  plenamente 
à  obtenção  de  lucros  no  mercado194.  Além  de  todos  os  mecanismos  institucionais  ou 
estritamente  económicos  que  prejudicavam  a  competitividade  comercial  do  campesi¬ 
nato,  as  circunstâncias  que  o  prendiam  a  uma  agricultura  estagnante  e  o  impediam  de 
aumentar  a  área  dos  casais  destinada  à  plantação  mais  rentável  agravavam  ainda  aque¬ 
las  limitações.  Por  contraste,  a  classe  dominante  não  só  era  privilegiada  no  mercado 
como  podia  correr  o  risco  de  inovar  as  técnicas  agrárias  e  de  se  especializar  na  cultura 
extensiva  de  um  cereal  muito  lucrativo.  A  partir  do  momento  em  que  a  grande  maioria 
das  famílias  rurais  reproduziu  a  divisão  entre  excedentes  e  consumo  próprio  numa 
dicotomia  entre  dois  tipos  de  cultivo,  a  clivagem  social  radicou-se  mais  profundamente 
em  toda  a  estrutura  económica,  num  círculo  vicioso. 


c.  A  moeda  nas  relações  familiares  e  parafamiliares  do  campesinato 

Tudo  o  que  se  passava  na  senhoria  impessoal  repercutia-se  na  sua  outra  face,  o 
comunitarismo.  A  medida  que  prevalecia  nas  relações  dos  senhores  com  os  servos,  a 
moeda  enquanto  dinheiro  reestruturava  os  vínculos  intentos  do  campesinato,  possibili¬ 
tando  a  articulação  entre  a  tendência  para  a  redução  das  unidades  familiares  e  a  amplia¬ 
ção  das  solidariedades  colectivas. 

O  processo  de  conversão  dos  serviços  de  trabalho  em  prestações  pecuniárias  não 
dizia  apenas  respeito  a  famílias  isoladamente  consideradas.  Muitas  colectiv idades  com¬ 
praram  as  liberdades,  e  por  bom  preço195,  ou  chegaram  de  outras  maneiras  a  uma  situa¬ 
ção  semelhante.  Pareceria,  assim,  que  a  circulação  da  moeda  fomentara  a  coesão  e  a 
homogeneidade  do  meio  rural. 

Mas  como,  por  outro  lado,  as  comutações  beneficiavam  o  pequeno  número  de  cam¬ 
poneses  mais  prósperos  e  deterioravam  a  situação  dos  restantes,  exceptuando  talvez  os 


ív4  Este  modelo  é  apresentado  por  M.  M.  Postan  ( 1966)  600-601  e  (1978  a)  136-137  no  contexto 
da  situação  inglesa  e  por  P.  Toubert  (1973  b)  254-255  a  propósito  do  Lalium  e  da  Sabina  no  século 
XIII. 

Ver,  por  exemplo:  E.  M.  Carus-Wilson  ( 1959-1960)  198;  G.  Duby  (1962)  477-478;  C.’h.  Dycr 
(1980)  99.  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955  )  356. 


I  eu  utação  nume  tuna  das  relações  de  dependem  ia 


SJ 


mais  pobres196,  elas  contribuíam  para  desagregar  as  colectiv idades  nos  seus  dois  extre¬ 
mos.  Foi  neste  contexto  que  se  difundiu  o  assalariamento  entre  rurais.  Os  poucos  que 
conseguiam  atingir  uma  certa  abastança,  ou  os  que  mais  raramente  ainda  começavam  a 
ter  condições  de  admissão  na  classe  senhorial,  destacavam-se  da  relativa  auto-suficiên¬ 
cia  económica  das  colectiv  idades  e  inseriam-se  activamente  na  circulação  monetária. 
Nas  suas  mãos  o  numerário  não  servia  apenas  para  pagar  tributos  aos  senhores,  mas  era 
igualmente  um  objecto  de  acumulação  ou  um  meio  de  especulação.  No  outro  pólo 
social,  os  camponeses  mais  pobres  ficavam  também  postos  à  margem  das  comunida¬ 
des,  por  não  possuírem  terras,  ou  animais  e  alfaias,  que  lhes  permitissem  participar  nas 
eventuais  fainas  colectivas.  ou  ingressar  na  organização  de  um  rebanho  comum,  ou 
deter  uma  parte  suficiente  no  aproveitamento  dos  incultos.  Mostrei  já  (no  capítulo  9.c 
da  Parte  II)  como  as  colectividades  rurais,  no  final  do  período,  sofriam  a  erosão  nos 
seus  dois  extremos,  reforçando-se  por  contraste  a  coesão  do  campesinato  médio,  que 
constituiu  ali  o  elemento  agregativo.  Vemos  agora  que  foi  o  dinheiro-moeda,  ao  mesmo 
tempo  que  facilitava  aquela  dupla  corrosão,  a  contribuir  para  que  os  camponeses  mais 
abastados  mobilizassem  os  mais  pobres,  mediante  o  assalariamento197. 

A  tal  ponto  que  se  generalizou  um  conflito  de  interesses  entre,  por  um  lado.  os  gran¬ 
des  senhores  e,  por  outro,  os  médios  e  pequenos  senhores  e  também  os  camponeses 
ricos  pela  obtenção  da  mão-de-obra  agrícola.  Enquanto  o  bannum  da  alta  aristocracia 
permitia  o  uso  de  formas  francamente  repressivas  para  angariar  os  braços  necessários 
ao  amanho  das  terras,  à  disposição  dos  senhores  de  menor  estatuto  e  da  elite  rural  esta¬ 
vam  sobretudo  -  ou  apenas  -  os  mecanismos  económicos.  Se  a  conjuntura  pressionasse 
ao  recrudescimento  da  exploração  directa  do  domínio,  os  magnates  podiam  extorquir 
mais  serviços  de  trabalho  e  impor  outros  entretanto  caídos  em  desuso,  ou  pelo  menos 
tentar  fazê-lo.  Mas  para  a  baixa  aristocracia  e  para  o  campesinato  abastado  a  única  pos¬ 
sibilidade  verdadeiramente  viável  era  o  aluguer  de  mão-de-obra198;  ouvimos  ainda  hoje 
o  eco  dos  repetidos  protestos  destas  camadas  sociais  no  final  do  período,  indignando-se 
contra  os  salários  elevados  pedidos  pelos  jornaleiros  e  exigindo  o  seu  tabelamento199. 
As  medidas  e  diplomas  repressivos  sucederam-se  ao  longo  de  muitas  décadas,  o  que 
demonstra  a  sua  inoperância200,  e  não  se  tratava  sequer  de  uma  estratégia  de  resistência 


196  Ver  neste  capítulo  a  n.  1 06. 

197  M.  Aymard  (1982)  556-557  observa  que  a  coesão  da  comunidade  rural  ficava  comprometida 
pelo  desenvolvimento  de  uma  camada  de  camponeses  abastados,  por  um  lado.  e.  por  outro,  de  uma 
camada  de  assalariados.  A  este  respeito  ver  igualmente  B.  H.  Landsberger  et  al.  (1973)  99. 

198  Na  Inglaterra  do  século  XIII,  quando  a  exploração  directa  do  domínio  adquiriu  nova  importância, 
as  grandes  senhorias  das  regiões  mais  activas  comercialmente  regressaram  à  cobrança  plena  dos  serviços 
de  trabalho,  enquanto  as  restantes,  bem  como  a  elite  rural,  ampliaram  o  número  de  prebendados,  nomea¬ 
damente  graças  ao  assalariamento.  Ver:  G.  Duby  (1962)  503-5Ü5;  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  43-45: 
id.  (1956)  131.258,  276.286,  291, 353-354;  M.  M.  Postan  (1966)  623,  626-627;  id"  (1978  a)  148. 

199  H.  G.  Barros  (1945-1954)  III  26-42.  V  145-146,  348,  386-387;  A.  Castro  (1964-1979)  V  202  c 
segs.;  R.  Cazelles  í  1982)  533;  A.  Cunhal  ( 1963)  106-108;  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  II  5;  R.  Hilton 
(1973  a)  155;  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  44  n.  1.  td.  (1956)  317,  357-358:  M.  M.  Postan  (1966) 
608-610. 

200  H.  G.  Barros  (1945-1954)  III  28.  VtlJ  323  e  segs.;  R.  Cazelles  ( 1982)  533;  G.  Duby  (1962) 
568-569;  J,  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  11  5;  R.  H.  Hilton  ( 1969)  39;  E.  Perroy  (1949)  181-182. 


84 


Forma  I  do  dinheiro 


dos  explorados,  mas  simplesmente  dos  inelutáveis  efeitos  de  uma  lei  económica.  Era 
possível  que  uma  dada  aldeia  ou  região  estivesse  sobrepovoada  relativamente  às  possi¬ 
bilidades  oferecidas  pelas  terras  disponíveis  sem  que  isto  implicasse  uma  oferta  abun¬ 
dante  de  força  de  trabalho,  porque  só  se  assalariavam  regularmente  aqueles  que  tives¬ 
sem  sido  marginalizados  das  comunidades.  Assim,  permanecendo  a  massa  dos  campo¬ 
neses  submetida  a  condições  servis,  a  maioria  da  população  podia  apresentar-se  subem- 
pregada;  mas,  se  fosse  elevada  a  procura  de  mão-de-obra,  os  salários  seriam  comparati¬ 
vamente  altos,  porque  só  uma  minoria  de  rurais  era  precipitada  no  assalariamento  siste¬ 
mático  e,  portanto,  mantinha-se  reduzida  a  oferta  de  jornaleiros*01.  São  estas  as  razões 
económicas  de  um  processo  que  tantos  historiadores,  à  falta  de  melhor  (ver  o  capítulo 
15),  insistem  em  explicar  mediante  mecanismos  estritamente  demográficos202.  Na 
medida  em  que  se  esforçavam  por  perpetuar  a  exploração  servil,  os  próprios  senhores  - 
todos  eles  -  estavam  a  fomentar  as  condições  que  propiciavam  a  subida  dos  salários. 
Aliás,  na  Inglaterra  do  final  do  período,  por  exemplo,  sucedeu  que  os  camponeses  mais 
prósperos  estimulassem  os  aumentos  salariais,  de  maneira  a  arruinar  a  exploração 
dominial  directa  prosseguida  pelos  senhores,  ficando  eles  então  candidatos  a  arrendar 
em  boas  condições  as  terras  dos  domínios203.  E  a  mesma  situação  reproduziu-se  talvez 
em  Portugal204. 

Neste  conflito  era  a  camada  superior  da  sociedade  rural  quem  melhor  representava  a 
monetarização  da  economia,  arrastando  no  processo  a  gente  mais  pobre,  que  não  podia 
subsistir  sem  alugar  a  força  dos  seus  braços.  Relações  de  clientela,  cujo  desenvolvi¬ 
mento  teria  antes  convertido  os  ricos  da  aldeia  em  pequenos  senhores,  podiam  agora 
ser  veiculadas  de  fornia  exclusivamente  pecuniária,  transformando-se  então  os  rurais 
abastados  em  algo  diferente,  em  patrões205.  Neste  contexto  o  assalariamento  não  foi 


201  Este  problema,  fundamental  para  a  compreensão  das  relações  de  assalariamento  no  regime 
senhorial,  é  devidamente  esclarecido  por  W.  Kula  (1970)  10  e  23.  Ver  acessoriamente  A.  Castro 
( 1964-1979)  111  401  e  V  201-204.  É  outra  a  explicação  proposta  por  G.  Duby  (1962)  516,  que  atribui 
á  concentração  da  procura  de  mão-de-obra  num  período  limitado  o  facto  de  serem  relativamente  ele¬ 
vados  os  salários  pagos  aos  trabalhadores  sazonais. 

-  A  invocação  de  motivos  demográficos  é  muito  antiga.  Em  Portugal,  H  G.  Barros  (1945-1954) 
V  167-168  indica  que  uma  circular  do  rei  Afonso  IV,  dirigida  aos  concelhos,  responsabilizava  a  peste 
de  1348  pelo  desequilíbrio  nos  salários  e  na  oferta  de  força  de  trabalho.  E,  no  entanto,  lemos  em  id., 
íbid  ,  111  26-27  e  V  145-146,  386-387  que  já  antes  se  vinham  a  promulgar  leis  destinadas  -  cm  vão  -  a 
pôr  cobro  a  esse  desequilíbrio;  embora  seja  certo  que  tais  diplomas  sc  tomaram  mais  numerosos  e  sis¬ 
temáticos  após  os  meados  do  século  XIV,  como  também  se  vê  em  id.,  tbid.,  111  29  e  32  e  segs. 

3(1'  E.  Kosminsky  (1955  b)  25,  27.  Ver  também;  R  H.  Hilton  (1949-1950)  133:  id.  (1973  a)  154; 
M.  M.  Postan  (1978  a)  148. 

204  Na  sua  análise  da  Lei  das  Sesmarias,  A.  Cunhal  (1963)  1 1 3  n  7.  1 14  e  1 16-1 17  considera  que 
eram  reforçadas  as  medidas  coercivas  sobre  os  trabalhadores  prebendados  e  ao  mesmo  tempo  sc  per¬ 
mitia  aos  camponeses  mais  prósperos  disporem  das  tetras  dos  grandes  senhores.  Talvez  isto  permita 
entender  uma  queixa  registada  na  última  década  do  século  XIV.  nas  cortes  gerais  de  Coimbra,  onde  se 
afirmou  que  os  jornaleiros  preferiam  trabalhar  para  geme  de  baixa  condição,  com  quem  comiam  á 
mesma  mesa.  do  que  para  pessoas  de  distinção  Ver  a  este  respeito  H  G.  Barros  ( 1945-1954)  111  39. 

205  Vários  autores  na  tradição  da  ortodoxia  marxista.  M  Dobb  (1963)  222-223  e  S.  D.  Skaskin 
( 1955)  41-43  por  exemplo,  consideram  que  dessa  maneira  se  gerou  o  capitalismo  a  partir  do  interior 
do  regime  senhorial.  Mas  este  foi  só  um  dos  muitos  elementos  que  séculos  mais  tarde  sc  conjugaram 
numa  nova  estrutura,  inaugurando-se  então  verdadeiramente  o  modo  de  produção  capitalista.  Como 


Vciail(i(àu  monetária  das  relações  de  dependência 


85 


mais  do  que  uma  modificação  operada  pelo  dinheiro-moeda  nos  tradicionais  vínculos 
de  clientela.  Poderia  representar  visualmente  a  situação  figurando  meios  sociais  com 
perfis  bastante  precisos,  que  eram  atravessados  só  periodicamente  pela  circulação 
monetária,  sem  que  isto  lhes  alterasse  sensivelmente  o  funcionamento  económico 
interno,  e  que  se  encontravam  rodeados  por  correntes  monetárias  permanentes  e  multi- 
direceionais,  em  cujo  âmbito  se  desenvolveu  pouco  a  pouco  uma  economia  assente  no 
numerário2116. 

O  uso  do  dinheiro-moeda  permitiu  que  se  passasse  de  um  sistema  de  famílias  rurais 
com  numerosos  membros  para  um  sistema  de  angariação  de  força  de  trabalho  exterior. 
Se  o  assalariamento  entre  camponeses  constituía,  num  extremo,  a  réplica  do  comunita- 
rismo  rural,  na  medida  em  que  submetia  à  moeda  o  que  antes  havia  sido  uma  coopera¬ 
ção  de  pessoas  de  desigual  fortuna  no  seio  das  mesmas  equipas  de  trabalho,  no  outro 
extremo  reflectia  os  vínculos  domésticos.  Aliás,  ocorreram  formas  mistas,  em  que  ao 
mesmo  tempo  se  articulava  a  colaboração  doméstica  e  o  trabalho  assalariado207.  Numa 
época  em  que  a  prebenda  exclusivamente  em  géneros  se  tomava  menos  frequente 
enquanto  método  de  remuneração  e  estava  a  ser  gradualmente  substituída  pelo  salᬠ
rio208,  recorrer  a  relações  de  família  ampla  ou  de  família  artificial  para  aumentar  a 
mão-de-obra  disponível  correspondia  a  evitar  o  uso  de  numerário.  Assim,  proponho 
como  hipótese  que.  quanto  mais  se  difundisse  a  cunhagem,  mais  as  unidades  familiares 
podiam  reduzir-se  à  dimensão  conjugal.  Como  já  avancei  também  a  hipótese  (no  capí¬ 
tulo  l.c)  de  que  a  força  dos  v  ínculos  comunitários  estivesse  em  relação  inversa  com  a 
amplitude  das  famílias,  concluo  que  o  desenvolv  imento  do  comunitarismo  se  processou 
a  par  da  generalização  do  dinheiro-moeda.  A  Forma  1  do  dinheiro  seria,  portanto,  o  ins¬ 
trumento  que  permitiu  a  vigência  do  novo  tipo  de  comunitarismo  rural,  correspondente 
às  senhorias  impessoais200. 

A  difusão  do  numerário  teve  aqui  uma  função  dupla,  ao  mesmo  tempo  possibilitando 
a  ruptura  dos  velhos  vínculos  e  impedindo  que  os  grupos  se  dissolvessem  nos  seus  com¬ 
ponentes  individuais,  pois  a  circulação  monetária  constituiu  um  factor  agregativo  igual¬ 
mente  poderoso.  Só  que.  ao  transmutarem-se  na  Forma  I  do  dinheiro,  os  elos  que  antes 


observa  acertadamente  E  Kosminski  (1963)  89  e  92.  uni  notável  historiador  marxista  dc  ideias  não 
menos  conformes,  não  se  tratava  ainda  da  acumulação  capitalista  primitiva,  mas  apenas  das  suas  pri¬ 
mícias. 

206  Eram  os  estratos  rurais  médios  que  mais  necessitavam  do  apoio  de  amigos  e  parentes,  observa 
B.  A.  Hanawatt  ( 1986)  85.  acrescentando  que  os  camponeses  prósperos  substituíam  em  grande  parte 
esses  vínculos  por  relações  de  poder  e  de  dinheiro. 

207  No  seu  estudo  sobre  uma  aldeia  dos  Pirenéus  franceses  na  passagem  do  século  XIII  para  o 
XIV,  E,  Le  Roy  Ladurte  ( 1 97.5 1  i  20  c  169  assinala  a  frequência  com  que  se  misturavam  os  elos  de 
assalariamento  e  os  de  parentesco,  incluindo  a  residência  conjunta.  E  na  Toscana  do  começo  do 
século  XV  D.  Herlihy  et  ai.  ( 1985)  ] 06-107  mostram  que  a  mezzadrta.  uma  forma  intermédia  de  tra¬ 
balho  que  conjugar  a  a  servidão  e  o  assalariamento.  revelar  a  também  conotações  domésticas.  Ver  a 
este  respeito  a  n.  1 04  do  capitulo  I 

20$  yer  ncste  capitulo  a  n.  1 25. 

209  L.  K.  Little  (1971)  29  e  35  observa  que,  com  o  desenvolvimento  das  comunidades,  a  moeda 
substituiu-se  a  muitas  das  relações  pessoais,  e  acrescenta  (p  30)  que  o  uso  de  numerário  tomou  possí¬ 
vel  a  cooperação  entre  pessoas  estranhas. 


Forma  I  do  dinheiro 


H6 


haviam  unido  de  maneira  directa  os  membros  das  famílias  canyMW «■daram  de  per¬ 
fil  e  passaram  a  ser  imediatameme  condicionados  pelo  banmmm.  SapaMo  detentora  do 
exclusivo  da  cunhagem  e  possuidora  de  todas  as  condições  nxKMtm*  pn  controlar  os 
percursos  da  moeda,  a  classe  senhorial  assegurava  a  sua  intexfcrihKÍa  oa  quaisquer  ope¬ 
rações  realizadas  mediante  o  emprego  de  numerário.  Deste  mod*  «t  «teresses  estrita¬ 
mente  familiares  puderam  converter-se  na  teia  de  relações  que  eaMnva  o  novo  comu- 
nitarismo  rural  e  que,  tomando  coesa  a  população  de  um  terrôória,  servia  de  funda¬ 
mento  à  senhoria  impessoal210.  Graças  à  Forma  I  do  dinheiro  as  coiectividades  rurais 
apareceram  como  camada  inferior  de  vastíssimas  famílias  artificiais  chefiadas  pelos 
senhores  impessoais.  Foi  assim  que  começou  a  desenhar-se  o  Estado  moderno. 

Cada  vez  mais  as  relações  entre  pais  e  filhos,  e  dos  filhos  entre  si,  foram  permeadas 
pelo  dinheiro,  mesmo  quando  ocorriam  nos  moldes  tradicionais  da  dependência  pes¬ 
soal.  É  instrutivo  acompanhar  a  evolução  de  uma  prática  sucessória  vigente  entre  os 
caseiros  não-livres  do  centro  e  do  norte  da  França.  Só  eram  juridicamente  reconhecidos 
como  herdeiros  deste  tipo  de  servo  os  descendentes  que  habitassem  com  ele  à  hora  da 
sua  morte,  e  se  tal  condição  não  se  verificasse  a  totalidade  da  herança  cabia  ao  senhor. 
Ora.  tomou-se  corrente  no  século  XIII  que  os  bens  assim  adquiridos  pelos  senhores 
fossem  em  seguida  vendidos,  frequentemente  aos  parentes  do  defunto211,  o  que  me 
parece  corresponder  na  prática  à  introdução  de  um  imposto  sucessório  em  moeda,  de 
montante  variável.  Uma  modalidade  de  dependência,  originariameme  tão  pessoalizada 
que  os  senhores  ocupavam  um  lugar  equivalente  ao  de  verdadeiro  chefe  da  domestici¬ 
dade  servil  não-livre,  convertera-se  numa  relação  mediada  pelo  dinheiro  e,  portanto, 
caracterizadamente  impessoal.  Ao  longo  deste  período  foi  o  uso  de  numerário  a  inspi¬ 
rar  as  alienações  e  arrendamentos  de  terras,  bem  como  certos  tipos  de  indemnização 
que  serviram  para  contrabalançar  alguns  efeitos  dos  vários  sistemas  sucessórios.  No 
caso  de  a  herança  ir  para  um  único  descendente,  diminuiu  assim  a  marginalização  dos 
filhos  segundos212.  E  as  filhas,  quando  eram  afastadas  da  sucessão,  podiam  receber  um 
dote  em  moeda,  além  de  bens  móveis213.  As  transacções  fundiárias  impediram  igual¬ 
mente  a  fragmentação  excessiva  do  património,  no  caso  de  divisibilidade  da  herança214, 
pois  o  exemplo  inglês  mostra  que  um  dos  irmãos  podia  comprar  aos  outros  os  interes¬ 
ses  deles  na  terra  herdada213.  O  próprio  casamento,  ritual  fundador  da  célula  conjugal  e 
que  conquistou  um  lugar  central  devido  à  redução  do  âmbito  familiar,  passou  a  ser  pau¬ 
tado  pelo  ritmo  da  circulação  monetária216. 


210  Referindo-se  à  região  de  Barcelona  no  começo  do  período,  P.  Boonassie  ( 1967)  1 19  indica  que  o 
aumento  do  número  de  transacções  fundiárias  convertia  frequentemente  as  relações  entre  irmãos,  c  ate 
entre  pais  e  filhos,  em  meras  relações  de  negócio.  Este  autor  conclui.  todavia,  que  enfraqueciam  assim 
os  elos  de  solidariedade  não  só  familiares  como  comunitários.  Pelo  contiáno,  pretendo  mostrar  que  a 
circulação  do  numerário,  ao  traçar  as  novas  vias  da  dependência,  dava  outra  coesão  aos  camponeses. 

211  M.Bloch(1928a)23-24,26. 

212  R.  Hiltonf  1977-1978)  278. 

213  R.  Aubenas  (1936)  536;  B.  A.  Hanawalt  ( 1986)  68;  P.  Toubert  (1960)  449. 

214  R.  Hilton  (1977-1978)  278. 

215  B.  A.  Hanawalt  (1986)  70-71 

216  No  século  XIV,  escreve  G.  Duby  ( 1962)  623.  os  mercados  locais  ajustados  ao  calendário  agrí¬ 
cola  determinavam  as  datas  habituais  dos  casamentos  camponeses. 


Veicularão  monetária  das  relações  de  dependência 


87 


Estes  mecanismos  sofisticados,  indispensáveis  ao  processo  de  evolução  das  famílias 
servis  e.  portanto,  à  difusão  da  dependência  impessoal,  tiveram  na  Forma  1  do  dinheiro 
o  veículo  da  sua  operacionalidade.  Uma  vez  mais,  o  quadro  familiar  do  campesinato  e 
o  quadro  das  relações  de  exploração  só  podem  analisar-se  em  conjunto. 


d.  Conteúdo  da  Forma  I  do  dinheiro 

Nem  toda  a  moeda  veiculou  relações  de  dependência.  À  generalidade  da  população 
rural  e  à  arraia-miúda  das  cidades  eram  acessíveis  somente  peças  pequenas  e  de  con¬ 
teúdo  metálico  pouco  valioso,  fabricadas  em  má  liga  e,  quando  as  moedas  de  ouro  rea¬ 
pareceram,  talvez  também  em  prata  com  um  certo  grau  de  pureza217.  Acessoriamente 
podia  recorrer-se  ao  fraccionamento  das  moedas,  de  maneira  a  que  cada  pedaço  cum¬ 
prisse  as  funções  de  dinheiro  divisionário218.  É  certo  que  um  especialista  sustenta  uma 
posição  diferente,  pretendendo  que  a  cunhagem  das  boas  moedas  de  prata,  iniciada  no 
começo  do  século  XIII.  se  teria  origínariamente  destinado  ao  pagamento  dos  salários 
dos  operários  urbanos  nos  maiores  centros  manufactureiros,  bem  como  ao  pagamento 
de  tributos  e  taxas,  já  que  os  camponeses  venderiam  também  os  seus  excedentes  agrí¬ 
colas  por  boa  prata,  ou  quem  sabe  se  mesmo  por  ouro;  segundo  este  autor,  a  pequena 
moeda  de  má  liga  e  a  moeda  divisionária  serviriam  somente  para  as  transacções  quoti¬ 
dianas  correntes,  e  apenas  no  meio  urbano219.  No  entanto,  esta  objecção  não  encontra 
sustentação  factual220  e  pode  afirmar-se  com  segurança  que  foram  as  peças  de  escasso 


217  Depois  de  observar  que  as  peças  de  valor  umtáno  elevado  circulavam  apenas  entre  as  camadas 
mais  ricas,  C.  M.  Cipolla  (1956)  26  e  34  comenta  que  a  estratificação  social  se  repercutia  no  uso  dos 
diferentes  tipos  de  numerário.  Vários  autores  afirmam  que  a  prata  servia  sobretudo  para  os  pequenos  e 
médios  pagamentos  correntes:  M.  Bloch  ( 1953)  151,  435;  id.  (1954)  39,  55:  C.  M.  Cipolla  (1948)  35- 
-36;  id.  (1956)  34;  T.  Lalik(1968)  133. 

218  F.  Dumas-Dubourg  (1971)  64;  A.  Gieysztor  (1961)  481-482;  id.  (1971  b)  73;  P.  Spufford 
(1988)331. 

219  P.  Spufford  em  Istituto  Intemazionale  di  Stona  Economica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli 
(org.  1982)  622-624;  id.  (1984)  383-385;  id.  (1988)  323,  328,  334-335. 

220  Ao  lermos  em  id.  (1988)  333  o  relato  das  reivindicações  em  matéria  financeira  formuladas 
pelos  Cinmpi  durante  a  revolução  florentina  de  1378,  verificamos  que  eles  eram  pagos  em  pequena 
moeda  de  má  liga  Peter  Spufford  acusa  de  incoerência  os  insurrectos,  mas  é  possivel  que  o  defeito 
resida  mais  na  sua  tese  do  que  na  opinião  sustentada  de  armas  na  mão  pelos  mais  directos  interessa¬ 
dos.  Spufford  analisa  a  questão  sobretudo  nas  cidades,  quando  era  fundamentalmente  no  meio  rural 
que  o  numerário  operava  enquanto  veículo  das  relações  de  dependência.  E  talvez  as  remunerações 
urbanas  com  que  ele  se  ocupa,  efectuadas  cm  moeda  de  boa  prata,  consistissem  em  pagamentos  a 
empreiteiros,  no  quadro  do  sistema  empresarial.  Com  efeito,  E.  Bridrey  ( 1906)  226-227  indica  que. 
segundo  Nicole  Oresme,  um  dos  maiores  especialistas  teóricos  e  políticos  da  emissão  monetária  fran¬ 
cesa  naquele  período,  as  peças  cunhadas  numa  liga  de  prata  com  metal  inferior  serviriam  para  os  salᬠ
rios  de  jornaleiros,  para  as  transacções  de  pequeno  valor  e  para  as  esmolas.  Também  C.  M.  Cipolla 
(1956)  34  escreve  que  os  salários  eram  geralmente  pagos  em  moeda  pequena  Aliás,  leio  cm  A.  De 
Maddalena  (1982)  522  que  os  banqueiros,  que  recebiam  dcpósiios  cm  todos  os  tipos  de  numerário, 
forneciam  aos  empresários  das  manufacturas  moeda  pequena,  para  eles  remunerarem  a  sua  mào-dc- 
-obra.  F.  Graus  ( 195 1 )  45 1  refere  que  nas  cidades  da  Boémia,  no  século  XIV,  a  arraia-miúda  era  paga 
em  péssimas  moedas  de  má  liga.  No  seu  estudo  sobre  o  Màconnais.  G.  Duby  (1953)  476-477  men- 


Forma  /  do  dinheiro 


88 


valor  a  servir  de  instrumento  às  relações  de  dependência  e  de  exploração,  constituindo 
a  Forma  1  do  dinheiro.  Colocava-se,  assim,  o  duplo  problema  da  acessibilidade  do 
numerário  e  da  manutenção  de  cada  moeda  a  um  nível  de  valor  reduzido.  Com  efeito,  a 
tendência  natural  neste  período  seria  para  o  aumento  do  valor  das  moedas,  pois  a  pro- 


cíona  o  uso  de  pequenas  moedas  no  assaiariamento.  pelo  menos  ate  aos  meados  do  século  XIII.  A 
propósito  das  cidades  italianas,  R.  S.  Lopez  ( 1 965 )  30 1  afirma  que  os  cidadãos  mais  pobres  c  a  arraia- 
-miúda  recorriam  unicamente  às  pequenas  moedas  de  cobre,  misturadas  com  uma  ténue  liga  de  prata, 
ou  no  melhor  dos  casos  a  moedas  de  boa  prata  Em  Florença,  ao  abrir-se  o  segundo  terço  do  século 
XIV,  M.  Bloch  (1933  c)  30  e  (1953)  435  observa  que,  na  sua  maioria,  os  funcionários  governamentais 
eram  retribuídos  em  prata,  mesmo  aqueles  que  ocupavam  os  postos  de  maior  relevância,  recebendo 
ouro  apenas  os  capitães  dos  castelos  e  os  embaixadores  que  partiam  para  terras  distantes.  Ora,  não  me 
parccc  admissível  que  o  podestà  e  o  capitão  do  povo.  por  exemplo,  embolsassem  os  honorários  nas 
mesmas  moedas  com  que  se  pagavam  os  miseráveis  artífices.  Com  efeito,  pelo  que  escreve  G.  Soldi 
Rondinini  (1982)  353,  baseando-se  cm  documentação  relativa  aos  mercenários  ao  serviço  dos  Vis- 
conti.  príncipes  de  Milão,  durante  as  décadas  centrais  do  século  XIV,  deduzo  que  era  o  condestável 
quem  recebia  em  florins  de  ouro  o  soldo  referente  à  totalidade  das  tropas,  distribuindo  ele  depois  as 
remunerações  a  cada  um  dos  soldados.  Mas  em  que  tipo  dc  moeda  se  realizaria  esta  distribuição? 
Decerto  contribuirá  para  solucionar  a  questão  sabermos  que.  pouco  antes,  o  governo  de  Sicna  incluiu 
na  constituição  da  cidade  uma  cláusula  estipulando  que  todos  os  contratos  com  mercenários  fossem 
efectuados  cm  moeda  pequena  de  prata,  e  não  em  florins  de  ouro.  Veja-se  a  este  respeito  W.  M. 
Bowsky  (1981 )  229.  E,  a  crer  em  J.  R.  Strayer  (1977)  279-280,  durante  a  guerra  que  o  rei  de  Ingla¬ 
terra  e  o  rei  de  França  travaram  na  última  década  do  século  XIII  e  na  primeira  década  do  século 
seguinte,  os  soldados  que  combatiam  a  pé  recebiam  o  equivalente,  ou  até  menos,  ao  salário  mínimo 
de  um  trabalhador  não  qualificado.  Assim,  parece-me  que  sc  o  comandante  de  uma  tropa  dc  mercenᬠ
rios  podia  receber  cm  ouro  o  pagamento  total,  cada  soldo  seria  constituído  por  pequena  moeda  de 
prata  ou  de  liga.  Finalmcnte.  um  esclarecimento  decisivo  resulta  da  análise  da  situação  em  Veneza.  P. 
Spufford  ( 1 984)  383  pretende  que  os  primeiros  grossi,  moedas  de  boa  prata,  foram  cunhados  naquela 
cidade  em  1201,  para  pagar  os  salários  dos  operários  que  construiram  e  equiparam  os  navios  destina¬ 
dos  á  grande  peregrinação  armada  do  ano  seguinte.  Todavia,  depois  de  estudar  o  texto  dc  um  cronista 
da  época,  L.  B.  Robbert  (1974)  49-52  e  55  conclui  que  o  grosso,  cuja  cunhagem  se  iniciou  em  Veneza 
na  transição  do  século  XII  para  o  século  seguinte,  não  se  deve  confundir  com  a  moeda  usada  para 
pagar  aos  carpinteiros  navais  empregues  na  construção  da  frota  que  havia  de  transportar  os  expedicio¬ 
nários  de  1202.  Segundo  Louise  Buenger  Robbert,  para  a  remuneração  destes  carpinteiros  ter-se-ia 
usado  o  quartorolo.  emitido  também  em  1202,  mas  cujo  valor  equivalia  a  1/4  de  uma  pequena  moeda 
que  deixara  entretanto  de  ser  fabricada,  o  que  lhe  dava  um  carácter  praticamente  fiduciário.  Aliás, 
basta  analisar  a  articulação  entre  a  depreciação  sistemática  da  Forma  1  do  dinheiro  e  o  elevado  grau  de 
estabilidade  que  caracterizava  a  Forma  11,  tal  como  farei  mais  adiante  (no  capítulo  1 1),  para  confirmar 
que  os  salários  eram  pagos  em  má  moeda. 

Deixando  claro  que  se  trata  dc  uma  mera  hipótese,  A.  De  Maddalcna  ( 1982)  500-503  levanta  a 
questão  de  saber  sc  os  camponeses,  mesmo  os  de  condição  modesta,  usariam  a  moeda  nas  funções  de 
reserva  de  valor  e  não  só  enquanto  meio  de  pagamento.  Se  assim  fosse,  especula  este  autor,  então 
interessaria  à  população  rural  a  obtenção  de  moeda  forte.  Mas  não  vejo  a  utilidade  dc  alguém  se  lan¬ 
çar  em  cogitações  para  as  quais  não  apresenta  qualquer  fundamento.  Aliás,  nas  suas  sugestões  de  anᬠ
lise  (pp.  508  e  segs.)  Aldo  De  Maddalena  confere  demasiado  relevo  aos  elementos  já  senhoriais,  ou 
quase  senhoriais,  detectáveis  em  certos  estratos  da  sociedade  camponesa,  o  que  falseia  os  dados  do 
problema.  É  certo  que  na  Catalunha  dc  meados  do  século  X  até  meados  do  século  XI,  e  contraria¬ 
mente  ao  que  sucedia  no  resto  da  Espanha  cristã,  P.  Bonnassic  (1975-1976)  382-383  observa  que  as 
moedas  de  ouro  circulavam  cm  todas  as  camadas  sociais,  incluindo  o  médio  c  o  pequeno  campesinato 
independente.  Mas  tratava-se  de  peças  muçulmanas,  e  muitas  delas  haviam  sido  obtidas  nas  guerras  e 
razias  contra  al-Andalus.  A  economia  de  pilhagem,  que  influenciou  tão  proftmdamente  a  Espanha 
cristã  desta  época,  exerceu  efeitos  na  esfera  monetária,  fazendo  com  que  aqueles  reinos  detivessem 
durante  a  maior  parte  do  periodo  uma  posição  original  no  regime  senhorial. 


Veiculaçâo  monetária  das  relações  de  dependência 


89 


cura  de  prata  para  cunhar  foi  sempre  muito  superior  à  oferta  resultante  do  desentesou- 
ramento,  da  importação  do  metal  e  da  exploração  de  novas  minas221.  Neste  contexto,  a 
principal  garantia  da  acessibilidade  das  peças  componentes  da  Fonna  I  do  dinheiro 
consistiu  na  sua  depreciação.  Só  a  frequente  repetição  da  quebra  da  moeda  pôde  depre¬ 
ciá-la,  de  maneira  a  que  a  difusão  de  um  numerário  de  escasso  valor  satisfizesse  as 
necessidades  da  população  humilde,  permitindo  ao  mesmo  tempo  ultrapassar  o  dilema 
provocado  pelo  facto  de  o  aumento  da  procura  de  moedas  ser  superior  ao  aumento  da 
oferta  de  metal  precioso222. 


221  J.  Day  em  Istituto  Intemazionalc  di  Storía  Econotnica  «F.  Datíni»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org. 
1982)  880;  Ph.  Grierson  (1976  a)  84;  R.  S.  Lopez  (1982)  8;  Ph.  Wolff(l982)  786-788. 

Mesmo  no  século  XIII,  quando  foi  mais  intensiva  a  extracção  de  prata,  afirma  R.  S.  Lopez  { 1953 
b)  1 83-184  que  a  sua  oferta  continuava  a  ser  menor  do  que  a  procura.  Sem  pretender  negar  este  factor. 
J.  Belaubre  (1986)  74  relativiza-o.  considerando  que  as  oficinas  monetárias,  desejosas  de  proporcio¬ 
nar  bons  lucros  aos  soberanos,  ofereciam  muitas  vezes  um  preço  insuficiente  pelo  metal  precioso  e 
que  por  tal  motivo  os  seus  detentores,  em  vez  dc  o  darem  a  cunhar,  preferiam  com  frequência  empre¬ 
gar  lingotes  nas  transaeções.  Mas  é  claro  que  este  argumento  vale  apenas  para  esferas  de  circulação 
em  que  devia  ser  elevado  o  valor  unitário  de  cada  peça. 

222  J.  Belaubre  (1986)  74;  R.  Cazelles  ( 1982)  533;  C.  M.  Cipolla  (1956)  33;  id.  (1962-1963)  414. 
418;  id.  (1965)  228.  232;  J.  Day  em  Istituto  Intemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini»,  V.  Bar¬ 
bagli  Bagnoli  (org.  1982)  281,  880;  G.  Duby  (1953)  476-477;  id.  (1973)  278-279;  J.  Favier  (1982) 
179,  182:  A.  Gieysztor  (1961 )  479;  Ph.  Grierson  (1976  a)  84:  Ch.  Higounet  et  al.  ( 1963)  295;  R.  S. 
Lopez.  (1961  b)  85;  td.  (1982)  8;  Ph.  Wolff  ( 1982)  786,  788. 

M.  Bloch  (1953)  455  enuncia  quatro  motivos  que  levaram  à  depreciação  monetária:  ajustar  á  sua 
relação  comercial  a  relação  oficial  estabelecida  entre  os  metais  preciosos;  ajustar  a  cunhagem  à  depre¬ 
ciação  provocada  nas  moedas  mediante  o  mero  desgaste;  aumentar  o  número  de  meios  dc  pagamento: 
satisfazer  necessidades  fiscais  da  coroa.  E  o  notável  historiador  especifica  que  todos  estes  motivos 
decorriam  de  uma  circunstância  única,  a  escassez  da  oferta  de  metais  preciosos.  Convém  observar  que 
Marc  Bloch  não  levou  aqui  em  conta  o  desenvolvimento  neste  período  de  formas  de  dinheiro  fiduciᬠ
rio.  que  atenuaram  consideravelmente  os  efeitos  da  escassez  de  meios  de  pagamento  na  esfera  dos 
negócios.  Esta  aparente  lacuna  só  revela  a  sua  grande  lucidez,  pois  a  problemática  fundamental  da 
depreciação  monetária  não  decorria  das  relações  de  mercado,  mas  da  remodelação  dos  vínculos  sen  is. 
Do  mesmo  modo,  depois  de  afirmar  que  a  depreciação  da  moeda  foi  o  resultado  necessário  da  exigên¬ 
cia  de  um  maior  número  de  meios  de  pagamento  nas  épocas  de  expansão  económica,  C.  M.  Cipolla 
(1948  )  139-140  deixa  claro  que  esta  pressão  se  exerceu  apenas  sobre  a  pequena  moeda,  e  não  sobre  a 
moeda  forte  de  ouro,  porque  o  crédito  se  expandiu  muitíssimo  mais  no  comércio  de  longo  curso  do 
que  nos  mercados  locais.  Fica  assim  destacada  a  especificidade  da  Forma  1  do  dinheiro.  Todavia,  a 
agudeza  de  visão  de  Cario  M.  Cipolla  encontra-se  de  certo  modo  diluída  em  (1962-1963)  414  e  (1965) 
228,  quando  este  historiador  enumera  enquanto  factores  determinantes  da  quebra  da  moeda  o  acrés¬ 
cimo  da  procura  de  numerário,  o  aumento  dos  défices  governamentais,  as  especulações  de  certos  gru¬ 
pos  sociais  e  o  desequilíbrio  na  balança  de  pagamentos  e,  enquanto  factores  acessórios,  a  má  gestão 
das  oficinas  de  cunhagem,  o  desgaste  provocado  nas  moedas  pelo  uso  e  pelo  hábito  de  lhes  cortar  apa¬ 
ras  e  a  flutuação  na  relação  comercial  estabelecida  entre  o  ouro  e  a  prata.  Ao  apresentar  um  grande 
número  de  causas  reciprocamente  independentes  Cipolla  compromete  qualquer  reflexão  estruturada, 
mas  francamente  errónea  parece-me  ser  a  abordagem  proposta  por  R.  de  Roover  ( 1 948)  226.  Este 
autor  pretende  que  o  tipo  de  explicação  que  aqui  defendo  só  em  parte  seria  válido,  porque  o  uso  de 
letras  de  câmbio  no  comércio  de  longo  curso  e  de  depósitos  bancários  nos  pagamentos  locais  permiti¬ 
ria  minorar  as  consequências  da  falta  de  metal  precioso.  No  mesmo  sentido  se  pronuncia  A.  M.  Wat- 
son  ( 1 967 )  3 1 ,  Mas,  como  a  esfera  social  em  que  operavam  estes  instrumentos  financeiros  era  absolu¬ 
tamente  alheia  às  relações  de  dependência,  eles  em  nada  ajudam  a  compreender  o  que  se  passava  com 
a  Forma  I  do  dinheiro.  Por  seu  lado,  E.  Perroy  ( 1949)  170  sustenta  que  teria  bastado  o  aumento  da 
velocidade  de  circulação  do  numerário  para  que  não  se  fizessem  sentir  os  efeitos  da  escassez  da  massa 


90 


Forma  I  do  dinheiro 


A  quebra  da  moeda  atingiu  rapidamente  um  ponto  tai  que  as  peças  pequenas  corriam 
por  um  valor  nominal  muito  superior  ao  valor  atribuído  ao  seu  conteúdo  metálico,  tor¬ 
nando-se  um  dinheiro  fiduciário223,  o  que  as  aproximava  da  Forma  III  do  dinheiro,  que 
apresentarei  mais  tarde  (no  capítulo  lO.a).  Compreende-se  assim  que  a  população  pobre, 
habituada  a  servir-se  de  numerário  com  uma  denominação  superior  ao  seu  valor  intrín¬ 
seco.  aceitasse  correntemente  verdadeiras  modalidades  de  dinheiro  fiduciário224.  Desde 
a  segunda  metade  do  século  XI  até  ao  termo  do  período,  alguns  monarcas  e  certas  cida¬ 
des  usaram  para  fins  pecuniários  pedaços  de  couro,  marcados  com  o  símbolo  da  autori¬ 
dade,  que  seriam  depois  redimidos  ao  seu  valor  nominal.  Todavia,  esta  prática  ocorreu 
apenas  em  circunstâncias  extremas  e  foi  por  isso  esporádica,  nunca  adquirindo  sistema- 
ticidade225.  Também  parece  urn  exemplo  raro  a  emissão  de  cédulas  pelos  governos  de 
Milão  e  de  Como  no  século  XIII.  Tratava-se  de  obrigações  que  continham  a  promessa 
de  um  pagamento  futuro  em  numerário,  o  que  as  convertia  em  verdadeiros  instrumentos 


de  moeda,  e  id.  et  al.  <  1955)  362-363  consideram  que  o  problema  da  falta  de  metal  precioso  se  resol¬ 
veu  não  só  devido  ao  acréscimo  da  velocidade  de  circulação,  como  também  graças  à  difusão  do  cré¬ 
dito  e  de  formas  de  dinheiro-papel.  E  curioso  que  seja  esquecida  neste  contexto  a  depreciação,  que 
contribuiu  mais  do  que  qualquer  outro  factor  para  pôr  o  numerário  ao  alcance  da  população  pobre.  R. 
S.  Lopez  <  1 974)  ]  04- 1 05  propõe  um  modelo  em  que  a  quebra  da  moeda  se  conjuga  com  a  velocidade 
da  sua  circulação,  afirmando  que  as  depreciações  frequentes  levavam  as  pessoas  a  procurarem  desein- 
baraçar-se  da  moeda  cada  vez  mais  depressa  e  que  este  aumento  da  velocidade  permitiu  em  parte  com¬ 
pensar  a  escassez,  da  massa  metálica.  É  interessante  recordar  que,  em  (1951)  220.  Roberto  Sabatino 
Lopez  sustentara  que  a  insuficiência  do  volume  de  numerário  em  circulação,  «oscilando  a  depreciação 
da  cunhagem,  com  o  consequente  estímulo  ao  entesouramento  dos  metais  preciosos,  expandira  o 
escambo,  o  que  teria  ocasionado  quebras  de  moeda  maiores  ainda,  num  cúncnlo  vicioso.  Neste  seu 
modelo  inicial,  a  depreciação,  em  vez  de  aparecer  como  um  dos  factnces  do  progresso  da  economia 
monetária,  foi  apresentada  como  um  obstáculo  à  monetarização.  Aliás,  em  (1982)  8  Lopez  admite  de 
novo  a  existência  de  uma  relação  entre  o  aumento  da  depreciação  e  o  a«»m«i»»  do  entesouramento. 

223  J.  Belaubre  (1986)  75.  160;  M.  Bloch()953)  150;  L.  B.  Robbert(1974)51,52 

224  W.  J.  Courtenay  (1972-1973)  289  pretende  que  o  uso  como  dinheiro  fiduciário  de  peças  metᬠ
licas  originariamente  destinadas  a  outros  fins  foi  inspirado  pelos  instrumentos  de  crédito  do  século 
Xll  e  do  começo  do  século  XIII.  Sem  negar  esta  contribuição,  parece-me  que  da  teria  sido  mais  deci¬ 
siva  para  as  instituições  emissoras  do  que  para  o  público.  Com  efeito,  R-  S.  Lopez  (1965)  307  e  M. 
Mollat  ( 1978)  189  mostram  que.  pelo  menos  em  Itália,  nos  livros  de  centabütdade  de  algumas  firmas 
mercantis  existiam  contas  abertas  em  nome  de  Deus,  nas  quais  se  creditava  a  parte  dos  lucros  desti¬ 
nada  a  sustentar  a  obra  benemerente  de  confrarias  e  de  hospitais.  Aliás,  estas  instituições  de  caridade 
eram  geridas  por  mercadores  e  segundo  o  modelo  das  próprias  firmas.  Do  hdo  do  público,  porém,  as 
vastas  camadas  pobres  da  população  eram  em  grande  medida  alheias  a  esse  tipo  de  mecanismos 
financeiros,  sobretudo  no  meio  rural,  e  decerto  foi  a  depreciação  da  pequena  moeda  que  as  habihiou  à 
circulação  fiduciária.  Ora,  nesta  questão,  mais  ainda  do  que  em  todas  as  outras,  a  emissão  depende 
imeiramente  da  aceitação  pública. 

É  interessante  a  este  respeito  observar  o  exemplo  da  sociedade  islâmica,  oode  a  prata  começou  a 
tomar-se  escassa,  até  se  atingir  uma  situação  critica  na  segunda  metade  do  século  Xll.  Nessa  aluira, 
além  da  moeda  de  ouro,  circulavam  só  peças  de  má  liga,  com  um  conteúdo  metálico  de  baixíssimo 
valor.  Ora,  parece  que  em  algumas  regiões,  nomeadamente  no  Egipto,  se  procedeu  ao  fabrico  de 
pequenos  objectos  de  vidro,  que  circulariam  como  dinheiro  fiduciário.  Ver  acerca  desta  questão  A.  M. 
Watson  ( 1967)  4  e  n.  1. 

225  Acerca  do  dinheiro  de  couro  neste  periodo  consultar  sobretudo  W.  Charlton  ( 1 906)  3 1 5-3 16  e 
321-322.  Ver  acessoriamente;  W.  J.  Courtenay  (1972)  194;  id.  (1972-I9"'3i  281;  P.  Einzig  (1948) 
268-269. 


Veiculação  monetária  das  relações  de  dependência 


91 


pecuniários,  que  deviam  ser  aceites  como  equivalentes  da  moeda,  e  que  se  podiam  per¬ 
mutar  e  transmitir.  As  autoridades  urbanas,  contudo,  não  deram  garantias  suficientes, 
por  isso  o  carácter  fiduciário  deste  tipo  de  dinheiro  ficou  posto  em  causa  e  ele  foi  em 
geral  recusado  nos  negócios  entre  particulares.  O  governo  milanês  estipulou  então  que, 
embora  os  credores  não  estivessem  obrigados  a  receber  as  cédulas  em  pagamento  das 
obrigações  contraídas,  elas  podiam  ser  empregues  para  liquidar  as  multas  devidas  à 
comuna.  O  governo  de  Como.  por  seu  lado.  perante  o  descrédito  público  das  cédulas 
que  havia  emitido,  procurou  sujeitá-las  a  um  curso  quase  forçado.  Mas  os  credores  exi¬ 
giam  que  as  dívidas  não  fossem  pagas  em  cédulas  e  a  própria  comuna  só  redimia  as 
cédulas  com  grandes  intervalos  de  tempo.  Afinal,  tratara-se  de  um  mero  expediente  des¬ 
tinado  a  paliar  a  escassez  episódica  de  prata,  devida  à  guerra,  e  não  de  um  método  finan¬ 
ceiro  regular,  e  as  autoridades  acabaram  por  retirar  as  cédulas  de  circulação226. 

Muito  mais  significativo  foi  o  uso  sistemático  e  difundidíssimo  de  peças  simbólicas, 
semelhantes  a  moedas  no  formato,  e  fabricadas  em  metais  de  baixo  preço.  Frequente¬ 
mente  empregaram-se  para  finalidades  pecuniárias  as  pequenas  rodelas  que  serviam  de 
auxiliar  nas  técnicas  de  cálculo  vigentes  na  época.  Do  século  XIII  até  ao  século  XV  estas 
rodelas  eram  feitas  de  latão  ou  cobre,  e  mesmo  de  chumbo,  e  só  passado  o  final  do 
período  pessoas  particularmente  ricas  mandaram  cortá-las  em  prata  e  até  em  ouro.  Os 
soberanos  e  os  demais  senhores  ordenavam  o  fabrico  periódico  de  novas  séries  de  rode¬ 
las,  pois  distribuíam  as  antigas  entre  os  seus  funcionários  administrativos,  consoante  uma 
prática  de  tal  modo  regular  que  esta  gratificação  acabou  por  ser  considerada  um  verda¬ 
deiro  direito.  Em  todas  as  camadas  sociais  se  divulgou  o  hábito  de  oferecer  rodelas  de 
contagem.  A  partir  do  momento  em  que  eram  assim  concedidas,  elas  perdiam  o  carácter 
originário  para  se  converterem  num  tipo  de  dinheiro.  Aliás,  a  conotação  monetária  das 
rodelas  foi  muitíssimo  acentuada.  Não  só  tinham  um  formato  semelhante  ao  das  moedas, 
mas  na  França  e  na  Inglaterra,  sobretudo  entre  os  meados  do  século  XIV  e  os  meados  do 
século  seguinte,  era  frequente  que  reproduzissem  a  gravura  das  peças  cunhadas.  A  seme¬ 
lhança  tomou-se  tal  que  foi  necessário  promulgar  uma  legislação  cada  vez  mais  severa 
para  prevenir  o  uso  indevido  das  rodelas  de  cálculo  e  punir  quem  as  fazia  passar  por 
moedas.  Mas  como.  ao  mesmo  tempo,  era  usual  que  numerário  fora  de  curso  e  moeda 
falsa  confiscada  fossem  aproveitados  como  auxiliares  de  contagem,  a  confusão  não  podia 
senão  agravar-se.  E  seria  pior  ainda  quando,  a  partir  do  século  XIV,  se  modificavam  por 
vezes  ligeiramente  cunhos  que  haviam  antes  sido  empregues  no  fabrico  de  moeda  para 
com  eles  produzir  rodelas.  As  rodelas  chegaram  até  a  ser  feitas  nas  oficinas  monetárias,  e 
pelos  mesmos  profissionais  que  cunhavam  a  moeda,  ao  menos  aquelas  que  se  destinavam 
aos  corpos  administrativos  de  alguns  soberanos.  Por  outro  lado,  quando  se  sabe  que  a  lei 
procurava  impedir  a  circulação  de  rodelas  estrangeiras,  concluo  que  lhes  era  aplicado  um 
critério  de  preservação  das  áreas  de  soberania  característico  das  questões  monetárias227. 
Não  havia,  portanto,  qualquer  demarcação  clara  a  separar  moedas  e  rodelas  de  cálculo. 


226  A  respeito  das  cédulas  emitidas  por  Milão  e  por  Como,  ver  A.  Ceruti  (1870)  551-559. 

227  Quanto  a  estas  peças,  denominadas  jetons  em  francês,  os  estudos  principais  são:  J.  Labrot 
(1989)  13,  113  e  segs.;  M.  Pastoureau  ( 1984)  7,  15,  20,  22,  25-26;  J.  Rouyer  et  al.  (1858)  11-33.  Ver 
acessoriamente:  W.  J.  Courtenay  (1972)  196;  P.  Spufford  (1988)  331-332. 


9: 


Forma  /  do  dinheiro 


Mais  importantes  ainda,  porque  de  circulação  mais  ampla  e  emprego  final  mais 
genérico,  foram  os  símbolos  metálicos  emitidos  de  propósito  para  efeitos  pecuniários. 
Encontramo-los  fabricados  geralmente  em  chumbo,  por  vezes  em  cobre  ou  estanho, 
mas  sucedia  também  que  fossem  recunhados  sobre  moedas  retiradas  da  circulação,  o 
que  acentua  o  seu  carácter  de  substituto  monetário.  O  uso  de  símbolos  metálicos  é 
detectado  no  século  XIII.  ou  talvez  já  mesmo  cem  anos  antes,  na  administração  de  ins¬ 
tituições  eclesiásticas  ou  de  conjuntos  senhoriais  laicos,  de  corporações,  associações 
mercantis,  confrarias  e  governos  municipais  no  norte  da  França,  ocasionalmente  até  em 
cidades  a  sul  do  Loire,  nos  Países  Baixos  e  na  Itália  setentrional,  precisamente  as 
regiões  com  um  comércio  mais  desenvolvido,  e  também  na  administração  palatina  dos 
reis  de  França.  Estes  símbolos  eram  entregues  a  sacerdotes  para  controlar  a  sua  partici¬ 
pação  nos  ofícios  litúrgicos.  ou  a  funcionários  e  a  membros  de  confrarias  e  de  corpora¬ 
ções  para  confirmar  o  cumprimento  de  serviços  ou  a  presença  em  reuniões,  ou  a  operᬠ
rios  pelas  tarefas  executadas,  e  davam  direito  a  obter  diariamente  uma  dada  remunera¬ 
ção  em  géneros  ou  uma  soma  de  moeda  semanalmente.  Podiam  ainda  ser  recebidos  por 
um  particular  enquanto  confirmação  de  que  havia  sido  efectuado  um  pagamento  a  uma 
autoridade  pública,  tal  como  podiam  servir  para  pagar  a  inscrição  em  associações  ou 
satisfazer  outras  taxas,  além  de  serem  usados  como  senhas  de  entrada  em  cidades  e 
feiras.  É  verosímil  que  algumas  peças  metálicas  ostentando  a  imagem  de  fornos  ou  de 
moinhos  servissem  aos  membros  das  comunidades  de  aldeia  para  pagarem  aos  senho¬ 
res  pela  utilização  daquelas  instalações.  E  sabe-se  que  os  mercenários  podiam  ser 
remunerados  com  símbolos  metálicos  onde  se  encontravam  gravadas  as  armas  de  quem 
os  pagava,  as  mesmas  que  figuravam  também  na  libré  que  vestiam.  Em  todos  estes 
casos,  tratava-se  de  uma  função  pecuniária,  porque  as  cédulas  metálicas,  criadas  para 
facilitar  a  contabilidade  interna,  representavam  transferências  de  bens  e  de  serviços2-8. 
A  equivalência  dos  símbolos  metálicos  ao  numerário  tomava-se  completa  quando  as 
autoridades  decretavam  que  eles  fossem  oficialmente  usados  como  dinheiro  divisionᬠ
rio,  se  começasse  a  sentir-se  a  falta  deste  tipo  de  moedas--4. 

Parece  que  a  partir  de  meados  do  século  XIII  foi-se  também  tomando  sistemática  a 
aplicação  deste  tipo  de  peças  simbólicas  para  fins  beneficentes.  Por  ocasião  de  dias  fes¬ 
tivos  elas  eram  distribuídas  aos  pobres  matriculados  em  instituições  de  caridade,  repre¬ 
sentando  o  direito  a  receber  posteriormente  esmolas  em  alimentos  e  vestuário,  e 
embora  a  prática  se  tivesse  depois  generalizado  no  âmbito  da  Igreja,  a  iniciativa  coube 
aos  leigos  das  confrarias,  das  corporações  de  ofícios  e  dos  governos  municipais.  Note- 
-se  que  o  uso  dos  símbolos  metálicos  enquanto  dinheiro  não  se  limitava  a  transferir 


J.  Rouyer  et  al.  (1858)  33  afirmam  que  em  França  e  nos  territórios  do  duque  de  Borgonha  as  rode¬ 
las  destinadas  ao  uso  dos  corpos  administrativos  dos  soberanos  eram  por  vezes,  ou  talvez  sempre, 
fabricadas  nas  oficinas  monetárias.  Mas  M.  Pastoureau  ( 1 484)  25  pretende  que  isto  sucedia  com  todas 
as  rodelas. 

22íl  F.stcs  símbolos  metálicos,  que  em  francês  se  chamam  mêreaux .  foram  sobretudo  analisados 
por:  W.  J.  Courtenay  (1972)  196-199;  id.  ( 1972-1973)  276-277.  284,  291;  J.  Labrot  (1989)  13.  24,  27, 
33,  39,  44.  47,  75,  77,  78,  82,  87.  93-95;  M.  Pastoureau  ( 1984)  7,  38-40,  44.  Ver  também:  M.  Dhenin 
em  J.  Labrot  (1989)  7. 

229 .1.  Labrot  (1989)  49. 


I  VH-ulti(,ã't  UhUWhUhl  tiilS  /  t7í/i,  Ofi  (Ir4  ilcprliJí  fh  UI 


poder  de  compra,  mas  criava  efectivamente  este  poder,  na  medida  em  que,  pelo  menos 
no  exercício  da  caridade,  eram  distribuídas  peças  respeitantes  a  fundos  de  que  a  insti¬ 
tuição  ainda  não  dispunha.  E  este  carácter  fiduciário  ampliou-se,  porque  do  final  do 
período  em  diante  os  mendigos  começaram  a  usar  as  senhas  metálicas  directamente  no 
comércio  local.  Além  de  ostentarem  a  marca  da  instituição  que  as  emitira,  as  senhas 
indicavam  ainda  uma  equivalência  monetária:  por  vezes  estipulavam  também  a  catego¬ 
ria  de  artigos  a  que  davam  acesso,  mas  nestes  casos  não  seria  difícil,  mediante  permu¬ 
tas,  adquirir  bens  de  outro  tipo  e  igual  valor.  Os  comerciantes  apresentavam  depois 
aquelas  peças  aos  estabelecimentos  que  as  haviam  posto  em  circulação,  recebendo  em 
troca  dinheiro-moeda2'0.  Mas  em  qualquer  dos  casos,  tanto  quando  serviam  para  a 
remuneração  de  padres,  funcionários  administrativos  e  artífices  como  quando  eram 
repartidos  entre  mendigos,  os  símbolos  metálicos  atingiram  uma  área  de  difusão  bem 
maior  do  que  aquela  a  que  estavam  inicialmente  destinados.  Se  as  pessoas  que  os 
tinham  recebido  os  usassem  não  nas  instituições  emissoras,  mas  no  comércio  retalhista, 
então  eles  passavam  para  a  circulação  geral.  Talvez  isto  sucedesse  mais  sistematica¬ 
mente  com  os  mendigos,  que  se  valiam  das  lojas  para  converter  as  senhas  em  géneros. 
Como  o  momento  da  remição  destes  símbolos  metálicos  era  protelado  com  frequência, 
mesmo  sem  decretos  das  autoridades  eles  funcionavam  então  enquanto  dinheiro  divi¬ 
sionário  nas  pequenas  transacções  efectuadas  pelo  público  em  geral,  o  que  ocasionava 
efeitos  de  monta  nas  economias  locais.  E  a  própria  repetição  deste  processo  contribuía 
para  ampliá-lo,  pois  quanto  mais  os  lojistas  demorassem  a  apresentar  as  cédulas  para 
resgate,  tanto  mais  folgada  ficava  a  caixa  das  instituições  emissoras,  que  punham  em 
curso  cédulas  num  montante  muito  superior  àquele  que  em  cada  momento  lhes  era  pos¬ 
sível  redimir,  ampliando  os  ciclos231.  Aliás,  a  difusão  deste  tipo  de  dinheiro  fiduciário 
foi  especialmente  fácil,  sendo  emitido  pelas  próprias  instituições  que  o  usavam,  religio¬ 
sas  ou  laicas,  sem  que  houvesse  nesta  matéria  qualquer  tipo  de  exclusivo  ou  fosse 
necessária  uma  autorização  do  soberano232. 

Estas  formas  de  dinheiro  fiduciário  correntes  entre  as  camadas  mais  pobres  tiveram 
uma  repercussão  incomensuravelmente  superior  àquela  que  a  esmagadora  maioria  dos 
especialistas  lhes  atribui233.  A  sua  importância  seria  já  enorme  se  se  limitassem  a  servir 


230  W.  J.  Courtenay  (1972)  197-199;  id  (1972-1973)  277,  282-284,  286,  288-290;  J.  Labrot 
(1989)  13,24,  77-78,  80-81;  M.  Mollat  (1978)  189-190;  P.  SpufTord  ( 1988)  332. 

M.  Pastoureau  (1984)  39  sustenta  que  foram  as  igrejas  a  inaugurar  esta  prática,  imitadas  em 
seguida  por  estabelecimentos  de  caridade  laicos.  Mas  sigo  aqui  W.  J.  Courtenay  (1972-1973)  284  e 
286.  para  quem  a  iniciativa  teria  cabido  às  instituições  laicas,  no  contexto  de  uma  tendência  para  a  lai¬ 
cização  da  caridade,  assinalável  sobretudo  no  final  do  século  XII  e  no  principio  do  século  seguinte. 
Este  autor  pretende  mesmo  (pp.  288-289)  que  os  leigos  do  meio  comercial  urbano  estariam  mais  habi¬ 
tuados  às  novas  formas  da  economia  monetária  e  fiduciária  e  por  isso  haveriam  sido  os  primeiros  a 
difundir  este  tipo  de  utilização  das  senhas  metálicas.  Mas  não  creio  que  a  Igreja  estivesse  menos  apta 
do  que  os  leigos  a  entender  todos  os  cambiantes  da  economia  comercial  e  pecuniária. 

231  W.  J.  Courtenay  ( 1972)  196-198;  id.  (1972-1973)  279.  289-291;  J.  Labrot  ( 1989)  40,  42,  82. 

232  M.  Pastoureau  ( 1 984)  38-39. 

233  M.  Dlienin  em  J.  Labrot  (1989)  5-8  chama  a  atenção  para  o  carácter  fiduciário  das  rodelas  e 
dos  símbolos  metálicos.  Segundo  M.  Pastoureau  (1984)  44,  um  especialista  suficientemente  bem 
colocado  para  saber  do  que  fala,  as  escavações  arqueológicas  encontram  com  grande  frequência,  e  por 


94 


Forma  I  do  dinheiro 


de  dinheiro  divisionário  e  a  facilitar  as  transacções  miúdas,  mas  permitiram  algo  de 
muito  mais  decisivo.  A  difusão  como  dinheiro  das  rodelas  de  contagem  e  dos  símbolos 
metálicos  revela  que  a  população  estava  apta  a  aceitar  pelo  valor  expresso  as  garantias 
da  classe  dominante,  submetendo-se  àquela  manifestação  superlativa  de  autoridade  na 
esfera  pecuniária  que  é  o  dinheiro  fiduciário.  E  quando  recordamos  que  isto  sucedeu 
relativamente  a  peças  emitidas  por  particulares,  constatamos  que  todas  as  modalidades 
do  bannum  intervinham  para  difundir  os  novos  comportamentos  necessários  ao  uso  sis¬ 
temático  de  numerário.  Foi  nestas  margens  obscuras  da  circulação  oficial  que  se  prepa¬ 
raram  os  futuros  rumos  de  desenvolvimento  do  dinheiro. 

Sem  este  conjunto  de  operações,  desde  o  fraccionamento  da  moeda  até  à  emissão  de 
símbolos  metálicos,  passando  pelas  repetidas  quebras  na  cunhagem,  teria  sido  impossí¬ 
vel  veicular  a  impessoalidade  das  relações  de  dependência.  Por  isso  incluo  na  Forma  I 
do  dinheiro  apenas  as  peças  de  pequena  denominação  e  menos  valiosas.  Cada  tipo  de 
dinheiro  servia  um  circuito  social  bem  definido,  com  regras  económicas  próprias234,  e  a 
circulação  da  Forma  I  obedecia  estritamente  às  relações  de  exploração. 

Se  pudéssemos  avaliar  a  percentagem  ocupada  no  fabrico  total  de  numerário  pelo 
tipo  de  peças  inseridas  na  Forma  I,  então  conseguiriamos  definir  se  foi  a  necessidade  de 
moedas  de  baixa  denominação,  ou,  pelo  contrário,  o  desejo  de  usar  as  mais  preciosas,  a 
impulsionar  a  busca  de  novas  jazidas  de  metal  cunhável.  Mas  não  deparei  com  nenhum 
historiador  que  se  aproximasse  sequer  de  um  cálculo  deste  género.  Uma  alternativa 
metodológica  consistiria  em  comparar  a  cronologia  do  acréscimo  da  extracção  dos 
metais  empregues  para  a  produção  de  peças  inseridas  na  Forma  I  do  dinheiro  com  a 
cronologia  da  difusão  das  prestações  em  dinheiro-moeda.  Não  creio,  porém,  que  se 
consigam  estabelecer  as  duas  séries  com  rigor  suficiente  para  que  o  confronto  seja  elu¬ 
cidativo.  Mediante  qualquer  destas  vias  de  análise,  tratar-se-ia  de  esclarecer,  em  termos 
sociais,  se  foram  problemas  decorrentes  das  relações  de  dependência  a  determinar  os 
aspectos  técnicos  da  mineração.  Há  ainda  outra  possibilidade  de  abordagem,  directa- 
mente  a  partir  da  procura  do  metal.  Se  a  descoberta  e  a  exploração  das  novas  minas  se 
tivesse  devido  à  iniciativa  dos  soberanos,  poderíamos  talvez  assumir  que  se  destinariam 
originariamente  a  alimentar  cunhagens  valiosas,  aquelas  que  de  imediato  interessavam 
às  relações  internas  da  classe  dominante,  e  a  que  reis  e  príncipes  seriam  directamente 
mais  sensíveis.  Ora,  exceptuando  o  sucedido  no  início  do  século  XIII  nas  minas  argen- 
tíferas  de  Montieri,  na  Toscana.  e  no  final  desse  século  nas  de  Villa  di  Chiesa,  na  Sar- 


toda  a  Europa,  rodelas  de  metais  pobres  de  que  se  desconhecem  a  data  e  a  função.  Mas  quando  lemos 
os  estudos  relativos  ao  dinheiro,  cujos  autores  são  sistematicamente  vitimas  do  fascínio  dos  metais 
preciosos,  é  como  se  aquelas  modestas  peças  continuassem  ocultas  nas  entranhas  da  terra. 

234  Observa  M.  Bloch  (1933  c)  5-6,  (1953)  435  e  (1954)  55  que  não  houve  neste  período  um  ver¬ 
dadeiro  bimetalismo,  pois  o  ouro  e  a  prata  serviam  finalidades  distintas  e  corriam  em  esferas  diferen¬ 
tes.  A  este  respeito,  consultar  ainda  a  n.  61  do  capitulo  8.  Na  mesma  perspectiva,  C.  M.  Cipola  (1948) 
35-36  indica  que  a  pequena  e  a  grande  tnoeda  obedeciam  frequentemente  a  circulações  distintas,  o 
que  complicava  o  câmbio  entre  elas.  K.  L.  Reyerson  (1985)  133  define  a  existência  em  Montpellier  de 
dois  sistemas  económicos,  um  urbano  e  virado  para  as  transacções  externas,  o  outro  interessado  pela 
agricultura  e  o  comércio  dos  géneros  de  subsistência;  e  acrescenta  que,  apesar  dc  relacionados,  forma¬ 
vam  esferas  diferentes  e  reagiam  de  maneira  especifica  às  crises  económicas 


Yeiculaçáo  mondaria  cias  relupões  de  dependem  ta 


95 


denha,  em  que  a  extracção  cabia  a  trabalhadores  assalariados  por  conta  de  associações 
de  proprietários,  em  todos  os  outros  casos,  nomeadamente  nas  mais  ricas  jazidas  situa¬ 
das  no  leste  do  continente,  a  abertura  dos  novos  veios  de  prata  resultou  da  acção  de 
mineiros  independentes,  emigrados  de  outras  paragens  e  actuando  com  autonomia,  ao 
mesmo  tempo  proprietários  e  artífices.  Até  ao  final  do  século  XV  estes  profissionais 
livres  detiveram  as  minas  consoante  um  sistema  de  associação  entre  pequenos  proprie¬ 
tários  e  cabia-lhes  a  maior  parte  dos  benefícios  da  exploração,  devendo  pagar  um  qui¬ 
nhão  do  metal  ao  soberano  do  território  onde  prosseguia  a  extracção,  outra  parte  ao 
proprietário  do  terreno  e  um  tributo  ao  clero  local.  De  resto,  a  sua  independência  era  tal 
que,  apesar  das  medidas  tomadas  por  vários  soberanos  para  que  o  metal  extraído  fosse 
cunhado  em  oficinas  monetárias  instaladas  junto  às  minas,  a  maior  parte  da  prata  conti¬ 
nuou  a  ser  vendida  pelos  mineiros  na  forma  de  lingotes,  sem  ter  de  se  sujeitar  previa¬ 
mente  à  marca  do  bannum2-5.  É  possível  que  no  afã  desta  gente  humilde  se  reflectisse  a 
necessidade  de  numerário  sentida  pelos  camponeses. 

Aliás,  a  mineração  inseriu-se  num  quadro  de  alternativas  bastante  mais  vasto,  que 
incluiu  o  desentesouramento  e  a  fundição  de  metal  precioso  até  então  arrecadado,  para 
aumentar  a  massa  monetária-136,  ou  mesmo,  numa  fase  inicial,  o  uso  dos  artigos  de  luxo 
directamente  como  dinheiro237.  O  próprio  carácter  dos  tesouros  talvez  se  tivesse  tam¬ 
bém  transformado  neste  período,  passando  a  ser  constituídos  por  reservas  de  numerᬠ
rio,  em  geral  retiradas  da  circulação  por  prazos  mais  ou  menos  breves238.  Para  isso  con¬ 
tribuiu  igualmente  a  promulgação  de  leis  sumptuárias,  com  o  objectivo  de  impedir  que 
as  famílias  cujos  rendimentos  fossem  inferiores  a  certos  montantes,  estipulados  aliás 
em  níveis  muito  elevados,  imobilizassem  metal  precioso,  nomeadamente  na  forma  de 
baixelas239.  E  quanto  à  actividade  comercial  de  longo  curso  foram  tomadas  múltiplas 
medidas,  que  mais  tarde  haveriam  de  ser  sistematizadas  pelo  mercantilismo,  desti¬ 
nando-se  em  cada  um  dos  reinos  a  proibir  a  exportação  de  metal  precioso  e  a  estimular 
a  sua  importação240.  Mas  será  que  a  ampliação  do  problema  ajuda  a  resolvê-lo  e  a 


235  Acerca  dos  sistemas  de  trabalho  e  de  propriedade  nas  minas  de  prata,  ver  P.  Spufford  ( 1984) 
358-359.  Em  Portugal,  H.  G.  Barros  (1945-1954)  VI  103-105  indica  que  a  mineração  era  um  direito 
régio,  mas  a  coroa  nunca  procedeu  directamente  à  exploração  das  minas,  concedendo-a  a  particulares, 
contra  uma  parte  do  produto. 

236  G.  Duby  ( 1 973 )  147-148;  A.  Gieysztor  (1961 )  478-479:  id.  (1971  b)  91 ;  T.  Lalik  ( 1968)  135- 
--137;  L.  K.  Lutle  ( 1978)  7-8;  R.  Lopez  (1953-1954)  61  1;  id.  (1955  b)  588-589;  S.  Tabaczynski  ( 1962) 

229  e  segs.;  J.  W.  Thompson  (1959)  393;  Ph.  Wolff  ( 1982)  787. 

Porém,  depois  de  referir  que  o  aumento  da  procura  de  metal  amoedável  levou  a  um  certo  esvazia¬ 
mento  dos  tesouros,  Ph.  Wolff  (1982)  787  previne  que  não  se  deve  exagerar  a  amplitude  assumida 
pelo  desentesouramento.  Com  efeito.  E.  Foumial  (1967)  285-286  indica  que  em  França  o  entesoura- 
mento  aumentou  no  final  do  século  XIII.  Ainda  a  respeito  de  um  hipotético  acréscimo  do  entesoura- 
mento  no  decurso  do  período,  ver  neste  capítulo  a  n.  222.  Por  outro  lado,  Étienne  Foumial,  em  op.  cit., 
282  e  285-286,  considera  que  o  entesouramento  abrandava  a  circulação  monetária,  Na  minha  opinião, 
ele  podia  ser  indicio  de  uma  diminuição  da  velocidade,  mas  representava  uma  redução  da  massa. 

2,7  D.  Herlihy  (1957-1958)  4-6,  1 1 . 

238  É  o  que  S.  Tabaczynski  ( 1 962 )  234  indica  para  a  situação  da  Polónia  a  partir  do  final  do  século  XII. 

239  R.  Cazelles  (1966)  92;  J.  Favier  (1982)  178;  E.  Foumial  ( 1967)  278;  J.  Piquet  ( 1939)  148-149. 

240  H.  G.  Barros  < 1945-1954)  IX  249  e  segs.,  253  n.  3;  M.  B.  Becker(  1967- 1968)  I  195;  R.  Cazelles 
(1966)  92;  J.  Day  (1984)  13,  E.  Foumial  (1967)  278;  F.  Graus  ( 1951 )  450.  J.  Piquet  (1939)  148-149. 


96 


Forma  I  do  dinheiro 


saber  se  a  activação  da  procura  de  metal  cunhável  se  teria  devido  às  peças  veiculadoras 
das  relações  de  dependência? 

Quer  a  questão  possa  ser  esclarecida  quer  deva  apenas  ser  equacionada,  é  nesta 
perspectiva  que  tem  de  se  analisar  o  entusiasmo  súbito  demonstrado  neste  período  pela 
procura  de  novas  fontes  de  metal.  A  exploração  do  Harz.  que  foi  até  ao  século  XII  a 
região  europeia  mais  rica  em  metais,  começou  nos  últimos  anos  do  segundo  terço  do 
século  X  nas  grandes  jazidas  de  prata  do  Rammelsberg,  mas  só  no  final  desse  século 
atingiu  grandes  dimensões241.  Ao  mesmo  tempo  e  no  começo  do  século  XI  eram  des¬ 
cobertas  minas  de  prata  noutros  lugares  da  Gemiânia242,  e  no  final  do  terceiro  quartel 
do  século  XI  inaugurou-se  a  extracção  na  Stíria  e  na  Caríntia24-.  Quando  os  veios  do 
Harz  se  encontravam  praticamente  exaustos  entraram  em  funcionamento,  na  sétima 
década  do  século  XII.  as  minas  argentíferas  do  que  em  breve  se  viria  a  chamar  o  Frei- 
berg,  junto  aos  Erzgebirge244.  Ao  mesmo  tempo,  ou  talvez  até  um  pouco  antes,  activou- 
-se  a  extracção  de  prata  na  Toscana245.  E  pela  mesma  época  deu-se  início  à  exploração 
sistemática  das  minas  de  Friesach,  nos  Alpes  orientais246.  De  então  em  diante,  e  ao 
longo  do  século  XIII.  animou-se  enormemente  a  busca  de  novas  jazidas  argentíferas247. 
Algumas,  como  a  de  Jihlava.  na  fronteira  da  Boémia  com  a  Morávia.  e  a  de  Villa  di 
Chiesa,  na  Sardenha,  conseguiram  uma  produção  muitíssimo  considerável248,  mas 
explorou-se  também  uma  multiplicidade  de  veios  de  escassa  importância,  tanto  no  con¬ 
tinente  como  na  Inglaterra240.  E  no  termo  do  século  XIII,  que  foi  o  mais  pródigo  na 
descoberta  de  novos  filões,  inauguraram-se  as  minas  de  prata  mais  ricas  de  todo  este 
período,  em  Kutná  Hora.  na  Boémia250.  O  êxito  não  se  repetiu,  e  no  século  XIV  a 
extracção  de  prata  entrou  em  crise251,  juntamente  com  os  demais  aspectos  do  regime 


241  G.  Barraclough  (1972)  83;  R.  S.  Lopez  <  1955  e)  6;  P.  H.  Sawyer  ( 1 962)  189-190;  P.  Spuftbrd 
( 1988)  74,  95;  J.  W.  Thompson  ( 1959)  293.  Ver  igualmente;  J.  Lestocquoy  (1947)  9. 

242  P.  Spuftbrd  (1988)  74. 

242  ld.,  ibid..  1 16. 

244  Ch.  Higounet  (1989)  125;  P.  Spufford  ( 1984)  356;  id.  ( 1988)  109  e  segs. 

245  P.  Spufford  ( 1 984)  356;  id.  ( 1 988)  1 1 5. 

246  Ph.  Grierson  em  Istiruto  Intemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli 
(org.  1982)  874;  P.  SputYord  (1984)  356. 

247  E.  Foumial  (1967)  285;  Ph.  Grierson  (1976  a)  155;  id.  em  Istituto  Intemazionale  di  Storia  F.co- 
nomica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  874;  Ch.  Higounet  (1989)  126;  R.  S.  Lopez 
(1953  b)  183-184;  P.  Spufford  (1984)  356;  id.  (1988)  118. 

248  Ph.  Grierson  (1976  a)  155;  P.  Spufford  (1984)  357;  id.  (1988)  119-121. 

249  P.  Spufford  (1984)  357;  id.  (1988)  1 22,  124 

A  mineração  de  prata  na  Inglaterra  era  pouco  significativa  e  estava  já  em  declínio  no  final  do 
século  XII,  afirma  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  27.  acrescentando  que  a  maior  parte  da  prata  que  circulava 
na  ilha  provinha  da  Germânia  e  era  adquirida  graças  ao  saldo  comercial  positivo  obtido  com  a  expor¬ 
tação  de  lã  para  as  cidades  manufactureiras  dos  Paises  Baixos. 

2,0  Ph.  Grierson  (1976  a)  155;  id.  em  istituto  Intemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini».  V. 
Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  874;  P.  Spufford  (1984)  357;  id.  (1988)  124. 

28^.I.  Day  (1994)  69;  Ph.  Gnerson  ( 1976  a)  205.  H.  A.  Miskimin  ( 1969)  1 13-1 14;  M.  Mollat  et  al. 
( 1955)  735;  B.  H.  Slícher  van  Bath  ( 1966  a)  106. 

F.  Graus  (1951 )  452  afirma  que  não  se  encontra  qualquer  prova  de  que  a  extracção  dc  prata  na 
Boémia  tivesse  entrado  em  crise  no  século  XIV,  mas  J.  Day  (1994)  69  indica  que  a  produção  de 
Kutná  Hora  declinou  na  segunda  metade  desse  século. 


t  ihtiUl^ü </  nunu  tunu  üii\  rcUn  òcs  ./<••  depcihU-tit  ta 


97 


senhorial.  As  necessidades  sociais,  que  na  sua  fase  ascendente  haviam  impulsionado  a 
prospecção  de  tantos  veios  argentíferos,  arrastaram  consigo  no  declínio  a  actividade 
mineira.  A  pulsação  do  poder  impessoal  marcava  o  ritmo  com  que  se  escavava  o  solo 
para  encontrar  metal  cunhável. 

Não  só  a  exploração  se  ampliou  geograficamente  a  partir  do  início  do  período, 
como  se  intensificou  também,  graças  à  energia  hidráulica  que  no  princípio  do  século 
XII  começou  a  ser  aplicada  à  extracção  da  prata  e  se  difundiu  depois  na  mineração  de 
outros  metais--2.  E  tal  como  sucedeu  com  a  busca  de  novos  filões,  as  técnicas  mantive- 
ram-se  estacionárias  no  final  do  período.  A  crise  da  produção  argentífera  sentida  no 
século  XIV  não  se  deveu  apenas  ao  facto  de  não  se  encontrarem  jazidas  novas,  mas 
igualmente  à  incapacidade  técnica  de  explorar  a  níveis  mais  profundos  as  minas  já  exis¬ 
tentes25-'. 

O  dinamismo  social  que  animou  a  procura  de  prata  confirma-se  através  de  outra  pers¬ 
pectiva  de  análise.  É  evidente  que  a  extracção  só  pode  ter  lugar  onde  existirem  jazidas, 
porém  a  localização  de  muitas  era  conhecida  sem  que  fossem  ainda  exploradas,  ou  sem 
que  o  fossem  plenamente.  Por  exemplo,  a  cidade  de  Goslar  foi  fundada  em  922  para  pro¬ 
teger  as  minas  de  pratas  descobertas  no  Rammelsberg,  mas  a  extracção  só  principiou  em 
grande  escala  na  última  década  desse  século254.  Desde  meados  do  século  X  que  é  confir¬ 
mada  a  concessão  de  direitos  de  mineração  na  Stíria  e  na  Caríntia,  onde  a  extracção  de 
prata  começou  apenas  no  final  do  terceiro  quartel  do  século  XI.  para  se  ampliar  somente 
mais  de  um  século  depois255.  Também  as  jazidas  de  prata  da  Toscana  eram  conhecidas 
sem  que  houvessem  praticamente  sido  aproveitadas,  mantendo-se  insignificante  aí  a 
mineração  no  começo  do  segundo  terço  do  século  XII  e  activando-se  só  cerca  de  quatro 
décadas  depois256.  Pela  mesma  época  iniciava-se  a  exploração  sistemática  de  Friesach, 
apesar  de  já  há  algum  tempo  ser  sabida  a  sua  riqueza  metalífera257.  E  as  jazidas  da  Silé- 
sia,  conhecidas  desde  há  muito  e  de  onde  os  Eslavos  extraíam  prata  e  ferro  no  século  XII, 
apenas  no  século  seguinte  começaram  a  ser  mineradas  em  grande  escala258.  Finalmente, 
no  termo  do  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  XIV  registou-se  a  tentativa  de 
explorar  mais  activamente  algumas  pequenas  jazidas  detectadas  na  Floresta  Negra  e  na 
Inglaterra259.  Parece-me  indubitável  que  foram  as  pressões  sociais  a  tomar  urgente  o 
interesse  pela  mineração  dos  veios  já  localizados  e  pela  descoberta  de  muitos  mais. 


252  R.  S.  Lopez  ( 1 953  b)  1 83- 1 84. 

Ph.  Wolff  (1982  |  788  pretende  que  as  técnicas  de  extracção  e  de  tratamento  do  metal  se  mantive¬ 
ram  muito  rudimentares  até  ao  começo  do  século  XIII,  mas.  como  veremos  em  seguida,  creio  que  a 
estagnação  técnica  caracterizou  sobretudo  o  final  do  período. 

252  H.  A.  Miskimin  (1969)  1 13;  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  106. 

254  A  crer  na  data  indicada  por  P.  Spufford  (1988)  74.  Porém,  R.  S.  Lopcz  (1955  e)  6  e  P.  H.  Saw- 
yer  (1962)  189-190  reportam  a  exploração  destas  minas  aos  meados  do  século  X,  e  J.  W.  Thompson 
(1959)  293  situa-a  no  começo  da  sétima  década  desse  século.  De  qualquer  maneira,  é  sensível  o  des¬ 
fasamento  relativamente  à  fundação  da  cidade. 

235  P.  Spufford  (1988)  116. 

256  Id.,  ibid.,  115. 

257  ld..  ibid.,  356. 

258  Ch.  Higounet  ( 1989)  191 . 

259  P.  Spufford  ( 1 988 )  1 25  e  segs. 


98 


Forma  I  do  dinheiro 


Nem  julgo  ser  ocasional  o  facto  de  geralmente  as  novas  minas  se  encontrarem  nas 
regiões  de  colonização  recente.  Talvez  isto  não  se  devesse  apenas  ao  esgotamento  da 
maioria  dos  filões  nas  áreas  de  povoamento  antigo.  Haveria  a  certeza  de  que  estivessem 
improdutivos260?  O  certo  é  que,  como  vimos  no  começo  deste  capítulo,  nos  territórios 
abertos  pelos  desbravamentos  a  difusão  dos  tributos  em  dinheiro-moeda  foi  muito  mais 
veloz  do  que  nos  lugares  de  habitat  tradicional.  E  mesmo  nos  arroteamentos  prossegui¬ 
dos  em  regiões  de  senhorial izaçâo  antiga  foram  impostas  aos  colonos  exacções  em  ter¬ 
mos  pecuniários.  Como  regra  sem  excepção.  a  ampliação  dos  desbravamentos  serviu  de 
quadro  à  difusão  da  moeda  enquanto  instrumento  dos  vínculos  servis.  As  grandes  vagas 
migratórias,  que  permitiram  à  senhoria  impessoal  firmar  as  bases  da  sua  hegemonia, 
foram  responsáveis  também  pela  produção  dos  meios  técnicos  necessários  à  veiculação 
do  novo  tipo  de  dependência. 

E  o  frenesi  com  que  se  procurava  mais  metal  cunhável,  as  dificuldades  em  encontrar 
fontes  de  abastecimento  suficientes  e  os  artifícios  a  que  se  fazia  apelo  para  minorar  a 
gravidade  da  situação  mostram-nos,  na  perfeita  dimensão,  a  vontade  dos  soberanos  de 
liquidar  as  formas  tradicionais  de  dinheiro-géneros,  as  quais  não  originavam  quaisquer 
problemas  de  escassez,  mas  que  escapavam  ao  seu  controlo.  A  questão  era  suficiente¬ 
mente  importante  para  que  os  grandes  senhores  se  dispusessem  a  arrostar  com  os  enor¬ 
mes  incómodos  decorrentes  da  substituição  de  um  dinheiro  fácil  por  um  dinheiro  difícil. 


-6y  J.  W.  Thompson  (1959)  293  afirma  que  é  impossível  estabelecer  qualquer  relação  entre  a 
mineração  na  época  romana  e  a  efectuada  pelos  Germanos,  e  acrescenta  que  o<  dado-,  relativos  às  eras 
merovíngia  e  carolíngia  são  demasiado  escassos  para  deles  se  inferir  o  o  '  \ 


CAPITULO  3 


RESISTÊNCIAS  À  VEICULAÇÃO  MONETÁRIA 
DAS  RELAÇÕES  DE  DEPENDÊNCIA 


Não  foi  numa  sociedade  até  então  desprovida  de  dinheiro  que  passou  gradualmente 
a  prevalecer  a  circulação  da  moeda.  Vimos  (no  capítulo  27. b  da  Parte  I)  que  no  período 
anterior  vários  tipos  de  géneros  haviam  sido  usados,  paralelamente  ao  numerário,  com 
funções  de  dinheiro.  Foi  para  os  substituir  e  assumir  a  exclusividade  na  esfera  pecuniária 
que  as  peças  cunhadas  aumentaram  a  sua  área  de  difusão  e  passaram  a  veicular  as  rela¬ 
ções  sociais  mais  importantes.  Mas  a  operação  não  se  revelou  fácil  nem  rápida,  e  durante 
todo  este  período,  como  ainda  depois,  os  circuitos  da  moeda  conviveram  com  o  emprego 
de  outras  modalidades  de  dinheiro,  esforçando-se  por  eliminá-las  ou  submetê-las. 

Além  de  veicular  o  sistema  impessoal  da  servidão,  a  Forma  I  do  dinheiro  devia  ser 
também  compatível  com  as  relações  de  dependência  pessoais,  já  que  as  senhorias  pes¬ 
soais  acabaram  por  se  integrar  no  último  escalão  da  hierarquia  encimada  pelas  maiores 
senhorias  impessoais.  Ora,  só  os  principais  detentores  do  poder  impessoal  cunhavam 
moeda,  ou  exerciam  pelo  menos  alguma  influência  sobre  a  política  monetária  dos  sobe¬ 
ranos.  Quando  esta  alta  aristocracia  impunha  tributos  monetários  nas  senhorias  pes¬ 
soais  que  detinha,  estava  evidentemente  a  aplicar  os  mesmos  mecanismos  de  domina¬ 
ção  que  vigoravam  na  generalidade  do  território  submetido  ao  seu  poder  impessoal. 
Aliás,  sabe-se  que  foram  os  senhores  impessoais  os  primeiros  a  introduzir  as  formas 
monetarizadas  de  arrendamento  na  parte  dos  patrimónios  reservada  à  exploração  pes¬ 
soal1.  Para  os  restantes  senhores,  todavia,  a  cobrança  das  exacções  em  moeda  represen¬ 
tava  uma  sujeição  a  esferas  de  bannum  alheias.  Nestes  casos  a  Forma  I  do  dinheiro,  ao 
mesmo  tempo  que  veiculava  a  dependência  servil,  afirmava  as  hierarquias  senhoriais. 

Pode,  então,  avançar-se  a  hipótese  de  que  os  elementos  das  camadas  inferiores  da 
aristocracia,  nomeadamente  os  que  detinham  apenas  senhorias  de  tipo  pessoal,  conti¬ 
nuassem  especialmente  empenhados  na  arrecadação  de  tributos  em  géneros,  e  talvez 
também  na  imposição  de  serviços  de  trabalho.  Se  admitirmos  que  os  senhores  impes¬ 
soais  possuíam  igualmente  as  maiores  senhorias  pessoais,  podemos  concluir  que  aquela 
oposição  de  interesses  se  verificava  sobretudo  a  respeito  das  senhorias  pessoais  de 
pequena  e  média  dimensão.  Se  estas  suposições  estiverem  certas,  ocorreria  para  a 
classe  servil  uma  demarcação  relativamente  clara  das  esferas  de  dependência,  pagando 


Ver  no  capítulo  10  da  Parte  II  as  nn.  1 25  a  1 27 


100 


Forma  I  do  dinheiro 


aos  senhores  impessoais  tributos  estipulados  no  quadro  monetário,  e  entregando  aos 
senhores  pessoais  prestações  que  desde  início  eram  fixadas  e  concebidas  em  géneros. 
Não  parece,  todavia,  que  uma  abordagem  deste  tipo  tivesse  interessado  os  especialistas. 
Apesar  disso,  se  entre  os  autores  consultados  raramente  encontro  exemplos  que  me  aju¬ 
dem  a  confirmar  a  hipótese-,  menos  ainda  me  deparei  com  qualquer  elemento  que  me 
levasse  a  pô-la  de  parte. 

Do  mesmo  modo,  pode  decerto  admitir-se  que  circulassem  também  algumas  formas 
de  dinheiro-géneros  no  âmbito  das  pequenas  e  médias  senhorias  pessoais.  A  análise 
deste  problema  é  especialmente  delicada,  pois  numa  sociedade  que  atravessava  um  pro¬ 
cesso  de  monetarização  crescente  o  uso  de  géneros  nas  trocas,  ou  mesmo  em  qualquer 
tipo  de  pagamento,  induz  por  vezes  em  erro  quanto  à  sua  função  pecuniária-1.  Ao  recor¬ 
rer-se  aos  géneros  como  meio  de  pagamento  num  quadro  contabilístico  dominado  pela 
referência  à  moeda,  a  função  dinheiro  era  desempenhada  pela  moeda  ausente,  e  não 
pelos  géneros  presentes.  Assim,  no  Latiutn  e  na  Sabina  até  ao  século  XII,  por  exemplo, 
onde  o  uso  de  géneros  como  dinheiro  não  ultrapassou  um  âmbito  muito  marginal,  eles 
destinaram-se  por  vezes  a  complementar  pagamentos  realizados  na  maior  parte  em 
moeda4.  Empregues  em  tais  situações  como  contrapresentes,  os  géneros  apareciam 
nesta  função  arcaica  apenas  como  um  caso-1  imite  da  utilização  do  dinheiro.  E  em  Por¬ 
tugal,  numa  época  em  que  os  preços  eram  já  normalmente  estipulados  em  moeda,  inde¬ 
pendentemente  de  ela  servir  de  meio  de  pagamento  ou  se  limitar  a  uma  referência  con- 
tabilística,  encontram-se  inúmeros  exemplos  em  que  os  vários  tipos  de  contraprestação 
eram  determinados  em  géneros5.  Isto  significa  que,  embora  o  numerário  estivesse  já 
muito  difundido,  material  ou  ideologicamente,  se  sentia  a  necessidade  de  garanti-lo  ou 


-  Na  alta  Provença  do  século  XIV,  segundo  C.  Samaran  (1957)  230-231,  havia  um  certo  tipo  de 
servos  que  se  mantinha  numa  dependência  estritamente  pessoal  e  cujas  prestações,  bastante  pesadas, 
eram  sempre  entregues  em  géneros,  tanto  cereais  como  vinho.  Referindo-se  à  Itália  ao  longo  do 
período,  D.  Herlihy  (1959)  61-62  afirma  que  frequentemente  os  tributos  estipulados  apenas  em  moeda 
consistiam  em  pequenas  somas,  destinadas  a  recordar  a  dependência  camponesa,  enquanto  a  maior 
parte  das  prestações,  entregue  em  géneros,  era  cobrada  pelos  senhores  directos  dos  casais.  E  na  Tos- 
cana.  no  final  do  período,  os  caseiros  cumpriam  geralmente  em  géneros  as  exacções  impostas  pelos 
senhores  pessoais,  mas  pagavam  em  moeda  os  tributos  devidos  às  cidades,  consoante  esclarecem  id. 
et  al.  ( 1985)  106.  Quanto  aos  problemas  levantados  pela  situação  no  Latiutn  e  na  Sabina  no  começo 
do  período,  ver  neste  capítulo  a  n.  7.  Por  último,  E.  A.  Kosminsky  (1956)  358  indica  que  na  Ingla¬ 
terra,  nos  finais  do  período,  a  Igreja  continuava  a  exigir  em  géneros  o  tributo  eclesiástico,  contraria¬ 
mente  à  tendência  predominante,  que  consistia  em  cobrar  os  tributos  na  forma  monetária. 

’  Referindo-se  à  Polónia.  T.  Lalik  ( 1968)  148  observa  a  dificuldade,  em  todo  este  período,  de  dis¬ 
tinguir  claramente  as  transacções  monetárias  e  o  escambo.  P.  Einzig  (1948)  328  estabelece  uma  série 
de  condições  para  que  a  participação  de  géneros  nos  pagamentos  possa  ser  considerada  como  uso  de 
dinheiro.  Seria  necessário,  em  seu  entender,  que  a  inclusão  preferencial  de  um  dado  bem  nas  opera¬ 
ções  de  troca  não  se  devesse  ao  facto  de  se  tratar  de  um  artigo  de  consumo  directo  especialmente  pro¬ 
curado,  que  não  houvesse  um  número  exagerado  de  bens  a  ser  empregues  simultaneamente  naquela 
função,  que  não  se  mudasse  com  demasiada  frequência  o  bem  usado,  que  ele  fosse  aceite  como  meio 
de  pagamento  para  um  leque  razoável  de  bens  e  serviços  e  que  não  se  limitasse  a  intervir  em  trocas 
cerimoniais  desprovidas  de  objectivos  económicos. 

4  P.  Toubert  (1973  b)  603,  606. 

5  Em  H.  G.  Barros  (1945-1954)  os  casos  mencionados  são  tão  numerosos  que  é  impossível  aqui 
referenciá-los  todos. 


Rcsi.slcnaa.s  à  vctcttlu^áo  monetária  das  relates  de  dependência 


IU1 


de  validá-lo  com  uma  oferta  de  géneros.  O  modelo  da  troca  de  presentes  persistia  no 
interior  da  compra  e  venda. 

Apesar  de  todas  essas  dificuldades  de  análise,  ao  sabermos  que  na  Borgonha.  no 
começo  deste  período,  os  tributos  suplementares  destinados  a  acentuar  o  carácter  pes¬ 
soal  do  vínculo  servil  eram  sempre  pagos  em  géneros,  nunca  em  moeda6 7,  devemos 
inferir  que  se  tratava  de  uma  utilização  dos  géneros  enquanto  símbolo  pecuniário,  já 
que  o  montante  daquele  tipo  de  prestações  era  usualmente  pouco  elevado.  Uma  refle¬ 
xão  do  mesmo  tipo  pode  talvez  fazer-se  a  respeito  do  Latium  e  da  Sabina  também  no 
início  do  período,  quando  nesta  região  se  procedeu  ao  reordenamento  do  habitat  sob  o 
controlo  senhorial.  Os  senhores  avivavam  entre  os  caseiros  a  recordação  do  vínculo  ser¬ 
vil  mediante  a  exigência  periódica  de  pequenos  presentes  em  géneros,  de  carácter  con- 
suetudinário.  Depois,  e  sem  que  se  abandonasse  a  cobrança  daqueles  presentes,  come¬ 
çaram  a  ser  requeridos  pequenos  pagamentos  em  moeda,  destinados  a  acentuar  também 
a  situação  de  dependência.  Como  estes  tributos  eram  cumpridos  obrigatoriamente  em 
numerário,  passou  a  haver  uma  distinção  rigorosa  entre  os  pequenos  presentes  em 
géneros  e  os  pequenos  pagamentos  em  moeda'  .  Afigura-se-me  que  nos  presentes  de 
pequeno  vulto  os  géneros  desempenhavam  uma  função  de  dinheiro  e,  embora  não  dis¬ 
ponha  de  elementos  suficientes  para  explicar  o  motivo  de  uma  demarcação  tão  rígida 
entre  os  meios  de  pagamento  num  e  no  outro  caso,  a  cronologia  parece  indicar  que  os 
pequenos  tributos  monetários  surgiram  para  vincar  o  carácter  das  novas  relações  de 
dependência  impessoal.  Se  esta  hipótese  estiver  correcta,  haviam  passado  a  circular 
simultaneamente,  mas  em  esferas  separadas,  dinheiro-moeda  que  veiculava  relações 
impessoais  e  dinheiro-géneros  expressor  de  relações  pessoais.  No  entanto,  parece 
impossível  manter  conclusões  firmes  a  respeito  de  uma  questão  em  que  se  chocavam 
tantos  factores  contraditórios  e  acerca  da  qual.  aliás,  os  especialistas  não  procederam  a 
qualquer  pesquisa  sistemática.  E  verificamos  assim  que,  em  sentido  contrário  ao  apon¬ 
tado,  no  norte  da  França  o  pagamento  dos  pequenos  tributos  de  carácter  simbólico  des¬ 
tinados  a  reconhecer  uma  situação  de  dependência  pessoal,  se  podia  ser  feito  em  géne¬ 
ros,  era  na  maior  parte  dos  casos  realizado  em  numerário8.  Na  Inglaterra  dos  séculos 
XIV  e  XV,  porém,  continuou  a  haver  oportunidades  próprias  para  a  utilização  de  géne¬ 
ros  como  dinheiro,  quando  os  tributos  pagos  ao  senhor  pessoal  em  ocasiões  festivas 
consistiam  muitas  vezes  em  aves  de  capoeira  ou  ovos.  podendo  os  camponeses  ser  con¬ 
vidados  a  participar  no  repasto9.  No  contexto  de  um  ritual  tão  arcaico  de  troca  de  pre¬ 
sentes,  é  indubitável  que  se  tratava  de  formas  tradicionais  de  dinheiro-géneros. 

Na  mesma  perspectiva,  são  especialmenie  interessantes  os  rituais  de  dependência 
pessoal  em  que  se  recorria  a  moedas,  porque  estas  não  apareciam  então  com  a  função 
de  dinheiro,  ou  só  embrionariamente  o  faziam,  já  que  o  cerimonial  em  que  participa¬ 
vam  lhes  impunha  um  carácter  muito  particularizado.  Em  França  uma  forma  tradicional 
de  declaração  pública  de  ausência  de  liberdade,  parece  que  ainda  bastante  corrente  ao 


6  A.  Déléage  { 1941 )  526. 

7  P.  Toubert  <  1973  b)  537.  544.  607. 

SM.  Bloch  (1933  b)  24-26. 

9  B.  A.  Hanavvalt  ( 1986)  53-54. 


102 


Forma  1  do  dinheiro 


longo  da  primeira  metade  deste  período,  consistia  na  oferenda  ao  senhor  de  algumas 
peças  cunhadas10.  Ao  mesmo  tempo  continuava  a  vigorar  na  Baviera  a  forma  inversa 
daquele  ritual,  quando  um  senhor  emancipava  um  servo  não-livre  ao  deixar  cair  no 
chão  a  moeda  que  este  lhe  entregava11.  Mas  mais  significativas  ainda  são  aquelas 
modalidades  que  surgiram  já  neste  período,  ou  pelo  menos  nele  se  desenvolveram, 
demonstrando  a  vitalidade  dos  usos  arcaicos  da  moeda.  Foi  assim  que  nas  senhorias 
eclesiásticas  situadas  no  sul  e  no  oeste  da  Germânia.  e  mesmo  numa  região  de  econo¬ 
mia  tão  activamente  comercial  como  a  Flandres.  e  em  menor  medida  no  norte  da 
França,  se  difundiu  uma  categoria  de  senos  que.  apesar  de  beneficiarem  de  um  estatuto 
jurídico  relativamente  privilegiado  e  estarem  dispensados  das  prestações  típicas  da 
ausência  de  liberdade,  se  encontravam  vinculados  a  uma  dependência  hereditária  e, 
portanto,  acentuadamente  pessoal.  Esta  situação  paradoxal  era  expressa  mediante  o 
pagamento  anual  de  um  tributo,  de  montante  variado,  fixado  em  numerário,  que  cada 
seno  devia  apresentar  perante  o  altar  da  igreja  de  que  dependia.  Embora  não  fosse 
estritamente  obrigatório  o  seu  pagamento  em  peças  cunhadas,  podendo  ser  também 
entregue  em  géneros,  o  carácter  simbólico  permanecia  muito  forte,  já  que  era  por  vezes 
pago  em  cera,  destinada  ao  fabrico  de  velas  para  o  altar12.  Num  contexto  cerimonial  tão 
acentuado,  o  relevo  conferido  ao  instrumento  monetário  indica  que  se  mantinha  vigo¬ 
rosa  a  associação  entre  a  moeda  e  as  relações  senis  de  carácter  pessoal.  Os  senhores 
pessoais  podiam,  assim,  usar  em  proveito  próprio  as  peças  que  os  maiores  senhores 
impessoais  haviam  mandado  cunhar  com  objectivos  inteiramente  diferentes. 

Aliás,  as  moedas  continuaram  também  a  desempenhar  funções  arcaicas  enquanto 
paradinheiro,  quando  eram  empregues  como  contrapresente  nas  doações.  Entre  os  mea¬ 
dos  do  século  XI  e  o  começo  do  século  XIII.  no  Mâconnais.  por  exemplo,  mas  igual¬ 
mente  em  alguns  casos  no  norte  da  França,  bem  como  na  Touraine,  no  Limbourg  e  no 


10  M.  Bloch  (1928  c)  57;  P.  Petot  ( 1927)  78.  Para  uma  modalidade  de  ritual  especialmente  elabo¬ 
rada  ver;  H.  van  Werveke  (1932)  465. 

J.-P.  Poly  et  ai.  (1980)  293-294  indicam  que  nos  meados  do  século  XII  os  monges  da  abadia  de 
Saint-Denis,  junto  a  Paris,  fabricaram  um  diploma,  que  atribuíram  a  Carlos  Magno,  no  qual  o  impera¬ 
dor  declararia  que,  em  sinal  de  submissão  ao  santo,  depositava  sobre  o  altar,  além  da  coroa,  quatro 
moedas  de  ouro.  Na  época  em  que  o  diploma  foi  forjado  o  ritual  da  oferenda  de  quatro  deniers  era 
tido  correntemente  como  sinal  de  ausência  de  liberdade,  só  que  para  Carlos  Magno  se  mencionaram 
peças  de  ouro,  atendendo  à  sua  dignidade,  ou  talvez  mais  ainda  à  do  santo  E  é  certo  que  pelo  menos 
Filipe  Augusto,  que  reinou  em  França  nas  últimas  décadas  do  século  XII  e  nas  primeiras  do  século 
seguinte,  ofertava  a  Saint-Denis  as  quatro  moedas  preciosas,  em  cerimónia  solene. 

11  Ph.  Dollinger  (1949)  238-239. 

12  Acerca  desta  categoria  de  servos,  denominados  censuales.  ver  id„  ibid..  145.  332.  351  e  Ch.-E. 
Perrin  (1951-1955  )  206-207.  210.  Embora  Philippe  Dollinger.  em  op.  cit.,  332.  localize  no  século  X  o 
aparecimento  destes  servos,  Charles- Edmond  Perrin,  em  op.  cit..  206.  indica  que  eles  surgiram  no 
final  do  século  VIU.  A  este  respeito  é  interessante  recordar  que  nos  finais  do  século  Xlll  e  na  primeira 
metade  do  século  seguinte,  por  ocasião  das  festas  anuais  em  homenagem  à  padroeira  de  Siena.  os 
senhores  e  as  colectiv  idades  rurais  sujeitos  à  soberania  da  cidade  levavam  até  à  catedral  círios  de 
pesos  especificados,  ao  mesmo  tempo  que  tinham  de  contribuir  com  somas  simbólicas.  Ver  W.  M. 
Bowsky  ( 1970)  47-48  e  62.  Haveria  que  estudarem  que  medida  foi  geral  a  equiparação  do  numerário 
e  da  cera  em  certas  ocasiões  rituais.  Por  outro  lado.  leio  em  A.  Carile  (1976)  562  que  na  Morea  latina, 
ou  seja.  no  Peloponeso,  durante  o  século  XIV,  os  arrendamentos  de  parcelas  da  senhoria  efectuavam- 
-se  em  troca  de  tributos  em  dinheiro  ou  em  cera. 


Kcmsiciu  ias  a  ven  ulação  monetária  elas  relações  de  dependência 


103 


Rouergue,  praticamente  desapareceram  os  contratos  de  venda,  passando  a  operação  a 
ser  apresentada  juridicamente  como  uma  doação.  E  já  que  nas  doações  era  cada  vez 
mais  corrente  o  hábito  de  gratificar  o  doador  com  uma  soma  de  dinheiro  mais  ou 
menos  considerável,  a  própria  referência  ao  preço  acabou  por  ser  pouco  esclarecedora  e 
tomou-se  muito  ténue  a  demarcação  entre  a  venda  e  a  doação  remunerada13.  Um  dos 
aspectos  mais  interessantes  -  e  menos  estudados  -  deste  período  é  a  coexistência,  fre¬ 
quentemente  contraditória,  de  modalidades  pecuniárias  decorrentes  do  sistema  clássico 
de  presentes  e  de  outras  geradas  com  o  desenvolvimento  da  economia  comercial.  São 
os  conflitos  sociais  e  as  acções  de  resistência  que  explicam  o  aparente  paradoxo  destes 
anacronismos. 

Em  resumo,  é  possível  que  a  oposição  entre,  por  um  lado,  a  Forma  I  do  dinheiro  e, 
por  outro,  os  pagamentos  em  géneros,  a  utilização  de  alguns  tipos  de  dinheiro-géneros 
e  os  rituais  pessoais  de  dependência  tivesse  correspondido  à  oposição  entre  as  senho¬ 
rias  impessoais  e  as  senhorias  pessoais. 

Mas  o  problema  é  mais  complexo,  porque  o  recurso  ao  uso  de  géneros  na  função  de 
dinheiro,  pela  descentralização  que  permitia,  era  da  conveniência  igualmente  dos  cam¬ 
poneses  e  podia  representar  formas  de  resistência  à  expansão  do  bannum.  Seria  interes¬ 
sante  verificar,  através  do  estabelecimento  de  zonas  e  períodos,  a  correspondência  entre 
a  sobrevivência  de  modalidades  de  autonomia  rural  e  a  manutenção  de  formas  de 
dinheiro-géneros.  Lamentavelmente,  a  grande  maioria  dos  historiadores  parece  ofuscada 
pelos  tipos  de  dinheiro  que  aparentavam  maior  modernidade  mas  que  na  verdade  expri¬ 
miam  o  triunfo  da  classe  dominante,  e  vota  a  um  desprezo  sistemático  aquelas  formas 
pecuniárias  em  que  se  manifestava  ainda  a  resistência  da  autonomia  camponesa  ou,  em 
geral,  das  camadas  populacionais  mais  pobres14.  Apesar  disso,  sabe-se  que  no  Latium  e 
na  Sabina  tecidos,  redes  de  pesca,  peles  de  animais  comuns,  cereais  e  gado  foram 
empregues  para  finalidades  pecuniárias,  embora  num  âmbito  muito  marginal,  porque 
estava  assegurado  o  predomínio  da  moeda1''.  A  cerveja  podia  ser  usada  para  pagar  a  taxa 
de  entrada  nas  confrarias  de  paróquia  na  Inglaterra  dos  séculos  XIV  e  XV.  e  pela  mesma 
época  ovelhas  e  cereal  serviam  de  presente  entre  os  camponeses  em  ocasiões  rituais16.  É 
também  conhecido  que,  no  começo  do  período,  o  sal  pôde  desempenhar  funções  de 
dinheiro  em  Ponthieu17.  no  norte  da  França,  e  o  mesmo  sucedeu  muito  mais  duravel- 
mente  e  com  maior  frequência  na  região  de  Sulzburgo18,  bem  como  na  Polónia19,  onde 
se  empregavam  com  idêntica  finalidade  peles  de  animais20  e  objectos  de  ferro21.  Mais 


13  B.  Vigneron  ( 1959)  33-36.  41 . 

14  P.  Einzig  ( 1948)  266  admite  que  em  muitas  regiões  da  Germânia  os  cereais  tivessem  sido  inin- 
terruptamente  usados  como  meio  de  pagamento  desde  o  período  anterior  até  além  do  final  deste 
período.  Mas  não  encontrei  qualquer  outro  autor  que  sustentasse  esta  opinião. 

15  P.Toubertt  1973  b)  603.  605. 

16  B.  A.  Hanawalt  (1986)  56.  87-88. 

17  R.  Fossier(org.  1974)  1 12. 

IS  Ph.  Dollinger  ( 1949)  352. 

,yA.  Gieysztor  (1961  >483;  id.  1 1963)  178;  id  (1971  b)  91. 

20  J.  Bardach  (1968)  307;  W.  Charlton  (1906)  314;  A.  Gieysztor  (1961)  483;  id.  (1963)  178;  id. 
(1971  b)  91 ;  T.  Lalik  ( 1968)  148. 

21  A.  Gieysztor  ( 1961 )  483;  id.  ( 1963)  178;  T,  Lalik  (1968)  147-148. 


104 


Forma  I  do  dinheiro 


importante  julgo  ter  sido  o  caso  da  península  hispânica,  onde  foram  duradouras  as 
demonstrações  de  independência  rural,  continuando  a  ser  aí  bastante  difundida  a  utili¬ 
zação  para  funções  pecuniárias  de  cereais,  gado  e  tecidos  correntes--.  No  começo  do 
período,  no  reino  astur-leonês,  medidas  de  cereal  e  outros  géneros  agrícolas,  gado, 
panos  serviam  como  meios  de  pagamento  para  a  aquisição  de  pequenos  lotes  de 
terreno21.  Deparamo-nos  com  idêntica  situação,  pelo  menos  até  ao  século  XIII.  numa 
região  originariamente  decorrente  da  coroa  de  Navarra24.  E  mesmo  em  datas  muito  tar¬ 
dias,  no  reino  de  Portugal,  no  final  do  século  XIV  ou  até  quase  no  termo  do  século  XV. 
se  encontram  referências  ao  emprego  de  medidas  de  cereal  e  outros  géneros  agrícolas 
enquanto  meios  de  pagamento25.  Nas  regiões  pirenaicas  a  monetarização  foi  especial¬ 
mente  vagarosa  e  ainda  após  o  começo  do  século  XI 1  uma  grande  parte  dos  pagamentos 
continuava  a  ser  total  ou  parcialmente  executada  em  géneros26.  Estas  circunstâncias 
deviam  ser  de  tal  modo  preocupantes  para  a  alta  aristocracia  que  no  último  quartel  do 
século  XI  o  bispo  de  Vich  mandou  cunhar  uma  nova  moeda,  de  boa  qualidade,  onde 
figurava  a  gravura  de  um  boi2',  num  nítido  esforço  para  sobrepor  o  dinheiro-moeda  aos 
circuitos  do  dinheiro-gado.  Deve  interpretar-se  na  mesma  perspectiva  a  inauguração  de 
uma  nova  cunhagem  pela  cidade  de  Barcelona,  também  no  final  do  século  XI.  ficando 
estabelecida  legalmente  uma  taxa  de  equivalência  regular  entre  a  moeda  e  vários  géne¬ 
ros,  nomeadamente  o  gado  bovino28.  Isto  mostra  não  só  o  empenho  dos  senhores  em 
desarticular  a  emissão  de  dinheiro  prosseguida  autonomamente  no  meio  rural,  mas 
ainda  a  necessidade  de  conviverem  temporariamente  com  ela,  o  que  nos  dá  uma  medida 
do  vigor  das  tradições  de  independência  do  campesinato  pirenaico.  E  na  Noruega  dos 
séculos  XIV  e  XV,  onde  o  regime  senhorial  penetrara  só  muito  escassamente,  eram  usa¬ 
dos  como  meio  de  pagamento,  aliás  segundo  critérios  bastante  sofisticados,  manteiga, 
cereais,  peles,  gado,  peixe,  ou  ainda  artigos  de  ferro29.  Bastam  estas  menções  sumárias 
para  constatarmos  que  o  recurso  a  géneros  correntes  para  funções  de  dinheiro  resistiu 
melhor  na  periferia  do  regime,  em  áreas  montanhosas  e  nas  terras  de  conquista  da 
Espanha,  tudo  regiões  onde  o  poder  da  aristocracia  senhorial  não  estava  ainda  enrai¬ 
zado  muito  profundamente  nem  conseguira  englobar  extensivamente  a  totalidade  da 
população. 

Juntando  as  duas  vertentes  do  problema,  a  resistência  à  veiculução  monetária  das 
relações  de  dependência  expressa  por  algumas  camadas  da  aristocracia  e  a  relutância  ao 
emprego  de  moeda  manifestada  por  certos  meios  rurais,  concluiria  que  o  uso  de 


22  Os  exemplos  são  tão  abundantes  em  H.  G.  Barros  (  1945-1954)  que  necessitariam  de  um  estudo 
próprio. 

23  C.  Sánchez- Albornoz  ( 1966  b)  188-189,  194-195.  200. 

24  J.  A.  Garcia  de  Conazar  etc.  ( 1969)  76. 

25  Em  H.  G.  Barros  (1945-1954)  111  164  encontra-se  um  exemplo  de  1394-1395.  leio  outro  refe¬ 
rente  a  1 488  em  VIII  1 80  n.  cont.  e  um  caso  de  1 49 1  em  VIII  1 82. 

26  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  62. 

27  Ao  relatar  este  facto,  id..  ibid.,  60-61  interpreta-o  como  um  reflexo  das  condições  agrícolas  da 
região,  e  não  como  um  resultado  da  luta  senhorial  contra  os  tipos  de  dinheiro-géneros  acessíveis  aos 
camponeses. 

28  J.  H.  Mundy  ( 1954)  240  n.  73. 

2J  J .  A.  Gade  ( 1 95 1  >  60.  62:  Ph.  ürierson  1 1  976  a  i  244 


Resistem  ias  a  wh  nlaeão  nu  melaria  das  rrlaçties  de  dependem  ia 


105 


dinheiro-géneros  talvez  representasse,  neste  período,  um  factor  de  conciliação  entre 
classes  no  quadro  das  senhorias  pessoais.  Este  comportamento  comum  teria,  então, 
propiciado  lutas  sociais  do  3-  tipo30. 

Todavia,  se  nas  regiões  onde  perduravam  ainda  alguns  traços  da  sua  antiga  autono¬ 
mia  os  camponeses  podiam  continuar  a  empregar  com  funções  pecuniárias  os  cereais,  o 
gado  ou  outros  géneros  agrários,  em  geral  ao  longo  deste  período  são  artigos  muito 
diferentes  que  cada  vez  mais  vemos  mencionados  para  aquele  fim.  Uns  eram  preciosi¬ 
dades.  peles  valiosas,  jóias  e  lingotes  que  os  magnates  extraíam  dos  seus  tesouros31. 
Recorria-se  também  a  outros  artigos  de  custo  elevado32  ou  que  só  podiam  ser  obtidos 
através  do  comércio  de  longo  curso,  como  a  pimenta,  usada  amplamente  enquanto 
dinheiro  desde  o  começo  até  ao  final  do  período,  mesmo  nos  mais  importantes  centros 
comerciais,  e  praticamente  tão  preciosa  como  a  prata  ou  o  ouro33.  Mas  a  generalidade 


30  Com  a  sua  lucidez  habitual,  M.  Bloch  (1939)  10  observa  que  a  relutância  ao  emprego  da  moeda 
e  a  sua  substituição  por  dinheiro-géneros  representava  uma  fuga  perante  o  Estado,  já  que  os  géneros 
usados  para  fins  pecuniários  não  ostentavam  a  marca  do  poder  público.  Pode  talvez  acrescentar-se 
que.  embora  em  formas  muito  modificadas  e  num  âmbito  meramente  marginal,  se  reproduzia  assim 
aquele  processo  que  no  final  do  Baixo  Império  levara  uma  pane  muito  considerável  da  população  a 
escapar  à  administração  central  e  a  colocar-se  sob  a  protecção  dos  magnates  regionais.  Também  agora 
o  uso  de  dinheiro-géneros  permitiu  a  muitos  elementos  da  aristocracia  rural  e  urbana,  bem  como  a 
numerosos  camponeses  e  gente  da  arraia-mitida.  recorrer  a  emissões  pecuniárias  que  escapavam  ao 
exclusivo  dos  soberanos. 

31  H.  van  Werveke  (1932)  461-463  refere  o  emprego  de  artigos  preciosos  e  de  lingotes  na  Flan- 
dres  e  em  geral  na  antiga  Lolaríngia,  nos  séculos  XI  e  XII.  Durante  o  século  XII  e  o  começo  do  século 
seguinte,  e  de  novo  a  partir  dos  meados  do  século  XIV.  E.  Foumial  1 1967)  384  indica  que  no  Forez  os 
pagamentos  se  efectuavam  muitas  vezes  em  lingotes  de  prata.  No  Languedoc,  segundo  M.  Castaing 
-Sicard  (1961)  6.  era  frequente  que  os  contrapresentes  e  os  presentes  feitos  em  sinal  de  gratidão  c 
reconhecimento,  que  em  meu  entender  (ver  o  capítulo  26.b  da  Parte  I)  constituíam  casos-linrite  da 
utilização  do  dinheiro,  fossem  efectuados  em  artigos  de  luxo,  assim  como  (p.  61 ),  pelo  menos  até  ao 
século  XIII,  se  registavam  pagamentos  realizados  em  lingotes  de  prata  ou.  mais  raramente,  de  ouro. 
D.  Herlihy  (1957-1938)  4  mostra  que  nas  vendas  de  terras  e  transferências  de  direitos  fundiários  ocor¬ 
ridas  na  Itália  centro-setentrional  entre  960  e  1 1 39,  sempre  que  os  pagamentos  não  eram  executados 
em  numerário,  os  artigos  mais  correntemente  usados  eram  jóias  de  prata,  ou  mesmo  de  ouro.  e  selos 
de  diplomas  imperiais,  além  de  peles  de  bom  preço,  tecidos  de  luxo.  armas,  livros,  ou  seja,  os  bens 
que  habitualmente  compunham  os  tesouros  daquela  época.  As  mesmas  constatações  foram  feitas  por 
ÚL  (1973)  365-366  e  381  para  a  região  de  Luca.  Também  na  Espanha  cristã,  no  início  do  período.  J. 
Vicens  Vives  (1959)  1 28  menciona  a  utilização  pela  aristocracia,  como  meio  de  pagamento,  de  cavalos, 
mulas  e  espadas  Pela  mesma  ocasião,  P.  Bonnassie  (1975-1976)  503  regista  o  emprego  de  livros 
conto  dinheiro  na  Catalunha.  Ainda  quanto  ao  uso  do  metal  precioso  a  peso  enquanto  meio  de  paga¬ 
mento,  ver  no  capítulo  2  a  n.  221  e,  no  capítulo  8.  as  nn.  2 1 , 69  a  71 . 73  a  75,  78  a  82  e  85. 

32  Embora  a  planta  do  açafrão  tivesse  recomeçado  a  ser  cultivada  na  área  do  regime  senhorial  a 
partir  do  século  XI.  c  desde  o  século  seguinte  o  açafrão  passasse  a  constituir  um  importante  artigo  de 
exportação,  o  seu  emprego  como  meio  de  pagamento  parece  indicar  que  se  destinava  apenas  a  opera¬ 
ções  de  certo  vulto.  Ver  a  este  respeito  V.  M  Godmho  ( 1981-1983  )  II  212.  Referindo-se  à  Normandia 
ao  início  do  período,  e  apesar  de  ter  sido  aí  precoce  a  difusão  da  cunhagem  (ver  o  capítulo  2.a),  Th. 
N.  Bisson  (1979)  23  observa  que  os  grandes  pagamentos  podiam  ser  efectuados  total  ou  parcialmente 
em  géneros,  incluindo  bens  dc  luxo. 

33  Acerca  do  uso  da  pimenta  como  dinheiro:  M.  Bloch  ( 1933  c)  23:  id.  ( 1939)  8-10,  13;  id.  ( 1954) 
28;  C.  M.  Cipolla  <  1 962- 1963 >  4 1 7-4 1 8:  id  ( 1 965 )  232;  J.  Day  < 1 994 )  42;  G.  Duby  ( 1 953  >  357  e  n.  2; 
«d.  (1973)  279:  P.  Einzig  ( 1948)  268,  281:  R.  Fossier  (org.  1974)  1 12;  J.  Lestocquoy  ( 1947)  7:  R.  S. 
Lopez  et  al.  (1955)  145;  R.  Pemoud  ( 1949)  156-157. 


106 


Forma  I  do  dinheiro 


destes  bens  ficava  completamente  alheia  à  esfera  social  e  económica  da  baixa  aristocra¬ 
cia  e,  por  maioria  de  razão,  da  população  rural34. 

Vemos,  em  conclusão,  que  mesmo  entre  os  vários  tipos  de  dinheiro-géneros  se  ope¬ 
ravam  demarcações  sociais  muito  profundas  e  que  ainda  aqui  a  elite  da  aristocracia 
afirmava  o  seu  predomínio.  A  hegemonia  alcançada  pela  circulação  de  numerário 
reflectiu-se,  portanto,  no  próprio  interior  dos  géneros  que  corriam  como  dinheiro.  O 
prevalecimento  final  do  dinheiro-moeda,  além  de  revelar  a  completa  assimilação  do 
campesinato  independente  e  a  liquidação  de  todos  os  vestígios  da  sua  autonomia, 
exprime  ao  mesmo  tempo  a  hegemonia  das  senhorias  impessoais  sobre  as  senhorias 
pessoais. 

Havia  outro  tipo  de  dinheiro  não-monetário,  constituído  por  pequenos  pedaços  de 
tecido,  que  continuava  a  usar-se  extensivamente  nas  rotas  de  tráfico  que  atravessavam 
as  regiões  eslavas  da  periferia  leste  da  área  ocupada  pelo  regime  senhorial,  desde  a 
Pomerânia  até  à  Boémia  e  à  Morávia,  e  que  se  empregava  também  nos  confins  do  Mar 
Negro,  nas  costas  do  Kuban  e  do  Cáucaso35.  Mas  tratava-se  de  uma  modalidade  fidu¬ 
ciária  e,  no  que  dizia  respeito  aos  contactos  com  o  regime  senhorial,  a  sua  circulação 
restringia-se  praticamente  aos  mercadores  profissionais  de  longo  curso,  por  isso  a  fun¬ 
ção  pecuniária  daqueles  pedacinhos  de  tecido  pode  ser  melhor  entendida  no  contexto 
da  Fonna  III  do  dinheiro. 


R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  145  e  R.  Pemoud  (1949)  156  afirmam  que  neste  período  a  pimenta  era 
considerada  uma  matéria  preciosa,  praticamente  como  o  ouro  e  a  prata.  No  seu  estudo  sobre  os  meios 
de  pagamento  usados  na  Itália  centro-setentrional  por  ocasião  de  vendas  de  terras  e  transferências  de 
direitos  fundiários,  entre  960  e  1139,  D.  Herlihy  ( 1957-1958  )  4  indica  que  a  pimenta  era  então  empre¬ 
gue  só  esporadicamente  em  funções  pecuniárias,  e  apenas  na  planície  da  baixa  Lombardia. 

14  Porém,  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  etc.  (1969)  329  n.  1 15  dá  notícia  de  um  caseiro  do  mosteiro  de 
San  Millán  de  la  Cogolla  que  devia  pagar  anualmente  uma  libra  de  pimenta,  o  que  mostra  que.  peio 
menos  em  certos  casos,  este  artigo  precioso  circulava  entre  os  rurais. 

-  Quanto  ao  emprego  de  pedaços  de  tecido  como  dinheiro  pelos  Eslavos  ocidentais  ver,  em  geral: 
R.  Doehaerd  (1971)  288:  G.  Duby  (1973)  147;  P.  Einzig  (1948)  280.  281;  E.  Ennen  (1979)  54-55; 
A.  Gieysztor  (1961)  483;  id.  ( 1963)  178;  M.  Maíowist  (1966)  16;  S.  Tabaczynski  (1964)  176;  J.  W. 
Thompson  (1959)  528. 

Note-se  que  a  rota  de  Mogúncia  para  a  Rússia  atravessava  a  Boémia  e  a  Polónia,  passando 
nomeadamente  por  Praga,  consoante  esclarece  .1  Brutzkus  (1943)  34.  Por  seu  lado.  J.  W.  Thompson 
(1959)  528  afirma  que  o  uso  de  tecido  enquanto  dinheiro  era  tão  divulgado  na  Boémia  que  a  palavra 
checa  significando  linho  e  a  palavra  significando  contar  ou  somar  provinham  da  mesma  raiz.  R.  Doe¬ 
haerd  (1971)  288  narra  que,  segundo  um  viajante  judeu  que  no  final  do  segundo  terço  do  século  X 
percorreu  a  rota  de  Mogúncia  até  ã  Polónia  báltica,  se  usava  o  dinheiro  em  fonna  de  pedacinhos  de 
tecido  mesmo  para  adquirir  os  artigos  mais  preciosos  Se  assim  era.  não  compreendo  como  a  autora 
pode  (p.  288  n.  5)  pretender  que  este  dinheiro  fosse  considerado  uma  unidade  divisionária  do  denier. 
Do  mesmo  modo,  G.  Duby  (1973)  147  escreve  que  nos  meados  do  século  X.  no  mercado  de  Praga,  a 
moeda  divisionária  era  formada  por  pequenos  quadrados  de  pano  de  linho,  cada  um  deles  valendo 
1/10  de  denier.  Neste  caso.  seriam  necessários  volumes  absurdos  de  fragmentos  de  tecido  para  com¬ 
prar  bens  de  luxo!  Ora.  no  final  do  primeiro  quartel  do  século  XII,  informa  M.  Bloch  ( 1939)  8  n.  1. 
um  bispo  que  partiu  para  evangelizar  a  Pomerânia  muniu-se  de  peças  de  pano.  que  lhe  serviriam  de 
dinheiro  para  resgatar  prisioneiros  cristãos,  o  que  confirma  o  emprego  deste  tipo  de  dinheiro  em  ope¬ 
rações  vultosas.  E,  mais  tarde,  segundo  J.  Heers  (1981 )  86.  foi  frequente  que  os  mercadores  genove- 
ses  acuiantes  nos  confins  do  Mar  Negro,  nas  margens  do  Kuban  e  do  Cáucaso.  adquirissem  escravos 
usando  bens  como  meio  de  pagamento  e  o  tecido  enquanto  unidade  contabilísiica. 


Hcsistent  ias  u  veu.  iiía^áo  monetária  dos  do  dopoiulem  ia 


107 


Ainda  que  a  definição  teórica  dos.  problemas  relativos  ao  dinheiro-géneros  não  seja 
particularmente  complexa,  a  sua  análise  empírica  toma-se  muito  difícil  neste  período 
porque  simultaneamente,  no  interior  do  quadro  monetário  e  sem  se  abandonar  a  refe¬ 
rência  à  moeda,  ocorreu  um  movimento  que  levou  os  senhores  a  cobrarem  em  géneros 
muitos  tributos  originariamente  fixados  em  numerário.  A  distinção  entre  o  emprego  de 
géneros  enquanto  resistência  à  difusão  da  Forma  I  do  dinheiro  e  o  seu  emprego  como 
uma  modalidade  das  operações  do  dinheiro-moeda  requer  uma  análise  teórica  deta¬ 
lhada  deste  segundo  processo. 


CAPITULO  4 


INTEGRAÇÃO  DAS  EXACÇÕES  EM  GÉNEROS 
NO  QUADRO  MONETÁRIO 


O  prevaledmento  do  dinheiro-moeda  e  a  supremacia  que  passou  a  exercer  mesmo 
sobre  as  modalidades  de  pagamento  em  géneros  consumaram-se  na  forma  do  dinheiro 
contabilístico.  É  nesta  perspectiva  que  se  devem  analisar  as  repetidíssimas  depreciações 
monetárias  e  as  consequentes  variações  de  preços. 


a.  Depreciações  da  moeda 

A  quebra  da  moeda,  ou  seja,  a  redução  do  valor  da  cunhagem,  mediante  qualquer 
das  formas  técnicas  possíveis1,  foi  uma  prática  observável  em  todas  as  áreas  de  sobera- 


1  Consoante  a  doutrina  de  Nicole  Oresnie,  tal  como  a  expõe  E.  Bridrey  (1906)  248-249.  existiam 
cinco  tipos  de  mutações  monetárias,  que  na  prática  podiam  combinar-se:  alterações  no  conteúdo 
metálico,  no  peso.  na  relação  estabelecida  com  o  dinheiro  contabilístico,  na  relação  de  valor  entre  o 
ouro  e  a  prata,  nos  símbolos  gravados.  J.  Favier  (1982)  181-182  pretende  que  os  governantes  só  muito 
raramente  decidiam  alterar  a  composição  metálica  da  moeda  sem  indicar  esta  mutação  através  de 
sinais  exteriores,  pois  se  trataria  de  uma  prática  reprovada  pela  moral  da  época:  a  crer  neste  especia¬ 
lista.  o  processo  mais  corrente  consistiria  na  mera  alteração  do  curso  legal,  enquanto  a  cunhagem  de 
um  novo  tipo  monetário  apresentaria  o  inconveniente  de  ser  uma  operação  morosa.  Todav  ia,  J.  Day 
em  Istituto  lmemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datíni ■>.  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  282  põe 
em  causa  estas  teses  de  Jean  Favier.  assegurando,  em  primeiro  lugar,  que  a  modificação  da  composi¬ 
ção  metálica  da  moeda,  sem  qualquer  sinal  exterior  que  a  indicasse  e  conservando-se  inalterado  o  seu 
curso  legal,  era  uma  prática  muito  frequente  e.  em  segundo  lugar,  que  a  proclamação  de  um  novo 
curso  legal  só  teria  efeito  quando  se  referisse  à  emissão  de  um  novo  tipo  de  peças.  H.  A.  Mískimin 
(1963)  36  esclarece  que  a  mutação  da  cunhagem  podia  dever-se  ou  a  uma  alteração  do  valor  facial,  ou 
do  peso,  ou  da  composição  metálica:  e  acrescenta  que.  sob  o  ponto  de  vista  económico,  não  importa 
saber  qual  a  conjugação  destes  três  factores  ocorrida  em  cada  caso.  Depois  de  observar  que  as  altera¬ 
ções  da  cunhagem  tanto  podiam  depreciar  a  moeda  como  reforçá-la.  S.  Suchodolski  ( 1961 )  57  c  71 
afirma  que  a  operação  consistia  fundamentalmente  no  estabelecimento  de  uma  taxa  de  câmbio  entre 
as  peças  novas  e  as  antigas.  Segundo  este  autor,  tanto  era  possível,  em  princípio,  manter  o  valor  nomi¬ 
nal,  o  peso  e  a  liga  da  nova  cunhagem,  oferecendo  uma  quantidade  inferior  das  novas  moedas  em 
troca  de  um  numero  maior  das  antigas,  como  diminuir  o  peso  e  a  liga.  mantendo  no  entanto  o  valor 
nominal  e  trocando  as  novas  peças  por  uma  quantidade  igual  das  antigas,  conto  ainda  aumentar  o 
valor  nominal  da  nova  cunhagem,  ou  reduzir  o  da  antiga,  dando  por  uma  dada  quantidade  de  moedas 
antigas  um  número  inferior  de  moedas  novas.  Stanis/aw  Suchodolski  enuncia  (p.  75)  as  etapas  segui- 


110 


Forma  1  do  dinheiro 


nia2.  Trata-se  de  uma  questão  debatidíssima  entre  os  historiadores  e  para  explicá-la  têm 
sido  propostas  hipóteses  muito  diversas,  algumas  francamente  anacrónicas,  outras  con¬ 


das  na  Polónia  pelo  processo  de  depreciação,  considerando  que  durante  o  século  XI  a  diferença  entre 
o  valor  intrínseco  da  moeda  e  o  seu  valor  nominal  era  obtida  mediante  a  degradação  progressiva  do 
peso  e  do  teor  em  metal  precioso;  o  primeiro  terço  do  século  XII  correspondeu  a  uma  fase  de  transi¬ 
ção,  em  que.  por  um  lado,  se  deterioraram  permanentemente  a  liga  e  o  peso  do  numerário  e,  por  outro, 
se  deu  início  à  troca  das  moedas  antigas  por  outras  novas,  sendo  relativamente  raras  as  recunhagens 
completas;  finalmente,  da  quinta  até  à  sétima  década  do  século  XD,  as  recunhagens  tomaram-se  muito 
mais  frequentes  e  passaram  a  fazer  parte  da  política  monetária  da  coroa.  Abordando  outro  aspecto 
destes  problemas.  Emile  Bridrey  em  op.  cit.,  121  discrimina  dois  sistemas  de  mutação:  um  consistia 
em  recolher  todo  o  numerário  em  circulação  e  cunhar  outro;  ou  então. conservavam-se  as  moedas 
existentes,  mas  alterava-se  o  seu  valor  nominal.  Também  J.  Belaubre  (1986)  74  considera  que  a  que¬ 
bra  da  moeda  se  podia  realizar  através  dos  dois  processos  mencionados,.  quer  mantendo  o  curso  oficial 
e  reduzindo  o  valor  intrínseco  de  cada  peça  quer  aumentando  o  curso  oficial  e  mantendo  inalteradas 
as  demais  condições  de  emissão.  Numa  perspectiva  diferente.  Th.  N.  Bisson  (1979)  7  e  1 1  distingue 
entre  as  alterações  drásticas  e  súbitas  da  cunhagem  e  as  pequenas  depreciações  progressivas,  que 
seriam  bastante  correntes  e  atingiriam  efeitos  cumulativos  muito  consideráveis.  No  mesmo  sentido.  R. 
Cazelles  (1966)  84  previne  que  as  grandes  depreciações  não  se  devem  confundir  com  as  pequenas 
modificações  de  paridade  exigidas  pela  flutuação  do  preço  dos  metais  preciosos  no  mercado  de  longo 
curso.  Finalmente,  A.  P.  Hsher  (1943)  217  manifesta-se  céptico  quanto  aos  efeitos  da  alteração  do 
valor  nominal  do  numerário,  afirmando  que  na  prática  ele  corria  consoante  o  valor  que  lhe  era  atri¬ 
buído  pelo  público  e  pelos  negociantes,  não  sendo  as  autoridades  centrais  suficientemente  fortes  para 
impor  em  todos  os  casos  o  curso  legal. 

2  Limitando-me  às  referências  de  carácter  geral  -  já  que  as  menções  detalhadas  são  demasiado 
numerosas  -  em  França,  segundo  E.  Bridrey  (1906)  124.  desde  que  a  documentação  começa  a  eluci¬ 
dar  este  assunto,  no  primeiro  terço  do  século  XII,  verifica-se  que  era  normal  o  recurso  periódico  às 
mutações.  C.  M.  Cipolla  (1962-1963)  416-418  e  (1965)  230,  232  esclarece  que  na  Itália  centro-seten¬ 
trional  a  tendência  para  a  depreciação  foi  especialmente  acentuada  desde  o  começo  do  século  XI  até 
aos  meados  do  século  seguinte,  atenuando-se  a  partir  de  então  e  até  aos  meados  do  século  XIII,  para 
se  acelerar  na  segunda  metade  desse  século  e  abrandar  de  novo  ao  longo  do  século  XIV.  Na  Polónia,  a 
partir  do  primeiro  terço  do  século  XII.  a  crer  em  P.  Spufford  (1988)  95,  os  soberanos  passaram  com 
frequência  a  ordenar  a  recunhagem  de  toda  a  moeda  em  circulação,  e  na  Boémia,  na  Hungria  e  na 
Dinamarca  os  soberanos  inauguraram  no  começo  do  último  quartel  do  século  XI  o  sistema  das  recu¬ 
nhagens  completas  e  frequentes.  Finalmente,  I.  A.  Gade  ( 1951)  61-62  mostra  que  também  na  Noruega 
a  quebra  da  moeda  se  foi  observando  sempre  ao  longo  do  período. 

Só  na  Inglaterra  a  situação  parece  menos  clara.  P.  Spufford  ( 1988)  94  mostra  que  na  época  angio- 
-saxónica  as  mutações  monetárias  eram  muito  frequentes,  mantendo  os  reis  o  valor  nominal  das  peças 
cunhadas,  ao  mesmo  tempo  que  lhes  alteravam  o  peso  e  o  conteúdo  metálico.  Nos  cem  anos  posterio¬ 
res  à  conquista  normanda,  a  crer  em  id.,  ibid.,  94.  teria  vigorado  o  sistema  de  recunhagens  frequentes, 
até  lhe  pôr  cobro  o  monarca  que  reinou  durante  a  maior  parte  da  segunda  metade  do  século  XII,  ini¬ 
ciando-se  então  uma  série  de  emissões  de  tipos  fixos,  cada  uma  persistindo  por  muitos  anos.  No 
entanto,  esta  imagem  de  estabilidade  adquire  outra  conotação  quando  sabemos  que  precisamente  a 
partir  do  final  do  século  Xll  se  iniciou  uma  forte  tensão  inflacionista,  prosseguida  ao  longo  do  século 
seguinte,  como  indicam  vários  autores:  P.  Coss  (1991)  124-1 25;  Ch.  Dyer  ( 1980)  63-64;  P.  D.  A.  Har- 
vey  (1973)  5,  15-19;  C.  G.  Reed  et  al.  (1973)  135-137.  Segundo  I.  Kershaw  (1973)  6.  a  subida  dos 
preços  teria  continuado  durante  o  começo  do  século  XIV.  Afirmam  P.  D.  A.  Harvey  <  1973)  25-28  e  P. 
Spufford  (1984)  365  que  não  ocorreu  no  século  XIII  qualquer  depreciação  da  cunhagem,  pelo  que 
aquele  aumento  dos  preços  resultaria  de  um  brusco  afluxo  de  metal  precioso  no  termo  do  século  XII  e 
no  início  do  século  seguinte,  superior  às  capacidades  de  absorção  da  economia  inglesa.  Também  M. 
Prestwich  (1972.1  223  escreve  que  o  rei  não  ordenou  qualquer  quebra  da  moeda  no  final  do  século 
XIII  e  no  começo  do  século  seguinte.  Como  teria,  porém,  sido  possível  que.  sem  possuir  minas  de 
prata  importantes  (ver  as  nn.  249  e  259  do  capítulo  2),  a  InglaterTJ  dispusesse  daquele  melai  com 


Integrarão  das  e  uicçoes  cm  géneros  no  quadro  monetário 


i  i  i 


traditórias  ou  não  conseguindo  ultrapassar  aspectos  particulares.  Alguns  especialistas 
abordam  o  problema  exclusivamente  na  perspectiva  do  interesse  dos  soberanos,  preten¬ 
dendo  que  eles  beneficiavam  com  a  alteração  da  cunhagem,  de  maneira  que  tais  varia¬ 
ções  se  justificariam  sempre  por  necessidades  fiscais*.  Aliás,  era  assim  que  raciocina¬ 
vam  os  coevos,  pelo  menos  até  à  segunda  metade  do  século  XIV,  admitindo-se  então 
como  doutrina  corrente  que  a  moeda  pertencia  ao  soberano,  o  qual  podia  legitimamente 
fazer  com  ela  o  que  quisesse,  inclusivamente  modificar-lhe  o  peso,  o  teor  metálico  e  o 
valor  nominal  a  seu  bel-prazer4.  No  entanto,  certos  historiadores  salientam  que  os 


abundância,  num  período  caracterizado  pela  sua  escassez  generalizada?  E  tanto  mais  que,  como 
vimos  (no  capítulo  2. a),  a  sociedade  inglesa  foi  a  única  em  que  o  pagamento  dos  tributos  em  numerᬠ
rio  atingiu  uma  dimensão  muito  superior  ao  seu  pagamento  em  géneros,  o  que  devia  portanto  suscitar 
uma  grande  procura  de  metal  amoedável  C.  M.  Cipolla  (1962-1%?)  420-421  e  (1965)  234  e  P.  D.  A. 
Harvey  em  op.  cir..  26-28  atribuem  a  solução  do  problema  ao  facto  de  a  balança  comercial  inglesa  ter 
acusado  nessa  época  um  saldo  positivo.  Mas  houve  outras  áreas,  nomeadamente  as  grandes  cidades 
comerciais  italianas,  a  beneficiarem  de  um  excedente  nos  negócios  de  longo  curso,  sem  que  isto 
tivesse  provocado  situações  monetárias  similares.  C.  M.  Cipolla  (1962-1963)  418,  420-421  e  (1965) 
232,  234  frisa  até  o  contraste  entre  a  relativa  estabilidade  monetária  da  Inglaterra  e  a  tendência  acen¬ 
tuada  para  a  depreciação  que  se  observava  na  Itália.  Noutra  perspectiva,  é  também  surpreendente  que 
um  afiuxo  de  metal  precioso  e  uma  circulação  de  moeda  forte  tivessem  resistido  à  acção  dos  mecanis¬ 
mos  enunciados  na  lei  dita  de  Gresham,  que  referirei  um  pouco  mais  adiante. 

3  Ver  em  geral:  S.  Bolin  (1954)  10-12;  E.  Bridrey  ( 1906)  121.  123.  124,  131;  L.  Einaudi  (1936) 
32-33;  S.  Suchodolski  (1961)  71-72;  A.  M.  Watson  (1967)  31.  Para  uma  explicação  das  mutações 
monetárias  ocorridas  na  Flandres  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV,  na  perspectiva  de  que  elas 
corresponderiam  apenas  aos  interesses  imediatos  do  conde,  ver:  H.  van  Werveke  (1949)  121  e  123- 
-124.  Acerca  desta  questão  consultar  também:  H.  Grassotti  (1964)  86-89;  J.  Piquei  (1939)  155. 

A  posição  de  R.  Cazelles  (1966)  a  respeito  da  França  nos  últimos  anos  do  século  XIII  e  nos  dois 
primeiros  terços  do  século  XIV  é  muito  contraditória,  escrevendo  ele  primeiro  (p.  252)  que  as  depre¬ 
ciações  prejudicavam  os  rendimentos  do  domínio  da  coroa,  para  concluir  em  seguida  (pp.  272-276) 
que  a  causa  principal  das  mutações  foram  as  necessidades  financeiras  dos  monarcas.  E  id.  (1982)  530 
afirma  que.  para  a  coroa,  a  quebra  da  moeda  correspondia  a  uma  medida  de  carácter  fiscal.  Embora 
aceitando  que  as  manipulações  monetárias  se  devessem  aos  interesses  fiscais  dos  soberanos.  Th.  N. 
Bisson  (1979)  1,  6-7  e  12-13  considera  que  só  a  curto  prazo  elas  lhes  seriam  vantajosas.  A.  P.  Usher 
(1943)  217.  que.  como  vimos  na  n.  I,  duvida  da  capacidade  das  autoridades  centrais  para  imporem  em 
todos  os  casos  o  curso  legal  da  moeda  e,  portanto,  se  mantém  céptico  quanto  aos  efeitos  da  alteração 
do  valor  nominal  do  numerário,  pretende  que  a  taxa  oficial  se  limitava  a  indicar  o  valor  a  que  as  peças 
saíam  das  oficinas  dc  cunhagem  e  o  valor  a  que  eram  recebidas  em  pagamento  das  obrigações  públi¬ 
cas.  Se  esta  tese  estiver  correcta,  então  a  quebra  da  moeda  responderia  exclusivamente  ao  interesse 
dos  soberanos.  J.  Day  em  Istituto  Iniemazionale  di  Storia  Economica  -F.  Datini».  V.  Barbagli  Bagnoli 
(1982)  880  parece  admitir  que  as  depreciações  só  se  deviam  às  conveniências  fiscais  dos  soberanos  se 
ocorressem  durante  as  épocas  em  que  a  quantidade  de  numerário  em  circulação  era  adequada  às 
necessidades.  Na  mesma  perspectiva,  id.  ( 1984)  13  defende  que  as  reformas  monetárias,  quando  o  seu 
objectivo  não  consistia  em  satisfazer  as  necessidades  fiscais  de  um  soberano,  tinham  praticamente 
como  única  finalidade  impedir  a  saída  do  metal  precioso  e  favorecer  a  sua  entrada. 

4  Os  princípios  da  ortodoxia  monetária  vigentes  até  à  segunda  metade  do  século  XIV  são  expostos 
por  E.  Bridrey  (1906)  107,  117,  120,  131,  135-136.  176-177  e  191-192.  Segundo  este  autor  (pp.  137- 
-148),  tal  teoria  não  resultava  de  qualquer  ignorância  económica,  nem  de  uma  interpretação  determi¬ 
nada  exclusivamente  pelos  interesses  dos  soberanos,  sendo  adequada  a  uma  prática  que  utilizava  a 
moeda  como  um  mero  instrumento,  e  não  como  uma  mercadoria  dotada  de  valor  próprio.  Ver  também 
a  este  respeito  a  n.  93  deste  capítulo,  bem  como  a  n.  143  do  capítulo  12.  Foi  Nícole  Oresme,  com  o 
seu  Traitê  de  1’ Origine.  Nature.  Droirs  et  Mutations  des  Monnaies.  quem  primeiro  questionou  teórica- 


112 


Forma  1  Jo  dinheiro 


monarcas  e  príncipes  canto  pagavam  com  uma  nova  emissão  monetária  como  a  rece¬ 
biam,  cancelando  por  um  lado  as  vantagens  que  pudessem  obter  por  outro5.  Mas  não 


mente  aquele  ponto  de  vista,  considerando  o  numerário  nâo  apenas  como  instrumento  de  troca,  mas 
igualmente  como  meio  de  conservação  do  valor  (pp.  189-192,  205-207),  o  que  requeria  como  princi¬ 
pal  qualidade  da  moeda  um  valor  intrínseco  estável.  Por  isso  Oresme  afirmava  que  o  direito  sobre  a 
cunhagem,  e  nomeadamente  sobre  as  mutações  da  moeda,  não  pertencia  em  última  instância  ao 
monarca,  mas  à  comunidade  da  alta  aristocracia,  tanto  a  boa  nobreza  tradicional  como  a  elite  urbana 
(pp.  48-54.  101-102,  207,  209-210,  217,  233-236),  que  devia  zelar  por  uma  política  de  estrita  estabili¬ 
dade  monetária.  Acerca  da  política  de  estabilidade  inspirada  por  Nicole  Oresme  ver  neste  capítulo  a 
n.  26.  Ainda  a  respeito  deste  conjunto  de  questões  ver  P.  Spufford  (1988)  295.  300-301,  304  e  308,  o 
qual  esclarece  também  que  já  na  primeira  metade  do  século  XIV,  no  Brabante,  em  Aragão  e  tempora¬ 
riamente  na  Inglaterra,  a  aristocracia  havia  conseguido  impor  que  os  soberanos  a  consultassem  antes 
de  procederem  a  mutações  monetárias.  Mas  tratava-se  de  situações  de  facto,  que  nâo  tinham  ainda 
sido  formuladas  no  plano  teórico.  Tanto  assim  que,  segundo  H.  G.  Barras  (1945-1954)  I  151,  as  leis 
consuetudinárias  da  nobreza  castelhana  reconheciam  como  prerrogativa  do  monarca  o  direito  de  alte¬ 
rar  o  valor  da  moeda.  Por  seu  turno.  Émile  Bridrey  em  op.  cit.,  437-438  indica  que  em  França,  na  pri¬ 
meira  metade  do  século  XIV,  a  comunidade  aristocrática  vinha  igualmente  a  reivindicar  o  direito 
sobre  a  cunhagem  e  procurava  exercê-lo  na  prática.  Muito  antes,  em  1205,  já  a  elite  urbana  de  Tou- 
louse  obrigara  o  conde  a  renunciar,  mediante  um  juramento  e  uma  lei  escrita,  ao  controlo  sobre  a 
moeda;  embora  a  cunhagem  continuasse  propriedade  do  conde,  ela  ficava  submetida  aos  cônsules  da 
cidade.  Ver  a  este  respeito  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  104-105  e  J.  H.  Mundy  ( 1954)  109.  Para  outra  faceta 
da  situação  em  Toulouse,  consultar  neste  capítulo  a  n.  36.  Também  no  começo  do  século  XIII  a  elite 
da  cidade  de  Metz  tentara  contestar  à  oficina  monetária  episcopal  o  direito  a  eíeetuar  mutações,  como 
se  lê  em  J.  Schneider  (1950)  257-258.  O  caso  que  se  me  afigura  mais  curioso  ocorreu  em  Cahors. 
onde  pelo  menos  desde  o  começo  da  segunda  década  do  século  XIII  se  estabeleceu  a  norma  de  cada 
bispo  não  proceder  a  mais  de  uma  mutação  monetária,  consoante  infonna  M.  Bompaire  ( 1987)  27. 

3  A  dualidade  da  situação  dos  soberanos  é  observ  ada  por:  R.  de  Roover  (1948)  230;  E.  Foumial 
( 1967)  276;  H.  A.  Miskimin  (1963)  44-45. 

As  teses  de  Marc  Bloch  a  este  respeito  parecem  um  tanto  vacilantes.  Depois  de  indicar  que  nos 
casos  de  depreciação  as  leis  emanadas  da  coroa  defendiam  os  interesses  dos  devedores,  estipulando 
que  as  somas  deviam  ser  pagas  de  acordo  com  o  valor  nominal  da  nova  moeda,  M.  Bloch  (1934)  385 
observa  que  é  impossível,  nestes  termos,  supor  que  as  depreciações  obedecessem  apenas  a  motivos 
fiscais.  E,  referindo-se  à  França,  id.  (1953)  439  argumenta  que  se  numerosas  mutações  não  foram 
acompanhadas  pela  obrigação  de  recunhagem.  elas  não  puderam  ser  nestes  casos  um  expediente  fis¬ 
cal.  Por  outro  lado,  porém,  como  os  soberanos  pagavam  em  prata  aos  seus  funcionários,  e  sobretudo 
às  suas  tropas,  id.  (1933  c)  30  escreve  que  eles  tinham  interesse  em  ver  esse  metal  sobrevalorizado 
relativamente  ao  ouro.  o  que  aliás  fora  reconhecido  pelo  rei  da  Sicília  no  começo  do  século  XIV.  A 
mesma  concepção  aparece  expressa  em  id.  ( 1953  )  435,  embora  mais  à  frente  (pp.  446-447),  tal  como 
em  (1954)  67,  Marc  Bloch  indique  que,  ao  saberem  da  quebra  da  moeda,  os  mercenários  e  os  agentes 
administrativos  reivindicavam  um  aumento  das  remunerações,  levando  em  alguns  casos  os  monarcas 
a  procederem  secretamente  àquele  tipo  de  operações.  Todavia,  as  hesitações  do  grande  historiador  a 
este  respeito  manifestam-se  plenamente  quando  ele,  em  ( 1954)  73.  considera  que  os  soberanos,  ora 
aparecendo  como  credores  ora  como  devedores,  tinham  interesses  oscilantes.  Talvez  Marc  Bloch 
opere  uma  síntese  em  id.  (1953)  447  e  452,  ao  afirmar  que  o  enfraquecimento  da  moeda  beneficiava 
os  soberanos  cujos  compromissos  enquanto  devedores  eram  maiores  do  que  as  suas  esperanças  como 
credores,  explicando  em  seguida  que  em  épocas  de  crise  eles  eram  principalmente  devedores,  apare¬ 
cendo  sobretudo  enquanto  credores  nas  épocas  normais,  quando  o  fisco  se  alimentava  pela  recolha  de 
tributos.  Igualmente  contraditória  é  a  posição  de  V.  M.  Godinho  <  1981-1983)  I  111-113.  Ele  começa 
por  afirmar  que  a  coroa  ganhava  menos  com  a  quebra  da  moeda  do  que  perdia  com  a  diminuição  do 
valor  dos  impostos  e  das  outras  receitas.  Mas  em  seguida,  depois  de  referir  que  a  subida  dos  preços, 
consecutiva  a  urna  depreciação,  aumentava  as  despesas  feitas  pelo  palácio  na  compra  dc  géneros  cor¬ 
rentes.  aquele  historiador  considera  verosímil  que.  apesar  disso,  os  soberanos  saíssem  beneficiados 


lii 


inuwa^ao  (/«/.\  rm  ,t>é/im>\  liti  c/ihain •  nuun  iáru) 


vale  a  pena  discorrer  aqui  ao  mero  nível  da  abstracção,  pois  tudo  consiste  em  saber  se 
as  receitas  da  coroa  eram  maiores  ou  menores  do  que  as  despesas.  Se  fossem  menores, 
pode  concluir-se  que  os  soberanos  saíam  mais  favorecidos  por  pagarem  em  peças 
depreciadas  do  que  ficavam  prejudicados  com  a  sua  arrecadação6.  Afinal,  uma  situação 
de  crise  fiscal  caracteriza-se  precisamente  pelo  facto  de  as  receitas  se  manterem  infe¬ 
riores  às  despesas,  e  como  seria  nestas  circunstâncias  que  os  soberanos  recorriam  à 
quebra  da  moeda,  os  benefícios  para  eles  não  me  parecem  duvidosos.  Por  uma  vez,  a 
teoria  clássica  afígura-se-me  justificável. 

Mas  uma  explicação  daquele  tipo  é  demasiado  restrita  e  circunstancial,  pois  sabe¬ 
mos  de  casos  em  que  os  ganhos  obtidos  por  monarcas  e  príncipes  em  virtude  das  mani¬ 
pulações  da  cunhagem  representaram  uma  rubrica  de  somenos  importância  no  total  dos 
seus  rendimentos7.  É  certo  que,  nas  condições  da  época,  quando  eram  ainda  muito 
morosos  os  mecanismos  usuais  de  cobrança  dos  tributos,  a  coroa  não  dispunha,  além 
dos  empréstimos  contraídos  junto  das  grandes  casas  bancárias,  de  outra  forma  rápida 
de  reunir  somas  relativamente  avultadas  senão  as  quebras  de  moeda*.  Por  isso  o  interesse 
fiscal  dos  soberanos  deve  sempre  ser  considerado  um  factor  explicativo.  Este  factor  não 
atinge,  contudo,  a  dimensão  do  problema,  que  dizia  respeito  ao  instrumento  de  veicula- 
ção  da  dependência  impessoal,  ou  seja.  ao  próprio  fundamento  de  toda  a  sociedade. 
Para  nos  aproximarmos  da  solução  é  necessário,  além  de  saber  quem  determinava  poli¬ 
ticamente  a  cunhagem,  averiguar  também  as  reacções  da  população.  Há  quem  afirme 
que  as  modificações  monetárias  eram  prejudiciais  a  todos  os  estratos  sociais9.  Mas 
como  seria  possível,  perante  uma  hostilidade  decerto  tão  ampla,  que  as  oficinas  conti¬ 
nuassem  a  modificar  o  valor  do  numerário?  Alguns  historiadores  admitem  que  o 
recurso  a  mecanismos  económicos  relativamente  sofisticados10  ou  a  pretensa  ingenui- 


pelo  facto  de  pagarem  em  numerário  depreciado  a  remuneração  dos  seus  agentes  e  das  tropas  merce¬ 
nárias.  partindo  do  princípio  que  esta  rubrica  das  despesas  era  superior  à  outra. 

6  J.  Belaubre  ( 1986)  74  e  E.  Penoy  ( 1949)  178  consideram  que  o  Estado,  enquanto  devedor  siste¬ 
mático.  era  favorecido  pela  quebra  da  moeda.  Também  C.  M.  Cipolla  (1962-1963)  414.  418-419  e 
(1965)  228,  233  salienta  entre  as  principais  causas  da  depreciação  o  agravamento  dos  défices  gover¬ 
namentais.  ocasionado  sobretudo  pelo  aumento  das  despesas  com  as  burocracias  centrais  e  com  os 
exércitos  de  mercenários. 

7  Segundo  F.  Graus  (1951)  448-449,  era  esta  a  situação  relativamente  à  coroa  da  Boémia  no 
século  XIV.  No  entanto,  R.  Cazelles  (1982)  533  afirma  que  em  certas  épocas  de  quebra  muito  pro¬ 
nunciada  da  moeda  os  lucros  da  cunhagem  constituíram  metade,  ou  mesmo  mais,  das  receitas  totais 
do  tesouro  dos  reis  de  França. 

x  H.  A.  Miskimmí  1963)  45-46. 

9  H.  G.  Barros  (1945-1954)  111  129;  M.  Bouard  (org.  1970)  211;  V.  M.  Godinho  (1981-1983) 
1 112;  F.  Graus  (1951 1  452;  H.  Kraus  1 1979)  58. 

A  propósito  da  situação  da  Boémia  no  final  do  período.  F.  Graus  referido  por  R.  R.  Betts  ( 1952) 
28  considera  que  a  quebra  da  moeda  era  prejudicial  para  todos  os  estratos  sociais,  salvo  os  grandes 
negociantes  e  os  financeiros.  Já  Nicole  Oresme  afirmara  que  as  mutações  monetárias  arruinavam  os 
súbditos  para  enriquecer  o  rei,  acabando  afinal  por  fazer  apenas  a  fortuna  dos  especuladores.  Ver  a 
este  respeito  E.  Bridrey  ( 1906)  259-262  e  266. 

10  M.  Bloch  ( 1953)  437-439  apresenta  o  modelo  seguinte;  ao  depreciar  o  numerário,  o  soberano 
usava  um  mesmo  peso  de  prata  para  mandar  executar  um  maior  número  de  peças,  obtendo  assim  um 
ganho  suplementar,  incluído  na  diferença  entre  o  valor  nominal  e  o  valor  metálico;  as  oficinas 
podiam,  então,  destinar  uma  parte  deste  benefício  ao  pagamento  de  um  preço  monetário  tnais  elevado 


114 


Forma  I  do  dinheiro 


dade  da  população  em  matéria  financeira* 1  permitissem  aos  soberanos  ludibriar  os  inte¬ 
resses  gerais  e  manipular  a  moeda.  E  as  experiências  acumular-se-iam.  ao  longo  de 
séculos,  sem  que  a  população  aprendesse  com  elas?  No  entanto,  ocorreram  numerosas 
revoltas  e  outras  manifestações  de  descontentamento  provocadas  pela  política  monetᬠ
ria  e  -  o  que  é  mais  importante  ainda  -  foram  diferentes,  às  vezes  mesmo  contraditó¬ 
rios,  os  aspectos  que  de  cada  vez  excitaram  os  ânimos.  Tentarei  esclarecer  um  pouco 
uma  situação  aparentemente  tão  confusa. 

Vimos  (no  capítulo  2.d)  que,  no  contexto  de  um  aumento  da  procura  da  prata  sem¬ 
pre  superior  ao  acréscimo  da  sua  oferta,  foram  as  sucessivas  depreciações  a  permitir 
que  o  numerário  circulasse  entre  a  população  mais  humilde  e  servisse,  portanto,  para 
veicular  as  relações  de  dependência.  É  certo  que.  assim  como  houve  quebras  de  moeda, 
se  procedeu  por  vezes  também  ao  seu  reforço,  e  o  numerário  metálico  não  podia  depre¬ 
ciar-se  continuamente,  sob  o  risco  de  desaparecer12.  Contudo,  uma  boa  parte  das  emis¬ 
sões  de  moeda  revalorizada  destinavam-se  a  alimentar  a  Forma  II  do  dinheiro,  como 
veremos  posteriormente  (no  capítulo  8).  Quando  este  tipo  de  cunhagem  mais  valiosa 
era  atingido  pela  depreciação,  abandonava  as  operações  da  Forma  II  do  dinheiro  e  pas¬ 
sava  a  destinar-se  à  Forma  I13.  Consoante  este  processo,  em  vez  de  a  depreciação  ocor¬ 
rer  exclusivamente  no  âmbito  da  Forma  I.  ela  iniciava-se  na  Forma  II,  transferindo-se 
em  seguida  tais  emissões  para  a  Forma  I,  onde  continuavam  a  depreciar-se.  Por  outras 
palavras,  não  ocorria  neste  período  uma  série  única  de  depreciações  monetárias,  mas 
uma  sucessão  de  séries,  o  que  permitia,  se  necessário,  abrandar  o  ritmo14  e,  em  qual¬ 
quer  caso,  evitava  que  o  dinheiro  metálico  definhasse  até  ao  ponto  de  desaparecer 
materialmente.  No  quadro  estrito  do  numerário  destinado  a  circular  entre  os  servos  e  a 
arraia-miúda  das  cidades,  os  casos  de  revalorização  foram  raros  e.  em  geral,  meramente 
episódicos15,  destinando-se  apenas  a  facilitar  as  operações  posteriores  de  quebra  da 


pela  prata  que  o  público  trouxesse  para  cunhagem,  incluindo  aquela  que  estava  já  em  circulação  sob  a 
forma  de  emissões  anteriores;  as  pessoas  que  levavam  o  metal  precioso  para  ser  cunhado  de  novo  jul¬ 
gariam,  durante  algum  tempo,  lucrar  com  a  operação.  Consultar  no  mesmo  sentido  P.  Spufford  (  1988) 
289. 

1 1  Depois  de  observar  que  podiam  ter  sido  resolvidos  de  outra  forma  os  problemas  que  levaram  às 
quebras  sistemáticas  da  moeda,  C.  M.  Cipolla  (1962-1963)  414-415  e  (1965)  228-229  pretende  que  o 
carácter  indirecto  e  subtil  da  depreciação  a  tomava  uma  solução  fácil  para  as  autoridades.  No  entanto, 
H.  A.  Miskimin  ( 1963)  44  afirma  que  os  sistemas  de  contabilidade  e  o  comportamento  dos  preços  mos¬ 
tram  que  o  público  não  tinha  ilusões  quanto  ao  conteúdo  metálico  da  moeda.  E,  referindo-se  aos  mea¬ 
dos  do  século  XIV,  P.  Spufford  (1988)  305  considera  que  a  população  conhecia  bem  as  consequências 
da  política  monetária  e  não  ignorava  quem  ganhava  e  perdia  com  as  manipulações  da  cunhagem. 

J.  Day  (1994)  103  evoca  o  caso  extremo  de  Portugal  de  1383  até  1435,  quando  este  reino  aca¬ 
bou  por  ter  uma  circulação  exclusivamente  de  cobre.  Mas.  como  observa  S.  Suchodotski  (1961)  57. 
era  materialmente  impossível  depreciar  eontinuamente  o  peso  e  o  conteúdo  metálico  da  moeda.  Ver 
no  mesmo  sentido  R  Cazelles  ( 1966)  256  e  ( 1982)  531 . 

"  Para  um  modelo  deste  tipo  consultar  P.  Touben  (1973  b)  557,  585-586.  592  e  595. 

14Id..  ibid.,591. 

15  M.  Bloch  (1953)  155;  id.  (1954)  49-50. 

Segundo  R.  Cazelles  (1966)  84.  devemos  distinguir  as  grandes  operações  de  mutação  monetária 
seguidas  por  fases  de  estabilidade,  e  as  mutações  sistemáticas  e  amplas  ocorridas  em  ciclos  curtos, 
sem  verdadeiros  patamares  de  estabilização. 


Integração  das  exac  ções  em  generos  no  quadvo  Monetário 


JJ5 


moeda16  ou  a  refrear  temporariamente  o  processo  de  depreciação17,  quando  ele  atingia 
níveis  excessivos18  ou  quando  a  oferta  dos  metais  preciosos  melhorava  e  o  seu  preço 
comercial  baixava.  Mas  a  ineficácia  das  operações  de  revalorização  da  cunhagem  era 
mais  drástica  ainda,  graças  à  vigência  nesta  época  da  lei  dita  de  Gresham. 

É  habitual  atribuir-se  a  Thomas  Gresham  uma  lei  que  ele  nunca  formulou  e  que  fora 
estabelecida  já  antes  por  vários  outros  autores19,  segundo  a  qual,  se  duas  moedas  liga¬ 
das  por  uma  relação  cambial  fixa  circulassem  concorrentemente  numa  mesma  área  de 
soberania  e  uma  se  apreciasse  relativamente  à  outra,  a  mais  valorizada  tendia  a  desapa¬ 
recer  da  circulação,  sendo  usada  para  o  pagamento  das  dívidas  ao  estrangeiro  ou 
ficando  entesourada  no  interior  do  país20.  Neste  caso.  consoante  a  formulação  corrente, 
a  má  moeda  expulsava  a  boa.  Embora  a  lei  dita  de  Gresham  não  se  aplicasse  à  relação 
entre  as  diferentes  esferas  pecuniárias,  ela  seria  certamente  válida  no  âmbito  da  Forma 
1  do  dinheiro21.  Segundo  alguns  historiadores,  bastaria  até  a  pressão  exercida  por  esta 


16  M.  Bloch  (19531  439. 

17  Referindo-se  ao  sucedido  em  França,  id.,  ibid.,  449  observa  que,  não  se  verificando  qualquer 
caso  de  revalorização  da  moeda  que  não  tivesse  sido  precedido  por  uma  depreciação,  o  reforço  da 
cunhagem  consistiu  sempre  no  regresso  a  uma  situação  anterior. 

18  Id.,  ibid.,  450,  454. 

19  Para  me  limitar  a  este  período,  embora  Nicole  Oresme  tivesse  afirmado  que  as  mutações  mone¬ 
tárias  provocavam  a  exportação  clandestina  de  metal  precioso  para  o  estrangeiro  e  a  sua  escassez  no 
país,  E.  Bridrey  (1906)  263-264  considera  que  ele  não  foi  um  precursor  da  lei  dita  de  Gresham.  Con¬ 
tudo,  a  Encyclopeedia  Universalis.  Thesaurus.  ed.  de  1993.  p.  1503  menciona  Oresme  entre  os  que 
anteciparam  aquela  lei. 

20  Encontra-se  um  exemplo  prático  do  funcionamento  da  lei  dita  de  Gresham  em  E.  Foumia) 
(1967)  277-280.  Sob  este  ponto  de  vista  é  muito  problemática  a  situação  inglesa,  tal  como  a  refiro  no 
final  da  n.  2  deste  capitulo. 

M.  Bloch  (1953)  433-434  e  437  indica  como  uma  das  causas  das  mutações  monetárias  posteriores 
ao  início  do  século  XIII  o  facto  de  a  relação  estabelecida  oficialmente  entre  o  ouro  e  prata  deixar  de 
coincidir  com  o  curso  comercial  de  ambos  os  metais,  o  que  sucedia  tanto  mais  facilmente  quanto  a 
escassez  da  sua  oferta  tomava  muito  drásticas  as  flutuações  de  preços;  a  prazo,  era  indispensável  res¬ 
tabelecer  a  harmonia  entre  o  curso  monetário  e  o  comercial,  mediante  a  alteração  da  cunhagem. 
Acerca  da  relação  entre  esta  tese  e  as  opiniões  sustentadas  por  L.  Einaudi  (1936)  ver  M.  Bloch  ( 1938) 
359.  Penso  que  deviam  contribuir  para  aquele  desfasamento  os  mecanismos  da  lei  dita  de  Gresham. 
levando  à  exportação  do  metal  precioso,  em  especial  do  incorporado  na  moeda  relativamente  valori¬ 
zada.  No  entanto.  M.  Bloch  ( 1953)  450-451  e  (1954)  71  usa  um  modelo  de  análise  que  nada  tem  a  ver 
com  a  lei  de  Gresham  para  afirmar  que  as  depreciações  monetárias  estimulavam  o  entesouramento  e 
as  valorizações  lhe  eram  desfavoráveis.  Restringindo-se  às  formas  de  depreciação  em  que  a  nova 
emissão  se  caracterizava  por  um  conteúdo  metálico  idêntico  e  um  valor  nominal  superior.  S.  Bolin 
(1954)  14  afirma  que  não  havia  razão  para  entesourar  as  moedas  mais  antigas,  pois  o  seu  teor  em 
prata  era  o  mesmo  das  mais  recentes,  e  que  por  isso  todas  elas  eram  exportadas.  Finalmente,  J.  Favíer 
(1982)  178-179  parece  desconhecer  os  efeitos  da  lei  dita  de  Gresham,  ao  pretender  que  ignoramos  em 
tyue  medida  seria  ou  não  eficaz  o  encerramento  das  fronteiras  à  exportação  de  numerário. 

21  A.  De  Maddalena  ( 1982)  504  e  507  sugere  que  os  camponeses  classificavam  as  moedas  como 
boas  ou  más  de  acordo  com  critérios  distintos  dos  usados  pelos  senhores  e  pela  elite  urbana.  Na  minha 
opinião,  porém,  a  diferença  não  residia  nos  critérios,  mas  nas  esferas  pecuniárias,  e  as  boas  e  más 
moedas  inseridas  na  Forma  1  não  se  confundiam  com  as  boas  e  más  moedas  decorrentes  da  Forma  II. 
Para  que  a  lei  dita  de  Gresham  funcionasse,  observa  P.  Toubert  (1973  b)  597  n.  1,  era  necessário  que 
■s  duas  moedas  concorrentes  se  destinassem  a  um  mesmo  mercado,  circulando  ao  mesmo  nível,  e  que 
fosse  ligeira  a  diferença  entTe  elas.  P.  Spufford  (1988)  105  pretende,  no  entanto,  que  para  se  executar 


// 6 


Forma  /  ríe>  dinheiro 


lei  para  obrigar  as  autoridades  a  depreciar  a  cunhagem,  já  que,  gastando-se  as  moedas 
com  o  uso  e  sendo  a  erosão  agravada  ainda  pelo  hábito  de  lhes  cortar  aparas,  se  as  moe¬ 
das  novas  não  fossem  continuamente  emitidas  com  um  conteúdo  metálico  inferior  ao 
conteúdo  inicial  das  antigas,  estas,  já  deterioradas,  expulsariam  da  circulação  as  novas 
peças22.  Assim,  a  lei  dita  de  Gresham  determinava  de  muito  perto  os  mecanismos  da 
emissão  monetária.  Os  repetidos  decretos  com  que  as  autoridades  soberanas  procura¬ 
ram  limitar  alguns  tipos  de  entesouramento2'  e  proibir  a  exportação  dos  metais  precio¬ 
sos24  tiveram  como  verdadeiro  objeetivo  combater  os  efeitos  daquela  lei.  Sem  qualquer 
eficácia  prática,  porém,  como  sucede  sempre  que  se  pretende  opor  obstáculos  jurídicos 
às  tendências  económicas  fundamentais.  Normalmente,  ao  inaugurar-se  uma  nova 
emissão  depreciada,  a  cunhagem  anterior  ficava  revalorizada  por  comparação  com  a 
mais  recente  e  era  por  isso  retirada  de  circulação.  Este  processo  funcionava  também 
quando  a  nova  cunhagem  lançava  peças  com  um  conteúdo  metálico  superior.  Elas  eram 
avaliadas  pelo  público  consoante  o  seu  peso  em  prata,  o  que  correspondia  à  sua  desmo- 
netização,  saindo  de  circulação  e  difundindo-se  em  seu  lugar  a  moeda  de  má  liga,  emi¬ 
tida  por  outros  soberanos25. 

Os  efeitos  deste  mecanismo  podem  ser  bem  analisados  em  França  por  ocasião  de 
uma  das  mais  duradouras  políticas,  se  não  a  tnais  duradoura,  de  revalorização  e  estabi¬ 
lização  monetária  ocorridas  durante  este  período.  A  sua  primeira  tentativa  de  aplicação 
sistemática,  em  1357,  deparou  com  o  entesouramento  e  a  exportação  dos  metais  pre¬ 
ciosos,  difundindo-se  no  reino  a  má  moeda  estrangeira  e  elevando-se  o  curso  comercial 
do  ouro  e  da  prata  a  um  ponto  tal  que  foi  impossível  continuar  a  reforma  da  cunhagem. 
A  política  de  estabilidade  monetária  assente  num  numerário  forte  recomeçou  em 
Dezembro  de  1360  e  prosseguiu  até  Março  de  1385.  De  novo  a  má  moeda  estrangeira  e 
as  peças  falsas  provocaram  o  êxodo  da  moeda  forte,  que  dificilmente  se  manteve  em 
circulação,  sendo  entesourada  ou  exportada.  Agravava-se  deste  modo  a  escassez  da 
oferta  comercial  de  metal  precioso  no  interior  do  reino,  o  que  tornava  cada  vez  mais 
difícil  a  manutenção  das  condições  da  reforma.  Ao  longo  destas  duas  décadas  e  meia 


uma  alteração  da  cunhagem  era  essencial  que  nessa  área  circulasse  apenas  um  mesmo  tipo  de  moeda. 
Ora.  como  observa  M.  Bloch  (1953)  152,  em  cada  mercado  existia  uma  grande  multiplicidade  de 
moedas  em  circulação,  quer  estrangeiras  quer  originarias  das  várias  oficinas  do  país.  c  isto  sucedeu  ao 
longo  de  todo  o  período.  Peter  Spufford  não  pode.  claro,  explicar  como  conseguiria  um  soberano 
vedar  temporariamente  uma  dada  área  à  circulação  de  numerário  variado. 

22  C.  M.  Cipolla  1 1962-1963)  414;  id.  1 1965)  228:  R.  S.  Lopez  1 1982)  8. 

-■  Quanto  às  leis  sumptuárias  ver  no  capítulo  2  a  n.  239. 

24  Ver  no  capítulo  2  a  n.  240. 

25  Segundo  P.  Spufford  f  1988)  289-290.  porém,  quando  um  soberano  pretendia  regressar  a  uma 
moeda  forte  começava  a  cunhar  peças  com  peso  e  composição  metálica  que  se  aproximavam  dos 
vigentes  antes  da  depreciação  anterior.  Como.  para  que  a  nova  moeda  fosse  aceite,  o  soberano  decre¬ 
tava  uma  redução  desproporcionada  no  valor  nominal  do  numerário  depreciado  que  estava  em  circu¬ 
lação.  todos  os  que  o  possuíam  sofriam  uma  perda,  que  podiam  compensar  parcialmente  levando-o  às 
oficinas  de  cunhagem,  onde  o  trocavam  por  moeda  forte.  Deste  modo.  após  um  certo  prazo  a  moeda 
fraca  ficaria  completameme  eliminada.  Este  modelo  de  análise  só  é  compreensível  se  não  esquecer¬ 
mos  que  segundo  Peter  Spufford  existiria  um  único  tipo  de  moeda  em  circulação  na  área  em  que  se 
fosse  proceder  à  alteração  da  cunhagem.  Ver  a  este  respeito  a  n.  2  I  deste  capitulo. 


integração  das  oriuqocs  em  genew  no  quadro  numcumo 


117 


ocorreu  a  subida  do  preço  dos  metais  preciosos,  aliás  segundo  ritmos  diferentes  no 
caso  do  ouro  e  no  da  prata,  o  que  perturbou  os  valores  relativos  em  que  a  reforma 
assentara  inicialmente  e  obrigou  a  um  realinhamento  em  1365,  sem  resolver  o  pro¬ 
blema.  E  o  facto  de  a  situação  ter  sido  pior  nas  províncias  fronteiriças  ilustra  suplemen¬ 
tarmente  o  funcionamento  da  lei  de  Gresham.  As  medidas  repressivas  com  que  o 
monarca  tentou  pôr  cobro  às  falsificações  ficaram  sem  efeitos  práticos,  e  do  mesmo 
modo  ele  teve  de  desistir  da  legislação  que  havia  promulgado  contra  a  entrada  de 
numerário  estranho.  Sem  isso  a  circulação  monetária  não  seria  suficiente  e,  no  final, 
após  mais  de  duas  décadas  de  emissão  de  moeda  revalorizada,  era  a  má  moeda  que  cir¬ 
culava  e  a  boa  continuava  difícil  de  encontrar26.  Nestes  termos,  o  aumento  da  percenta¬ 
gem  de  metal  precioso  usado  no  fabrico  de  uma  dada  moeda,  relativameme  às  outras 
moedas  que  desempenhavam  funções  sociais  equivalentes,  estimulava  paradoxal  mente 
a  circulação  das  peças  cunhadas  com  menor  teor  de  metal  precioso.  As  tentativas  de 
acrescer  o  valor  metálico  do  numerário  resultaram,  na  prática,  na  depreciação  das  moe¬ 
das  em  curso. 

Além  disso,  a  tendência  para  exportar  as  moedas  revalorizadas,  ou  aquelas  cujo 
valor  relativo  aumentava  em  consequência  da  emissão  de  peças  depreciadas,  multipli¬ 
cou  os  efeitos  da  lei  dita  de  Gresham.  Como  praticamente  todos  os  soberanos  condu¬ 
ziam  ao  mesmo  tempo  uma  política  de  depreciação  monetária,  e  como  a  má  moeda 
expulsava  a  boa,  uma  depreciação  drástica  fazia  com  que  a  emissão  anterior  se  tornasse 
relativamente  forte  e  fosse,  por  isso,  exportada  para  áreas  de  soberania  alheias,  onde  se 
corria  o  risco  de  que  estas  moedas  involuntariamente  importadas  começassem  a  correr 
em  competição  com  o  numerário  local,  proporcionalmente  mais  forte.  Assim,  para  que 
nestas  áreas  não  ficassem  anulados  os  efeitos  da  política  de  depreciação,  tomava-se 
necessário  precipitar  uma  nova  cunhagem  de  peças  mais  fracas.  Portanto,  uma  opera¬ 
ção  de  quebra  da  moeda  provocava,  como  reacção  defensiva,  uma  série  de  operações 


26  No  tratado  em  que  expôs  a  sua  doutrina  monetária,  como  vimos  na  n.  4  deste  capítulo,  Nicole 
Oresnie  negou  ao  rei  o  direito  de  alterar  a  moeda  a  seu  bel-prazer  e  tomou  as  mutações  dependentes 
do  consentimento  do  conjunto  da  alta  nobreza.  Além  disso,  na  segunda  versão  da  obra  ele  afirmou 
que  em  circunstâncias  muito  extremas  a  comunidade  aristocrática  podena  ela  mesma,  reunida  em 
assembleia,  decidir  modificações  excepcionais  no  valor  da  moeda,  devendo  a  cunhagem  anterior  ser 
restabelecida  logo  que  a  crise  passasse.  Orexme  considerava  o  valor  metálico  como  a  principal  quali¬ 
dade  do  numerário  e  afirmava  que  o  valor  nominal  devia  corresponder  directamente  ao  valor  metᬠ
lico.  admitindo  apenas  a  variação  regular  consoante  as  oscilações  do  curso  comercial  da  prata  e  do 
ouro.  Quanto  à  política  de  estabilidade  da  moeda  defendida  por  Nicole  Oresme,  ver  E.  Bridrey  ( 1906» 
49-50,  194-195.  206-207.  244-245.  257-258.  269-273.  276-281,  288-292  e  295-298.  Estes  princípios 
de  estabilidade  absoluta  loram  eiectivamente  aplicados  em  França  por  mais  de  duas  décadas  e  meia. 
primeiro  de  maneira  hesitante  e  contraditória  durante  parte  da  regência  do  delfim,  e  depois  de  forma 
coerente  e  sistemática  ao  longo  de  todo  o  seu  reinado  como  Carlos  V,  de  1 364  até  1 380,  prolongando- 
-se  a  mesma  política  até  Março  de  1385.  Quanto  ao  tacto  de  terem  stdo  as  doutrinas  de  Oresme  a  pre¬ 
sidir  à  estratégia  de  estabilidade  monetária  prosseguida  por  aquele  monarca,  ver  kl.,  ibid..  12.  44-45. 
442  e  segs..  459-460.  475  e  segs..  500-513  e  559.  Acerca  do  fracasso  da  reforma  monetária  de  Carlos 
V,  inspirada  por  Nicole  Oresme.  ver  id..  ibid..  493-501.  506  524-525.  536.  5.30,  541.540  e  567-574. 
Consultar  também  R.  Caz.clles  (1982)  545-546.  Aliás,  como  mostra  id.  (1966.)  88  e  segs..  já  numa 
época  anterior  a  política  de  estabilidade  e  revalorização  da  moeda  levara  à  fuga  de  numerário  para  o 
exterior  da  França. 


118 


Forma  I  do  dinheiro 


similares  nas  áreas  vizinhas27,  a  ponto  de  chegarem  a  assinar-se  acordos  entre  vários 
centros  de  emissão,  que  formaram  ligas  monetárias28.  Outra  faceta  deste  processo  foi 
ilustrada  flagrantemente  na  Boémia  do  século  XIV,  onde  se  aplicou  também  uma  polí¬ 
tica  sistemática  de  depreciação  monetária,  apesar  de  se  encontrarem  aí  as  jazidas  de 
prata  mais  férteis  de  toda  a  área  do  regime  senhorial  (ver  o  capítulo  2.d).  Com  efeito,  o 
metal  precioso  minerado  na  Boémia  era  exportado,  para  aproveitar  os  preços  mais  ele¬ 
vados  que  obtinha  nos  outros  reinos,  em  que  se  fazia  sentir  a  falta  de  prata;  e  moeda 
estrangeira  de  baixíssima  qualidade  invadia  o  país.  obrigando  os  soberanos  a  deprecia¬ 
rem  a  cunhagem29.  Não  era  só  no  interior  de  cada  uma  das  regiões,  mas  entre  todas 
elas,  que  se  afirmava  o  predomínio  da  política  de  depreciação. 

Sem  essa  política,  seguida  sistematicamente  pelos  soberanos,  nunca  teria  sido  possí¬ 
vel  preencher  com  peças  cunhadas  a  Forma  I  do  dinheiro.  Num  contexto  histórico  em 
que  a  crescente  veiculação  monetária  das  relações  de  dependência  e  a  insuficiente  pro¬ 
dução  das  novas  minas  de  metal  precioso  levavam  a  procura  de  numerário  pela  globali¬ 
dade  do  regime  senhoria!  a  ser  sempre  superior  à  sua  oferta,  a  tendência  natural  faria 
com  que  as  peças  cunhadas  se  revalorizassem  progressivamente.  Se  tal  sucedesse,  fica¬ 
ria  impossibilitada  a  função  do  dinheiro  na  sua  Forma  I.  que  era  permitir  os  pagamen¬ 
tos  pela  gente  mais  humilde,  afastada  do  acesso  a  moedas  valiosas.  Só  as  quebras  repe¬ 
tidas  da  cunhagem  puderam  inverter  o  que,  sem  isso,  seria  uma  tendência  natural  para  a 
revalorização.  Esta  é.  decerto,  a  principal  explicação  daquelas  decisões  monetárias’0, 
como  aliás  ninguém  parecia  ignorar  na  época2’1.  E  os  historiadores  que  hoje  as  conside- 


27  Observa-se  um  exemplo  deste  processo  na  cidade  de  Meu,  onde  as  mutações  monetárias  deci¬ 
didas  pelos  reis  de  França  nas  últimas  décadas  do  século  XIII  e  nas  primeiras  do  século  seguinte,  e  de 
novo  cem  anos  depois,  obrigaram  a  alterações  da  cunhagem,  consoante  se  lé  em  J.  Schneider  ( 1950) 
258-259.  Creio  ter  acontecido  o  mesmo  na  Noruega,  no  finai  do  período,  parecendo-me  que  J.  A. 
Gade  (1951)  62  interpreta  de  maneira  errada  as  implicações  resultantes  da  circulação  de  numerário 
estrangeiro.  E.  na  Itália,  D.  Herlihy  (1958  b)  63  indica  que  as  peças  de  cada  uma  das  cinco  principais 
oficinas  de  cunhagem  toscanas  circulavam  tão  livremente  no  território  das  outras  que  o  sucedido  a 
uma  tinha  repercussões  sobre  as  demais.  Também  a  longa  disputa  entre  a  Flandres  e  o  Brabante  pela 
obtenção  de  metal  cunhável.  mencionada  por  H.  van  VVerveke  (1949)  1 18.  se  relacionava  certamente 
com  a  quebra  sistemática  de  moeda  prosseguida  pelo  conde  da  Flandres  na  segunda  metade  do  século 
XIV  (pp.  121-124).  embora  aquele  historiador  não  evoque  a  lei  de  Gresham  para  estabelecer  uma 
relação  entre  os  dois  fenómenos.  V.  M.  Godinho  (1981-1983)  I  113  confunde  em  parte  os  mecanis¬ 
mos  deste  processo  ao  afirmar  que  era  a  má  moeda  a  invadir  as  áreas  monetárias  vizinhas. 

2íl  No  final  do  período,  segundo  J.  Day  (1984)  18,  para  contrariar  os  efeitos  das  depreciações 
competitivas  do  numerário  realizavam-se  acordos  monetários  em  que  a  moeda  do  parceiro  comercial 
mais  forte  servia  de  padrão  contabilístico. 

-v  Para  esta  análise  baseio-me  em  F.  Graus  (1951)  446-448.  450  e  452-453.  embora  sejam  um 
tanto  diferentes  as  conclusões  a  que  chega  este  historiador. 

20  Consultar  a  n.  222  do  capítulo  2. 

Segundo  E.  Foumial  (1970)  95.  a  razão  profunda  das  alterações  da  cunhagem  teria  consistido  na 
necessidade  de  adaptai'  o  curso  legal  das  moedas  às  variações  do  curso  comercial  dos  metais  preciosos. 
Ver  no  mesmo  sentido,  a  propósito  da  França,  id.  ( 1967)  277-282.  No  que  diz  respeito  à  Forma  I  do 
dinheiro,  contudo,  tal  adaptação  fez-se  em  sentido  inverso.  Note-se  ainda  que,  se  for  aceitável  a  tese  de 
P.  D.  A.  Harvey  e  de  Peter  Spufíord  mencionada  na  n.  2  deste  capítulo  a  respeito  da  situação  inglesa, 
então  isso  confirmaria  a  relação  entre  o  nível  da  oferta  de  metal  precioso  e  as  mutações  monetárias. 

31  Contrariamente  ao  que  imagina  J.  Favier  (1982)  178.  para  quem  a  opinião  pública  daquela 
época  admitiria  dificilmente  que  só  graças  as  mutações  pudesse  haver  uma  circulação  monetária 


Integrarão  das  e.uu  çâes  ern  géneros  no  quadro  monetário 


119 


ram  prejudiciais  com  o  argumento  de  que  elas  comprometiam  a  estabilidade  da 
moeda-12  estão  a  aplicar  à  Forma  1  do  dinheiro  critérios  que,  como  veremos  (nos  capítu¬ 
los  8  e  10),  só  tinham  razão  de  ser  para  a  Forma  II  ou  para  as  implicações  fiduciárias  da 
Forma  III,  em  esferas  sociais  inteiramente  diferentes.  Nem  se  trata  sequer  de  um  debate 
teórico,  porque  as  consequências  práticas  de  uma  política  de  estabilidade  monetária 
podem  ser  observadas  em  França  desde  Dezembro  de  1360  até  Março  de  1385.  Aquela 
reforma  da  cunhagem  deparou  com  um  péssimo  acolhimento  da  população  e  com  múl¬ 
tiplas  e  continuadas  acções  de  resistência,  suscitando  dificuldades  económicas  tais  que 
foi  grande  o  regozijo  quando  a  coroa  teve  finalmente  de  mudar  de  orientação31.  Foram 
quase  sempre  as  tentativas  de  regresso  a  uma  moeda  fone,  e  não  as  depreciações,  a  pro¬ 
vocar  a  insatisfação  dos  súbditos  e  a  servir  de  pretexto  a  motins  urbanos14.  E,  embora 


abundante,  os  factores  que  exigiam  a  depreciação  do  numerário  não  eram  um  segredo  para  os  contem¬ 
porâneos.  Afirma  E,  Bridrey  (1906)  149-152  que  toda  a  população  reconhecia  a  escassez  do  numerᬠ
rio  e  era  unânime  quanto  ao  remédio,  que  consistia  na  redução  do  peso  de  cada  moeda  e  na  deprecia¬ 
ção  do  seu  conteúdo  metálico.  E,  do  mesmo  modo.  os  soberanos  fundamentavam  a  quebra  da  moeda 
invocando  a  relativa  carência  de  metal  precioso,  como  observa  F.  Graus  (1951)  448.  Neste  contexto, 
convém  recordar  que  no  final  do  terceiro  quartel  do  século  XIII,  a  crer  em  M.  Bompaire  (1987)  13  n. 
9,  o  bispo  de  Montpellier  declarou  que  não  seriam  autorizadas  mutações  enquanto  os  cônsules  da 
cidade  não  declarassem  que  a  massa  monetária  se  tomara  insuficiente.  Aliás,  o  aumento  da  quanti¬ 
dade  de  meios  de  pagamento  em  circulação,  sobretudo  entre  a  gente  humilde,  era  um  motivo  citado 
tão  frequentemente  para  justificar  as  depreciações  monetárias  que,  segundo  indica  M.  Bloch  (1953) 
443-444,  se  converteu  até  numa  fórmula  estereotipada  empregue  pela  chancelaria  da  coroa  de  França. 

32  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  1,12-13.  24.  30-31,  120.  124,  161,  192:  R.  S.  Lopez  (1951)  220-221;  id. 
(1982)  8-9;  P.  Spufford  í  1988  )  290. 

33  E.  Bridrey  (1906)  561  e  segs..  590,  595. 

34  M.  Bloch  (1953)  450,  452-453;  id.  (1954)  73;  R.  Cazelles  (1966)  95-98,  258.  260-261:  id. 
(1982)  531,  536;  A.  De  Maddalena  ( 1982)  506;  B.  Geremek  1 1976)  320;  J.  Piquet  (1939)  152. 

Analisando  a  situação  das  cidades  italianas  entre  os  séculos  XIII  e  XV,  C.  M.  Cipolla  (1948)  129- 
-130,  136,  146  e  148-149  observa  que  as  fases  de  alta  cambial  e  de  depreciação  da  moeda  coincidiram 
com  épocas  de  prosperidade  geral,  e  que  as  fases  de  estabilidade  cambial  e  monetária  acompanharam  a 
depressão  económica.  Segundo  este  historiador,  os  ciclos  longos  de  prosperidade  iniciavam-se  inde¬ 
pendentemente  da  quebra  da  moeda  e  eram  eles  a  suscitar  a  depreciação,  mas  quando  o  processo 
estava  já  em  curso  o  declínio  do  conteúdo  metálico  da  cunhagem  agia  por  sua  vez  como  causa,  favore¬ 
cendo  a  actividade  económica.  Nestas  condições,  a  adopção  de  uma  política  de  revalorização  monetᬠ
ria  poderia  pôr  termo  à  fase  de  prosperidade.  Finalmente,  Cario  M.  Cipolla  admite  que  este  modelo  se 
aplicasse  igualmente  a  outros  países.  Com  efeito,  R.  Cazelles  (1982)  550-551  considera  que  só  numa 
conjuntura  de  recessão  económica,  como  foi  a  segunda  metade  do  século  XIV,  seria  possível  a  prolon¬ 
gada  estabilidade  monetária  imposta  em  França  de  1360  até  1385,  com  a  consequente  redução  do 
volume  de  moeda  em  circulação.  Acerca  deste  problema,  parece-me  que  W.  Kula  ( 1970)  79-80  e  82 
extrai  ilações  erradas  de  um  modelo  gera!  muito  válido,  ao  escrever  que  as  fases  de  baixo  nível  geral 
dos  preços  se  caracterizavam  pela  prosperidade  e  pelos  rendimentos  elevados,  tanto  dos  senhores  como 
dos  camponeses  e  artesãos,  enquanto  uma  alta  brusca  do  nível  geral  dos  preços  denotava  uma  época  de 
crise.  Para  Witold  Kula.  numa  situação  em  que  o  volume  da  colheita  comercializado  pelos  rurais  era 
determinado  pelo  montante  das  prestações  pecuniárias  que  eles  deviam  pagar,  as  variações  no  nível 
dos  preços  limitavam-se  a  provocar  modificações  de  sinal  inverso  na  proporção  em  que  o  produto  se 
repartia  entre  o  mercado,  por  um  lado.  e.  por  outro,  o  autoconsumo.  Ver  a  este  respeito  as  nn.  40,  42  e 
43  deste  capítulo.  Sendo  assim,  a  dimensão  do  sector  comercial  e  a  prosperidade  económica  estavam 
longe  de  ser  termos  equivalentes.  Kula,  porém,  pretende  (p.  80)  que  em  conjuntura  de  baixos  preços  e 
colheitas  abundantes  tanto  os  senhores  como  os  senos  ganhavam  mais  ao  vender  muito  do  que  per¬ 
diam  pelo  facto  de  o  fazerem  a  preços  mais  baixos.  Recordar  a  este  respeito  a  n.  162  do  capítulo  2. 


120 


Forma  !  do  dinheiro 


adiante  (no  capítulo  13.c)  retome  o  problema  com  um  pouco  mais  de  detalhe,  parece- 
-me  possível  afirmar  desde  já  que  só  no  século  XIV,  nos  casos  em  que  a  frequência  das 
mutações  monetárias  se  precipitou  além  do  ritmo  considerado  conveniente,  começaram 
a  ouvir-se  protestos  dos  súbditos  a  respeito  da  quebra  da  moeda  ’5.  Em  geral,  ao  longo 
do  período,  as  fases  de  estabilidade  foram  muito  raras  no  âmbito  da  Forma  1  do 
dinheiro  e  as  mutações  monetárias  constituíram  a  regra  quase  absoluta30. 

Mas.  embora  secundárias,  houve  outras  razões  ainda  para  as  quebras  da  cunhagem, 
umas  decorrentes  das  contradições  internas  da  classe  dominante,  resultantes  as  outras 
de  um  mecanismo  sofisticado  que.  como  hei-de  mostrar  (no  capítulo  1 1).  agravava  a 
exploração  dos  assalariados,  especialmente  no  meio  urbano.  Se  é  certo  que  a  origem 
das  depreciações  monetárias  e  as  suas  principais  condicionantes  se  devem  analisar  no 
âmbito  da  Forma  I  do  dinheiro,  a  distribuição  social  dos  ganhos  e  dos  prejuízos  ocasio¬ 
nados  pelas  mutações  resultava  também  da  evolução  dos  restantes  instrumentos  finan¬ 
ceiros.  e  por  isso  a  compreensão  destes  problemas  exige  a  análise  das  Formas  II  e  111  do 
dinheiro.  Mas  a  Forma  III  só  tardiamente  se  apresentou  em  modalidades  bem  desenvol¬ 
vidas  e  a  Forma  II  apenas  no  século  XIII  se  destacou  com  toda  a  nitidez  da  Forma  i, 
assumindo  um  suporte  próprio.  Afinal,  por  detrás  das  depreciações  cruzavam-se  inte¬ 
resses  muito  mais  complexos  do  que  a  generalidade  dos  autores  gosta  de  admitir37.  Há 
várias  décadas  atrás  um  grande  historiador  lastimou  que  não  conhecêssemos  exacta- 
mente  as  camadas  sociais  e  os  meios  económicos  representados  nos  corpos  de  especia¬ 
listas  que  ajudavam  os  soberanos  a  orientar  a  política  monetária,  pois  só  assim  podería¬ 
mos  entender  os  interesses  em  jogo38.  Mas  esta  perspectiva  não  parece  ler  agradado  à 


35  E.  Bridrey  (1906)  152-153,  162-166. 

Apesar  de  tudo.  especifica  Émile  Bridrey  em  op.  cie.  170.  a  população  preferia  que  a  coroa  ali¬ 
mentasse  os  seus  rendimentos  mediante  as  manipulações  monetárias  do  que  recorresse  à  cobrança  de 
um  imposto  regular.  A  este  respeito  ver  igualmcntc  C.  M.  Cipolla  (  1948)  145. 

56  M.  Bloch  (1953)  454;  id.  11954)  49-50. 

J.  H.  Mundy  (1954)  108-109  pretende  que  em  Toulouse,  nos  séculos  XII  e  XIII,  nem  o  conde  nem 
as  autoridades  urbanas  praticavam  manipulações  ria  cunhagem,  e  parece  não  se  aperceber  do  para¬ 
doxo  em  que  cai  ao  escrever  que,  embora  a  moeda  permanecesse  bastante  estável,  o  seu  poder  dc 
compra  declinara  progressivamente.  Como  poderia  isto  suceder  sem  que  as  autoridades  depreciassem 
o  numerário,  de  maneira  dissimulada  se  não  o  faziam  explicitamente?  Aliás,  referindo-se  à  região  de 
Toulouse.  e  precisamente  durante  aqueles  dois  séculos.  M.  Castaing  ( 1953-1954)  276  refere  as  pre¬ 
cauções  tomadas  nos  contratos  para  evitar  as  consequências  negativas  da  quebra  da  moeda. 

37  Vários  historiadores  contrapõem  certos  grupos  sociais  que  seriam  fundamentalmente  credores, 
em  especial  os  detentores  de  senhorias,  e  aos  quais  conviria  a  estabilidade  monetária,  a  outros  que  se 
caracterizariam  sobretudo  pela  situação  de  devedores,  nomeadamente  os  homens  de  negócios,  e  que  por 
isso  prefeririam  a  depreciação  do  numerário.  Ver.  por  exemplo:  R.  Cazelles  ( 1966)  85-86.  102,  252-254; 
id,  (1982)  530-531,  533-534.  536-538,  540-541;  C.  M.  Cipolla  ( 1962-1963)  4)9-421;  id.  ( 1965)  233- 
-234;  J.  Favier  ( 1982)  179-180;  R.  S.  Lopez  (1951)  222-223.  Consultar  ainda:  R.  de  Rixn  er  ( 1948)  341; 
F.  Graus  referido  por  R.  R,  Betts  (1952)  28.  Mas  estes  especialistas  esquecem-se  de  explicar  de  que 
modo  os  grupos  credores  poderiam  cobrar  exacções  pecuniárias  sem  que  uma  política  de  depreciação 
sistemática  pusesse  as  moedas  ao  alcance  dos  servos.  Além  disso,  quanto  mais  prósperos  fossem  os 
negociantes  tanto  mais  aplicariam  os  seus  lucros  na  aquisição  de  senhorias,  pelo  que  aquele  contraste,  se 
conceptualmente  pode  parecer  nítido,  se  esfumava  na  prática.  Aliás,  nem  sequer  em  termos  abstractos  a 
demarcação  foi  clara,  pois  os  grandes  negociantes  acabaram  por  ser  os  principais  credores  da  coroa. 

38  M.  Bloch  ( 1953)  156-158.440;  id.(1954i  51-53.  55. 


Integração  das  e.xacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


121 


maioria  dos  estudiosos,  e  hoje  o  nosso  estado  de  ignorância  não  se  alterou  substancial- 
mente  . 


b.  Cobrança  das  prestações  em  géneros 

Se  a  quebra  sistemática  da  moeda  era  uma  condição  indispensável  à  veiculação  das 
relações  de  dependência,  essas  depreciações  sucessivas  tinham  como  efeito  uma  pro¬ 
gressiva  subida  dos  preços  dos  produtos  agrícolas.  Alguns  autores  pretendem  aplicar 
nestas  condições  aquela  tautologia  a  que  os  economistas  chamam  equação  de  Fisher.  e 
que  estabelece  que  o  volume  do  dinheiro  multiplicado  pela  sua  velocidade  de  circula¬ 
ção  é  igual  ao  preço  médio  dos  bens  multiplicado  pela  quantidade  total  desses  bens. 
Todavia,  sabemos  (ver  o  capítulo  2.b  e  2.c)  que  para  a  esmagadora  maioria  dos  campo¬ 
neses,  aqueles  que  nem  eram  tão  prósperos  que  conseguissem  aproveitar-se  activa- 
mente  das  condições  do  mercado  nem  tão  miseráveis  que  tivessem  de  sobreviver  ape¬ 
nas  pelo  aluguer  dos  seus  braços,  os  circuitos  monetários  se  limitavam  a  atravessar 
periodicamente  o  seu  quadro  doméstico  e  comunitário,  sem  se  conjugarem  com  ele  em 


Já  Nicole  Oresme  considerara  que  as  mutações  monetárias  eram  especialmente  vantajosas  para 
quem  frequentava  os  conselhos  do  rei  e,  conhecendo  os  segredos  da  política,  podia  proceder  a  especu¬ 
lações.  Entre  os  principais  beneficiários,  ele  mencionou  os  moedeiros  e  os  cambistas,  que  acabariam 
por  ser  os  únicos  a  aproveitar-se  da  situação,  em  detrimento  do  próprio  monarca.  Consultar  a  este  res¬ 
peito  E.  Bridrey  ( 1906)  258-259.  262.  266  e  286. 

A  quebra  da  moeda  oferecia  boas  oportunidades  de  especulação  aos  moedeiros.  escreve  C.  M. 
Cipolla  (1956)  32.  Mas  quem  eram  eles,  na  realidade?  J.  Day  em  Istituto  Intemazionale  di  Storia  Eco¬ 
nômica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  280  indica  que  as  decisões  dos  governos  em 
matéria  monetária  eram  tomadas  depois  de  ouvidas  pessoas  com  conhecimento  prático  da  questão, 
tais  como  mercadores,  cambistas  e  moedeiros:  e  R.  de  Roover  (1953)  56-57  refere  a  presença  de 
representantes  das  grandes  firmas  bancárias  nos  conselhos  dos  soberanos.  Com  efeito,  na  Inglaterra 
do  final  do  século  Xül  e  do  início  do  século  seguinte  os  banqueiros  italianos  que  procediam  a  vulto¬ 
sos  empréstimos  à  coroa  influenciavam  a  orientação  oficial  da  cunhagem,  consoante  esclarece  M. 
Prestwich  (1979)  83-84.  Isto  sucedia  não  obstante  R.  S.  Lopez  (1951)  222-223  pretender  que  a  estra¬ 
tégia  monetária  inglesa,  tal  como  a  do  reino  de  Nápoles,  era  dominada  pela  aristocracia  fundiária. 
Também  C.  M.  Cipolla  ( 1962- 1 963 )  420-42 1  e  ( 1 965)  234  considera  que  na  Inglaterra  os  mercadores 
não  controlavam  a  cunhagem  e  atribui  à  alta  nobreza  da  ilha  o  ascendente  sobre  as  opções  monetárias 
da  coroa.  Até  ao  final  do  século  XII.  na  Flandres  e  no  norte  da  França,  Th.  N.  Bisson  (1979)  162-163 
admite  que  a  direcção  da  cunhagem  se  devia  aos  magnates  laicos  que  exerciam  funções  nas  cortes  dos 
soberanos,  e  não  aos  agentes  administrativos  da  coroa,  que  seriam  assaz  ignorantes  dos  problemas 
monetários.  A  situação  decerto  se  modificou,  porque  M.  Rey  (1965  a)  128- 1 31  afirma  que  em  França, 
na  última  década  do  século  XIV  e  na  primeira  do  século  seguinte,  o  vértice  da  hierarquia  das  oficinas 
de  cunhagem  era  ocupado  pela  Cour  des  Monnaies,  formada  por  oito  pessoas,  todas  elas  provenientes 
do  meio  constituído  pelos  cambistas  mais  importantes  e  reputados.  Como  o  cargo  se  transmitia  no 
interior  das  mesmas  famílias,  é  fácil  calcular  que  estes  funcionários  possuíssem  um  fortíssimo  espírito 
de  corpo.  Na  prática  a  Cour  des  Monnaies  funcionava  independentemente  da  Cour  des  Comptes,  não 
se  efechiando  nenhuma  mutação  da  cunhagem  sem  que  ela  fosse  consultada.  Quanto  à  política  mone¬ 
tária  da  cidade  de  Metz,  a  crer  em  J.  Schneider  (1950)  257,  ela  era  decidida  pelos  banqueiros,  que 
tinham  a  primazia  na  elite  sobre  os  grandes  mercadores.  Mais  genericamente,  nas  cidades  mercantis 
italianas  o  controlo  da  emissão  da  moeda  cabia  aos  negociantes,  asseguram  C.  M.  Cipolla  (1962- 
-1963)  419  e  (1965)  233  e  Roberto  Sabatino  Lopez  em  op.  cif..  222-223. 


122 


Forma  /  do  dinheiro 


mecanismos  económicos  unificados40.  Além  de  termos  em  conta  esta  ressalva  funda¬ 
mental,  devemos  observar  ainda  que  num  dos  termos  da  equação  deparamos  com  um 
volume  pecuniário  repartido  por  três  esferas  distintas,  sem  que  as  Formas  II  e  III  do 
dinheiro  pudessem  executar  as  funções  que  cabiam  à  Forma  I.  Por  outro  lado,  a  veloci¬ 
dade  de  circulação  da  moeda  na  Forma  I  era  inteiramente  condicionada  pelos  prazos  da 
cobrança  dos  tributos  em  numerário.  A  venda  de  produtos  agrícolas  ocorria,  do  lado 
dos  camponeses,  em  função  da  necessidade  de  pagar  as  prestações,  e  eram  elas  que 
determinavam  os  fluxos  e  refluxos  desta  forma  do  dinheiro.  No  outro  termo  da  equa¬ 
ção,  não  era  a  quantidade  global  dos  produtos  que  enfrentava  o  volume  total  de  moeda. 
Em  primeiro  lugar,  como  a  esmagadora  maioria  dos  artigos  fabricados  pelo  artesanato 
urbano  se  destinava  aos  senhores,  tanto  aristocratas  rurais  como  cidadãos,  e  como  este 
tipo  de  bens,  quando  era  vendido  por  grosso,  não  mobilizava  a  Forma  I  do  dinheiro,  os 
seus  preços  obedeciam  a  condicionantes  de  outra  ordem41.  Em  segundo  lugar,  os  cam¬ 
poneses  comercializavam  quase  exclusivamente  os  géneros  agrícolas  destinados  ao 
pagamento  de  prestações,  além  de  venderem  eventualmente  alguns  outros  produtos  nas 
raras  ocasiões  em  que  pretendessem  adquirir  artigos  manufacturados.  As  variações  na 
produção  não  eram  suficientes  para  motivar,  neste  caso,  variações  da  oferta.  E,  por  seu 
tumo.  as  modificações  da  taxa  de  exploração  e  as  oscilações  de  preços  não  se  reflec- 
tiam,  pelo  menos  a  curto  e  médio  prazo,  na  ampliação  ou  contracçào  das  áreas  cultiva¬ 
das  e  do  espaço  aproveitado  dos  incultos,  alterando-se  apenas  a  relação  entre  a  parte  da 
produção  que  se  colocava  no  mercado  para  satisfazer  as  prestações  pecuniárias  e  a 
parte  que  se  destinava  ao  autoconsumo42.  Assim,  os  problemas  decorrentes  da  Forma  I 
do  dinheiro  eram  completamente  determinados  pelas  relações  de  exploração  servis:  o 
volume  de  numerário  em  circulação  entre  a  gente  humilde  decorria  da  extensão  assu¬ 
mida  pela  forma  impessoal  de  dependência;  a  velocidade  dessa  circulação  era  ditada 
pelo  ritmo  da  cobrança  das  prestações;  e  a  quantidade  de  bens  que  entrava  por  esta  via 
na  esfera  mercantil  obedecia  à  taxa  de  exploração.  Numa  situação  em  que  os  valores  da 
velocidade  de  circulação  monetária  e  da  quantidade  de  bens  comercializados  se  inscre¬ 
viam  em  parâmetros  relativamente  rígidos,  o  acréscimo  do  volume  de  peças  cunhadas 


40  W.  Kula  (1970)  23  insiste  num  princípio  metodológico  fundamental  para  a  generalidade  deste 
período,  de  não  avaliar  em  termos  monetários  os  elementos,  tanto  mão-de-obra  como  produtos,  que 
entravam  no  processo  de  produção  ou  dele  saíam  sem  passarem  pelo  mercado.  Quanto  às  restrições 
que  se  podem  formular  a  esta  tese,  ver  neste  capítulo  a  n.  66. 

41  As  variações  do  preço  do  trigo  praticamente  não  afectavam  o  seu  consumo  pela  classe  senho¬ 
rial,  tanto  nobres  como  mercadores,  considera  H.  A.  Miskimin  ( 1963)  24-25;  pelo  contrário,  adianta 
este  especialista,  as  alterações  do  preço  dos  artigos  manufacturados  repercutiam-se  nas  aquisições  da 
classe  senhorial,  que  era  a  principal  consumidora  desse  tipo  de  bens.  mas  não  influenciavam  o  con¬ 
sumo  de  cereais  por  pane  das  massas  camponesas  e  da  arraia-tniúda.  pois,  vivendo  muito  perto  do 
nível  de  subsistência,  os  pobres  gastavam  decerto  quase  todos  os  seus  rendimentos  na  aquisição  de 
cereais.  Porém,  id.  (1969)  90  considera  que  o  empobrecimento  dos  rurais  acabou  por  constituir  uma 
limitação  à  procura  efectiva  de  produtos  manufacturados  e  precipitou  a  crise  urbana  verificada  no 
século  XV.  Para  alguns  exemplos  de  discrepância  entre  o  movimento  dos  preços  dos  géneros  agríco¬ 
las  e  o  dos  preços  dos  produtos  artesanais  ver;  E.  Perroy  ( 1949)  171-172;  J.  Valdeón  Baruque  ( 1976) 
87-88. 

42  Este  mecanismo  é  analisado  por  W.  Kula  ( 1970)  27  e  37. 


Integrarão  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


123 


postas  à  disposição  dos  servos  para  lhes  permitir  o  pagamento  dos  tributos  reflectia-se 
forçosamente  numa  subida  do  preço  dos  géneros  agrícolas.  E  tanto  mais  que,  no  que 
dizia  respeito  aos  bens  colocados  pelos  camponeses  no  mercado,  um  aumento  dos 
preços,  em  vez  de  suscitar,  como  depois  passou  a  suceder,  um  acréscimo  da  produção, 
levava  pelo  contrário  à  redução  da  oferta.  Quando  deparava  com  condições  comerciais 
mais  favoráveis,  a  classe  servil  diminuía  a  porção  da  colheita  posta  à  venda,  pois  para  a 
grande  maioria  dos  rurais  as  transacções  tinham  como  objectivo  primordial,  ou  até 
único,  a  obtenção  do  número  de  moedas  necessário  ao  pagamento  dos  tributos4-1.  Neste 
contexto  os  surtos  inflacionistas,  em  vez  de  suscitarem  um  acréscimo  do  volume  de 
bens  no  mercado,  que  podia  abrandar  ou  interromper  a  subida  de  preços,  enfrentavam  a 
redução  desse  volume,  com  o  consequente  agravamento  das  tensões  altistas. 

Portanto,  como  vemos,  o  monetarismo  e  a  teoria  quantitativa  da  moeda,  que 
enquanto  modelo  explicativo  dos  movimentos  de  preços  não  me  parecem  ter  qualquer 
validade  no  modo  de  produção  capitalista,  são  perfeitamente  adequados  ao  regime 
senhorial44.  Curiosamente,  a  vertente  neoliberal  do  capitalismo  que  se  tomou  hegemó¬ 
nica  nas  últimas  décadas  do  século  XX  só  consegue  pensar  em  termos  pré-capitalistas. 
Todavia,  é  prematuro  aplicar  a  este  período  a  cadeia  de  repercussão  dos  efeitos  infla¬ 
cionários  que  David  Hume  teorizou  na  época  do  mercantilismo.  Num  artigo  publicado 
pela  primeira  vez  em  1752,  Hume  considerou  que,  se  o  aumento  da  quantidade  de 
numerário  em  circulação  ocorresse  no  interior  de  um  país  mantido  em  estado  de  per¬ 
feita  autarcia,  tal  aumento  não  teria  implicações  económicas  reais,  pois  os  preços  das 
mercadorias  seriam  sempre  proporcionais  à  massa  monetária.  Só  no  contexto  do 
comércio  internacional  é  que  surtia  efeitos  o  acréscimo  da  quantidade  de  moeda  em  cir¬ 
culação  num  dado  país,  graças  a  um  desfasamento  temporal  que  Hume  foi  o  primeiro,  e 
talvez  até  agora  o  único,  a  analisar4"'.  O  aumento  do  numerário  importado  por  um  país 


43  ld..  ibid.,  27.  37. 

44  Observa  J.  Day  (1984)  13  que  naquela  época  os  movimentos  de  preços  eram  frequentemente 
percebidos  como  fenómenos  de  curta  duração  provocados  pelas  manipulações  monetárias.  Parece-me 
que  os  coevos  tinham  razão,  e  o  mesmo  deve  julgar  id.  (1984)  12  e  (1994)  87-89  ao  defender  um 
modelo  monetarista  para  este  período  do  regime  senhorial,  afirmando  a  existência  de  uma  estreita  cor¬ 
relação  entre  o  volume  do  numerário  e  o  nível  geral  dos  preços,  de  modo  que  o  aumento  da  oferta  de 
prata  levava  à  subida  dos  preços  e  a  escassez  de  moeda  determinava  a  baixa  dos  preços.  Ver  igual¬ 
mente  H.  G.  Barros  ( 1943-1954)  111  71.  Por  seu  lado.  P.  Spufford  (1984)  365  menciona  o  acréscimo 
da  massa  monetária  e  a  redução  do  conteúdo  argentífero  de  cada  peça  entre  os  motivos  que  ocasiona¬ 
ram  a  inflação  do  século  XIII.  acrescentando-lhes  o  crescimento  demográfico  e  a  ampliação  da  pro¬ 
cura  de  géneros  alimentares.  De  maneira  mais  sintética,  uma  posição  semelhante  é  adoptada  por  B.  H. 
Slicher  van  Bath  (1966  a)  105-106,  que  atribui  a  subida  dos  preços  agrícolas  ao  aumento  da  oferta  de 
prata  e  ao  aumento  da  procura  de  cereais.  Em  sentido  contrário  pronuncia-se  E.  Perroy  (1949)  178. 
pretendendo  que  a  alta  dos  preços  provocada  pelas  quebras  da  moeda  se  manifestaria  só  a  curto  prazo 
e  que,  a  longo  prazo,  o  marasmo  dos  negócios  e  o  entesouramento  suscitariam  uma  elevação  do  valor 
dos  metais  preciosos,  com  o  consequente  declínio  dos  preços. 

45  Comentando  o  artigo  de  David  Hume.  observa  A.  A.  Walters  (1973)  12  que  a  teoria  monetária 
contemporânea  não  tem  analisado  o  desfasamento  existente  entre  o  aumento  da  oferta  de  numerário  e 
a  subida  dos  preços,  de  modo  que  continuam  a  ser  ignorados  os  termos  teóricos  da  divisão  dos  efeitos 
de  um  estímulo  monetário  entre  os  movimentos  do  processo  de  produção  e  os  movimentos  de  preços. 
Avalio  por  aqui  a  falta  de  seriedade  das  correntes  monetaristas  actuais,  que  deixam  sem  explicar  pre¬ 
cisamente  o  que  deveria  constituir  a  sua  justificação. 


124 


Forma  I  do  dinheiro 


concentrava-se  primeiro  num  grupo  muito  reduzido  de  pessoas,  comerciantes  de  longo 
curso  ou  proprietários  de  manufacturas.  Eles  decidiam,  numa  segunda  fase,  ampliar  o 
número  dos  seus  empregados,  sem  que  para  isto  fosse  necessário  elevar  os  salários, 
pois  o  aumento  da  massa  monetária  não  era  ainda  perceptível  para  o  grande  público. 
Por  outras  palavras,  a  soma  total  dos  salários  aumentava,  não  porque  cada  uma  das 
remunerações  subisse,  mas  porque  se  multiplicava  a  quantidade  de  empregados.  Assim, 
numa  terceira  fase,  o  conjunto  dos  trabalhadores  começava  a  adquirir  mais  bens  no 
mercado,  visto  que,  pela  razão  já  enunciada,  o  preço  dos  meios  de  subsistência  se  man¬ 
tivera  inalterado.  Como  os  agricultores  vendiam  um  maior  volume  de  géneros,  embora 
aos  mesmos  preços,  os  seus  rendimentos  aumentavam  e.  por  isso,  numa  quarta  fase, 
ampliavam-se  igualmente  as  suas  aquisições  de  artigos  manufacturados,  os  quais  eram 
também  vendidos  sem  elevação  dos  preços.  Até  aqui  a  melhoria  dos  lucros  globais 
devera-se  ao  acréscimo  dos  bens  vendidos,  e  não  a  qualquer  elevação  do  preço  das  uni¬ 
dades  transaccionadas,  o  que  levou  David  Hume  a  concluir  que  o  aumento  da  massa 
monetária,  à  medida  que  se  difundia  progressivamente  pela  sociedade,  estimulava  pri¬ 
meiro  a  actividade  económica,  antes  de  ter  quaisquer  repercussões  sobre  o  nível  dos 
preços.  A  questão  não  consistia,  então,  na  quantidade  absoluta  da  massa  monetária  em 
circulação,  mas  na  taxa  da  sua  variação.  Por  isso  Hume  considerava  que  o  aumento  da 
quantidade  de  metais  preciosos  só  era  favorável  à  economia  durante  a  fase  transitória 
que  mediava  entre  o  acréscimo  da  massa  monetária  e  a  subida  dos  preços.  A  partir  do 
momento  em  que  o  acréscimo  de  dinheiro  penetrava  igualmente  toda  a  sociedade,  os 
preços  da  totalidade  dos  bens  e  da  força  de  trabalho  elevavam-se,  o  desfasamento  ter¬ 
minava  e  esgotava-se  o  efeito  de  estímulo  sobre  a  actividade  económica.  Finalmente, 
numa  quinta  e  última  fase,  o  aumento  dos  preços  e  dos  salários  levava  as  manufacturas 
daquele  país  a  perderem,  pelo  menos  parcialmente,  as  vantagens  competitivas  que 
haviam  possuído  relativamente  às  manufacturas  estabelecidas  em  nações  menos  evoluí¬ 
das,  onde  os  preços  e  as  remunerações  se  mantinham  num  nível  inferior.  A  produção 
manufactureira  começava  então  a  ser  progressivamente  atraída  para  os  países  em  que 
vigoravam  preços  baixos,  e  este  movimento  inaugurava  aí  o  ciclo  descrito,  com  os  mes¬ 
mos  efeitos46. 


j6D.  Hume  (1 97?  I  25-35. 

É  curioso  verificar  que  o  modelo  de  subida  dos  preços  apresentado  por  Marc  Bloch  tem  em 
comum  com  o  modelo  proposto  por  David  Hume  o  facto  de  ambos  se  iniciarem  no  sector  do  comér¬ 
cio  externo.  Em  (1953)  445-446  e  451  Bloch  chamara  a  atenção  para  a  inexistência  de  estudos  que 
permitissem  saber  se  os  preços  se  elevavam  após  uma  operação  de  quebra  da  cunhagem  e  acrescentara 
que  a  revalorização  da  moeda  levaria  sempre  a  uma  baixa  dos  preços.  No  entanto,  em  ( 1954),  depois 
de  definir  (p.  63)  a  inflação  como  o  aumento  da  relação  entre  a  quantidade  de  meios  de  pagamento  e  a 
massa  metálica  cunhada,  o  notável  historiador  adianta  (p.  66)  que,  nos  casos  de  depreciação  do  con¬ 
teúdo  metálico  da  moeda,  o  aumento  dos  preços  partiria  tias  mercadorias  importadas,  pois  os  comer¬ 
ciantes  estrangeiros  estipulavam  a  quantidade  de  prata  ou  ouro  que  desejavam  receber  de  acordo  com 
o  seu  valor  no  mercado  internacional;  a  alta  dos  preços  propagar-se-ia  então  dessas  mercadorias  para 
as  restantes,  bem  como  para  o  aluguer  da  força  de  trabalho.  Todavia,  parece-me  impossível  adoptar 
um  modelo  deste  tipo  num  período  em  que  a  Forma  1  do  dinheiro  circulava  numa  esfera  independente 
do  comércio  de  longo  curso. 


/ iitcçj Vi,vo  das  e\üi.'ço€S  í77 1  íil  fítros  tio  c/ndiho  wumciáno 


125 


Neste  modelo  o  espaço  mercantil  estava  já  completamente  unificado,  pelo  que  dei¬ 
xara  de  haver  razão  para  atribuir  a  cada  uma  das  formas  do  dinheiro  esferas  de  actuação 
distintas.  Por  isso  mesmo  o  sector  comercial  da  economia  tendia  a  ampliar-se.  Aliás, 
David  Hume  observou  que,  quanto  mais  vasto  fosse  o  sector  aberto  ao  mercado  e 
quanto  mais  crescesse  a  produção,  tanto  maior  seria  a  quantidade  de  bens  que  defronta¬ 
ria  uma  dada  massa  monetária  e,  portanto,  os  preços  teriam  tendência  a  baixar.  Foi  esta 
a  razão,  adiantou  Hume.  que  permitiu  à  Europa  aumentar  o  volume  de  numerário  em 
circulação  a  uma  taxa  muito  superior  àquela  que  se  registou  para  a  subida  dos  preços47. 
Nestes  termos,  Hume  atribuiu  naturalmente  ao  dinheiro  a  função  de  veicular  as  trocas 
de  bens  e  de  permitir  o  pagamento  das  remunerações,  descurando  o  modelo  de  circula¬ 
ção  vigente  no  período  anterior  ao  mercantilismo,  em  que  a  pequena  moeda  servia, 
numa  das  extremidades  do  ciclo,  para  a  compra  e  venda  da  quantidade  de  géneros  agrᬠ
rios  requerida  pelas  exacções  em  numerário,  de  maneira  a  que.  na  extremidade  oposta, 
pudesse  ser  usada  para  o  pagamento  desses  tributos  e  impostos.  No  século  XV1I1  o 
fisco  dos  soberanos  e  as  exacções  dos  grandes  proprietários  fundiários  estavam  já  sufi¬ 
cientemente  entrelaçados  com  as  operações  económicas  correntes  para  não  aparecerem 
nos  circuitos  pecuniários  como  uma  instância  própria,  defrontando  a  relativa  autonomia 
da  instância  comercial.  Mas  anteriormente,  como  recordámos  há  pouco,  as  subidas  de 
preços  levavam  os  servos  a  reduzir  a  oferta  mercantil,  pois  bastava-lhes  vender  menos 
para  obter  o  numerário  requerido  petas  exacções.  E  como  a  grande  parte  da  força  de 
trabalho  não  obedecia  ao  assalariamento.  não  dispondo  portanto  da  mobilidade  que  tal 
sistema  pressupõe,  a  oferta  senhorial  de  géneros  agrários  caracterizava-se  por  um  ele¬ 
vado  grau  de  rigidez  relativamente  às  subidas  de  preços,  já  que  os  senhores  não  podiam 
mobilizar  rapidamente  uma  mão-de-obra  mais  numerosa48.  Contrariamente  ao  que  veio 
a  suceder  na  época  do  mercantilismo,  o  acréscimo  de  dinheiro  em  circulação  não 
desencadeava  a  curto  prazo  um  movimento  de  ampliação  do  emprego  e  de  aumento  das 
vendas  e  da  produção.  Neste  contexto,  o  modelo  proposto  por  David  Hume  tem  o  inte¬ 
resse  suplementar  de  nos  facultar,  por  contraste,  uma  ideia  muito  mais  exacta  do  meca¬ 
nismo  dos  preços  agrícolas  no  período  anterior  ao  século  XV. 

Desde  já  nos  apercebemos  de  um  aparente  paradoxo,  irresolúvel  para  numerosos 
historiadores.  A  depreciação  repetida  da  cunhagem,  provocando  a  alta  dos  preços  agrí¬ 
colas.  levava  à  redução  do  valor  real  dos  tributos  pagos  em  quantias  fixas  de 
numerário49.  Assim,  a  mesma  medida  que  servia  aos  senhores  para  ampliar  os  circuitos 


47  D.  Hume  (1973)  32-33. 

48  W.  Kula  (1970)  37,  80-81. 

49  Th.  N.  Bisson  (1979)  196  parece  admitir  que  a  depreciação  da  cunhagem  deixou  de  ter  reper¬ 
cussões  económicas  reais  a  partir  do  momento  em  que  o  público  aceitou  o  carácter  fiduciário  das 
peças  em  circulação.  O  problema  que  aqui  considero,  porém,  não  resulta  da  relação  entre  o  valor 
nominal  das  moedas  e  o  valor  do  seu  conteúdo  metálico,  mas  da  relação  entre  qualquer  destes  valores 
e  o  nível  de  preços  dos  bens.  A  subida  dos  preços  agrícolas  não  se  verificou  sõ  em  termos  do  valor 
intrínseco  das  moedas,  mas  igualmente  do  seu  valor  facial,  peio  que  a  consideração  da  moeda  em  fun¬ 
ção  do  seu  valor  fiduciário  não  resolvia  o  problema.  Por  seu  lado,  W.  Kula  (1970)  92  escreve  que  o 
importante  não  era  o  poder  de  compra  da  moeda,  mas  o  poder  de  compra  dos  artigos  vendidos  relati¬ 
vamente  aos  adquiridos.  Não  creio  que  neste  período  a  relação  se  pudesse  estabelecer  de  maneira 


126 


Forma  1  do  dinheiro 


monetários  e  estreitar  a  sujeição  da  classe  servil  parecia  impedi-los  de  beneficiar  deste 
agravamento  da  dependência  e  ocasionaria,  afinal,  a  diminuição  da  taxa  de  explora¬ 
ção50. 

Pode  admitir-se,  preliminarmente,  que  sendo  os  maiores  detentores  do  poder  impes¬ 
soal  quem  cunhava  a  moeda,  ou  quem  influía  directamente  na  política  monetária,  e 
sendo  eles  também  quem  dispunha  da  possibilidade  de  lançar  toda  a  nova  gama  de 
exacções,  muitíssimo  mais  rentáveis  do  que  as  prestações  cobradas  no  quadro  das 
senhorias  tradicionais,  as  quebras  de  moeda  tivessem  sido  usadas  pela  alta  aristocracia 
para  deteriorar  a  situação  das  camadas  senhoriais  inferiores,  que  se  limitavam  à  forma 
pessoal  do  bannum.  Os  rendimentos  decorrentes  da  senhoria  impessoal  permitiriam  aos 
magnates  compensar  o  declínio  dos  tributos  de  carácter  pessoal51.  No  contexto  urbano 
este  tipo  de  fricções  tomava  uma  forma  diferente,  expressando-se  através  da  rivalidade 
com  que  se  defrontavam  os  novos  ricos  e  as  grandes  famílias  tradicionais.  O  controlo 
da  política  monetária,  conjugado  com  a  administração  dos  impostos  e  dos  preços  nos 
mercados  da  cidade,  permitia  que  a  facção  no  poder  arruinasse,  ou  pelo  menos  colo¬ 
casse  em  situação  económica  difícil,  os  estratos  da  elite  que  lhe  eram  adversos,  recor¬ 
rendo-se  à  depreciação  e  à  inflação,  ou  pelo  contrário  à  estabilidade  da  cunhagem,  con¬ 
soante  eram  hegemónicas  as  ambições  de  origem  popular  ou  os  interesses  conservado¬ 
res'’2.  Sob  este  ponto  de  vista  a  depreciação  monetária  corresponderia,  tanto  na  socie¬ 
dade  rural  como  na  urbana,  a  uma  deslocação  de  fortunas  no  interior  da  classe  domi¬ 
nante,  a  um  verdadeiro  confisco  de  rendimentos  que  um  estrato  praticava  sobre  outro53. 


directa.  Para  a  classe  servil  era  fundamental  a  comparação  entre  o  preço  dos  bens  vendidos  e  o  mon¬ 
tante  das  prestações  pecuniárias,  enquanto  para  a  classe  senhorial  os  termos  relativos  eram  o  montante 
das  exacções  em  moeda  e  os  preços  de  compra  dos  bens. 

50  Vários  historiadores,  e  alguns  entre  os  mais  mereddamente  reputados,  sustentam  que  a  quebra 
da  moeda,  com  a  subida  dos  preços  agrícolas,  levara  à  redução  da  taxa  de  exploração:  M  Bloch 
(1934)  386;  id.  (1953)  449;  id.  (1954)  69;  id.  (1960-1961)  I  123-125;  id.  (1967)  105.  108-109:  M. 
Bompaire  (1987)  27:  F.  L.  Carsten  (1954)  107-108;  A.  Castro  ( 1964-1979)  X  63;  R.  Cazelles  (1966) 
266;  id.  (1982)  533;  G.  Duby  (1953)  477.  506.  512-513;  id.  (1962)  471-472,  528-529,  596-597;  R. 
Fossier  (org.  1974)  164;  Ch.  Higounet  (org.  1971 )  228;  R.  Latouche  (1944)  218;  Ch.-E.  Perrin  (1935) 
656,  659;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  365.  Ver  também:  Ch.  Dyer  (1980)  99;  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  etc. 
(1969)  329.  Parece  ser  semelhante  a  posição  de  outros  autores,  ao  escreverem  que  as  camadas  sociais 
que  viviam  de  rendimentos  rurais  pagos  em  quantias  fixas  de  moeda  estavam  interessadas  na  estabili¬ 
dade  da  cunhagem:  Th.  N.  Bisson  (1979)  159:  H  A.  Miskimin  (1963)  45;  J.  Piquet  ( 1939)  152.  A  este 
respeito  ver  ainda  a  n.  37  deste  capítulo. 

Referindo-se  à  situação  inglesa.  P.  D.  A.  Harvey  ( 1973)  19-23  pretende  que  a  inflação  do  século 
XIII,  com  o  consequente  declínio  do  valor  das  prestações  em  numerário,  beneficiou  muito  uma  parte 
dos  caseiros,  embora  tivesse  prejudicado  a  parte  restante,  que  viu  acrescidos  os  seus  serviços  de  traba¬ 
lho. 

51  G.  Duby  (1953)  513-514;  id.  ( 1962)  489;  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  6-7.  130. 

52  D.  Herlihy  ( 1958  b)  58  e  segs..  75  e  segs.,  112-1 14  e  126  analisa  nesta  perspectiva  as  diferentes 
orientações  que  os  partidos  rivais  impuseram  à  cunhagem  em  Pisa  e  nas  outras  cidades  toscanas 
durante  a  segunda  metade  do  século  XIII  e  o  começo  do  século  seguinte. 

53  Pode  ler-se  nesta  perspectiva  A.  H.  O.  Marques  (1965)  285,  para  quem  a  política  de  grande 
depreciação  monetária  seguida  em  Portugal  por  João  I  beneficiara  os  interesses  dos  grupos  sociais  que 
tinham  apoiado  a  implantação  da  nova  dinastia  e  prejudicara  os  estratos  tradicionais,  que  haviam 
tomado  uma  posição  contrária  durante  a  guerra  civil  Ver  no  mesmo  sentido  V.  M.  Godinho  ( 1981- 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


127 


E  talvez  esta  maneira  de  abordar  o  problema  não  seja  inteiramente  despropositada.  Mas 
os  mecanismos  envolvidos  na  quebra  da  moeda  foram  muito  mais  complexos,  susci¬ 
tando  em  grande  medida  resultados  contrários  aos  previsíveis. 

Antes  de  mais,  convém  considerar  um  certo  tipo  de  recursos  que  permitiam  opor-se 
ao  desfasamento  crescente  entre  o  valor  nominal  da  moeda  e  o  valor  da  sua  composição 
metálica,  sem  ser  para  isso  necessário  abandonar  a  esfera  monetária.  Frequentemente 
estipulava-se  que  os  pagamentos  se  efectuariam  consoante  o  valor  intrínseco  das  peças 
em  circulação  no  momento  da  assinatura  dos  contratos.  Não  era  então  suficiente  indicar 
as  somas  devidas,  passando  a  mencionar-se  também  um  dado  meio  concreto  de  paga¬ 
mento'’4.  Cláusulas  deste  género  tanto  podiam  prever  a  entrega  de  numerário  exclusiva¬ 
mente  emitido  em  certa  série  de  uma  cunhagem55,  como  de  moedas  cujo  conteúdo  em 
metal  precioso  fosse  equivalente  às  estipuladas56,  ou  ainda  do  peso  em  metal  precioso, 
tanto  em  lingotes57  como  mediante  a  pesagem  das  próprias  moedas  e  a  avaliação  do  seu 


-1983)  I  1 17-122.  No  entanto,  parece-me  desprovida  de  qualquer  fundamento  a  tese  de  R.  Cazelies 
(1966)  266-267,  276-277  c  (1982)  533-534,  segundo  o  qual  a  monarquia  francesa,  sob  os  últimos 
Capetos  e  os  primeiros  Valois.  teria  usado  os  efeitos  das  mutações  monetárias  para  transformar  paula¬ 
tinamente  a  ordem  social  em  detrimento  da  aristocracia  e  em  exclusivo  benefício  da  gente  humilde. 

54  Procurando  obrigar  a  população  a  aceitar  as  sucessivas  emissões  monetárias  consoante  o  seu 
valor  facial,  o  rei  da  Sicília  promulgou  na  primeira  metade  do  século  XIII  uma  legislação  repressiva 
que  proibia  a  pesagem  das  moedas  e  a  avaliação  do  seu  conteúdo  metálico,  como  informa  J.  M. 
Powell  ( 1962)  509-510.  Também  em  França  M  Bloch  ( 1960- 1961 )  1  123-125  afirma  que  os  direitos 
senhoriais  não  eram  estipulados  de  acordo  com  a  composição  metálica  do  numerário,  mas  consoante 
o  seu  valor  nominal.  Todavia,  segundo  id.  (1934)  385  a  situação  seria  mais  complexa,  e  se  a  legisla¬ 
ção  emanada  da  coroa  foi  durante  muito  tempo  contrária  às  cláusulas  de  garantia  e,  por  conseguinte, 
foi  favorável  aos  devedores,  já  os  tribunais  tomaram  uma  posição  oposta,  beneficiando  portanto  os 
credores.  Como  sempre  nestes  casos,  parece-me  que  se  deve  levar  em  conta  não  o  texto  da  lei,  mas  o 
resultado  da  sua  aplicação  prática,  e  R.  Cazelies  (1966)  100-101  e  254  assegura  que  o  governo  dos 
reis  de  França  era  incapaz  de  impedir  que  os  particulares  especificassem  as  obrigações  em  função  do 
conteúdo  metálico  das  moedas.  Tanto  assim  que  M.  Bompaire  (1987)  22  e  M.  Castaing  (1953-1954) 
276  consideram  habitual  a  introdução  de  cláusulas  de  garantia  nos  contratos.  Veja-se  no  mesmo  sen¬ 
tido  J.  Favier  (1982)  183-184.  Aliás,  depois  de  observar  que  os  soberanos  corriam  o  risco  de  que 
ficasse  posta  em  causa  a  sua  autoridade  nas  questões  monetárias  se  permitissem  aos  particulares  a 
adopção  de  sistemas  de  obrigações  e  de  pagamentos  baseados  no  valor  metálico  das  peças  cunhadas  e 
que  por  isso  estava  proibido  o  recurso  a  este  tipo  de  disposições  nos  contratos  escritos,  Jean  Favier  em 
op.  cit..  183  esclarece  que  a  própria  prática  dos  funcionários  da  coroa  se  opunha  às  decisões  governa¬ 
mentais  e  que  eles  conferiam  sistematicamente  o  valor  intrínseco  das  moedas  que  recebiam.  Além 
disso,  a  crer  em  P.  Spufford  em  Istituto  Intemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli 
Bagnoli  (org.  1982)  647,  na  Flandres  e  na  Inglaterra,  durante  o  século  Xll.  teriam  sido  os  próprios 
governantes  a  sancionar  oficialmente  aquele  tipo  de  cláusulas,  exigindo  que  a  moeda  cobrada  pelo 
fisco  fosse  pesada  e  sujeita  à  avaliação  do  seu  conteúdo  metálico.  Finalmente,  é  elucidativo  verificar 
que  num  documento  dos  meados  do  século  XII.  mencionado  por  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  147,  os  autores 
do  movimento  comunal  de  Saint-Quentin.  na  Picardia,  estabeleceram  que  qualquer  tipo  de  renda 
devido  a  um  senhor  fosse  pago  no  numerário  corrente,  sem  que  o  senhor  pudesse  exigir  a  mesma 
soma  em  moeda  com  teor  metálico  superior 

55  Th.  N.  Bisson  (1979)  41,  83,  124,  192;  R.  de  Roover  ( 1948)  106;  E.  Foumial  <  1963)  584,  591  e 
segs.;  id.  (1967)  382;  V.  M.  Godinho  (1981-1983)  I  1 19. 

%  C.  B.  Bouchard  (1987)  222;  M.  Castaing-Sicard  (1961)  77,  79;  R.  de  Roover  (1948)  106;  E. 
Foumial  (1963)  584-588;  id.  (1967)  384. 

57  Th.  N.  Bisson  (1979)  23,  63;  M.  Bompaire  (1987)  22;  M.  Castaing-Sicard  (1961)  65;  E.  Four- 
nial  1 1963)  588-589;  id.  (1967)  384-385,  J.  A.  Gade  ( 1951)  61. 


128 


Forma  I  do  dinheiro 


teor58.  Este  tipo  de  soluções,  porém,  ocorria  na  maior  parte  dos  casos  em  operações  de 
crédito,  ou  envolvendo  aspectos  de  crédito.  Além  disso,  dizia  sobretudo  respeito  ao 
pagamento  de  somas  relativamente  consideráveis,  eíectuado  em  peças  de  valor  bastante 
elevado,  alheias  à  Forma  I  do  dinheiro.  Mas,  acima  de  tudo.  o  problema  que  estou 
agora  a  analisar  agravou-se  pelo  facto  de  a  curva  de  preços  dos  produtos  agrícolas  se 
ter  tomado  superior  à  curva  do  preço  comercial  da  prata,  ou  seja.  aqueles  preços  passa¬ 
ram  a  subir  mesmo  em  relação  ao  valor  atribuído  ao  conteúdo  metálico  do  numerário. 
Assim,  as  tentativas  de  indexação  dos  pagamentos  a  um  dado  peso  de  metal  precioso 
surtiam  pouco  efeito  nas  relações  de  exploração,  em  que  se  tratava  de  comparar  a  evo¬ 
lução  da  Forma  1  do  dinheiro  com  a  evolução  dos  preços  mrais.  As  dificuldades  susci¬ 
tadas  à  classe  dominante  pelo  declínio  do  valor  relativo  dos  tributos  monetários  foram 
fundamentalmente  resolvidas  de  outras  maneiras. 

Por  um  lado.  os  senhores  esforçavam-se  por  introduzir  novas  exacções  mesmo  no 
âmbito  das  senhorias  pessoais  e  por  cobrar  mais  rigorosamente  as  que  estavam  já  em 
vigor59.  Por  outro  lado,  procuravam  também  reduzir  os  prazos  dos  arrendamentos, 
adaptando-os  ao  ciclo  de  rotação  das  culturas,  e  estipulavam  um  aumento  das  presta¬ 
ções  pecuniárias  de  cada  vez  que  se  refazia  o  contrato60.  Mas  não  se  evitavam  assim 
completamente  as  consequências  da  depreciação,  que  ficavam  apenas  minoradas, 
abrandando-se  o  seu  ritmo.  A  classe  dominante  recorreu  a  um  antídoto  muito  mais 
eficaz61. 

Para  entendermos  o  seu  funcionamento  prático  devemos  tomar  em  consideração  os 
processos  que  permitiam  passar  da  cobrança  em  moeda  para  a  cobrança  em  géneros,  e 


5*  Th.  N.  Bisson  (1979)  24.  41:  R.  de  Roover  1 1948)  230;  J.  Favier  ( 1982)  183;  L.  Genicot  <1943- 
-1995)1  263-264. 

59  R.  H.  Hilton  (1952-1954)  84-85;  E.  A.  Kosminsky  (1956)  327.  345  e  segs.:  R.  Latouche  (1944) 
219-221;  R.  Lennard  (1959)  182;  Ch.-E.  Perrin  (1935)  656-659;  M.  M.  Postan  (1966)  552-553:  J. 
Rutkowski  <  1966)  503. 

No  Maine,  já  no  século  XV.  é  curioso  observar  que  por  vezes,  no  conjunto  de  prestações  que  um 
caseiro  devia  pagar  pela  sua  parcela,  o  velho  tributo  fixo  continuava  a  ser  estipulado  em  moeda 
antiga,  a  qual  sobrevivia  enquanto  dinheiro  contabilístico,  e  o  novo  tributo,  mais  de  vinte  ou  trinta 
vezes  superior  ao  outro,  era  estipulado  em  moeda  corrente.  Ver  a  este  respeito  R.  Latouche  (1944) 
221-223. 

6(1  M.  Bouard  (org.  1970)  161;  G.  Duby  (1962)  475-476,  497-498.  519-524;  G.  Fourquin  ( 1964) 
273;  F.  L.  Ganshof  et  al.  (1966)  325;  Ch.-E.  Pernn  ( 1951-1955)  6-7:  P.  Spufford  (1984)  366. 

Na  Flandres.  mesmo  apesar  da  enorme  inflação  ocorrida  na  segunda  metade  do  século  XIV.  D. 
Nicholas  (1971)  302  esclarece  que  os  cidadãos  detentores  de  senhorias  não  aumentavam  sensivel¬ 
mente  os  montantes  das  exacções  aquando  da  negociação  de  novos  contratos  de  arrendamento;  talvez 
isto  se  devesse  (pp.  302-303)  ao  facto  de  a  depressão  agrícola  e  a  crise  demográfica  terem  tomado 
difícil  a  obtenção  de  caseiros.  Por  seu  lado.  C.  G.  Reed  et  al.  ( 1973)  135-137  afirmam  que  uma  rene¬ 
gociação  anual  dos  arrendamentos  era  contrária  à  tradição  jurídica  inglesa.  Todavia,  a  história  é  feita 
igualmente  de  rupturas,  pelo  que  se  deveria  explicar  a  razão  que  levou  esta  tradição  a  manter-se.  E.  de 
qualquer  modo.  leio  em  R.  Lennard  ( 1959)  182  que  na  Inglaterra  do  século  XII  os  contratos  autoriza¬ 
vam  com  certa  frequência  um  aumento  das  rendas  alguns  anos  depois  de  iniciado  o  arrendamento. 
Havia  várias  formas  de  chegar  ao  mesmo  resultado. 

61  P.  Spufford  ( 1984)  365  e  367  afirma  que  os  senhores  foram  sempre  capazes  de  arranjar  antído¬ 
tos  para  o  declínio  do  valor  real  das  prestações  monetárias,  embora  em  (1988)  290  pareça  defender 
uma  posição  oposta. 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


129 


inversamente62.  Foi  mediante  estes  processos  que  a  classe  senhorial  beneficiou  global¬ 
mente  com  a  quebra  da  moeda,  ao  mesmo  tempo  que  camadas  aristocráticas  específicas 
evitavam  ser  prejudicadas  pela  perda  de  valor  real  do  numerário  depreciado63,  de 
maneira  que  no  final  do  período  as  prestações  em  produtos  agrícolas  eram  muito  mais 
frequentes  do  que  se  poderia  julgar  em  função  da  difusão  dos  vínculos  impessoais64. 

A  partir  do  momento  em  que  o  uso  da  moeda  como  dinheiro  ficou  difundido,  os 
senhores  procuraram  reservar-se  o  direito  de  exigir  aos  seus  caseiros  os  tributos  em 
numerário  ou  em  géneros,  consoante  as  cotações  e  os  preços  relativos.  Nas  condições 
de  uma  economia  em  que  as  funções  pecuniárias  eram  plenamente  preenchidas  pela 
moeda,  só  quem  estava  interessado  em  dados  géneros,  para  consumo  directo  ou  para 
comercialização,  é  que  os  aceitava  em  pagamento63.  Isto  significa  que  tais  artigos  fun¬ 
cionavam  apenas  como  géneros,  e  não  como  dinheiro-géneros.  Mesmo  que  não  apare¬ 
cesse  materialmente,  a  moeda  não  era  aqui  substituída  pelos  géneros  na  sua  função 
pecuniária  e  mantinha-se  subjacente.  Em  vez  de  indicar  uma  qualquer  redução  da 
importância  das  operações  monetárias,  este  recrudescimento  das  exacções  em  géneros 
explica-se  mediante  a  supremacia  adquirida  pela  moeda66. 


ft-  Quem  recebia  o  pagamento  tinha  o  direito  de  escolher  se  ele  se  efectuaria  em  cereal  ou  em 
moeda,  afirma  L.  Genicot  ( 1943-1995)  I  267  acerca  do  Namurois.  A  propósito  do  sucedido  num  con¬ 
junto  senhorial  do  Delfmado  durante  o  primeiro  terço  do  século  XIV,  J.  Bichot  (1984)  92  observa 
que.  assim  como  as  prestações  pecuniárias  podiam  passar  a  ser  cobradas  em  géneros,  também  sucedia 
que  os  tributos  estabelecidos  em  géneros  fossem  efectivamente  pagos  em  moeda.  Do  mesmo  modo, 
em  Portugal,  no  termo  do  período,  V.  M.  Godinho  (1981-1983)  I  119-120  indica  que.  embora  uma 
grande  parte  das  prestações  estivesse  fixada  em  géneros,  podia  ser  cumprida  em  numerário. 

É  curioso  -  e  inexplicável  -  que  nenhuma  das  comunicações  apresentadas  em  Istituto  Intemazio- 
nale  di  Storia  Economica  «F.  Datini».  V,  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  acerca  dos  efeitos  práticos  das 
mutações  monetárias  refira  a  possibilidade  de  as  prestações  passarem  a  ser  cobradas  em  géneros.  E  a 
comunicação  de  Liubov  Alexandrovna  Kotelnikova,  que  trata  especificamente  das  prestações  em 
géneros,  não  relaciona  esta  questão  com  a  quebra  da  moeda. 

63  São  bastante  numerosos  os  autores  a  escrever  que  os  senhores  evitavam  os  inconvenientes  da 
inflação,  com  a  consequente  depreciação  monetária,  mediante  a  cobrança  dos  tributos  em  géneros:  J. 
Bichot  ( 1984)  100;  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  63;  E.  Cristiani  (1962)  152-154;  A.  Déléage  (1941)  528;  L. 
Genicot  (1943-1995)  1  264-268.  303-304;  id.  (org.  1973)  152;  id.  (1990)  49;  Ph.  Jones  (1966  b)  410; 
id.  (1968)  197-198,  217;  R.  S.  Lopez  < 1961  b)  86;  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  6-7;  E.  Perroy  (1949) 
169;  E.  Sestan  em  J.  Plesner  ( 1979)  15-16;  P.  Spufford  (1984)  366;  H.  van  Werveke  ( 1931 )  435;  R. 
G.Wittl  197 1)975. 

Referindo-se  ao  reino  de  Castela  durante  a  primeira  metade  do  século  XIV,  J.  Valdeón  Baruque 
(1976)  57  pretende  que  o  desfasamento  entre,  por  um  lado,  o  valor  fixo  das  prestações  monetárias  e, 
por  outro,  o  aumento  contínuo  dos  preços  dos  artigos  manufacturados  que  os  senhores  deviam  adqui¬ 
rir  não  era  colmatado  pela  venda  dos  géneros  cobrados  nas  exacções,  devido  a  uma  relativa  depressão 
do  preço  dos  produtos  agrícolas. 

64  Ch.  Parain  (1971)  29  observa  que  a  articulação  destas  duas  tendências  contraditórias,  a 
cobrança  das  prestações  em  dinheiro-moeda  e  a  sua  cobrança  em  géneros  para  combater  a  inflação 
monetária,  explica  a  complexidade  das  transformações  e  o  ritmo  lento  em  que  se  operaram.  Consultar 
ainda:  E.  Cristiani  ( 1962)  152-154;  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  etc.  (1969)  329-330;  L.  Genicot  ( 1966  b) 
709-710;  D.  Herlihy  (1959)  61:  P.  J.  Jones  ( 1954-1955)  27;  L.  A.  Kotelnikova  (1968)  611-613.  616: 
id.  (1975)  54.  58;  id.  (1982)  851;  R.  Rinaldi  (1987)  191-192;  R.  G.  Witt  (1971)  971.  A  Inglaterra 
constituiu  uma  excepção  a  este  respeito,  como  se  vê  pelas  nn.  39,  77  e  78  do  capítulo  2. 

65  H.  van  Werveke  ( 1932)  467. 

66  Numa  notável  comunicação,  baseada  em  documentação  relativa  a  uma  castelania  do  Delfinado 


130 


Forniu  I  do  dinheiro 


Na  maior  parte  das  regiões  a  subida  dos  preços  agrícolas  foi  particularmente  sensí¬ 
vel  no  século  XIII  e  ainda  durante  o  começo  do  século  seguinte6',  enquanto  não 


no  primeiro  terço  do  século  XIV.  J.  Bichot  ( 1984)  90,  95-96  e  98  mostra  que  a  cobrança  de  tributos 
em  géneros,  em  vez  de  se  situar  à  margem  da  economia  pecuniária,  inscreveu-se  num  contexto  de 
ampliação  dos  movimentos  da  moeda.  E  este  autor  acrescenta  que.  correspondendo  a  monetarização  a 
uma  evolução  dos  comportamentos,  já  naquela  época  a  noção  de  fenómeno  monetário  nào  podia  limi¬ 
tar-se  ao  mero  uso  de  peças  cunhadas.  De  maneira  não  menos  incisiva,  escreve  M.  Aymard  ( 1982) 
559  que  o  papel  da  moeda  é  «infinitamente  mais  vasto  do  que  a  circulação  efectiva  das  espécies  metᬠ
licas;  mesmo  ausente  materialmente,  ela  domina  de  facto  o  essencial  das  actividades  económicas  e 
das  relações  sociais».  Nestas  condições  reduz-se  a  validade  da  tese  formulada  por  W.  Kula  (1970)  27, 
de  que  a  taxa  de  exploração  não  se  deve  classificar  em  termos  monetários  quando  as  prestações  eram 
cumpridas  unicamente  em  géneros  e  em  serviços  de  trabalho.  Esta  afirmação  deixa  de  ser  correcta 
numa  situação  em  que  os  próprios  tributos  em  géneros  eram  originariamente  avaliados  num  quadro 
pecuniário. 

67  A  alta  dos  preços  agrícolas  foi  muito  acentuada  em  todas  as  regiões  no  século  XIII:  G.  Duby 
( 1962)  495;  Ch.  Parain  (1971)  29;  P.  Spufford  (1984)  365.  Esta  subida  de  preços  prosseguiu  generaliza¬ 
damente  no  começo  do  século  XIV:  G.  Duby  (1962)  471.  Também  M.  Mollat  et  al.  (1970)  276  confir¬ 
mam  o  aumento  dos  preços  cerealíferos  durante  a  expansão  económica  do  século  XIII  e  das  primeiras 
décadas  do  século  XIV,  até  que  a  crise  levou  à  estagnação  ou  mesmo  à  queda  dos  preços.  A  cronologia 
é  diferente  para  B.  H.  Slicher  van  Bath  (1966  a)  105-106,  admitindo  que  a  fase  de  subida  dos  preços 
durou  desde  os  meados  do  século  XII  até  ao  termo  do  século  seguinte,  e  que  todo  o  século  XIV  se  inte¬ 
grou  já  numa  época  de  recessão.  Referindo-se  à  França.  E.  Foumíal  ( 1967)  282  considera  que  ao  longo 
do  século  XIII  ocorreu  um  aumento  lento  mas  contínuo  dos  preços,  que  se  precipitou  a  partir  dos  mea¬ 
dos  da  penúltima  década  desse  século.  Para  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  276  o  declínio  dos  preços  começou 
na  região  de  Paris  na  década  de  1320.  Com  efeito,  E.  Perroy  (1949)  171-172  menciona  um  crescimento 
vertiginoso  dos  preços  agrícolas  na  segunda  metade  da  década  de  1320  e  a  sua  queda  de  então  em 
diante.  Na  Baixa  Lorena  de  expressão  francesa  o  preço  dos  cereais  foi-se  elevando  até  ao  começo  do 
século  XIV,  ou  mesmo  além  desta  data.  a  crer  em  L.  Genicot  (org.  1973)  141.  E  na  Flandres  D.  Nicho- 
las  (1976)  15  e  19  indica  a  ocorrência  de  uma  subida  muito  acentuada  dos  preços  agrícolas  durante  uma 
boa  parte  da  segunda  metade  do  século  XIV,  baixando  só  a  partir  do  final  desse  século.  Também  em 
Pistoia,  segundo  D.  Herlihy  ( 1967)  123,  os  preços  do  trigo  e  de  outros  géneros  agrários  subiram  desde  o 
início  do  século  XIII  até  à  década  de  1280.  descendo  de  então  até  aos  últimos  anos  da  década  de  1330,  e 
voltando  a  aumentar  de  1340  até  ao  final  do  século  XIV.  para  declinarem  de  novo  apenas  no  princípio 
do  século  seguinte.  Em  Perugia  A.  Grohmann  (1981 )  90  regista  igualmente  uma  ascensão  acentuada 
dos  preços  cerealíferos  ao  longo  do  século  XIV.  Quanto  à  Inglaterra,  os  dados  nem  sempre  são  conver¬ 
gentes.  E.  Miller  (1966)  126  escreve  que  os  produtos  agrícolas  encareceram  no  século  XII;  e  G.  Duby 
(1962)  500.  503  e  506  admite  que  a  subida  do  preço  dos  meios  de  subsistência  se  tivesse  processado  ao 
longo  do  século  XIII  e  da  primeira  metade  do  século  seguinte.  Também  P.  D.  A.  Harvey  ( 1973)  5  e  E. 
Miller  1 1964)  26  referem  o  século  XIII  como  caracterizado  por  uma  elevação  rápida  dos  preços.  Toda¬ 
via.  J.  Z.  Titow  (1969)  43-44  localiza  o  início  deste  aumento  nos  últimos  anos  do  segundo  terço  do 
século  XII,  considerando-o  especialmente  pronunciado  nas  duas  últimas  décadas  daquele  século  e  nas 
duas  primeiras  do  século  XIII.  Por  seu  lado,  E  Kosminsky  (1955  b)  18  traça  uma  subida  rápida  do 
preço  do  trigo  ao  longo  de  cem  anos.  a  partir  do  final  do  segundo  terço  do  século  XII,  mantendo-se  em 
níveis  sistematicamente  elevados  desde  o  fim  do  segundo  terço  do  século  XIII  até  à  penúltima  década 
do  século  XTV,  quando  começou  uma  queda  secular  dos  preços.  Igualmente  G.  A.  Holmes  (1957)  1 16 
atribui  às  décadas  de  1370  e  1380  uma  baixa  acentuada  dos  preços  agrícolas.  Para  M.  Mollat  et  al. 
(1970)  276,  porém,  os  preços  cerealíferos  iniciaram  uma  baixa  lenta  em  1320.  A  Espanha,  segundo  J. 
A.  Garcia  de  Cortázar  ( 1990)  108,  obedeceu  à  norma  geral  e  o  século  XIII  caracterizou-se  pelo  encare¬ 
cimento  dos  géneros  agrícolas.  J.  Mattoso  [4994  b]  135  considera  que  nos  meados  do  século  XIV  se 
registou  em  Portugal  a  abertura  de  uma  fase  de  carestia  dos  produtos  rurais.  Ver  no  mesmo  sentido  H. 
G,  Barros  (1945-1954)  V  154  e  segs.  Por  seu  tumo.  J.  Valdeón  Barrique  (1976)  87-88  observa  um 
aumento  progressivo,  embora  irregular,  do  preço  do  trigo  ao  longo  do  século  XIV  no  norte  da  Meseta. 


.  çruçt/c'  deis  e.vai  çrie.v  em  generos  no  quadro  monetário 


UI 


haviam  começado  a  manifestar-se  os  sintomas  da  crise  que  pôs  termo  a  este  período.  A 
amplitude  tomada  pela  veiculação  pecuniária  das  relações  de  dependência  impessoal 
pressupunha  que  se  lançassem  em  circulação  volumes  crescentes  de  moeda,  com  os 
inevitáveis  efeitos  sobre  o  nível  de  preços  dos  produtos  rurais.  Por  isso,  no  final  do 
período  tomou-se  frequente  que  para  vários  tributos  fosse  novamente  requerido  o  paga¬ 
mento  em  géneros68.  Neste  sentido,  talvez  seja  mais  esclarecedor  ainda  o  facto  de  nos 
territórios  do  Mediterrâneo  oriental  para  onde  se  dilatou  a  soberania  senhorial,  e  onde 
pode  admitir-se  que  passassem  a  ser  aplicadas  condições  de  exploração  que  se  aproxi¬ 
mavam  dos  anseios  da  classe  dominante,  a  cobrança  de  tributos  em  géneros  ter  assu¬ 
mido  uma  grande  importância69.  As  consequências  da  reaccção  aristocrática  não  ofere¬ 
cem  dúvidas.  Perante  a  acentuada  tendência  para  a  depreciação  das  peças  cunhadas  que 
davam  corpo  à  Forma  1  do  dinheiro  ou.  pelo  menos,  face  ao  declínio  do  seu  poder  aqui¬ 
sitivo,  os  géneros  usados  para  o  pagamento  das  prestações  correspondiam  a  somas 
nominais  cada  vez  maiores  expressas  em  moeda  corrente.  Os  senhores  podiam  assim 
garantir  que.  apesar  de  uma  evolução  monetária  aparentemente  desfavorável,  não  dimi¬ 
nuiría  o  valor  pecuniário  dos  tributos  recebidos.  Como  vemos,  nesta  situação  as  exac- 
ções  em  géneros  estiveram  inteiramente  inseridas  na  problemática  do  dinheiro- 
-moeda70. 

Aliás,  os  senhores  empregaram  ainda  métodos  para  submeter  as  exacções  em  géne¬ 
ros  aos  preços  de  mercado,  nomeadamente  fazendo  com  que  os  preços  praticados  no 
caso  dos  cereais  servissem  de  critério  para  os  pagamentos  em  produtos  agrícolas71. 
Como  a  oferta  e  a  procura  nos  mercados  eram  exclusivamente  controladas  pela  classe 
senhorial  (ver  o  capítulo  2.b),  também  assim  se  garantiam  condições  favoráveis  para  as 
prestações  estipuladas  em  géneros.  Uma  vez  mais,  os  termos  a  que  obedeciam  estes 
pagamentos  em  géneros  decorriam  completamente  dos  mecanismos  monetários.  Com¬ 
preendem-se  nesta  perspectiva  os  casos  de  alteração  das  medidas  de  peso  e  de  capaci¬ 
dade  verificados  na  Itália  centro-setentrional,  onde  a  diminuição  do  conteúdo  argênteo 
da  moeda  em  que  se  avaliavam  os  géneros  agrícolas  foi  compensada  através  de  um  sig- 


68  J.  L.  Bessmertnyi  referido  em  A.  Lioublinskaia  (1963)  722;  J.  Bichot  ( 1984)  89;  P.  J.  Jones 
(1968)  218;  S.  Trawkowski  (1959)  188;  H.  van  Werveke  (1932 1  465. 

Parece-me  que  seria  a  subida  dos  preços  agrícolas  a  razão  que  levou  os  soberanos,  no  século  XI\', 
•  cobrar  em  géneros  muitos  impostos  que  ames  deviam  ser  pagos  em  numerário,  e  não  a  mera  escas¬ 
sez  de  moeda,  como  pretende  E.  Perroy  ( 1949)  174- 175. 

69  C.  Cahen  (1950-1951 )  299-300;  H.  E.  Mayer  (1972)  152;  J.  Prawer  (1969-1970)  1  507-508;  J. 
Richard  (1977)  352. 

70  Estudando  os  documentos  de  contabilidade  de  uma  castelania  do  Deltinado,  durante  o  primeiro 
terço  do  século  XIV,  J.  Bichot  (1984)  91  e  segs.  observou  que  as  receitas  em  géneros  estão  expressas 
exactamente  da  mesma  maneira  que  as  receitas  pecuniárias  e  obedecem  a  um  tratamento  contabilís- 
bco  idêntico.  Também  no  século  XIV.  na  Morea  latina,  os  serviços  de  trabalho  devidos  por  certas 
categorias  de  camponeses,  embora  fossem  avaliados  em  dinheiro  e  viessem  assim  mencionados  na 
contabilidade,  eram  efeciivamente  cumpridos  na  forma  de  serviços,  como  afirma  A.  Carile  (1976) 
559-560. 

71  Foi  o  que  sucedeu  em  Huy  no  final  do  período,  como  se  lê  em  A.  Joris  (1959)  283.  A  mesma 
prática  é  referida  por  L.  Genicot  ( 1943-1995)  I  267-268  a  respeito  do  Namurois.  A.  P.  Usher  (1943) 
178  afirma  que  se  tratava  de  um  sistema  comum  na  França  e  na  Inglaterra  no  final  do  período,  e  que 
há  razões  para  presumir  que  se  aplicasse  também  extensivamente  nas  regiões  mediterrânicas. 


132 


Forma  1  do  dinheiro 


nificativo  aumento  do  padrão  que  aferia  a  quantidade  de  géneros  entregue  em  cumpri¬ 
mento  das  obrigações  tributárias.  Como  um  dado  volume  de  cereal  passara  a  correspon¬ 
der  a  uma  menor  quantidade  de  prata,  as  autoridades  ampliaram  o  volume-padrão72. 

O  problema  esclarece-se  melhor  ainda  quando  sabemos  que,  nas  situações  em  que 
era  já  hegemónico  o  uso  de  dinheiro-moeda,  o  empenho  comercial  dos  senhores  levava- 
-os  a  exigir  prestações  em  géneros  sobretudo  para  aqueles  bens  mais  facilmente  tran- 
saccionáveis73.  Chega  a  constatar-se  que  o  desenvolvimento  do  raio  de  acção  dos  mer¬ 
cados  de  produtos  rurais,  em  especial  graças  ao  crescimento  urbano,  levou  os  senhores 
a  interessarem-se  de  novo  pela  cobrança  das  prestações  em  géneros,  de  maneira  a  que 
pudessem  ser  eles  a  comercializar  as  colheitas  e  a  beneficiar  directamente  dos  mecanis¬ 
mos  do  mercado74.  É  até  difícil  em  tais  circunstâncias  considerar  que  se  tratava  de  tri¬ 
butos  em  géneros.  Na  verdade,  sucedia  que  os  senhores  se  introduziam  no  processo  que 
levava  à  conversão  em  moeda  dos  excedentes  das  colheitas  camponesas,  de  maneira 
que  no  final  eram  sempre  somas  de  numerário  que  eles  arrecadavam.  Simplesmente, 
para  os  produtos  que  deparavam  com  condições  comerciais  desfavoráveis  os  senhores 
deixavam  à  classe  servil  o  ónus  da  venda,  enquanto  eles  próprios  procediam  às  transac- 
ções  relativamente  aos  géneros  mais  lucrativos. 

Decerto  se  inclui  nesta  problemática  a  inversão  do  processo  de  comutação  monetᬠ
ria  dos  serviços  de  trabalho  nos  grandes  conjuntos  senhoriais,  sobretudo  nas  vastas 
senhorias  eclesiásticas  (ver  o  capítulo  2. a),  que  durante  a  maior  parte  do  século  XIII  se 


72  Ph.  Jones  (1966  b)  353  considera  que  tamo  a  inflação  como  o  aumento  das  medidas  de  peso  e 
de  capacidade  foram  uma  expressão  do  surto  de  crescimento  económico  verificado  na  Lombardia  e  na 
Toscana.  Na  realidade,  parece-me  que  a  modificação  das  medidas-padrão  constituiu  uma  forma  de 
luta  contra  a  inflação. 

73  R.  I.  Bums  (1967)  147-148;  G.  Duby  ( 1962)  230;  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  (1990)  108;  A.  Joris 
(1959)283.370. 

Nos  conjuntos  senhoriais  eclesiásticos,  durante  os  séculos  XI  e  XII,  G.  Duby  (1962)  393-394 
afirma  que  os  géneros  cobrados  eram  geralmente  vendidos  nos  próprios  locais  e  só  seguiriam  para  o 
centro  dominial  os  produtos  difíceis  de  escoar,  além  daqueles  que  a  comunidade  religiosa  pretendesse 
consumir  directamente.  Para  uma  situação  comparável  num  grande  conjunto  senhorial  inglês,  durante 
o  segundo  quartel  do  século  XIV,  verG.  A.  Holmes  (1957)  111. 

74  Foi  especialmente  nas  grandes  cidades  e  na  sua  vizinhança,  observa  L.  Genicot  ( 1990)  49,  que 
os  senhores  enfrentaram  a  inflação  através  do  regresso  às  exacções  em  géneros.  Esta  constatação  é 
confirmada  por;  C.  Batlle  (1991)  232;  L.  M.  Braghina  referida  em  A.  Lioublinskaía  (1963)  739;  G. 
Duby  (1973)  291-292;  P.  Racine  (1977)  277;  R.  Rinaldi  (1987)  192;  E.  Sestan  em  J.  Plesner  ( 1979) 
15-16.  Quanto  ao  sucedido  em  Veneza,  G.  Cracco  (1967)  34  considera  que  os  senhores  se  esforçavam 
por  que  as  prestações  lhes  fossem  pagas  sobretudo  em  géneros,  usados  tamo  para  consumo  interno 
como  para  exportação.  Nesta  perspectiva,  é  importante  saber  que  desde  o  começo  do  período  o  sis¬ 
tema  predominante  na  área  de  soberania  daquela  cidade  consistia  em  prestações  fixas,  pagas  maiorita¬ 
riamente  em  géneros,  consoante  indicam  G.  Luzzatto  (1937)  38  e  L.  B.  Robbert  (1971)  II.  L.  A. 
Kotelnikova  (1968)  612  e  (1982)  853-854  mostra  que  na  Toscana  os  tributos  monetários  prevalece¬ 
ram  nas  localidades  mais  afastadas  do  mercado  urbano  principal  e  das  suas  vias  de  acesso. 

Na  Auvergne  do  século  XIV  verificava-se  uma  situação  oposta  àquela  que  aqui  analiso,  a  crer  em 
A.-G.  Manry  (org.  1974)  186.  pois  os  senhores  procuravam  que  as  prestações  incluíssem  uma  gama 
de  produtos  o  mais  completa  possível,  de  maneira  a  poderem  subsistir  em  condições  de  pronunciada 
autarcia.  Neste  caso  os  tributos  em  géneros  serviam  aos  senhores  para  evitarem  os  circuitos  comer¬ 
ciais.  e  não  para  os  utlizarem  em  seu  benefício 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


133 


manifestou  nas  regiões  da  Inglaterra  onde  era  mais  activo  o  comércio  de  produtos  agrí¬ 
colas.  ou  seja,  onde  era  mais  sistemática  a  circulação  de  numerário  entre  a  gente 
humilde75.  Tal  como  no  continente,  também  na  ilha  o  século  XIII  se  inseriu  numa  fase 
de  altos  preços  do  trigo  e  de  outros  meios  de  subsistência76,  com  a  consequente  redu¬ 
ção  do  valor  real  dos  tributos  fixos  pagos  em  moeda.  Só  que  neste  caso  -  e  aí  reside  a 
sua  originalidade  -  os  grandes  senhores  preferiram  voltar  à  requisição  de  força  de  tra¬ 
balho  servil  e  explorar  directamente  os  domínios  para  conseguir  os  artigos  que  destina¬ 
vam  à  venda  no  mercado,  em  vez  de  os  obterem  através  do  regresso  às  exacções  em 
géneros.  Com  efeito,  a  Inglaterra  era  no  final  do  período  a  região  onde  as  prestações  em 
géneros  mais  haviam  recuado  perante  a  difusão  dos  tributos  em  moeda77.  Sucede  fre¬ 
quentemente  em  história  que  aquilo  que  se  apresenta  como  sendo  a  solução  de  um  pro¬ 
blema  seja,  na  verdade,  um  novo  problema,  esperando  o  historiador  que  o  leitor  dis¬ 
traído.  ou  deveras  exausto,  se  satisfaça  e  passe  adiante.  Também  nestas  circunstâncias 
haveria  que  explicar  o  comportamento  diferente  adoptado  por  uma  parte  da  classe 
senhorial  inglesa,  que  uma  vez  mais  levou  a  situação  na  ilha  a  seguir  um  rumo  distinto 
do  continente78.  Mesmo  sem  conseguir  fazê-lo,  posso  concluir  que,  de  uma  maneira  ou 
outra,  se  tratou  sempre  de  compensar,  mediante  a  venda  de  géneros  obtidos  pelo  labor 
servil,  a  queda  do  poder  de  compra  do  numerário. 


75  G.  Duby  (1962)  500-505:  Ch.  Dyer  (1980)  63-64:  E.  A.  Kosminsky  (1934-1935)  27,  37.  40. 
42-44;  id.  (1955  b)  17.  19:  id.  (1956)  168.  192,  275-276:  id.  (1963)  75-77’:  P.  Spufford  (1984)  365- 
-366. 

Para  mais  detalhes  ver  a  n.  37  do  capítulo  2. 

76  G.  Duby  (1962)  500;  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  5;  E.  Kosmínski  (1963)  75;  C.  G.  Reed  et  al. 
(1973)  135-137. 

77  Ver  no  capítulo  2  as  nn.  39.  77  e  78. 

,8  Segundo  E.  Miller  (1971)  8-12,  o  regresso  à  exploração  dominial  directa  leria  representado 
uma  maneira  de  proteger  da  inflação  os  rendimentos  senhoriais,  e  também  para  P.  D.  A.  Harvey 
(1973)  5  e  20-23  teria  sido  a  inflação  que  levou  aqueles  grandes  senhores  a  passarem  das  exacções  em 
dinheiro  para  a  cobrança  de  serviços  de  trabalho,  atrasando  cerca  de  dois  séculos  o  desaparecimento 
deste  tipo  de  prestações  na  ilha.  Mas  por  que  razão  a  aristocracia  continental  reagiu  de  modo  diferente 
ao  mesmo  problema?  B.  Lyon  ( 1963)  617-630  procede  a  uma  estranha  inversão  dos  métodos  historio- 
gráficos,  concluindo  que  se  em  nenhuma  região  do  continente  ocorreu  no  século  XIII  qualquer  recru- 
descimento  dos  serviços  de  trabalho,  também  na  Inglaterra  este  fenómeno  não  se  poderia  ter  verifi¬ 
cado.  A  história,  todavia,  só  adquire  razão  de  ser  enquanto  quadro  de  diferenças,  e  é  despropositado 
impor  homogeneidades  por  dedução.  Mais  correcta  me  parece  a  atitude  de  E.  Miller  em  Centro  Ita¬ 
liano  di  Studi  sulTAlto  Medioevo  ( 1966)  254.  ao  admitir  a  sua  incapacidade  de  explicar  tal  discrepân¬ 
cia.  Por  seu  turno,  P.  D.  A.  Harvey  ( 1973)  7  e  26  levanta  a  hipótese  de  que  só  em  Inglaterra  tivesse 
ocorrido  uma  subida  tão  considerável  dos  preços.  Mas  vimos  na  n.  67  deste  capítulo  que  a  inflação  foi 
também  generalizada  no  continente  no  século  XIII  e  durante  parte  do  século  seguinte.  A  explicação 
proposta  por  C.  G.  Reed  et  al.  ( 1973)  135-137  é  mais  elaborada.  Eles  afirmam  que.  perante  o  surto 
inflacionista,  a  possibilidade  de  escolha  colocada  àqueles  senhores  consistia  ou  em  renegociarem 
anualmente  as  condições  de  arrendamento  das  terras  do  domínio  ou  em  procederem  à  exploração 
dominial  directa;  ora,  como  estes  autores  consideram  que  a  tradição  jurídica  inglesa  não  admitiria 
renegociações  tão  frequentes,  restaria  aos  senhores  a  segunda  opção.  Na  n.  60  deste  capítulo  exprimi 
algumas  dúvidas  quanto  ao  bom  fundamento  de  uma  tal  confiança  na  tradição.  Todavia,  e  mesmo  que 
aceitemos  como  válidos  os  termos  da  alternativa,  fica  sem  explicar  o  motivo  por  que  não  foi  seguida 
uma  terceira  via,  a  cobrança  em  géneros  de  exacções  que  até  então  haviam  sido  pecuniárias.  Acerca 
deste  conjunto  de  questões  ver  ainda,  na  Parte  II.  as  nn.  155  a  158  do  capítulo  10. 


134 


Forma  1  do  dinheiro 


Do  mesmo  modo,  quando  os  membros  da  elite  urbana  eram  favoráveis  à  deprecia¬ 
ção  da  moeda,  com  a  consequente  inflação,  para  suscitarem  uma  subida  dos  preços  e 
baixarem  relativamente  os  salários  no  sector  manufactureiro,  entende-se  que  nestas 
ocasiões  eles  evitassem  aparecer  no  mercado  do  lado  da  procura.  Para  isso  exigiam  em 
géneros  o  pagamento  das  exacções  que  lhes  eram  devidas  enquanto  senhores  de  terras, 
abastecendo  assim  directamente  as  suas  casas79.  Embora  estes  géneros  pudessem  desti¬ 
nar-se  ao  consumo  familiar  e  não  passassem  pelo  mercado,  a  sua  cobrança  era  inteira¬ 
mente  determinada  pela  situação  dos  preços  no  mercado. 

Por  isso  os  pagamentos  em  géneros,  ou  mais  exactamente  o  direito  que  os  senhores 
pretendiam  reservar-se  de  cobrar  em  géneros  quando  não  lhes  conviesse  fazê-lo  em 
numerário,  foram  um  complemento  indispensável  das  operações  de  depreciação  da 
cunhagem.  Só  a  partir  desta  análise  será  possível  definir  para  quem  as  depreciações 
foram  vantajosas  e  ponderar  as  contradições  que,  quanto  a  este  assunto,  opunham  a 
classe  senhorial  e  a  classe  servil,  os  senhores  impessoais  e  os  senhores  pessoais,  os 
senhores  e  os  camponeses  abastados,  os  empresários  urbanos  e  a  sua  mão-de-obra  e, 
finalmente,  uma  multiplicidade  de  outros  grupos  de  interesses  no  seio  da  classe  domi¬ 
nante. 


c.  Dinheiro  contabilístico 

O  dinheiro  contabilístico  foi  o  elemento  chave  de  todos  os  mecanismos  que  permiti¬ 
ram  aos  senhores,  e  à  generalidade  dos  credores,  adequar  as  cobranças  à  depreciação 
do  numerário80.  Exacções  impostas  aos  servos,  preços  a  ser  pagos  no  futuro,  montantes 


79  É  desta  maneira  que  interpreto  a  tendência  crescente  dos  cidadãos  de  Gand  ao  longo  do  século 
XIV  para  obterem  através  de  exacções  os  produtos  agrícolas  destinados  ao  consumo  doméstico,  con¬ 
forme  se  lè  em  D.  Nicholas  (1971)  123,  298-31X)  e  304.  Veja-se  na  mesma  perspectiva  o  que  L.  A. 
Kotelnikova  (1975)  53-54  e  ( 1982 )  851  escreve  acerca  das  cidades  italianas.  Consulte-se  ainda  G. 
Duby  (1962)570. 

80  J.  Piquet  (1939)  148.  154-155  e  P.  Spufford  ( 1986)  xxi  consideram  que  o  dinheiro  contabilís¬ 
tico  tinha  como  objectivo  facilitar  o  emprego  conjunto  dos  múltiplos  tipos  de  numerário  em  circula¬ 
ção.  Neste  sentido,  veja-se  igualmente  a  n.  26  do  capítulo  1 1.  Por  seu  turno,  A.  Evans  (1930-1931) 
494  argumenta  que  se  tratava  de  uma  convenção  usada  pelos  contabilistas  para  se  referirem  a  somas 
muito  avultadas  sem  o  incómodo  de  mencionar  números  excessivamente  longos.  Se  nos  processos 
históricos,  porém,  pudéssemos  explicar  o  aparecimento  de  algo  com  o  argumento  de  que  simplificava 
a  vida,  seria  necessário  justificar,  antes  de  mais.  por  que  motivo  a  situação  se  havia  tomado  tão  com¬ 
plicada. 

Depois  de  observar  que  tendia  sempre  a  estabelecer-se  uma  divergência  entre  o  padrão  dos  paga¬ 
mentos  e  o  meio  material  em  que  eram  efectuados,  M.  Bloch  (1935  c)  325  previne  que  ficam  sem 
explicação  os  motivos  de  tal  discrepância.  Ela  devia-se,  em  meu  entender,  aos  efeitos  práticos  ocasio¬ 
nados  pelas  sucessivas  quebras  da  cunhagem.  É.  aliás,  neste  sentido  que  parece  orientar-se  id.  (1953) 
150-151.  E  id.  (1938)  360  afirma  mesmo  que  a  próprta  situação  da  moeda  impunha  a  separação  entre 
os  padrões  abstractos  de  troca  e  o  conteúdo  real  dos  tneios  de  pagamento.  Todavia.  L.  Einaudi  (1936) 
31-33  presume,  a  meu  ver  sem  razão,  que  o  uso  de  dinheiro  contabilístico  propiciava  aos  soberanos  a 
dissimulação  das  operações  de  depreciação  do  numerário. 

E.  Foumial  ( 1 963 )  583-596  considera  que  a  prática  de  indexar  as  dívidas  foi  muito  difundida  por 
toda  a  França  no  século  XIV,  mas  acrescenta  que  a  indexação  dos  tributos  só  é  continuada  nos  casos 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


135 


de  dívidas  passaram  a  ser  estabelecidos  em  unidades  convencionais,  cuja  relação  com  o 
numerário  variava  consoante  as  manipulações  da  cunhagem.  Do  mesmo  modo.  como 
os  preços  de  todos  os  artigos  reflectiam  as  alterações  da  moeda,  também  era  variável  a 
relação  das  unidades  contábil ísticas  convencionais  com  os  géneros  agrícolas  e  os  pro¬ 
dutos  manufacturados.  Fixada  em  termos  contábil ísticos,  uma  cobrança  ficava  garan¬ 
tida  contra  as  quebras  da  moeda,  qualquer  que  viesse  a  ser  o  meio  efectivo  de  paga¬ 
mento. 

Bastava  que  a  obrigação  de  um  pagamento  fosse  enunciada  numa  dada  moeda,  mas 
realizada  em  peças  de  outra  emissão  ou  outro  tipo.  ou  em  géneros,  para  que  a  moeda 
referida  no  contrato  se  transformasse  em  dinheiro  contabilístico81.  Só  mediante  o 
recurso  ao  dinheiro  contabilístico  foi  possível  estabelecer  permanentemente  a  relação 
entre  as  várias  emissões  monetárias,  o  que  conferiu  ao  câmbio  uma  grande  importância, 
pois  estes  pagamentos  presumiam  a  conversão  em  numerário  metálico  do  montante 
fixado  em  unidades  de  contagem,  e  inversamente82.  Mas  o  escopo  do  dinheiro  contabi¬ 
lístico  foi  muitíssimo  mais  vasto,  porque  graças  a  ele  se  determinava  a  relação  entre  os 
géneros  e  as  peças  cunhadas,  e  se  passava  de  uns  a  outras.  Por  isso  o  emprego  deste 
tipo  de  dinheiro  tomou-se  cada  vez  mais  comum  ao  longo  do  período83.  Aliás,  como 


do  Forez.  do  Lyonnais  e  do  Delfinado,  sendo  necessário  prosseguir  as  pesquisas  para  averiguar  se  se 
registava  também  noutras  regiões.  Tudo  o  que  escrevi  ao  longo  deste  capítulo  parece  mostrar  que  as 
reservas  de  Etienne  Foumial  não  têm  razão  de  ser.  Aliás,  id.  (1967)  385-390  aceita  já  como  muito 
verosímil  que  se  tivesse  difundido  por  toda  a  França  a  indexação  tanto  nas  operações  de  crédito  como 
nas  exacções.  Este  autor,  em  ( 1963)  596,  conclui  que,  a  ser  verdade  que  a  indexação  das  exacções  foi 
uma  norma  corrente,  será  necessário  recusar  a  tese  de  numerosos  historiadores  que  explicam  a  crise 
da  aristocracia  nos  séculos  XIV  e  XV  invocando  a  depreciação  das  rendas  em  numerário.  A  respeito 
desta  tese  ver  a  n.  50  deste  capítulo.  A  crítica  de  Foumial  parece-me,  claro,  inteiramenre  justificada. 
Porém,  reportando-se  ao  final  do  período,  id.  (1967)  362  e  459  adverte  que,  apesar  de  os  senhores 
terem  procurado  escapar  aos  efeitos  da  depreciação  monetária  mediante  a  indexação  das  rendas,  os 
rendimentos  senhoriais  diminuíram  consideravelmente  em  virtude  das  fugas  dos  caseiros,  das  pilha¬ 
gens  devidas  à  passagem  de  companhias  militares  e  da  ocorrência  de  epidemias  e  intempéries.  Mas 
além  de  estes  tipos  de  acontecimentos  serem  mteiramente  exteriores  à  esfera  monetária,  eles  acompa¬ 
nharam  o  reginte  senhorial  ao  longo  da  sua  existência  e  não  podem  explicar  a  crise  dos  séculos  XIV 
e  XV. 

81  M.  Bloch  (1953)  154  define  o  dinheiro  contabilístico  pela  separação  entre  a  função  de  medida 
dos  valores  e  a  função  de  meio  de  pagamento.  Ver  igualmente  id.  ( 1935  c)  324. 

82  J.  Piquet  (1939)  148  e  n.  2.  Ver  também:  M.  Bloch  ( 1953)  152;  E.  Foumial  ( 1963)  586. 

83  Vários  autores  indicam,  em  geral,  a  frequência  do  uso  de  dinheiro  contabilístico,  advertindo 
alguns  que  o  facto  de  um  pagamento  ser  estipulado  em  numerário  não  significava  que  não  fosse  reali¬ 
zado  noutro  meio:  H.  G.  Barros  (1945-1954)  II]  149;  M.  Bloch  (1938)  359;  id.  (1939)  12-13;  id. 
(1953)  153;  L.  Einaudi  ( 1936)  7-8;  V.  M.  Godinho  ( 1981-1983)  I  119-121;  B.  Lyon  et  al.  (1967)  58; 
J.  H.  Mundy  ( 1954)  321  n.  46;  R.  Pemoud  ( 1949)  324-325;  J.  Piquet  (1939)  148;  J.  E.  Ruiz  Domenec 
(1977)  279-  A.  P.  Usher  (1943)  178;  H.  van  Werveke  (1932)  463;  R.  G.  Witt  (1971)  975.  Aliás, 
quando  uma  obrigação  de  pagamento  era  estabelecida  em  numerário  e  cumprida  igualmente  em 
numerário,  isto  não  implicava  que  não  se  recorresse  ao  dinheiro  contabilístico.  pois  as  moedas  cunha¬ 
das  eram  avaliadas  em  termos  eontabilísticos,  como  sublinha  J.  Piquet  (1939)  155.  Ver  igualmente  E. 
Foumial  (1963)  587-588.  Do  mesmo  modo.  observa  H.  van  Werveke  (1932)  463-464  a  respeito  da 
Flandres  e  da  antiga  Lotaríngia  no  princípio  do  período,  um  pagamento  convencionado  em  unidades 
de  peso  argênteo  podia  ser  efectuado  em  moeda.  Na  ile-de-France,  Th.  N.  Bisson  (1979)  41  previne 
que  a  prática  de  estipular  o  tipo  de  moedas  em  que  devia  ser  feito  o  pagamento  era  muito  rara  antes  do 


136 


Forma  l  do  dinheiro 


nas  mesmas  regiões  e  nas  mesmas  épocas  se  verificava  com  frequência  o  uso  concomi¬ 
tante  de  diversos  sistemas  de  dinheiro  contabilístico.  que  em  geral  não  estavam  ligados 
por  relações  constantes84,  tanto  era  necessário  convertê-los  reciprocamente  como  esta¬ 
belecer  a  equivalência  entre  cada  um  deles  e  todas  as  séries  cunhadas. 

E  é  importante  verificar  que  a  função  de  dinheiro  contabilístico,  que  antes  coubera 
com  frequência  no  meio  rural  a  produtos  agrícolas  ou  artigos  manufacturados  de  índole 
modesta,  passou  na  segunda  metade  do  período  a  ser  ocupada  por  referências  monetᬠ
rias.  O  dinheiro  contabilístico  não  era  um  padrão  imaginário85,  nem  estas  funções  eram 
desempenhadas  por  uma  mera  convenção  de  contagem,  entendida  como  simples  relação 
entre  dados  sistemas  numéricos86.  Pelo  contrário,  o  dinheiro  contabilístico,  que  anterior¬ 
mente  se  baseara  também  em  unidades  de  peso  argênteo87,  passou  depois  a  reportar-se 


começo  do  século  Xíl  e  só  a  panir  do  final  desse  século  ela  se  tomou  regular.  No  reino  de  França, 
com  efeito.  E.  Bridrey  (1906)  1 17  considera  que  pelo  menos  no  século  XIV  se  empregava  nos  contra¬ 
tos  exclusivamente  dinheiro  contabilístico. 

Começando  por  afirmar  que  neste  período  nada  distinguia  o  dinheiro  contabilístico  do  dinheiro 
material,  M.  M.  Postan  (1944-1945)  125-127  pretende  que  nenhum  historiador  apresentara  provas  de 
que  a  moeda  referida  nos  documentos  servisse  de  dinheiro  contabilístico  e  não  de  meio  de  troca,  e 
conclui  que  todos  os  pagamentos  estipulados  cm  moeda  seriam  efeetivamente  realizados  em  numerᬠ
rio.  Mas  não  parece  que  o  contexto  económico  da  época  e  as  análises  feitas  por  numerosos  autores 
justifiquem  o  acesso  de  mau  humor  daquele  reputado  especialista.  Por  seu  tumo.  e  como  a  partir  do 
século  X.  contariamente  ao  que  sucedera  no  período  anterior,  os  documentos  catalães  passaram  a  fixar 
os  preços  apenas  em  moeda,  sem  fornecer  qualquer  outra  indicação  quanto  à  forma  efectiva  de  paga¬ 
mento.  R.  Abadai  i  de  Vinyals  (1955)  I  58  conclui  que  o  numerário  serviria  então  de  meio  de  paga¬ 
mento  material,  e  não  apenas  de  padrão  contabilístico.  Parece-me.  todavia,  que  teria  sido  precisa¬ 
mente  o  carácter  habitual  do  uso  de  dinheiro  contabilístico  a  levar  ao  abandono  de  menções  que  se 
haviam  tomado  inúteis.  Além  disso,  e  como  vimos  já  nesta  nota,  convém  nunca  esquecer  que  o  facto 
de  o  numerário  intervir  enquanto  meio  de  pagamento  não  significa  que  a  estipulação  do  montante  em 
moeda  excluísse  o  emprego  de  dinheiro  contabilístico,  pois  podia  haver  uma  discrepância  entre  os 
tipos  de  moeda  usados. 

84  M.  Bemocchi  (1982)  17-18:  A.  Evans  (1930-1951)  496;  F.  C.  Lane  (1973)  148  e  n.  1;  P.  Spuf- 
ford  (1986)  xxiii-xxiv;  H.  van  Werveke  (1934)  132. 

Todavia,  nas  áreas  sob  a  soberania  directa  da  coroa  francesa,  segundo  J.  Piquet  (1939)  155.  esta¬ 
beleceu-se  nos  meados  do  século  XIII  uma  relação  fixa  entre  os  dois  sistemas  contabilísticos  em 
vigor,  um  baseado  no  tournois  e  o  outro  no  parisis. 

85  L.  Einaudi  (1936)  tende  a  considerar  o  dinheiro  contabilístico  como  um  padrão  imaginário, 
argumentando  (pp.  5-6)  com  o  facto  de  ser  sempre  de  curta  duração  a  correspondência  entre  um  dado 
padrão  contabilístico  e  uma  dada  emissão  monetária.  Para  uma  crítica  às  concepções  de  Luigi  Einaudi 
ver,  por  exemplo,  M.  Bloch  (1938)  359  e  R.  de  Roover  (1948)  220. 

86  Quanto  ao  velho  sistema  de  dinheiro  contabilístico  herdado  do  período  anterior,  e  que  conti¬ 
nuou  a  ser  usado  durante  a  primeira  metade  deste  período,  não  me  parece  que  a  libra  e  o  sou  se  pos¬ 
sam  reduzir  a  simples  expressões  numéricas,  como  pretende  M.  Bloch  (1935  c)  323.  A  libra  represen¬ 
tava  um  peso  de  metal  precioso  e  o  sou  correspondia  a  uma  moeda  que  fora  efeetivamente  cunhada 
numa  época  anterior,  servindo  o  denier  para  unir  o  sistema  contabilístico  à  cunhagem  vigente.  De 
toda  a  maneira,  id.,  ibid.,  324  afirma  que  a  partir  do  momento  em  que  se  iniciou  a  cunhagem  das  gran¬ 
des  moedas  de  prata  e  das  moedas  de  ouro  a  relação  entre  elas  e  o  sistema  contabilístico  tomou-se 
muito  variável,  de  forma  que  as  unidades  de  contagem  perderam  qualquer  conteúdo  numérico  estável. 
A  este  respeito  ver  igualmente  id.  ( 1953)  148-149. 

87  Id.  ( 1935  c)  323;  H.  van  Werveke  (1932)  463-464. 

E.  Foumial  ( 1963)  588  e  (1967)  384  adverte  que  em  França  as  perturbações  monetárias  de  1349- 
- 1 360  levaram  de  novo  à  utilização  do  marco  de  prata. 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


137 


sempre  a  peças  efectivamente  cunhadas  e,  portanto,  a  um  peso  de  metal  precioso88,  quer 
tais  peças  estivessem  ainda  em  circulação  e  o  seu  teor  metálico  variasse  com  as  sucessi¬ 
vas  emissões89,  quer  tivessem  deixado  já  de  ter  curso  material  e  correspondessem  por 
isso  a  um  peso  fixo  de  metal  precioso90.  Deste  modo  as  unidades  contabilísticas  ficavam 
preservadas  das  manipulações  monetárias,  embora  não  estivessem  imunes  às  variações 
do  curso  comercial  dos  metais  amoedáveis.  Foi  para  atenuar  este  inconveniente  que  no 
final  do  período,  pelo  menos  em  algumas  regiões  do  sudeste  da  França,  o  sistema  de 
indexação  mais  corrente  tomou  como  base  uma  conjugação  de  moedas  de  ouro.  de  prata 
e  de  má  liga91.  De  uma  ou  outra  fonma,  o  dinheiro  contábil ístico  foi  usado  em  todas  as 
regiões  com  o  objectivo  de  estabelecer  para  os  pagamentos  um  padrão  relativamente 
constante,  que  permitisse  à  classe  senhorial  beneficiar  com  a  depreciação  da  cunhagem, 
ampliando  a  teia  do  poder  impessoal  veiculada  pela  crescente  difusão  da  Forma  I  do 
dinheiro,  sem  ao  mesmo  tempo  ser  prejudicada  no  valor  real  dos  seus  rendimentos. 

Não  devemos  confundir  os  sistemas  de  números,  que  constituíam  como  que  o  arca- 
boiço  de  todo  o  tipo  de  cálculos,  com  a  fixação  do  padrão  que  permitia  a  estes  cálculos 
aplicarem-se  à  esfera  monetária.  Era  o  estabelecimento  desse  padrão  que  convertia  a 
contabilidade  em  dinheiro  contabilístico,  preenchendo-a  com  unidades  referentes  aos 
processos  concretos.  Num  contexto  social  em  que  as  pressões  para  o  uso  do  dinheiro 
foram  sempre  superiores  à  disponibilidade  efectiva  de  numerário,  e  quando  as  tentati¬ 
vas  de  resolução  deste  problema  através  da  quebra  de  moeda  ocasionavam  os  inconve¬ 
nientes  descritos,  talvez  nem  seja  demasiado  arriscado  pretender  que  qualquer  série  da 
cunhagem  podia  ter  a  vocação  de  vir  futuramente  a  ser  usada  como  dinheiro  contabilís¬ 
tico  com  o  seu  valor  originário,  quando  as  novas  emissões  a  tivessem  depreciado92.  Se 
esta  perspectiva  estiver  correcta,  então  a  função  fundamental  da  moeda  neste  período 
não  seria  a  de  servir  de  meio  de  pagamento,  mas  de  unidade  contabilística93. 


**  Vários  autores  afirmam  que  não  existiu  neste  período  qualquer  dinheiro  contabilístico  que  fosse 
absolutamente  independente  da  moeda  material.  Ver  por  exemplo:  R.  de  Roover  (1948)  221,  223:  H. 
van  Werveke  ( 1934)  124,  145.  Com  o  argumento  de  que  todos  os  sistemas  de  dinheiro  contabilístico 
se  referiam  a  peças  efectivamente  cunhadas.  A.  Evans  (1930-1931)  495  pretende  que  nenhum  deles 
podia  constituir  um  padrão  estável  de  valores.  Na  realidade,  porém,  o  dinheiro  contabilístico  referia- 
-se  ao  valor  de  dados  pesos  de  metal  precioso. 

89  H.  van  Werveke  (1934)  124. 

Segundo  id..  ibid.,  128-129,  era  deste  tipo  o  dinheiro  contabilístico  usado  no  reino  de  França  no 
final  do  século  XIII  e  no  século  XIV,  bem  como,  durante  este  mesmo  século,  na  Flandres.  No  vizinho 
Brabante,  no  final  do  século  XIV.  id.,  ibid.,  132  indica  que  este  tipo  de  dinheiro  contabilístico  era 
também  empregue,  embora  não  exclusivamente.  M.  Bioeh  (1935  cl  324-325  distingue  os  casos  em 
que  o  dinheiro  contabilístico  assentava  em  peças  emitidas  no  interior  da  mesma  área  de  soberania  e 
aqueles  em  que  tomava  por  base  emissões  estrangeiras.  No  entanto,  dadas  as  consequências  da  lei  dita 
de  Gresham,  não  creio  que  neste  período  tal  separação  mantivesse  o  significado. 

90  H.  van  W'erveke  ( 1934)  1 23. 

No  final  do  século  XIV,  no  Brabante,  id.,  ibid..  132  afirma  que  se  usava  este  tipo  de  dinheiro  con- 
tabilístico,  concorrentemente  com  o  tipo  anterior. 

91  Foi  o  que  sucedeu  no  Forez,  no  Lyonnais  e  no  Delíinado,  no  século  XIV,  a  crer  em  E.  Foumial 
(1963)  586-587  e  1 1 967 )  384. 

92  M.  Bloch  (1935  c)  324;  id.  ( 1953)  153,  id  (1954)  40.  48. 

9  2  J.  Bichot  ( 1984)  97  afirma  que  a  principal  função  do  numerário  era  servir  de  unidade  contabi- 
lística.  Por  seu  lado.  E.  Bridrey  (1906)  110-111.  143  e  145  chama  repetidamente  a  atenção  para  o 


138 


Forma  /  do  dinheiro 


A  quebra  da  moeda,  que  vimos  (no  capítulo  2.d)  ter  fornecido  o  quadro  para  a  difusão 
entre  as  camadas  mais  pobres  de  formas  de  dinheiro  fiduciário,  definiu  também  o  con¬ 
texto  em  que  deve  pensar-se  o  dinheiro  contabilístico.  Ainda  ao  nível  especificamente 
conceptual  foi  a  moeda  que  prevaleceu  neste  período.  Tem  de  se  distinguir  rigorosamente 
entre  os  pagamentos  em  géneros  numa  zona  e  num  período  em  que  os  géneros  podiam 
ser  usados  correntemente  como  dinheiro,  e  em  zonas  e  períodos  em  que  o  dinheiro  se 
reduzia  fundamentalmente  à  moeda  e  em  que  os  padrões  contábil ísticos  tomavam  como 
referência  peças  cunhadas94.  A  generalização  do  dinheiro  contabilístico  retirou  aos  paga¬ 
mentos  em  géneros  a  função  social  que  haviam  podido  desempenhar  anteriormente.  Os 
tributos  em  géneros  pagos  no  começo  do  período,  quando  a  monetarização  da  vida  social 
era  ainda  incipiente,  ou  as  exacções  em  géneros  impostas  pelos  detentores  de  senhorias 
pessoais  para  demarcarem  os  seus  caseiros  relativamente  aos  centros  do  poder  impessoal, 
não  devem  confundir-se  com  as  prestações  em  géneros  cobradas  no  final  do  período, 
num  quadro  social  inteiramente  monetarizado  e  quando  as  senhorias  pessoais  já  haviam 
encontrado  um  lugar  no  interior  do  sistema  impessoal.  Neste  último  tipo  de  situações  os 
pagamentos  em  géneros  não  fugiam  ao  quadro  do  dinheiro-moeda,  porque  lhes  estava 
subjacente  o  recurso  àqueles  tipos  de  dinheiro  contabilístico.  Havia  um  padrão  pecuniᬠ
rio  comum,  que  permitia  avaliar  tanto  os  géneros  como  a  moeda. 

A  imposição  do  dinheiro  contabilístico  exprimiu,  afinal,  a  colocação  de  toda  a 
sociedade  sob  a  égide  da  soberania  de  tipo  impessoal.  O  dinheiro  contabilístico  permi¬ 
tiu  a  sujeição  da  totalidade  do  campesinato  às  novas  relações  de  dependência,  inse¬ 
rindo-o  no  quadro  monetário,  qualquer  que  fosse  a  forma  de  pagamento  efectivo  das 
prestações:  e  possibilitou  a  inclusão  das  senhorias  pessoais  no  nível  inferior  da  hierar¬ 
quia  senhorial  impessoal,  na  medida  em  que  remeteu  todos  os  pagamentos  em  géneros 
para  um  critério  monetário. 

A  tal  ponto  que  no  final  do  período  sucedeu  que  os  senhores  recorressem  aos  géne¬ 
ros  agrícolas  enquanto  padrão  contabilístico  na  avaliação  de  pagamentos  em  numerᬠ
rio95.  Mesmo  em  regiões  de  economia  activamente  comercial  os  cereais  puderam  apare¬ 
cer  como  unidade  contabilística  na  estipulação  das  remunerações,  em  muitos  contratos 


facto  de  neste  período  a  moeda  não  ser  considerada  pelos  teóricos  coevos  como  uma  mercadoria,  mas 
exclusivamente  conto  um  instrumento  de  medida,  pertencente  à  mesma  esfera  das  medidas  de  exten¬ 
são.  de  volume  e  de  peso.  Ver  também  a  este  respeito  a  n.  4  deste  capítulo. 

94  Afirma  P.  Einzig  (1948)  327  que  um  objecto  ou  uma  unidade  abstracta,  empregues  com  fun¬ 
ções  contábil ísticas  para  facilitar  o  escambo,  podem  ser  considerados  dinheiro,  mas  sem  que  se  deva 
definir  o  sistema  como  uma  economia  pecuniária.  Todavia,  quando  prevalecem  as  iransacções  comer¬ 
ciais  julgo  que  o  uso  de  dinheiro  contabilístico  só  deve  entender-se  dentro  do  quadro  monetarizado  da 
economia.  Neste  período  a  troca  de  mercadorias  não  escapava  ao  âmbito  da  moeda,  pois  era  sempre 
mcdiatizada  pelo  recurso  a  formas  de  dinheiro  contabilístico  que  se  refenam  a  peças  cunhadas, 
observa  M.  Bloch  <  1939)  8  e  12-13.  Por  seu  turno.  E.  Bridrey  ( 1906)  144  sublinha  que  a  moeda  inter¬ 
vinha  enquanto  meio  de  avaliação  em  pagamentos  que  frequentemente  se  efectuavam  em  géneros. 
Recorde-se  igualmente  a  este  respeito  a  n.  66  deste  capítulo. 

No  Namurois,  segundo  L.  Genicot  ( 1943-1995)  [  266.  os  valores  eram  frequentemente  calcula¬ 
dos  em  trigo  e  pagos  em  moeda.  Numa  interessantíssima  comunicação,  referente  a  uma  castelania  do 
Delfinado  no  século  XIV.  J.  Bichot  ( 1984)  89.  93-95  e  100-103  fundamenta  a  hipótese  de  que  a  men¬ 
ção  documental  a  pagamentos  em  géneros  e  à  cobrança  de  prestações  em  géneros  pressupusesse  um 
tratamento  económico  e  contabilístico  de  carácter  inieirameme  monetário 


Integração  das  exacções  em  géneros  no  quadro  monetário 


139 


de  angariação  de  mão-de-obra46.  Como  nestes  casos  o  critério  de  conversão  era  inteira¬ 
mente  definido  pelo  mercado97,  isto  representava  uma  forma  altamente  perversa  de 
subordinação  dos  pagamentos  em  géneros  aos  mecanismos  monetários.  Uma  vez  mais, 
não  se  devem  confundir  situações  deste  tipo  com  as  que  se  podiam  encontrar  em  áreas  e 
épocas  onde  ainda  se  mantinham  algumas  tradições  de  independência  rural.  Nas  Astú- 
rias,  por  exemplo,  no  século  XI  e  parece  que  sobretudo  durante  a  primeira  metade  do 
século  XII,  a  medida  de  cereal  foi  correntemente  empregue  não  só  como  meio  de  troca 
e  de  pagamento,  mas  como  unidade  contabilística.  numa  relação  de  equivalência  estável 
com  a  unidade  monetária  e  chegando  até  a  servir  de  padrão  de  referência  aos  preços 
praticados  no  mercado:  para  as  mesmas  finalidades  se  recorreu  ainda  a  bois,  especial¬ 
mente  nas  transacções  de  terras98.  Também  no  território  portucalense,  e  em  seguida  no 
reino  de  Portugal,  é  conhecido  o  emprego  frequentíssimo  das  medidas  de  cereal  e  de 
tecido  enquanto  dinheiro  contabilístico,  sobretudo  até  ao  primeiro  terço  do  século  XII, 
mas  encontrando-se  outros  exemplos  bastante  depois99;  num  documento  da  última 
década  do  século  XI,  referente  à  venda  de  um  terreno,  verifica-se  que  a  medida  de 
cereal,  além  de  servir  para  avaliar  outros  géneros,  foi  usada  igualmente  como  padrão  na 
avaliação  de  moedas1",  e  sucedeu  um  caso  comparável  com  artigos  de  ferro101.  Neste 
contexto  os  camponeses  puderam  ainda  intervir  de  maneira  activa  na  esfera  pecuniária  e 
foram  capazes  de  manter  a  sua  própria  oferta  de  dinheiro,  tratando-se  por  isso  de  um 
verdadeiro  dinheiro-géneros  a  desempenhar  funções  contabilísticas102.  Enquanto  mais 


96  Foi  o  que  aconteceu  no  Namurois,  segundo  L.  Genicot  (1943-1995)  1  304. 

97  ld..  ibid..  I  267-268. 

Referindo-se  ao  actual  Congo,  a  antiga  colónia  belga,  P.  Einzig  (1948)  165  mostra  que  o  tecido 
podia  ser  empregue  enquanto  medida  do  valor  e  enquanto  meio  de  troca  sem  estar  presente  material¬ 
mente  na  transacção.  Os  dois  transaccionantes  discutiam  primeiro  a  operação  em  termos  do  valor  em 
tecido  e.  em  seguida,  debatiam  quais  os  bens  susceptíveis  de  corresponder  em  valor  ao  montante  de 
tecido  já  convencionado. 

9K  S.  Aguade  Nieto  [1988]  277.  280-281,  293-295;  C.  Sánchez-Albomoz  (1928)  310-311;  id. 
(1980)88. 

99  Em  H.  G.  Barros  (1945-1954)  são  tão  frequentes  as  menções  ao  emprego  das  medidas  de  cereal 
e  de  tecido  para  avaliar  outros  géneros,  tanto  produtos  agrários  como  artigos  manufacturados  e  inelu- 
sivamente  objectos  de  metal  precioso,  que  se  toma  impossível  indicar  aqui  todas  essas  passagens.  É 
lastimável,  aliás,  que  aquela  edição  da  obra  de  Gama  Barros  não  inclua  um  índice  de  assuntos,  o  que 
talvez  se  possa  tomar  como  sintoma  dos  métodos  usualmente  em  vigor  entre  os  compatriotas  do  notᬠ
vel  historiador. 

100  Id.,  ibid..  X  56  n.  5  -  57  n.  com. 

101  A.  Castro  ( 1964-1979)  IV  35  regista  o  uso  de  objectos  de  ferro  para  funções  de  dinheiro  conta¬ 
bilístico,  na  comutação  monetária  de  tributos,  enquanto  critério  do  montante  que  devia  ser  pago. 

I0-  Depois  de  analisar  a  cronologia  da  utilização  do  gado  bovino  como  dinheiro  contabilístico  e 
como  meio  de  troca  nas  Astiirias,  S.  Aguade  Nieto  [1988]  294  conclui  que  não  se  tratou  de  um  tipo  de 
dinheiro  que  substituísse  a  moeda,  mas  de  um  antecedente  histórico  da  moeda.  Por  outro  lado,  quando 
leio  tpp.  296-297)  que  entre  os  meados  do  século  XI  e  os  meados  do  século  seguinte  as  grandes 
senhorias  asturianas  se  dedicaram  activamente  à  criação  de  gado,  posso  formular  a  hipótese  de  que 
também  nesta  esfera  dos  géneros-dinheiro  a  aristocracia  tivesse  enfrentado  a  sociedade  camponesa.  É 
interessante  considerar  que  nas  regiões  portuguesas  entre  os  rios  Douro  e  Tejo,  segundo  R.  Durand 
( 1982)  238-242.  o  uso  da  moeda  em  funções  contabilísticas  deu  lugar,  no  segundo  terço  do  século  XI, 
ao  emprego  de  géneros,  especialmente  medidas  de  cereal.  Será  que  também  neste  caso  se  podem  apli¬ 
car  as  conclusões  a  que  chegou  Santiago  Aguade? 


140 


Forma  I  do  dinheiro 


tarde,  quando  todas  as  manifestações  da  sociedade  rural  haviam  já  sido  completamente 
assimiladas  pelo  regime  senhorial,  o  uso  ocasional  de  géneros  enquanto  padrão  contabi- 
lístico  ocorreu  sob  a  égide  do  dinheiro-moeda. 

Em  conclusão,  a  Forma  I  do  dinheiro  constituiu  um  quadro  muito  mais  amplo  do 
que  a  circulação  estritamente  monetária.  A  área  coberta  pela  hegemonia  da  Forma  1  do 
dinheiro  foi  mais  vasta  do  que  a  área  marcada  pelos  percursos  da  moeda. 


CAPÍTULO  5 

VEICULAÇÂO  MONETÁRIA  DO  MUNDIUM 


Se  a  moeda,  na  Forma  I  do  dinheiro,  permitiu  o  exercício  impessoal  do  bannum  e,  a 
partir  daí.  possibilitou  a  reorganização  da  totalidade  dos  sistemas  de  dependência,  isto 
significa  que  também  o  mundium  passou  a  ser  veiculado  monetariamente.  Aquelas  duas 
instituições  operavam  sempre  articuladas,  e  o  mesmo  poder  que  de  um  lado  se  exprimia 
no  rigor  das  exigências  apresentava,  para  o  outro  lado,  a  sua  face  benévola.  O  mundium 
forneceu  uma  terceira  oportunidade,  além  do  assalariamento  e  das  transacções  no  mer¬ 
cado,  para  difundir  o  dinheiro-moeda  entre  o  campesinato. 


M.  Caridade 

A  expressão  mais  evidente  do  mundium  foram  as  esmolas,  que  os  senhores  eclesiás¬ 
ticos  e  laicos  distribuíam  regularmente  aos  mendigos  e  a  toda  a  população  humilde  por 
ocasião  das  más  colheitas  ou  de  outras  catástrofes1 2.  A  ajuda  prestada  pela  classe  senho¬ 
rial  aos  servos  não  constituía  apenas  um  componente  indispensável  à  reprodução  do 
processo  de  exploração  (ver  o  capítulo  16. a  da  Parte  I).  Estreitamente  associada  ao 
bannum ,  a  concessão  desses  auxílios  revelava  por  isso  tão  iniludivelmente  a  autoridade 
como  o  fazia  o  direito  de  pilhar  ou  de  punir.  Não  foi  outra,  aliás,  a  legitimação  ideoló¬ 
gica  do  principal  imposto  cobrado  pela  senhoria  de  carácter  impessoal,  que  se  apresen¬ 
tava  como  o  preço  pago  pela  população  para  beneficiar  da  protecção  do  senhor.  Neste 
contexto  genérico,  repartir  esmolas  era  a  maneira  mais  aparatosa  de  socorrer  os  neces¬ 
sitados.  revestindo-se  da  mesma  solenidade  que  inspirava  os  outros  actos  do  poder3.  Os 


1  W.  M.  Bowsky  ( 1970)  30-32;  ui.  (1981)  20;  G.  Duby  (1962)  572:  id.  (1973)  189:  R.  Grand  et  al. 
(1950)  221  e  segs.;  L.  K.  Little  (1978)  8.  68;  A  -G.  Manry  (org.  1974)  188;  M.  Mollat  (1978)  53  e 
aegs.,  165  e  scgs.:  id.  et  al.  ( 1970)  87;  E.  Sabbe  (1934)  184-185. 

Em  Inglaterra,  todavia,  na  segunda  década  do  século  XIV,  numa  ocasião  de  fome  generalizada  e 
de  epidemias,  1.  Kershaw  (1973)  11-12  informa  que  os  senhores  laicos  e  eclesiásticos  adoptaram 
várias  medidas  destinadas  a  reduzir  as  despesas,  decidindo  também  reduzir  o  montante  global  das 
esmolas  ou  mesmo  cancelar  a  sua  distribuição. 

2  H.  Dubled  ( 1960  c)  42. 

3  Nos  estabelecimentos  eclesiásticos,  L.  K.  Little  (1978)  67-68  indica  que  a  caridade  fazia  parte 
do  próprio  ritual  litúrgico. 


142 


Forma  1  do  dinheiro 


soberanos,  assim  como  se  rodeavam  de  uma  corte  de  magnates,  pode  dizer-se  também 
que  se  faziam  acompanhar  por  um  séquito  de  mendigos,  e  distribuir  benesses  a  uns  era 
decerto  tão  relevante  como  gratificar  os  outros4.  A  moral  da  época  via  na  generosidade 
uma  das  atitudes  que  permitiam  a  alguém  ostentar  a  qualidade  aristocrática  e,  na  tradi¬ 
ção  do  que  sucedera  no  período  anterior,  o  reino  dos  céus  abria-se  especialmente  aos 
poderosos,  os  únicos  a  poderem  praticar  a  virtude  da  caridade5.  Por  isso  a  elite  mercan¬ 
til.  enriquecida  pelos  negócios  e  esforçando-se  por  adoptar  os  padrões  e  o  comporta¬ 
mento  da  velha  nobreza,  demonstrava  a  mesma  beneficência  e  magnanimidade  que  os 
outros  grandes  senhores6.  Não  se  tratava  só  de  um  imperativo  ético,  nem  de  uma  actua- 
ção  resultante  de  cálculos  meramente  económicos,  mas  de  uma  verdadeira  questão 
política,  ou  mesmo,  no  final  do  período,  quando  a  soberania  impessoal  começou  a  atin¬ 
gir  dimensões  realmente  significativas,  de  uma  questão  de  Estado.  Para  enfraquecer  e 
desarticular  as  clientelas  que  rodeavam  as  grandes  famílias  urbanas  e  em  que  elas  se 
apoiavam  nos  conflitos  entre  facções,  sucedeu  que  os  monarcas  ou  os  governos  de 
algumas  cidades  promulgassem  por  vezes  legislação  que.  além  de  limitar  o  número  de 
pessoas  presentes  nas  cerimónias  familiares,  proibia  igualmente  a  distribuição  maciça 
de  dádivas7.  O  exercício  da  generosidade  revelava-se  tanto  um  factor  de  prestígio  como 
uma  maneira  de  angariar  apoiantes,  e  dar  esmolas  não  era  um  gesto  marginal,  con¬ 
tando-se,  pelo  contrário,  entre  as  preocupações  centrais  da  época. 

Quanto  àqueles  que  viviam  de  donativos,  convém  recordar  que  os  mendigos  ambu¬ 
lantes  não  formavam  uma  categoria  social  que  se  demarcasse  claramente  dos  trabalha¬ 
dores  prebendados  por  curto  prazo8.  Esmolar  num  dia,  assalariar-se  no  dia  seguinte, 
roubar  no  intervalo  era  um  modo  de  vida9.  Aliás,  pôde  suceder  que  no  processo  inicial 
de  desenvolvimento  urbano  os  mendigos  adscritos  a  um  estabelecimento  monástico  dos 
subúrbios  se  convertessem  em  membros  da  arraia-miúda  quando  a  cidade  passava  a 
incluir  o  território  imediatamente  vizinho10.  Vemos  novamente  como  o  assalariamento. 


4  Vemos  em  M.  Bloch  (1924)  96-97,  1 14  e  319-320  como  os  rituais  que  presidiam  ao  desempe¬ 
nho  de  funções  taumatúrgicas  pelos  reis  de  França  e  da  Inglaterra  tinham  por  fundamento  a  relação 
especial  que  estes  monarcas  mantinham  com  os  pedintes.  No  reino  de  Valência,  no  segundo  terço  do 
século  XIII.  R.  I.  Bums  (1967)  121  índica  que  Jaime  I  alimentava  regularmente  cem  mendigos  por 
dia.  Mais  modestameme.  A.  Higounet-Nadal !  1978)  1 12-1 13  esclarece  que  se  situava  entre  quatro  mil 
e  seis  mil  o  número  dos  que  beneficiavam  anualmente  das  distribuições  de  came  e  de  pão  que  os  côn¬ 
sules  da  cidade  de  Périgueux  organizavam  no  Inverno  e  no  Verão,  durante  os  séculos  XIV  e  XV. 

5  E.  Delamelle  (1965)  228-229. 

A  propósito  da  situação  em  Florença  no  final  do  período,  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  108-109  comen¬ 
tam  que  para  os  ricos  a  avareza  era  considerada  um  defeito,  esperando-se  que  eles  fossem  generosos  e 
magnificentes. 

6  G.  Duby  (1953)  402;  L.  K.  Little  (1978)  8;  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  408. 

7  J.Heersi  1974)  87-89. 

G.  Duby  ( 1962)  224  observa  que  numerosos  indigentes  se  alimentavam  à  porta  das  grandes  casas 
aristocráticas  das  cidades,  para  onde  convergiam  em  abundância  géneros  provenientes  dos  seus  con¬ 
juntos  senhoriais. 

8  Ver  no  capítulo  2  a  n.  148. 

y  Quando  a  aristocracia  inglesa,  numa  época  de  calamidade,  decidiu  reduzir  drasticamente  o  mon¬ 
tante  global  das  esmolas,  1.  Kershaw  ( 1973)  12-13  assinala  a  ocorrência  de  uma  vaga  de  roubos,  o  que 
me  parece  confirmar  a  equivalência  prática  existente  entre  a  caridade  e  a  pilhagem. 

111 J.  Lesiocquoy  ( 1966)  24. 


Veiculação  monetária  do  mundium 


143 


que  viria  a  ser  um  dos  génnens  do  capitalismo,  encontrou  de  início  o  seu  lugar  no  sis¬ 
tema  de  troca  de  presentes. 

Nesta  perspectiva,  compreende-se  a  importância  que  a  esmola  teve  para  os  movi¬ 
mentos  heréticos,  e  mesmo  para  aqueles  empreendimentos  de  reforma  religiosa  que  só 
afloraram  a  subversão  ideológica  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  17.c).  Viver  exclusivamente 
de  esmolas,  peregrinando  sem  trabalhar  ou,  pelo  menos,  sem  aceitar  uma  ocupação 
fixa,  e  mantendo-se  exterior  ao  quadro  das  famílias,  das  colectividades  e  das  organiza¬ 
ções  de  ofícios,  que  espartilhava  toda  esta  sociedade,  correspondia  a  aceitar  alguns 
efeitos  do  mundium ,  ao  mesmo  tempo  que  se  rejeitavam  os  lermos  do  bannum.  O  revés 
da  mendicidade  era  a  pilhagem,  tendo  ambas  a  mesma  função  económica,  embora  com 
uma  conotação  ideológica  distinta,  pois  o  direito  de  saquear  reservava-se  aos  senhores, 
e  a  gente  humilde  que  o  exercesse  colocava-se  em  franco  antagonismo  para  com  toda  a 
hierarquia  social.  Quando  se  analisam  os  grandes  movimentos  contestatários  de  massa 
neste  período,  verificamos  que  para  eles  esmolar  e  roubar  eram  actividades  indissociᬠ
veis,  servindo  uma  para  nos  esclarecer  as  implicações  da  outra.  O  pregador  errante  que 
estendia  a  mão  pelos  caminhos,  à  porta  dos  casebres  das  aldeias  e  nas  praças  das  cida¬ 
des.  esta  figura  mítica,  e  tão  real,  do  protesto  religioso,  era  uma  imagem  viva  de  recusa 
dos  quadros  sociais  prevalecentes.  Daí  a  sedução  com  que  atraía  os  humildes  e  o  risco 
que  representava  para  os  poderosos.  Mesmo  aqueles  movimentos,  tanto  de  cariz  direc- 
tamente  religioso  como  mais  difusamente  político,  que  no  final  do  período  converteram 
a  apologia  da  pobreza  voluntária  em  eleição  da  pobreza  social  e  aceitaram  o  desempe¬ 
nho  de  ocupações  fixas  e  a  inserção  em  colectividades  regulares,  numa  oscilação  ambí¬ 
gua  entre  a  radicalização  da  contestação  e  a  adaptação  gradual  à  sociedade  que  censu¬ 
ravam,  mesmo  eles  mantiveram-se  apegados  ao  símbolo  do  pedinte  e  peregrino.  Lugar 
de  exercício  do  poder,  a  caridade  era  por  isso  duplamente  perigosa,  para  os  pobres  por¬ 
que  representava  o  culminar  dos  mecanismos  de  exploração,  para  a  aristocracia  porque 
dava  ensejo  à  mais  fundamental  das  contestações.  Para  se  integrar  plenamente  no  fun¬ 
cionamento  do  regime  senhorial  -  e  só  nestes  moldes  o  seu  estudo  cabe  numa  perspec¬ 
tiva  sincrónica  -  a  distribuição  de  esmolas  devia  realizar-se  apenas  no  interior  de  insti¬ 
tuições  solidamente  controladas  pela  classe  dominante  e  tinha  de  se  rodear  de  todo  um 
aparato  de  autoridade,  mediante  cerimoniais  próprios. 

O  recurso  extensivo  ao  numerário  enquanto  instrumento  das  relações  de  dependên¬ 
cia  modificou  .substancialmente  aqueles  rituais.  Se  os  circuitos  da  Forma  I  do  dinheiro 
serviam  para  vincar  uma  situação  de  inferioridade  social,  e  se  a  caridade  constituía  uma 
das  modalidades  da  relação  genérica  de  exploração,  então  é  natural  que  ocorresse  a 
monetarização  das  esmolas.  Já  no  período  anterior,  sobretudo  à  medida  que  nos  aproxi¬ 
mávamos  do  seu  final,  encontrámos  exemplos  cada  vez  mais  frequentes  de  concessão 
de  donativos  em  moeda11.  O  hábito  decerto  se  ampliou  neste  segundo  período12,  e  é 


1 1  Ver  na  Parte  I  a  n.  49  tio  capítulo  28. 

12  P.  Bonnassie  (1978)  288;  W.  J.  Courtenay  (1972-1973)  285-286;  G.  Duby  (1952)  158;  id. 
(1973)  189;  M.  Mollat  (1978)  65;  H.  van  Wervcke  (1932)  465-466. 

Outra  modalidade,  que  G.  Duby  (1952)  158-159  regista  para  a  abadia  de  Cluny  no  começo  do 
periòdo,  consistia  no  uso  de  numerário  para  comprar  géneros,  destinados  a  ser  depois  distribuídos 


144 


Formo  I  do  dinheiro 


esclarecedor  verificar  a  sensibilidade  que  peio  menos  algumas  correntes  de  crítica  reli¬ 
giosa  manifestaram  perante  esta  evolução,  pretendendo  aceitar  apenas  esmolas  em 
géneros13.  A  monetarização  da  caridade  aparecia-lhes,  sem  dúvida,  como  uma  intro¬ 
missão  demasiado  flagrante  do  batinum  numa  área  que  se  pretendia  reservar  a  expe¬ 
riências  espirituais  de  outro  tipo. 

Aliás,  no  contexto  de  uma  difusão  da  dependência  impessoal,  não  foi  só  o  veículo 
da  caridade  que  sofreu  alterações,  mas  ficaram  igualmente  transformados  os  moldes  do 
seu  exercício.  Apesar  de  se  encontrarem  muitas  referências  à  concessão  individual  de 
esmolas,  parece  que  neste  período  se  revelou  uma  preferência  pela  sua  distribuição 
através  de  instituições  senhoriais  de  carácter  colectivo,  tanto  os  governos  das  cidades14, 
enquanto  chefes  de  amplas  famílias  senhoriais  artificiais,  como  corporações  e  confra¬ 
rias13,  e  ainda  estabelecimentos  eclesiásticos16,  que  podem  considerar-se  também  como 
uma  modalidade  de  senhor  colectivo.  Talvez  contribuísse  para  esta  tendência  o  facto  de 
os  heréticos  terem  começado  a  difundir  o  tema  da  pobreza  voluntária  como  um  lugar 
privilegiado  de  contestação  ideológica  e  prática,  o  que  obrigaria  a  classe  dominante  a 
reforçar  o  quadro  institucional  onde  pretendia  concentrar  toda  a  caridade  legítima. 
Neste  sentido,  a  autoridade  das  colectividades  senhoriais  era  decerto  superior  à  da 
esmagadora  maioria  dos  senhores,  individualmente  considerados.  Por  uma  razão  ou  por 
outra,  a  impessoalidade  do  instrumento  monetário  da  esmola  passou  a  corresponder 
também  a  uma  certa  impessoalidade  dos  agentes. 

As  modificações  operadas  neste  período  foram  mais  significativas  ainda,  porque, 
contrariamente  ao  que  sucedera  antes  do  século  X1,  começou  a  proceder-se  a  cunha¬ 
gens  especiais  de  moeda,  exclusivamente  destinadas  a  servir  de  esmola18.  Aliás,  a 

como  esmola.  A  combinação  do  dinheiro  com  os  géneros  na  prática  da  caridade  podia  ocasionar  situa¬ 
ções  muito  complexas,  como  se  verifica,  por  exemplo,  num  caso  narrado  por  E.  Sabbe  (1934)  184 
- 185.  No  último  quartel  do  século  X,  durante  uma  época  de  más  colheitas  e  de  fome,  o  bispo  de  Ratis- 
bona  deu  ordem  aos  seus  agentes  para  venderem  o  trigo  a  metade  do  preço  aos  mercadores  vindos  de 
regiões  distantes,  com  a  condição  de  estes,  por  sua  vez.  distribuírem  gratuitamente  aos  pobres  dos 
seus  lugares  de  domicílio  metade  do  cereal  que  haviam  adquirido.  Assim,  uma  esmola  que  o  prelado 
havia  concedido  em  termos  pecuniários  foi  efectivada  em  géneros  pelos  negociantes. 

13  L.  K.  Little  (1978)  164-165  e  201-202  afirma  que  inicialmente  os  franciscanos,  e  em  menor 
grau  os  dominicanos,  se  negavam  a  manipular  dinheiro,  recusando  mesmo  donativos  em  numerário, 
mas  a  partir  da  terceira  década  do  século  XIII  a  Ordem  dos  Franciscanos  foi  aceitando  progressiva¬ 
mente  a  economia  monetária. 

14  W.  M.  Bowsky  (1970)  30-31:  id.  (1981)  20;  A.  Higounet-Nadal  1 1978)  112-113. 

15  W.  J.  Courtenay  (1972)  197:  id.  (1972-1973)  283:  G.  Duby  1 1953)  402:  M.  Mollat  ( 1978)  165  e 
segs..  189. 

1(3  G.  Duby  (1952)  157;  id.  ( 1953)  349;  id.  (1973)  189;  R.  Grand  et  al.  (1950)  221  e  segs.;  J.  Les- 
tocquoy  (1966)  24;  L.  K.  Little  (1978)  67-68:  M  Mollat  ( 1978)  53  e  segs.,  165  e  segs.;  id.  et  al. 
(1 970)87. 

No  último  quartel  do  século  XI.  1/3  do  rendimento  líquido  da  abadia  de  Cluny  era  destinado  a 
esmolas  e  a  despesas  com  os  hóspedes,  consoante  afirma  G.  Duby  (1952 1  158.  Todavia.  W.  J.  Courte¬ 
nay  (1972-1973)  284.  286  e  288-289  previne  que  a  intervenção  das  instituições  religiosas  leria  decli¬ 
nado  ao  longo  do  tempo,  verificando-se  uma  tendência  para  a  laicização  da  caridade.  Com  efeito,  no 
final  do  período  os  mosteiros  ingleses  distribuíam  em  caridade  entre  \%  e  3C<  apenas  dos  seus  rendi¬ 
mentos,  a  crer  em  C.  M.  Cipolla  (1976)  22. 

17  Ver  a  n.  48  do  capítulo  28  da  Parte  I 

18  W.  J.  Courtenay  (1972)  197:  id.  (1972-1973)  286:  Ph  Grierson  ( 1954  c)  304;  id.  <  1976  a)  69. 


Veicularão  monetária  do  mundium 


145 


grande  amplitude  atingida  pelas  formas  impessoais  de  relacionamento  na  sociedade  em 
geral  explica  a  adopção  por  algumas  instituições  de  caridade  de  mecanismos  caracterís¬ 
ticos  das  associações  comerciais19,  e  até  a  inclusão  destas  operações  no  âmbito  fiduciᬠ
rio.  Parece  que  sobretudo  no  norte  da  França,  nos  Países  Baixos  e  na  Itália  setentrional, 
mas  também  em  outras  áreas  incluídas  no  império  germânico,  a  partir  dos  meados  ou 
finais  do  século  XIII,  muitas  instituições,  tanto  laicas  como  religiosas,  puseram  em 
circulação  certas  peças  metálicas  restritas  a  funções  caritativas,  cujo  valor  nominal  não 
correspondia  ao  conteúdo  intrínseco,  pois  eram  fabricadas  com  matéria-prima  de 
baixíssimo  custo.  Tive  já  oportunidade  de  observar  (no  capítulo  2,d)  que  se  ampliou 
assim  o  leque  social  dos  utentes  da  Forma  I  do  dinheiro.  E  como  a  distribuição  inicial 
dessas  senhas  metálicas  estava  ligada  à  matrícula  dos  mendigos,  vemos  uma  vez  mais 
que  a  circulação  de  instrumentos  simbólicos  com  emissão  artificialmente  reduzida,  fos¬ 
sem  moedas  ou  peças  de  outro  tipo.  implicava  sempre  a  inserção  nos  circuitos  de  poder 
de  quem  as  havia  emitido.  Além  disso,  aquelas  formas  de  dinheiro,  de  carácter  acentua- 
damente  fiduciário,  ao  alargarem  o  âmbito  da  sua  circulação  e,  passando  dos  mendigos 
aos  pequenos  comerciantes,  ao  disseminarem-se  a  partir  daí  pelo  público  em  geral20, 
serviram  também  para  assinalar  a  importância  conquistada  em  cada  localidade  pelas 
instituições  emissoras.  Alcançar  uma  posição  de  destaque  na  esfera  do  mundium  era 
interpretado,  e  com  razão,  como  um  reforço  do  bannuni. 


b.  Crédito 

A  caridade,  que  podemos  considerar  como  a  fachada  de  aparato  do  mundium.  e 
onde  por  conseguinte  se  repercutiam  os  aspectos  ideológicos  fundamentais,  não  consti¬ 
tuía,  em  termos  estritamente  económicos,  a  sua  faceta  mais  importante.  O  mundium 
operava  no  interior  dos  próprios  mecanismos  correntes  da  vida  económica,  inspirando 
todos  os  adiantamentos  de  animais,  de  alfaias,  de  adubos  ou  sementes  com  que  os 
senhores  beneficiavam  os  servos  em  várias  formas  de  concessão  dos  casais.  Como  o 
caseiro  ficava  obrigado  a  prestações  estreitamente  relacionadas  com  aquilo  que  havia 
recebido,  o  bannum  e  o  mundium  eram  inseparáveis  nos  contratos.  E  esta  situação  não 
atingia  apenas  os  estratos  mais  pobres  da  classe  servil,  mas  igualmente  aqueles  rurais 
interessados  numa  actividade  pioneira  e  capazes  de  promover  a  ampliação  das  suas  cul¬ 
turas.  Devido  ao  custo  relativamente  elevado  dos  novos  instrumentos  agrícolas  surgidos 
com  o  desenvolvimento  tecnológico,  se  os  servos  pretendiam  aumentar  a  produtividade 
do  seu  trabalho  não  lhes  restava  com  frequência  outro  recurso  senão  o  de  contrair 
empréstimos21.  Assim,  através  do  crédito  os  senhores  apropriavam-se  antecipadamente 
de  uma  parte  substancial  do  aumento  da  produção  camponesa  permitido  pelo  progresso 
tecnológico. 


19  M.  Mollat  ( 1978)  1X8-189, 

2,1  Quanlo  às  emissões  de  senhas  metálicas  de  carácter  fiduciário  e  destinadas  a  funções  de  cari¬ 
dade,  ver:  W.  J.  Courtenay  ( 1972)  197-199:  id.  (1972-1973)  277,  282-284,  288-290:  J.  Labrot  ( 1989) 
13,80-81;  M.  Mollat  (1978)  189-190:  M.  Pastotireau  ( 1984)  39;  P.  Spufford  (1988)  332. 

21  G.  Duby  (1962)  207;  id.  (1973)  221-222. 


146 


Forma  1  do  dinheiro 


Progressivamente,  os  adiantamentos  realizados  em  géneros  começaram  a  transfor- 
mar-se  em  empréstimos  de  dinheiro-moeda,  o  que  representou  mais  um  aspecto  da 
penetração  das  senhorias  pessoais  pelos  mecanismos  do  relacionamento  impessoal.  E 
como.  ao  mesmo  tempo,  o  auxílio  que  nos  maus  anos  agrícolas  os  senhores  podiam 
prestar  aos  camponeses  do  seu  território  passou  também  a  ter  uma  componente  pecu¬ 
niária  cada  vez  mais  acentuada-2,  ambas  as  modalidades  se  confundiam  nos  circuitos 
monetários. 

Aliás,  mesmo  numa  data  tardia  é  impossível  traçar  uma  demarcação  nítida  entre  a 
esmola  e  o  crédito23,  tanto  mais  que  os  estabelecimentos  religiosos,  que  julgaríamos 
especialmente  vocacionados  para  o  exercício  da  caridade,  se  contaram  entre  os  grandes 
prestamistas  no  meio  rural24  e  até  membros  do  clero  procediam  pessoalmente  a 
empréstimos  monetários25.  As  próprias  categorias  jurídicas  coevas  definiam  modalida¬ 
des  em  que  o  auxílio  caritativo  se  conjugava  com  aspectos  decorrentes  do  crédito26. 
Mas  mesmo  quando  a  lei  escrita  ou  as  normas  consuetudinárias  impunham  diferencia¬ 
ções,  na  prática  umas  formas  podiam  converter-se  em  outras,  ou  ocorriam  casos  híbri¬ 
dos,  a  tal  ponto  que  operações  que  hoje  não  hesitaríamos  em  classificar  como  emprésti¬ 
mos  eram  remetidas  para  o  âmbito  da  caridade,  acabando  os  vínculos  do  juro  por  se 
confundir  com  as  relações  de  clientela2' 

22  Ver  neste  capítulo  a  n.  12. 

24  Na  Auvergne  do  século  XIV,  informa  A.-G.  Manry  (org.  1 074)  188,  os  senhores  distribuíam 
esmolas  aos  pobres  e  adiantavam  cereal  para  facilitar  as  sementeiras,  ao  mesmo  tempo  que  estabele¬ 
ciam  relações  de  crédito  com  os  seus  servos.  Entretanto,  a  crer  em  J.  Piquet  (1939)  246,  para  estimu¬ 
lar  a  colonização  do  seu  território  a  Ordem  Teutónica  facilitava  aos  camponeses  empréstimos  sem 
juros.  Um  caso  cm  que  o  crédito  e  o  auxílio  aparecem  estreitamente  ligados  na  Flandres  do  início  do 
século  Xin  é  narrado  por  M.  Mollat  1 195 1 )  516. 

24  M.  Bouard  (org.  1970)  161:  C.  B.  Bouchard  (1987)  220.  222:  A.  Bouton  (1975  1976)  II  619. 
637;  A.  Chédeville  (1974)  317;  R.  Fossier  (1968)  613;  id.  (org.  1974)  132-133;  J.  A.  Garcia  de  Corta- 
zar  etc.  (1969)  190-191:  R.  Génestal  ( 1901)  i,\,  186;  J.  E.  Madden  ( 1963)  347-348;  R.  Pastor  (1980  a) 
62-63;  C.  Violante  (1962)  147,  437  e  segs.;  H.  van  Werveke  (1929)  60  e  segs. 

Segundo  G.  Duby  (1973)  258-259.  o  papel  dos  estabelecimentos  eclesiásticos  enquanto  institui¬ 
ções  de  crédito  teria  diminuído  ao  longo  do  século  XII.  H.  van  Werveke  (1932)  457  afirma,  porém, 
que  na  Flandres  e  na  antiga  Lotaríngia  só  a  partir  do  século  XII  os  estabelecimentos  religiosos  passa¬ 
ram  a  assumir  funções  de  prestamista.  Todavia,  na  actual  Bélgica  e  no  norte  da  França  os  centros  reli 
giosos  teriam  praticado  o  crédito  em  larga  escala  desde  o  século  X  até  ao  século  XIII,  a  crer  em 
F.  Vercauteren  (1961)  300-301.  Quanto  à  Catalunha  no  começo  do  período.  P.  Bonnassie  (1975- 
-1976)  400-401  considera  que  os  mosteiros  procediam  raramente  a  empréstimos,  os  quais  se  deviam 
sobretudo  a  membros  das  camadas  inferiores  do  clero  urbano. 

25  P.  Bonnassie  (1975-1976)  401;  G.  Duby  ( 1962)  496;  R.  Pastor  (1980  a)  62-63. 

26  A.  Chédeville  (1974)  315  e  H.  van  Werveke  (1929)  54-55  consideram  que  os  vifs-gages.  não 
ocasionando  o  pagamento  de  juros,  estavam  próximos  das  acções  de  caridade.  Acerca  desta  modali¬ 
dade  de  crédito  ver  neste  capítulo  a  n.  43. 

2  Comentando  a  situação  na  Toscana,  P  J.  Jones  1 1968)  225  indica  que  nos  contratos  de  mezza- 
dria  era  frequente  que  os  agricultores  acabassem  por  cair  em  dívida.  Precisamente  no  território  floren- 
tino.  no  Final  do  período.  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  106-107  e  1 19-120  escrevem  que  os  empréstimos 
que  os  senhores  adiantavam  regularmente  aos  mezzadh ,  tanto  em  géneros  ou  animais  como  em 
dinheiro,  não  eram  considerados  pelas  autoridades  como  operações  de  crédito,  com  as  obrigações  ine¬ 
rentes.  mas  como  uma  forma  de  relacionamento  parafannliar,  de  tipo  domestico.  Ora.  os  caseiros  não 
conseguiam  geralmente  pagar  a  dívida  e  a  sua  dependência  Ficava  agravada,  mas  os  autores  mostram 
que  esta  situação  se  processava  em  termos  de  conotação  paternalista,  e  não  financeira 


Veicularão  monetária  do  mundium 


147 


Numerosos  historiadores  interpretam  esta  situação,  que  para  uma  mentalidade 
actual  é  bastante  ambígua,  como  reveladora  do  recurso  a  formas  disfarçadas  de  usura28. 
Mas  terei  oportunidade  de  mostrar  (no  capítulo  12.b)  que,  ao  invés  do  que  é  corrente 
afirmar,  as  autoridades  religiosas  não  proibiram  todos  os  empréstimos  a  juros,  e  as  nor¬ 
mas  eclesiásticas  que  com  efeito  existiram,  e  que  podiam  limitar  a  actividade  usurária, 
não  foram  geralmente  respeitadas  na  prática,  nem  sequer  pelo  próprio  clero.  As  varia¬ 
díssimas  modalidades  de  empréstimo  vigentes  naquela  época  evoluíram,  algumas  delas 
convergindo  em  formas  únicas,  que  só  posteriormente  deram  lugar,  pelo  menos  em 
parte,  ao  sistema  de  crédito  contemporâneo,  depois  de  a  sociedade  ter  sido  abalada  de 
cima  a  baixo  e  reestniturada  por  completo.  Pretender  avaliar  consoante  padrões  capita¬ 
listas  os  mecanismos  do  crédito  operantes  entre  os  séculos  XI  e  XI V  é  um  anacronismo 
que  retira  à  história  qualquer  dimensão.  Os  credores  daquela  época  não  poderiam, 
mesmo  que  quisessem,  dissimular  o  que  só  muito  depois  se  tomou  regra.  A  sua  actua- 
çâo  equívoca  explica-se  porque  o  crédito  se  inseria,  junto  com  as  esmolas  e  todos  os 
demais  tipos  de  auxílio,  no  âmbito  do  mundium29. 

As  cidades  ampliaram  a  este  respeito  a  dimensão  de  senhor  colectivo  e,  ao  mesmo 
tempo,  o  escopo  do  crédito.  Vários  cidadãos,  alguns  pertencentes  até  ao  estrato  superior 
da  elite,  começaram  a  incluir  entre  os  seus  negócios  a  actividade  de  receber  depósitos 
de  outros  membros  da  classe  senhorial  e  de  proceder  a  empréstimos  aos  camponeses. 
Assim,  estes  incipientes  banqueiros  concentraram  boa  parte  das  disponibilidades  em 
numerário  de  um  círculo  mais  ou  menos  amplo  de  aristocratas,  tanto  residentes  na 
cidade  como  no  território  rural,  e  em  vez  de  ser  cada  um  destes  senhores  a  adiantar 
dinheiro  aos  seus  caseiros  em  dificuldades,  foram  aqueles  banqueiros  que  centralizaram 
a  actividade  mutuante.  De  qualquer  modo,  se  os  comerciantes  e  artesãos  de  uma  cidade 
amealhavam  um  pecúlio  ou  enormes  fortunas  isso  devia-se  em  boa  parte  aos  negócios 
prosseguidos  dentro  de  muros  e,  portanto,  o  crédito  que  muitos  deles  abriam  aos  cam¬ 
poneses  decorria  também  dos  rendimentos  da  generalidade  da  população  urbana20.  Nes- 


28  Ver  a  n.  100  do  capílulo  1 2. 

29  O  mecanismo  fundamental  do  potlatch.  sublinha  M.  Mauss  <  1923-1924)  107-108,  consistia  em 
retribuir  mediante  um  esbanjamento  de  bens  de  valor  superior  ao  dos  incluídos  na  operação  prece¬ 
dente.  Também  L.  Baric  ( 1964)  50  observa  a  existência  de  numerosas  similaridades  sociais  entTe  a 
troca  de  presentes  e  o  crédito,  pois  quando  a  reeiprocação  de  um  presente  não  ocorria  de  imediato  o 
devedor  encontrava-se  numa  situação  de  obrigação  e  de  inferioridade  que  faz  lembrar  a  do  mutuário. 

30  Quanto  ao  facto  de  numerosos  cidadãos  adiantarem  empréstimos  aos  camponeses,  ver:  M. 
Bouard  (org.  1970)  161;  A.  Bouton  (1975-1976)  II  619,  637;  A.  Chédeville  (1974)  325;  G.  Duby 
(1962)  166-167,  207.  224-225.  252-253,  632,  633;  id.  (1973)  259;  J.  A.  Garcia  de  Cortáza r  (1990) 
255;  J.  K.  Hyde  (1973)  82;  Ph.  Jones  (1966  b)  388,  428;  id.  (1968)  225  e  n.  12;  A,  Joris  (1959)  371; 
H.  Kraus  (1979)  26:  M.  Mollat  et  al.  (1955)  680;  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  7-8,  356;  E.  Wemer 
(1959-1960)  358. 

Estudando  a  situação  em  Pistoia  entre  os  séculos  XIII  e  XV,  Th.  W.  Blomquist  (1979)  62-64 
afirma  que  os  cambistas  recebiam  depósitos  a  longo  prazo  e  concediam  aos  camponeses  empréstimos 
a  curto  prazo.  E,  a  propósito  da  Itália  no  final  do  período,  Ph.  Jones  (1966  b)  428  considera  que  uma 
grande  parte  do  que  parecem  relações  comerciais  entre  cidadãos  e  camponeses  eram,  na  verdade,  ope¬ 
rações  de  crédito.  Na  Flandres  do  século  XIV,  no  entanto,  D.  Nicholas  (1971)  309  previne  que  o 
volume  total  dos  empréstimos  facultados  pelos  cidadãos  aos  camponeses  e  à  aristocracia  rural  era 
muito  inferior  ao  dos  empréstimos  efectuados  entre  cidadãos. 


148 


Forma  I  do  dinheiro 


tes  termos,  uma  grande  parte  dos  empréstimos  que  os  negociantes  das  cidades  faculta¬ 
vam  à  gente  dos  campos  deve  considerar-se  como  um  crédito  adiantado  globalmente 
pelo  senhor  colectivo.  E  como  a  política  fiscal  prosseguida  pelas  autoridades  urbanas 
empobrecia  os  camponeses  e  obrigava-os  a  recorrer  mais  ainda  ao  crédito,  a  teia  da 
dependência  económica  ampliava-se  e  as  suas  malhas  tomavam-se  cada  vez  mais  finas, 
multiplicando  as  oportunidades  de  enriquecimento  de  muitos  cidadãos-11.  Através  dos 
mecanismos  pecuniários  as  cidades  reforçaram  as  características  de  senhor  colectivo, 
representando  não  só  a  aristocracia  que  nelas  habitava,  mas  mesmo  numerosíssimos 
senhores  rurais,  e  a  seu  tempo  veremos  como  as  demais  fornias  do  dinheiro  contribuí¬ 
ram  para  aumentar  ainda  esta  supremacia. 

Directamente  ou  através  de  banqueiros,  o  crédito  praticado  pelos  senhores  relativa¬ 
mente  aos  servos  foi  uma  expressão  monetária  do  mundiurn.  Aqueles  que  contraíam  o 
empréstimo  ou  eram  caseiros  de  quem  o  concedia,  e  caíam  assim  em  formas  agravadas 
de  dependência,  ou  não  o  eram.  e  ficavam  então  numa  situação  de  clientela,  com  o 
risco  de  se  converterem  em  caseiros  num  futuro  próximo32.  Em  qualquer  caso.  às  pres¬ 
tações  usuais  devidas  pelo  servo  somavam-se  os  novos  pagamentos  decorrentes  do 
empréstimo  recebido.  E  tanto  mais  que,  em  certas  regiões,  um  camponês  que  solici¬ 
tasse  um  empréstimo  a  alguém  que  não  fosse  seu  senhor  directo  tinha  de  pagar  a  este 
um  tributo  especial,  se  desse  como  penhor  o  casal  que  ocupava'3.  Quando  tal  sucedia  o 
crédito  aumentava  as  prestações  tanto  pelo  lado  do  mutuante  como  pelo  lado  do  senhor 
directo. 

O  devedor  ficava  colocado  numa  situação  de  sujeição  relativamente  ao  credor,  e  no 
sistema  de  presentes  podia  suceder  que  o  desejo  de  pagar  a  dívida  fosse  considerado 
pelo  credor  como  uma  tentativa  de  emancipação,  um  verdadeiro  acto  de  rebeldia34.  O 
mesmo  tipo  de  critérios  continuou  a  imperar  neste  período'5,  deixando  o  seu  traço  em 
numerosíssimas  cláusulas  contratuais,  por  exemplo  quando  o  mutuante  estipulava  que  a 
dívida  não  deveria  ser  paga  antes  de  um  dado  prazo,  eventualmente  muito  longo-’0.  É 
difícil  distinguir,  em  termos  estritamente  económicos,  a  posição  de  clientela  em  que 
estavam  aqueles  que  recebiam  habitualmente  as  esmolas  de  um  dado  senhor,  a  sujeição 
em  que  ficavam  os  devedores  numa  relação  de  empréstimo  e  o  agravamento  da  depen- 


31  Ph.  Jones  <  1966  h)  428. 

33  A.  Chédeville  (1974)  323-324;  G.  Duby  U962»  479,  496:  R.  Duratui  <  1982)  269;  R.  Génestal 
(1901.)  186,  188:  M.  Mollat  (1978  )  89;  J.-P.  Poly  et  al  (1980)366-367. 

33  Era  o  que  se  passava  na  Normandia.  segundo  R  Génestal  ( 1901 )  22. 

34  L.  Baric  1 1964)  50.  No  mesmo  sentido  ver  igualmente:  M.  Mauss  (1923-1924)  175. 

35  Ver  em  D,  Herlihy  et  al.  (1985)  106  a  situação  no  território  florentino  no  final  do  período. 
Acerca  da  mesma  região  consultar  também  G.  Cherubim  ( 1972)  125. 

30  A.  Chédeville  0974)  316;  R.  Génestal  ( 1901)71. 

Com  o  mesmo  objectivo.  observa  A.  Chédeville  ( 1974)  317  a  propósito  do  oeste  da  França,  suce¬ 
dia  que  para  perpetuar  uma  dada  relação  de  crédito  o  devedor  ficasse  proibido  de  contrair  junto  a  ter¬ 
ceiros  outro  empréstimo,  que  lhe  teria  permitido  pagar  o  primeiro  empréstimo.  Mas  o  autor  infere  que 
a  principal  finalidade  de  um  sistema  de  crédito  acompanhado  por  este  tipo  de  cláusulas  era  não  a 
obtenção  de  um  rendimento  regular,  mas  o  acréscimo  do  património  do  mutuante.  Se  fosse  este  o 
caso,  então  parece-me  que  bastariam  as  habituais  pressões  dos  poderosos  sobre  os  humildes  para  os 
levar  à  venda  das  renas.  Creio  que  o  credor  pretendia  beneficiar  do  rendimento  durante  um  certo 
pra/o  e.  no  fim.  ficar  com  a  terra  também. 


Veiculação  monetária  do  mundium 


149 


dência  servil  resultante  de  auxílios  especiais  recebidos  do  senhor57.  Aliás,  a  transfor¬ 
mação  em  tributos  monetários  de  prestações  antes  cumpridas  em  géneros  ou  em  servi¬ 
ços  de  trabalho,  e  em  geral  o  pagamento  de  quantias  mais  ou  menos  avultadas  de 
numerário  para  obter  a  liberdade  jurídica,  colocavam  muitos  servos  na  situação  de 
mutuários  dos  próprios  senhores  que  cobravam  tais  quantias.  Raramente  dispondo  do 
montante  necessário  para  entregar  de  uma  só  vez  as  verbas  requeridas,  as  famílias  cam¬ 
ponesas,  individualmente  ou  em  grupo,  ficavam  devedoras  do  restante,  pelo  qual  paga¬ 
vam  juros  aos  seus  senhores,  em  acréscimo  às  somas  que  entregavam  já  enquanto  pres¬ 
tações58.  Mais  genericamente  ainda,  a  intensificação  dos  circuitos  da  Forma  1  do 
dinheiro,  implicando  o  pagamento  regular  de  tributos  monetários,  obrigou  os  rurais  a 
recorrer  ao  crédito  com  frequência  crescente,  para  suprirem  deficiências  na  colheita  e 
condições  insatisfatórias  no  mercado5'1.  Finalmente,  o  montante  das  exacções  era  agra¬ 
vado  pelo  peso  do  juro,  o  que  aumentava  a  taxa  de  exploração40.  O  crédito,  em  suma, 
só  de  maneira  muito  acessória  servia  aos  senhores  para  reaverem,  devidamente 
ampliada,  a  soma  que  haviam  emprestado,  mas  destinava-se  sobretudo  a  prender  ainda 
mais  fortemente  os  camponeses,  mediante  a  perpetuação  do  serviço  da  dívida. 

No  meio  rural  os  empréstimos  eram  frequentemente  efectuados  em  numerário  ou, 
se  constassem  de  géneros,  eram  avaliados  em  termos  monetários,  e  deviam  muitas 
vezes  ser  pagos  em  géneros,  o  que  de  novo  revela  o  prevalecimento  do  dinheiro  conta- 
bilístico41.  Uma  modalidade  de  crédito,  muito  corrente  durante  boa  parte  do  período. 


57  A  propósito  do  sucedido  na  Itália.  P.  J.  Jones  (1068)  196  e  206  observa  que  neste  período  a 
dependência  jurídica  foi  progressivamente  substituída  pela  dependência  económica  e  que  os  vínculos 
do  crédito  tomaram  o  lugar  dos  vínculos  pessoais.  No  sul  da  França,  já  entre  os  séculos  VIII  e  X  J.-P. 
Poly  (1980)  66-67  indica  que.  a  seguir  à  propriedade  fundiária,  o  crédito  concedido  aos  camponeses 
constituía  o  principal  elemento  do  poder  dos  magnaies.  Afirma  E.  A.  Kosminsky  ( 1956)  202  que  na 
Inglaterra  do  século  XIII  se  um  caseiro  livre  estivesse  em  dívida  para  com  o  seu  senhor  reduzia-se 
muito  a  distância  que  o  separava  dos  não-livres.  E.  referindo-se  à  situação  geral  no  final  do  período. 
M.  Mollat  ( 1978)  207  considera  que  as  dívidas  eram  o  factor  mais  grave  da  pobreza  rural. 

•w  G.  Duby  (1962)  477-479.  496:  Ch.-E.  Perrin  < 1951-1955)  7-8,  356;  S.  D.  Skaskin  ( 1955)  40-41. 
w  G.  Duby  (1962)491,621. 

40  O  crédito  prestado  pelos  senhores  aos  servos  contribuiu  para  agravar  a  situação  da  população 
rural,  afirma  G.  Duby  1 1962)  496.  Por  seu  lado.  M.  Aymard  em  Istituto  Intemazionale  di  Storia  Eco¬ 
nômica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  635  observa  que  o  peso  das  dívidas  dos  campo¬ 
neses  podia  ser  tão  elevado  que  ficava  praticamente  cancelada  a  monetarização  da  economia  rural, 
pois.  logo  que  efectuavam  as  suas  vendas,  os  camponeses  tinham  de  pagar  as  dívidas. 

41  G.  Duby  ( 1962)  360  afirma  que  os  usurários  das  cidades  recebiam  em  cereais  ou  em  vinho  o 
pagamento  dos  empréstimos  que  haviam  adiantado  aos  camponeses,  procedendo  depois  à  venda  des¬ 
tes  géneros.  Por  outro  lado.  o  crédito  em  generos  não  devia  ser  raro.  porque  R.  S.  Lopez  em  Centro 
Italiano  di  Studi  sulPAIto  Medioevo  1 1959  )  275  assinala  a  presença  nos  meios  rurais  do  sul  da  França 
e  da  Itália,  durante  os  séculos  XI  c  XII.  de  usurários  profissionais  especializados  em  empréstimos 
deste  tipo.  E.  analisando  uma  documentação  posterior  ao  final  do  período,  M.  Aymard  (1982)  558 
conclui  que  tanto  os  empréstimos  como  o  seu  reembolso  eram  efectuados  mais  frequentemente  cm 
géneros  do  que  em  moeda,  embora  fossem  em  geral  estipulados  em  dinheiro  comabilístico.  Final- 
mente.  P.  Spufford  í  1988)  336  sustenta  uma  posição  original,  afirmando  que  os  empréstimos  concedi¬ 
dos  aos  camponeses  se  realizavam  na  maior  parte  dos  casos  em  cereais,  devendo  geralmente  ser  pagos 
em  dinheiro.  Mas  deve  ter-se  em  conta  que.  segundo  M.  Castatng  ( 1953-1954)  275.  nu  região  de  Tou 
louse.  nos  séculos  XII  e  XIII.  assim  como  em  certos  contratos  se  previa  o  pagamento  de  um  juro  em 
géneros  para  uma  soma  adiantada  em  numerário,  o  inverso  também  podia  suceder. 


150 


Forma  I  cio  dinheiro 


pressupunha  que  o  mutuário  entregasse  um  terreno  como  penhor,  ficando  a  sua  explora¬ 
ção  por  conta  do  mutuante,  que  se  apoderava  de  toda  a  colheita,  embora  suportasse 
também  os  custos  de  produção.  Essa  colheita  constituía  o  juro,  e  o  seu  valor  não  era 
descontado  na  soma  devida,  pelo  que  a  situação  tendia  a  etemizar-se.  Perante  esta  redu¬ 
ção  do  seu  património  útil,  era  provável  que  o  devedor,  mais  tarde  ou  mais  cedo.  se 
visse  na  impossibilidade  de  satisfazer  as  suas  obrigações,  e  o  credor  apropriava-se 
então  comodamente  da  parcela  que  até  esse  momento  detivera  apenas  enquanto  penhor. 
De  qualquer  forma,  interessava  a  tal  ponto  ao  mutuante  prolongar  a  relação  de  crédito, 
para  ir  beneficiando  das  colheitas  do  terreno  empenhado,  que  era  frequente  em  algumas 
regiões  a  imposição  de  um  prazo,  por  vezes  alcançando  vinte  anos,  durante  o  qual  o 
devedor  ficava  proibido  de  restituir  a  soma  que  recebera  de  empréstimo42.  Numa 
variante  desta  modalidade  o  valor  da  colheita  ia  sendo  subtraído  à  importância  da 
dívida,  que  por  conseguinte  se  extinguia  após  um  certo  tempo43.  Mas  note-se  que  neste 
caso  o  credor,  decerto  suficientemente  abastado  para  ter  acesso  aos  mecanismos  da 
especulação,  podia  beneficiar  do  desfasamento  de  preços  dos  géneros  agrícolas  entre  o 
momento  da  colheita  e  as  épocas  de  carestia,  quando  lhe  era  mais  proveitoso  vendê-los. 

Progressivamente,  estes  tipos  de  crédito  foram-se  transformando  e  deram  origem  a 
outra  modalidade,  que  os  suplantou  no  final  do  período.  Nesta  nova  fornia,  embora  o 
mutuante  recebesse  também  como  penhor  um  dado  terreno,  o  cultivo  continuava  a 
cargo  do  mutuário,  que  por  conseguinte  arcava  com  todos  os  custos  de  produção. 
Quanto  ao  juro,  ele  deixou  de  corresponder  ao  volume  variável  da  colheita  e  tomou-se 
gradualmente  uma  renda  anual  ou  semestral  fixa,  de  início  paga  em  géneros  e  depois, 
cada  vez  mais,  em  dinheiro;  noutros  casos,  quando  pretendia  aproveitar-se  das  condi¬ 
ções  favoráveis  do  mercado,  o  mutuante  requeria  a  entrega  dos  géneros,  para  que  fosse 
ele  próprio  a  comercializá-los.  Tal  como  sucedia  no  primeiro  dos  regimes  de  paga¬ 
mento  descritos,  também  aqui  a  renda  não  era  descontada  ao  montante  total  da  dívida, 
etemizando-se  a  relação  de  crédito.  É  certo  que  nesta  modalidade  o  credor  jamais  podia 
exigir  o  reembolso  da  soma  avançada,  mas  como  tudo  o  que  lhe  interessava  na  prática 
era  cobrar  a  renda  todos  os  anos  ou  de  seis  em  seis  meses,  o  facto  de  a  dívida  nunca  se 
considerar  cancelada  garantia  o  carácter  perpétuo  desta  nova  relação  de  exploração. 
Aliás,  se  o  pagamento  da  renda  não  se  efectuasse,  o  mutuante  podia  legalmente  apro- 


42  Quanto  a  esre  tipo  de  empréstimo,  denominado  em  francês  mort-gage.  consultar:  M.  Castaing 
(1953-1954)  273:  A.  Chédeville  ( 1974)  314-318:  R.  de  Roover  ( 1948)  9.  147  n.  147;  G.  Duby  (1953) 
35-36;  R.  Fossier  ( 1968)  615;  R.  Génestal  (1901 )  x,  2.  7.  9,  16.  33,  44,  46.  73  e  segs.;  J.  Malafos.se 
(1951)  141;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  61-62;  H.  van  Werveke  ( 1929)  54,  75,  83  e  segs.:  F.  Vercauteren 
(1961)300-301. 

Entre  os  habitantes  do  actual  estado  de  Orissa,  no  nordeste  da  índia.  F.  G.  Bailey  (1964)  1 1 1  des¬ 
creve  uma  forma  de  crédito  semelhante  ao  mort-gage. 

41  Este  tipo  de  empréstimo  é  denominado  em  francês  vif-gage.  A  seu  respeito  ver:  A.  Chédeville 
(1974)  315,  316;  R.  de  Roover  (1948)  147  n.  147;  R.  Génestal  ( 1901)  2.  7;  K.  L.  Reyerson  (19851  61- 
-62.  65;  H.  van  Werveke  í  1929)  54. 

Todavia,  analisando  alguns  exemplos  do  começo  do  século  XIV  ocorridos  na  região  de  Florença, 
G.  Cherubini  (1972)  124-125  mostra  que  a  dedução  do  valor  atribuído  às  colheitas  no  montante  da 
dívida  podia  realizar-se  a  um  preço  estipulado  no  contrato,  e  inferior  ao  curso  do  mercado,  o  que 
constituía  uma  forma  de  juro. 


Vekulação  monetária  do  rnundium 


151 


priar-se  da  parcela  empenhada,  e  uma  garantia  suplementar  consistia  na  possibilidade 
de,  em  qualquer  momento,  vender  a  alguém  a  sua  posição.  Assim,  o  direito  a  cobrar  a 
renda  anual  ou  semestral  era  transaccionável,  o  que  deu  grande  maleabilidade  a  este 
tipo  de  empréstimos  e  certamente  contribuiu  para  os  difundir.  A  situação  de  dependên¬ 
cia  perpétua  em  que  se  encontrava  o  devedor  reforçava-se  nos  casos  em  que  a  renda 
passava  a  ser  referida  subsidiariamente  a  outras  terras  suas,  ou  até  à  totalidade  dos  seus 
bens,  continuando  ele,  por  conseguinte,  obrigado  ao  pagamento,  mesmo  que  tivesse 
entretanto  alienado  o  fundo  primitivamente  onerado44. 

Os  sistemas  de  crédito  eram  necessariamente  alterados  quando  incidiam  na  pecuᬠ
ria.  De  um  lado,  o  mutuante  adiantava  animais,  que  na  generalidade  dos  casos  eram 
avaliados  em  referência  ao  dinheiro  contabilístico,  o  que  leva  a  admitir  que  se  tratava 
de  empréstimos  pecuniários  representados  por  gado.  Do  outro  lado,  passado  certo 
prazo  o  mutuário  devolvia  os  animais  que  havia  recebido  e  entregava  além  disso  uma 
parte  das  crias,  ou  do  leite  e  do  queijo,  ou  ainda  de  cereais  e  outros  géneros  que  tives¬ 
sem  sido  plantados  com  o  auxílio  daqueles  animais,  se  fossem  bovinos  ou  equinos.  A 
partilha  dos  excedentes  executava-se  em  proporções  variáveis,  consoante  as  modalida¬ 
des  e  as  regiões,  mas  em  qualquer  caso  constituía  uma  forma  de  juro45.  Podia  suceder 
também  que  o  mutuante  adiantasse  dinheiro  a  um  criador  de  gado,  o  qual  entregava 
como  penhor  os  seus  animais,  consistindo  o  juro  em  metade  dos  produtos  resultantes 
da  exploração  pecuária.  Se,  terminado  o  prazo,  o  devedor  pagasse  a  soma  que  havia 
recebido,  recuperava  a  propriedade  do  rebanho46. 

Os  sistemas  que  acabei  de  descrever  regiam  o  crédito  concedido  por  prazos  superio¬ 
res  ao  ano  agrícola.  O  processo  era  diferente  quando  o  camponês  necessitava  de  um 
adiantamento  já  depois  de  encerrada  a  estação  das  colheitas  e  se  comprometia  a  pagá-lo 
por  ocasião  da  colheita  seguinte47.  Nestes  casos  o  mutuante  não  precisava  de  se  apode- 


44  Quanto  a  esta  modalidade  de  crédito,  que  em  francês  se  denomina  rente  eonstituée,  e  a  que 
alguns  autores  ingleses  chamam,  um  tanto  confusamente,  census ,  ver:  M.  Bouard  (org.  1970)  161- 
-162:  A.  Bouton  U 975- 1976)  11  619.  628-63?;  A.  Chédeville  (1974)  314.  319-321;  R.  de  Roover 
(1948)  147  n.  147;  G.  Duby  (1962)  493-496;  R.  Fossier  ( 1968)  616;  R.  Génestal  (1901)  x,  84-87.  99- 
-100.  103.  156,  167,  183  e  segs.,  209-210;  S.  Homer  ( 1963)  75-76;  A.  Joris  ( 1959)  371;  D.  Nicholas 
( 1976)  22-23;  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  356;  J.  T  Noonan  Jr.  (1957)  154-155. 

45  Acerca  das  várias  modalidades  do  crédito  aplicado  à  pecuária  ver  sobretudo  E.  Foumial  (1967) 
681-687.  É  este  autor  quem  observa  (p.  683)  que  se  tratava  de  empréstimos  de  dinheiro,  representado 
por  animais. 

46  E.  Perroy  1 1962-1963)  19.  Acerca  das  operações  de  crédito  no  sector  pecuário  consultar  ainda: 
G.  Duby  ( 1962)  252-253:  J.  Schneider  ( 1950)  276. 

4  Vários  especialistas  distinguem  o  crédito  destinado  ao  investimento  e  o  crédito  destinado  ao 
consumo;  ver  por  exemplo:  M.  Bouard  i.org.  1970)  162;  A.  Chédeville  (1974)  317,  321;  G.  Duby 
(1962)  491-492,  495:  R.  Génestal  (1901)  62-63.  65.  189:  S.  Homer  (1963)  76,  R.  S.  Lopez  (1974) 
215:  J.  T,  Noonan  Jr.  ( 1957)  154;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  129.  134.  Mas  esta  dicotomia,  se  bem  que 
inteiramente  justificada  no  capitalismo,  não  tem  razão  de  ser  no  regime  senhorial,  em  que  a  parte  da 
produção  que  os  camponeses  colocavam  no  mercado  se  reservava  ao  pagamento  de  tributos  e  a  parle 
restante,  excluindo  a  que  podia  ser  entregue  sob  a  forma  de  prestações  em  géneros,  era  guardada  para 
consumo  próprio.  Nestas  condições,  o  aumento  da  capacidade  produtiva  de  uma  dada  parcela  ocasio¬ 
nava,  pelo  menos  a  curto  prazo,  um  acréscimo  do  autoconsumo.  Nem  com  a  melhor  boa  vontade  será 
possível  aplicar  modelos  keynesianos  ao  regime  senhorial.  Em  vez  disso,  distingo  os  empréstimos 
consoante  o  prazo  da  sua  concessão  era  superior  ou  inferior  ao  ano  agrícola. 


152 


F&rma  1  do  dinheiro 


rar  de  uma  terra  como  penhor,  nem  declarava  a  colheita  cativa  ou  estipulava  um  juro 
que  consistisse  em  prestações  constantes,  mas  limitava-se  a  exigir  o  pagamento  em 
géneros,  aplicando  o  mesmo  tipo  de  mecanismo  que  vigorava  quando  um  tributo  entre¬ 
gue  em  géneros  havia  sido  fixado  em  unidades  contabilísticas.  Como  o  pagamento 
deste  tipo  de  empréstimos  devia  efectuar-se  logo  após  a  colheita,  precisamente  quando 
os  preços  estavam  mais  baixos,  isto  significa  que  o  mutuário  havia  recebido  uma  soma 
de  dinheiro  equivalente  a  um  dado  volume  de  géneros,  comprometendo-se  a  retribuir 
com  um  volume  de  géneros  consideravelmente  superior.  Numa  certa  perspectiva,  a  ope¬ 
ração  assemelhava-se  a  uma  venda  antecipada  da  colheita,  mas  em  que  o  mutuário 
sofria  condições  inversas  às  vigentes  no  mercado,  devendo  entregar,  contra  um  preço 
estabelecido  na  época  de  carestia,  uma  quantidade  muito  superior  de  produtos  agríco¬ 
las,  equivalente  ao  praticado  na  fase  de  preços  baixos,  ou  maior  ainda,  se  o  contrato 
assim  o  determinasse48.  Muitos  camponeses  não  conseguiam  resistir  a  uma  taxa  de  juro 
tão  elevada  e  vendiam  as  terras  aos  credores.  Estes  ganhavam  duplamente,  por  um  lado 
graças  à  possibilidade  de  virem  a  apropriar-se  daquelas  terras  e,  por  outro,  vivendo  em 
condições  de  abundância  e  dispondo  de  locais  de  armazenagem,  podiam  aguardar  a 
época  de  altos  preços  para  colocar  no  mercado  os  géneros  pagos  pelos  mutuários.  Se  tal 
acontecesse,  o  que  formalmente  aparecia  como  uma  restituição  consoante  o  mesmo 
valor  nominal,  e  diferindo  apenas  na  quantidade  real  dos  bens.  acabava  por  implicar  um 
desfasamento  nos  próprios  valores  nominais.  Uma  variante  desta  modalidade  consistia 
numa  relação  de  crédito  que  de  ambos  os  lados  se  processava  em  dinheiro,  mas  inde¬ 
xada  ao  preço  dos  cereais.  O  mutuário  recebia  uma  soma  de  moedas  correspondente  ao 
preço  atingido  habitualmente  no  mercado  por  um  dado  volume  de  cereais  logo  a  seguir 
à  colheita,  e  comprometia-se  a  pagar  a  dívida  mediante  a  entrega  de  um  montante  pecu¬ 
niário  equivalente  ao  preço  desse  mesmo  volume  de  géneros  na  fase  de  carestia49. 

Encontram-se  também,  mesmo  em  datas  tardias,  referências  ao  cumprimento  de  ser¬ 
viços  de  trabalho  enquanto  forma  de  pagamento  de  empréstimos.  Mas,  pelo  menos  nas 
regiões  onde  o  regime  senhorial  vigorava  desde  há  muito,  talvez  se  tratasse  de  casos 
meramente  marginais50,  ou  exteriores  às  actividades  agrícolas51.  Se  for  de  alguma  utili- 


4Í!  Th.  W.  Blomquist  (1979)  64;  G.  Cherubini  (1972)  124;  G.  Duby  (1962)  492-493;  D.  Herlihy 
(1967)  122;  id.  ( 1968)  262.  269;  E.  Perrov  et  al.  ( 1955)  364;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  129. 

Nos  meados  do  século  XX.  entre  os  Hausa,  um  povo  estabelecido  no  norte  da  actuai  Nigéria  e  no 
sul  do  Níger,  por  cada  molho  de  cereal  emprestado  no  começo  da  estação  agrícola  deviam  ser  pagos 
dois  molhos  por  ocasião  das  colheitas,  ou,  se  o  mutuante  tosse  generoso,  a  proporção  era  reduzida  a 
três  por  dois,  consoante  relata  R.  Firth  (1964)  31-32.  l  ambem  os  Ifugao,  do  norte  da  ilha  de  Luzon, 
nas  Filipinas,  célebres  cultivadores  de  arroz,  pagavam  um  empréstimo  deste  cereal  realizado  durante  a 
estação  do  crescimento  com  a  entrega  do  dobro  do  volume  na  altura  da  colheita.  Espanta-me.  con¬ 
tudo.  que  Raymond  Firth  pretenda  que  não  ocorria  aqui  qualquer  usura,  argumentando  que  os  preços 
seriam  menores  logo  após  a  colheita.  Na  realidade,  a  usura  consistia  precisamente  no  desfasamento 
entre  o  aumento  do  volume  dos  géneros  e  a  descida  dos  preços. 

40  E.  Foumial  (1967)  214-215,  267. 

50  Referindo-se  aos  séculos  XIV  e  XV,  E.  Delaruelle  ( 1955)  522  indica  a  ocorrência  de  casos  de 
pessoas  pobres  que,  tendo  comprado  indulgências  a  crédito,  satisfizeram  a  dívida  mediante  o  cumpri¬ 
mento  de  serviços  de  trabalho. 

111  Ver  a  n.  31  do  capítulo  12  da  Parte  11. 

Em  Dotiai.  na  segunda  metade  do  século  Xllí.  M.  Mollat  (1978)  201-202  dá  o  exemplo  de  um 


Veicularão  monetária  cio  mundium 


153 


dade  o  exemplo  de  outros  povos,  pode  admitir-se  que  os  camponeses  preferissem  a 
retribuição  em  géneros  na  altura  da  colheita,  apesar  de  todos  os  inconvenientes  descri¬ 
tos,  à  execução  de  fainas  agrícolas  nas  terras  do  mutuante52.  E,  no  entanto,  sabemos 
que  nos  séculos  XI  e  Xll  o  pagamento  de  uma  dívida  em  serviços  de  trabalho  era  um 
sistema  muito  difundido  na  Polónia52,  e  na  Boémia  as  prostitutas  podiam  exercer  a  sua 
actividade  durante  toda  a  vida  ao  serviço  de  uma  credora,  pois  jamais  conseguiam  reu¬ 
nir  o  montante  necessário  para  cancelar  de  uma  só  vez  o  montante  em  débito54.  Mas  é 
certo  que  entre  os  Eslavos  ocidentais  foi  sobretudo  ao  longo  do  século  XIII  que  come¬ 
çou  a  progredir  gradualmente  a  comutação  monetária  dos  serviços55. 

Numerosos  camponeses  não  encontraram  saída  no  labirinto  das  dívidas  e  viram-se 
precipitados  na  ruína,  perdendo  os  vestígios  de  independência  ou  sofrendo  o  agrava¬ 
mento  da  condição  servil56.  Em  sentido  contrário,  os  empréstimos  que  concediam  aos 
vizinhos  mais  pobres,  ou  por  vezes  mesmo  a  famílias  das  camadas  médias,  ajudaram  os 
camponeses  abastados  a  converter  em  servos  a  sua  clientela  e  a  transformarem-se  em 
senhores5'.  E  assim  o  crédito,  que  comecei  a  analisar  enquanto  aspecto  do  mundium , 


empresário  do  têxtil  que  só  aceitava  que  os  artesãos  lhe  pagassem  as  dívidas  em  prestações  de  traba¬ 
lho,  e  não  em  dinheiro.  Aliás,  segundo  indicam  J.  Lestocquoy  (1952)  77  e  M.  Mollat  et  al.  (1970) 
145-146.  em  Florença  passou  a  ser  proibido,  a  partir  de  1371,  que  os  operários  pagassem  em  dinheiro 
as  dívidas  contraídas  junto  aos  patrões  e  empresários,  só  podendo  pagá-las  em  trabalho. 

5-  Segundo  R.  Firth  ( 1964)  3 1 ,  os  Hausa  preferiam  recorrer  ao  tipo  de  empréstimo  que  mencionei 
há  pouco,  na  n.  48.  em  vez  de  trabalhar  ao  serviço  de  outros  camponeses. 

53  A.  Gieysztor  ( 1960  b)  258. 

54  J.  M.  Klassen  (1978)  20. 

55  Ver  a  n.  49  do  capítulo  2. 

56  Ph.  Jones  <  1966  b)  428  e  M.  Mollat  (1978)  88-89,  207  insistem  na  importância  que  os  mecanis¬ 
mos  do  crédito  tiveram  para  precipitar  a  ruína  dos  camponeses.  Ver  igualmente:  P.  Bonnassie  (1975- 
-1976)  236-239;  G.  Duby  (1962)  535;  R.  Durand  (1982)  271-272;  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  etc.  (1969) 
190-191;  R.  Génestal  (1901)  65,  67:  P.  J.  Jones  ( 1968)  225.  231:  R.  Pastor  (1980  a)  62  e  segs.:  J.-P. 
Poly  ( 1980)  67. 

57  P.  Bonnassie  em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientifíque  e  École  Française  de  Rome 
(1980)  215;  A.  Chédeville  ( 1974)  324:  G.  Duby  ( 1953)  35-36;  id.  (1962)  493,  496;  D.  Herlihy  (1968) 
262-263;  Ph.  Jones  ( 1966  b)  428:  M.  M.  Postan  (1966)  627-628:  id.  ( 1978  a)  152;  P.  Spufford  em  Isti- 
tuto  Intemazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini».  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  623. 

Quando  L.  Genicot  ( 1990)  59  menciona  a  existência  de  comunidades  rurais  tão  ricas  que  proce¬ 
diam  a  empréstimos  não  só  a  camponeses,  mas  mesmo  a  senhores,  julgo  que  isto  dizia  apenas  respeito 
às  famílias  rurais  mais  abastadas,  que  encabeçavam  naturalmente  as  comunidades.  Referindo-se  ao 
território  rural  decorrente  de  Bruxelas  nos  finais  do  século  XIV.  R.  de  Roover  (1948)  165  pretende 
que,  não  havendo  uma  categoria  de  profissionais  especializados  no  crédito,  vigoraria  a  assistência 
mútua,  processada  em  termos  mais  ou  menos  amigáveis.  Parece-me  um  retrato  demasiado  idílico.  Nas 
redes  de  solidariedade  teciam-se  vínculos  de  clientela,  e  vimos  que  estes  elos  eram  profundamente 
inspirados  pelas  relações  de  crédito.  Aliás,  é  precísamente  assim  que  M  M.  Postan  (1966)  627-628  e 
(1978  a)  152-153  apresenta  o  problema  quando,  depois  de  observar  que  só  muito  raramente  depara¬ 
mos  com  a  actuação  de  usurários  profissionais  nas  aldeias  inglesas  do  século  XIII.  conclui  que  os 
empréstimos  eram  facultados  pelos  camponeses  ricos,  que  reforçavam  deste  modo  a  sua  influência 
sobre  a  comunidade.  Por  seu  lado.  a  propósito  do  sucedido  em  Espanha  a  partir  do  final  do  século 
XIII,  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  ( 1990)  255  considera  que  a  multiplicação  das  obrigações  de  crédito  no 
interior  de  cada  localidade  contribuiu  para  destruir  as  redes  de  solidariedade.  Parece-me  mais  exacto 
afirmar  que,  embora  se  tivessem  mantido,  os  elos  comunitários  assumiram  através  do  crédito  as  carac¬ 
terísticas  do  relacionamento  impessoal. 


154 


Forma  1  do  dinheiro 


revelou-se  igualmente  como  agente  do  bannum.  As  duas  faces  do  poder  eram  indisso¬ 
ciáveis.  Do  mesmo  modo,  nas  cidades,  os  patrões  e  empresários  que  emprestavam 
dinheiro  aos  operários  em  dificuldade  aproveitavam-se  desta  situação  para  lhes  estreitar 
a  sujeição,  convertendo  prebendados  livres,  que  até  então  haviam  disposto  de  uma  ele¬ 
vada  mobilidade,  em  prebendados  cativos  e  com  um  grau  muito  reduzido  de  liberdade 
prática58. 

E  nesta  perspectiva  que  devemos  analisar  as  vendas  de  terra  pelos  camponeses  aos 
senhores.  Parece  que  na  maior  parte  dos  casos  tais  vendas  se  deveriam  à  pressão  exer¬ 
cida  pelas  dívidas-’’9.  Mas  a  relação  era  mais  íntima  ainda,  porque  as  transacções  fundiᬠ
rias  constituíam  uma  modalidade  transformada  da  obtenção  de  crédito.  Não  se  devem 
confundir  estas  vendas  com  a  colocação  de  produtos  no  mercado,  pois  ao  alienar  a  sua 
parcela  o  camponês  estava  a  perder  o  próprio  meio  de  produção.  Vender  a  terra  impli¬ 
cava,  para  o  camponês,  a  sua  transformação  em  caseiro  do  senhor  que  lhe  comprava  a 
terra.  Não  interessava  à  classe  dominante  um  campo  sem  braços  que  o  trabalhassem,  e 
o  vendedor  recebia  a  parcela  de  novo,  mas  agora  enquanto  casal  e  a  troco  de  tributos  ou 
serviços.  E  precisamente  este  mecanismo  que  leva  tais  alienações  a  assemelharem-se 
ao  crédito.  O  camponês  obtinha  do  comprador  uma  soma  monetária  e  em  troca  sujei¬ 
tava-se  ao  pagamento  periódico  de  prestações.  Afinal,  chegava-se  de  uma  maneira 
rápida  àquela  mesma  situação  em  que  o  devedor,  incapaz  de  cumprir  as  suas  obriga¬ 
ções,  abandonava  nas  mãos  do  credor  a  terra  empenhada.  A  relação  entre  todas  estas 
modalidades  era  tão  estreita  que  na  prática  dava  lugar  a  formas  intermédias,  como  por 
exemplo  quando  um  bem  era  vendido  por  um  dado  prazo,  ao  fim  do  qual  o  vendedor 
podia  recuperá-lo  mediante  a  restituição  da  soma  recebida60.  Neste  caso  a  transacção 
pode  ser  vista  como  um  empréstimo,  se  o  bem  for  considerado  um  penhor.  E  como  os 
senhores  e  os  seus  banqueiros,  para  forçar  os  rurais  a  venderem  as  terras,  empregavam 
todos  os  meios  usuais  de  pressão,  os  ciclos  resultantes  da  articulação  do  mundium  com 
o  bannum  estruturavam  tanto  as  alienações  como  as  operações  de  crédito  propriamente 
ditas. 

O  crédito  rural  concedido,  directa  ou  indirectamente,  pelos  senhores  aos  servos  não 
constituiu  uma  actividade  precursora  do  capitalismo,  e  quem  queira  analisá-lo  por  esse 
viés  nunca  conseguirá  entender  os  seus  mecanismos  neste  período.  Relativamente  ao 
período  anterior,  analisei  (no  capítulo  lò.a  da  Parte  I)  o  processo  de  exploração  como 
uma  espiral  em  expansão,  resultante  da  conjugação  do  bannum  e  do  mundium.  Foram 
precisamente  os  ciclos  desta  espiral  a  sustentar,  no  segundo  período,  a  actividade  do 


58  Ver  as  nn.  31  e  32  do  capítulo  12  da  Pane  II.  Consultar  além  disso:  G.  A.  Brucker  (1968)  321; 
id.  (1972)  161-162;  B.  Geremek  ( 1968)  63,  97;  J.  Lestocquoy  (1952)  77;  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  145- 
-146. 

59  É  o  que  Ph.  Jones  ( 1966  b)  428  afirma  para  a  Itália  do  final  do  período.  Veja-se  igualmente  id. 
(1968)231. 

60  A.  Chédeville  (1974)  318. 

R.  Fossier  (1968)  619  indica  que  na  Picardia  era  bastante  frequente  que  o  comprador,  antes  de 
consentir  no  preço  pedido  por  uma  dada  terra,  exigisse  um  período  experimental  de  três  anos,  corres¬ 
pondente  a  uma  rotação  completa  dos  cultivos.  Talvez  esta  forma  de  transacção  não  se  devesse  apenas 
à  prudência  dos  compradores  e  fosse  também  inspirada  por  modalidades  de  crédito. 


Veinilação  monetária  do  mundtum 


155 


crédito  entre  a  classe  senhorial  e  os  camponeses,  que  nada  teve  a  ver  com  qualquer 
mercado  financeiro61.  E  o  juro  foi  a  forma  assumida  pela  renda  monetária  neste  tipo  de 
exploração,  dependendo  apenas  do  contexto  agrário,  sem  refiectir  nenhuns  mecanismos 
estritamente  financeiros62.  Por  isso,  no  meio  rural,  não  se  observa  neste  período  qual¬ 
quer  tendência  para  a  formação  de  taxas  de  juro  homogéneas,  ou  sequer  dominantes. 
Aliás,  nos  sistemas  em  que  o  juro  dependia  do  rendimento  de  uma  terra,  ou  dos  preços 
praticados  no  mercado,  era  impossível  prever  antecipadamente  qual  viria  a  ser  o  seu 
montante61.  As  taxas  de  juro  permaneceram  muitíssimo  variadas,  tanto  quanto  as  taxas 
de  exploração,  de  que  não  constituíam  afinal  senão  uma  simples  modalidade64. 

Porém,  os  senhores  não  apareciam  no  crédito  unicamente  como  mutuantes,  mas 
também  como  mutuários.  Assim,  os  mecanismos  do  crédito  actuavam  em  dois  sentidos, 
por  um  lado  ajudando  a  transferir  para  a  classe  senhorial  uma  parte  dos  frutos  do  traba¬ 
lho  da  classe  serv  il,  por  outro  lado  contribuindo  para  redistribuir  os  rendimentos  da 
exploração  entre  as  várias  famílias  senhoriais.  Só  podemos  entender  esta  segunda  ver¬ 
tente  do  crédito  se  a  estudarmos  num  contexto  muito  mais  geral,  o  da  utilização  do 
dinheiro  na  veiculação  das  relações  internas  da  classe  dominante. 


61  Já  P.  Einzig  (1948)  vi,  ao  mesmo  tempo  que  insistia  na  origem  não  comercial  do  dinheiro, 
observou  a  possibilidade  de  se  praticar  o  crédito  antes  da  existência  do  dinheiro.  Mais  directamente  a 
respeito  dos  assuntos  abordados  neste  livro.  K.  L.  Reyerson  (1985  )  133  distingue  em  Montpellier  dois 
sistemas  económicos,  um  centrado  nas  cidades  e  praticando  operações  de  longo  curso,  o  outro  dedi¬ 
cado  à  agricultura  e  a  todos  os  géneros  de  subsistência,  e  acrescenta  que,  embora  relacionados,  eram 
sistemas  distintos,  reagindo  de  maneira  diversa  às  crises  económicas  e  procedendo  a  operações  de 
crédito  diferentes. 

6:  Como  na  modalidade  de  crédito  chamada  em  francês  mort-gage  o  juro  correspondia  ao  rendi¬ 
mento  do  penhor,  observa  A.  Chédeville  (1974)  317.  este  tipo  de  crédito  não  criou  um  verdadeiro 
mercado  financeiro. 

63  R.  Génestal  ( 1901 1  57. 

64  Bascando-se  em  documentação  referente  à  Flandres  e  à  antiga  Lotaríngia.  H.  van  Werveke 
(1929)  81-82  estabelece  que  no  mort-gage.  em  que  o  juro  correspondia  ao  rendimento  da  terra  empe¬ 
nhada.  a  taxa  de  juro  ia  de  II  .25%  até  24%.  A  amplitude  seria  maior  ainda  no  oeste  da  França,  onde 
A.  Chédeville  (1974)  317  avalia  que  a  taxa  de  juro  variasse  no  mort-gage  entre  10%  e  40%  .  Porém,  se 
aceitarmos  os  cálculos  de  F.  G.  Bailey  ( 1964)  1 13,  o  sistema  de  crédito  praticado  no  estado  de  Orissa, 
a  que  me  referi  na  n.  42  deste  capítulo  e  que  se  assemelhava  ao  mon-gage,  suporia  uma  taxa  de  juro 
anual  de  250%.  Naquelas  formas  de  crédito  que  em  francês  se  denominam  rentes  constituées  G.  Duby 
(1962)  493-495  considera  que  a  renda  anual  correspondia  a  um  valor  entre  5 %  e  8%  da  soma  empres¬ 
tada.  Não  andam  longe  as  taxas  de  juro  indicadas  por  André  Chédeville  em  op.  cit..  321  para  esta 
modalidade  de  crédito  no  oeste  da  França,  oscilando  na  esmagadora  maioria  dos  casos  entre  5%'  e 
10%  até  à  penúltima  década  do  século  XIII.  e  estabelecendo-se  a  partir  de  então  uma  taxa  uniforme  de 
10%'.  Quanto  aos  empréstimos  de  dinheiro  a  curto  prazo,  pagos  em  géneros  por  ocasião  das  colheitas. 
Th.  W.  Blomquist  (1979)  64  admite  que,  no  território  rural  de  Florença,  garantissem  ao  mutuante  um 
lucro  de  30%.  No  reino  astur-leonês  todo  o  crédito  a  que  se  referem  os  documentos  dos  séculos  X  e 
XI  era  realizado  em  géneros  e,  a  crer  em  R.  Pastor  ( 1980  a)  63,  o  juro  seria  de  50%.  A  título  de  com¬ 
paração,  note-se  que  a  rivalidade  no  contexto  do  potlatch  implicava,  segundo  M.  Mauss  ( 1923-1924) 
108,  taxas  de  juro  anuais  situadas  entre  os  30%  e  os  100%'. 


SECÇÃO  II 

FORMA  II  DO  DINHEIRO 


As  classes  sociais  existem  apenas  em  ligação  recíproca,  o  que  é  outra  maneira  de 
dizer  que  os  mesmos  antagonismos  que  rasgam  a  sociedade  precipitam  nos  extremos  a 
formação  de  classes.  As  modificações  operadas  no  interior  de  uma  classe  são  inseparᬠ
veis  da  alteração  de  estrutura  ou  de  fisionomia  na  classe  oposta,  e  os  processos  históri¬ 
cos  só  podem  começar  a  esclarecer-se  quando  deixamos  de  nos  prender  com  categorias 
sociais  isoladas  e  tomamos  as  próprias  relações  como  objecto  principal  de  análise.  A 
difusão  da  senhoria  impessoal,  remodelando  os  mecanismos  da  exploração,  foi  possível 
através  das  transformações  sofridas  pelos  sistemas  familiares  e  parafamiliares  do  cam¬ 
pesinato.  e  graças  ao  emprego  do  dinheiro  enquanto  veículo  do  novo  tipo  de  relaciona¬ 
mento.  Do  mesmo  modo,  tomou-se  necessária  a  reorganização  do  quadro  familiar  da 
aristocracia,  assim  como  o  desenvolvimento  de  outra  forma  de  dinheiro,  adequada  a 
veicular  as  relações  intra-senhoriais.  Não  se  trata  de  apresentar  a  evolução  de  uma 
classe  como  espelho  da  evolução  da  outra,  mas  de  concebê-las  a  ambas  como  expres¬ 
sões  diferentes  das  transformações  determinadas  num  processo  único  de  relações. 


CAPITULO  6 


ESTRUTURAS  FAMILIARES  DA  CLASSE  SENHORIAL 


Neste  capítulo  vou  referir-me  somente  à  aristocracia  sediada  fora  das  cidades.  O 
meio  urbano  levantava  problemas  próprios,  cujas  implicações  para  a  estrutura  familiar 
analisarei  mais  tarde  (no  capítulo  9). 


a.  Linhagem  agnática 

No  período  anterior  havia  notáveis  diferenças  entre  os  sistemas  familiares  em  vigor 
na  aristocracia,  de  maneira  que  pude  estabelecer  variantes  claramente  demarcadas.  Em 
todos  esses  sistemas,  porém,  encontrei  uma  tendência  de  evolução  comum,  orientada 
pelo  prevalecimento  da  linhagem  agnática  (ver  na  Parte  I  o  capítulo  19. a).  Na  Itália 
centro-setentrional  mantivera-se  uma  demarcação  rigorosa  entre  a  família  do  marido  e 
a  família  de  origem  da  esposa,  de  maneira  que  as  relações  de  descendência  agnática 
prevaleciam  sobre  quaisquer  elos  de  afinidade  e  as  linhagens  perpetuavam-se  em  con¬ 
tornos  bem  definidos,  o  que  não  impedia  a  herança  de  ser  dividida  entre  os  descenden¬ 
tes  directos.  Também  na  aristocracia  anglo-saxónica  as  relações  de  parentesco  originᬠ
rias  da  esposa  conservavam  a  supremacia  sobre  o  quadro  decorrente  do  matrimónio, 
revelando  uma  situação  em  que  o  agnatismo  não  se  diluía  na  afinidade.  Porém,  embora 
este  delineamento  de  linhagens  se  manifestasse  já  por  uma  certa  tendência  para  beneficiar 
o  primogénito,  parecia  estar  ainda  muito  difundida  a  divisão  da  herança  entre  filhos  e 
filhas.  No  interior  das  amplas  famílias-clientela,  implantadas  desde  a  Baviera  até  ao 
Loire.  e  que  possivelmente  existiam  também  na  Gália  meridional,  era  menos  acentuado 
o  eixo  de  continuidade  ao  longo  das  sucessivas  gerações,  porque  as  redes  de  parentesco 
ampliavam-se  muito  em  cada  geração  tanto  pelo  lado  paterno  como  pelo  materno  e  a 
afinidade  encontrava-se  a  par  da  filiação  para  o  estabelecimento  do  quadro  familiar. 
Apesar  disso,  parecia  observar-se  uma  tendência  para  a  conversão  em  linhagens  agnáti- 
cas  do  escasso  número  de  unidades  familiares  que  encabeçavam  cada  grupo,  o  que  sig¬ 
nifica  que  até  neste  sistema  a  formação  de  linhagens  teria  começado  desde  bastante 
cedo  a  difundir-se  entre  a  camada  superior  da  aristocracia,  da  qual  saíam  os  chefes  das 
famílias-clientela.  Assim,  quando  na  área  do  antigo  império  carolíngio  foi  ultrapassada 


162 


Forma  II  do  dinheiro 


a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X1  e  em  todo  o  regime  senhorial  a  classe  dominante 
seguiu  um  processo  que  levou  finalmente  a  um  modelo  familiar  único,  não  deve  pensar- 
-se  que  as  características  do  novo  modelo  fossem  de  uma  originalidade  absoluta.  Só 
tendo  em  conta  a  situação  no  período  anterior  podemos  definir  o  que  efectivamente  se 
alterou  neste  segundo  período  e  tentar  compreender  as  razões  da  mudança. 

Continuando  aquela  evolução  multissecular,  a  maior  parte  das  famílias  da  aristocra¬ 
cia  acabou  por  obedecer  a  um  sistema  que,  em  traços  muito  simplificados  e  nas  suas 
linhas  gerais,  se  assinalou  pela  imposição  de  uma  via  de  descendência  estritamente 
agnática.  destinada  a  perpetuar-se  ao  longo  das  gerações  sucessivas  através  da  passa¬ 
gem  da  chefia  familiar  do  pai  para  o  filho  mais  velho.  Os  restantes  filhas  eram  secunda- 
rizados.  quer  impedidos  de  se  casar  quer  sujeitando-se  a  ter  o  matrimónio  protelado,  e 
as  filhas  casadas  e  os  seus  descendentes  eram  excluídos  da  linhagem,  considerando-se 
inteiramente  decorrentes  da  família  do  marido  e  pai2.  A  gestão  dos  matrimónios  dos 
filhos  obrigava,  todavia,  a  equilíbrios  delicados,  pois  se  a  proliferação  de  casamentos 
comprometia  a  coesão  da  linhagem,  a  limitação  a  um  só  filho  das  oportunidades  de 
contrair  matrimónio,  numa  situação  em  que  a  mortalidade  masculina  era  muito  elevada, 
devido  não  só  a  doenças  como  à  participação  nas  guerras,  podia  fazer  com  que  uma 
família  se  extinguisse  antes  de  o  seu  novo  chefe  ter  tido  tempo  para  procriar  herdeiros 
varões  legítimos3.  Para  evitar  tal  risco  tomou-se  corrente  a  partir  do  último  terço  do 
século  XII  ou  dos  meados  do  século  seguinte,  consoante  as  regiões  e  os  estratos  aristo¬ 
cráticos,  o  hábito  de  casar,  além  do  primogénito,  outro  filho4.  Assim,  se  o  mais  velho 
assegurasse  a  sua  descendência  e  se  um  dos  irmãos  encontrasse  esposa  e  procriasse 

1  Escreve  D.  A.  Bullough  (1969)  17  que  as  condições  políticas  e  sociais  vigentes  no  final  do 
século  IX  e  durante  o  século  seguinte  parece  terem  travado  a  evolução  em  direcção  ao  sistema  agná- 
tico,  ou  terem  mesmo  invertido  temporariamente  o  processo. 

2  São  numerosos  os  autores  que  procedem  à  descrição  do  sistema  de  linhagem  agnática  prevale¬ 
cente  na  classe  senhorial  durante  a  segunda  metade  deste  período.  Ver,  entre  outros:  H.  Bresc  (1986) 
393:  G.  Duby  ( 1973)  194;  id.  ( 1977  a)  30;  L.  Genicot  (1979)  27;  F.  Gies  et  al.  (1987)  129:  D.  Herlihy 
(1995  b)  143,  146-147,  D.  O.  Hughes  (1976)  932:  R.  Jacob  ( 1 989 1  42;  J .  Mattoso  (1981)  51.  162:  M. 
Parisse  (org.  1977)  170-171. 

-1  Este  dilema  é  enunciado  por  J.  B.  Freed  <  1995  )  89  e  131-132. 

4  G.  Duby  (1977  ai  38  escreve  que.  em  geral,  as  restrições  ao  casamento  dos  filhos  segundos 
diminuíram  a  partir  do  último  terço  do  século  XII.  E  id.  (1981)  292-293  acrescenta  que  na  França 
setentrional,  no  final  do  século  XII,  em  tomo  dos  velhos  castelos  familiares,  detidos  pelos  primogéni¬ 
tos,  começaram  a  proliferar  fortificações  mais  modestas,  onde  residiam  filhos  segundos.  Na  sua  anᬠ
lise  de  uma  linhagem  nobre  da  Provença.  M.  Aurell  i  Cardona  (1986)  54  pretende  que  nesta  região 
não  constituiu  uma  regra  geral  a  estratégia  de  redução  do  número  de  filhos  casados.  Todavia,  como 
este  autor  se  refere  já  à  situação  no  século  XIII,  é  natural  que  esteja  a  relatar  uma  prática  tardia,  con¬ 
firmando  afinal  a  cronologia  proposta  por  Georges  Duby.  O  processo  parece  ter  ocorrido  posterior¬ 
mente  na  Catalunha,  onde.  segundo  B.  Gari  citado  por  M.-C.  Gerbet  (1994)  59,  se  difundiu  o  casa¬ 
mento  dos  filhos  segundos  a  partir  de  meados  do  século  XIII.  o  que  acarretou  a  multiplicação  de 
ramos  secundários.  Por  seu  lado,  referindo-se  exclusivamente  aos  ministeriales  do  arcebispado  de 
Salzburgo.  J.  B.  Freed  (1995)  60.  90.  133  e  143  indica  que.  embora  já  antes  dos  meados  do  século 
XIII  pudesse  suceder  que  as  linhagens  arranjassem  esposa  para  mais  de  um  filho,  a  prática  de  casar 
tlois  filhos  só  se  tomou  corrente  após  aquela  data.  Note-se  que  os  casos  deste  tipo  não  se  devem  con¬ 
fundir  com  outros  que  o  mesmo  autor  menciona  (p.  116).  quando  um  filho  segundo  encabeçava  a 
linhagem  se  o  primogénito  morresse  sem  filho  varão.  Com  efeito,  se  tal  acontecesse  não  se  criavam 
ramos  secundários,  o  que  podia  suceder  quando  mais  de  um  filho  contraía  matrimónio. 


Estruturas  familiares  da  cla.we  \enhoria! 


163 


herdeiros  legítimos,  dava-se  origem  a  um  ramo  menor  do  tronco  principal,  que  se  apre¬ 
sentava  como  uma  sublinhagem,  por  um  lado  formando  um  eixo  de  descendência  autó¬ 
nomo  e,  por  outro,  como  era  menos  abastado  e  menos  poderoso,  mantendo  formas  de 
subordinação  relativamente  à  linhagem  mestra5. 

Neste  sentido,  a  estrutura  familiar  adoptada  pela  nobreza  polaca  não  parece  tanto 
uma  excepção  como  o  caso  extremo  de  uma  prática  generalizada  nos  outros  países  em 
modalidades  mais  rudimentares  e  fragmentárias.  No  final  do  período,  a  reunificação  da 
Polónia  permitiu  que  as  solidariedades  familiares  se  ampliassem  à  dimensão  de  todo  o 
reino,  sem  serem  interrompidas  pelas  rivalidades  entre  ducados.  Foi  então  que  se  con¬ 
solidaram  cerca  de  duas  centenas  e  meia  de  vastos  clãs  agnáticos,  cada  um  congre¬ 
gando  várias  linhagens,  de  fortuna  e  prestígio  muito  diversos,  mas  descendentes  todas 
elas  de  um  mesmo  fundador,  real  ou  presumido.  Os  clãs  incluíam  numerosos  membros, 
pois  quem  quer  que  beneficiasse  do  direito  de  cavalaria  devia  pertencer  a  um  deles,  e  os 
maiores  e  mais  poderosos  dispersavam-se  também  geograficamente,  estando  implanta¬ 
dos  em  vários  principados.  Este  sistema  não  prolongava  quaisquer  tradições  pré-senho¬ 
riais.  e  aliás  no  período  anterior  a  unidade  de  organização  fora  já  a  família  conjugal.  A 
formação  dos  clãs  resultou  de  um  processo  estritamente  senhorial  e  correspondeu  a  um 
grau  bastante  adiantado  da  evolução  familiar  da  aristocracia. 

Como  na  maior  parte  dos  casos  o  nome  de  um  clã  provinha  do  sobrenome  atribuído  à 
mais  rica  das  linhagens  que  o  compunham,  pode  dizer-se  que  as  linhagens  estavam  umas 
para  as  outras  na  situação  de  um  tronco  principal  articulado  com  ramos  secundários. 
Esta  maneira  de  conceber  os  clãs  parece-me  tanto  mais  exacta  quanto  muitas  das  suas 
linhagens  provinham  da  diversificação  que  progressivamente  se  operara  no  interior  das 
famílias  mais  antigas  entre  os  ramos  empobrecidos  e  aqueles  que  haviam  conseguido 
manter  ou  aumentar  a  fortuna.  Assim,  a  formação  dos  clãs  resultou  da  conjugação  de 
famílias  já  diferenciadas  em  linhagens  principais  e  linhagens  subalternas,  o  que  os  levou 
a  ter  sempre  uma  estrutura  interna  muito  hierarquizada.  Os  chefes  das  linhagens  mais 
ricas  e  poderosas  presidiam  por  isso  mesmo  ao  clã,  comandando  as  tropas,  detendo  a 
primazia  nos  ofícios  religiosos  eolectivos,  apresentando-se  como  testemunhas  na  justiça, 
servindo  de  árbitros  nas  disputas  internas,  e  entre  estes  chefes  vigorava  igualmente  uma 
graduação,  de  maneira  que  enquanto  a  importância  de  alguns  se  reflectia  em  todo  o 
reino,  outros  limitavam-se  a  um  âmbito  regional.  A  especificidade  da  Polónia  não  con¬ 
sistiu  em  manter  ligadas  as  linhagens  saídas  de  um  tronco  comum,  mas  em  atribuir  aos 
quadros  deste  relacionamento  o  carácter  de  verdadeiras  instituições  familiares,  dotadas 
de  toda  uma  simbologia  própria,  e  muito  mais  significativas  do  que  cada  uma  das  linha¬ 
gens  componentes.  As  cores  e  emblemas  de  cada  linhagem,  bem  como  os  seus  gritos  de 
guerra,  eram  obrigatoriamente  os  do  clã  a  que  pertenciam,  e  nesta  aceitação  de  uma 
heráldica  colectiva  revela-se  o  estatuto  secundário  das  linhagens,  perante  a  primazia  do 
clã.  Tratava-se  de  uma  situação  contraditória,  e  como  sempre  sucede  em  tais  casos  os 
símbolos  serv  iam  para  reforçar  os  elementos  de  unidade  e  ocultar  os  factores  de  cisão,  o 


5  Acerca  das  relações  entre  a  linhagem  principal  e  as  linhagens  saídas  de  filhos  segundos,  ver:  M. 
Aurell  i  Cardona  (1986)  54:  Ph.  Dollinger  ( 1949)  43-45;  J.  C.Holl  (1972)  42;  C.  Lansing  (1991)  34; 
E.  Magnou-Nortier  <  1981-1984)  XII  73-75.  87;  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  180. 


164 


Forma  H  do  dinheiro 


que  explica  que  a  heráldica  assumisse  na  Polónia  uma  importância  muito  superior  à  que 
obteve  no  restante  regime  senhorial,  onde  as  tensões  entre  a  divisão  das  linhagens  e  a 
sua  união  jamais  chegaram  a  um  ponto  tão  extremo.  Embora  constituíssem  unidades  dis¬ 
tintas.  as  linhagens  da  nobreza  polaca  obedeciam  à  solidariedade  de  grupo,  por  isso  as 
relações  que  vigoravam  no  interior  do  clã  entre  os  membros  mais  ricos  e  os  mais  modes¬ 
tos  eram  de  carácter  francamente  doméstico,  podendo  definir-se  como  decorrentes  do 
mundium.  Os  clãs  polacos,  em  suma,  mantinham  num  âmbito  estritamente  intrafamiliar 
os  contactos  entre  linhagens  aparentadas,  enquanto  nos  demais  países  esses  contactos 
tendiam  a  processar-se  num  plano  exterior  às  famílias  e  respeitante  ao  bannum.  não  ao 
mundium.  A  tal  ponto  os  clãs  se  apresentavam  como  famílias  amplas  por  direito  próprio, 
que  um  pequeno  número  deles  resultou  mesmo  de  fundações  inteiramente  artificiais, 
agrupando  famílias  aristocráticas  imigradas  de  além-fronteiras,  ou  famílias  da  elite 
urbana,  que  não  estavam  relacionadas  pelo  parentesco^. 

Será  que  este  sistema  de  família  tão  peculiar  remete  para  aquela  situação  anómala  da 
sociedade  polaca  que  lhe  permitiu  continuar  a  sua  extensão  e  proceder  a  novos  desbrava¬ 
mentos  ao  longo  de  todo  o  século  XIV  e  durante  o  começo  do  século  seguinte  (ver  na 
Parte  11  o  capítulo  I5.a),  quando  nas  outras  regiões  o  regime  senhorial  havia  perdido  o 
fôlego  e  entrara  numa  crise  profunda?  No  prosseguimento  do  capítulo,  quando  analisar¬ 
mos  as  relações  entre  a  ampliação  das  áreas  colonizadas  e  o  estabelecimento  de  filhos 
segundos  em  unidades  familiares  próprias,  multiplicando-se  portanto  o  número  de  ramos 
subsidiários,  veremos  que  não  se  deve  talvez  pôr  esta  hipótese  inteiramente  de  lado. 

Podem  abordar-se  numa  perspectiva  idêntica  à  dos  grandes  clãs  polacos,  embora 
num  quadro  de  dimensões  muito  mais  reduzidas  e  com  uma  estrutura  interna  bastante 
mais  frouxa  e  mutável,  as  associações  entre  parentes  formadas  na  Itália  centro-seten¬ 
trional  desde  o  termo  do  século  X  por  iniciativa  de  famílias  da  alta  nobreza,  e  que 
depois  se  difundiram  muito,  generalizando-se  entre  as  camadas  médias  e  inferiores  da 
aristocracia.  Tratava-se  de  associações  de  co-herdeiros,  tendo  como  objectivo  manter  a 
posse  conjunta  de  certos  elementos  do  património,  em  especial  daqueles  que  mais 


6  Acerca  dos  clãs  da  nobreza  polaca  ver;  J.  Bieniak  ( 1 977 )  321-327,  .342;  H.  Bresc  (1986)  392;  A. 
Gieysztor  ( 1977)  30.3,  307-308;  K.  Gorski  ( 1967)  73-74.  77,  79.  82-83:  Kosven  citado  por  J.  Bardach 
(1977)  344.  Quanto  à  questão  específica  da  heráldica  consultar  neste  capítulo  a  n.  75.  Não  entendo 
conto  pode  H.  Bresc  (1986)  392  afirmar  que  os  clãs  polacos  do  século  XIV  eram  pouco  numerosos, 
reduzindo- se  a  cerca  de  trinta. 

Embora  mencione  a  tese  segundo  a  qual  as  linhagens  modestas  dos  grandes  clãs  seriam  prove¬ 
nientes  da  antiga  clientela  reunida  em  tomo  das  famílias  mais  poderosas,  que  posterionnente  teria 
sido  aceite  nos  clãs,  A.  Gieysztor  (1977)  303  prefere  admitir  que.  com  a  proliferação  das  linhagens, 
ocorresse  o  empobrecimento  de  algumas  delas  No  entanto,  e  sem  pôr  de  lado  esta  última  alternativa. 
K.  Gorski  (1967)  83  presume  que  a  formação  dos  clãs  possibilitasse  a  inclusão  dos  minisreriales  na 
nobreza.  Ainda  sem  sair  deste  problema,  parece-me  que  a  função  dos  clãs.  enquanto  estrutura  articu- 
ladora  das  linhagens  principais  com  as  linhagens  subalternas,  explica  que  na  Polónia,  já  depois  de  ter¬ 
minado  este  período,  e  por  vezes  mesmo  muito  tardiamente,  numerosas  famílias  pudessem  ter  che¬ 
gado  a  um  grau  extremo  de  penúria  sem  verem  cancelados  os  seus  privilégios  jurídicos  de  nobres. 
Consultar  a  este  respeito,  por  exemplo,  Karol  Gorski  em  op.  cii..  78  e  J.  Heers  ( 1974)  30.  Nos  outros 
países,  onde  a  conjugação  dos  vários  ramos  saídos  das  mesmas  linhagens  originárias  esteve  sempre 
muito  longe  de  atingir  o  grau  de  coesão  que  notabilizou  o  caso  polaco,  nada  se  opunha  a  que  as  famí¬ 
lias  empobrecidas  perdessem  o  estatuto  nobre. 


Fs/riiliiras  familiares  Ja  classe  senhoria! 


165 


direetamente  se  assimilavam  ao  exercício  do  bannum ,  como  os  incultos  que  tivessem 
pertencido  ao  domínio  da  coroa  e  os  castelos,  nas  áreas  rurais,  ou,  nas  cidades,  as  casas 
fortificadas.  A  partilha  sucessória  e  a  alienação  eram  permitidas  desde  que  fossem  rea¬ 
lizadas  exclusivamente  entre  os  membros  masculinos  do  grupo.  Também  nestas  asso¬ 
ciações  se  aliavam  ramos  agnáticos  descendentes  de  um  mesmo  antepassado,  embora 
famílias  consanguíneas  pudessem  igualmente  abrir-se  a  linhagens  estranhas  através  de 
elos  de  parentesco  artificial,  ou  se  recorresse  a  elos  deste  tipo  para  reunir  apenas  linha¬ 
gens  de  origem  diversa.  Em  qualquer  caso,  era  a  patrilinearidade  que  imperava  nas  rela¬ 
ções  do  grupo.  Mas,  ao  contrário  do  que  sucedeu  na  Polónia,  entre  os  aristocratas  italia¬ 
nos  as  associações  limitavam  os  seus  objectivos  à  manutenção  de  um  núcleo  patrimo¬ 
nial  comum  ao  longo  de  sucessivas  gerações.  Por  isso,  ainda  que  as  linhagens  associa¬ 
das  passassem  a  partir  do  final  do  século  XI  e  durante  o  século  seguinte  a  usar  um 
sobrenome  colectivo  e,  depois,  a  ostentar  brasões,  divisas  e  bandeiras  comuns,  o  carác¬ 
ter  de  família  ampla  das  associações  italianas  não  prevaleceu  sobre  os  seus  membros 
com  a  mesma  força  e  com  o  mesmo  escopo  global  que  notabilizou  os  clãs  polacos7 *. 

No  modelo  de  organização  da  linhagem  agnática,  o  ponto  de  referência  de  todas  as 
obrigações  familiares  e  das  exigências  de  solidariedade  nunca  consistia  em  cada  um 
dos  parentes,  sendo  sempre  remetido  ao  fundador  masculino  da  linhagem*,  de  maneira 
que  com  a  passagem  do  tempo  se  avolumava  a  carga  dos  mortos,  que  constituía  a  pró¬ 
pria  substância  da  identidade  da  linhagem.  Data  deste  período  a  ideia  da  nobreza  como 
resultando  mais  de  uma  longa  tradição  sepulcral  do  que  de  uma  rede  de  alianças  tecida 
em  cada  momento  entre  os  vivos.  E  o  carácter  duradouro  deste  tipo  de  famílias  deixava 
antever  a  sua  continuação  ao  longo  das  gerações  futuras.  Perante  a  plebe,  confinada  a 
existir  no  presente,  os  nobres  afirmavam-se  como  senhores  do  tempo. 

Este  sistema  familiar  impôs  a  alteração  do  regime  das  heranças,  mas  aqui  a  análise 
não  pode  ser  conduzida  de  maneira  rígida.  O  prevalecimento  da  linhagem  agnática  não 
resultou  de  um  processo  simples,  já  que  houve  numerosos  estádios  intermédios  e  rumos 
de  evolução  distintos,  e  além  disso  os  ritmos  de  desenvolvimento  foram  diferentes  tam¬ 
bém.  Isto  explica  que.  ao  analisarmos  a  situação  de  famílias  concretas  em  momentos 
determinados,  deparemos  com  a  articulação  de  uma  multiplicidade  de  estruturas  apa¬ 
rentemente  contraditórias,  escolhendo  os  membros  da  família  aquela  que  mais  lhes 
convinha  em  cada  circunstância9,  o  que  motivava  por  vezes  tensões  e  conflitos10.  É  pre- 


7  A  respeito  das  consonerie  na  Itália  centro-setentrional  ver:  D.  Herlihy  (1967)  28;  id.  (1969- 
-1970)  176-178,  180;  id.  et  al.  <  1985)  344:  Ph.  Jones  (1966  b)  400-401. 409.  424;  id.(1974)  1671;  P. 
Santini  (1887)  191,  193-194;  P.  Toubert  (1973  b>  189.  732;  C.  Violante  (1977)  1 18,  121-122;  Ch. 
Wickham  (1981)  187. 

15  D.  Herlihy  (1995  b)  146. 

9  ld,,  íbid.,  143,  147  e  C.  Lansing  ( 1991  >  31-32  chamam  a  atenção  para  a  sobreposição  parcial  dos 
sistemas  de  família  aristocráticos  e  para  as  opções  estratégicas  que  tal  sihiação  permitia.  A  este  res¬ 
peito  ver  também:  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  280-281;  F.  Gies  et  al.  (1987)  131;  J.  Mattoso  ( 1981)  73. 
103-104.  162,  290-291,  381-382,  385-386,  393-394:  id.  (1994  b]  191.  No  seu  começo,  o  reino  latino 
de  Jerusalém  fornecia  talvez  o  exemplo  mais  completo  deste  tipo  de  conjugação  de  sistemas  de  famí¬ 
lia.  conforme  mostram  H.  E.  Mayer  ( 1972)  24,  J.  Prawer  1 1968  b)  159-164  e  id.  ( 1969-1970)  I  469. 

10  Para  o  eco  deste  tipo  de  conflitos  nos  textos  literários  castelhanos  daquela  época  ver  M.  L. 
Cuesta  ( 1996)  200. 


166 


Forma  II  do  dinheiro 


cisamente  a  sobreposição  de  fases  e  de  sistemas  que  caracteriza  os  processos  históricos, 
e  se  não  os  podemos  entender  sem  deslindar  as  vias  de  evolução  e  marcar  as  oposições, 
é  igualmente  certo  que  aquele  emaranhado  episódico  de  formas  nos  ajuda  a  esclarecer- 
-lhes  a  génese. 

Não  devemos  confundir  o  facto  de  o  filho  mais  velho  suceder  sistematicamente  ao 
pai  na  chefia  da  família  com  o  facto  de  lhe  caber  eventualmente  toda  a  herança,  ou  pelo 
menos  a  sua  parte  fundamental.  Neste  período  foram  muitos  os  sistemas  familiares  em 
que  os  filhos  segundos  participaram  na  sucessão1'.  E  mesmo  quando  a  primogenitura 
parecia  imperar  sem  restrições,  se  os  especialistas  analisam  detalhadamente  a  situação 
descobrem  com  certa  frequência  que  o  rigor  das  normas  era  mitigado  na  prática  pela 
repartição  de  algumas  parcelas  menores  da  herança  em  benefício  dos  filhos  mais 
novos12.  Com  efeito,  a  autoridade  do  primogénito  sobre  os  demais  irmãos  e  irmãs 
podia  efectivar-se  de  outras  maneiras  além  dos  mecanismos  sucessórios,  e  a  linhagem 
salvaguardava  a  coesão  do  património  por  uma  variedade  de  formas  além  da  primoge¬ 
nitura.  É  certo  que  nos  casos  em  que  um  alto  cargo  de  soberania  era  ocupado  colectiva- 
mente  por  vários  irmãos,  ou  mesmo  por  parentes  mais  afastados,  não  parece  que  pudes¬ 
sem  existir  condições  para  se  destacar  um  chefe  de  linhagem.  Mas  tal  tipo  de  situações 
não  ultrapassou  o  início  do  período1  e  mesmo  nessas  circunstâncias  foi  possível  que  o 
primogénito  assumisse  um  título  de  maior  prestígio  do  que  o  usado  colectivamente 


11  P.  Bonnassie  (1967)  117:  id.  (1975-1076)281:  J.-P.  Cuvillier  ( 1969)  168:  H.  Dubled  (1960  b) 
171;  G.  Foumier  (1978)  113;  G.  Fourquin  (1964)  120;  J.  Gaudemet  (1963)  99;  L.  Genicot  (1943- 
-1995)1  66  esegs.:  M.-C.  Gerbet(I994)  17,  45,67;B.  Hamilton  ( 1979)  VIII  11:  J.C.  Holt  (1972)  12; 
R.  Jacob  (1989)  43;  M.  D.  Lambert  (1977)  86;  A.  R.  Lewis  (1965)  389;  E.  Magnou-Nortier  (1981- 
-1984)  Xll  55,  73;  J.  Mattoso  ( 1981 )  393-394;  E.  Miller  ( 1965  b)  1 19;  P.  Ourliac  (1968)  582;  Ch.  E. 
Perrin  (1957-1959)  180;  J.-P.  Poly  (1976)  157;  C.  Violante  (1977)  104. 

12  Era  o  que  ocorria  na  Normandia  e  na  Inglaterra,  a  crer  em  J.  C.  Holt  (1972)  12  e  42-43.  O 
mesmo  se  passava  no  Hainaut  no  final  do  período,  segundo  G.  Sivéry  (1977-1980)  174-175,  e  no 
noroeste  da  França,  consoante  indica  G.  Duby  (1984)  841.  Relativamente  à  generalidade  da  França. 
M.  Bloch  (1960-1961)  I  171-172  sintetiza  a  questão,  observando  que  entre  a  nobreza  a  primogenitura 
foi  aplicada  de  maneira  muito  menos  estrita  do  que  julgava  a  historiografia  anterior.  A  propósito  tam¬ 
bém  da  França.  G.  Foumier  ( 1978)  1 1 2  escreve  que.  embora  o  castelo,  com  os  direitos  e  deveres  dele 
decorrentes,  fosse  considerado  indivisível,  na  prática  esia  norma  modificou-se,  para  não  prejudicar 
demasiadamente  os  filhos  segundos.  Na  Lorena.  inciuída  na  área  germânica,  a  primogenitura  instalou- 
-se  a  partir  do  século  XII,  sem  contudo  afastar  completamente  os  filhos  segundos  da  sucessão,  con¬ 
forme  mostra  M.  Parisse  (org.  1977)  170-171  Por  seu  lado,  e  referindo-se  â  Inglaterra  a  partir  do 
começo  do  século  XIV  ou  talvez  desde  o  final  do  século  anterior,  K.  B.  McFarlane  ( 1973)  276-278 
descreve  um  processo  jurídico  que  permitia  aos  pais  iludir  a  severidade  da  primogenitura  e  deixar 
parte  dos  bens  aos  filhos  mais  novos,  ou  a  outros  parentes  e  mesmo  a  estranhos.  Para  o  conhecimento 
da  situação  inglesa  no  final  do  período  ler  igualmente  G.  A.  Holmes  (1957)  57.  Em  Portugal,  J. 
Mattoso  1 1 994  bj  1 89  considera  que  a  adopçáo  do  sistema  de  linhagem  agnálica  não  impediu  os  filhos 
segundos  de  receberem  porções  marginais  do  património.  Quanto  ao  aspecto  genérico  desia  questão 
consultar  sobretudo  D.  Herlihy  (1995  b)  147.  Ver  ainda  Ch.  E.  Pemn  ( 1957-1959)  180. 

13  M.  Bloch  (1939-1940)  I  204  refere  que  nos  séculos  IX  e  X  os  Bosónidas  consideravam  indiviso 
o  governo  geral  da  Provença.  ostentando  todos  eles  os  títulos  de  conde  ou  de  príncipe,  e  isto  ainda  que 
cada  ramo  da  família  controlasse  uma  área  própria.  Ver  igualmente  E.  Baratier  (org.  1969)  132. 
Segundo  G.  Duby  ( 1968)  60.  a  indivisâo  do  título  condal.  até  entre  primos,  ocorreu  frequentemente 
no  sul  da  França  durante  os  séculos  X  e  XI.  e  id.  (1959  b)  250  indica  que  o  mesmo  sucedia  relativa- 
mente  ao  exercício  da  autoridade  em  cidades  do  sudeste  da  França,  no  começo  do  período.  Peta 


Estruturas  familiares  da  ciasse  senhorial 


167 


pelos  seus  irmãos14.  Em  seguida,  porém,  o  desempenho  das  mais  elevadas  funções  de 
autoridade  passou  a  caber  apenas  a  um  dos  herdeiros,  geralmente  o  primeiro  filho,  e 
isto  permilia  que  nessas  famílias  os  bens,  ou  grande  parte  deles,  fossem  divididos  entre 
os  irmãos  sem  que  ficasse  comprometida  a  autoridade  do  chefe  da  linhagem  sobre  os 
demais  parentes13.  Talvez  nenhuma  instituição  tivesse  expressado  com  tanta  clareza  a 
conjugação  entre  estes  diversos  aspectos  como  um  sistema  sucessório  em  que  o  patri¬ 
mónio  era  repartido  entre  os  vários  filhos,  mas  aparecendo  publicamente  o  mais  velho 
como  único  responsável  pelo  conjunto  da  herança  e  representante  dos  irmãos.  Recipro- 
camente,  os  filhos  segundos  e  as  linhagens  dos  seus  sucessores  reconheciam  a  autori¬ 
dade  do  primogénito  e  do  ramo  que  dele  saía,  quer  de  acordo  com  as  normas  menos 
rígidas  decorrentes  do  direito  familiar  quer  valendo-se  dos  próprios  rituais  da  vassala¬ 
gem16.  Nestes  casos  a  partilha  efectiva  dos  bens  era  um  pretexto  para  afirmar  a  prima¬ 
zia  do  irmão  mais  velho  sobre  todos  os  ramos  secundários  provenientes  do  antepassado 
comum,  e  ao  mesmo  tempo  que  o  património  se  dividia  ele  apresentava-se  publica- 


mesma  altura,  na  Itália,  R.  Schumann  ( 1973)  10  esclarece  que  os  rendimentos  do  cargo  condal  podiam 
ser  detidos  colectivameme  pelos  herdeiros.  Na  Catalunha,  a  crer  em  P.  Bonnassie  (1968)  531  n.  11, 
dois  irmãos  partilharam  o  governo  do  condado  durante  alguns  anos  no  último  quartel  do  século  XI. 

14  Foi  o  que  aconteceu  na  Provença.  no  início  do  período,  quando  a  família  soberana  usava  colec- 
tivamente  o  título  condal  e  o  irmão  mais  velho  se  apresentava  como  marquês.  Ver  a  este  respeito  E. 
Baratier  (org.  1969)  132. 

13  Consultar  neste  sentido  J.  Goody  (1985)  127. 

16  Quanto  a  este  sistema  de  herança,  que  na  área  de  expressão  francesa  se  denominava  parage .  ler 
em  geral:  J.  Gaudemet  (1963)  98-99,  99  n  54.  J.  C.  Holt  ( 1972)  44:  E.  Miller  <  1965  b)  1 19-120:  Ch. 
E.  Perriní  1957-1959)  180-181:  G.  Sivéry  ( 1977-1980)  175. 

Ch.  E.  Pernn  (1957-1959)  181  indica  que  o parage  se  restringiu  à  França  e  à  Inglaterra,  não  tendo 
sido  empregue  na  Germânia.  J.  C.  Holt  (1972)  45  acrescenta  que  na  Inglaterra  o  parage  não  era  fre¬ 
quente,  ou  talvez  nem  sequer  fosse  conhecido,  antes  da  conquista  normanda.  Porém,  Ch.-Edmond 
Perrin  em  op.  eit..  182-183  descreve  um  sistema  de  vassalagem  colectiva,  difundido  na  Germânia  no 
século  XIII,  cujas  consequências  me  parece  terem  sido  em  tudo  idênticas  às  do  parage.  Segundo  este 
sistema,  a  senhoria  vassálica  era  concedida  a  um  conjunto  de  parentes,  que  se  apresentavam  como  um 
corpo  único  perante  o  senhor  superior,  sendo  de  então  em  diante  representados  por  um  deles.  Se  de 
início  a  exploração  da  senhoria  vassálica  era  colectiva,  rapidamente  ela  passou  a  ser  repartida  na  prᬠ
tica;  mas  como  não  deixava  de  se  manter  juridicamente  enquanto  entidade  única,  os  co- vassalos 
tinham  de  continuar  em  relações  mútuas,  e  quando  um  deles  morria  os  seus  filhos  herdavam-lhe  os 
direitos,  integrando-se  então  na  subordinação  colectiva.  Também  H.  Dubled  (1960  b)  171-172  men¬ 
ciona  a  existência  de  situações  em  que  a  senhoria  vassálica  era  possuída  em  comum  pelos  herdeiros, 
na  Alsácia  do  século  XIII.  Enquanto  no  caso  do  parage  a  senhoria  era  concedida  originariamente  a 
um  só  vassalo,  e  apenas  com  a  sua  morte  o  regime  se  tomava  colectivo,  na  Germânia  a  senhoria  era 
desde  inicio  entregue  a  um  conjunto  de  co-vassalos  unidos  por  laços  de  parentesco.  O  começo  do  pro¬ 
cesso  era  diferente  em  cada  uma  das  situações,  mas,  quanto  ao  reconhecimento  da  autoridade  do 
chefe  da  linhagem,  as  suas  consequências  eram  as  mesmas,  o  que  revela,  mais  uma  vez,  que  as  pres¬ 
sões  sociais  podiam  usar  diversos  quadros  jurídicos  para  se  efectivarem  na  prática.  Esta  conclusão 
reforça-se  ao  sabermos,  com  G.  Fourquin  (1964)  120  e  E.  Miller  (1965  b)  119-120,  que  em  França 
vigorava,  além  do  parage.  um  sistema  alternativo,  mediante  o  qual  o  primogénito  subvassalizava  par¬ 
tes  do  seu  conjunto  senhoria!  vassálico  aos  irmãos  mais  novos.  O  mesmo  sistema  encontrava-se  na 
Inglaterra,  consoante  esclarece  S.  Painter  <  1960)  9-10  e  16.  A  diferença  podia  ser  grande  na  perspec¬ 
tiva  do  senhor  superior,  a  quem  escapava  o  controlo  dos  subvassalos,  mas  ficava  por  isso  mesmo  for¬ 
talecida  a  supremacia  do  primogénito  sobre  os  irmãos,  e  é  esta  a  questão  decisiva  quanto  à  estrutura 
familiar. 


Forma  II  do  dinheiro 


IM 


mente  como  um  conjunto  coeso.  O  sucedido  na  Normandia  é  interessante,  pois  apesar 
de  ser  no  final  do  século  XI  a  única  região  onde  já  se  reconhecia  juridicamente  a  pri- 
mogenitura  como  um  direito17,  este  regime  sucessório  só  em  alguns  trechos  do  ducado 
ocorria  de  maneira  integral,  vigorando  de  resto  um  sistema  de  partilhas  em  que  os 
filhos  herdavam  por  ordem  de  nascimento  a  fracção  que  lhes  cabia.  Gradualmente 
ambas  as  modalidades  sofreram  influências  recíprocas,  e  enquanto  por  um  lado  a  pri- 
mogenitura  começou  a  ser  mitigada  pela  concessão  de  parte  da  herança  aos  filhos 
segundos,  por  outro  lado  as  partilhas  passaram  a  obedecer  ao  modelo  em  que  o  ramo 
primogénito  assumia  publicamente  a  responsabilidade  pela  integralidade  da  herança  e 
mantinha  a  superioridade  sobre  os  ramos  saídos  dos  irmãos  mais  novos ls. 

Afinal,  era  muito  reduzida  a  diferença  entre  o  sistema  em  que  todos  os  filhos  deti¬ 
nham  colectivamente  a  herança,  assumindo  o  mais  velho  o  papel  de  maior  relevo  e 
representando  o  grupo,  e  um  tipo  de  primogenitura  em  que  os  filhos  segundos  conti¬ 
nuavam  a  habitar  com  o  irmão  beneficiado.  No  Mâconnais  estavam  muito  difundidas 
normas  igualitárias  que  asseguravam  a  todos  os  filhos  os  mesmos  direitos  à  sucessão, 
sendo  o  património  mantido  em  conjunto  depois  da  morte  do  pai.  e  não  partilhado. 
Apesar  disso,  como  a  partir  do  início  do  século  XI,  se  não  antes  ainda,  se  começou  a 
limitar  progressivamente  o  casamento  ao  filho  mais  velho,  os  filhos  legítimos  que  ele 
gerava  ficavam  com  todas  as  partes  da  herança  que  haviam  antes  cabido  aos  tios  celiba¬ 
tários.  Este  foi  um  dos  processos  que  permitiu  à  primogenitura  surgir  e  desenvolver-se 
no  interior  de  um  regime  que  parece  inteiramente  oposto,  o  da  detenção  colectiva  dos 
bens  hereditários19.  Pela  mesma  altura,  uma  situação  exactamente  idêntica  ocorria  na 
região  de  Barcelona20.  Não  existiu  originariamente  uma  divisão  clara  entre  a  sucessão 
do  filho  mais  velho  à  cabeça  do  núcleo  patrimonial  e  as  formas  de  herança  que  benefi¬ 
ciavam  todos  os  filhos,  tanto  assim  que  a  primogenitura  resultou  de  uma  evolução  gra¬ 
dual.  Inicialmente,  e  em  certas  regiões  até  uma  data  tardia,  o  testamento  paterno  limi¬ 
tava-se  a  estipular  para  um  dos  filhos  uma  fracção  dos  bens  superior  à  que  era  atribuída 
aos  demais21. 


17  J.  Prawer  (1969-1970)  1  146.  Consultar  no  mesmo  sentido:  J.  Goody  ( 1985)  125;  Ch.  E.  Perrin 
(1957-1959)180. 

Todavia,  J.  C.  Holt  1 1982-19831  XXXIII  213  previne  que  se  ignora  até  que  ponto  um  sistema  de 
sucessão  ordenado  e  dando  prioridade  à  primogenitura  existia  já  na  Normandia  na  altura  da  expedição 
de  1066. 

lfl  Segundo  J.  C.  Holt  (1972)  10.  o  Pays  de  Caux.  ou  seja.  a  porção  da  costa  normanda  que  vai 
desde  Dieppe  até  Le  Havre,  com  o  respectivo  hinterland.  praticava  a  forma  extrema  de  primogenitura, 
mas  nas  outras  regiões  do  ducado  ocorria  a  partilha  entre  os  vários  filhos.  Depois,  enquanto  no  Pays 
de  Caux  passou  a  aceitar-se  um  regime  mitigado  de  primogenitura,  no  resto  da  Nonnandia  foi  adop- 
tado  o  parage.  Ver  iguaimente  id.  ( 1 982- 1 983 )  XXXIII  211  e  2 1 3 . 

19  G.Duby  (1972)  818-819. 

20  P.  Bonnasie  ( 1967)  1 17. 

21  Acerca  da  inmelioraiio  ver  em  geral'  id..  ibid.,  117-118;  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  180.  Quanto 
ao  que  se  passava  na  área  dos  Países  Baixos  incluída  no  império  germânico:  R.  Jacob  (1989)  43. 
Acerca  do  Mâconnais:  G.  Duby  (1953)  277-279.  Acerca  do  reino  de  Navarra  e  da  coroa  de  Aragão: 
M.-C.  Gerbet  (1994)  60.  67.  Mais  especificamenle  na  Catalunha:  P.  Bonnassie  (1975-1976)  548-549: 
J.-P.  Cu  vi  11  ier  (1969)  169;  M.-C.  Gerbet  (1994)  60:  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  185.  186.  Em  Leão  e  Cas¬ 
tela:  1.  Beceiro  Pita  (1990)  330:  S.  M.  Belmanino  ( 1968)  284-285;  M.-C.  Gerbet  1 1994)  45.  1 16. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


169 


Do  mesmo  modo,  também  a  demarcação  não  foi  nítida  entre  a  prática  da  indivisão 
da  herança  e  a  génese  da  partilha  efectiva22.  Por  um  lado,  são  abundantes  as  referências 
à  manutenção  do  património  familiar  em  comum  por  todos  os  filhos,  sem  ser  repartido 
nem  amputado.  E  como  ao  longo  do  tempo  se  incluíam  nestas  associações  parentes 
cada  vez  mais  afastados,  muitas  vezes  elas  acabaram  igualmente  por  servir  de  quadro  a 
elos  artificiais,  aceitando  famílias  estranhas22.  Parece  que  a  vocação  colectivista  dos 


22  Observa  D.  0.  Hughes  (.1976)  935  que  os  primeiros  testamentos  elaborados  por  membros  da 
aristocracia  foram  usados  para  restringir  a  herança  e  orientá-la  no  interior  do  grupo  constituído  pelos 
filhos,  e  não  para  a  transmitir  para  fora  do  grupo.  Esta  tese  é  confirmada  pelo  que  E.  Magnou-Nortier 
(1981-1984)  XII  75  escreve  a  propósito  do  Languedoc.  Noutra  perspectiva,  J.-P.  Poly  (1976)  160 
comenta  que  não  ocorria  obrigatoriamente  uma  oposição  entre  as  comunidades  de  irmãos  e  a  partilha, 
já  que  a  partilha  podia  deixar  alguns  bens  em  comum  e  uma  comunidade  de  bens  podia  a  todo  o 
momento  ser  rompida  por  uma  partilha.  À  primeira  vista,  previne  P.  Bonnassie  (1967)  1 18.  a  deten¬ 
ção  eolectiva  da  herança  e  a  inmelioratio  parecem  contraditórias,  mas  efectivamente  foram  comple¬ 
mentares.  pois  numa  modalidade  a  posse  em  comum  dizia  apenas  respeito  às  heranças  dos  filhos  sol¬ 
teiros.  sendo  o  irmão  casado  beneficiado  pela  inmelioratio,  enquanto  noutra  modalidade  a  inmeliora¬ 
tio  distinguia  alguns  dos  filhos,  que  detinham  em  comum  a  sua  parte  da  herança,  enquanto  a  parte 
menor  era  dividida  pelos  filhos  restantes.  Acerca  do  primeiro  dos  casos  ver  igualmente  id.  (1975- 
-1976)281. 

2’  Acerca  das  coiectividades  de  herdeiros  ver.  em  geral,  E.  Perroy  et  al.  (1955)  248.  Quanto  ao 
que  se  passava  na  Germânia  consultar  K.  Leyser  (1968)  39.  Na  Lituânia,  na  Polónia  e  na  Hungria,  J. 
Bardach  (1977)  340-345  estuda  comunidades  familiares  que  podiam  englobar  graus  de  parentesco 
mais  amplos  do  que  os  irmãos,  caracterizando-se  por  uma  apropriação  rigorosamentc  eolectiva.  A 
respeito  dos  casos  de  indivisão  da  herança  entre  a  aristocracia  do  Namurois  ver  L,  Genicoi  (1943- 
-1995)  1  102.  No  território  da  antiga  diocese  de  Bourges.  no  século  XIII,  G.  Devailly  (1973)  534 
menciona  a  existência  de  comunidades  tácitas  etn  famílias  de  cavaleiros.  Quanto  à  situação  na  gene¬ 
ralidade  das  regiões  meridionais  da  França  lerG.  Foumier  (1978)  1 12  e  G.  Sicard  ( 1953)  157-161.  G. 
Duby  ( 1953)  268-277  aborda  o  problema  no  Mâconnais  até  ao  final  do  segundo  terço  do  século  XII. 
mostrando  que  mesmo  depois  da  dissolução  da  comunidade  os  seus  antigos  participantes  detinham  o 
direito  de  opção  se  um  deles  pretendesse  alienar  um  bem  para  fora  do  grupo  familiar.  Ainda  a  res¬ 
peito  do  Mâconnais  ver  id.  (1972)  813.  As  comunidades  senhoriais  no  alto  Delfinado  são  estudadas 
por  H.  Falque-Vert  (1984)  7  e  segs.  através  de  um  dos  >eus  exemplos.  Quanto  à  Provença  pode  ler-se 
E.  Baratier  lorg,  1969)  158  e  J.-P.  Poly  1 1976)  159.  A  prálica  de  co-scnhoria  por  uma  família  da 
nobreza  provença!  é  mencionada  por  M.  Aurell  i  Cardona  (1986)  52.  J.  Heers  (1974)  39-40  fornece 
exemplos  ocorridos  na  Auvergne  durante  a  segunda  metade  do  século  XIII.  Acerca  do  Rouergue  ver 
H.  Enjalbert  (org.  1979)  145  e  P.  Ourliac  ( 1968)  582.  Alguns  casos  na  região  de  Toulouse  são  citados 
por  J.  H.  Mundy  (1954)  283  n.  64.  Em  numerosos  historiadores  encontram-se  referências  à  proprie¬ 
dade  familiar  eolectiva  na  Itália:  J.  Heers  ( 1 974 »  226:  D.  Herlihy  (1967)  28;  id.  (1969-1970)  176-178. 
180;  id.  et  al.  (1985)  344;  Ph.  Jones  (1966  b)  400-401.  409.  424;  id.  (1974)  1671;  P.  Santini  (1887) 
194;  P.  Toubert  <  1973  b)  189:  C.  Violante  ( 1977)  108,  1 18,  121-122.  Na  Inglaierra  do  século  XIV,  G. 
A.  Holmes  ( 1957  )  49  admite  que  entre  a  alta  aristocracia  se  difundisse  a  posse  em  comum  de  senho¬ 
rias  vassálicas.  Quanto  à  detenção  eolectiva  da  herança  nas  Espanha*  ver  J.  A.  Garcia  de  Cortázar 
(1990)  50.  A  situação  na  Catalunha  fica  mais  problemática  em  virtude  das  posições  contraditórias 
adoptadas  por  um  dos  melhores  conhecedores  da  história  desta  região.  P.  Bonnassie  (1967)  117 
escreve  que  na  área  de  Barcelona,  no  começo  do  período,  uma  das  maneiras  de  evitar  a  dispersão  do 
património  foi  a  posse  eolectiva  da  herança  pelo  conjunto  dos  filhos.  Em  ( 1968)  531  o  mesmo  autor 
pretende,  porém,  que  a  co-senhoria  familiar  raramente  envolvia  irmãos,  ocorrendo  sobretudo  entre 
marido  e  mulher.  Todavia,  referindo-se  ao  segundo  terço  do  século  XI,  em  (1975-1976)  548-549  ele 
admite  de  novo  que  uma  das  alternativas  praticadas  foi  a  participação  igualitária  de  todos  os  filhos 
numa  herança  mantida  colectivamente.  E.  a  propósito  do  mesmo  período,  J.-P.  Poly  et  ai.  ( 1980)  186 
confirmam  o  hábito  da  indivisão  da  herança  entre  os  irmãos.  Em  Leão  e  Castela,  até  ao  século  Xll,  a 


170 


Forma  II  do  dinheiro 


aristocratas  se  exerceu  acima  de  tudo  sobre  os  tipos  de  bens  que  possibilitavam  o  con¬ 
trolo  directo  das  comunidades  camponesas.  Nomeadamente,  a  associação  na  posse  ou 
no  patrocínio  de  igrejas  servia  para  congregar  irmãos  ou  os  seus  descendentes,  por 
vezes  sendo  mesmo  admitida  a  entrada  de  estranhos  no  grupo24,  o  que  mostra  que  ele 
era  suficientemente  forte  para  sustentar  elos  artificiais.  Ainda  a  respeito  dos  meios  de 
enquadramento  da  população  rural,  deve  notar-se  que  a  França  a  sul  do  Loire  e  a  Itália 
centro-setentrional  fornecem  exemplos  de  detenção  colectiva  de  fortalezas  por  uma 
multiplicidade  de  co-senhores,  chegando  a  atingir  algumas  dezenas,  pertencentes  a 
várias  linhagens,  decerto  saídas  de  um  mesmo  antepassado.  As  modalidades  em  que 
era  assegurado  o  colectivismo  na  posse,  bem  como  as  normas  que  presidiam  à  distribui¬ 
ção  dos  rendimentos  entre  os  co-senhores.  diferiam  de  uns  casos  para  outros,  mas  o  que 
importa  aqui  sublinhar  é  o  carácter  duradouro  destas  associações,  já  que  pelo  elevado 
número  dos  seus  membros  e  pelos  graus  de  parentesco  relativamente  afastados  pode¬ 
mos  deduzir  que  elas  haviam  resistido  com  êxito  à  passagem  das  gerações,  tanto  assim 
que  muitas  vezes,  especialmente  na  Itália,  integraram  famílias  estranhas  mediante  vín¬ 
culos  artificiais25.  O  Mâconnais  fornece  outro  exemplo  demonstrativo  da  preferência 
que  as  associações  senhoriais  tinham  pelos  elementos  de  controlo  da  vida  rural. 
Quando  se  dissolviam  as  comunidades  de  posse  constituídas  entre  irmãos,  e  aliás  pro¬ 
longadas  pelos  seus  descendentes,  sucedia  geralmente  que  os  campos  cultivados  e  os 
servos  fossem  divididos  primeiro,  mantendo-se  os  incultos  na  posse  colectiva26.  Tam¬ 
bém  na  Itália  era  corrente  que  os  bosques  e  os  incultos  que  haviam  pertencido  ao  domí¬ 
nio  real  permanecessem  indivisos  entre  os  vários  herdeiros  ou,  pelo  menos,  fossem 
transmitidos  apenas  entre  os  membros  de  uma  mesma  associação  familiar27.  Igrejas 
paroquiais,  castelos  e  habitats  fortificados,  áreas  incultas  -  temos  aqui  o  catálogo  dos 
meios  que  permitiram  à  classe  senhorial  enquadrar  os  camponeses  e  liquidar-lhes  os 
vestígios  de  independência. 


detenção  colectiva  de  senhorias  por  todos  os  irmãos,  e  depois  pelos  seus  filhos,  é  recordada  por  S.  M. 
Belmartino  (1968)  283  e.  até  unia  época  mais  tardia,  a  mdivisão  é  referida  também  por  M.-C.  Gerbet 
(1994)45. 

Antes  de  fornecer  alguns  exemplos  de  indivisão  do  património.  M.  Bloch  (1939-1940)  I  203-204 
afirma  que  a  formação  de  comunidades  de  herdeiros  sena  mais  rara  entre  os  senhores  do  que  na  classe 
servil,  e  sugere  como  hipótese  explicativa  o  facto  de  os  rendimentos  senhoriais  se  distinguirem  mal 
dos  poderes  de  comando,  os  quais,  pela  sua  própria  natureza,  seriam  dificilmente  exercidos  de 
maneira  colectiva.  Também  J.  Gaudemet  (1963)  97  e  n.  49  pretende  que  as  comunidades  familiares  se 
tenam  difundido  mais  entre  os  camponeses  do  que  na  classe  senhorial,  a  não  ser  nas  camadas  inferio¬ 
res  da  aristocracia,  cujo  modo  de  vida  estava  próximo  dos  hábitos  rurais.  Vimos,  no  entanto  (no  capí¬ 
tulo  1  >,  que  eram  frágeis  e  meramente  episódicas  as  comunidades  de  herdeiros  no  campesinato,  desti- 
nando-se  sobretudo  a  reunir  força  de  trabalho,  e  não  a  preservar  a  integridade  de  quaisquer  patrimó¬ 
nios.  R.  Fossier  (1968)  534  e  552  tem  razão  ao  observar,  a  propósito  da  Picardia,  que  os  senhores  aca¬ 
baram  por  ficar  agrupados  de  maneira  coerente  no  âmbito  dos  seus  patrimónios  lamiliares.  enquanto 
as  solidariedades  entre  camponeses  se  teciam  fora  dos  seus  quadros  familiares 

24  J.  M  Klassen  (1978)  40:  C.  Sánchez-Albomoz  (1980)  608-609. 

25  G.  Foumier  (1978)  112-113:  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  344;  Ch.  Higounei  (198(1)  115:  A.-G. 
Manry  (org.  1974)  189:  P.  Santmi  (1887)  191.  193-194;  A.  A.  Settia  ( 1984)  404:  C.  Violante  <  1977) 
121:  Ch.  Wickham  ( 1981 )  187. 

26  G.  Duby  (1953  )  270-272. 

27  J.  Heers  i 1 974)  226;  C.  Violante  ( 1 977  i  1 2 1 . 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


171 


Todavia,  até  no  interior  dos  regimes  mais  estritos  de  colectivismo  aristocrático  nos 
apercebemos  do  aparecimento  e  do  progresso  de  formas  de  partilha,  que  se  operavam 
mediante  a  distinção  entre  o  património  herdado  e  o  património  adquirido.  Na  Lituânia, 
na  Polónia  e  na  Hungria  formaram-se  coiectividades  de  parentes,  por  vezes  muito 
amplas  e  empregando  elos  artificiais.  Estas  coiectividades  eram  detentoras  efectivas  do 
património  herdado,  constituindo  o  conjunto  dos  seus  membros  um  proprietário  único, 
que  exercia  direitos  sobre  a  totalidade  dos  bens  herdados  colectivamente,  mas  apesar 
disso  os  núcleos  conjugais  que  as  integravam  detinham  os  patrimónios  adquiridos  e 
podiam  dispor  deles  livremente.  Esta  situação  contraditória  facilitou  o  declínio  da  indi- 
visão,  num  processo  muito  lento,  iniciado  no  final  do  período  e  que  se  prolongou  pelos 
séculos  seguintes2*.  Embora  noutro  contexto,  em  que  a  indivisão  não  estava  relacio¬ 
nada  com  qualquer  detenção  colectiva  da  herança,  é  igualmente  esclarecedor  o  que  se 
passou  na  Normandia  e  na  Inglaterra,  durante  a  época  em  que  aí  se  efectuou  uma  sepa¬ 
ração  sistemática  entre  aqueles  dois  tipos  de  património.  O  rigor  das  normas  sucessó¬ 
rias  incidia  apenas  no  património  herdado  e  admitia-se  para  o  outro  a  liberdade  testa- 
mentária  e  mesmo  a  possibilidade  de  alienação,  o  que  demonstra  sem  sombra  de 
dúvida  que  se  procurava  preservar  o  eixo  de  continuidade  da  linhagem,  perpetuando 
nas  gerações  futuras  um  corpo  de  bens  que  vinha  dos  ancestrais.  Mas  isto  não  impediu 
que  a  alienabilidade  de  um  dos  tipos  de  património  acabasse  por  influir  sobre  as  regras 
de  detenção  do  outro,  facilitando  afinal  as  partilhas29. 

No  entanto  -  e  temos  aqui  o  aspecto  decisivo  -  a  divisão  da  herança  não  punha  por 
si  só  em  risco  a  coesão  dos  componentes  fundamentais  do  património.  Como  se  tratava 
de  aristocratas,  que  se  notabilizavam  precisamente  por  deterem  e  aplicarem  o  bannum, 
eram  sobretudo  os  centros  da  autoridade,  que  as  linhagens  se  esforçavam  por  preservar 
das  partilhas.  Mantiveram-se  assim  coesos,  apesar  dos  percalços  sucessórios,  os 
núcleos  mais  antigos  e  compactos  das  terras  senhoriais,  com  a  respectiva  mansão,  ou, 
no  caso  do  poder  impessoal,  os  castelos30.  E  ainda  muito  elucidativo  que  os  direitos 


2S  J.  Bardach  (1977  )  340-341,  343-344,  349-353. 

29  J.  C.  Holt(1972)  12,42. 

Este  autor  acrescenta  ípp.  12-13,  42)  que,  quando  um  só  herdeiro  recebia  a  totalidade  dos  bens, 
daí  ent  diante  tanto  o  que  havia  constituído  o  património  herdado  como  o  adquirido  passavam  a  ser 
considerados  unicamente  património  herdado,  lima  observação  idêntica  é  feita  por  J.  Bardach  ( 1977) 
350  a  propósito  das  coiectividades  familiares  na  Lituânia,  na  Polónia  e  na  Hungria  Por  outro  lado,  J. 
C.  Holt  em  op  cit..  16  indica  ainda  que  no  final  do  século  XII  a  lei  nomianda  permitia  ao  primogénito 
escolher  o  património  adquirido,  se  o  preferisse  ao  herdado,  pois  a  conquista  da  Inglaterra  levara 
entretanto  a  uma  enorme  ampliação  dos  patrimónios  adquiridos  (p.  21);  assim,  tomara-se  deveras 
absurdo  o  hábito  introduzido  desde  a  época  de  Guilherme  o  Conquistador  de  legar  ao  filho  mais  velho 
a  parte  normanda  da  herança,  deixando  a  parle  inglesa  para  o  segundo  filho.  A  este  respeito  ver  M. 
Botiard  (org.  1970)  142. 

A  propósito  do  Mâconnais.  G.  Duby  (1953)  39  n.  1  recorda  que,  numa  acepção  estrita,  o  alódio 
era  a  parte  do  património  herdada  dos  antepassados  e  que  devia  ser  transmitida  aos  descendentes,  for¬ 
mando  o  eixo  material  da  família;  depois  o  sentido  do  temio  ampliou-se,  passando  a  incluir  as  novas 
aquisições  que  não  fossem  detidas  em  estatuto  vassálico  e  pudessem,  por  isso,  ser  transmitidas  livre¬ 
mente  aos  herdeiros.  O  que  definia  o  alódio,  conclui  Georges  Duby,  era  o  carácter  familiar  da  posse,  e 
não  qualquer  independência  absoluta  da  propriedade,  visto  que  o  soberano  sujeitava  a  encargos  as 
senhorias  que  o  compunham.  Também  R.  Fossier  ( 1968)  636  afirma  que  na  Picardia  era  sobretudo  o 


172 


Forma  II  do  dinheiro 


decorrentes  de  unia  senhoria  impessoal  fossem  mantidos  durante  muito  mais  tempo  na 
propriedade  colectiva  dos  herdeiros  do  que  as  meras  senhorias  pessoais31.  Além  disso, 
nem  sempre  as  partilhas  comprometiam  a  continuidade  da  linhagem32.  Se,  por  exem¬ 
plo,  a  divisão  da  herança  se  articulasse  com  o  direito  de  opção  exercido  pelos  parentes 
aquando  de  tentativas  de  alienação  para  fora  do  grupo,  a  circulação  dos  bens  não  preju¬ 
dicaria  a  manutenção  do  património  no  interior  do  circulo  familiar  de  origem33.  É 
necessário  igualmente  recordar  que  os  membros  da  família  prosseguiam  por  vezes  den¬ 
tro  dos  muros  da  fortaleza  uma  certa  vida  comunitária,  ou  estabeleciam  as  suas  residên¬ 
cias  muito  próximas  umas  das  outras34,  originando  em  qualquer  circunstância  elemen¬ 
tos  de  colectivismo  que  podiam  definir  um  quadro  de  posse  comum.  Em  todos  estes 
casos  procurava-se  antes  de  tudo  garantir  a  solidariedade  da  linhagem,  de  maneira  a 
assegurar  a  sua  continuidade.  Era  este  o  objectivo  fundamental,  e  as  soluções  adopta- 
das,  por  mais  diferentes  ou  até  opostas  que  hoje  nos  pareçam,  não  constituíam  senão 
modalidades  de  aplicação  prática  desse  imperativo  familiar35. 


alódio  a  serv  ir  de  base  à  perpetuação  da  linhagem.  Contudo,  J.-P.  Poly  ( 1976)  156  defende  uma  tese 
oposta  a  respeito  da  Provença,  considerando  que  uma  senhoria  fiscal  detida  em  estatuto  de  vassala¬ 
gem  não  era  divisível,  ao  contrário  do  alódio.  que  permitia  as  partilhas.  Referindo-se  à  Normandia  no 
final  do  século  XI,  J.  C.  Holt  ( 1972)  10-11  escreve  que  a  senhoria  principal  só  muito  raratnenie  era 
dividida  entre  os  filhos,  destinando-se  as  senhorias  secundárias,  se  as  houvesse,  para  a  herança  dos 
filhos  mais  novos.  Do  mesmo  modo,  no  Hainaut,  já  no  final  do  período.  G.  Sivéry  (1977-19X0)  175 
informa  que  o  direito  de  primogenitura  se  exercia  apenas  sobre  a  principal  senhoria  vassálica,  e  as 
restantes,  se  existissem,  eram  atribuídas  aos  filhos  segundos.  C.  Violante  (1977)  104  e  106-107  mos¬ 
tra  que  na  Itália,  quando  se  difundiu  a  divisão  efectiva  do  conjunto  senhorial  entre  os  herdeiros,  pro¬ 
curava-se  que  as  terras  partilhadas  formassem  núcleos  compactos.  Quanto  à  transmissão  indivisa  da 
residência  que  constituía  a  sede  da  linhagem,  ver  H.  Bresc  ( 1986)  393.  A  carga  simbólica  de  que  era 
investida  a  casa  da  família  senhorial  encontra-se  analisada  em  R.  Sánchez  Saus  (1989)  51-52.  a  pro¬ 
pósito  da  região  de  Sevilha.  No  norte  da  França,  consoante  indica  G.  Foumier  ( 1978)  1 10-1 1 1,  o  her¬ 
deiro  principal,  que  era  com  frequência  o  primogénito,  recebia  a  parte  mais  importante  do  conjunto 
senhorial,  especialmente  o  castelo.  E,  de  toda  a  fortaleza,  era  à  torre  que  se  atribuía  o  valor  simbólico 
mais  acentuado,  esclarece  A.  A.  Settia  ( 1984)  404. 

11  J.  Heers  ( 1974)  227. 

M.  Parisse  (org.  1977)  170-171  informa  que  na  l.orena  a  primogenitura  se  foi  instaurando  a 
partir  do  século  XII,  embora  muitas  famílias  dos  estratos  mais  modestos  da  aristocracia  se  mantives¬ 
sem  apegadas  à  prática  de  partilhar  a  herança.  Exactamente  a  mesma  observação  é  feita  por  B.  Hamil¬ 
ton  (1979)  VIII  1 1  a  respeito  do  Languedoc  Se,  como  diversos  historiadores  pretendem,  a  divisão  do 
património  entre  os  herdeiros  fosse  por  si  só  um  factor  de  empobrecimento,  então  é  extraordinário  que 
o  hábito  perdurasse  precisamente  nas  camadas  menos  prósperas,  que  deviam  estar  interessadas  em 
evitar  um  declínio  irremediável. 

33  Ver  neste  sentido:  J.  Goody  ( 1985)  126;  S.  Weinberger  (1982)  150-151. 

Na  Polónia  do  século  XII,  segundo  A.  Gieysztor  (1971  b)  90,  ao  mesmo  tempo  que  se  reforçou  a 
solidariedade  entre  parentes  e  que  começaram  a  formar-se  algumas  linhagens  poderosas,  surgiu  o 
direito  de  opção  dos  membros  da  família.  Assim,  não  me  parece  que  lenha  razão  J.  Mattoso  ( 1981 ) 
393  ao  pretender  que  o  direito  de  opção,  que  considera  um  vestígio  do  cognatismo.  seria  contraditório 
com  a  linhagem  agnática. 

34  G.  Duhy  ( 1981 )  292-293:  J.  Heers  (1974)  152. 

-’5  Ao  observar  que  o  hábito  de  dividir  o  património  entre  todos  os  herdeiros  foi  superado  na 
França  setentrional  pelo  sistema  da  primogenitura,  e  a  sul  do  Loire  e  na  Itália  por  regimes  variados  de 
posse  em  comum,  H.  E,  Mayer  ( 1972)  23  está  a  mostrar  que  se  tratava  de  estratégias  alternativas  com 
um  mesmo  objectivo 


Estruturas  familiares  da  c  lasse  senhoria I 


173 


Os  historiadores  presumem  com  frequência  que  a  estrutura  familiar  da  linhagem 
agnática  corresponderia  naturahnente  a  um  modelo  jurídico  de  sucessão  caracterizado 
por  uma  rigorosa  primogenitura.  Daí  que,  onde  as  normas  sucessórias  não  obedeciam 
àquele  modelo,  deduzam  que  seria  também  menos  nítido  o  perfil  da  linhagem  agná- 
tica  '6.  Mas,  como  vimos  há  pouco,  mesmo  quando  a  primogenitura  era  afirmada  como 
um  direito  podia  suceder  que  na  prática  os  filhos  segundos  não  fossem  totalmente 
excluídos  da  herança.  Como  sempre  acontece,  um  dado  quadro  jurídico  não  constitui 
mais  do  que  uma  entre  muitas  técnicas  capazes  de  efectivar  um  mesmo  sistema  social, 
cuja  variabilidade  depende  de  numerosas  circunstâncias,  nomeadamente  de  tradições 
culturais.  Se  cada  tipo  de  direito  é.  em  parte,  a  expressão  de  uma  estrutura  social,  por 
outro  lado  ele  é  uma  mera  linguagem,  capaz  de  se  referir  a  estruturas  diferentes  e 
sujeita  a  aceitar  a  concorrência  de  outras  normas  jurídicas  para  exprimir  as  mesmas 
estruturas.  O  novo  sistema  sucessório,  em  que  o  núcleo  fundamental  do  património  era 
transmitido  ao  primogénito,  foi  gerado  gradualmente  no  interior  de  formas  que.  se  con¬ 
siderarmos  só  a  sua  aparência  jurídica,  eram  completamente  opostas. 


b.  Estratégias  matrimoniais 

No  primeiro  período  do  regime  senhorial  a  monarquia  mantivera  a  sua  especifici¬ 
dade  e.  portanto,  o  prevalecimento  dos  reis  não  se  devera  apenas  ao  facto  de  eles  serem 
os  maiores  senhores,  mas  de  exercerem  o  banrutm  consoante  modalidades  parcialmente 
diferentes  das  que  caracterizavam  o  poder  dos  demais  aristocratas.  Nessas  circunstân¬ 
cias  o  favor  da  coroa  fora  um  dos  componentes  indispensáveis  à  fortuna  de  qualquer 
senhor.  Mesmo  nas  variantes  que  obedeciam  já  a  um  modelo  de  linhagem,  o  prestígio 
da  família  tivera  de  ser  mantido  e  renovado  em  cada  geração,  contando  para  isso  muito 
mais  a  frequência  da  corte  do  que  a  posição  social  que  os  antepassados  pudessem  ter 
alcançado  em  épocas  anteriores.  Na  proximidade  do  monarca  os  magnates  reforçavam 
a  sua  autoridade  com  os  reflexos  de  uma  autoridade  de  outro  tipo.  A  liquidação  dos 
últimos  vestígios  de  independência  camponesa,  agravada  pela  crise  dos  séculos  IX  e  X 
no  continente  a  norte  dos  Pirenéus,  alterou  profundamente  o  sistema  de  relacionamento 
entre  os  senhores  e  a  realeza.  Por  um  lado,  os  soberanos  passaram  a  ocupar  apenas  o 
vértice  de  hierarquias  estritamente  senhoriais:  por  outro,  os  magnates  começaram  a 
sujeitar  a  totalidade  da  população  rural  às  fonnas  impessoais  do  poder,  e  mesmo  os 
aristocratas  mais  desafortunados  viram,  afinal,  as  suas  senhorias  pessoais  inseridas  no 
estrato  inferior  das  novas  hierarquias.  Assim,  neste  segundo  período,  o  núcleo  patrimo- 


Ch.  E.  Perrin  1 1957-  I959i  1X1  indica  que  a  primogenitura,  lai  aliás  como  o pantge.  não  existiu 
na  Germánia  e.  segundo  K.  Leyser  (1970)  133.  o  desenvolvimento  da  linhagem  não  leria  aí  atingido 
as  proporções  que  alcançou  a  ocidente.  Por  sua  vez.  J.  Heers  ( 1974)  25  pretende  que  o  progresso  da 
estrutura  de  linhagem  foi  mais  tardio  na  Gennàma  e  nas  regiões  ocidentais  que  lhe  eram  vizinhas, 
como  o  Namurois,  a  Champagne  e  a  Franche-Comié.  O  mesmo  tipo  de  raciocínio  e  aplicado  à  Espa¬ 
nha  cristã  por  J.  Mattoso  ( 1981 )  3X3,  argumentando  este  historiador  que  as  campanhas  militares  pro¬ 
longadas  ergueram  durante  muito  tempo  obstáculos  à  constituição  de  senhorias  duráveis  e  à  sua  trans¬ 
missão  hereditária,  o  que  teria  impossibilitado  a  formação  de  linhagens. 


174 


Forma  II  do  dinheiro 


nial  herdado  pelas  sucessivas  gerações,  e  que  representava  o  prestígio  acumulado  pela 
família  ao  longo  do  tempo,  garantia  uma  base  de  fortuna  independentemente  de  quais¬ 
quer  benefícios  recebidos  da  coroa  e  assegurava  à  família  um  eixo  de  continuidade 
temporal.  A  delimitação  de  cada  linhagem  pôde  surgir  com  absoluto  rigor. 

Foi  decerto  esta  mudança  que  conferiu  outras  virtualidades  às  relações  matrimoniais 
e  alterou  as  modalidades  da  herança  feminina  e  a  forma  de  sustentação  das  esposas. 
Bastou  a  perda  de  especificidade  da  coroa  para  desagregar  as  famílias-clientela  que 
haviam  prevalecido  numa  vasta  zona  do  continente,  retirando  aí  ao  casamento  a  função 
de  unir  esferas  familiares  diferentes  e  de  as  confundir  na  mesma  rede  de  solidariedades. 
Mas  as  implicações  do  matrimónio  transformaram-se  igualmente  naquelas  variantes  em 
que  a  família  aristocrática  se  caracterizava  já  antes  do  século  X  por  obedecer  a  um  sis¬ 
tema  patrilinear.  Sabemos  (ver  o  capítulo  19.a  da  Parte  I)  que  tanto  a  sul  dos  Alpes 
como  na  Inglaterra  anglo-saxónica  a  relação  de  filiação  prevalecera  sobre  o  elo  conju¬ 
gal,  de  maneira  que  a  esposa  havia  representado,  no  interior  da  linhagem  do  marido, 
como  que  um  penhor  da  aliança  com  a  linhagem  que  a  dera  em  casamento.  Agora, 
porém,  no  segundo  período,  a  esposa  quebrava  os  vínculos  com  a  família  de  origem  e 
perdia  o  estatuto  que  caracterizava  o  seu  pai  para.  junto  com  a  eventual  descendência, 
se  inserir  inteiramente  na  família  do  marido  e  adoptar-lhe  o  grau  de  prestígio37.  A  polí¬ 
tica  matrimonial  continuava  a  ser  muito  importante  não  já  para  dilatar  pelo  cognatismo 
e  pela  afinidade  os  limites  da  família,  nem  para  converter  a  esposa  num  símbolo  pes- 
soalizado  da  junção  de  duas  linhagens,  mas  para  aliar  linhagens  que  se  mantinham 
completamente  autónomas  e  não  se  uniam  por  qualquer  elemento  pessoal.  Nestas  cir¬ 
cunstâncias,  em  que  cada  linhagem  apresentava  como  razão  de  ser  a  sua  distinção  rela¬ 
tivamente  a  todas  as  outras,  tomava-se  ainda  mais  necessário  multiplicar  os  vínculos 
matrimoniais  para  reforçar  a  coesão  de  classe  da  aristocracia.  Afigurou-se  então  conve¬ 
niente  ampliar  os  critérios  da  exogamia,  pois  quanto  mais  distantes  fossem  os  graus  de 
parentesco  em  que  se  procurava  esposa,  tanto  mais  vastos  seriam  os  territórios  onde  se 
firmavam  as  alianças  e  mais  numerosos  se  tomariam  os  fios  com  que  eram  tecidas  as 
redes  de  solidariedade18. 

Embora  a  afinidade  tivesse  perdido  muito  do  seu  significado  enquanto  relação 
estrita  de  parentesco,  cresceram  as  suas  implicações  políticas,  indispensáveis  para  con¬ 
solidar  a  hegemonia  da  classe  senhorial  em  territórios  bem  definidos.  À  medida  que  a 
generalização  do  regime  de  exploração  impessoal  permitiu  reconstituir  as  hierarquias 
aristocráticas  e  que,  por  conseguinte,  foi  possível  estabelecer  soberanias  homogéneas 
em  principados  e  reinos,  as  alianças  matrimoniais  prosseguidas  sistematicamente  trans¬ 
formaram  em  blocos  coesos  os  vários  níveis  da  classe  dominante,  à  escala  dos  reinos 
ou  das  regiões30,  e  talvez  assegurassem  mesmo  o  controlo  coerente  de  rotas  comer- 


’7  Quanto  à  Itália  ver  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  344. 

-,s  Escreve  A.  Guerreau-Jalabert  (1990)  101  que  nos  séculos  Xi  e  Xll  os  conflitos  acerca  dos 
modelos  de  matrimônio  estiveram  estreitamente  relacionados  com  a  fixação  espacial  da  classe  domi¬ 
nante.  E  G.  Tabacco  ( 1976)  914  observa  que  a  multiplicação  do  número  de  linhagens,  verificada  desde 
o  começo  do  século  Xi.  acompanhou  o  processo  de  definição  territorial  do  poder  da  aristocracia. 

39  P.  Bonnassie  (1975-1976)  162-165,  287  288;  G  Duby  (1953)  64;  R.  Fossier  (1968)  542;  L. 
Genicot  (1943-1995)  11  61;  id.  (org.  1973)  132-133;  kl  1 1975 1  44;  A.  Guerreau-Jalaben  G9K1)  1040; 


Estruturas  familiares  da  alasse  senhorial 


175 


ciais40.  De  igual  modo,  em  territórios  de  colonização  senhorial  recente,  como  o  Bran¬ 
deburgo  e  a  Pomerânia,  foram  os  casamentos  mistos  a  fundir  a  nobreza  autóctone  e  a 
nobreza  germânica  imigrada,  de  maneira  a  formar-se  uma  classe  social  única41.  Não 
espanta  que.  na  Prússia,  a  Cavalaria  Teutónica.  cujos  membros  eram  todos  eles  prove¬ 
nientes  do  império  germânico,  relegasse  a  nobreza  nativa  para  um  nível  subalterno42. 
Com  efeito,  tratando-se  de  uma  ordem  religiosa,  os  casamentos  mistos  eram  impossí¬ 
veis  e  por  isso  a  fusão  social  não  pôde  ter  lugar. 

Destinadas  a  inserirem-se  plenamente  na  linhagem  do  futuro  marido  e  a  cortarem  os 
elos  que  as  uniam  à  família  onde  haviam  nascido,  as  filhas  foram  progTessivamente 
excluídas  da  herança,  através  da  difusão  do  dote,  que  correspondia  a  uma  herança  ante¬ 
cipada  e  definitiva,  cancelando,  em  princípio,  o  direito  a  formular  qualquer  reivindica¬ 
ção  posterior  sobre  a  massa  de  bens  legados  pelo  pai.  E  como  o  dote  era  composto  por 
bens  móveis,  a  sua  concessão  não  desfalcava  o  núcleo  patrimonial  em  que  assentava  a 
perpetuação  da  linhagem.  Ao  mesmo  tempo  que  a  família  da  noiva,  ao  dotá-la.  liqui¬ 
dava  as  suas  obrigações  para  com  ela,  foi-se  também  extinguindo  a  tradição  que  havia 
levado  os  maridos  a  atribuírem  às  esposas,  por  ocasião  do  casamento,  um  montante 
substancial  de  terras  e  servos.  Numa  fase  transitória,  podia  acontecer  que  o  noivo  redu¬ 
zisse  o  presente  de  casamento  aos  rendimentos  de  uma  dada  terra,  e  nestas  circunstân¬ 
cias  não  só  a  alienação  dos  rendimentos  era  provisória,  limitada  ao  período  de  vida  da 
esposa,  como  não  implicava  a  perda  da  base  fundiária.  Por  fim,  a  mulher,  além  de  se 
ver  sem  mais  direitos  relativamente  à  sua  família  de  origem,  ficava  também  impedida 
de  participar  no  conjunto  senhorial  da  família  em  que  se  ia  inserir,  de  maneira  que 
ambas  as  linhagens  protegiam  assim  com  maior  eficácia  a  continuidade  dos  seus  patri¬ 
mónios.  Tanto  o  dote  como  as  novas  formas  de  herança  decorreram  do  rigor  com  que 
haviam  passado  a  delimitar-se  as  linhagens  agnáticas43.  E  certo  que  em  várias  regiões 


E.  Magnou-Nortier  ( 1980)  146  n.  26,  148,  159;  id.  (1981-1984)  XII  72-73;  J.  Mattoso  [1994  b]  1 89- 
-190.  " 

A  propósito  da  Inglaierra  no  século  XIV,  G.  A.  Holmes  (1957)  7  observa  o  carácter  planificado  da 
transferência  de  propriedades  fundiárias,  que  se  efectuava  através  das  heranças  e  dos  casamentos,  e 
acrescenta  que  poucas  ou  nenhumas  rransferências  de  senhorias  verdadeiramente  importantes  resulta¬ 
ram  de  meras  transacções. 

4,1  É  esta  a  tese  defendida  por  A.  Varagnac  <  1946)  216-217. 

41  F.  L.  Carsten  (1954)  17-19. 

4-  K.  Gorski  (1966)  280. 

4<  Para  o  conjunto  desta  análise  ler  D.  O.  Hughes  (1976)  932-934.  Acerca  do  dote  consultar  tam¬ 
bém:  R.  Aubenas  (1936)  536:  G  Duby  (1962)  395-396;  id.  (1973)  194;  id.  (1977  a)  30;  J.  B.  Freed 
(1995)  149:  M.-C.  Gerbet  (1994)  45;  R.  Jacob  ( 1989)  41;  J.-P.  Poly  <  1976)  159;  C.  Violante  1 1977) 
1 14.  Quanto  ao  processo  de  extinção  do  presente  de  casamento  oferecido  pelo  noivo  à  noiva  ver:  M.- 
-C.  Gerbet  (1994)  45:  S.  Weinberger  ( 1982)  150-151. 

Os  minixleriates  da  arquidiocese  de  Salzburgo  parece  terem  constituído  uma  exoepção  parcial, 
pois,  a  crer  em  J.  B  Freed  (1995)  149.  apesar  da  tendência  para  o  aumento  do  dote.  a  participação 
financeira  da  família  do  noivo  manteve-se  igual,  ou  até  superior,  ao  montante  adiantado  pela  família 
da  noiva.  Mas  foi  no  norte  das  Espanhas.  onde  a  srxiedade  senhorial  se  desenvolveu  tardiamente  e 
onde  eram  muito  acentuados  os  traços  de  arcaísmo  nas  estruturas  familiares,  que  a  situação  fugiu 
inteiramente  ao  quadro  indicado.  No  reino  de  Navarra  não  existia  regime  matrimonial  dotal  e  era  o 
noivo  quem  entregava  à  noiva  um  donativo.  Também  os  costumes  da  coroa  de  Aragão  não  reconhe¬ 
ciam  o  regime  dotal  no  matrimónio  e  estipulavam  a  comunidade  de  bens.  incluindo  a  dos  adquiridos; 


176 


Forma  II  do  dinheiro 


da  França,  por  exemplo,  e  talvez  mais  acentuadamente  na  parte  meridional  do  reino, 
sucedeu  que  os  testamentos  minorassem  a  exclusão  das  filhas  e  lhes  destinassem  alguns 
bens44,  mas  se  podia  variar  a  severidade  com  que  eram  aplicadas  aquelas  regras,  em 
todos  os  casos  o  objectivo  fundamental  mantinha-se  idêntico,  a  marginalização  dos  ele¬ 
mentos  femininos  da  linhagem  e  a  preservação  do  núcleo  patrimonial45.  Tanto  assim 
que  na  Germãnia  famílias  de  magnates  podiam  com  frequência  ser  encabeçadas  por 
viúvas,  que  adquiriam  então  um  grande  ascendente  e  controlavam  o  conjunto  do  patri¬ 
mónio46,  e  na  Inglaterra,  pelo  menos  na  segunda  metade  do  século  Xlll.  era  corrente 
que  senhorias  vassálicas  estivessem  em  mãos  femininas47,  mas  sem  que  estas  situações 
episódicas  alterassem  minimamente  o  estatuto  secundário  que  era  conferido  às  mulhe¬ 
res  enquanto  o  pai  ou  o  marido  chefiavam  a  família. 

As  estratégias  matrimoniais  tiveram  outro  tipo  de  implicações,  contribuindo  para 
reforçar  a  coesão  da  classe  dominante.  As  guerras  faziam  com  que  muitas  vezes  os 
homens  morressem  bastante  mais  cedo  do  que  as  mulheres,  e  nestas  circunstâncias  o 
estímulo  dado  à  exogamia  permitia  que  alguns  filhos  segundos  marginalizados  na 
herança  se  estabelecessem  como  chefes  de  família,  através  do  casamento  com  herdeiras 
ricas  e  poderosas48.  Foi-lhes  possível  assim  manter  o  estatuto  social  de  origem  e  ascen¬ 
der  mesmo  a  categorias  de  nobreza  mais  elevada.  No  século  XII.  quando  príncipes  e 
outros  magnates  mandaram  redigir  as  suas  genealogias  ou  remodelar  as  que  já  exis¬ 
tiam,  se  os  escribas  deparavam  com  elementos  femininos  de  elevado  prestígio  na  ori¬ 
gem  da  linhagem,  sem  possuírem  qualquer  informação  quanto  aos  progenitores  mascu¬ 
linos,  criavam  então  uma  sequência  de  antepassados  inteiramente  imaginários  e  atri- 


por  morte  do  marido,  a  viúva  herdava  tudo  o  que  possuíam  em  comum,  desde  que  não  voltasse  a 
casar-se.  Compreende-se  que  neste  sistema  fosse  usual  a  repartição  igualitária  da  herança  entre  todos 
os  filhos  e  filhas.  Aeerea  da  situação  em  Navarra  e  Aragão  ver  M.-C.  Gerbet  (1994)  67.  Este  regime 
de  partilha  igualitária  da  herança  e  de  donativos  matrimoniais  a  cargo  do  noivo  perdurou  nas  provín¬ 
cias  bascas  que  depois  se  integraram  no  reino  de  Castela,  como  mostra  id..  ibid.,  4?.  Na  Catalunha  do 
século  XI.  segundo  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  185,  a  sucessão  contemplava  frequentemente  com  igual¬ 
dade  os  filhos  e  as  filhas.  Por  seu  lado.  consoante  indica  Marie-Claude  Gerbet  em  op.  cit..  17  e  45,  os 
costumes  do  reino  astur-leonês,  no  princípio  do  período,  estipulavam  que  o  noivo  concedesse  à  noiva 
um  presente  equivalente  a  metade  dos  seus  bens  actuais  e  futuros,  enquanto  a  mulher  entregava  ape¬ 
nas  um  donativo  de  escasso  valor;  o  dote  trazido  pela  noiva  só  começou  a  tomar-se  mais  importante  a 
partir  do  século  XII.  e  sobretudo  ao  longo  do  século  Xlll. 

44  Na  França  do  século  XIII.  E.  Miller  (1965  bi  119  informa  que  a  maior  parte  dos  costumes 
regionais  atribuía  frequentemente  às  filhas  uma  porção  específica  do  património.  Porém.  D.  O.  Hughes 
(1976)  936-937  parece  supor  que  a  exclusão  das  filhas  teria  sido  atenuada  sobretudo  a  sul  do  Loire. 
Neste  sentido.  M.  D.  Lambert  ( 1977)  1 16  indica  que  no  Languedoc  as  mulheres  participavam  também 
na  herança. 

45  Na  Alsácia,  no  entanto.  H.  Dubled  (1960  b)  168-169  pretende  que  no  século  Xlll  as  esposas  e 
as  filhas  podiam  por  vezes  ter  direitos  iguais  aos  da  descendência  masculina. 

46  K.  Leyser  (1968)  39.  51:  id.  (1979)  58. 

Na  Lombardia.  no  século  XI.  C.  Violante  1 1977)  1 14  escreve  que  as  viúvas  gozavam  de  bastante 
autonomia,  podendo  permanecer  em  casa  do  defunto  marido  e  dispor  livremente  de  1/3  dos  seus  bens. 

47  B.  D.  Lyon  (1951 )  168. 

4*G.  Dubyí  1964)  843-844. 

Observa  id.  (1977  a)  30-31  que,  consistindo  a  estratégia  familiar  das  linhagens  em  conseguir  casa¬ 
mento  para  todas  as  filhas  e  manter  no  celibato  lodos  os  filhos  excepto  o  primogénito,  a  oferta  de 
esposas  ultrapassava  muito  a  procura,  o  que  aumentava  a  possibilidade  de  obter  bons  casamentos. 


Estruturas  familiares  du  classe  senhorial 


177 


buíam  a  fundação  da  família  a  um  filho  segundo,  um  desses  cavaleiros  errantes  que  se 
haviam  convertido  num  lugar-comum  na  literatura  da  época49.  Mas  a  falsidade  factual 
de  um  mito  não  lhe  retira  o  valor  de  realidade  histórica,  e  não  era  por  acaso  que  se  ape¬ 
lava  para  a  figura  do  filho  segundo  em  busca  de  fortuna  sempre  que  na  génese  de  uma 
linhagem  a  nobreza  uxórica  parecia  deter  a  supremacia  sobre  a  agnática. 

Além  disso,  a  ampliação  da  esfera  em  que  ficava  interdita  a  endogamia  tomava  tam¬ 
bém  viável  que  pequenos  senhores  enriquecidos  e  desejosos  de  ascensão  encontrassem 
esposa  para  os  seus  filhos  em  meios  sociais  considerados  superiores,  beneficiando 
assim  do  prestígio  emanado  das  camadas  cimeiras  da  aristocracia50.  Esta  estratégia 
matrimonial  facilitou  mesmo  a  inclusão  na  nobreza  de  antigos  camponeses  independen¬ 
tes  ou  de  servos  que  só  recentemente  houvessem  beneficiado  de  uma  promoção  econó¬ 
mica  e  social51.  É  elucidativo  considerar  que  na  Germânia.  pelo  menos  na  arquidiocese 


49  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  141-144. 

5(1  Na  Lorena  do  século  XIII,  recorda  M.  Pansse  (org.  1977)  170,  os  homens  nobres  procuravam 
geralmente  uma  esposa  de  categoria  superior.  J.  B.  Freed  (1995)  31,  50.  134  e  139  indica  que  na 
arquidiocese  de  Salzburgo  começaram  por  ser  frequentes  os  casamentos  entre  mulheres  de  famílias 
nobres  e  ministeriales ,  contribuindo  para  que  esta  aristocracia  de  não-livres  adquirisse  uma  plena 
nobreza,  e  depois  de  os  niinisieriales  terem  beneficiado  da  promoção  social  muitas  das  suas  filhas 
desposaram  filhos  de  cavaleiros,  favorecendo  por  sua  vez  a  ascensão  destas  famílias  de  estrato  infe¬ 
rior.  Na  Áustria  e  na  Stírta,  porém,  td..  íbid..  141  previne  que  as  filhas  de  poderosos  ministeriales 
raramente  se  casavam  com  cavaleiros.  Nos  Países  Baixos  meridionais  e  no  norte  da  França,  segundo 
R.  Jacob  ( 1989)  41-42,  os  primogénitos  procuravam  encontrar  esposa  em  famílias  de  condição  supe¬ 
rior  à  sua.  o  que.  embora  só  excepcionalmente  ocasionasse  uma  promoção  social,  conferia  um  acrés¬ 
cimo  de  prestígio.  Refenndo-xe  à  França  a  norte  do  Loire.  à  Itália  e  à  Catalunha  entre  os  séculos  X  e 
XII,  A.  üuerreau-Jalabert  (1981)  1040  afirma  que  os  chefes  de  família  em  cada  estrato  da  classe 
senhorial  procuravam  casar  algumas  das  suas  filhas  com  homens  de  estratos  inferiores.  M.-C.  Gerbet 
(1994)  59-60  e  J.  E  Ruiz  Domenec  í  1979)  31 1  e  318-319  confirmam  que  na  Catalunha,  até  aos  mea¬ 
dos  do  século  XIII,  algumas  mulheres  das  camadas  superiores  da  aristocracia  eram  dadas  em  casa¬ 
mento  a  senhores  de  camadas  inferiores,  o  que  permitia  a  mobilidade  social  ascendente.  Ao  estudar  os 
livros  de  linhagens  na  França  dos  séculos  XI  e  XII,  G.  Duby  (1968)  59  mostra  que  até  uma  família 
condai  apresentou  no  acto  da  sua  fundação  um  lado  materno  com  prestígio  social  superior  ao  paterno, 
e  o  mesmo  se  passou  em  linhagens  da  pequena  nobreza,  consoante  se  lê  em  id.  ( 1967)  152-154.  Pode 
talvez  considerar-se  nesta  perspectiva  o  que  C.  Lansing  ( 1991 )  31  escreve  a  respeito  da  Itália.  Em 
Portugal.  J.  Matroso  [1994  b]  192  observa  a  frequência  do  casamento  de  primogénitos  com  mulheres 
oriundas  de  famílias  de  estratos  superiores.  Todavia,  a  respeito  das  teses  deste  historiador  veja-se 
adiante  a  n.  53.  Uma  situação  oposta  parece  ter  prevalecido  em  Inglaterra,  já  que  a  conquista  nor- 
manda  forneceu  a  muitos  filhos  segundos  oportunidades  de  estabelecimento  e  de  ascensão,  e  por  isso 
as  genealogias  não  necessitaram  de  conferir  tanta  importância  aos  antepassados  por  via  feminina 
enquanto  fonte  de  nobreza.  Aqui  o  principal  critério  genealógico  era  a  participação  na  expedição  de 
1066.  Ver  a  este  respeito  J.  C.  Holt  ( 1982-1983)  XXXII  206-208. 

Parece-me  especialmente  interessante  a  tese  de  J.  E.  Ruiz  Domenec  (1979)  319  e  segs.,  defen¬ 
dendo  que  o  amor  cortês  exprimiu  ideologicamente  a  ambição  de  encontrar  esposa  em  camadas  supe¬ 
riores  da  nobreza. 

M  Os  aristocratas  de  promoção  recente,  observa  C.  B.  Bouchard  (1981  b)  524,  ao  procurarem 
esposa  entre  a  nobreza,  permitiam  que  os  seus  descendentes  obtivessem  longas  genealogias  do  lado 
materno.  Consultar  no  mesmo  sentido  J.-P.  Poly  ei  al.  (1980)  192.  Estes  mesmos  autores  escrevem 
(pp.  191-192)  que  no  norte  da  França  numerosos  camponeses  independentes  e  mesmo  servos  enrique¬ 
cidos  conseguiram  aliar-se  matrimonialmente  a  famílias  de  nobreza  antiga  e  acabaram  eles  próprios 
por  se  tomar  nobres.  Na  Picardia.  R.  Fossier  (1968)  552  previne  que  a  nobreza  não  era  um  círculo 
social  fechado  e  que  a  acumulação  de  meios  de  fortuna,  consagrada  por  um  casamento  favorável,  per- 


178 


Forma  11  do  dinheiro 


de  Salzburgo,  o  prosseguimento  sistemático  de  uma  política  de  casamentos  com  mulhe¬ 
res  provenientes  de  famílias  dos  estratos  superiores  e  detentoras  da  plena  condição  de 
nobres  contribuiu  de  modo  decisivo  para  emancipar  o  estrato  da  aristocracia  composto 
por  agentes  senhoriais  de  origem  não-livre  e  para  o  fundir  com  a  restante  nobreza52.  A 
conjugação  daqueles  dois  processos  tomava  mais  coesa  a  classe  dominante.  Por  um 
lado,  ao  darem  algumas  das  suas  filhas  como  esposas  a  homens  dotados  de  uma  certa 
fortuna,  embora  oriundos  de  níveis  sociais  mais  baixos,  as  famílias  das  camadas  supe¬ 
riores  beneficiavam  dos  avultados  pagamentos  que  exigiam  pela  efectivação  dos  con¬ 
tratos  de  matrimónio53.  A  uma  deslocação  de  mulheres  e  de  prestígio  em  sentido  des¬ 
cendente  correspondia,  em  suma,  uma  deslocação  de  fortunas  em  sentido  ascendente, 
com  a  dupla  consequência  de  revitalizar  a  elite  graças  a  pessoas  e  bens  e  de  impedir  a 
exclusão  dos  novos  ricos,  evitando  tensões  sociais.  Por  outro  lado.  a  utilização  dos  elos 
de  parentesco  para  confirmar  a  aceitação  na  aristocracia  de  elementos  vindos  da  plebe, 
convertendo-os  em  nobres,  constituiu  um  aspecto  da  extinção  do  campesinato  indepen¬ 
dente  e  da  ampliação  do  regime  senhorial  até  atingir  a  totalidade  da  população,  de 
maneira  que  quem  não  fosse  servo  era  obrigatoriamente  aristocrata.  Aquela  mobilidade 
ascendente  foi  uma  faceta  indispensável  à  afirmação  das  senhorias  de  tipo  impessoal, 
pois  a  promoção  das  famílias  camponesas  mais  abastadas,  que  apareciam  como  os  diri¬ 
gentes  naturais  do  meio  rural,  serviu  aos  maiores  senhores  de  cada  região  para  domina¬ 
rem  por  dentro  as  colectividades.  Tudo  o  que  se  passa  no  interior  de  uma  classe  social 
tem  efeitos  na  classe  antagónica,  e  a  estrutura  interna  da  aristocracia  esteve  sempre  inti¬ 
mamente  relacionada  com  a  organização  do  campesinato.  Neste  segundo  período,  em 
toda  a  área  do  regime  senhorial  a  definição  rigorosa  de  linhagens  não  deixou  lugar  para 
incertezas  e,  sob  o  ponto  de  vista  dos  modelos  familiares,  marcou-se  uma  clivagem 
absoluta  entre  os  senhores  e  os  camponeses,  o  que  tomou  imprescindível  a  definição 
exacta  dos  canais  de  ascensão  social54. 


mitía  a  ascensão  até  à  classe  dominante.  E  na  mesma  região,  no  século  XIII  e  durante  o  começo  do 
século  seguinte,  id.  (org.  1974)  163  refere  o  processo  de  promoção  de  uma  elite  camponesa,  através 
da  sua  fusão  com  famílias  de  cavaleiros  em  declínio.  Na  Inglaterra  do  final  do  período,  C.  E.  Moreton 
(1991 )  255-260  mostra  que  no  âmbito  da  gentry,  a  aristocracia  local,  se  multiplicavam  as  oportunida¬ 
des  de  convivência  e  os  elos  matrimoniais  entre  os  pequenos  senhores  e  os  camponeses  mais  abasta¬ 
dos.  abrindo-se  vias  de  ascensão  social.  Ver  ainda  F  Gies  et  al.  f  1987)  251. 

52  Quanto  ao  papel  desempenhado  pela  política  matrimonial  na  emancipação  dos  ministeriales 
dependentes  do  arcebispo  de  Salzburgo  e  na  sua  fusão  com  a  restante  nobreza,  entre  o  começo  do 
século  Xll  e  o  início  do  século  seguinte,  ver  J.  B.  Freed  ( 1995)  4,  31.  88  e  99-100. 

5-  J.  E.  Riiiz  Domenec  (1979)  311. 

Não  creio  que  J.  Mattoso  ( 1981 )  307  esteja  certo  ao  considerar  que.  graças  a  tais  casamentos,  os 
maridos,  de  origem  social  inferior,  beneficiavam  da  riqueza  da  família  da  esposa.  Era  exactamente  o 
inverso  que  ocorria,  e  o  facto  de  serem  detentores  de  copiosos  bens  proporcionava  a  aristocratas  de 
menor  relevo  que,  a  troco  de  pagamentos  mais  ou  menos  avultados,  pudessem  reflectir  na  sua  linha¬ 
gem  o  lustre  dos  afins. 

54  G.  Duby  1 1981 1  lril  observa  que  a  difusão  do  sistema  de  linhagem  agnática  contribuiu  para 
isolar  ainda  mais  rigorosamente  a  nobreza  da  plebe.  Na  mesma  perspectiva,  a  propõsito  da  Itália.  Ch. 
Wickham  (1981)  1 15-1 16  indica  que  as  alterações  ocorridas  a  partir  do  século  XI  nos  sistemas  fami¬ 
liares  agravaram  a  diferenciação  entre  a  ciasse  dominante  e  o  campesinato.  E,  depois  de  referir  a  exis¬ 
tência  de  uma  variedade  de  estratos  no  interior  da  aristocracia.  E.  Perroy  (1962)  29  afirma  que, 
embora  um  magnate  pudesse  ignorar  que  pertencia  à  mesma  classe  social  que  os  senhores  mais 


Estruturas  familiares  tia  classe  senhorial 


179 


c.  Continuidade  patrimonial 

O  prevaiecimento  da  célula  conjugal  na  família  aristocrática  teve  implicações  pro¬ 
fundamente  diferentes  das  verificadas  entre  os  servos.  O  que  caracterizou  a  família 
aristocrática  neste  segundo  período  foi  a  projecção  no  tempo,  decorrente  da  continui¬ 
dade  de  um  núcleo  patrimonial.  A  história  só  existe  nos  seus  contrastes,  e  o  processo  de 
transformação  do  sistema  familiar  ocorrido  após  a  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X  per- 
mite-me  lançar  nova  luz  sobre  a  situação  anterior  e  rematar  a  análise  já  feita  (no  capí¬ 
tulo  19  da  Parte  1).  No  primeiro  período  os  patrimónios  não  tinham  um  grau  de  coesão 
e  uma  permanência  tal  que  fizessem  deles  o  quadro  de  perpetuação  das  famílias  ao 
longo  de  gerações.  Por  um  lado.  o  conjunto  senhorial  transmitido  por  herança  podia 
decerto  ser  muito  importante,  mas  eram  mais  significativos  ainda  os  favores  de  um 
monarca  ou  de  um  magnate,  e  este  era  um  critério  muito  volátil.  Quaisquer  que  fossem 
as  estruturas  de  parentesco  adoptadas,  tanto  no  âmbito  da  família-clientela  como  no  da 
linhagem  agnática,  elas  relacionavam-se  com  os  meios  de  obtenção  de  presentes,  quer 
bens  móveis  quer  terras  e  servos.  Sem  os  favores  da  coroa  não  teria  então  sido  possível 
a  afirmação  social  da  elite  da  aristocracia,  e  em  todos  os  níveis  da  classe  dominante  as 
benesses  do  chefe  da  família  asseguravam-lhe  a  devoção  dos  parentes.  Além  disso,  os 
grandes  conjuntos  senhoriais,  e  até  as  meras  senhorias,  formavam  redes  de  poder  dis¬ 
persas  e  fluidas,  em  permanente  recomposição  interna,  porque  estavam  interrompidas 
por  senhorias  alheias  e  por  terras  de  camponeses  independentes.  Neste  contexto  os 
patrimónios  não  possuíam  coesão  nem  continuidade. 

A  situação  alterou-se  no  segundo  período,  quando  a  extinção  dos  derradeiros  resí¬ 
duos  da  autonomia  rural  levou  os  reis  a  não  serem  mais  do  que  os  primeiros  senhores  e 
a  não  se  distinguirem  em  nada  de  fundamental  dos  príncipes  ou  dos  outros  poderosos 
que  haviam  assumido  a  soberania  em  âmbitos  regionais.  A  fortuna  das  famílias  da  alta 
nobreza  adquiriu  uma  base  inteiramenle  própria  e  dispensou  as  graças  régias55.  Depois, 
à  medida  que  a  fragmentação  atingiu  os  níveis  médios  e  inferiores  da  soberania,  mesmo 
as  famílias  senhoriais  de  importância  meramente  local  conseguiram  dispor  de  patrimó- 


modestos,  estes  estavam  persuadidos  de  se  inserirem  numa  classe  comum,  pois  sem  esta  convicção 
não  podiam  distinguir-se  dos  camponeses.  Quanto  mais  a  situação  económica  da  pequena  aristocracia 
a  aproximava  dos  rurais,  acrescenta  Edouard  Perroy,  mais  a  sua  consciência  social  se  mantinha  aristo¬ 
crática.  Na  Provença  a  demarcação  entre  cavaleiros  e  camponeses  era  muito  mais  acentuada  do  que  a 
existente  entre  os  cavaleiros  e  a  camada  superior  da  aristocracia,  considera  J.-P.  Poly  (1976)  141.  Por 
seu  lado,  D.  A.  Bullough  (1969)  17  segue  uma  perspectiva  oposta,  pretendendo  que  o  sistema  da 
linhagem  agnática  interessava  apenas  à  elite  da  aristocracia,  e  que  tanto  os  pequenos  senhores  como 
os  camponeses  procuravam  dispor  de  parentes  numerosos,  que  os  ajudassem  nas  ocasiões  difíceis. 

55  Trata-se  de  uma  concepção  indubitavelmente  arcaica  a  de  Don  Juan  Manuel,  sobrinho  de 
Afonso  X  de  Leão  e  Castela,  ao  descrever  o  rei  ideal  como  alguém  que  suplantava  os  outros  monarcas 
na  concessão  de  presentes  e  na  generosidade  para  com  os  vassalos,  como  leio  em  J.  N.  Hillgarth 
(1976-1978)  1  50.  Assim,  se  posso  ainda  admitir,  com  B.  P.  Wolffe  referido  por  P.  D.  A.  Harvey 
(1973)  13.  que.  sob  o  ponto  de  vista  do  rei,  o  conjunto  senhorial  da  coroa  inglesa,  de  onde  decorriam 
as  receitas  ordinárias,  fosse  considerado  mais  como  um  meio  de  obter  apoiantes  do  que  como  uma 
fonte  de  rendimentos,  parece-me  totalmente  inadequado  à  situação  deste  período  pretender,  como  faz 
K.  B.  McFarlane  (1973)  1 19-120,  que  na  Inglaterra  dos  segundo  e  terceiro  quartéis  do  século  XIV  o 
favor  do  monarca  fosse  indispensável  à  prosperidade  de  um  nobre. 


Forma  II  do  dinheiro 


180 


nios  estáveis  e  relativamente  autónomos,  Por  outro  lado,  institucionalizou-se  a  senhoria 
impessoal,  assente  no  controlo  de  territórios  claramente  definidos,  habitados  por  uma 
população  socialmente  homógenea  e  que  não  eram  interrompidos  por  áreas  de  poder 
concorrentes.  Os  patrimónios  adquiriram  assim  uma  coerência  interna,  e  portanto  uma 
durabilidade,  que  lhes  permitiu  fornecer  à  família  senhorial  um  fortíssimo  quadro  de 
permanência,  estruturando-a  firmemente  nos  moldes  da  linhagem  agnática56. 

Mas  só  é  possível  afirmar,  como  fazem  diversos  historiadores,  que  foi  o  modelo  tra¬ 
dicional  da  dinastia  régia,  de  carácter  patrilinear.  a  difundir-se  no  interior  de  toda  a 
classe  dominante57  com  a  condição  de  não  esquecermos  que  a  perda  de  especificidade 
da  coroa  trouxe  também  modificações  ao  sistema  familiar  dos  soberanos,  segundo  um 
processo  que  não  foi  simples  nem  isento  de  conflitos.  O  facto  de  todos  os  parentes  de 
sangue  masculinos  de  um  monarca  beneficiarem  da  aura  sagrada  da  dinastia  e  poderem 
suceder  no  trono,  como  havia  sido  regra  no  período  anterior  (ver  o  capítulo  20  da  Parte 
I).  constituíra  a  modalidade  mais  adequada  numa  época  em  que  a  principal  ocupação 
do  rei  era  conduzir  operações  de  saque,  em  grande  e  pequena  escala,  e  quando  a  pró¬ 
pria  cobrança  do  tributo  aparecia  como  um  tipo  de  pilhagem.  Mas  após  o  século  X  o 
desenvolvimento  do  poder  impessoal  e  das  formas  monetárias  de  exploração  deu  à 
recolha  do  tributo  uma  feição  cada  vez  mais  regular  e  proporcionou  o  aparecimento  da 
burocracia  enquanto  primeiro  instrumento  de  exercício  do  bannum,  fazendo  com  que 


56  D.  Herlihy  ( 1995  b)  146  pretende  que  a  instituição  de  uma  vida  política  estável,  ao  reduzir  os 
ganhos  provenientes  das  pilhagens,  teria  levado  á  diminuição  dos  recursos  disponíveis  para  o  sustento 
das  domesticidades  aristocráticas,  o  que  ocasionaria  o  prevalecimento  do  sistema  de  linhagem  agná- 
tica.  já  que  nada  mais  resiava  aos  senhores  do  que  preservarem  o  património  fundiário  herdado  dos 
antepassados.  Esta  tese  parece-me  indefensável.  O  período  iniciado  com  o  século  XI  presidiu  ao  acrés¬ 
cimo  da  fortuna  da  classe  dominante  não  só  devido  á  intensificação  da  exploração,  mas  igualmente 
graças  aos  desbravamentos,  à  colonização  sistemática  de  novos  territórios  e  à  reorganização  dos  anti¬ 
gos  habitais  Foi  a  senhoria  impessoal,  conferindo  outra  coerência  aos  conjuntos  de  terras  e  servos, 
que  deu  novas  implicações  à  continuidade  patrimonial  e  determinou  a  formação  rigorosa  de  eixos 
patrilineares.  Por  outro  lado,  depois  de  referir  o  grande  movimento  de  reorganização  do  habitat,  no 
termo  do  qual  tanto  os  senhores  como  os  camponeses  ficaram  encerrados  numa  rede  de  paróquias  c  de 
castelanias,  A.  Guerreau-Jalabert  (1990  )  99-100  afirma  que  o  parentesco  não  constituía  o  principal 
tipo  de  relacionamento  pessoal,  pois  a  existência  e  a  reprodução  dos  vínculos  familiares  era  indife¬ 
rente  ao  espaço.  A  autora  tem  razão  quanto  aos  sen  os,  visto  que  o  decisivo  entre  eles  cra  a  comuni¬ 
dade  camponesa,  enquanto  forma  parafamiliar.  onde  se  reuniam  o  parentesco  artificial  e  o  espaço.  Na 
aristocracia,  porém,  a  linhagem  supunha  o  património,  e  era  este  que  articulava  a  família  com  o 
espaço.  A  consciência  de  linhagem  surgiu  no  momento  em  que  a  riqueza  e  o  poder  da  aristocracia 
assumiram  um  carácter  patrimonial,  escreve  G.  Duby  ( 1967)  165:  e.  depois  de  repetir  estas  palavras, 
1.  Beceiro  Pita  (1990)  329  acrescenta  que  o  desenvolvimento  desse  sistema  estava  intimamente  rela¬ 
cionado  com  a  fragmentação  da  soberania.  Chamando  a  atenção  para  outra  faceta  da  mesma  reali¬ 
dade,  3.-P.  Poiy  et  al.  (1980)  187-188  e  375  estabelecem  uma  ligação  entre  o  progresso  da  estrutura  de 
linhagem  e  a  detenção  de  formas  impessoais  de  poder  P  Bonnassic  ( 1975-1976)  280  formula  resumi¬ 
damente  a  questão  a  propósito  da  Catalunha,  ao  observar  que  a  coesão  da  família  era  função  da  con¬ 
sistência  do  património  que  lhe  servia  de  base.  Numa  perspectiva  idêntica,  e  a  respeito  da  Picardia,  R. 
Fossier  ( 1968  )  636  indica  que  a  aristocracia  procurava  preservar  o  alódio  porque  ele  podia  servir-lhe 
de  quadro  para  a  perpetuação  da  linhagem.  Também  C.  Violante  ( 1977)  101,  analisando  a  situação  na 
Itália  centro-setentrional,  insiste  na  relação  entre  o  património  e  a  coesão  familiar. 

57  G.  Duby  <  1977  a)  29;  id.  em  École  Pratique  des  Hautes  Études  (VI*  Seclion)  (1977)  407:  id. 
( 1981 )  100-101:  F.  Gics  et  al.  (1987)  129;  K.  Schtnid  ( 1979)  50;  G.  Tabacco  í  1976)  014. 


Estruturas  familiares  tia  classe  se  nhoria! 


18 1 


nas  próprias  famílias  reais  se  sentisse  a  necessidade  de  definir  previamente  uma  linha 
sucessória  e  de  determinar,  no  interior  da  linhagem  agnática.  um  eixo  de  primogenitura. 
A  remodelação  operou-se  na  prática  antes  de  ter  sido  oficializada  nas  normas  jurídicas, 
e  durante  a  época  em  que  a  maior  nobreza  detinha  ainda  formalmente  o  direito  de  ele¬ 
ger  entre  os  descendentes  do  monarca  aquele  que  lhe  havia  de  suceder,  o  soberano  que 
pretendesse  reservar  o  trono  para  um  dos  seus  filhos  -  cada  vez  mais  o  primogénito  - 
fazia-o  eleger  enquanto  ele  mesmo  estava  em  vida  e  associava-o  depois  ao  exercício  da 
governação58.  Foi  assim  que  o  princípio  da  hereditariedade  da  coroa  progrediu  gradual¬ 
mente,  até  que  um  modelo  familiar  comum  prevalecesse  em  toda  a  classe  dominante, 
tanto  entre  os  monarcas  como  entre  os  demais  senhores.  Não  se  tratou  de  uma  evolução 
pacífica,  e  o  choque  entre  os  dois  sistemas  de  sucessão  ocasionou  por  vezes  conflitos 
no  interior  das  dinastias"'9.  Mesmo  depois  de  as  monarquias  terem  adoptado  o  princípio 
da  sucessão  individual  e  indivisível,  no  final  do  período  verificaram-se  casos,  como  em 
França,  por  exemplo,  em  que  foram  oficialmente  reconhecidos  os  direitos  de  todos  os 
herdeiros  da  coroa,  sendo-lhes  concedidos  principados,  o  que  chegou  a  ameaçar  a  cen¬ 
tralização  da  soberania60. 

Ao  adoptar  generalizadamente  a  estrutura  da  linhagem  agnática  e  ao  procurar  for¬ 
mas  de  herança  que  não  pusessem  em  causa  a  integridade  do  património  tradicional  da 
família,  a  aristocracia  manifestou  a  importância  que  atribuía  à  coesão  deste  património 
enquanto  quadro  de  continuidade  e  eixo  das  gerações  posteriores.  As  concepções  de 
herança  que  hoje  vigoram  decorrem  fundamentalmente  do  facto  de  a  principal  classe 
capitalista,  os  gestores,  se  apropriar  colectivamente  do  capital  graças  ao  exercício  das 
funções  de  administração,  e  não  através  de  títulos  jurídicos  que  dêein  direito  a  patrimó¬ 
nios  claramente  demarcados.  Além  disto,  e  mesmo  consoante  a  tradição  burguesa  da 
propriedade  privada,  em  que  o  património  é  pessoal,  a  permanente  irregularidade  que 
caracteriza  o  funcionamento  do  modo  de  produção  capitalista  impede  a  estabilidade  da 
herança.  A  situação  foi  a  oposta  no  regime  senhorial.  No  período  inaugurado  no  século 
XI  não  eram  os  bens  que  passavam  de  uma  geração  para  outra;  eram  as  gerações  que  se 
sucediam  no  quadro  definido  pela  acumulação  dos  bens.  O  elemento  de  continuidade 
era  o  património,  e  aliás  a  terminologia  da  época  revelou  isto  claramcnte  quando  pas¬ 
sou  a  apelidar  uma  família  senhorial  pelo  nome  da  sua  casa  principal. 

Na  evolução  dos  nomes  pessoais  transparecem  as  modificações  operadas  na  estru¬ 
tura  da  família  aristocrática.  Devemos  recordar  que  no  período  anterior  (  ver  na  Parte  I  o 
capítulo  19.at.  segundo  a  tese  de  alguns  historiadores,  aceite  hoje  por  grande  número 
de  especialistas,  cada  família-clientela  recorria  a  um  conjunto  de  nomes  que  se  repe¬ 
tiam  ao  longo  de  gerações,  o  que  denota  a  existência  de  uma  noção  de  continuidade 
temporal  da  família;  mas  nos  nomes  usados  pelo  grupo  de  parentes  podiam  ser  introdu- 


^  W.  M.  Newman  ( 1929)  37.  53.  55:  Ch.  E.  Perrm  <  1 957-19591  4-5. 
w  M.  L.  Cuesta  ( 1996)  200;  j.  Mattoso  1 1994  b]  106- 107:  VV  M.  Newman  (19291  37-3K. 

No  entanto,  não  me  parece  que  se  possa  afirmar,  como  taz  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  5,  que  na 
Gennánia  se  acabou  por  desistir  do  princípio  da  hereditariedade  da  coroa  para  se  regressar  uo  sistema 
clectivo.  Tratava-se  então  de  um  imperador  sem  poderes  de  facto  e  a  escolha  não  recaía  obrigatoria¬ 
mente  no  interior  de  uma  mesma  f  amília. 
híJ  F.  Kem  ( 1948)  22. 


1X2 


Forma  11  do  dinheiro 


zidos  outros,  provenientes  das  famílias  em  que  os  homens  desse  grupo  haviam  procu¬ 
rado  esposa61.  E  mesmo  numa  variante  como  a  Itália  centro-setentrional,  em  que  a 
classe  senhorial  obedecia  já  naquela  época  ao  modelo  da  linhagem  agnática  e  os  nomes 
próprios  constituíam  uma  herança  estritamente  familiar,  só  na  última  década  do  século 
X  começaram  a  ser  usados  apelidos  na  Toscana,  e  nos  meados  do  século  seguinte  o  seu 
emprego  era  raro  ainda  no  norte  da  península62. 

Por  todo  o  lado  a  situação  foi-se  tomando  muito  diferente  ao  longo  deste  segundo 
período,  quando  o  prevaleci  mento  da  linhagem  agnática  e  a  definição  clara  dos  quadros 
sucessórios  levaram  à  formação  de  sistemas  de  nomes  que  exprimiam  a  perenidade  do 
eixo  familiar.  Uma  modalidade,  de  efeitos  ainda  limitados,  consistiu  na  alternância 
regular  de  dois  nomes  próprios,  usados  ora  um  ora  outro  pelos  filhos  primogénitos  em 
gerações  sucessivas.  Noutra  variante  a  rotação  operava-se  entre  três  nomes  próprios,  de 
modo  que  o  neto  mais  velho  era  chamado  da  mesma  maneira  que  o  avô.  Mas  a  estru¬ 
tura  de  linhagem  pressionou  sobretudo  à  adopção  de  um  componente  fixo  nos  nomes 
de  cada  indivíduo.  As  famílias  começaram  a  ostentar  apelidos  coiectivos,  e  durante 
uma  fase  transitória,  que  pôde  ser  bastante  longa,  estes  apelidos  vieram  de  proveniên¬ 
cias  diversas.  Por  um  lado,  depois  de  sucessivas  gerações  de  uma  mesma  família  terem 
esboçado  durante  algum  tempo  uma  demonstração  de  continuidade  mediante  o  uso  de 
nome  próprio  e  patronímico,  de  maneira  que  os  filhos  deixavam  patente  apenas  a  sua 
relação  com  o  progenitor  imediato,  sucedia  que  um  dado  patronímico  se  tomasse  inva¬ 
riável,  convertendo-se  em  apelido  e  revelando  assim  muito  mais  claramente  o  eixo  de 
continuidade  da  linhagem.  Aconteceu  também  que  a  alcunha  de  alguém  começasse  a 
passar  para  os  seus  herdeiros,  de  modo  que  um  nome  que  havia  servido  para  indicar 
melhor  uma  individualidade  adquiria  uma  conotação  oposta  e  acabava  por  designar 
toda  uma  família.  Em  qualquer  caso,  verificamos  a  tendência  para  atribuir  um  carácter 
colectivo  a  sobrenomes  surgidos  em  âmbitos  individuais,  o  que  reproduz  na  esfera  ono¬ 
mástica  as  pressões  do  novo  sistema  familiar,  convertendo  cada  pessoa,  e  até  cada  gera¬ 
ção,  em  meros  elementos  de  uma  linhagem  definida  por  um  eixo  único.  Procurava-se 
desta  maneira  assinalar  que  era  a  mesma  família  a  perpetuar-se  em  sucessivas  gerações. 


61  Quanto  ao  sistema  de  nomes  usado  pelas  famílias-clientela  do  período  anterior  ver  sobretudo 
K.  Schmid  (1979)  47.  Prevenindo  contra  uma  aplicação  demasiado  rígida  deste  modelo,  C.  B.  Bou- 
chard  ( 1981  b)  505-508  observa  que  duas  pessoas  podiam  ter  nomes  idênticos  numa  mesma  região 
em  épocas  diferentes  sem  que  uma  descendesse  da  outra,  pois  sucedia  que  quem  servisse  na  domesti¬ 
cidade  de  uma  família  poderosa,  ou  até  membros  da  clientela  que  girava  em  seu  redor,  recebessem 
nomes  iguais  aos  dos  filhos  do  magnate;  acontecia  mesmo  que  o  nome  de  senhores  especialmente 
notáveis  se  difundisse  entre  a  generalidade  dos  camponeses  da  região,  e  muitas  vezes  uma  família  de 
vassalos  baptizava  os  filhos  com  o  nome  do  senhor  superior.  Aliás,  já  M.  Bloch  ( 1939-1940)  1  219 
chamara  a  atenção  para  o  facto  de  frequentemente  os  criados  adoptarem  o  nome  da  família  que  ser¬ 
viam.  E.  embora  noutro  contexto.  J.  B.  Freed  t 1995)  22  indica  que  na  arquidiocese  de  Salzburgo  os 
cavaleiros  e  os  servos  dos  ministeriales  tinham  frequentemente  o  mesmo  sobrenome  toponímico  dos 
seus  senhores.  As  restrições  de  Constance  Brittain  Bouchard,  todavia,  só  me  parecem  válidas  se  pre¬ 
tendéssemos  restringir  os  elos  familiares  aos  parentes  de  sangue.  O  facto  de  os  nomes  próprios  usados 
pelos  filhos  de  um  magnate  se  difundirem  num  âmbito  vasto,  desenhando  para  a  família  um  contorno 
muito  amplo,  só  confirma  que  as  relações  de  parentesco  artificial  eram  tão  importantes  como  as 
demais. 

6:  Ch.  Wickham  (1981)186. 


Estruturas  familiares  Ju  cla.we  senhoria! 


183 


O  emprego  de  novos  sistemas  de  nomes  não  indicou  que  as  famílias  aristocráticas  tives¬ 
sem  passado  a  ser  dotadas  de  qualquer  grau  de  coesão  superior;  revelou  que  começara  a 
assumir-se  uma  consciência  clara  da  continuidade  da  família  no  tempo.  Mas,  das  várias 
modalidades  de  formação  dos  apelidos,  prevaleceu  a  adopção  de  um  sobrenome  de  ori¬ 
gem  toponímica,  inspirado  pela  casa  pertencente  ao  património  hereditário,  quer  um 
castelo  quer  a  mansão  de  um  centro  dominial63. 

Com  a  difusão  do  poder  impessoal  e  a  inserção  das  senhorias  pessoais  no  escalão 
inferior  da  hierarquia  impessoal,  os  patrimónios  aristocráticos  haviam  passado  a  assen¬ 
tar  em  territórios  bem  definidos,  tomando  possível  a  relação  onomástica  entre  uma 
família  senhorial  e  um  lugar  ou  uma  região.  Ocorreu,  pelo  menos  nalguns  casos,  uma 


63  F.  Gies  et  al.  (1987)  129  escrevem  que  o  prevalecimemo  da  estrutura  de  linhagem  agnática  e  o 
uso  de  um  nome  familiar  derivado  do  património  ocorreram  entre  o  final  do  século  IX  e  o  século  XI. 
Segundo  K.  Schmid  (1979)  38,  foi  a  partir  do  começo  do  século  XI  que  os  castelos  passaram  a  dar  o 
nome  a  famílias  e.  referindo-se  à  Germânia,  G.  Tellenbach  (1979)  220  indica  que  desde  essa  data  se 
difundiu  entre  as  famílias  condais  o  hábito  de  adoptar  o  nome  dos  seus  castelos  ou  dos  seus  centros 
dominiais.  M.  Heinzelmann  ( 1977)  137  situa  nos  séculos  XI  e  XII  a  prática  de  converter  em  apelido 
familiar  o  nome  da  residência  ou  da  principal  fortaleza.  Na  Itália  centro-setentrional,  e  para  aquelas 
linhagens  cujo  antepassado  mais  remoto  pode  ser  situado  nos  meados  do  século  X,  C.  Violante  ( 1977) 
105  considera  que  a  adopção  de  um  apelido  inspirado  pelo  lugar  onde  estava  instalado  o  centro  domi¬ 
nial  teria  ocorrido  entre  os  meados  do  século  XI  e  o  começo  do  século  seguinte.  Por  seu  lado.  Ph. 
Dollinger  (org.  Í970)  93.  estudando  a  Alsácia,  reporta  ao  século  XII  a  prática  de  designar  as  famílias 
nobres  pelo  nome  do  seu  castelo  principal,  e  na  arquidiocese  de  Salzburgo,  a  crer  em  J.  B.  Freed 
( 1995)  35.  a  identificação  dos  ministcriales  com  apelidos  toponímicos  data  do  começo  do  século  XII. 
Note-se  que  para  M.  Bloch  ( 1939-1940)  1  218o  hábito  de  acrescentar  ao  nome  próprio  uma  alcunha 
ou  um  segundo  nome  próprio  ter-se-ia  divulgado  sobretudo  a  partir  do  século  XII.  Na  Inglaterra,  J.  C. 
Holt  1 1982-1983)  XXXII  209  afimia  que  os  apelidos  toponímicos  só  desde  meados  do  século  XII  se 
difundiram  entre  as  famílias  de  cavaleiros.  A  cronologia  proposta  por  R.  Fossier  (1986)  374  é  ainda 
mais  tardia,  admitindo  que  o  uso  de  nomes  de  origem  toponímica  se  vulgarizou  primeiro  entre  a  plebe 
e  que  só  a  partir  do  início  do  século  XIII.  quando  aquele  hábito  se  perdeu,  é  que  a  aristocracia  passou 
a  adoptar  apelidos  relativos  a  nomes  de  lugar.  E  leio  em  R.  Sánchez  Saus  ( 1989)  43  que  na  sociedade 
castelhana  os  apelidos  de  proveniência  toponímica  se  generalizaram  apenas  nos  meados  do  século 
XIII.  Todavia,  para  a  nobreza  rural  do  norte  de  Portugal  J.  Mattoso  (1981)  162  antecipa  um  pouco  a 
cronologia,  situando  o  processo  no  final  do  século  XII  e  no  começo  do  século  seguinte.  Quanto  à  evo¬ 
lução  dos  nomes  de  família  em  sistema  de  linhagem  agnática  ver  ainda,  além  dos  autores  e  das  passa¬ 
gens  já  mencionados:  M.  Atirell  i  Cardona  (1986)  56-57;  C.  B.  Bouchard  (1979)  47-48;  H.  Bresc 
(1986)  392;  G.  Duby  (1953)  265;  íd.  (1967)  154-155;  id.  (1977  b)  10:  E.  Fügedi  (1986  a)  13:  V. 
Fumagalli  (1976)  125-126;  L.  Genicot  (1979)  27:  M.-C.  Gerbet  (1994)  46;  F.  Gies  et  al.  (1987)  127- 
-128;  J.  Heers  (1974*  25:  D.  Herlihy  (1969-1970)  180;  id.  (1995  b>  146:  C.  Lansing  ( 1991 )  33;  R. 
Sánchez  Saus  ( 1989)  42-44:  K.  Schmid  ( 1979)  47-48:  P.  Toubert  1 1973  b)  696-703.  É  estranho  que  V. 
Fumagalli  ( 1976)  124-125  possa  considerar,  a  propósito  da  região  do  vale  do  Pó.  que  a  difusão  das 
alcunhas  e  dos  sobrenomes  individuais,  mesmo  quando  eles  se  converteram  em  apelidos,  revelava  o 
fortalecimento  de  uma  atitude  individualista,  emancipando-se  progressivamente  do  quadro  familiar. 

M.  Bloch  (1939-1940)  I  219  pretende  que  a  estrita  hereditariedade  do  nome  ocorreu  só  muito 
mais  tarde,  tendo  sido  imposta  pelo  poder  público  para  identificar  toda  a  população  e  facilitar  a  admi¬ 
nistração  e  a  repressão.  O  grande  historiador  conclui  que  os  nomes  de  família  fixos  não  se  deveram  ao 
sistema  de  linhagem,  mas  ao  Estado,  que  seria  uma  instituição  absolutamente  oposta  à  linhagem.  Não 
me  parece,  todavia,  perante  os  factos  hoje  conhecidos  e  os  estudos  realizados,  que  se  possa  negar  a 
expressão  da  linhagem  através  da  fixação  de  apelidos  familiares.  De  resto,  procurarei  também  mostrar 
(nos  capítulos  7.g  e  I3.c)  que  o  Estado  constituiu  uma  colossal  ampliação,  em  moldes  artificiais,  da 
domesticidade  régia,  c  isto  impede  que  o  consideremos  antagónico  das  linhagens  agnáticas. 


IS4 


Forma  //  do  dinheiro 


fase  transitória  em  que  a  associação  de  uma  pessoa  ou  de  uma  linhagem  a  um  dado 
topónimo  não  tinha  ainda  adquirido  um  carácter  fixo  e  constante64,  mas  a  tendência 
dominante  apontou  no  sentido  da  estabilização  deste  tipo  de  relações  onomásticas.  Ao 
integrar  topónimos  nos  apelidos  familiares  a  sociedade  aristocrática  revelava  até  que 
ponto  era  a  coesão  do  património  a  fornecer  o  principal  eixo  de  continuidade  da  linha¬ 
gem65.  como  se  demonstra  ao  vermos  que  a  instalação  de  um  ramo  secundário  da  famí¬ 
lia  noutra  localidade  não  o  impedia  de  se  servir  do  mesmo  apelido,  referente  a  uma 
terra  ancestral  onde  não  detinha  já  qualquer  senhoria66.  Bastava  neste  caso  que  o  ramo 
principal  da  linhagem  mantivesse  a  sua  relação  com  o  património  hereditário  para  que 
o  nome  do  lugar  continuasse  a  designar  toda  a  família.  A  história  de  uma  família  aristo¬ 
crática  era  sustentada  pela  memória  da  sua  casa,  e  se  os  servos  se  diferenciavam  da 
ciasse  dominante  por  não  terem  história,  isto  devia-se  ao  facto  de  nunca  possuírem  ver¬ 
dadeiramente  uma  casa  sua.  pois  a  parcela  onde  moravam  dependia  directa  ou  indirec- 
tamente  de  um  senhor.  Uma  habitação  e  um  património  próprio,  ou  seja.  um  centro 
dominial,  asseguravam  a  continuidade  familiar  dos  seus  detentores,  permitindo-lhes 
que  se  convertessem  em  linhagem.  Centro  patrimonial,  núcleo  conjugal  e  linhagem  tor¬ 
naram-se  aspectos  de  uma  mesma  realidade,  e  é  isto  afinal  que  acabou  por  denotar  o 
novo  sistema  onomástico  adoptado  pela  aristocracia. 

Acessoriamente,  as  linhagens  senhoriais  suficientemente  ricas  para  fundarem  esta¬ 
belecimentos  religiosos,  ou  para  os  favorecerem  com  as  suas  benesses  e,  de  uma  ou 
outra  forma,  os  manterem  sob  o  seu  ascendente,  puderam  também  aproveitá-los  para 
sepultar  aí  as  sucessivas  gerações  dos  seus  mortos  e  constituir  assim  panteões,  que 
recordassem  publicamente  a  continuidade  da  família.  As  iniciativas  deste  tipo  multipli- 
caram-se  ao  longo  de  todo  o  período67,  sem  serem  postas  em  causa  pelas  reformas  ope¬ 
radas  na  organização  eclesiástica,  cujo  significado  analisarei  na  parte  final  do  capítulo. 


M  Foi  o  que  sucedeu  entre  os  ministeriales  da  arquidiocese  de  Salzburgo.  segundo  5.  B.  Freed 
( 1995)  22-23.  e.  a  crer  em  C.  B.  Bouchard  ( 1979)  46,  também  se  encontraram  casos  semelhantes  no 
Auxerrois  durante  o  século  Xll. 

65  G.  Tabacco  ( 1976)  914  observa  que  a  difusão  dos  apelidos,  frequentemente  derivados  do  nome 
dos  castelos,  que  se  haviam  tomado  um  elemento  central  nos  patrimónios  senhoriais,  revela  a  existên¬ 
cia  de  uma  relação  estreita  entre  a  nova  estrutura  familiar  cia  aristocracia  e  o  poder  territorial.  Do 
mesmo  modo.  referindo-se  à  Normandia  e  à  Inglaterra.  J.  C.  Holt  ( 1972)  7-8  indica  que  os  nomes  de 
origem  toponímica  identificavam  cada  família  com  a  sede  do  seu  património. 

A  ocorrência  de  situações  deste  tipo  é  revelada  a  partir  do  final  do  século  XI  pela  genealogia  de 
uma  linhagem  da  pequena  aristocracia  da  França  setentrional,  consoante  indica  G.  Duby  ( 1967)  1 55. 

67  Segundo  K.  J.  Leyser  (1979)  68.  93  e  1 14,  na  Saxónia  dos  séculos  X  e  XI  verificava-se  a  cria¬ 
ção  de  conventos  destinados  a  servirem  de  mausoléu  para  a  família  fundadora  Na  Hungria  as  funda¬ 
ções  deste  tipo  proliferaram  desde  a  segunda  metade  do  século  XI.  escreve  A.  Gieysztor  ( 1982)  947. 
A  respeito  do  sucedido  na  Hungna  ver  igualmcnte  E.  Fügedi  (1986  b)  IV  7.  No  reino  de  Castela  a 
constituição  de  panteões  familiares  em  mosteiros  começou  a  ocorrer  no  século  Xll,  mas  difundiu-se 
sobretudo  no  final  do  período,  e  mesmo  depois,  conforme  indica  1.  Beceiro  Pita  (1990)  331.  Embora 
sem  fornecer  datas.  R.  Fossier  ( 1976)  166  afirma  que  na  Picardia  a  alta  aristocracia  se  esforçava  por 
possuir  santuários  que  servissem  de  mausoléus  familiares.  J.  Mattoso  |1994  bl  186  esclarece  que  a 
associação  privilegiada  existente  entre  a  aristocracia  e  a  Ordem  de  Cluny  se  deveu  à  importância  que 
estes  mosteiros  atribuíam  ao  culto  dos  mortos,  especialmente  os  das  famílias  dos  patronos.  Além  das 
orações  por  alma  desses  defuntos,  os  monges  guardavam-lhes  os  túmulos  como  um  verdadeiro 
tesouro. 


Estruturas  familiares  da  t  lasse  senhorial 


Ui  5 


Algumas  daquelas  abadias  tinham  dimensões  deveras  modestas68,  mas  os  aristocratas 
que  mesmo  apesar  disso  não  dispusessem  de  meios  suficientes  para  dedicarem  aos 
seus  defuntos  um  lugar  de  sepultura  exclusivo  podiam  proceder  a  doações  a  um  estabe¬ 
lecimento  religioso  em  troca  do  compromisso  do  clero  de  celebrar  missas  por  alma  do 
benfeitor  e  dos  seus  descendentes69.  Em  tais  casos  as  igrejas  ou  mosteiros  serviam 
igualmente  para  rememorar  o  eixo  da  linhagem.  Durante  este  período  as  instituições 
religiosas  não  deixaram  de  funcionar  como  um  factor  de  coesão  do  património  da  aris¬ 
tocracia  laica  e,  além  de  reforçarem  a  continuidade  familiar,  a  presença  dos  túmulos  ou 
a  mera  repetição  dos  ofícios  de  mortos  converteram-nas  num  monumento  genealógico 
perene. 

A  consciência  de  linhagem  exprimiu-se  também  de  outras  maneiras,  nomeadamente 
pela  redacção  mais  ou  menos  fantasiosa  de  genealogias70,  que  podia  chegar  ao  extremo 
de  se  criar  e  transmitir  uma  mitologia  familiar71.  Ao  mesmo  tempo  adoptaram-se  bra¬ 
sões72,  e  também  gritos  de  batalha73,  que  talvez  tivessem  constituído  o  pretexto  para  a 
fixação  de  divisas74,  codificando-se  depois  tudo  isto  numa  heráldica  cada  vez  mais 
rigorosa75,  que  acabou  por  formar  como  que  uma  linguística  das  linhagens.  Com  o 
mesmo  objectivo  podiam  vestir-se  de  cores  idênticas  os  membros  de  uma  domestici¬ 
dade  importante,  tanto  parentes  como  fiéis  guerreiros,  certos  agentes,  a  criadagem  e  até 


MÉo  que  afirma  A.  Gieysztor  ( 1982)  947  a  respeito  da  Hungria. 

611  As  doações  acompanhadas  por  este  tipo  de  compromissos  foram  frequentes  no  reino  de  Castela 
a  partir  de  meados  do  século  Xlll.  consoante  indica  I.  Beceiro  Pita  (1990)  331-332. 

76  As  únicas  árvores  genealógicas  elaboradas  antes  do  século  XI  foram  as  dos  reis,  informam  C. 
B.  Bouchard  (1979)  39  n.  1  e  J.  Mattoso  ( 1981 )  37:  e  G.  Duby  (1968)  58-59  remeie  para  os  séculos 
XI  e  XII  a  redacção  dos  primeiros  livros  de  linhagens  a  mando  das  famílias  mais  poderosas,  expli¬ 
cando  em  ( 1967)  150  que  no  norte  da  França  se  desenvolveu  muito  a  literatura  genealógica  após  os 
meados  do  século  XII.  Todavia,  segundo  F.  Gies  et  al.  (1987)  130,  os  grandes  magnates  regionais 
haviam  começado  a  encomendar  as  suas  genealogias  nos  séculos  X  e  XI.  sendo  depois  imitados  por 
camadas  da  aristocracia  sucessivamente  mais  modestas.  Na  Itália  centro-setentrional  a  divulgação 
do  interesse  pelas  genealogias  data  do  século  XI,  a  crer  em  Ch.  Wickham  (1981)  186.  No  reino  de 
Castela,  pelo  contrário.  I.  Beceiro  Pita  ( 1990)  333  e  segs.  pretende  que  a  literatura  genealógica  só  se 
difundiu  verdadeiramente  a  partir  do  final  do  período.  Mas  talvez  se  deva  aí  ter  em  conta  a  hipótese 
adiantada  por  J.  Mattoso  [1994  b]  264  para  o  caso  português,  afirmando  que,  embora  os  livros  genea¬ 
lógicos  tivessem  aparecido  apenas  na  penúltima  década  do  século  XIII,  o  facto  de  se  apresentarem 
então  com  uma  forma  muito  elaborada  parece  indicar  que  fixassem  tradições  bastante  mais  antigas. 
Ver  no  mesmo  sentido  id.  (1981)  291.  Quanto  aos  estratos  menos  relevantes  da  nobreza  do  reino  de 
Portugal,  só  nos  séculos  XIII  e  XIV  as  genealogias  se  difundiram  entre  eles,  esclarece  id.,  ibid.,  38  e 
43. 

71  G.  Duby  (1968)  58-59  afirma  que  os  livros  de  linhagens  apresentavam  frequentemente  de 
maneira  mítica  as  origens  familiares  e  D.  Herlihy  ( 1995  b)  146  menciona  a  criação  ocasional  de  mito¬ 
logias  próprias.  Neste  mesmo  sentido  ver  id.  et  al.  ( 1985)  343  a  respeito  da  Toscana. 

72  J.  Bíeniak  ( 1977)  321:  H.  Bresc  (1986)  392:  G.  Duby  ( 1977  b)  10;  F.  Gies  et  al.  (1987)  130;  K. 
Gorski  ( 1967)  73.  77.  79,  82;  D.  Herlihy  (1995  b)  146;  id.  et  al.  (1985)  34.3;  R.  Sánchez.  Saus  (1989) 
48-49:  C.  Violante  ( 1977)  122. 

73  J.  Bieniak  ( 1977)  321;  H.  Bresc  (1986)  392:  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  343. 

74  D.  Herlihy  (1995  b)  146;  C.  Violante  (1977)  122. 

75  K.  Gorski  (1967)  74  afirma  que  a  heráldica  teve  na  Polónia  uma  importância  ainda  maior  do 
que  a  que  lhe  foi  atribuída  nos  outros  reinos.  Na  primeira  alínea  deste  capítulo  pretendi  explicar  tal 
particularidade. 


18õ 


Forma  II  do  dinheiro 


uma  clientela  bastante  vasta.  As  diferenças  de  corte  e  de  qualidade  do  tecido  revelavam 
as  distinções  de  estatuto  social,  mas  o  uso  dos  mesmos  coloridos  servia  para  proclamar 
que  todos  se  integravam  num  quadro  familiar  único76.  Sem  dúvida  que  esta  multiplici¬ 
dade  de  recursos  ajudou  a  demarcar  as  linhagens  e  reforçou  a  consciência  colectiva  dos 
que  nelas  participavam,  mas  limitando-se  sempre  a  um  papel  secundário,  se  o  compa¬ 
rarmos  com  a  acção  determinante  exercida  pela  continuidade  patrimonial. 

Sustentada  por  um  património  coerente,  uma  família  senhorial  possuía  não  só  uma 
longa  memória  mas  também  uma  longa  previsão  de  descendência.  Neste  sistema  fami¬ 
liar.  a  nobreza  era  decerto  a  vocação  de  toda  a  aristocracia.  Para  ser  considerada  nobre, 
o  que  faltava  a  uma  família  de  ascensão  recente,  saída  dos  meios  camponeses  mais 
abastados  ou  de  camadas  populares  enriquecidas  nos  negócios  urbanos,  senão  a  recor¬ 
dação  de  uma  cadeia  mais  ou  menos  extensa  de  antepassados  que  houvessem  já  gozado 
do  estatuto  de  classe  dominante?  Enquanto  estratégia  defensiva,  a  redacção  de  genealo¬ 
gias  reflectiu  sobretudo  a  entrada  de  novas  famílias  na  aristocracia,  mais  do  que  qual¬ 
quer  ascendente  detido  pela  nobreza  antiga.  Ostentando  o  conhecimento  de  uma  nume¬ 
rosa  série  de  antepassados  e  proclamando  que  as  relações  de  sangue  valiam  mais  do 
que  a  detenção  de  uma  grande  fortuna  ou  do  que  o  exercício  de  cargos  atribuídos  pelo 
soberano,  as  famílias  da  velha  nobreza  tentaram  em  vão  cerrar,  por  meio  das  conven¬ 
ções  sociais,  uma  classe  que  os  mecanismos  económicos  permanentemente  abriam. 

Mas  se  esta  pretensão  da  nobreza  tradicional  estava,  em  termos  práticos,  condenada 
ao  fracasso,  em  termos  ideológicos  ela  ditava  o  modelo  que  os  novos  ricos  procuravam 
imitar.  As  famílias  de  ascensão  recente  compensavam  a  sua  deficiência  de  memória 
genealógica  pelo  empenho  que  punham  em  assegurar  à  descendência  um  estatuto  social 
forte  e  duradouro.  Quando  se  tratava  de  camponeses  prósperos  em  vias  de  se  tomarem 
senhores,  era  necessário  juntarem  às  suas  terras  outras  mais,  de  modo  a  formarem  um 
núcleo  compacto,  que  pudesse  por  isso  ser  preservado  da  erosão  devida  a  alienações  par¬ 
ciais.  Mas  quando  a  promoção  económica  se  tinha  operado  a  partir  do  meio  urbano  e 
através  do  comércio  e  da  actividade  bancária,  as  famílias  recentemente  enriquecidas 
canalizavam  uma  parte  considerável  dos  seus  lucros  para  a  aquisição  de  campos  de  cul¬ 
tura  e  de  servos,  ou  compravam  o  direito  a  participar  na  cobrança  dos  tributos  lançados 
sobre  certas  terras77.  O  exemplo  de  Veneza  é  o  mais  elucidativo,  pois.  apesar  de  as  condi- 


76  J.  Heers  (1974)  86-87  esclarece  que  o  uso  de  librés  com  cores  próprias  pelos  parentes  e  clientes 
das  famílias  de  magnates  estava  difundido  em  todas  as  regiões,  mas  era  especialmente  arreigado  na 
Inglaterra.  Acerca  do  uso  de  librés  na  Inglaterra  durante  os  séculos  X1ÍI  e.  XIV  ver  sobretudo  J.  M.  W. 
Bean  (1989)  10.  17-22.  32  e  145.  Consultar  igualmente:  W.  H.  Dunham  Jr.  ( 1968)  223;  G.  A.  Holtnes 
(1957)  59. 

77  Quanto  ao  facto  de  as  fortunas  urbanas  iniciadas  no  comércio  procurarem  aplicação  nos  cam¬ 
pos  ver  antes  de  mais,  na  Parte  II,  a  n.  57  do  capítulo  13.  Talvez  seja  interessante  acrescentar  agora 
outros  autores  e  algumas  novas  passagens  a  tudo  o  que  já  foi  indicado  naquela  nota.  Os  investimentos 
fundiários  efectuados  pelos  cidadãos  enriquecidos  são  mencionados,  em  geral,  por  E.  Perroy  et  al. 
(1955)  366-367.  O  caso  particular  dos  ntoedeiros  é  analisado  por  R.  S.  Lopez  (1953  ai  16  e  25. 
Quanto  ao  sucedido  nas  cidades  hanseáticas:  J.  Day  (1994)  193.  Em  outras  cidades  germânicas:  Ph. 
Dollinger  (1950-1951)  71;  L.  Genicot  (1943-1995)  II  294;  H.  Kraus  (1979)  122;  M.  Parisse  (org. 
1977)  168.  193;  J.  Schneider  (1950)  117.  316,  319.  336,  346,  373,  459-460.  462;  P.  Strait  ( 1974)  91. 
102,  111,  122.  126.  127.  Na  Flandres:  G.  Bigwood  (1924-1925)  III  499;  J.  Lestocquoy  ( 1952)  186. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


187 


ções  geográficas  praticamente  obrigarem  a  cidade  a  prosseguir  uma  vocação  marítima,  a 
necessidade  de  investir  em  propriedade  fundiária  uma  boa  parte  dos  seus  ganhos  mercan¬ 
tis  levou  os  cidadãos  a  reduzirem  o  apoio  que  haviam  prestado  ao  partido  exclusivamente 
comercial  e  a  assegurarem  o  triunfo  da  facção  que  conjugava  com  o  tráfico  de  longo 
curso  uma  estratégia  de  expansão  territorial.  A  prosperidade  do  comércio  veneziano,  em 
suma,  foi  inseparável  de  uma  política  na  terra  firme,  orientada  para  a  obtenção  de  con¬ 
juntos  agrários  nas  áreas  rurais  dominadas  por  outras  cidades  e  mesmo  para  a  conquista 
sistemática  de  territórios78.  Em  todas  as  circunstâncias,  só  a  formação  de  patrimónios 
fundiários  coesos  poderia  assegurar  uma  estabilidade  de  rendimentos  que  não  fosse  posta 
em  causa  pela  aleatoriedade  dos  negócios  exclusivamente  comerciais  e  financeiros79. 

Com  efeito,  era  a  posse  de  um  património  desse  tipo,  e  não  qualquer  formalidade 
jurídica,  a  garantir  a  uma  nova  família  aristocrática  a  sua  entrada  na  nobreza.  É  certo 
que  um  soberano  podia  atribuir  títulos  nobiliárquicos  a  plebeus  que  o  ajudassem  com 
os  seus  conselhos,  a  sua  fortuna  em  numerário,  ou  ambas  as  coisas.  Mas  não  o  faria  se 
o  contemplado  não  detivesse  já  bens  apreciáveis  e  não  gozasse  da  consideração  social 
inerente80.  De  qualquer  modo,  muito  mais  difundida  do  que  a  concessão  de  patentes 
nobiliárias,  que  não  ultrapassou  um  número  relativamente  restrito  de  casos,  foi  a  aqui¬ 
sição  do  estatuto  de  nobreza  graças  unicamente  àqueles  mesmos  meios  que  haviam 
determinado  a  promoção  económica  -  a  acumulação  de  riqueza81.  O  plebeu  que  com- 


187;  D.  Nicholas  ( 1976)  6.  Na  generalidade  da  França:  L.  Genicol  (1968)  133;  J.  Lestocquoy  (1952) 
186;  E.  Miller  (1965  b)  123.  Na  França  a  norte  do  Loire:  P.  Desportes  (1979)  133  e  segs.;  H.  Kraus 
(1979)  27;  J.  Lestocquoy  (1952)  123,  185;  J.  Massiet  du  Biest  (1948)  127-132.  A  sul  do  Loire:  E. 
Baratier  (org.  1969)  146.  197;  E.  Foumial  (1967)  678  e  segs.;  H.  Kraus  (1979)  78:  J.  H.  Mundy 
(1954)  44.  Na  Itália:  Th.  W.  Bloniquisl  (1979)  59-60,  64;  W.  M.  Bowsky  (1981)  186;  G.  A.  Brucker 
(1962)  14;  G.  Cracco  (1967)  79-80,  1 15-117;  A.  Grohmann  (1981)  898;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  2. 
101,  103;  J.  K.  Hyde  <  1966)  50.  56,  89;  C.  Lansing  (1991 )  8;  J.  Lestocquoy  (1952)  89-90.  185;  R.  S. 
Lopez  ( 1953  a)  36-38;  id.  ( 1955  e)  5:  G.  Luzzatto  ( 1937)  29.  35;  P.  Racine  ( 1977)  288;  Y.  Renouard 
(1949)  142;  V.  Rutenburg  (1974)  170;  P.  Toubert  ( 1973  b)  229,  637.  673.  Em  Inglaterra;  E.  Miller 
( 1964)  29,  36-37;  id.  (1965  b)  123;  C.  Platt  ( 1976)  22-23.  Na  Catalunha:  C.  Cuadrada  <  199t )  292.  No 
reino  latino  de  Jerusalém:  J.  Richard  ( 1953)  1 13-1 14. 

78  G.  Cracco  (1967)  123-126.  149-150,  158.  Ver  acessoriamente:  J.  Day  ( 1994)  193. 

7C)  A  respeito  da  Itália,  R.  L.  Reynolds  (1952)  360  observa  a  ausência  de  especialização  dos  inves¬ 
timentos  e  a  sua  diversificação.  Se  isto  não  sucedesse  o  equilíbrio  económico  tomar-se-ia  muito  pre¬ 
cário,  como  se  vé  pelo  seguinte  exemplo.  Quando  ocorreu  a  ruptura  entre  o  Império  Bizantino  e 
Veneza,  na  segunda  metade  do  século  XII.  com  consequências  muito  graves  para  o  comércio  da 
cidade  italiana,  G.  Cracco  (1967)  47  mostra  que  a  fortuna  fundiária  da  elite  tradicional  lhe  permitiu 
compensar  os  prejuízos  c  manter  a  sua  posição  social,  enquanto  as  falências  se  multiplicaram  entre  as 
famílias  populares,  cuja  riqueza  dependia  toda  dos  negócios.  Y.  Renouard  (1949)  143  sintetiza  o  pro¬ 
blema  a  propósito  de  Florença,  afirmando  que.  ao  procederem  a  investimentos  fundiários,  os  nego¬ 
ciantes  asseguravam  uma  estabilidade  de  rendimentos  que  compensava  o  carácter  aleatório  das  opera¬ 
ções  comerciais.  Compreende-se,  assim,  a  observação  de  D.  Herlihy  (1967)  131  e  194-196,  quando 
indica  que  muitos  negociantes  de  Pistoia,  perante  a  grave  crise  ocorrida  durante  a  segunda  metade  do 
século  XIV  e  o  começo  do  século  XV,  preferiram  comprar  terras  em  vez  de  se  lançarem  em  empreen¬ 
dimentos  comerciais  arriscados. 

80  Os  Bardi,  nobilitados  pelo  rei  da  Hungria,  possuíam  um  vasto  conjunto  senhorial,  como  refere 
G.  Székely  (1964  )  47.  E  os  cidadãos  de  Toulouse  que  no  século  XIV  receberam  do  rei  cartas  de 
nobreza  detinham  já  grandes  fortunas  fundiárias,  observa  H.  Kraus  ( 1979)  78. 

81  Para  exemplos  deste  processo  social  em  Amiens  ver  H.  Kraus  (1979)  58. 


188 


Forma  II  do  dinheiro 


prasse  uma  terra  de  onde  habitualmente  emanara  um  poder  senhorial,  obtendo  não  só  o 
direito  à  exploração  agrícola  mas  também  ao  exercício  de  aspectos  do  hannum,  passava 
a  breve  trecho  a  ser  considerado  nobre.  Um  núcleo  patrimonial  duradouro  não  senda  só 
de  quadro  ao  modelo  aristocrático  de  família,  mas  possibilitava  igualmente  o  acesso  à 
nobreza. 

Por  isso  o  crescimento  económico  e  o  aperfeiçoamento  dos  mecanismos  da  explora¬ 
ção.  aumentando  os  rendimentos  à  disposição  da  classe  dominante,  permitiram  que  se 
tomasse  menos  rigorosa  a  imposição  do  celibato  aos  filhos  segundos82.  A  adopção  da 
primogenitura  foi  retardada  especialmente  graças  ao  movimento  de  colonização  e  de 
desbravamentos,  que  alargou  as  fronteiras  externas  e  internas  do  regime  senhorial83. 
Nas  novas  terras  encontraram-se  patrimónios  suficientes  para  estabelecer  em  unidades 
familiares  próprias  um  número  razoável  de  filhos  segundos,  ampliando-se  assim  as 
camadas  inferiores  da  aristocracia.  Uma  vez  mais,  se  a  nobreza  decorria  neste  período 
da  capacidade  de  transmitir  aos  herdeiros  um  núcleo  patrimonial  estável,  as  migrações 
e  os  desbravamentos  possibilitaram  que  a  classe  dominante  não  só  intensificasse  as  for¬ 
mas  de  exploração,  mas  também  multiplicasse  os  seus  membros  e  reforçasse  a  sua  apa¬ 
rência  exterior  através  do  recurso  extensivo  aos  ideais  de  nobreza. 

Todavia,  se  o  núcleo  patrimonial  passou  a  constituir  o  quadro  da  perenidade  fami¬ 
liar,  tornou-se  mais  premente  ainda  nesta  situação  a  necesidade  de  assegurar  a  estabili¬ 
dade  e  a  coesão  do  conjunto  senhorial.  É  fundamentalmente  nesta  perspectiva  que  deve 
ser  encarada  a  relação  entre  as  famílias  aristocráticas  e  os  estabelecimentos  religiosos. 


d.  A  Igreja  como  factor  de  desenvolvimento  da  linhagem  agnática 

O  prevalecimento  do  sistema  de  linhagem  agnática  trouxe  às  famílias  da  aristocracia 
problemas  de  coesão  diferentes,  mas  não  menos  urgentes. 

I 

A  solidez  interna  conseguida  pelas  senhorias  impessoais,  e  também  pelas  senhorias 
pessoais  quando  elas  se  inseriram  no  último  grau  da  hierarquia  do  processo  de  explo¬ 
ração,  tomou-as  um  quadro  de  coesão  da  família  ao  longo  das  gerações,  mas  sem  que 
isto  pusesse  cobro  à  necessidade  de  fundar  estabelecimentos  eclesiásticos.  O  que  se 
alterou  neste  período  foi  a  relação  entre  tais  estabelecimentos  e  o  restante  património 
aristocrático,  já  que  agora  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  8.b)  as  circunscrições  da  Igreja 


82  G.  Duby  (1977  a)  38-39;  id.  (1981)  293-294. 

Recorde-se  ainda,  neste  capítulo,  a  n.  4. 

83  R.  1.  Moore  (1992)  31 1  escreve  que  a  primogenitura  se  aplicou  mais  lardiamente  nas  regiões 
onde  foi  mais  duradoura  a  expansão  territorial.  Também  K.  Leyser  (1968)  39  e  ( 1979)  59  estabelece 
uma  relação  entre  os  desbravamentos  e  a  colonização  de  novas  terras,  por  um  lado,  e.  por  outro,  o  sis¬ 
tema  de  divisão  da  herança.  Na  Catalunha,  no  começo  do  período,  P.  Bonnassie  ( 1975- 1 976)  288-290 
mostra  que  a  ampliação  gradual  dos  patrimónios  senhoriais  em  direcção  às  regiões  de  desbravamento 
permitiu  a  instalação  dos  filhos  segundos  em  unidades  familiares  próprias. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


ASV 


reproduziam  de  maneira  mais  ou  menos  fiel  os  limites  dos  territórios  senhoriais.  Se  a 
homogeneização  do  enquadramento  religioso  do  campesinato  foi  um  aspecto  da 
implantação  das  malhas  do  poder  impessoal,  tendeu  então  a  verificar-se  uma  articula¬ 
ção  entre  os  conjuntos  senhoriais,  em  cada  um  dos  níveis  da  sua  hierarquia,  e  as  cir¬ 
cunscrições  eclesiásticas  escalonadas  nutna  série  correspondente.  Nestas  circunstân¬ 
cias.  a  coerência  do  património  implicava  para  os  senhores  o  controlo  da  Igreja,  que 
ajudasse  a  manter  o  eixo  de  continuidade  familiar.  Ao  mesmo  tempo  que  contribuiu 
para  subjugar  as  populações,  a  fundação  e  a  detenção  de  instituições  religiosas  foi  um 
factor  muito  importante  na  unidade  da  família  aristocrática. 

É  certo  que,  por  um  lado,  o  domínio  sobre  igrejas  e  mosteiros  conservado  conjunta¬ 
mente  por  vários  irmãos,  ou  até  pelos  diversos  ramos  saídos  de  um  mesmo  tronco 
comum84,  não  se  distinguia  do  controlo  colectivo  exercido  sobre  alguns  elementos 
decisivos  da  vida  agrária,  como  bosques  e  restantes  incultos,  ou  sobre  certos  compo¬ 
nentes  característicos  do  bannum,  como  torres  e  outras  fortificações,  a  que  aqueles 
parentes  podiam  recorrer  para  reforçar  os  laços  que  os  uniam.  Por  outro  lado,  porém,  as 
congregações  religiosas  organizavam-se  intemamente  em  modalidades  parafamiliares, 
e  este  carácter  de  família  artificial  acentuou-se  ao  longo  do  período85.  Os  mosteiros  e 
os  cabidos  destacavam-se,  assim,  dos  demais  objectos  de  apropriação  colectiva  e  nota- 
bilizavam-se  por  uma  vida  social  específica,  que  os  perpetuava  ao  longo  do  tempo  e  os 
convertia  num  eixo  de  estabilidade.  A  partir  do  momento  em  que  o  celibato  do  clero 
começou  a  ser  imposto  mais  rigorosamente,  ou  pelo  menos  quando  os  filhos  dos  padres 
ficaram  proibidos  de  lhes  suceder  nos  cargos  eclesiásticos,  os  estabelecimentos  religio¬ 
sos,  quaisquer  que  fossem,  passaram  a  reproduzir-se  apenas  por  cooptação  e  a  evitar 
que  os  percalços  sucessórios  dispersassem  o  seu  património,  o  que  lhes  proporcionou 
uma  situação  ainda  mais  sólida86.  Sem  necessidade  de  elaborarem  uma  estratégia  de 
alianças  matrimoniais,  sem  correrem  o  risco  de  se  extinguir  por  falta  de  sucessores 


84  Ver  neste  capítulo  a  n.  24. 

85  Quanto  ao  carácter  parafamiliar  da  organização  interna  dos  estabelecimentos  religiosos  ver:  A. 
Guerreau-Jalabert  (19811  1036;  K.  Hauck  (1977)  45-47;  A.  Vauchez  (1977)  405-406.  É  especial- 
mente  interessante  o  debate  entre  G.  Duby,  K.  Hauck  e  K.  Schmid  em  École  Pratique  des  Hautes  Étu- 
des  (VT  Section)  ( 1977)  58-59. 

86  Acerca  da  relação  entre  o  celibato  eclesiástico,  a  coesão  do  património  dos  estabelecimentos 
religiosos  e  a  fixação  dos  eixos  das  linhagens  ver  R.  I.  Moore  ( 1992)  317.  Por  seu  tumo,  vários  histo¬ 
riadores  observam  que  o  celibato  do  clero  era  necessário  para  que  os  bens  recebidos  pelas  igrejas  não 
fossem  dispersados  nem  dilapidados:  J.  Goody  (1985)  87;  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  289-290;  G. 
Rossetti  (1977  b)  542-546:  G.  O.  Sayles  (1948)  251;  C.  Violante  (1953)  233.  Quanto  às  medidas  que 
proibiam  os  filhos  de  padres  de  lhes  sucederem  nos  cargos  ver  J.  H.  Lynch  (1976)  42.  No  século  XI, 
porém,  a  crer  em  J.  W.  Thompson  <  1959)  660,  sena  frequente  a  transmissão  hereditária  das  funções  e 
privilégios  eclesiásticos.  Na  Germânia,  até  ao  século  XII,  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  290  menciona  a 
tendência  para  a  hereditariedade  dos  cargos  do  clero,  que  passavam  de  pai  para  filho.  Na  Hungria  A. 
Gieysztor  ( 1982)  948  indica  que  já  numa  fase  relativamente  adiantada  deste  período  padres  casados 
procuravam  transmitir  aos  herdeiros  o  lugar  de  cura  de  paróquias  e.  segundo  J.  Maltoso  [1994  b]  237, 
o  mesmo  acontecia  por  vezes  em  Portugal  nos  séculos  XIII  e  XIV.  apesar  das  múltiplas  proibições 
canónicas.  Em  Reims.  também  nos  séculos  XIII  e  XIV,  P.  Desportes  ( 1979)  310  afirma  que  a  condi¬ 
ção  eclesiástica  passava  de  pai  para  filho,  sem  esclarecer,  no  entanto,  se  eles  se  sucediam  nos  mesmos 
cargos. 


190 


Forma  //  do  dinheiro 


masculinos  e  sem  porem  o  seu  património  em  perigo  através  de  heranças  e  dotes,  as 
congregações  religiosas  evitavam  toda  uma  fonte  de  problemas  e  tensões  internos  e  de 
rivalidades  exteriores87,  podendo  assim  ser  usadas  pelas  famílias  da  aristocracia  laica 
para  consolidarem  a  sua  própria  perenidade88. 

Nem  se  tomava  obrigatório  que  a  linha  de  continuidade  agnática  fosse  assegurada 
por  uma  instituição  colectiva,  como  o  eram  os  mosteiros  e  os  cabidos,  pois  iguais  fun¬ 
ções  podiam  ser  cumpridas  pela  sucessão  regular  de  tio  paterno  a  sobrinho  à  frente  do 
mesmo  bispado89.  Acontecia  até  que  os  cónegos  dispusessem  por  testamento  dos  seus 
rendimentos  eclesiásticos,  procurando  legá-los  a  parentes  mais  jovens,  e  procedendo  os 
abades  de  maneira  idêntica,  o  que  contribuía  para  criar  linhas  de  sucessão  de  tio  a 
sobrinho  no  interior  de  instituições  colectivas90.  Mas  este  tipo  de  práticas  ocasionava 
inevitavelmente  uma  erosão  da  comunidade,  e  uma  linhagem  podia  garantir  de  outro 
modo  um  eixo  religioso  fundando  no  interior  de  uma  igreja  um  altar  devotado  a  um 
dado  santo91.  Este  altar  servia  de  foco  de  convergência  dos  parentes  ao  longo  de  gera¬ 
ções,  sem  que  com  isso  perigasse  o  carácter  específico  do  estabelecimento  eclesiástico. 
Também  em  níveis  inferiores  do  escalonamento  social  era  possível  que  o  lugar  de  reitor 
de  uma  igreja  privada  passasse  de  pai  para  filho,  ou  de  tio  para  sobrinho,  como  ocorreu 
por  vezes  na  Itália  centro-setentrional  durante  a  primeira  metade  deste  período92.  Uma 
vez  mais,  a  estrutura  interna  da  classe  senhorial  foi  condicionada  pelas  relações  de 
exploração  que  ela  mantinha  com  a  classe  servil,  e  a  função  das  igrejas  e  mosteiros 
enquanto  elementos  de  ordenação  do  habitat  e  de  controlo  das  populações  não  se  deve 
separar  do  seu  papel  no  sistema  familiar  da  aristocracia93. 

Ao  reflectirmos  sobre  o  modo  como  os  estabelecimentos  eclesiásticos  contribuíam 
para  definir  o  eixo  das  linhagens,  compreendemos  melhor  aquelas  situações,  referidas 
no  início  do  capítulo,  em  que  o  filho  mais  velho  podia  suceder  sistematicamente  ao  pai 


87  Quando  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  97  escreve  que  a  aristocracia  laica  era  atraída  pela  estabilidade 
da  vida  religiosa  prosseguida  pela  Ordem  de  Cluny.  enquanto  as  famílias  poderosas  estavam  sempre 
na  iminência  de  sofrer  derrotas  militares  ou  catástrofes  políticas,  devemos  considerar  que  aquela  esta¬ 
bilidade  não  se  devia  a  factores  externos,  mas  acima  de  tudo  às  características  de  uma  família  artifi¬ 
cial  coesa. 

88  Quanto  às  funções  de  eixo  das  linhagens,  que  os  estabelecimentos  religiosos  desempenharam 
neste  período,  ver:  C.  Lansing  (1991)  32:  K.  J.  Leyser  (1979)  68.  1 14;  J.  Mattoso  [1994  b]  186;  G. 
Tabacco  (1979)  208:  C.  Violante  (1977)  93;  J.  Wollasch  em  Centre  National  de  la  Recherche  Scienti- 
fique  (1968)598. 

I.  Beceiro  Pita  (1990)  332  observa  que.  pelo  menos  na  região  de  Toledo,  era  manifesta  a  relação 
entre  a  formação  de  morgadios  e  as  doações  a  instituições  eclesiásticas,  cujo  clero  assumia  em  contra¬ 
partida  o  compromisso  de  celebrar  missas  por  alma  do  doador  e  dos  seus  sucessores.  Finalmente, 
recordem-se  as  nn.  67  e  69. 

89  E.  Baratíer  (org.  1969)  117-118;  A.  Bouton  (1975-1976)  II  155;  M.  Chauney  (1975)  199:  id. 
(1985)680:  J.  Dhondf  ( 1976)  239;  G.  Duby  ( 1959  b)  250;  C.  Violante  (1977)  96. 

90  C.  B.  Bouchard  (1987)  79-81. 

91  ld.,  ibid.,  116. 

92  C.  Violante  (1977)  97. 

98  Nesta  perspectiva  é  interessante  a  observação  de  P.  Toubert  ( 1973  b)  729-731  ao  relacionar  o 
controlo  exercido  sobre  as  populações,  graças  à  reorganização  do  habitat,  e  o  rigor  com  que  passaram 
a  aplicar-se  as  normas  do  celibato  eclesiástico. 


Lstruiuraa  familiares  do  classe  senhorial 


191 


na  chefia  da  família,  sendo  no  entanto  o  património  repartido  por  todos  os  irmãos  ou, 
pelo  menos,  não  ficando  os  filhos  segundos  inteiramente  afastados  da  herança.  Sem 
manterem  relações  íntimas  com  mosteiros  e  cabidos,  como  teriam  conseguido  as  famí¬ 
lias  senhoriais  desenvolver  a  estrutura  da  linhagem  agnática,  consolidá-la  e  afirmar  a 
sua  hegemonia  através  de  um  contexto  de  dispersão,  total  ou  parcial,  das  heranças? 

A  necessidade  de  utilizar  as  instituições  religiosas  foi-se  tomando  mais  premente 
pelo  facto  de  aquele  sistema  de  família  marginalizar  as  mulheres  e  os  filhos  segundos. 
Ora.  um  empobrecimento  sistemático  da  grande  maioria  dos  seus  membros  constituiria 
um  risco  social  incomportável  para  a  classe  dominante.  Daí  que  se  tivesse  inicialmente 
recorrido  a  algumas  formas  de  comunidade  familiar  quer  mediante  a  detenção  conjunta 
do  património  pelos  vários  herdeiros  quer  através  de  outras  modalidades,  que  podiam 
mesmo  comportar  o  aparecimento  de  vínculos  de  família  artificial.  Aliás,  sucedeu  que 
as  associações  de  proprietários  tivessem  como  objecto  estabelecimentos  religiosos  e 
direitos  eclesiásticos,  e  situações  deste  tipo  verificavam-se  em  algumas  regiões  ainda 
no  final  do  período94.  Mas  esses  paliativos  revelaram-se,  afinal,  contraditórios  com  o 
prevalecimento  do  núcleo  conjugal  e  com  a  redução  do  número  de  herdeiros  principais, 
precisamente  as  duas  características  definidoras  do  sistema  de  linhagem.  Foi  então  que 
os  estabelecimentos  eclesiásticos  assumiram  uma  nova  função  na  estrutura  familiar  da 
aristocracia,  acolhendo  filhos  segundos  e  também  mulheres  solteiras  ou  viúvas95,  e 


94  C.  B.  Bouchard  (1987)  180;  M.-C.  Gerbet  (1994)  45;  J.  M.  Klassen  ( 1978)  40:  Ch.  Wickham 
(1981)  186. 

95  A  crer  em  M.  Parisse  (org.  1977)  1 71 ,  na  üermânia  as  mulheres  solteiras  ou  viúvas  de  famílias 
nobres  davam  entrada  não  só  em  abadias,  mas  igualmente  em  capítulos  seculares,  enquanto  os  filhos 
segundos  da  aristocracia,  que  raramente  procuravam  os  mosteiros,  integravam  sobretudo  o  clero  regu¬ 
lar  dos  capítulos  das  catedrais.  Na  Saxónia  do  século  X  e  do  começo  do  século  XI  foram  muito  abun¬ 
dantes  as  fundações  de  conventos  destinados  a  viúvas  e  filhas  solteiras,  devendo-se  mesmo  alguns  à 
iniciativa  de  mulheres,  consoante  indica  K  J  Leyser  ( 1979)  63  e  segs.  A  partir  da  terceira  década  do 
século  XI,  porém  (pp.  65,  70-7 1 ),  diminuiu  rapidamente  o  interesse  da  aristocracia  pelos  estabeleci¬ 
mentos  femininos  e  aumentou  o  número  de  casas  religiosas  masculinas,  tanto  mosteiros  como  cabi¬ 
dos;  aliás,  esta  redefinição  de  estratégias  levou  até  ao  declínio  de  muitos  conventos  de  mulheres  e  à 
conversão  de  alguns  deles  em  conventos  de  homens.  Por  seu  lado.  Michel  Parisse  em  op.  cil.,  133 
confirma  que  na  Alta  Lorena  dos  séculos  X  e  XI  a  taxa  de  crescimento  das  abadias  femininas  foi 
superior  à  das  masculinas.  Na  França  setentrional.  G.  Duby  (1981 )  97,  171  e  276-277  informa  que  o 
número  de  conventos  femininos  aumentou  muito  durante  o  século  XI  e  sobretudo  na  passagem  deste 
século  para  o  seguinte.  C.  B.  Bouchard  (1987)  46  chama  a  atenção,  a  propósito  da  Borgonha.  para  o 
facto  de  nos  séculos  XI  e  XII  a  proporção  de  membros  da  aristocracia,  de  ambos  os  sexos,  que  entTa- 
ram  para  a  Igreja  ter  sido  muito  superior  à  registada  nas  outras  classes  sociais,  o  que  mostra  que  a 
vocação  religiosa  dos  filhos  segundos  se  tomara  uma  característica  da  nobreza.  Aliás,  os  castelãos  e 
cavaleiros  borgonheses,  admitidos  como  nobres  nos  séculos  XI  e  Xll,  começaram  nessa  mesma  oca¬ 
sião  a  colocar  filhos  em  conventos  e  cabidos,  conforme  leio  em  id.,  ibid..  76.  Em  Leão  e  Castela.  S. 
M.  Belmartino  (1968)  277  observa  que  o  costume  de  destinar  as  filhas  solteiras  à  vida  religiosa  tinha 
uma  longa  tradição  nas  famílias  reais.  Quanto  à  colocação  de  filhos  segundos  e  de  mulheres  solteiras 
e  viúvas  em  instituições  religiosas  ver  ainda:  C.  B  Bouchard  (1979)  51:  R.  Fossier  (org.  1974)  155, 
157;  R.  I.  Moore  (1992)  317;  M.  Parisse  (org.  1977)  133.  171. 

A  cadeia  causal  proposta  por  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  343  no  seu  estudo  sobre  a  Toscana  parece- 
-me  inteiramente  invertida.  Começando  por  afirmar  que  a  reforma  eclesiástica  levou  a  Igreja  a  contro¬ 
lar  de  muito  mais  perto  as  suas  posses,  estes  historiadores  pretendem  que  em  consequência  disso  a 
aristocracia  reduziu  as  doações  aos  estabelecimentos  religiosos  e  começou  a  excluir  as  mulheres  da 


192 


Forma  II  do  dinheiro 


impedindo  que  todas  estas  pessoas  vissem  degradado  o  seu  estatuto  social  ou  caíssem 
até  na  miséria.  O  carácter  sistemático  dessa  estratégia  comprova-se  ao  observarmos 
situações  como  a  prevalecente  no  ducado  da  Borgonha.  onde  uma  família  que  colo¬ 
casse  filhos  seus  no  capítulo  de  uma  dada  sé.  ou  num  certo  convento,  mantinha-se 
geralmente  fiel  a  esta  opção  nas  gerações  seguintes96,  assim  como  a  hostilidade  que  se 
pudesse  manifestar  para  com  uma  certa  instituição  eclesiástica  tendia  a  cristalizar-se 
numa  inimizade  tradicional,  continuada  ao  longo  de  gerações97.  E  sabemos  que.  pelo 
menos  na  Borgonha  e  na  Itália  centro-setentrional  durante  os  primeiros  séculos  deste 
período,  era  regra  que  um  sobrinho  clérigo  tivesse  o  mesmo  nome  de  baptismo  do  tio, 
paterno  ou  materno,  que  na  geração  anterior  o  havia  precedido  naquele  mesmo  estabe¬ 
lecimento,  quer  se  tratasse  de  uma  sé  episcopal,  de  um  cabido  ou  de  um  convento98.  A 
vocação  religiosa  de  alguns  filhos  segundos  encontrava-se.  portanto,  definida  desde  o 
berço. 

Os  efeitos  deste  processo  não  se  circunscreviam,  porém,  ao  âmbito  das  famílias 
consideradas  isoladamente,  e  determinavam  o  estreitamento  das  suas  relações  recípro¬ 
cas.  Surgiu-me  já  o  ensejo  de  observar  que  a  definição  de  limites  agnáticos  rigorosos 
teria  levado  à  ruptura  da  classe  dominante  numa  multiplicidade  de  famílias  hostis  se 
não  houvesse  sido  acompanhada  pelo  estabelecimento  de  elos  de  solidariedade.  A  difu¬ 
são  de  critérios  de  endogamia  mais  severos,  obrigando  a  firmar  relações  matrimoniais 
entre  linhagens  socialmente  diferenciadas  ou  distantes  geograficamente,  deu  oportuni¬ 
dade,  como  vimos,  para  multiplicar  aqueles  elos  dentro  do  quadro  familiar.  Outra 
forma,  de  carácter  parafamiliar,  consistiu  na  colocação  nas  mesmas  corporações  reli¬ 
giosas  de  filhos  segundos  e  mulheres  solteiras  e  viúvas  oriundos  de  famílias  diferentes. 
Deste  modo  os  conventos  e  cabidos  não  estavam  apenas  a  atenuar  as  tensões  internas 
de  cada  linhagem,  mas  contribuíam  também  para  tecer  vínculos  novos  entre  várias 
famílias  senhoriais  da  região,  todas  elas  empenhadas  em  defender  e  promover  os  mes¬ 
mos  estabelecimentos  eclesiásticos,  reforçando-se  assim  suplementarmente  a  coesão  da 
aristocracia.  Quanto  maior  era  o  prestígio  de  um  mosteiro  ou  de  uma  igreja,  tanto  mais 
noviços  atraía  e  mais  clérigos  procuravam  tomar  assento  no  seu  capítulo,  de  maneira 
que  cada  um  destes  centros  religiosos,  através  dos  filhos  segundos  e  das  mulheres  que  o 
integravam,  oferecia  mais  um  pretexto  para  harmonizar  os  interesses  das  linhagens 
senhoriais  em  regiões  mais  ou  menos  vastas99. 


herança;  teria  aumentado  assim  o  controlo  colectivo  da  família  sobre  o  património,  mediante  o 
reforço  da  solidariedade  entre  os  elementos  masculinos,  o  que  levaria  ao  desenvolvimento  do  sistema 
de  linhagem.  Na  minha  opinião  os  acontecimentos  seguiram  uma  ordem  contrária. 

96  C.  B.  Bouchard  (1987)  50,  138.  150  e  segs. 

97  Id..ibid..  216-217. 

98  Id..  ibid..  62;  C.  Violante  (1977)96.  1 10. 

99  Os  capítulos  das  catedrais  e  os  mosteiros,  escreve  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  83-84  a  respeito  da 
Borgonha  do  século  XII.  eram  um  dos  elementos  na  rede  de  relações  que  unia  a  aristocracia  regional. 
E.  referindo-se  à  Flandres  e  a  algumas  regiões  da  França  setentrional  durante  os  segundo  e  terceiro 
quartéis  do  século  X.  J.  F.  Lemarignier  (1982)  796-797  esclarece  que  diversos  príncipes,  quando  se 
viram  com  uma  autoridade  já  relativamenie  segura,  reformaram  os  seus  mosteiros  e,  em  vez  de  exer¬ 
cerem  sobre  eles  um  direito  exclusivo  de  propriedade,  preferiram  convertê-los  em  centros  da  vida 
social  no  território. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


193 


E  assim  as  instituições  eclesiásticas  de  alguma  importância,  deixando  de  decorrer 
de  um  único  magnate,  começaram  a  ser  controladas  por  conjuntos  de  famílias100. 
Enquanto  no  período  anterior  e  durante  a  crise  dos  séculos  IX  e  X  o  fundador  de  um 
mosteiro  reservava  para  si  ou  para  um  parente  seu  as  funções  de  abade101,  desde  o 
começo  deste  período,  como  veremos  em  breve,  tal  prática  deixou  de  se  verificar  e  o 
abade  era  eleito  pelos  monges,  ou  de  qualquer  forma  escolhido  entre  eles,  estreitando- 
-se  as  relações  colectivas102.  isto  mostra  que  as  comunidades  religiosas  haviam  passado 
a  servir  grupos  mais  ou  menos  vastos  de  famílias  senhoriais,  e  não  só  uma  delas.  Pelo 
mesmo  motivo  foi  aumentando  gradualmente  o  rigor  com  que  se  impôs  o  celibato  ecle¬ 
siástico,  apesar  de  surgirem  inúmeros  obstáculos  em  contrário,  derivados  de  interesses 
específicos  dos  membros  do  clero10-5.  O  casamento  ou  a  concubinagem  dos  sacerdotes 


100  No  sul  da  França.  A.  R.  Lewis  ( 1965  )  252-253  considera  que  já  desde  o  século  X  cada  estabe¬ 
lecimento  eclesiástico  importante  era  controlado  por  grupos  de  famílias  senhoriais  da  vizinhança,  que 
desfrutavam  em  graus  variados  dos  privilégios  e  do  poder  inerentes  a  esta  situação. 

1(11  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  236-237;  P.  Cammarosano  em  École  Pratique  des  Hautes  Études  (\T 
Sectiomi.  1977)  151;  C.  Sánchez- Albornoz  { 1980)  603-604. 

I0‘  F.  Lehoux  (1951)  27-28  esclarece  que,  ao  conceder  uma  carta  de  privilégios  no  final  do  ter¬ 
ceiro  quartel  do  século  Xll.  o  mosteiro  de  Saint-Germain-des-Prés  foi  representado  pelo  abade  e  pelo 
capítulo  da  abadia,  já  que  o  abade  necessitava  de  estar  assistido  pelos  demais  monges  para  exercer  o 
bannum  sobre  os  habitantes  da  povoação;  e  a  autora  acrescenta  (p.  28)  que  a  totalidade  do  convento 
constituía  um  senhor  coleetivo.  Note-se  que  precisamente  nessa  época,  segundo  J.  Boussard  (19761 
185.  Saint-Gcrmain-des-Prés  detinha  consideráveis  poderes  senhoriais. 

IW  E.  Aniann  et  al.  (1948)  85  e  478-479  garantem  que  no  começo  do  período,  em  todas  as 
regiões,  era  muito  elevada  a  percentagem  de  padres  casados,  por  vezes  mesmo  bispos,  e  acrescentam 
que,  embora  o  direito  canónico  proibisse  os  clérigos  possuidores  de  ordens  maiores  de  se  casarem 
após  a  ordenação,  os  matrimónios  efectuados  em  tais  condições  eram  considerados  legítimos,  e  não 
nulos,  sendo  estes  sacerdotes  mantidos  em  funções.  R.  S.  Lopez  (1965)  159  confirma  que  no  século 
XI  quase  todos  os  padres  eram  casados  ou  viviam  em  concubinagem  e  recorda  o  caso  de  um  papa,  na 
passagem  do  primeiro  para  o  segundo  terço  do  século  X.  que  era  filho  ilegítimo  de  outro  papa.  Desde 
o  início  do  período,  todavia,  a  linha  de  evolução  estava  claramente  traçada,  pois  enquanto  no  século 
IX  prevalecia  ainda  o  matrimónio  legítimo  do  clero,  G.  Rossetti  (1977  b)  533  e  segs.  observa  que  na 
segunda  metade  do  século  seguinte  era  já  a  concubinagem  a  predominar,  e  no  século  XI  (p.  504)  esti¬ 
pulou-se  que  as  esposas  de  eclesiásticos  fossem  equiparadas  a  concubinas  no  caso  dc  continuarem  a 
viver  com  os  mandos.  Na  Gemiãnia  do  começo  do  período,  não  só  Emile  Amann  e  Auguste  Dumas 
em  o/i.  dt„  478-479  mas  igualmente  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  289-290  indicam  que  o  casamento  do 
clero  constituía  uma  situação  generalizada.  Na  mesma  época,  na  Catalunha,  era  frequente  o  matrimó¬ 
nio  ou  a  concubinagem  de  eclesiásticos,  incluindo  bispos,  e  em  iguais  circunstâncias  se  encontravam 
monges  e  monjas,  conforme  salienta  P.  Bonnassie  (1975-1976)  261.  Segundo  J.  Goody  (1985)  87  a 
aceitação  do  celibato  eclesiástico  ter-se-ia  tomado  corrente  apenas  a  partir  do  pontificado  de  Gregório 
VII.  entre  1073  e  1085.  mas  Roberto  Sabatino  Lopez  em  op.  cit.,  159  adverte  que  a  reforma  grego¬ 
riana  só  parcialmente  conseguiu  proibir  o  casamento  e  a  mancebia  do  clero.  Com  efeito,  na  segunda 
metade  do  século  XI,  a  crer  em  J.  W.  Thompson  (1959)  663,  vários  bispos  italianos  recusaram-se  a 
promulgar  a  norma  do  celibato  eclesiástico,  o  que  se  compreende  se  recordarmos,  com  R.  I.  Moore 
( 1977)  56,  que  em  Milão  a  tradição  ambrosiana  permitia  o  casamento  dos  membros  do  clero.  D.  Her- 
lihy  (1973)  .379  menciona,  porém,  uma  diminuição  da  frequência  dos  casamentos  de  sacerdotes  em 
Luca,  durante  o  século  XI.  Em  sentido  oposto,  leio  em  G.  Duby  (1973)  188  que  na  sua  maioria  os 
curas  eram  casados,  pelo  menos  até  ao  século  XII  Na  Inglaterra,  tanto  antes  como  depois  da  con¬ 
quista  normanda.  R.  Lennard  ( 1959)  332  esclarece  que.  na  maior  parte  dos  casos,  o  clero  das  aldeias 
contraíra  laços  matrimoniais.  Na  Hungria,  até  meados  do  século  XIII  os  padres  das  igrejas  rurais  eram 
frequentemente  casados,  assegura  A.  Gieysztor  ( 1982)  948.  Mesmo  num  centro  religioso  tão  impor- 


194 


Forma  II  do  dinheiro 


ocasionavam  problemas  especialmente  graves  neste  período,  quando  os  estabelecimen¬ 
tos  eclesiásticos  haviam  deixado  de  servir  de  eixo  de  continuidade  para  famílias  parti¬ 
cularmente  consideradas,  e,  além  de  contribuírem  para  a  perenidade  de  conjuntos  de 
linhagens,  forneciam  mais  um  pretexto  ao  inter-relacionamento  da  aristocracia  em  cada 
região.  Para  que  mosteiros  e  cabidos  cumprissem  estas  funções  seria  necessário  que  a 
relativa  neutralidade  do  estabelecimento  não  fosse  posta  em  risco  pelo  aparecimento, 
no  seu  interior,  de  uma  linha  sucessória  ligada  apenas  a  uma  família.  Numa  instituição 
religiosa  colectiva,  o  celibato  do  clero  era  uma  condição  imprescindível  ao  bom  funcio¬ 
namento  dos  mecanismos  de  escolha  dos  dignitários  entre  todas  as  linhagens  que 
haviam  doado  terras  e  servos  a  esse  estabelecimento  e  nele  colocavam  os  seus  filhos 
segundos.  Se  a  cooptação  deparasse  com  obstáculos  sistemáticos,  seria  impossível  har¬ 
monizar  os  interesses  locais  ou  regionais  da  classe  dominante  numa  rede  de  solidarie¬ 
dades  comuns  e  não  se  teriam  formado  territórios  socialmente  coesos,  necessários  ao 
progresso  das  senhorias  impessoais.  Nesta  perspectiva,  o  ascendente  detido  por  monar¬ 
cas,  príncipes  e  magnates  sobre  os  mais  importantes  centros  religiosos  serviu-lhes 
igualmente  para  controlarem  as  grandes  vias  de  comunicação104,  contribuindo  assim 
para  tecer  elos  mais  estreitos  entre  várias  esferas  de  soberania. 

O  carácter  colectivo  das  abadias  e  cabidos  passou  a  exprimir  a  tal  ponto  a  coesão 
territorial  da  classe  dominante  que  as  congregações  eclesiásticas  assumiram  uma  vida 
interna  própria.  As  esperanças  de  promoção  de  que  pudesse  beneficiar  um  noviço,  ou 
um  clérigo  com  assento  recente  num  capítulo,  não  se  deviam  tanto  ao  prestígio  do  meio 
em  que  eles  haviam  nascido  como  sobretudo  à  influência  exercida  por  parentes  que 
desde  há  mais  tempo  fizessem  parte  da  colectividade,  o  que  explica  que  os  novos  reli¬ 
giosos  procurassem  entrar  em  estabelecimentos  onde  contassem  já  com  familiares.  E, 
assim,  algumas  pessoas  que  de  início  tinham  sido  marginalizadas  na  vida  laica,  em  vir¬ 
tude  dos  rigores  da  linhagem  agnática,  acabaram  por  deter  um  grande  ascendente  sobre 
a  sua  casa  de  origem105. 

Compreendemos  melhor  esta  questão  se  lembrarmos  um  facto  de  grande  relevância, 
e  que  apesar  disso  passa  despercebido  à  maioria  dos  que  se  ocupam  com  estes  assuntos. 


tante  como  Reims,  em  plenos  séculos  XIII  e  XIV,  não  só  eram  muito  frequentes  os  clérigos  casados 
legitimamente,  como  o  seu  número  aumentou  ainda  no  final  do  período,  consoante  escreve  P.  Despor¬ 
tes  ( 1979)  309  e  620.  Nas  Espanhas,  informa  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  112-113.  a  concubinagem 
dos  padres  constituía  uma  situação  generalizada  no  final  do  século  XIII  e  durante  o  século  XIV,  e  J. 
Mattoso  1 1994  b]  237  confirma  que  nessa  mesma  época  era  muito  corrente  a  violação  do  celibato  do 
clero  em  Portugal.  Aliás,  este  historiador  relata  uma  situação  ocorrida  no  segundo  quartel  do  século 
XIV,  quando  um  bispo  do  Porto  e  de  Lisboa  era  filho  e  neto  de  clérigos  e  contava  entre  os  seus  paren¬ 
tes  mais  dois  bispos,  um  cónego  e  outros  dois  eclesiásticos. 

I<M  Acerca  deste  processo  na  estrada  entre  Chambéry  e  Turim,  uma  das  rotas  de  ligação  da  França 
à  Itália,  desde  o  século  X  até  ao  século  XIII,  consultar  G.  Sergi  <  1 98 1 )  2 1 ,  23.  40  e  73-74. 

105  C.  B.  Bouchard  ( 1979)  52-53  observa  este  processo  a  propósito  do  Auxerrois  no  século  XII,  e 
em  ( 1987)  51  e  79  volta  a  mencioná-lo  na  Borgonha  dos  séculos  XI  e  XII.  Por  seu  tumo,  J.  Wollasch 
(1980)  20-23  comenta  que  o  prestígio  de  certos  convénios  era  tão  grande  que  muitos  nobres  renuncia¬ 
vam  à  vida  laica  para  ocupar  cargos  influentes  na  congregação  monástica.  Tratava-se  de  uma  efectiva 
promoção  nas  hierarquias  da  classe  dominante.  Na  Polónia  do  século  XII  A.  Gieysztor  (1977)  301- 
-302  refere  que  não  só  bispos  como  outros  dignitários  religiosos  podiam  estar  na  origem  de  linhagens 
importantes. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


195 


As  doações  de  terras  e  servos,  de  direitos  senhoriais,  por  vezes  de  dinheiro,  beneficia¬ 
ram  quase  sempre  estabelecimentos  eclesiásticos  colectivos,  tanto  conventos  como 
cabidos  ou  outros  tipos  de  congregações,  e  só  muito  raramente  instituições  religiosas 
pessoalizadas,  como  os  bispados106.  Frequentemente  estas  doações  eram  tão  considerᬠ
veis  que  correspondiam  à  fracção  da  herança  que  teria  sido  atribuída  ao  filho  se  ele  não 
se  houvesse  tomado  monge  ou  cónego,  ou  ao  dote  da  filha  se  ela  se  tivesse  casado  em 
vez  de  ter  sido  colocada  como  freira107.  O  decisivo  aqui,  porém,  não  era  o  montante 
dos  bens,  mas  o  seu  destino.  Se  fossem  repartidas  em  testamento  ou  como  concessão 
matrimonial,  aquelas  porções  do  património  ficariam  perdidas  para  o  eixo  da  linhagem, 
enquanto  que,  pelo  contrário,  a  sua  colocação  sob  a  égide  de  uma  congregação  reli¬ 
giosa  as  preservava,  especialmente  se  existissem  aí  parentes  a  zelar  por  esses  bens. 
Nesta  estratégia  não  se  tratava  de  economizar  terras  e  servos,  mas  de  conservar  coe¬ 
rente  o  eixo  patrimonial  da  linhagem.  Isto  mostra  que  não  bastavam  a  fé  e  o  desejo  de 
salvar  a  alma  para  justificar  as  doações.  O  objectivo  principal  consistia  em  assegurar  a 
sobrevivência  de  um  grupo  no  qual  participavam,  ou  podiam  a  todo  o  momento  partici¬ 
par,  os  membros  marginalizados  das  famílias  doadoras,  bem  como  de  outras  famílias 
senhoriais  da  região.  Especialmente  sugestivos  são  casos  como  o  da  Polónia,  onde  na 
segunda  metade  do  século  XI  e  ao  longo  do  século  seguinte  numerosos  senhores  cria¬ 
ram  igrejas  rurais  e  dotaram  outras  de  maneira  a  que  pudessem  sustentar  grupos  de 
cónegos108.  Também  no  princípio  do  período  encontramos  uma  situação  idêntica  no 
Berry.  onde  a  maior  parte  das  famílias  aristocráticas  fundava  comunidades  constituídas 
por  alguns  cónegos  seculares,  que  oficiavam  na  capela  dos  castelos  e  viviam  na  domes¬ 
ticidade  senhorial1110.  E  na  Borgonha  do  século  XII  as  famílias  da  camada  inferior  da 
nobreza  instituíam  pequenas  congregações  de  cónegos  regulares1 10.  Mesmo  neste  nível 
mais  humilde  das  hierarquias  religiosas  o  objectivo  era  a  colocação  de  conjuntos  de 
filhos  segundos. 

Como  sempre  sucede,  a  convergência  de  interesses  não  eliminava  os  conflitos,  ofere¬ 
cendo,  pelo  contrário,  uma  maneira  de  os  resolver.  Os  litígios  que  uma  dada  família 
pudesse  sustentar  com  um  mosteiro  da  vizinhança  ou  com  o  cabido  de  uma  igreja  de 


1(16  É  elucidativo  que.  apesar  de  muitos  ideólogos  da  reforma  eclesiástica  defenderem  a  passagem 
das  antigas  igrejas  privadas  para  a  égide  dos  bispados,  e  não  dos  mosteiros,  fossem  na  realidade  os 
mosteiros  a  receber  a  esmagadora  maioria  daquelas  igrejas.  Ver  acerca  deste  assunto  G.  Constable 
(1982)  351-352,  368-371  e  381. 

107  C.B.  Bouchard  11987)  59. 

1<,s  A.  Gievsztor  (1982)  944-945. 

A  propósito  da  situação  da  Itália  centro-setentrional  nos  séculos  XI  e  XII,  C.  Violante  (1977)  97 
considera  que  o  papei  desempenhado  na  estrutura  de  linhagem  por  uma  igreja  privada  rural  declinava 
se  a  sua  propriedade  começasse  a  repartir-se  entre  os  diferentes  herdeiros,  acabando  essa  função  por 
se  encerrar  quando  o  estabelecimento  passava  para  a  jurisdição  do  bispo,  que  o  reformava  e  colocava 
aí  uma  comunidade  de  cónegos.  Na  opinião  de  Cmzio  Violante.  tal  situação  contribuía  para  a  dissolu¬ 
ção  da  linhagem.  No  entanto,  o  exemplo  da  Polónia,  naquela  mesma  época,  mostra  que  a  existência 
de  congregações  de  cónegos  nas  igrejas  rurais  podia  servir  directamente  os  interesses  das  famílias 
aristocráticas,  proporcionando  lugares  para  os  filhos  segundos. 

109  G.  Devailly  i  1973)  159. 

110  C.  B.  Bouchard  (1987)  115-116. 


m 


Forma  II  do  dinheiro 


qualquer  cidade  próxima,  em  geral  a  respeito  da  detenção  de  terras  e  servos,  ou  de  incul¬ 
tos,  ou  de  direitos  senhoriais,  colocavam-na  implicitamente  em  oposição  às  demais 
famílias  que  contassem  membros  seus  nessas  corporações  religiosas.  Para  a  família 
indisposta,  uma  maneira,  parece  que  frequente,  de  apaziguar  as  contendas  consistia  em 
instalar  naquele  estabelecimento  eclesiástico  um  dos  seus  filhos  solteiros111.  Como  a 
aceitação  de  novos  membros  tinha  de  ser  acompanhada  pela  recepção  de  donativos  subs¬ 
tanciais112,  aumentava  o  património  detido  pelo  mosteiro  ou  pela  igreja,  enquanto 
expressão  da  fortuna  colectiva  da  aristocracia  da  região.  Ao  mesmo  tempo,  a  família  de 
onde  saía  o  noviço,  além  de  ver  resolvida  a  contenda,  ficava  ligada  a  um  centro  de 
poder,  pelo  que  o  acordo  era  benéfico  para  ambas  as  partes.  E  o  novo  monge  ou  clérigo 
servia  de  penhor  nestes  pactos112.  Na  verdade,  a  possibilidade  de  se  contraírem  assim 
relações  de  aliança  entre  linhagens  era  maior  ainda,  pois  o  prestígio  de  um  magnate 
decorria,  entre  outras  coisas,  da  capacidade  de  fazer  com  que  certas  instituições  religio¬ 
sas  de  renome  admitissem  pessoas  da  pequena  aristocracia,  que  sem  isso  ficariam  rele¬ 
gadas  para  estabelecimentos  de  escassa  fortuna  e  somenos  importância114.  Os  novicia¬ 
dos,  portanto,  tal  como  permitiam  resolver  em  boa  parte  o  problema  dos  filhos  segun¬ 
dos,  reforçavam  também  a  solidariedade  entre  famílias  de  uma  região,  que  podia  até  ser 
um  território  muito  vasto,  e  davam  oportunidade  à  ampliação  de  clientelas  e  à  consolida¬ 
ção  das  hierarquias  senhoriais,  tudo  isto  factores  de  coesão  da  classe  dominante. 

A  situação  caracterizava-se  ainda  por  outro  tipo  de  contradições.  Se,  por  um  lado,  a 
colocação  de  filhos  segundos  e  de  mulheres  solteiras  e  viúvas  em  instituições  religiosas 
contribuía  para  a  coerência  e  a  durabilidade  da  linhagem,  por  outro  lado  os  donativos 
que  acompanhavam  sempre  a  entrada  dos  novos  elementos  nos  mosteiros  e  nos  cabidos 
podiam  suscitar  a  oposição  de  algum  parente.  É  certo  que,  ao  conceder  terras,  servos  e 
direitos  senhoriais  a  um  estabelecimento  eclesiástico,  uma  família  estava  a  reforçar  a 
sua  coesão  futura,  na  medida  em  que  os  descendentes  se  reuniriam  periodicamente  em 
tomo  dessa  fundação  religiosa1 15.  Mas,  ao  mesmo  tempo,  dava  também  ensejo  à  mani¬ 
festação  de  rivalidades  entre  os  seus  membros  que  eventualmente  discordassem  da 
oportunidade  do  donativo,  e  o  assentimento  de  todos  era  necessário  à  legalidade  do 
acto116.  No  início,  é  talvez  de  admitir  que  muita  desta  hostilidade  fosse  inspirada  peias 
concepções  tradicionais  de  família,  avessas  a  um  sistema  de  linhagem  agnática  dema- 


111  Ver  a  este  respeito  J.  H.  Lynch  ( 1976)  1 1-15.  que.  porérn,  não  dá  o  devido  realce  ao  papel  dos 
estabelecimentos  eclesiásticos  enquanto  instituição  representativa  da  generalidade  das  famílias  senho¬ 
riais  de  cada  região. 

I, 2  ld-,  ibid.,  II. 

113  ld..  ibid.,  14-15. 

114  Id.,  ibid.,  14. 

115  G.  Tabaccoí  1979)  208. 

I I, 1  Quanto  aos  conflitos  no  interior  das  famílias  senhoriais  motivados  pela  concessão  de  bens  a 
estabelecimentos  eclesiásticos  ver,  por  exemplo,  .1.  H.  Lynch  (1976)  9.  J.  Wollasch  (1980)  11-12 
recorda  o  caso  de  uma  linhagem  de  importância  regional,  mais  tarde  caída  na  obscuridade  em  virtude 
das  consideráveis  doações  de  senhorias  que  acompanharam  a  entrada  de  membros  da  família  como 
monges  em  Cluny.  Sem  dúvida  que  haveria,  nesta  esfera  como  nas  restantes,  erros  de  planificação, 
pelo  que  a  hostilidade  manifestada  por  parentes  podia  eventualmente  representar  um  efectivo  desejo 
de  preservação  do  património  familiar. 


Estruturas  familiares  Ja  rlusse  senhorial 


197 


siado  pronunciado,  e  que  se  pretendesse  por  isso  impedir  que  o  estreitamento  de  rela¬ 
ções  com  um  centro  religioso  reforçasse  a  perenidade  do  novo  eixo  familiar1 17.  Nestes 
casos,  ao  colocar  uma  parte  do  patrimônio  sob  a  égide  de  uma  corporação  eclesiástica, 
o  chefe  de  uma  família  aristocrática  não  estava  a  proceder  a  qualquer  alienação,  mas 
pelo  contrário  a  preservar  um  núcleo  de  bens  e  de  direitos,  que  ajudaria  a  definir  um 
eixo  de  continuidade  familiar  e  não  poderia  mais  ser  desagregado  por  iniciativa  de 
parentes  e  descendentes1  ,s.  Mesmo  em  conventos,  como  os  da  Ordem  de  Cluny,  que  se 
destacavam  enquanto  centros  de  reforma  religiosa,  as  senhorias  doadas  por  cada  família 
eram  administradas  pelos  parentes  que  tivessem  professado  no  estabelecimento  benefi¬ 
ciado,  mantendo-se  portanto  os  bens  em  relação  com  o  quadro  familiar  de  origem1 19;  e 
se  esses  monges  transitassem  para  outro  mosteiro,  eles  continuariam  daí  a  gerir  os  bens 
concedidos  pela  sua  família1-0.  Na  génese  das  novas  instituições  jurídicas  determinadas 
pelo  desenvolvimento  do  sistema  de  linhagem  agnática,  tanto  as  doações  feitas  a  con¬ 
gregações  religiosas  como  a  liberdade  testamentária  que  permitia  ao  chefe  de  família 
privilegiar  um  dos  filhos  se  inseriam  numa  esfera  comum,  enquanto  formas  de  conser¬ 
var  um  núcleo  patrimonial.  Em  ambos  os  casos  o  autor  da  decisão  assumia,  sobre  aque¬ 
les  bens,  direitos  que  não  deixariam  de  vigorar  após  a  sua  morte121.  Mas  como  os  con¬ 
flitos  resultantes  deste  tipo  de  doações  continuaram  a  manifestar-se  ao  longo  do 
período,  eles  parecem  revelar  a  existência  de  contradições  mais  sistemáticas  e  duráveis. 
Aliás,  o  chefe  de  uma  família  que  por  tradição  fosse  ligada  a  um  dado  centro  religioso 
beneficiava-o  independentemente  da  colocação  aí  de  noviços,  e  mesmo  que  não  tivesse 
naquele  momento  nenhum  parente  próximo  entre  os  seus  monges  ou  cónegos122,  o  que 
proporcionava  novas  oportunidades  de  desavença  com  algumas  pessoas  da  família. 
Apesar  disso,  as  concessões  repetiam-se  e  as  linhagens  mantinham  sistematicamente 
relações  com  um  ou  mais  estabelecimentos  eclesiásticos.  Assim,  fica  claro  que  a 
importância  dos  mosteiros  e  das  igrejas  no  reforço  do  eixo  de  continuidade  de  cada 
família  senhorial  e  na  redução  das  suas  tensões  internas,  multiplicando  ao  mesmo 
tempo  os  vínculos  que  asseguravam  a  solidariedade  entre  todas  essas  famílias,  era  indu¬ 
bitavelmente  superior  às  fricções  que  aquele  relacionamento  pudesse  proporcionar. 


117  É  assim  que  avalio  as  situações  descritas  em  K.  J.  Leyscr  (1979)  68-70  c  M.  I.  Loring  Garcia 
(1990)  14.  Aliás,  esta  última  historiadora  esclarece  (p.  45)  que  a  formação  dos  conjuntos  senhoriais 
monásticos  durante  os  séculos  IX  e  X  no  norte  das  Espanhas  se  fez  em  boa  medida  à  custa  da  desinte¬ 
gração  dos  patrimônios  das  famílias  amplas.  Do  mesmo  modo,  parece-me  errada  a  interpretação  suge¬ 
rida  por  S.  Weinberger  (1982)  154-155  a  respeito  deste  tipo  de  conflitos  na  Provença  do  século  XI. 
Este  autor  considera  que  as  doações  a  estabelecimentos  eclesiásticos  se  destinavam  a  propiciar  a  sal¬ 
vação  da  alma.  sendo  por  isso  disputadas  pelos  herdeiros.  O  que  estava  em  causa  naquela  época,  toda¬ 
via.  era  o  confronto  entre  a  tendência  para  a  formação  de  linhagens  e  as  tendências  centrifugas  no  seio 
do  grupo  de  parentes. 

C.  Lansing  (1991)  32:  R.  I.  Moore  (1992)  310,  316.  Veja-se  igualmente  neste  sentido:  A.  R. 
Levvis  ( 1965)  253-254;  J.-P.  Poly  et  al.  <  1980)  185-186;  Ch.  Wickham  ( 1981)  186. 

nyJ.  Wollasch  ( 1980)  14-15.  18.  23-24. 

120  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  52. 

121  É  panicularmente  interessante  o  rumo  de  análise  proposto  por  J.  C.  Holt  (1982-1983)  XXXIII 
201  e  204.  ao  demonstrar  a  existência  de  uma  forte  relação  lógica  e  jurídica  entre  a  herança  patrimo¬ 
nial  e  a  doação  perpétua. 

122  C.  B.  Bouchard  ( 1979)  54;  id.  (1987)  138.  235-236. 


198 


Forma  11  cio  dinheiro 


Só  recordando  a  necessidade  de  colocação  dos  filhos  segundos  podemos  entender 
a  formação  de  Ordens  Militares,  e  parece-me  estranho  que  a  generalidade  dos  historia¬ 
dores  se  mantenha  alheia  a  esta  perspectiva12  ’.  Ao  reconhecer  um  lugar  próprio  àquilo 
que  sem  isso  seriam  meros  bandos  itinerantes  de  filhos  segundos,  como  os  que  vimos 
(no  capítulo  6.a  da  Parte  II)  deambular  e  praticar  malfeitorias  por  ocasião  da  grande 
crise  dos  séculos  IX  e  X.  esta  modalidade  monástica  permitia-lhes  acumular  e  investir 
na  aquisição  de  terras  e  servos,  em  vez  de  se  limitarem  a  dilapidar  o  fruto  das  pilha¬ 
gens.  Além  disso,  a  formação  das  Ordens  guerreiras  orientava  contra  os  povos  vizinhos 
do  regime  senhorial  expedições  de  saque  cujo  ónus  havia  outrora  recaído  directa  ou 
indirectamente  sobre  os  senhores.  A  conversão  das  pilhagens  internas  em  saque 
externo  caracterizou  a  ultrapassagem  da  crise  e  o  reatar  do  desenvolvimento  econó¬ 
mico.  No  final  do  período,  porém,  quando  a  nova  crise  dos  séculos  XIV  e  XV  voltou  a 
encerrar  provisoriamente  a  capacidade  de  expansão  do  regime  senhorial  e  se  agudiza¬ 
ram  as  rivalidades  no  seio  da  aristocracia,  as  Ordens  Militares  foram  palco  ou  objecto 
de  graves  conflitos.  Em  vez  de  serem  capazes  de  resolver  as  contradições  no  interior  da 
classe  dominante,  servindo  de  quadro  de  coesão,  estas  congregações  deram  pretexto  a 
novas  discórdias.  Parece-me  especialmente  sugestivo  o  sucedido  em  Espanha  na  Ordem 
de  Calatrava,  ao  longo  do  século  XIV,  quando  as  repetidas  disputas  entre  mestres  e 
detentores  de  altos  cargos,  todos  eles  oriundos  da  elite  da  nobreza,  levou  à  cisão  em 
facções,  acabando  os  dissidentes  por  procurar  o  apoio  da  coroa  de  Aragão  e  lhe  aceitar 
a  supremacia,  enquanto  os  monarcas  castelhanos  se  esforçaram  também  por  sujeitar 
as  Ordens  no  seu  reino.  Por  Mm,  a  passagem  dos  cargos  de  mestre  para  o  património 
de  grandes  linhagens  e  o  controlo  exercido  pelos  soberanos  levaram  no  século  XV  ao 
declínio  da  capacidade  agregativa  das  Ordens  e  à  perda  de  vastas  terras  e  numerosos 
servos  em  benefício  de  conjuntos  senhoriais  laicos124.  Enquanto  este  período  durou, 
porém,  a  integração  dos  filhos  segundos  em  instituições  que  lhes  reconheciam  o  carác¬ 
ter  guerreiro  e  ao  mesmo  tempo  os  enquadravam  religiosamente125  confirma  a  impor¬ 
tância  da  posição  ocupada  pelos  estabelecimentos  eclesiásticos  na  estrutura  familiar  da 
aristocracia. 

2 

Apesar  de  tudo,  numerosos  historiadores  admitem  que  a  Igreja,  após  as  iniciativas 
renovadoras  empreendidas  por  alguns  grandes  centros  monásticos  e  pelo  papado,  teria 
deixado  de  contribuir  para  o  sistema  de  linhagem  agnática.  O  movimento  de  reforma. 


123  Observa  A.  Barbero  ( 1987)  207  que  são  muito  escassos  os  nossos  conhecimentos  acerca  dos 
mecanismos  de  recrutamento  das  Ordens  Militares. 

124  C.  Laliena  Corbera  1 1987)  260. 

125  A.  Barbero  1 1987)  203-205  considera  que  as  Ordens  Militares  tentaram  conjugar  os  valores 
monásticos  e  os  valores  da  cavalaria,  sem  o  conseguirem,  já  que  teria  sido  o  espírito  guerreiro  a  pre¬ 
dominar  naquelas  congregações.  Para  uma  melhor  compreensão  desta  tese.  é  necessário  saber  que  o 
autor  presume  (pp.  134  e  segs.,  144  e  segs.)  a  existência  de  uma  efectiva  oposição  entre  as  aspirações 
dos  monges  e  o  ofício  das  armas.  Ver  a  este  respeito  a  n.  1 32  deste  capítulo. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


199 


pelo  menos  nas  suas  versões  oficiais,  costuma  ser  apresentado  como  uma  afirmação  da 
independência,  quando  não  mesmo  da  supremacia,  dos  meios  eclesiásticos  perante  a 
sociedade  laica1-6. 

Todavia,  sempre  que  existem  dados  disponíveis  verifica-se  que  eram  muito  estreitas 
as  relações  entre  o  clero  reformador  e  a  aristocracia  laica,  especialmente  a  alta  aristo¬ 
cracia127,  como,  aliás  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  8,a),  havia  já  sucedido  por  ocasião  da 
Paz  e  das  Tréguas  de  Deus,  que  marcaram  uma  etapa  no  longo  processo  de  renovação 
religiosa128.  Um  dos  principais  magnates  do  seu  tempo.  Guilherme  I  o  Pio,  duque  da 
Aquitânia  e  conde  da  Auvergne  e  de  Mácon,  foi  quem  fundou,  em  910.  uma  pequena 
abadia  em  Cluny,  inaugurando  assim  o  que  veio  depois  a  ser  um  dos  mais  importantes 
centros  de  reforma l2y.  Os  primeiros  abades  eleitos  pelos  monges  de  Cluny  parece 
terem  pertencido  a  famílias  nobres  relacionadas  com  a  região130.  De  então  em  diante 
continuou  a  ser  na  aristocracia  que  se  recrutaram  os  abades,  e  os  monges  foram,  sempre 
e  sem  excepção.  oriundos  de  um  meio  pelo  menos  abastado,  quando  não  eram  efectiva- 
mente  nobres131.  Aliás,  sem  a  intervenção  de  magnates  e  soberanos  não  se  teria  propa- 


126  Referindo-se  ao  sudeste  da  Franca  no  começo  do  período,  e  em  especial  à  Provença,  G.  Duby 
(1959  b)  251-253  pretende  que  a  reforma  da  Igreja  evirou  a  sua  submissão  aos  senhores  laicos.  Tam¬ 
bém  J.-P.  Poly  ( 1976)  265  e  269-271,  no  seu  estudo  sobre  a  Provença,  admite  que  foi  o  clero  reforma¬ 
dor  a  servir-se  dos  senhores  laicos,  e  que  no  final  os  interesses  da  Igreja  prevaleceram  sobre  os  dos 
leigos.  Mas  é  ern  C.  B.  Bouchard  (1987)  43,  45,  84  e  248-249  que  encontro  o  exemplo  mais  extremo 
deste  tipo  de  teses.  Constance  Brittain  Bouchard  considera  que  o  facto  de  os  chefes  da  Igreja,  nomea¬ 
damente  aqueles  que  animaram  o  movimento  reformador,  e  os  chefes  da  sociedade  laica  terem  a 
mesma  proveniência  social  não  implicava  que  prosseguissem  os  mesmos  objectivos.  E  assim,  de  uma 
só  penada,  esta  autora  demiba  uma  parte  considerável  dos  instrumentos  historiográficos,  pois  o  indi¬ 
cador  documental  mais  sólido  dos  objectivos  defendidos  por  qualquer  conjunto  de  pessoas  consiste 
precisamente  na  elucidação  da  origem  dos  seus  membros  e  da  teia  de  relações  em  que  eles  se  inserem. 
Só  depois  de  estabelecida  esta  base  é  que  as  expressões  e  representações  ideológicas  podem  ser  devi¬ 
damente  perspectivadas.  O  postulado  de  Constance  Bouchard  permite-lhe.  todavia,  sustentar  os  seus 
preconceitos  apesar  da  massa  dc  provas  em  sentido  contrário  que  vai  acumulando  ao  longo  do  livro. 
Afinal,  depois  de  ter  mostrado  de  maneira  exaustiva  que  não  existia  qualquer  distinção  social  entre  os 
reformadores  eclesiásticos  e  os  grandes  senhores  laicos,  a  autora  mantém  imperturbavelmente  a  afir¬ 
mação  de  que  eram  diferentes,  por  vezes  mesmo  opostos,  os  anseios  de  uns  e  de  outros.  Jamais  encon¬ 
trei  uma  obra  que  provasse  a  tal  ponto  o  contrário  do  que  a  autora  deseja,  e  se  isto  é  uma  homenagem 
à  sua  probidade  científica,  já  a  sua  perspicácia  enquanto  historiadora  é  muito  menos  evidente. 

127  Em  geral,  ver:  E.  Amann  et  al.  (1948)  342;  C.  B.  Bouchard  (1987)  23.  46.  78,  123-124;  Ch. 
Brooke  ( 1964)  241 ;  J.  Wollasch  (1980)  6-7. 

De  acordo  com  C.  B.  Bouchard  (1987)  25,  foi  Aloys  Schulte  quem,  em  1910.  demonstrou  pela 
primeira  vez  a  interdependência  entre  a  Igreja  e  a  nobreza  laica  na  região  do  Reno,  indicando  as  rela¬ 
ções  familiares  entre  os  dirigentes  religiosos  e  os  principais  magnates.  A  propósito  da  Borgonha, 
aquela  historiadora  escreve  (p.  113)  que  frequentemente  bispos  nomeados  pelos  seus  parentes,  ou 
acusados  de  simonia.  apoiavam  o  movimento  de  reforma  monástica. 

128  Quanto  à  relação  entre  a  Paz  e  as  Tréguas  de  Deus  e  o  movimento  de  reforma  eclesiástica  ver; 
H.  E.  J.  Cowdrey  ( 1970)  54-55;  H.  Enjalbert  (org.  1979)  90:  L.  C.  MacKinney  (1930)  199  n.  6;  J.-P. 
Poly  et  al.  (1980)  242,  254,  259-260. 

,2V  Acerca  da  fundação  da  abadia  de  Cluny  por  Guilherme  l  de  Auvergne  ver:  E.  Amann  et  al. 
(1948)  320;  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  91:  Ch.  Brooke  ( 1964)  241;  G.  Constable  (1991)  403,  404,  406. 

1,0  G.  Constable  ( 1991 )  407  n.  49.  Ver  num  sentido  convergente:  Ch.  Brooke  (1964)  247. 

131  C.  B.  Bouchard  (1987)  25:  G.  Devailly  (1973)  274;  M.  Peaudecerf  ( 1974)  226;  B.  W.  Rosen- 


200 


Forma  II  do  dinheiro 


gado  a  influência  da  Ordem,  pois  os  seus  membros  eram  convidados  a  converter-se  em 
abades  de  outros  mosteiros,  novos  ou  reformados132,  e  neste  caso  empregavam  frequen¬ 
temente  medidas  violentas  para  obrigar  os  monges  a  aceitarem-lhes  a  autoridade133. 
Também  outros  focos  de  reforma,  que  não  conseguiram  atingir  a  dimensão  alcançada 
por  Cluny,  contaram  com  a  participação  activa  da  elite  da  aristocracia134.  E  um  príncipe 
tão  poderoso  como  Guilherme  o  Bastardo,  duque  da  Normandia  e  depois  rei  da  Ingla¬ 
terra,  manifestou-se  sempre  favorável  à  remodelação  da  vida  religiosa  patrocinada  pelo 
papado135.  Mais  tarde,  desde  os  derradeiros  anos  do  século  XI  e  ao  longo  do  século 
XII,  a  acção  renovadora  prosseguida  a  partir  do  mosteiro  de  Cister  seria  inexplicável  se 
não  recordássemos  os  estreitos  elos  que  uniram  sempre  esta  Ordem  a  todos  os  estratos 
da  classe  dominante  na  Borgonha.  Tanto  quanto  podemos  conhecer-lhes  a  origem 
social,  os  abades  da  Ordem  de  Cister  provinham  das  camadas  inferiores  da  aristocra¬ 
cia136.  mas  assim  como  os  pequenos  senhores  participaram  activamente  na  criação  dos 


wein  et  al.  (1974)  12-13:  C.  Violante  em  Centro  Italiano  di  Studi  suH’Alto  Medioevo  (1991')  447-448; 
J.  Wollasch  ( 1980)  7  e  segs. 

C.  B.  Bouchard  (1987)  77  esclarece  que  os  abades  de  Cluny  eram  geralmente  filhos  de  castelãos 
ou  de  cavaleiros  e  que,  do  mesmo  modo,  os  abades  dos  restantes  conventos  reformados  provinham 
das  camadas  média  e  inferior  da  nobreza.  Leio  em  M,  Defourneaux  <  1949)  19  e  segs.  o  caso  de  um 
conde  de  Cerdagne,  filho  do  introdutor  da  Ordem  de  Cluny  na  Catalunha,  que  no  começo  do  século 
XI  se  tomou  abade  de  estabelecimentos  importantes,  e  mais  tarde  (p.  56)  uma  das  filhas  de  Afonso 
VIII  de  Castela  foi  a  segunda  abadessa  do  mosteiro  cluniacense  de  Las  Huelgas.  Todavia,  J.  Wollasch 
em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientifique  (1968)  599  considera  que  é  desconhecida  a  origem 
familiar  dos  abades  e  monges  dos  mosteiros  da  Aquitânia  integrados  na  Ordem  de  Cluny. 

1,2  E.  Amann  et  al.  (1948)  308.  321  e  segs.;  C.  B.  Bouchard  (1987)  91.  96-97,  lOÓ-IOl:  H.  E.  J. 
Cowdrey  (1965)  161;  M.  Crubellier  íorg.  1975)  123;  M.  Defourneaux  (1949)  16.  19  e  segs.,  56:  G. 
Devailly  ( 1973)  154;  J.  Orlandis  ( 1956)  28-29;  B.  W.  Rosenwein  et  al.  ( 1974)  13. 

Johannes  Fechter  e  Gerd  Teilenbaeh  demonstraram  que  Cluny  se  expandiu  graças  ao  empenho  da 
nobreza  da  Borgonha.  segundo  informa  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  25.  Os  monarcas  cristãos  da  Espanha 
contaram-se  entre  os  patrocinadores  desta  Ordem,  e  leio  em  M.  Defourneaux  (1949)  22  que  se  deveu 
a  Cluny  o  casamento  de  Afonso  VI  de  Leão  e  Castela  com  a  filha  do  duque  da  Borgonha,  a  qual  era 
também  sobrinha  do  abade  de  Cluny,  tecendo-se  depois  outras  relações  matrimoniais  entre  os  descen¬ 
dentes  destas  duas  famílias.  No  condado  portucalense  e  durante  as  primeiras  décadas  de  existência  do 
novo  reino,  consoante  as  indicações  de  J.  Matioso  [1994  b]  185.  a  maioria  dos  mosteiros  protegidos 
pela  nobreza  ligada  à  corte  inseriu-se  na  Ordem  de  Cluny.  enquanto  os  estabelecimentos  monásticos 
que  gozavam  da  protecção  de  nobres  de  categoria  inferior,  sobretudo  nas  regiões  do  sul  do  Douro  e  de 
Coimbra,  conservaram  durante  mais  tempo  as  regras  hispânicas,  ou  adoptaram  a  de  Santo  Agostinho 
ou  o  uso  dos  cônegos  de  Santa  Cruz  de  Coimbra.  Ver  ainda  neste  capítulo  a  n.  212  e  acessoriamente  a 
n.  140. 

B.  W.  Rosenwein  et  al.  ( 1974)  13  defendem  que  a  Ordem  de  Cluny  desenvolveu  uma  liturgia  beli¬ 
cosa,  destinada  a  simbolizar  ritualmente  a  violência,  de  maneira  que  os  monges  se  apresentavam 
como  cavaleiros  espirituais.  Esta  tese  depara,  todavia,  com  a  discordância  de  A.  Barbero  ( 1987)  134  e 
segs.  e  144  e  segs..  que  afirma  a  existência  de  uma  efectiva  oposição  entre  o  ideal  monástico  e  o  ofí¬ 
cio  das  armas. 

133  E.  .Amann  et  al.  (1948)  308. 

1,4  Id..  ibid.,  332  e  segs. 

135  M.  Bouard  (org.  1970)  178. 

136  C.  B.  Bouchard  (1987)  78. 

Esta  autora  nega  (pp.  237-238).  porém,  que  Bernardo  de  Claraval,  o  célebre  São  Bernardo,  fosse 
parente  dos  senhores  de  La  Ferté-sur-Aube  e  de  Châtillon 


Estruturas  familiares  ela  , lasse  senhorial 


201 


novos  mosteiros137,  também  o  fizeram  os  maiores  príncipes  da  região 13N,  bem  como  de 
outros  lugares  do  reino13",  além  da  alta  nobreza  de  além-fronteiras140.  E,  pelo  menos 
na  Germânia.  os  dirigentes  das  Ordens  Mendicantes  haviam  nascido  nos  estratos  mais 
baixos  da  classe  senhorial141. 

Sempre  que  surgiram  senhores  poderosos  a  erguer  obstáculos  às  reformas,  outros 
sectores  da  classe  dominante  fomentaram-nas  activamente,  no  seu  interesse  próprio.  Se 
um  centro  monástico  ou  episcopal  se  mostrava  capaz  de  manter  a  sua  independência, 
cumpre  ao  historiador  averiguar  perante  que  esfera  de  poder  tal  independência  era  asse¬ 
gurada.  Trata-se  de  um  princípio  metodológico  fundamental.  Uma  abadia  ou  uma  sé 
catedral  só  conseguiam  resistir  às  pressões  dos  grandes  senhores  vizinhos  se  houvesse 
mais  acima  um  monarca  a  aproveitar-se  destas  disputas  para,  graças  ao  controlo  dos 
patrimónios  religiosos,  penetrar  no  território  dos  rivais.  Ou,  inversamente,  quando  a 
autonomia  eclesiástica  se  afirmava  perante  a  coroa,  isto  revelava  o  reforço  da  posição 
dos  príncipes  e  dos  magnates  regionais.  Esta  dualidade  de  situações  explica  as  caracte¬ 
rísticas  que  desde  o  final  do  século  X  separaram  o  movimento  de  reforma  prosseguido 
no  reino  de  França  daquele  que  ocorreu  no  império  germânico142,  levando  a  confrontos 
sérios  entre  as  duas  correntes.  A  partir  do  mosteiro  de  Gorze.  fundado  na  passagem  do 
primeiro  para  o  segundo  terço  do  século  X  na  Alta  Lorena,  emanaram  para  o  império 
princípios  novos  de  organização  eclesiástica,  enquanto  a  abadia  de  Cluny,  no  sul  do 
ducado  da  Borgonha,  irradiava  as  suas  propostas  reformadoras  para  o  reino  de  França, 
nomeadamente  nas  suas  regiões  meridionais,  e  também  para  a  Espanha  cristã,  onde  se 
fazia  sentir  a  influência  religiosa  francesa143.  Na  mesma  época  apareceram  outros  cen¬ 
tros  menores144,  mas  sem  que  nenhum  conseguisse  aproximar-se  da  importância 
daqueles  dois,  e  muito  menos  superá-la.  Só  mais  tarde,  no  século  XII,  se  desenvolveu 
uma  Ordem  nova.  que  a  partir  de  Cister  e  de  Claraval  excedeu  o  prestígio  das  suas  pre¬ 
decessoras143. 

Na  Germânia,  a  dinastia  que  inaugurou  este  período,  ocupando  o  trono  desde  o  final 
da  segunda  década  do  século  X  até  ao  termo  do  primeiro  quartel  do  século  seguinte, 
concentrava  praticamente  todo  o  seu  conjunto  senhorial  na  Saxónia  e  na  Francónia. 


117  ld.,  ibid.,  117-118,  122,  131-133. 

I3H  id..  ibid.,  118,  123,  132-133. 

134  Relalivamente  ao  sucedido  no  Berry  ver  G.  Devailly  f  1973)  282  e  segs. 

1411  No  início  da  existência  do  reino  de  Portugal,  afirma  J.  Mattoso  [  1994  b]  185,  os  conventos  de 
Cister  ligaram-se  prefercncialmente  à  alta  aristocracia  e,  sobretudo  na  Beira,  à  cavalaria  popular  dos 
concelhos. 

141  B.  W.  Rosenwein  et  al.  1 1974)  28. 

147  Ch.  Brooke  (1964)  247  estabelece  a  relação  entre  o  grau  de  fraccionamento  ou  de  centraliza¬ 
ção  da  soberania  e  o  tipo  de  reforma  eclesiástica  prosseguido. 

143  Acerca  da  oposição  entre  Cluny  e  Gorze  consultar  id.,  ibid.,  241  e  segs.  e  J.-P.  Poly  et  al. 
(1980)  252  e  segs..  273.  Christopher  Brooke  em  op.  a t .  247  chega  mesmo  a  escrever  que  a  fronteira 
entre  a  França  e  a  Germânia  correspondia  à  linha  de  demarcação  entre  as  áreas  de  influência  de  Cluny 
e  de  Gorze. 

144  E.  Amann  et  al.  (1948)  329  e  segs.:  Ch.  Brooke  < 1964)  241:  G.  Constable  ( 1991)  393,  418;  J  - 
-P.  Poly  et  al.  ( 1980)  252-253. 

145  C.  B.  Bouchard  ( 1987 )  120 


202 


Forma  U  do  dinheiro 


Fara  administrarem  a  generalidade  do  reino,  em  especial  os  ducados  meridionais,  esses 
imperadores  recorreram  desde  o  segundo  terço  do  século  X  ao  aparelho  da  Igreja,  que 
se  tomou  o  principal  instrumento  de  governo.  Prosseguindo  uma  política  sistemática  de 
recrutamento  para  os  altos  cargos  eclesiásticos,  a  monarquia  conseguiu  firmar-se  não  só 
no  interior  das  áreas  tradicionalmente  controladas  pelos  grandes  magnates  regionais, 
mas  também  nos  novos  territórios  conquistados  a  leste146.  Nomeadamente,  o  imperador 
que  cingiu  a  coroa  ao  longo  de  quase  todo  o  primeiro  quartel  do  século  XI  apropriou-se 
de  muitos  bens  pertencentes  a  abadias  para  beneficiar  com  eles  os  bispados147.  Ora, 
enquanto  os  mosteiros  recrutavam  os  noviços  entre  as  nobrezas  regionais14*  e  podiam 
por  isso  ser  usados  por  elas  como  elemento  de  uma  política  anticentralizadora,  a  maior 
parte  das  sés.  durante  a  vigência  da  dinastia  saxónia,  era  ocupada  por  membros  da 
família  imperial  e  sobretudo  por  antigos  clérigos  da  capela  real  e  da  chancelaria,  estri¬ 
tamente  dependentes  dos  favores  do  monarca149.  Do  mesmo  modo,  na  Itália  centro- 
-setentrional  foi  geralmente  nos  bispos,  os  principais  senhores  das  cidades,  que  o  impé¬ 
rio  se  apoiou  no  século  XI150.  Para  preservarem  esta  organização  da  hierarquia  reli¬ 
giosa.  os  monarcas  da  dinastia  saxónia  não  autorizaram  a  difusão  das  iniciativas  de 
Cluny151  e  promoveram  as  medidas  reformadoras  propostas  pelo  mosteiro  de  Gorze, 
que  reconheciam  aos  soberanos  e  aos  bispos  o  direito  de  participarem  na  nomeação  dos 
abades15-.  Em  cerca  de  dois  séculos,  Gorze  foi  directa  e  indirectamente  responsável 
pela  reforma  de  mais  de  centena  e  meia  de  conventos,  que  na  sua  esmagadora  maioria 
estavam  subordinados  ao  rei  ou  a  um  bispo16  '. 

Não  espanta,  assim,  que  no  império  germânico  as  disputas  em  tomo  do  movimento 
de  reforma  eclesiástica,  em  especial  das  relações  dos  conventos  com  as  hierarquias  lai¬ 
cas  e  ao  mesmo  tempo  com  as  sés  catedrais,  dessem  aos  príncipes  uma  oportunidade 
para  afirmarem  a  sua  autonomia  e  enfraquecerem  a  coroa.  A  base  material  da  contro¬ 
vérsia  havia  entretanto  mudado  substancialmente.  Quando  morreu  o  primeiro  dos 


146  Acerca  do  sistema  de  Igreja  imperial  estabelecido  por  Otão  I  e  pelos  seus  sucessores  ver:  G. 
Barraclough  (1961)  I  63-64,68-69:  id.  (1972)  31-35.  37,  40-41;  id.  (1976)  117;  K.  Bosl  (1979)  292; 
Ch.  Brooke  (1964)  248;  i.  Fleckensteín  (1978)  122  e  segs..  139;  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  8-9;  E. 
Perroy  et  al.  (1955)  151;  K.  Schmid  <  1 979 »  55.  G.  Barraclough  ( 1976)  1 17  ilustra  a  situação  ao  narrar 
que,  das  forças  militares  reunidas  por  Otão  II  para  a  sua  campanha  italiana.  74%  vieram  dos  territó¬ 
rios  dos  bispados  e  abadias  e  só  26%  foram  fornecidos  pelos  magnates  laicos. 

147  Ch.  E.  Perrin  ( 1957- 1959)  18. 

,4S  K.  Leyser  ( 1970)  133-134. 

149  Quanto  ao  recrutamento  dos  bispos  no  império  germânico  durante  a  dinastia  saxónia  ver:  Ch. 
Brooke  (1964)  248;  L.  Genicot  (1975)  143-150;  C.  Manaresi  (1944)  278:  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959) 
8-9.  18.  261.  273. 

150  G.  Barraclough  ( 1972)  148;  Ch.  Brooke  ( 1964)  290;  J.  K.  Hyde  (1973)  44;  C.  Manaresi  ( 1944) 
223-226.  275-278.  282,  285,  324-328. 

151  E.  Amann  et  al.  ( 1948)  326,  335. 

152  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  252-253. 

Mesmo  na  segunda  metade  do  século  XI.  afirmam  estes  autores  (pp.  259-2601.  quando  as  práticas 
defendidas  por  Cluny  pareciam  triunfar  na  região  renana  e  nas  duas  Lorenas.  até  aí  sujeitas  à  influên¬ 
cia  de  Gorze,  a  vitória  da  Ordem  borgonhesa  foi  só  aparente,  já  que  a  autoridade  dos  bispos  se  conso¬ 
lidou  em  detrimento  da  dos  abades. 

15  ’  Ch.  Brooke  (1964)  245. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


203 


monarcas  da  dinastia  saxónia,  no  finai  do  terceiro  quartel  do  século  X.  havia  na  Germâ- 
nia  pouco  mais  de  cem  mosteiros,  estando  provavelmente  sem  excepção  sujeitos  à  auto¬ 
ridade  imperial;  um  século  mais  tarde  o  número  de  mosteiros  era  superior  a  setecentos, 
e  as  novas  fundações,  ocorridas  quase  todas  a  partir  dos  meados  do  século  XI,  deve- 
ram-se  à  aristocracia  regional,  que  se  esforçou  por  mantê-las  sob  o  seu  controlo  directo, 
fora  do  âmbito  da  coroa,  consoante  os  princípios  reformadores  inspirados  por  alguns 
papas154.  Os  novos  mosteiros  foram  concedidos  ao  papado,  mas  como  Roma  estava 
distante  e  não  tinha  qualquer  capacidade  de  exercer  tais  prerrogativas,  o  único  objectivo 
desta  medida  era  evitar  a  intervenção  directa  do  imperador,  deixando  a  hegemonia  de 
facto  à  elite  de  cada  território1 5j.  Desde  aquele  meado  de  século  até  ao  Fim  do  primeiro 
quartel  do  século  seguinte  a  grande  nobreza  regional  aproveitou  as  pretensões  de  inde¬ 
pendência  dos  pontífices  romanos156  para  consolidar  o  ascendente  exercido  sobre  os 
seus  estabelecimentos  monásticos  e  também  para  minar  a  autoridade  do  monarca  sobre 
as  sés,  comprometendo  assim  o  funcionamento  administrativo  do  império  e  favore¬ 
cendo  a  descentralização  e  o  fraccionamento  do  poder.  Com  as  abadias  nas  mãos  da 
aristocracia  regional  e  com  os  bispos  e  arcebispos  nomeados  não  entre  funcionários 
palatinos,  mas  entre  os  clérigos  ligados  aos  magnates  de  cada  território,  o  êxito  dos 
príncipes  foi  incontroverso157,  a  tal  ponto  que  diversas  dioceses  se  converteram  em 
principados,  sob  a  égide  de  prelados  soberanos158.  Tal  como  se  desenvolveu  na  Germâ- 
nia,  a  reforma  da  Igreja  permitiu,  afinal,  que  todos  os  níveis  da  aristocracia  regional 
reforçassem  progressivamente  as  suas  posições15'4.  Os  magnates  puderam  também,  ao 
mesmo  tempo,  usar  o  ascendente  sobre  um  ou  outro  estabelecimento  religioso  para  ten¬ 
tarem  penetrar  com  o  seu  bannum  em  territórios  vizinhos,  pelo  que  a  fragmentação  da 


154  G.  Barradough  ( 1972)  88-89.  Consultar  igualmente  Ch.  Brooke  ( 1964)  290. 

155  G.  Barradough  ( 1972)  89;  Ch.  Brooke  1 1964)  290;  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  321 . 

156  O  alsadano  Bruno,  papa  Leão  IX  de  1049  a  1054,  o  primeiro  dos  pontífices  romanos  a  preten¬ 
der  liderar  sistematicamente  o  movimento  de  reforma  da  Igreja,  era  muito  ligado  à  grande  nobreza  da 
Germânia  meridional.  Ver  a  este  respeito  G.  Barradough  ( 1972)  89.  Foi  sob  a  protecção  de  Leão  IX 
que  Hildebrando,  o  futuro  Gregóno  VII,  começou  a  notabilizar-se  no  movimento  reformador.  Acerca 
da  maneira  como  os  príncipes  germânicos  usaram  as  pretensões  do  papado  ver  também  Ch.  Brooke 
(1964)  279  e  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  233,  316  e  segs. 

157  Acerca  dos  moldes  em  que  se  processou  a  reforma  religiosa  na  Germânia  e  dos  benefícios 
políticos  que  ela  proporcionou  à  grande  aristocracia  regional  ver:  G.  Barradough  (1972)  88-90,  106, 
111.  113-114.  132,  135,  146-147;  Ch.  Brooke  (1964)  279,  290:  H.  Olland-Schneider  1 1990)  47-49;  M. 
Parisse  (org.  1977)  139-144;  Ch.  E.  Perrin  í  1957-1959)  61, 233.  316  e  segs.,  321  e  segs.,  339  e  segs. 

H.  Olland-Schneider  i  1990)  49  observa  que  a  concordata  de  Worms,  que  em  1122  pôs  termo  ao 
conflito  entre  o  império  e  o  papado,  podia  ser  interpretada  como  dizendo  respeito  apenas  aos  bispa¬ 
dos.  que  eram  todos  eles  reais,  e  às  abadias  reais.  Note-se  que  durante  as  dinastias  saxónia  e  sália, 
desde  o  final  da  segunda  década  do  século  X  até  ao  termo  do  primeiro  quartel  do  século  XII,  os  mem¬ 
bros  dos  capítulos  das  catedrais  eram  de  origem  nobre,  como  afirma  K.  Leyser  (1970)  133-134,  pelo 
que  o  facto  de  os  reformadores  defenderem  a  eleição  dos  bispos  e  arcebispos  entre  os  cónegos  impli¬ 
cava  obrigatoriamente  a  supremacia  da  aristocracia  regional  sobre  as  dioceses. 

158  Ph.  Dollinger  ( 1949)  34.  37 

159  Na  arquidiocese  de  Salzburgo,  por  exemplo,  a  crer  em  J.  B.  Freed  <  1995)  31  e  39.  as  disputas  a 
respeito  da  investidura  dos  bispos,  que  ocorreram  no  último  quartel  do  século  XI  e  no  primeiro  quar¬ 
tel  do  século  seguinte  no  contexto  da  reforma  eclesiástica,  foram  muito  favoráveis  à  ascensão  dos 
ministeriales. 


204 


Forma  II  iJo  dinheiro 


autoridade  eclesiástica,  se  serviu  para  consolidar  esferas  de  hegemonia,  levou  igual¬ 
mente  à  agudização  das  rivalidades160.  Sem  dúvida  que  na  Gennânia  as  práticas  refor¬ 
madoras  puseram  termo  à  Igreja  imperial,  não  para  implantarem  a  teocracia  com  que 
sonhava  um  papa  nefelibata,  mas  apenas  para  patrocinarem,  antes  de  mais,  o  ascen¬ 
dente  que  príncipes  e  grandes  aristocratas  passaram  a  exercer  sobre  o  aparelho  eclesiás¬ 
tico  dos  seus  territórios.  Em  vez  de  romperem  os  elos  que  ligavam  os  estabelecimentos 
religiosos  às  famílias  senhoriais,  as  reformas  remodelaram-nos.  consoante  as  necessi¬ 
dades  decorrentes  da  senhoria  impessoal.  E  este  processo  não  se  circunscreveu  às 
regiões  de  habitat  tradicional.  A  fundação  de  mosteiros,  bem  como  as  funções  protecto- 
ras  que  podiam  exercer  sobre  eles.  serviram  aos  magnates  para  orientarem  superior¬ 
mente  os  processos  de  desbravamento  e  de  povoamento,  alargando  a  área  do  seu  ban- 
num  e  dando-lhe  uma  coerência  superior161.  Um  exemplo  significativo,  nos  territórios 
abertos  pelas  migrações  germânicas  para  leste,  foi  a  acção  reformadora  de  Cister, 
desencadeada  no  começo  do  segundo  terço  do  século  XII  por  iniciativa  da  mais  alta 
nobreza  da  fronteira162. 

Em  França,  onde  a  desagregação  da  soberania  atingira  um  grau  muito  elevado,  o 
desequilíbrio  entre  o  monarca  e  as  aristocracias  regionais  foi,  no  início,  oposto  ao  que 
se  verificava  então  na  Germânia,  explicando-se  assim  a  evolução  diferente  do  movi¬ 
mento  de  reforma  em  ambos  os  reinos.  Uma  grande  parte  das  sés  e  das  abadias  france¬ 
sas  ficou  no  começo  do  período  sob  a  alçada  dos  príncipes163  e.  salvo  uma  excepção 
única,  foi  esta  a  situação  de  todos  os  bispados  na  Aquitânia,  na  Gasconha  e  na  região 
de  Toulouse164.  O  mesmo  ocorreu  no  resto  do  reino166.  Na  Normandia  dos  séculos  XI  e 
XII,  por  exemplo,  os  duques  controlavam  de  muito  perto  os  bispados,  e  tanto  eles  como 
as  outras  famílias  aristocráticas  mais  poderosas  reservavam-nos  para  os  seus  parentes, 
assim  como  exerciam  a  supremacia  sobre  os  mosteiros.  Até  o  mais  utópico  dos  papas 
reformadores  deu  o  seu  aval  a  este  estado  de  coisas,  não  promulgando  na  Normandia 
aquele  mesmo  decreto  que.  aplicado  na  Gennânia,  limitara  drasticamente  a  autoridade 
dos  imperadores  sobre  os  bispos,  o  que  nos  permite  concluir,  urna  vez  mais.  que  a  reor¬ 
ganização  do  aparelho  eclesiástico  efectuada  nesta  época  se  destinou  a  reforçar  as  sobe¬ 
ranias  regionais  em  detrimento  do  poder  central.  No  caso  da  Normandia,  onde.  como 
sabemos  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  6.c),  o  duque  conseguiu  impor  decisivamente  a  sua 
hegemonia  sobre  os  restantes  senhores,  não  houve,  porém,  oportunidade  para  que  a 


k’°  Ver  por  exemplo  H.  Olland-Schneider  (1990)  50  e  segv 

161  G.  Barraclough  (1972)  89.  146. 

102  Ch.  Higounet  (1989)  79  relata  que  etn  1 135  o  bispo  de  Freismg  incitou  seu  pai.  margrave  da 
Áustria,  a  fundar  uma  abadia  na  floresta  vienense  com  monges  vindos  directamente  de  Morimond. 
que  pertencia  à  Ordem  de  Cister.  E  a  maior  parte  das  abadias  cistercienxes  nos  territórios  de  leste  foi. 
por  sua  vez,  criada  graças  a  Morimond. 

I6-5  G.  Barraclough  ( 1976)  1 17. 

164  J.  Dhondt  (1948  b)  53. 

165  Na  época  dos  primeiros  Capetos.  esclarece  J.-F.  Lemarignier  (1965)  53-55.  um  grande  número 
de  prelados  provinha  da  aristocracia  condal.  e  os  bispos  que  estavam  politicamente  próximos  da  coroa 
tinham  frequentemente  laços  familiares  com  os  condes.  J.  Boussard  (1976)  64.  136  e  139  traça  o 
mesmo  retrato  da  situação.  Isto  revela  que.  no  começo  do  período,  até  onde  contavam  com  apoios  os 
monarcas  franceses  tinham  de  recorrer  às  elites  regionais. 


Estruturai  familiares  da  (lasse  senhorial 


2U5 


fragmentação  da  autoridade  religiosa  prosseguisse  o  seu  movimento  centrífugo166. 
Noutras  regiões  do  reino  a  reforma  eclesiástica  serviu  de  pretexto  para  um  maior  frac- 
cionamento  da  soberania,  e  em  todos  os  casos  constituiu  um  dos  factores  da  debilidade 
da  coroa  e  da  autonomia  de  príncipes  e  magnates167. 

Foi  sobretudo  o  desenvolvimento  da  Ordem  de  Cluny  que  proporcionou  a  crescente 
dispersão  das  iniciativas  religiosas  e  revelou  o  ascendente  detido  em  França  pela  elite 
regional.  O  filho  do  fundador  da  abadia  de  Cluny.  Guilherme  II.  conde  da  Auvergne, 
esforçou-se.  e  com  êxito,  por  continuar  a  política  paterna  de  afirmação  da  autonomia 
do  seu  principado,  tendo  talvez  sido  ele  o  primeiro  conde  a  inaugurar  uma  cunhagem 
de  tipo  novo  e  o  primeiro  também  a  fazer  gravar  o  seu  nome  nas  peças,  em  vez  do 
nome  do  reil6f\  As  relações  mantidas  com  Cluny  representaram  um  dos  elementos 
desta  estratégia.  Desde  a  sua  fundação,  no  final  da  primeira  década  do  século  X.  que  o 
mosteiro  fora  entregue  a  São  Pedro  e  São  Paulo,  na  pessoa  do  seu  vigário  terrestre,  o 
papa16‘*.  e  algumas  das  abadias  que  de  então  em  diante  seguiram  a  Ordem  de  Cluny 
foram  igualmente  concedidas  ao  papado170,  o  que  constituía  uma  maneira  de  as  imuni¬ 
zar  das  interferências  da  coroa,  estando  o  pontífice  romano,  por  seu  turno,  demasiado 
distante  e  desprovido  de  poder  temporal  para  ter  quaisquer  veleidades  de  intervenção 
efectiva.  As  condições  jurídicas  que  acompanhavam  estas  doações  implicavam,  da 
parte  dos  monges,  o  pagamento  regular  de  um  pequeno  montante  fixo,  de  carácter 
meramente  simbólico,  destinado  a  proclamar  a  superioridade  do  papa  sobre  aquele 
estabelecimento.  Em  troca,  a  abadia  obtinha  a  mesma  imunidade  que  abarcava  o  terri¬ 
tório  papal,  ficando  portanto  isenta  da  intervenção  de  qualquer  dignitário  eclesiástico 
ou  magnate  laico,  incluindo  o  rei  e  o  próprio  papa;  ao  mesmo  tempo  o  sumo  pontífice 
comprometia-se  a  não  alienar  as  senhorias  da  abadia,  nem  dispor  delas,  nem  se  apode¬ 
rar  dos  seus  rendimentos171.  Já  no  século  VIII  se  conhece  em  Itália  o  exemplo  de  um 
mosteiro  entregue  a  São  Pedro  e  ao  papado,  e  tais  doações  difundiram-se  no  século 
seguinte  a  norte  dos  Alpes177.  A  razão  de  ser  de  uma  prática  deste  tipo  esclarece-se 
quando  sabemos  que  ela  serviu  então  a  condes  rebeldes  para  retirarem  o  seu  património 
da  alçada  do  monarca,  ou  a  uma  rainha  desavinda  para  defender  os  bens  contra  a  cobiça 
do  marido173.  Este  objectivo  era  tanto  mais  claro  quanto  as  cartas  de  imunidade  que  os 
reis  começaram  a  distribuir  a  partir  do  século  X  os  excluíam  a  eles  mesmos  de  qualquer 
intromissão  no  território  privilegiado,  enquanto  na  época  carolíngia  a  imunidade  fora 


IMl  Acerca  da  reforma  eclesiástica  na  Normandia  consultar  M.  Bouard  (org.  1 070 1  176-181.  Ver 
ainda  id.  (19551  9  Quanto  ao  recrutamento  social  dos  bispos  normandos  antes  de  1066  ver  J.  Le 
Patourel  i 1969)  42 1 

l<>7  Para  o  sucedido  na  Champagne  ver  M.  Crubellier  (org.  1975)  123.  Quanto  à  Borgonha  consul¬ 
tar,  em  geral.  O.  Barraclough  ( 1972)  147 

lo»  Ver  a  n.  235  do  capítulo  28  da  Parte  I.  Convém  salientar  que  uni  dos  especialistas  menciona¬ 
dos  naquela  nota  admite  que  essa  emissão  se  tivesse  devido  a  Guilherme  I,  o  próprio  fundador  da  aba¬ 
dia  de  Cluny. 

u,v  E.  Amann  et  al.  (1048)  320.  345;  J.-P.  Poly  et  al.  1 1980)  252-253. 

1 7,1  E.  Amann  et  al.  ( 1948)  346.  348.  349 

171  ld„  ibid.,  346-348;  Ch.  Brooke  1 1964)  246:  G.  Constable  <  1991)  403.  417. 

1  7  E.  Amann  et  al  ( 1948)  343;  G.  Constable  ( 1991  i  417. 

175  F..  Amann  et  al.  1 1948)  343-345 


206 


Forma  II  do  dinheiro 


usada  pela  coroa  com  fins  opostos,  para  restringir  a  acção  dos  agentes  dos  condes  e 
facilitar  a  dos  seus  próprios  representantes174.  Nos  casos  em  que  não  eram  concedidos 
ao  papa,  os  mosteiros  da  Ordem  de  Cluny  obtinham  que  o  príncipe  ou  o  magnate  vizi¬ 
nhos  renunciassem  a  apoderar-se  do  património  da  congregação  e  a  exercer  as  funções 
de  abade175,  o  qual  devia  sempre  ser  eleito  pelos  monges  e  escolhido  entre  eles176.  Os 
princípios  instituídos  por  Cluny,  e  postos  em  prática  sobretudo  pelos  dois  abades  que 
governaram  sucessivamente  a  Ordem  durante  o  século  XI177,  correspondiam  às  novas 
necessidades  decorrentes  de  uma  situação  em  que  as  congregações  religiosas  haviam 
deixado  de  pertencer  a  uma  única  família  senhorial,  mesmo  sendo  a  do  fundador,  e 
tinham  passado  a  estar  controladas  colectivamente  pela  aristocracia  dos  arredores.  Esta 
vertente  da  reforma  religiosa  consolidava  a  coesão  da  classe  senhorial  em  cada  territó¬ 
rio,  ao  mesmo  tempo  que  lhe  consagrava  a  autonomia  e  cerceava  a  acção  da  coroa178. 
Neste  sentido,  a  Ordem  de  Cluny  defendia  também  que  os  bispos  deviam  ser  designa¬ 
dos  entre  os  seus  monges179,  o  que  permitiria  às  famílias  da  aristocracia  regional,  cujos 
filhos  segundos  povoavam  os  conventos,  dominarem  igualmente  as  sés  catedrais  e  evi¬ 
tarem  que  clérigos  ligados  ao  palácio  real  se  tomassem  bispos.  Ignoro  o  destino  que 
veio  a  ter  uma  tal  pretensão,  mas  é  esclarecedor  que  no  ducado  da  Borgonha,  precisa- 
mente  onde  se  localizava  a  abadia-mãe  de  Cluny,  o  movimento  de  reforma  levasse  os 
bispos  a  converterem-se  em  verdadeiros  príncipes180. 

A  coesão  da  aristocracia  regional,  que  justificou  o  crescimento  da  Ordem  de  Cluny, 
atingiu  uma  expressão  ainda  mais  flagrante  na  Ordem  de  Cister.  O  primeiro  abade  de 


174  Ver  no  capítulo  10  da  Parte  II  as  nn.  20  a  22  Entretanto,  na  Germânia.  os  imperadores  da 
dinastia  saxónia  recorriam  à  forma  tradicional  de  imunidade  para  penetrar  nos  territórios  de  duques  e 
condes.  Veja-se  a  este  respeito  G.  Barraclough  (1972)  33-34. 

175  E.  Amann  et  al.  ( 1948)  349.  352-353. 

176  Id„  ibid.,  349;  G.  Constable  ( 1 99 1  >  407. 

Ch.  Brooke  (1964)  247  observa  que,  embora  teoricamente  os  abades  devessem  ser  eleitos  pela 
comunidade,  eles  eram  na  prática  designados  pelos  seus  antecessores.  G.  Constable  e  O.  Guillot  em 
Centro  ItaJiano  di  Sludt  sulfAlto  Medioevo  (1991)  441-442  admitem  que  o  sistema  prevalecente  em 
Cluny  ao  longo  de  todo  o  século  X,  graças  ao  qual  o  futuro  abade  era  escolhido  ainda  em  vida  do  seu 
predecessor  e  sob  o  seu  controlo,  sendo  por  ele  investido  no  cargo,  servisse  para  evitar  as  intromis¬ 
sões  estranhas,  apesar  de  a  autonomia  da  congregação  estar  estabelecida  nos  diplomas. 

177  G.  Constable  (1991)  394-396  chama  a  atenção  para  o  facto  de  muitas  das  posições  que  fre¬ 
quentemente  se  julga  terem  sido  sempre  típicas  de  Cluny  ilustrarem  apenas  o  período  de  994  até 
1049,  em  que  Odilo  foi  abade,  e  o  período  do  abade  Hugo.  de  1049  até  1 109. 

178  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  249  consideram  que  Cluny  abriu  uma  via  intermédia  entre  o  sistema 
das  igrejas  imperiais  ou  reais  e  as  senhorias  impessoais.  Em  sentido  oposto,  e  depois  de  observar  que 
nem  o  rei  de  França  nem  o  papa  exerciam  o  poder  na  Borgonha  no  início  do  período,  G.  Constable 
(199!)  416-417  conclui  que  a  Ordem  de  Cluny  era  governada  pelos  monges  e  pelo  abade.  Só  esque 
cendo  o  recrutamento  dos  monges  entre  os  filhos  segundos  certos  historiadores  podem  ignorar  as 
estreitas  relações  tecidas  neste  período  entre  um  estabelecimento  religioso  e  a  aristocracia  da  região. 
Para  continuar  a  manter-se  o  mito  da  separação  das  esferas  religiosa  e  secular  é  necessário  pór  de  lado 
as  questões  suscitadas  pela  nova  estrutura  familiar  da  classe  dominante. 

I7V  E.  Amann  et  al.  ( 1948)  332. 

Quanto  às  contradições  a  que  esta  prática  deu  lugar  ver  J.-P  Poly  et  ai.  (1980)  273-274.  Observa 
G.  Constable  ( 1991 )  410  que  as  relações  entre  Cluny  e  os  bispos  e  o  capítulo  da  catedral  da  vizinha 
cidade  de  Mãcon  foram  mais  estreitas  no  século  X  do  que  posteriormente. 

i8,,J.  Richard  (org.  1978)  148. 


f.siiuiw  as  familiares  da  classe  senhorial 


207 


Cister  chefiara,  antes  disso,  outro  convento,  instituído  em  Molesme  na  passagem  do 
terceiro  para  o  quarto  quartel  do  século  XI,  cuja  fundação  se  distinguira  pelo  facto  de  o 
conjunto  senhorial  atribuído  à  congregação  ter  sido  doado  por  um  vasto  grupo  de  famí¬ 
lias  da  baixa  aristocracia,  muitas  delas  aparentadas  com  os  monges 181.  Na  sua  modali¬ 
dade  usual,  os  estabelecimentos  patrocinados  pela  reforma  religiosa  eram  criados  por 
uma  família  da  elite  e  contavam  depois  com  as  doações  da  aristocracia  menor  da 
região,  que  para  lá  enviava  noviços.  No  caso  de  Molesme,  todavia,  o  carácter  colectivo 
estivera  patente  desde  início  e  inspirara  a  própria  fundação,  assim  como  continuou  a 
presidir  à  Ordem  de  Cister,  resultante  de  uma  cisão  operada  no  estabelecimento  primi¬ 
tivo.  E  apesar  de  o  património  inicial  da  nova  abadia  construída  em  Cister  se  ter  devido 
só  às  benesses  de  duas  famílias  da  elite,  o  duque  da  Borgonha  e  o  visconde  de 
Beaune182,  os  mosteiros  da  Ordem,  mesmo  os  femininos,  foram  frequentemente  funda¬ 
dos  por  associações  de  famílias  aristocráticas,  permitindo  que  os  senhores  de  baixo 
estatuto  participassem  no  processo  junto  com  personalidades  cimeiras183.  Aliás,  o 
papel  que  estas  congregações  religiosas  desempenharam  na  coesão  da  classe  dominante 
em  cada  região  fica  confirmado  pelo  facto  de  os  monges,  tanto  quanto  sabemos,  serem 
recrutados  sobretudo  em  famílias  de  cavaleiros  e  demais  estratos  da  baixa  aristocra¬ 
cia184,  assim  como  os  abades  eram  também  oriundos  das  camadas  senhoriais 
inferiores185. 

Reforçando-se  pouco  a  pouco  ao  longo  do  período,  a  coroa  francesa  acabou  por  sub¬ 
meter  as  hierarquias  eclesiásticas  ao  seu  comando  centralizador,  precisamente  quando 
elas  mais  se  dispersavam  e  se  regionalizavam  do  lado  de  lá  do  Reno188.  Os  tentáculos  da 
autoridade  eclesiástica  serviram  então  a  estes  monarcas  para  penetrar  no  território  de 
príncipes  e  magnates  e  lhes  reduzir  gradualmente  a  autonomia187.  Finalmente,  desde  o 
começo  do  século  XIV  a  transferência  do  papado  para  Avignon  reforçou  a  sua  subordi¬ 
nação  aos  reis  de  França,  que  ao  mesmo  tempo  usaram  o  descontentamento  suscitado 
pelos  pesados  tributos  com  que  os  pontífices  alimentavam  a  sua  extravagância  para  mais 
ainda  lhes  minarem  o  prestígio  e  afirmarem  a  supremacia  do  poder  laico188. 


181  C.  B.  Bouchard  (1987)  117-118. 

182  id..  ibid..  118. 

1S-5  ld..  ibid..  121-123,  132-133. 

Esla  historiadora  observa  (p.  174)  que  na  Borgonha  do  século  XII.  quando  predominava  a  influên¬ 
cia  de  Cister.  cada  uma  das  terras  doadas  aos  conventos  tinha  geralmente  uma  área  menor  do  que 
havia  sucedido  no  século  anterior,  durante  o  apogeu  da  Ordem  de  Cluny.  Porém,  a  soma  das  doações 
foi  muito  considerável  no  século  XII,  atingindo  possivelmente  um  volume  total  superior  ao  que  se 
havia  verificado  antes.  A  serem  exactas,  estas  conclusões  parecem-me  confirmar  não  só  o  interesse  da 
baixa  aristocracia  pela  Ordem  de  Cister.  mas  igualmente  a  mobilização  de  grupos  numerosos  de 
pequenos  senhores 

184  Id.,  ibid..  120. 

185  Id..  ibid..  78. 

I8t>  A  partir  dos  meados  do  século  XII  a  coroa  controlava  já  de  muito  perto  o  bispado  de  Orléans, 
segundo  F.  Lebrun  (org.  1972)  149.  Acerca  deste  processo  no  território  da  antiga  arquidiocese  de 
Bourges  desde  o  século  XIII  consultar  G.  Devailly  (1973)  475  e  segs.  e  517. 

187  Quanto  ao  sucedido  na  Borgonha  ler  J.  Richard  (org.  1978)  151-152. 

188  H.  Olland-Schneider  ( 1990)  49. 


208 


Forma  II  do  dinheiro 


Na  Inglaterra  o  relacionamento  da  monarquia  com  o  aparelho  da  Igreja  conjugou  as 
características  dos  dois  grandes  reinos  continentais,  revelando  no  início  do  período  uma 
centralização  equiparável  à  existente  no  império  germânico  e,  no  final  do  período,  a 
hegemonia  da  coroa  podia  comparar-se  com  a  exercida  pelo  rei  de  França.  O  movi¬ 
mento  reformador  começou  na  ilha  em  meados  do  século  X,  com  a  reorganização  da 
vida  monástica  em  Glastonbury189.  um  mosteiro  beneditino  ligado  de  tão  perto  à  coroa 
que  serviu  naquela  época  como  um  dos  panteões  reais,  ficando  aí  sepultados  três 
monarcas.  Além  disso,  o  abade  de  Glastonbury  chegou  a  ocupar  as  supremas  funções 
governativas  e  mais  tarde  recebeu  o  principal  arcebispado  do  reino,  o  que  mostra  que  a 
reforma  eclesiástica  foi  inaugurada  por  iniciativa  da  monarquia.  De  então  em  diante 
outros  reis  estimularam  o  movimento,  usando-o  enquanto  instrumento  de  centralização, 
pois  bispos  e  abades  eram  empregues  para  contrabalançar  o  poder  dos  magnates  regio- 
nais,g°.  Compreende-se.  assim,  que  no  final  da  época  anglo-saxónica  os  bispos  fossem 
geralmente  escolhidos  entre  os  capelães  reais,  e  a  conquista  normanda  de  1066  não 
alterou  substancialmente  esta  prática,  já  que  dos  trinta  bispos  nomeados  no  último 
terço  do  século  XI  cerca  de  dezoito  eram  capelães  do  rei191.  Por  outro  lado.  os  reis  e  os 
condes  mais  importantes  mantinham  estreitas  relações  com  as  novas  abadias  criadas 
pelo  movimento  reformador,  e  o  monarca  exercia  um  elevado  grau  de  controlo  sobre  a 
vida  monástica19-.  No  século  XII  era  obrigatório  que  o  rei  ou  um  representante  seu 
estivessem  presentes  quando  os  eclesiásticos  elegiam  entre  eles  os  dignitários  religio¬ 
sos193.  E  se  servir  de  indicação  o  ocorrido  durante  o  último  terço  desse  século  em 
Angers,  onde  um  bispo  que  era  primo  do  monarca  sucedeu  a  outro  que  havia  sido  cape¬ 
lão  do  palácio,  conclui-se  que  a  autoridade  da  coroa  sobre  as  sés  se  afirmava  igual¬ 
mente  nos  vastíssimos  territórios  que  detinha  além-Mancha194.  Chegado  o  termo  do 
período,  a  monarquia  inglesa  continuava  a  fiscalizar  de  perto  a  generalidade  do  clero  e 
sobretudo  as  sés.  impedindo-as  de  adquirirem  qualquer  autonomia  política,  e  para  isso 
nem  sequer  precisou  de  recorrer  às  alas  radicais  do  movimento  de  renovação  reli- 


3 


Quando  vemos  que  a  reorganização  das  instituições  eclesiásticas,  em  todos  aqueles 
aspectos  directamente  relacionados  com  o  quadro  familiar  da  aristocracia,  se  iniciou  e 
atingiu  o  auge  antes  de  se  ter  afirmado  o  prevalecimento  absoluto  do  modelo  de  linha¬ 
gem  agnática.  podemos  concluir  que  o  movimento  de  reforma  religiosa  desempenhou 


1,9  Ch.  Brookel  1964)  241. 

190  H.  P.  R.  Finberg  ( 1972)  620-521. 

191  J.  Le  Paiourel  (1969)421. 

Ainda  a  propósito  da  política  episcopal  aplicada  em  Inglaterra  por  Guilherme  o  Conquistador  ver 
M.  Bouard  (org.  1970)  178. 

Ch.  Brooke  ( 1964)  245. 

19 '  G.  Barrackmgh  1 1972)  111. 

194  F.  Lebrun  (org.  1972)  149. 

195  M.Wilksi  1972)  121. 


mutu  as  familiares  da  classe  senhorial 


209 


um  papel  decisivo  no  processo  de  reestruturação  da  família  senhorial.  Não  se  tratava 
aqui  de  ideologias,  mas  de  formas  de  organização  da  sociedade,  por  isso  a  Igreja  não  se 
limitou  apenas  a  ser  uma  expressão  da  classe  dominante,  foi  sim  um  dos  seus  compo¬ 
nentes  activos. 

É  muito  secundário  averiguar  quais  os  sonhos,  ou  delírios,  que  pudessem  ter  alguns 
papas  e  outros  idealizadores  mais  ou  menos  ilustres  da  hegemonia  do  clero.  Do  terceiro 
para  o  quarto  quartel  do  século  XI,  o  destino  de  Hildebrando,  o  célebre  papa  Gregório 
Vü,  dependente  de  potências  de  segunda  ordem  e  inclusivamente  de  tropas  muçulma¬ 
nas  para  se  lançar  no  confronto  com  o  imperador,  e  vitimado  afinal  pelos  mesmos  que  o 
haviam  apoiado146,  é  suficiente  para  nos  esclarecer  sobre  os  estreitos  limites  da  autono¬ 
mia  religiosa.  Aliás,  os  precursores  imediatos  do  movimento  de  reforma  foram  pontífi¬ 
ces  que  faziam  parte  integrante  das  mais  importantes  famílias  de  Roma  e  cujas  aspira¬ 
ções  de  supremacia  clerical  se  confundiam  com  o  reforço  do  poder  e  da  riqueza  dos 
seus  parentes147.  A  génese  da  renovação  da  vida  religiosa  teve  objectivos  estritamente 
mundanos,  e  de  então  em  diante  a  evolução  do  supremo  pontificado  elucida  esta  mesma 
dinâmica  interna  do  movimento  reformador.  Dos  meados  do  século  XI  até  aos  meados 
do  século  seguinte  a  política  dos  papas  visou  a  formação  de  um  território  de  soberania 
compacto148,  indispensável  às  novas  modalidades  do  banmtm  impessoal,  e  o  esplendor 
celeste  servia  apenas  para  dar  mais  brilho  a  uma  autoridade  que.  feitas  as  contas,  tinha 
uma  base  terrena  bastante  precária.  Nas  grandes  disputas  da  época,  os  supremos  pontí¬ 
fices  e  as  suas  medidas  de  reorganização  do  clero  constituíram  muito  mais  um  pretexto 
usado  por  forças  alheias  do  que  um  factor  de  intervenção  política  própria.  Mal  haviam 
passado  cem  anos  sobre  os  ensaios  reformadores  de  Gregório  VII,  e  um  membro  da 
boa  nobreza  romana.  Lotário  de  Segni,  foi  designado  papa.  escolhendo  o  nome  de  Ino- 
cêncio  III.  Ele  considerava-se  o  continuador  das  reformas,  destinado  a  afirmar  a  supre¬ 
macia  do  trono  de  São  Pedro  sobre  todas  as  coroas  temporais,  e  apesar  disso  -  ou  tal¬ 
vez  por  isso  mesmo  -  encheu  de  parentes  seus  a  administração  pontifícia  e  as  nunciatu- 
ras,  preparando  o  caminho  para  que  um  sobrinho  viesse  mais  tarde  a  suceder-lhe199. 
Jamais  se  tratou  aqui  de  um  confronto  entre  a  autoridade  espiritual  e  o  poder  secular, 
mas  de  uma  série  de  tentativas  para  reforçar  a  base  patrimonial  do  papado  e  a  sua 
influência  política,  em  estreita  cumplicidade  com  importantes  famílias  da  aristocracia 
laica.  Igualmente  notório  foi,  no  termo  do  período,  o  caso  do  arcebispo  de  Bordéus, 
eleito  papa  logo  no  começo  do  século  XIV,  o  primeiro  a  estabelecer-se  em  Avignon. 
Durante  os  dez  anos  em  que  ocupou  o  trono  de  pontífice  nomeou  cardeais  seis  dos  seus 


,g*  G.  Barraclough  (1972)  147  observa  que  a  consolidação  do  poder  normando  na  Sicília  e  na 
Itália  meridional  beneficiou  do  apoio  concedido  ao  papa  durante  a  luta  contra  o  império.  Na  verdade, 
deveria  acrescentar-se  que  tal  apoio  comprometeu  decisivamente  o  prestígio  de  Gregório  VII  junto  da 
população  de  Roma.  Os  verdadeiros  beneficiários  foram,  a  curto  prazo,  a  dinastia  normanda  e,  a 
longo  prazo,  a  aristocracia  regional  germânica 
197  P.  Toubert  (1973  bl  997  e  segs. 

Este  historiador  conclui  (p.  1038)  que  -<os  últimos  ‘‘papas  familiares”  foram,  ao  mesmo  tempo,  os 
primeiros  papas  reformadoresv. 

|9S  Id.,  ibid..  1068  e  segs. 

199  J.  Leuschner  <  1980)  2b. 


210 


Forma  11  do  dinheiro 


sobrinhos  e  primos,  confiando  a  amigos  os  serviços  financeiros  da  chancelaria  apostó¬ 
lica  e  designando  outros  parentes,  clientes  e  amigos  para  bispados  e  capítulos,  ao 
mesmo  tempo  que  distribuía  a  todos  mãos  cheias  de  benesses2110.  Estas  situações,  em 
que  a  administração  de  um  poder  pretensamente  espiritual  se  confundia  com  o  poder 
temporal,  antecipando  os  típicos  papas  renascentistas,  estavam  já  pressupostas  nas  con¬ 
dições  que  desde  início  inspiraram  a  reforma  do  clero.  Em  vez  de  revelarem  qualquer 
triunfo  da  teocracia,  as  normas  de  organização  a  que  haviam  passado  a  obedecer  os 
estabelecimentos  eclesiásticos  contribuíram  apenas  para  delimitar  mais  rigorosamente  a 
territorialização  do  barrnum  e,  assim,  para  enraizar  o  sistema  das  senhorias  impessoais. 
E  isto  ocorreu  em  todos  os  níveis  da  hierarquia  religiosa. 

Na  Germânia.  até  ao  começo  do  século  XIII  quase  todos  os  bispos  pertenciam  à 
velha  elite  da  nobreza,  ligada  às  regiões  tradicionais201.  De  então  em  diante  o  processo 
parece  ter-se  repercutido  nas  camadas  intermédias  da  aristocracia,  se  puder  servir  de 
indício  o  sucedido  com  os  bispos  da  Alta  Lorena,  que  no  século  Xll  eram  escolhidos 
entre  os  filhos  de  duques  e  de  condes  e  no  século  seguinte  passaram  a  ser  designados 
em  famílias  de  senhores  de  menor  estatuto202.  No  entanto,  esta  abertura  do  episcopado 
não  desalojou  definitivamente  a  maior  nobreza,  pois  no  final  do  segundo  terço  do 
século  XIII  e  de  novo  no  último  quartel  desse  século  os  bispos  de  Estrasburgo  haviam 
nascido  em  grandes  famílias203.  Uma  evolução  talvez  comparável  foi  detectada  em 
Liège,  onde  a  partir  do  começo  do  século  XII  praticamente  todos  os  bispos  eram  oriun¬ 
dos  da  aristocracia,  por  vezes  mesmo  da  alta  nobreza,  começando  o  recrutamento  epis¬ 
copal  a  atingir  igualmente  outras  esferas  sociais  desde  o  segundo  e,  sobretudo,  desde  o 
terceiro  quartel  do  século  XIII204.  Também  na  Hungria,  no  século  XII  e  no  início  do 
século  seguinte,  vários  bispos  pertenciam  à  elite  nobre205,  mas  ignoro  como  a  situação 
evoluiu  depois.  A  debilidade  inicial  da  coroa  francesa  permitiu  que  desde  o  começo  do 
período  as  sés  catedrais  estivessem  ocupadas  por  membros  das  famílias  mais  ilustres  de 
cada  região206.  No  caso  da  Normandia.  quando  os  bispos,  no  século  XII,  deixaram  de 


:m  Ch.  Higounet  (org.  1971)  194. 

201  A  crer  em  J.  B.  Freed  (1976)  213.  não  só  quase  lodos  os  bispos,  mas  igualmente  cónegos  de 
sés  e  monges  e  monjas  beneditinos  pertenciam  à  velha  alta  nobreza.  Neste  sentido,  note-se  que. 
segundo  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  61,  duranre  o  conflito  que  opôs  Henrique  o  Leão,  duque  da 
Baviera  e  da  Saxónia.  ao  imperador  Frederico  I  no  começo  do  último  quartel  do  século  XII.  exacta- 
mente  um  século  após  o  auge  das  iniciativas  reformadoras  do  papado,  Henrique  detinha  o  direito  de 
investir  os  bispos  bávaros,  que  estavam  portanto  sob  a  sua  autoridade  directa. 

202  M.  Parisse  (org.  1977)  171. 

203  H.  Kraus  (1979)  113.  118-1 19. 

204  L.  Genicot  (1975)  143-150.  164. 

205  E.  Fügedi  ( 1986  b)  IV  7. 

2IX'  J.-F.  Lemarignier  (1965)  53-55  indica  que  desde  as  últimas  décadas  do  século  X  até  aos  pri¬ 
meiros  anos  do  século  XII  os  bispos  que  frequentavam  a  corte  do  rei  de  França  eram  com  muita  fre¬ 
quência  oriundos  da  aristocracia  condal.  Na  Champagne  os  condes  de  Troyes  haviam  geralmemc 
escolhido  os  bispos  entre  os  seus  vassalos,  que  incluíam  as  personagens  mais  poderosas  da  região,  e 
embora  no  principio  do  século  Xll  o  carácter  eclesiástico  dos  bispos  se  tomasse  mais  acentuado, 
sendo  alguns  provenientes  de  mosteiros,  na  segunda  metade  desse  século  já  eram  de  novo  originários 
dos  meios  seculares,  consoante  esclarece  M.  Crubellier  (org  1975)  140-141.  Na  Normandia  do 
começo  do  período,  segundo  M.  Bouard  (org.  1970)  176-177.  praticamente  todos  os  bispos  eram 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


211 


ser  designados  entre  os  parentes  do  duque  ou  entre  os  membros  de  outras  grandes  famí¬ 
lias  da  nobreza,  eles  passaram  geralmente  a  ser  escolhidos  entre  os  capelães  do 
príncipe207,  o  que  obedecia  ao  novo  modelo  administrativo,  sem  alterar  em  nada  a 
hegemonia  ducal.  O  mesmo  aconteceu  na  Borgonha  no  final  do  período,  e  os  clérigos 
que  haviam  exercido  funções  no  aparelho  de  governo  do  duque  ou  do  rei  tomavam-se 
cónegos  e  alguns  podiam  depois  chegar  a  bispos208.  Aqueles  historiadores  que,  ao 
encontrarem  um  plebeu  numa  sé  episcopal,  logo  concluem  pela  existência  de  uma  opo¬ 
sição  de  interesses  entre  a  Igreja  reformada  e  a  aristocracia  laica  deviam  lembrar-se  dos 
casos,  bem  documentados,  em  que  esses  plebeus  saíram  da  domesticidade  de  um 
grande  senhor  ou  da  sua  clientela209.  Aliás,  mesmo  os  conflitos  entre  um  conde,  ou  um 
duque,  e  um  prelado  podiam  levar  o  bispado  a  cair  sob  o  controlo  da  grande  família 
laica,  acabando  afinal  tais  situações  por  revelar  o  contrário  do  que  inicialmente  pare¬ 
ciam  indicar210.  E  no  reino  de  Valência,  que  a  coroa  de  Aragão  conquistou  no  segundo 


recrutados  na  família  ducal  ou  entre  a  nobreza  mais  poderosa.  Deslocando-nos  para  oeste,  leio  em  J. 
Delumeau  (org.  1969)  148  um  caso  extremo,  o  dos  condes  da  Comualha,  sediados  em  Quimper,  que 
assumiram  a  dignidade  episcopal,  criando  uma  linhagem  de  condes-bispos,  até  que  nos  meados  do 
século  XI  um  deles  separou  os  cargos,  atribuindo  ao  primogénito  o  condado  e  ao  segundo  filho  o  epis¬ 
copado.  No  Maíne.  no  Anjou,  na  Touraine  e  no  Orléanais.  quando  a  reforma  eclesiástica  fez  com  que 
os  bispos  passassem  a  ser  eleitos  pelos  cabidos.  F.  Lebrun  (org.  1972)  149  observa  o  aumento  da  pres¬ 
são  exercida  pela  aristocracia  laica  sobre  os  cónegos.  G.  Devailly  (1973)  250  e  517  informa  que  a 
arquidiocese  de  Bourges  fora  inicialmente  ocupada  por  membros  da  aristocracia  regional  ou  mesmo 
da  família  real,  sucedendo- lhes  a  partir  do  final  do  terceiro  quartel  do  século  XI  e  ao  longo  do  século 
seguinte  vários  prelados  reformadores  provenientes  do  clero  regular,  cuja  origem  social,  embora  des¬ 
conhecida,  se  presume  que  fosse  modesta;  no  século  XIII.  contudo,  os  arcebispos  haviam  voltado  a 
ser  designados  entre  a  aristocracia  regional  ou  no  meio  que  rodeava  o  monarca.  Dos  54  bispos  que 
exerceram  funções  na  Borgonha  durante  os  séculos  XI  e  XII,  afirma  M.  Chauney  ( 1975)  198-199  que 
conhecemos  a  proveniência  familiar  de  31,  sendo  todos  eles  de  linhagem  nobre  e  em  grande  parte 
nascidos  na  região;  chegou  até  (p.  199)  a  haver  famílias  que  dominaram  o  mesmo  bispado  durante 
várias  décadas,  e  outras  que  contaram  simultaneamente  diversos  bispos  entre  os  seus  membros.  Sem¬ 
pre  referindo-se  à  Borgonha,  id.  ( 1985)  680  comenta  que  nos  séculos  XIII  e  XIV  aumentou  um  pouco 
o  número  de  bispos  originários  da  província,  sendo  comum  a  sucessão  de  tio  a  sobrinho  à  frente  da 
mesma  diocese  e  encontrando-se  também  com  frequência  irmãos  a  exercer  funções  episcopais;  além 
disso,  o  estabelecimento  de  genealogias  revela  que  muitos  bispos  estavam  unidos  por  outras  relações 
familiares  menos  aparentes.  No  Languedoc.  a  crer  em  A.  Dupont  (1942)  462-476.  o  controlo  exercido 
sobre  o  episcopado  pela  grande  nobreza  laica  aumentou  gradualmente  até  ao  final  do  século  XI,  mas 
desde  então  até  meados  do  século  seguinte  (pp.  551-563)  a  maior  parte  dos  bispos  teria  conseguido 
reforçar  a  sua  autoridade  em  detrimento  dos  condes  e  viscondes.  Qual  o  significado  desta  afirmação, 
porém,  quando  o  mesmo  autor  recorda  lp.  561 )  um  caso  em  que  o  bispo  e  o  senhor  laico  da  cidade 
eram  irmãos?  Também  J.-P.  Poly  (1976)  270  pretende  que  na  Provença  desde  o  termo  do  século  XI 
até  ao  final  do  segundo  terço  tio  século  XII  as  grandes  famílias  aristocráticas  deixaram  de  ocupar  as 
sés,  mas  quanto  às  posições  defendidas  poi  este  historiador  a  respeito  da  reforma  eclesiástica  veja-se 
neste  capítulo  a  n.  1 26. 

2,17  M.  Bouard  (org.  1970)  179. 

2<w  M.  Chauney  ( 1985)  681;  J.  Richard  (org.  1978)  151. 

Segundo  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  67,  já  no  século  XI  sucedera  nesta  região  que  alguns  bispos  fos¬ 
sem  oriundos  da  clientela  plebeia  de  um  grande  senhor. 

2,w  Quando  eram  os  monarcas  a  designar  os  bispos,  observa  L.  Genicot  (1975)  143-150  e  163- 
-164.  estes  caracterizavam-se  geralmente  por  uma  proveniência  social  modesta. 

2,11  É  particulannente  elucidativo  o  sucedido  no  Forez,  onde  o  acordo  de  1 173,  que  pôs  termo  a 
década  e  meia  de  lutas  entre  o  conde  e  o  arcebispo  de  Lyon,  previa  que  dois  dos  filhos  do  conde  pas- 


212 


Forma  II  do  dinheiro 


quartel  do  século  XIII,  era  muito  estreita  a  relação  dos  dignitários  eclesiásticos  com  as 
famílias  senhoriais-11.  Especialmente  interessante  é  o  caso  do  condado  portucalense, 
onde  a  acção  reformadora  iniciada  sob  a  inspiração  directa  de  Cluny  foi  prosseguida 
mediante  o  recrutamento  de  bispos  entre  a  aristocracia  local,  o  que  permitiu  consolidar 
uma  rede  de  poderes  e  solidariedades  e  sustentar  a  independência  do  jovem  reino212. 

Além  disso,  as  sés  serviram  para  fazer  a  articulação  entre  o  pequeno  número  de 
famílias  da  mais  alta  nobreza  de  uma  região,  que  disputava  directamente  as  funções 
episcopais  ou  procurava  deter  a  sua  orientação  indirecta,  e  as  famílias  das  camadas 
intermédias  da  boa  aristocracia  regional,  tanto  rural  como  urbana,  entre  quem  se  recru¬ 
tava  inicialmente  a  grande  maioria  dos  cónegos213.  A  nomeação  dos  bispos  pelo 
cabido,  tal  como  a  propunham  os  reformadores,  adaptou,  portanto,  às  novas  circunstân¬ 
cias  o  controlo  exercido  pelos  senhores  laicos  sobre  as  sés214.  E  a  posição  assumida 
perante  o  papado  pelo  colégio  cardinalício,  bem  como  a  origem  social  dos  cardeais, 
podem  talvez  considerar-se  como  a  transposição,  no  nível  prestigiado  em  que  actuava  o 
bispo  de  Roma,  da  situação  dos  capítulos  de  cónegos  face  aos  bispos213.  Para  determi¬ 
narmos  as  implicações  efectivas  da  reforma  eclesiástica  é  importante  conhecer  o  caso 
da  Borgonha,  onde  se  localizava  a  sede  da  Ordem  de  Cluny  e  onde  se  fundou  depois  o 
mosteiro  de  Cister.  O  movimento  reformador  fez  com  que  os  bispos  fossem  eleitos 
pelos  cónegos,  que  usualmente  os  escolhiam  entre  eles.  reforçando-se  deste  modo  a 
coesão  de  classe  da  aristocracia  regional  e  permitindo,  a  partir  do  final  do  século  XI. 
que  pessoas  das  camadas  médias  e  inferiores  da  nobreza  ascendessem  à  cabeça  das  dio¬ 
ceses.  Quando  sabemos  que  estas  circunscrições  se  transformaram  em  autênticos  prin¬ 
cipados.  não  devemos  deduzir  que  isso  representasse  qualquer  autonomia  dos  bispos  e 
arcebispos,  pois  eles  exerciam  o  poder  não  só  enquanto  dignitários  do  clero,  mas  tam¬ 
bém  como  membros  de  famílias  senhoriais  laicas.  Obtemos  a  prova  decisiva  de  tal 
facto  ao  seguirmos  a  evolução  posterior  do  recrutamento  episcopal.  A  medida  que  se 
difundiram  as  relações  de  exploração  de  carácter  impessoal,  com  o  uso  sistemático  de 
dinheiro  e  a  crescente  necessidade  de  dispor  de  peritos  em  contabilidade,  os  grandes 
senhores  não  puderam  deixar  de  ter  ao  seu  serviço  uma  burocracia  letrada.  Como  mui¬ 
tos  dos  clérigos  que  executavam  tais  funções  foram  agraciados  mediante  a  sua  coloca¬ 
ção  nos  cabidos,  onde  substituíram  progressivamente  os  filhos  segundos  provenientes 
da  baixa  aristocracia,  sucedeu  que  os  maiores  senhores,  incluindo  príncipes  e  o  próprio 


sassem  a  assumir  posições  eclesiásticas  relevantes.  Um  deles  acabou  por  se  tomar  arcebispo  vinte 
anos  depois,  sucedendo  ao  antigo  opositor  Consultar  a  este  respeito  E.  Foumial  (1967)  13-14  e  H. 
Kraus  1 1979)  87. 

211  R.  I.  Bums  (1967)34-36. 

212  J.  Mattoso  (1994  b]  50. 

2,3  O  capítulo  da  catedral  de  Estrasburgo,  indica  Ph.  Dollinger  (org.  1970)  99.  recrutava  os  seus 
membros  entre  a  alta  aristocracia.  A  crer  em  L.  Genicot  ( 1975)  143-150.  passava-se  o  mesmo  em 
Liège.  J.  Richard  (org.  1978)  148  afirma  que  na  Borgonha  os  cónegos  eram  membros  da  aristocracia 
regional.  E  no  Vivarais,  segundo  Ch.-I.  Salch  et  al.  (1985)  54.  sentavam-se  no  capítulo  sobretudo 
filhos  da  aristocracia.  Finalmente,  em  Castela  A.  Barrios  Garcia  <  1983.  1 1  246  considera  muilo  pro¬ 

vável  que  a  origem  social  dos  cónegos  fosse  a  mesma  dos  comandantes  laicos  das  milícias. 

214  J.  Gilchrist  (1969)  31:  F.  Lebrun  (org.  1972)  149.  Ver  igualmente:  C.  B.  Bouehard  ( 1979)  53. 

2I'’  Leia-se  nesta  perspectiva  P.  Toubert  ( 197.3  b)  1045  e  segs. 


tsiruiw  as  familiares  da  classe  senhorial 


213 


rei,  passaram  a  empregar  a  sua  burocracia  doméstica  para  controlar  as  nomeações  epis¬ 
copais.  No  final  do  século  XIII  e  sobretudo  ao  longo  do  século  XIV  vários  destes  cléri¬ 
gos  chegaram  a  bispos-16.  Em  traços  gerais  encontramos  transformações  idênticas  na 
diocese  de  Liège,  tão  importante  que  se  converteu  num  principado217.  Vemos  como  um 
mesmo  quadro  de  poder  colectivo,  o  capítulo,  possuía  uma  plasticidade  institucional 
suficiente  para  acompanhar  a  evolução  das  relações  e  dos  equilíbrios  no  interior  da 
classe  dominante.  Posso  fazer  a  mesma  constatação  a  propósito  de  um  exemplo  de 
outro  tipo.  No  século  XI,  em  Milão,  o  arcebispo  era  tradicionalmente  eleito  pelo 
cabido,  entre  os  seus  membros,  em  geral  nascidos  nas  mais  importantes  famílias  nobres 
da  cidade.  E  como,  por  sua  vez,  os  chefes  destas  famílias  se  tomavam  vassalos  do  arce¬ 
bispo,  de  quem  recebiam  senhorias218,  o  equilíbrio  de  posições  ficava  restabelecido, 
convertendo-se  por  um  lado  em  subordinação  o  que  por  outro  lado  fora  um  ascendente. 
Na  generalidade  das  regiões  o  relacionamento  tornou-se  contraditório  com  o  decorrer 
do  período,  à  medida  que  se  foi  ampliando  o  controlo  colectivo  exercido  pelos  vários 
estratos  da  aristocracia  sobre  cada  um  dos  níveis  da  hierarquia  religiosa,  dando-se  ori¬ 
gem  em  muitos  casos  a  conflitos  entre  o  bispo  e  o  cabido219.  Mas  geralmente  ambas  as 
partes  acabaram  por  aceitar  uma  divisão  do  património  das  sés,  que  definia  de  maneira 
rigorosa  os  bens  e  rendimentos  que  cabiam  ao  prelado  e  os  que  eram  atribuídos  aos 
conegos-  . 

Quanto  aos  conventos,  eles  continuaram  sujeitos  à  aristocracia  laica  mesmo  no  auge 
das  iniciativas  reformadoras,  só  que  se  tratava  então  de  modalidades  indirectas  de  con¬ 
trolo221,  como  não  podia  deixar  de  ser  num  período  em  que  as  congregações  religiosas 
não  serviam  mais  uma  única  família,  mas  conjuntos  de  famílias.  Até  Guilherme  I, 
duque  da  Aquitânia  e  conde  da  Auvergne  e  de  Mâcon,  este  tão  citado  modelo  de  patro¬ 
cinador  da  reforma  monástica,  não  hesitou  em  interferir  nos  assuntos  internos  de  Cluny, 
apesar  de  se  ter  comprometido,  no  diploma  de  fundação  da  abadia,  a  assegurar- 
-Ihe  a  autonomia  perante  qualquer  bispo  ou  magnate  laico,  incluindo  ele  próprio222.  E 
embora  estivesse  também  estipulada  a  eleição  do  abade  pelos  monges227,  ocorreu  pelo 
menos  um  caso.  nos  meados  do  século  X.  em  que  a  escolha  do  novo  abade  foi  prece¬ 
dida  de  consultas  entre  o  clero  do  convento  e  o  conde  de  Mâcon224.  Aliás,  outras  con¬ 
tradições  se  geravam  no  interior  do  quadro  colectivo  dos  conventos  e,  ao  mesmo  tempo 
que  estavam  abertos  aos  filhos  segundos  de  todas  as  famílias  senhoriais  das  imediações, 
eles  eram  também  objecto  da  cobiça  de  famílias  particulares.  O  mero  facto  de  eles  se 
situarem  com  frequência  na  proximidade  do  núcleo  patrimonial  da  família  fundadora, 


2lh  Para  a  descrição  do  sucedido  na  Borgonha  ver:  C.  B  Bouchard  (1987»  72-75:  M.  Chauney 
(1985)  677-678.  681:  J.  Richard  iorg.  1978)  148-149.  151.  Mas  estes  historiadores  abordam  os  factos 
numa  perspectiva  bastante  dilereme  da  que  aqui  indico. 

217  L.  Genicot  1 1975)  26.  143-150.  164. 

2I*  Para  as  relações  entre  o  arcebispo  de  Milão  e  o  cabido  da  sua  se  ver  R.  I.  Moore  ( 1977)  56. 

;i‘'  Quanto  no  sucedido  em  Estrasburgo  no  século  X 1 II  ver  Ph.  Dollinger  torg.  1970)  99. 

R.  1.  Moore  Q992i  317:  P  Toubert  1 1973  b)  847-851. 

--1  E.  Amann  et  al.  1 1945)  307-308. 

222  C.  B.  Bouchard  (I987i  91. 

222  Ver  neste  capítulo  a  n.  176. 

--4  C.  B.  Bouchard  ( 1987 1  96. 


214 


Forma  II  do  dinheiro 


onde  esta  erguia  a  sua  residência  principal,  bastava  para  afirmar  publicamente  a  supre¬ 
macia  laica’25.  E,  mais  genericamente  ainda,  a  aparente  autonomia  de  que  um  mosteiro 
podia  gozar  era  anulada  na  realidade  quando  um  monarca,  um  príncipe  ou  um  magnate 
regional,  até  um  simples  senhor  vizinho,  desempenhavam,  por  vezes  de  maneira  heredi¬ 
tária,  funções  de  protecção  e  substituíam  o  abade  em  numerosos  actos,  qualquer  que 
fosse  a  forma  por  que  o  fizessem,  recebendo  legalmente  o  cargo  ou  executando-o  ape¬ 
nas  na  prática.  Embora  o  texto  jurídico  pudesse  garantir  a  supremacia  do  abade  e  a  sua 
designação  pelos  monges,  acontecia  muitas  vezes  que  o  eleito  tivesse  de  ser  confir¬ 
mado  pelo  protector  do  convento;  e  na  verdade  toda  a  casa  religiosa,  com  o  seu  patri¬ 
mónio  e  os  seus  eventuais  vassalos  e  clientes,  ficava  posta  ao  serviço  dos  interesses  da 
família  laica  que  desempenhava  aquelas  funções  tão  lucrativas226.  A  passagem  da 
antiga  forma  de  hegemonia,  legitimada  pela  detenção  dos  bens  do  mosteiro,  para  outra 
modalidade,  resultante  do  exercício  da  justiça  em  nome  dos  monges,  correspondeu  à 
passagem  da  senhoria  pessoal  para  a  senhoria  impessoal.  Resolveram-se  assim  rivalida¬ 
des  e  sustentaram-se  hierarquias227,  alicerçaram-se  muitos  poderes  e  fortunas,  e  foi 
desta  maneira  que  alguns  grandes  senhores  conseguiram  controlar  sistematicamente 
territórios  e  converter-se  em  duques228.  Qualquer  que  fosse  a  modalidade  legal  adop- 
tada,  o  patrocínio  de  estabelecimentos  eclesiásticos  assegurava  proventos  e  poder  aos 
leigos  que  o  assumiam.  Em  pleno  século  XIII,  em  Florença,  uma  confraria  laica  era 
proprietária  e  administradora  de  todas  as  dádivas  recebidas  pelos  Dominicanos,  e  esta 
posição  de  patrono  das  Ordens  Mendicantes  foi  assumida  na  mesma  época  por  confra¬ 
rias  de  outras  cidades229. 

Nem  se  deve  subestimar  o  controlo  obtido  pelos  senhores  laicos  sobre  os  níveis 
mais  humildes  da  hierarquia  clerical.  Os  novos  decretos  promulgados  pelo  papado  atri- 


225  K.  J.  Leyser  ( 1979)  1 14. 

226  Acerca  da  actuação  dos  advocati  ver:  E.  Ainann  et  al.  ( 1948)  351-355;  J.  Balon  ( 1958)  227;  G. 
Barraclough  (1961)  1  66-67;  id.  (1972)  34.  89-90.  145;  C.  B.  Bouchard  (1987)  96,  125-131;  Ch. 
Brooke  ( 1964)  245-246,  290;  A.  Castagnetti  ( 1 985  bl  226;  A.  Déléage  (1941)  535;  J.  Dhondt  (1944) 
71-72;  Ph.  Dollinger  (1949)  34.  40,  62-65;  F.  L.  Ganshof  et  ai.  (.1966)  308-310;  L.  Genicot  (1943- 
-1995)  1  52-57:  K.  Leyser  (1968  )  47:  id.  (1979)  114:  H.  Olland-Schneider  (1990)  49;  Ch.  E.  Perrin 
(1957-1959)  321;  J.  Richard  (org.  1978)  150-151:  J.  W.  Thompson  (1959)  656. 

Depois  de  afirmar  que  no  século  XII  os  mosteiros  da  Ordem  de  Cluny  tinham  usualmente  como 
advocatus  hereditário  um  membro  da  família  do  fundador,  C.  Violante  em  Centro  Italiano  di  Studi 
sulfAlto  Medioevo  (1991)  447-448  levanta  a  questão  de  saber  se  o  mesmo  se  passaria  durante  o 
século  X  relativamente  ao  conde  de  Mâcon  e  ao  duque  da  Borgonha.  Em  resposta,  G.  Constable  em 
ibid..  448  considera  que  a  atitude  de  Cluny  foi  pragmática,  recorrendo  a  pessoas  diferentes  como 
advocati  em  diferentes  situações.  Se  esta  apreciação  for  exacta.  então  no  começo  do  período  o  uso  de 
advocati  não  teria  prejudicado  o  carácter  colectivo  do  controlo  exercido  sobre  este  mosteiro  pela  aris¬ 
tocracia  da  região,  Quanto  à  Ordem  de  Cister.  embora  originariamente  pretendesse  só  aceitar  como 
advocatus  o  imperador,  depressa  teve  de  permitir  que  outros  senhores  desempenhassem  esta  função, 
consoante  esclarece  Ph.  Dollinger  (1949)  41  42.  referindo-se  à  Baviera. 

227  J.  Balon  (1958)  227;  J.  Dhondt  ( 1944)  71-72;  Ph.  Dollinger  (1949)  34. 

22l<  Formaram-se  por  este  modo  os  ducados  do  Brabante  e  do  Luxemburgo,  consoante  indica  L. 
Genicot  lorg.  1973)  129.  Consultar  também  id.  (1975)  27.  59  e  segs.  e  89.  E  o  exercício  das  funções 
de  advocatus  de  mosteiros  reformados  constituiu,  segundo  Th.  Vtayer  ( 1961  b)  II  183  e  185-186.  um 
instrumento  decisivo  para  assegurar  aos  Záhnngen  o  controlo  sobre  toda  a  Floresta  Negra. 

229  L.  K.  Little  ( 1978)  209. 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


215 


buíam  aos  bispos  a  nomeação  dos  vigários  das  paróquias230.  Mas,  como  tive  já  oportu¬ 
nidade  de  observar  (no  capítulo  8.b  da  Parte  II).  isto  permitiu  que  muitos  detentores  de 
senhorias  impessoais,  ao  colocarem  sob  a  tutela  de  abades,  bispos  e  cabidos  as  igrejas 
de  que  eram  proprietários,  lhes  realçassem  o  estatuto,  de  maneira  a  inserir  na  área  de 
jurisdição  destas  igrejas  as  pequenas  fundações  religiosas  decorrentes  de  velhas  senho¬ 
rias  pessoais2-1.  Não  só  monarcas,  príncipes  e  grandes  famílias  regionais,  mantendo 
directa  ou  indirectamente  a  supremacia  sobre  as  sés,  podiam  influir  na  escolha  dos 
párocos,  como  os  senhores  de  cada  território  nunca  deixaram  de  orientar  na  prática 
a  nomeação  dos  curas  pelos  bispos232.  Aliás,  a  lei  canónica  reconhecia  ao  senhor  da 
terra  onde  a  igreja  estava  edificada  o  direito  de  propor  ao  bispo  o  padre  que  devia  ser 
designado  para  chefiar  a  paróquia233.  Compreende-se  que  em  muitíssimos  casos  o  fun¬ 
dador  laico  de  uma  igreja  rural,  ou  os  seus  descendentes,  continuassem  a  exercer  o 
direito  de  designar  o  cura.  sendo  esta  violação  da  lei  canónica  geralmente  aceite  pelos 
prelados234.  Na  Alta  Lorena,  no  final  do  período,  eram  filhos  segundos  da  pequena 
aristocracia  quem  obtinha  cargos  de  cura  nas  paróquias  rurais235,  e  pela  mesma  oca¬ 
sião,  na  Boémia,  os  senhores  designavam  com  frequência  um  parente  ou  alguém  da  sua 
clientela  para  o  lugar  de  padre236,  confirmando-se  assim  a  função  desempenhada  pelo 
poder  pessoal  na  hierarquização  das  senhorias  impessoais.  Uma  situação  idêntica 
encontrava-se  próximo  de  Marselha,  onde  aqueles  curas  que  não  vinham  de  fora  da 
região,  escolhidos  entre  os  monges  de  conventos,  eram  originários  de  famílias  da 
pequena  nobreza  local  e  do  estrato  superior  do  campesinato237.  Aliás,  para  os  campo- 


2,0  L.  Genicot  (1990)  100;  J.  M.  Klassen  (1978)  27. 

251  Em  sentido  oposto  à  perspectiva  que  aqui  proponho.  J.  Goody  (1985)  138  considera  que  a 
reforma  eclesiástica,  ao  substituir  pelo  patrocínio  a  propriedade  laica  de  igrejas  e  ao  determinar  a 
transferência  destes  estabelecimentos  para  instituições  religiosas,  suprimiu  um  dos  factores  que  havia 
favorecido  a  continuidade  do  núcleo  patrimonial  e  que  contribuíra  para  manter  a  coesão  das  famílias 
senhoriais.  Pelo  contrário,  parece-me  que  a  reorganização  operada  no  aparelho  eclesiástico  foi  um 
elemento  indispensável  ao  desenvolvimento  do  novo  sistema  familiar  da  aristocracia. 

232  L.  Genicot  (1990)  100. 

E.  Miller  mencionado  por  J.  Goody  ( 1985)  158  n.  3  indica  que  o  patrocínio  das  igrejas  paroquiais 
cabia  frequentemente  aos  senhores  das  terras  onde  elas  se  encontravam.  Parece-me  que  isto  facilitaria 
aos  senhores  o  controlo  sobre  a  designação  dos  curas. 

233  J.  M.  Klassen  ( 1978)  27-28. 

2M  yer  a  este  respeito  a  n.  143  do  capítulo  8  da  Parte  II.  Aos  autores  aí  mencionados  devem 
acrescentar-se:  M.  Aurell  i  Cardona  ( 1986)  77;  J.  Orlandis  (1956)  43.  Segundo  J.  Goody  (1985)  158 
n.  3.  o  movimento  de  reforma  religiosa  continuou  frequentemente  a  reconhecer  aos  detentores  de 
senhorias  pessoais  o  direito  dc  patrocínio  sobre  as  igrejas  paroquiais.  G.  Devailly  (1973)  256  consi¬ 
dera  que  em  França  o  exercício  do  patrocínio  laico  sobre  as  igrejas  desapareceu  nas  regiões  do  norte  e 
nas  bacias  do  Sena  e  do  Loire.  salvo  a  exccpçâo  da  Normandia,  onde  se  manteve  praticamente  intacto, 
revelando-se  também  mais  duradouro  no  oeste.  Este  autor  acrescenta  que  o  estado  da  pesquisa,  na 
época  em  que  escrev  ia,  impossibilitava  a  formulação  de  um  quadro  de  conjunto  para  todo  o  reino. 

23‘’  M.  Parisse  lorg.  1977)  171 

Referindo-se  á  Itália  centro-setentrional  nos  séculos  XI  e  XII.  C.  Violante  ( 1977)  97  informa  que 
o  lugar  de  reitor  de  uma  igreja  privada  podia  ser  transmitido  hereditariamente  de  pai  para  filho,  entre 
irmãos,  ou  de  tio  para  sobrinho,  o  que  ajudava  à  definição  das  linhagens.  Vemos  que  uma  situação 
deste  tipo  não  seria  anômala  no  final  do  período. 

236  J.  M.  Klassen  (1978)  31. 

237  Y.  Grava  (1985)  204. 


21 6 


Forma  II  do  dinheiro 


neses  enriquecidos  a  detenção  de  uma  igreja  paroquial  podia  constituir  um  dos  princi¬ 
pais  factores  de  penetração  na  aristocracia,  como  revelou  o  progresso  de  uma  família  da 
região  de  Barcelona  no  começo  do  século  XI2,S. 

As  igrejas  rurais  não  interessavam  à  classe  dominante  apenas  enquanto  íactor  da 
hegemonia  exercida  sobre  a  população  camponesa,  mas  igualmente  como  elemento  dos 
mecanismos  de  exploração.  Quando  os  senhores,  no  termo  do  século  XI  e  ao  longo  do 
século  seguinte,  renunciaram  à  posse  directa  das  igrejas  paroquiais,  continuaram  geral¬ 
mente  a  cobrar  em  benefício  próprio  os  tributos  eclesiásticos  mais  lucrativos--9.  Foi  o 
que  sucedeu,  por  exemplo,  com  a  aristocracia  húngara,  que  se  apoderava  do  tributo  reli¬ 
gioso  devido  às  igrejas  paroquiais240,  e  no  território  da  antiga  arquidiocese  de  Bourges 
os  senhores,  na  grande  maioria  dos  casos,  não  cederam  os  direitos  à  cobrança  deste  tipo 
de  exacções,  ficando  sem  efeito  as  tentativas  de  reacção  clerical  contra  tal  prática241.  O 
mesmo  aconteceu  na  Borgonha,  por  vezes  com  a  conivência  do  próprio  clero242,  e  no 
Languedoc  a  reforma  religiosa  não  alterou  a  situação  dos  senhores  que,  enquanto  patro¬ 
nos  de  uma  igreja,  recebiam  um  terço  dos  rendimentos  eclesiásticos24-.  Também  na 
região  de  Pádua.  durante  o  final  do  século  XIII  e  o  princípio  do  século  seguinte,  o 
direito  a  cobrar  o  tributo  eclesiástico  era  quase  sempre  detido  por  leigos244.  Em  sentido 
contrário,  todavia,  parece  que  o  movimento  de  reforma  levou  vários  senhores  a  doarem 
alguns  dos  seus  proventos  religiosos,  por  vezes  mesmo  o  tributo  da  décima,  aos  bispa¬ 
dos  e  abadias  detentores  da  jurisdição  sobre  as  paróquias245,  o  que  pode  ser  interpre¬ 
tado  como  sintoma  da  hegemonia  conseguida  pelos  príncipes  e  outros  magnates  regio¬ 
nais,  que  directa  ou  indirectamente  controlavam  os  cargos  de  bispo  e  de  abade,  relativa¬ 
mente  à  pequena  aristocracia  local,  que  não  podia  visar  mais  longe  do  que  os  limites  da 
paróquia. 

E  certo  que  ainda  no  final  do  período  se  encontravam  em  algumas  regiões  igrejas 
paroquiais  privadas,  como  sucedeu  na  Hungria246  e,  em  França,  na  Ardèche  durante  o 
século  Xlll  ou.  na  Germânia,  na  Alsácia  do  século  XIV247  e,  ern  Espanha,  na  parte 
leste  dos  Montes  Cantábricos24*.  Tratava-se,  todavia,  de  excepções.  A  proliferação  de 
igrejas  estritamente  privadas  fora  característica  do  período  anterior,  quando  a  senhoria 
pessoal  detinha  o  exclusivo.  Ao  adquirir  o  predomínio,  a  senhoria  de  tipo  impessoal 
inseriu  nos  seus  quadros  a  senhoria  pessoal,  enquanto  modalidade  inferior  (ver  o  capí¬ 
tulo  10. b  e  10.d  da  Parte  II).  Na  sua  maioria,  os  senhores  que  se  limitavam  a  exercer  um 
poder  pessoal  haviam-se  tomado  demasiado  fracos  para  possuir  estabelecimentos  reli- 


238  P.  Bonnassie  (1967)  103-107. 

—  G.  Duby  1 1962)400, 

24<l  A.  Gievsztor  ( 1982)  048. 

241  G.  Devailly  (1973  )  300-301, 504  e  scgs. 

242  C.  B.  Bouchard  (1987)  181-182. 

243  E.  Magnou-Nortier  ( 1981-1984)  XII  59-60. 

244  J.  k  Hyde  (1966)  51. 

24''  M.  Aurell  i  Cardona  (1986)  77;  R.  1.  Moore  ( 1977  )  73. 
24,1  A.  Gievsztor  <  1982)  946.  948. 

247  Ch.-L.  Salch  et  al.  (1985)  52. 

245  J.  A.  Garcia  de  Cortazar  (1984)  67 


L  st  ruturas  familiares  da  classe  senhorial 


217 


giosos  próprios244,  e  os  magnates  só  conseguiram  ampliar  o  seu  controlo  até  abranger  a 
globalidade  de  circunscrições  eclesiásticas,  territorialmente  coerentes,  porque  prescin¬ 
diram  da  propriedade  absoluta  de  igrejas  e  mosteiros,  ou  pelo  menos  atribuíram-lhe  um 
papel  meramente  secundário,  e  inauguraram  outros  sistemas  de  hegemonia. 

O  movimento  de  renovação  religiosa  representou,  do  lado  das  instituições  eclesiásti¬ 
cas,  uma  expressão  deste  mesmo  processo.  E  elucidativo  que  os  senhores  tivessem 
entregue  as  suas  igrejas  a  mosteiros,  em  vez  de  as  cederem  aos  bispos250,  como  parece¬ 
ria  adequado  se  tivéssemos  apenas  em  conta  a  hierarquia  das  circunscrições  eclesiásti¬ 
cas.  Mas  a  chefia  das  sés  cabia  a  uma  única  pessoa,  e  o  conjunto  da  aristocracia  da 
região  só  estava  aí  representado  através  dos  membros  do  cabido,  quando  muito  reve¬ 
zando-se  as  várias  famílias  na  detenção  do  cargo  episcopal,  enquanto  os  conventos  eram 
instituições  coleetivas,  decorrentes  sempre  de  grupos  de  famílias.  Só  a  Ordem  de  Cluny 
recebeu,  nos  primeiros  dois  séculos  de  existência,  quase  duas  mil  e  trezentas  igrejas251. 
No  Berry.  por  exemplo,  a  partir  do  final  do  terceiro  quartel  do  século  XI  diversos  arce¬ 
bispos  reformadores  esforçaram-se  por  adquirir  o  controlo  sobre  as  numerosas  igrejas  e 
capelas  rurais,  mas  os  seus  proprietários  preferiram  concedê-las  a  abadias,  especial¬ 
mente  as  da  Ordem  de  Cluny.  e  também  aos  cónegos  regulares,  continuando  o  prelado 
praticamente  sem  jurisdição  sobre  o  clero  dos  campos.  A  partir  de  meados  do  século 
XII  cerca  de  nove  décimos  das  igrejas  no  território  da  arquidiocese  estavam  naquela 
situação252,  o  que  mostra  que  nas  novas  circunstâncias,  com  o  prevalecimento  do  poder 
impessoal,  a  aristocracia  começara  a  exercer  sobre  as  paróquias  uma  autoridade  de 
grupo.  A  evolução  foi  similar  na  Borgonha,  esse  berço  da  reforma  religiosa,  e  desde  o 
extremo  final  do  século  XI  as  igrejas  paroquiais  passaram  para  a  tutela  de  órgãos  colec- 
tivos,  como  as  abadias  e  os  cabidos,  e  não  dos  bispos253,  verificando-se  o  mesmo  no 
Vivarais,  uma  região  na  proximidade  da  Auvergne2"'4.  Chegou-se  a  resultados  idênticos 
a  sul  dos  Alpes255,  e  também  nas  Espanhas  foi  aos  mosteiros  que  a  aristocracia  entregou 
as  suas  antigas  igrejas  privadas256.  Ao  retirarem  as  igrejas  da  propriedade  privada  dos 
leigos  e  ao  colocarem-nas  sob  a  égide  não  de  bispos  ou  arcebispos,  mas  de  conventos  e 
de  cabidos  onde  se  congregavam  filhos  segundos  oriundos  das  famílias  senhoriais  da 
vizinhança,  as  iniciativas  reformadoras  asseguraram,  na  realidade,  o  controlo  conjunto 
da  aristocracia  regional  sobre  os  centros  religiosos  das  comunidades  camponesas. 


249  No  Berry,  por  exemplo,  sabemos,  graças  a  G  Devailly  (1973)  251,  que  os  proprietários  priva¬ 
dos  de  igrejas  rurais  eram  apenas  pequenos  senhores,  ou  até  simples  cavaleiros. 

250  G.  Constable  (1982)  351-352.  368.  38 1 

Contudo,  referindo-se  ao  Languedoc  a  panír  de  meados  do  século  XI.  E.  Magnou-Nortier  (1981- 
-1984)  XII  101  menciona  a  doação  de  igrejas  aos  bispos,  além  da  sua  doação  a  congregações  religio¬ 
sas,  e  também  na  Inglaterra,  segundo  C.  Platt  1 1 976)  1 52,  as  igrejas  foram  entregues  tanto  a  conventos 
como  a  bispos. 

25 1  G.  Constable  (1982)  369. 

252  Acerca  do  sucedido  no  Berry  consultar  G.  Devailly  (1973)  241-251,  255-262.  274  e  517, 
embora  este  historiador  defenda  uma  interpretação  diferente  dos  factos. 

255  C.  B.  Bouchard  ( 1987 )  1 1 3,  1 79- 1 80. 

254  Ch.-L.  Saleh  et  al.  (1985  )  54-55. 

255  G.  Constable  (1982)  370-37 1 . 

256  J.  A.  Garcia  de  Cortazaretc.  ( 1969)  155:  J.  Orlandis  (1956)  28-29,  31-32. 


218 


Forma  //  do  dinheiro 


Mesmo  que  a  família  do  fundador  continuasse  a  fiscalizar  de  perto  a  igreja  paroquial  e  a 
nomear  o  vigário,  a  reestruturação  das  hierarquias  eclesiásticas  garantia  às  abadias  e 
capítulos,  enquanto  instituições  senhoriais  colectivas.  um  certo  grau  de  interferência. 

E  sob  este  ponto  de  vista  que  podemos  interpretar  alguns  problemas  especialmente 
interessantes.  Em  regiões  tão  diferentes  como  o  Vivarais  durante  o  último  quartel  do 
século  XI  e  o  primeiro  quartel  do  século  seguinte  e,  possivelmente  na  mesma  época,  a 
Inglaterra,  foi  observada  uma  simultaneidade  de  processos,  mandando  os  senhores 
erguer  castelos  ao  mesmo  tempo  que  transferiam  para  a  tutela  do  clero  a  grande  parte 
das  suas  igrejas  paroquiais  privadas-57.  A  nova  coerência  obtida  pela  paróquia,  se  era 
ajudada  pela  implantação  das  castelanias  enquanto  factor  de  enquadramento  do  campe¬ 
sinato,  exigia  também  que  a  classe  dominante  em  cada  um  destes  territórios  exercesse 
formas  de  domínio  colectivo.  A  relação  entre  as  fortalezas  e  as  paróquias,  todavia,  não 
era  simples,  porque  os  monarcas  e  os  grandes  senhores  começaram  a  fundar  capelas 
privadas  no  interior  dos  seus  castelos,  ou  do  lado  de  fora  dos  muros,  dotando-as  fre¬ 
quentemente  de  um  património  próprio  e  estabelecendo  aí  uma  congregação  de  cléri¬ 
gos,  que  puderam  servir  de  administradores  do  conjunto  senhorial258.  Parece  que  em 
Inglaterra  estas  capelas  beneficiaram  de  um  tal  acréscimo  de  prestígio  que  em  muitas 
ocasiões  quase  assumiram  funções  paroquiais,  e  em  alguns  casos  conseguiram  até 
transformar-se  no  centro  de  paróquias250.  Mesmo  admitindo  que  este  processo  se 
tivesse  efectivamente  verificado  na  ilha.  ele  não  seria  decerto  fácil,  pois  sabe-se  que  ao 
longo  de  todo  este  período,  e  mesmo  depois,  os  senhores  não  se  integravam  nas  paró¬ 
quias  rurais,  criando  capelas  nas  fortalezas  precisamente  para  disporem  de  acesso  ime¬ 
diato  a  um  santuário260.  Nestas  condições,  compreende-se  que  em  França  as  capelas 
existentes  nos  castelos  não  tivessem  provocado  alterações  na  rede  de  paróquias261,  e  é 
difícil  entender  como  pôde  passar-se  o  contrário  na  Inglaterra.  Também  os  conflitos 
ocorridos  na  Itália  a  respeito  das  igrejas  paroquiais  abrem  uma  perspectiva  de  análise 
curiosa,  já  que  o  esforço  dos  bispos  por  se  apoderarem  desses  estabelecimentos  inseriu- 
-se  na  questão  mais  genérica  da  dilatação  do  território  rural  da  cidade.  A  elite  urbana, 
entre  a  qual  eram  escolhidos  os  prelados,  pretendia  usar  a  jurisdição  das  dioceses  para 
explorar  mais  amplamente  os  camponeses  e  para  afirmar  a  sua  hegemonia  sobre  os 
senhores  rurais262.  Tratava-se  aqui  do  confronto  entre  a  cidade,  considerada  como 
senhor  colectivo,  e  conjuntos  de  senhores  rurais,  que  encontravam  nos  mosteiros  uma 
expressão  de  grupo.  Em  qualquer  caso.  de  cima  a  baixo  das  hierarquias  sociais  era  o 
prevalecimento  do  poder  impessoal  que  se  manifestava  na  reforma  religiosa.  O  carácter 
colectivo  da  hegemonia  exercida  pela  classe  senhorial  sobre  as  instituições  clericais 
exigira  a  remodelação  dessas  instituições. 


257  Quanto  ao  Vivarais:  Ch.-L.  Salch  er  al.  (1985)  50,  55-56,  Quanto  à  Inglaterra:  N.  J.  G.  Pounds 
(1990)224. 

2SR  G.  Devailly  (1973)  159:  J.  Dhondt  (1944)  63:  G.  Foumier  (1978)  126-127;  N.  J.  G.  Pounds 
( 1990)  225  e  segs..  239,  241-242;  J.  Richard  (org.  1978)  151. 

259  N.  J.  G.  Pounds  (1990)  230. 

26ü  yer  a  esle  respeito  as  nn.  128  a  133  do  capítulo  8  da  Parte  II. 

261  G.  Foumier  (1978)  127. 

262  C.  Violantef  1968)  175. 


Estruturas  familiares  Ja  classe  senhoria! 


219 


4 

Do  mesmo  modo.  ao  instituir  o  casamento  enquanto  sacramento,  reforçando  o  elo 
que  unia  marido  e  mulher  e  insistindo  na  sua  exclusividade,  e  ao  ampliar  muito  os  limi¬ 
tes  de  parentesco  em  que  era  proibida  a  endogamia,  o  novo  modelo  matrimonial  pro¬ 
posto  pelas  autoridades  eclesiásticas26'  correspondeu  à  evolução  das  famílias  senho¬ 
riais.  Apesar  de  serem  formalmente  idênticas  para  todas  as  classes  sociais,  as  novas 
normas  familiares  difundidas  pela  Igreja  levantavam  problemas  muito  diferentes  para 
os  servos  e  para  os  senhores.  Basta  pensar  que  entre  os  camponeses  a  memória  genea¬ 
lógica  não  ultrapassava  a  geração  dos  avós,  pelo  que  nas  aldeias  as  interdições  respei¬ 
tantes  ao  incesto  não  podiam  ser  aplicadas  da  mesma  maneira  que  nos  castelos.  Uma 
das  ilustrações  mais  interessantes  desta  dicotomia  é-nos  fornecida  pela  situação  da 
nobreza  não-livre  na  Germània.  Conjugando  as  funções  da  elite  com  alguns  dos  estig¬ 
mas  da  classe  servil,  essa  camada  social  ficou  repartida  entre  os  dois  sistemas  familia¬ 
res.  Enquanto  nobres,  os  seus  membros  demonstravam  uma  propensão  pela  estratégia 
matrimonial  exogâmica,  idêntica  à  dos  demais  elementos  da  aristocracia;  mas, 
enquanto  não-livres,  eles  sofriam  pressões  para  se  sujeitar  à  endogamia,  na  medida  em 
que  o  seu  senhor  preferia  que  os  casamentos  se  efectuassem  no  interior  do  grupo  de 
famílias  de  igual  estatuto  que  dele  dependiam,  e  não  com  elementos  de  famílias  que 
dependessem  de  outros  senhores.  Afinal,  a  completa  fusão  deste  tipo  de  nobreza  no 
seio  da  classe  dominante,  onde  perdeu  os  traços  de  ausência  de  liberdade  que  ainda 
mantinha,  implicou  que  também  aqui  prevalecesse  o  modelo  exogâmico264. 

Por  outro  lado,  a  incapacidade  de  se  perpetuar  ao  longo  do  tempo,  que  constituía 
neste  período  a  característica  fundamental  a  diferenciar  a  família  camponesa  da  família 
aristocrática,  condicionou  decisivamente  o  significado  daquelas  normas  que  valoriza¬ 
vam  o  elo  conjugal  e  o  impunham  como  um  relacionamento  exclusivo.  Se  para  a  classe 
dominante  tais  normas  eram  mais  um  dos  elementos  componentes  da  linhagem265, 
obrigando  a  repensar  a  estratégia  de  alianças  entre  famílias,  para  os  rurais  a  insistência 
do  clero  na  importância  do  matrimónio,  em  detrimento  dos  restantes  laços  de  paren¬ 
tesco,  teve  como  efeito  isolar  ainda  mais  as  células  familiares.  Ficou  assim  minada  na 
classe  servil  a  coesão  com  que  outrora,  em  muitos  casos,  o  conjunto  dos  parentes 
pudera  opor-se  às  tentativas  de  penetração  dos  magnates  vizinhos,  e  os  patrimónios 
familiares  camponeses  desagregaram -se  defmitivamente  em  benefício  da  apropriação 
senhorial  (ver  o  capítulo  l.a). 


2(l''  Quanto  ao  novo  modelo  de  família  proposto  pelo  papado  reformador  ver:  C.  B.  Bouchard 
(1981  a)  268-271:  P.  A.  Brandet  al.  (1983)  I28:G.  Duby  ( 1981 »  39. 

264  Todos  estes  aspectos  foram  estudados  por  J.  B.  Freed  (1995)  66  e  81-82  relativamente  aos 
ministeriates  do  arcebispo  de  Salzburgo. 

265  D.  Herlthy  ( 1995  b)  146  mostra  a  existência  de  uma  relação  entre  o  aparecimento  do  sistema 
patrilinear  e  a  insistência  da  Igreja  numa  moral  monogâmica.  Também  R.  I.  Moore  (1992)  316  afirma 
que  a  perseguição  lançada  contra  os  casamentos  incestuosos  constituiu  uma  parte  fundamental  da 
campanha  para  enraizar  a  primogenitura.  Segundo  P.  A.  Brand  et  al.  (1983)  128-129,  as  novas  leis 
eclesiásticas  do  casamento  começaram  a  tomar-se  efectivas  entre  a  aristocracia  nos  primeiros  anos  do 
século  XIII. 


220 


Forma  II  do  dinheiro 


A  duplicidade  social  inerente  ao  novo  modelo  eclesiástico  da  família  constitui, 
desde  já,  uma  indicação  suficiente  de  que  esse  modelo  em  nada  se  opunha  à  estrutura 
da  sociedade  senhorial.  Não  há  razão  para  considerar,  como  fazem  alguns  especialistas, 
que  tivesse  existido  qualquer  contradição  entre  os  interesses  da  aristocracia  e  as  regras 
matrimoniais  difundidas  pelo  papado  reformador66.  A  dilatação  dos  limites  da  encloga- 
mia,  motivada  pelo  alargamento  da  definição  eclesiástica  de  consanguinidade,  estimu¬ 
lava  as  alianças  matrimoniais  entre  linhagens  claramente  diferenciadas  pela  fortuna  e 
pelos  critérios  de  prestígio267,  ou  cujos  núcleos  patrimoniais  se  radicavam  em  regiões 
relativamente  distantes.  Sem  isso  ter-se-ia  corrido  o  risco  de  que  o  prevalecimento 
absoluto  do  agnatismo  sobre  a  afinidade  pusesse  em  causa  a  coesão  de  classe  da  aristo¬ 
cracia268  e  não  se  teriam  conseguido  formar  espaços  de  soberania  cada  vez  mais 
vastos269. 

As  enormes  convulsões  ocorridas  em  todo  este  período  nas  ideologias  e  práticas 
religiosas  confirmam  a  íntima  relação  que  continuava  a  existir  entre  a  Igreja  e  a  aristo¬ 
cracia  laica,  e  só  são  explicáveis  neste  quadro.  Se  os  estabelecimentos  eclesiásticos 
funcionavam  como  eixo  de  continuidade  das  famílias  senhoriais  e  como  sede.de  um 
bannum  colectivo,  então  a  apologia  da  pobreza  apostólica  e  as  invectivas  dirigidas 
pelos  contestatários  contra  a  riqueza  do  clero  punham  em  causa  o  próprio  fulcro  do 
poder  da  classe  dominante.  Por  isso  as  heresias,  e  por  vezes  até  os  aspectos  mais  radi¬ 
cais  do  movimento  de  reforma  no  interior  da  Igreja,  representavam  uma  condenação  da 
sociedade  vigente270,  o  que  seria  decerto  claro  para  todos  os  coevos.  Tanto  assim  que  a 


266  Entre  os  historiadores  mais  representativos  desta  tendência  conta-se  Georges  Duby.  por  exem¬ 
plo  em  ( 198  U  40-4 1  e  54.  C.  B.  Bouchard  (1981  a)  272-273  levanta  várias  objecções  à  tese  defendida 
por  Duby. 

267  C.  B.  Bouchard  (1981  a)  272  e  segs. 

21,8  A  exogamia,  comenta  id„  ibid..  286-287,  encorajou  a  fusão  social  entre  os  diversos  estratos  da 
aristocracia  e  facilitou  a  promoção  dos  novos  ricos.  É  interessante  considerar  a  este  respeito  a  tese  de 
R.  Jacob  (1989)  35-37.  para  quem  a  exogamia  defendida  pela  Igreja  teria  estimulado  a  mobilidade 
social  e,  por  aí.  o  crescimento  económico,  enquanto  a  sociedade  muçulmana,  de  carácter  endogâmico, 
ficara  condenada  à  estagnação.  Embora  este  historiador  se  refira  à  situação  familiar  da  plebe  (pp.  41  e 
segs.)  e  considere  as  linhagens  aristocráticas  demasiado  estáveis  para  poderem  integrar-se  no  modelo 
que  propõe,  talvez  seja  possível  aplicar  também  esta  perspectiva  de  mobilidade  social  aos  casamentos 
entre  pessoas  de  diferentes  estratos  aristocráticos,  realizados  em  obediência  às  pressões  da  exogamia. 

269  A.  Guerreau-Jalabert  (1981)  1040  observa  que  a  exogamia  implicava  o  alargamento  das  redes 
de  alianças.  Recorde-se  ainda  a  n.  38  deste  capítulo. 

270  Ver  neste  sentido  T.  Manteuffel  (1970)  13-14.  Parece-me  injustificável  a  tese  defendida  por 
vários  historiadores,  por  exemplo  B.  Hamilton  ( 1979)  VIII  14  a  propósito  da  difusão  do  catarismo  no 
Languedoc,  que  explicam  o  apoio  dado  por  vezes  pela  aristocracia  a  certas  heresias  com  o  argumento 
de  que  esses  senhores  procuravam  assim  apoderar-se  das  riquezas  da  Igreja.  Como  penso  ter  mos¬ 
trado.  a  classe  dominante,  em  todos  os  seus  níveis,  beneficiava  da  colocação  de  terras,  senos  e  direi¬ 
tos  sob  a  tutela  dos  estabelecimentos  eclesiásticos,  e  so  para  os  camponeses  o  património  da  Igreja 
podia  aparecer  como  um  objecto  global  de  contestação.  O  entusiasmo  que  a  aristocracia  manifestava 
ocasionalmente  em  tomo  de  certos  dissídios  religiosos  deve  ser  analisado  por  outros  critérios,  e  nesta 
perspectiva  parecem-me  interessantes  os  dados  fornecidos  por  G.  Devailly  <  1973)  279  a  propósito  do 
Berry,  onde  vários  pequenos  senhores,  alguns  até  com  prestígio  regional,  apoiaram  os  estabelecimen¬ 
tos  eremíticos,  que  haviam  sido  fundados  em  protesto  contra  o  enriquecimento  dos  mosteiros  da 
Ordem  de  Clunv  e  contra  o  seu  recrutamento  exclusivamente  aristocrático.  Quando  vemos  que  estes 


Estruturas  familiares  da  classe  senhorial 


221 


aristocracia  empregou  contra  as  correntes  religiosas  de  vocação  popular  as  propostas 
renovadoras  inspiradas  pela  Ordem  de  Cluny,  que  estava  estreitamente  ligada  ao  poder 
territorial271.  Em  matéria  social  as  ilusões  não  existem,  e  mesmo  os  equívocos  históri¬ 
cos  reflectem  circunstâncias  não  menos  reais  do  que  qualquer  forma  de  actuação  que 
invoque  os  seus  êxitos  como  caução  de  uma  pretensa  lucidez. 

Numa  época  em  que  a  ideologia  possuía  sempre  conotações  vincadamente  religio¬ 
sas,  a  remodelação  das  práticas  clericais  e  da  doutrina  da  Igreja  exprimiu  uma  forma 
diferente  de  conceber  as  estruturas  familiares.  Tomara-se  indispensável  renovar  os 
comportamentos  e  os  quadros  de  pensamento  a  partir  do  momento  em  que  o  dinheiro 
passara  a  veicular  as  relações  no  interior  da  classe  dominante.  O  sistema  de  linhagens 
agnáticas  e  a  nova  função  assumida  pelas  instituições  religiosas  no  seu  relacionamento 
com  as  famílias  senhoriais  só  podem  ser  perfeitamente  entendidos  se  analisarmos  as 
operações  da  Forma  II  do  dinheiro,  ou  seja.  daqueles  circuitos  monetários  que  se  cir¬ 
cunscreviam  estritamenle  à  classe  dominante. 


senhores  davam  terras  aos  núcleos  de  eremitas  e  por  vezes  destacavam  parentes  seus  para  os  encabe¬ 
çarem,  compreendemos  que  se  tratava  da  formação  de  congregações  religiosas  da  baixa  aristocracia, 
já  que  as  abadias  importantes  estavam  reservadas  sobretudo  para  os  estratos  privilegiados. 

:7)  E.  Werner  mencionado  por  C.  Violante  em  Centro  Italiano  di  Studi  sulPAIto  Medioevo  (1991 ) 
447-448. 


CAPÍTULO  7 

DA  VASSALIDADE  PESSOAL  À  DOMESTICIDADE  IMPESSOAL 


No  capítulo  anterior  vimos  as  novas  tendências  sociais  que  levaram  à  reorganização 
interna  das  famílias  aristocráticas  remodelarem  igualmente  a  forma  como  estas  famílias 
se  relacionavam  entre  si.  Reciprocamente,  vou  procurar  agora  mostrar  que  os  vínculos 
da  vassalidade,  que  na  aparência  vigoravam  apenas  no  exterior  das  unidades  familiares, 
ligando-as  umas  às  outras,  não  deixaram  também  de  influir  na  própria  estruturação 
interna  da  família  senhorial.  Poderemos  a  partir  daí,  no  quadro  paradoxal  que  assim  se 
desenvolveu,  compreender  melhor  a  difusão  do  dinheiro  nas  relações  de  subordinação. 


a.  Linhagem  aristocrática  e  relações  vassálicas 

A  evolução  sofrida  pelas  estruturas  familiares  da  aristocracia  alterou  substancial¬ 
mente  as  relações  vassálicas.  Para  analisarmos  este  conjunto  de  problemas  não  nos 
podemos,  porém,  deixar  iludir  pela  aparência  dos  fenómenos  considerados  típicos,  que 
exercem  uma  grande  sedução  sobre  numerosíssimos  autores.  A  historiografia  clássica 
definiu  a  vassalidade  de  maneira  tão  restrita,  baseando-se  unicamente  numa  modali¬ 
dade  peculiar  de  algumas  regiões  do  norte  da  França1,  que  as  excepções  se  tomam  mui¬ 
tíssimo  mais  abundantes  do  que  a  regra.  É  este  o  célebre  problema  do  «feudalismo», 
sempre  debatido  em  vão.  Com  efeito,  os  elos  de  vassalagem  tinham  de  se  adaptar  a  tra¬ 
dições  jurídicas  que  não  só  variavam  consoante  as  regiões,  como  podiam  em  certos 
casos  entrar  em  conflito,  e  isto  explica  a  diversidade  dos  quadros  legais  em  que  o  sis¬ 
tema  se  manifestou.  Deixarmo-nos  enganar  por  estes  aspectos  é  como  confundir  um 
conceito  e  as  palavras  que  o  exprimem,  e  seguramente  um  conceito  pode  ser  traduzido 
nos  mais  diversos  idiomas  sem  modificar  em  nada  a  sua  identidade.  De  igual  modo,  os 
rituais  em  que  se  processava  a  subordinação2,  os  objectos  implicados  no  sistema  de 


1  A  fornia  de  feudalismo  considerada  clássica  não  predominou  sequer  em  toda  a  França  setentrio¬ 
nal,  já  que  R.  Fossier  (1968)  444.  546-550.  (org.  1974)  159  e  ( 1976)  162  observa  a  sua  raridade  na 
Picardia,  pelo  menos  na  primeira  metade  deste  período. 

2  A.-G.  Manry  (org.  1974)  103  indica  que  na  Auvergne,  no  começo  do  período,  os  vassalos  jura¬ 
vam  fidelidade  sem  que  fosse  prestada  homenagem.  Durante  o  século  XIII,  no  leste  e  no  oeste  da 
França  meridional,  em  regiões  da  Borgonha  e  na  Guyenne,  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  76  afirma  que  as 


224 


Forma  II  do  dinheiro 


obrigações  recíprocas,  as  formas  jurídicas  que  as  registavam3,  tudo  isto  variava  de  uns 
casos  para  outros,  mas  se  ultrapassarmos  tais  diferenças  de  expressão  verificamos  que 
os  elos  vassálicos  foram  um  elemento  estrutural  do  regime  senhorial,  presente  em  todas 
as  áreas  de  soberania. 

Encontram-se  sem  dificuldade,  é  certo,  historiadores  que  se  recusam  a  admitir  a  exis¬ 
tência  de  vassalidade  em  áreas  mais  ou  menos  vastas4,  e  entre  os  franceses  um  tal  cepti- 


relações  de  subordinação  se  estabeleciam  por  vezes  só  através  de  um  juramento  de  fidelidade,  pres¬ 
cindindo  da  homenagem,  e  acrescenta  que  também  na  Itália  setentrional  a  homenagem  caiu  em 
desuso,  tendo  desaparecido  já  antes  do  século  XII.  Alegando  que,  a  sul  do  Loire.  o  elemento  fundiário 
da  concessão  se  teria  tomado  mais  importante  do  que  o  carácter  pessoal  do  v  ínculo,  ambos  os  histo¬ 
riadores  admitem  a  hipótese  de  que  islo  explicasse  a  redução  da  cerimónia  ao  juramento  de  fidelidade. 
Todavia,  referindo-se  genericamente  a  todo  o  regime  senhorial.  L.  Genicot  (1967)  3-4  considera  que 
desde  o  começo  deste  período  o  aspecto  fundiário  teria  começado  a  prevalecer  na  relação  vassálica. 
Se  assim  foi.  por  que  razão  se  conservou  a  homenagem  no  norte  da  França?  A  este  respeito  convém 
saber  que  alguns  historiadores  defendem  que  em  Leão  e  Castela  se  teriam  mantido  dissociados  o  ele¬ 
mento  fundiário  da  vassalidade  e  o  seu  elemento  pessoal,  sem  haver  uma  relação  estreita  entre  as  con¬ 
cessões  recebidas  e  os  serviços  devidos.  Ver  sobre  esta  questão:  E.  Lourie  (1966)  61;  L.  G.  Valdea- 
vellano  f  1958)  231-232.  Por  seu  lado.  H.  Grassotti  ( 1969)  1 17  vai  ao  ponto  de  afirmar  que  a  relação 
vassálica  em  Leão  e  Castela  era  estritamente  pessoal,  não  tendo  chegado  a  converter-se  num  vínculo 
de  base  fundiária,  assente  na  recepção  de  uma  senhoria.  Ora.  o  ritual  vassálica  surgido  na  península 
hispânica  tinha  como  elemento  central  o  beijo  dado  pelo  vassalo  na  mão  direita  do  senhor  superior,  o 
que  constituía  uma  expressão  da  homenagem  prestada  por  um  inferior  a  um  superior.  Acerca  do  ritual 
propriamente  hispânico  consulte-se:  H.  Grassotti  (1969)  141.  150:  C.  Sánchez-Albomoz  1 1 954 »  130- 
-131;  id.  (1980)  576;  L.  G.  Valdeavellano  ( 1958)  237-238.  Também  em  Portugal,  escreve  J.  Mattoso 
[1994  b]  194,  a  cerimónia  da  homenagem  se  reduzia  ao  beija-mão,  podendo  até  suceder  que  a  home¬ 
nagem  fosse  meramente  tácita,  dispensando  quaisquer  gestos  simbólicos.  Segundo  H,  Grassotti 
(1969)  142  e  144-150.  o  ritual  hispânico  tena  possivelmente  obedecido  a  uma  inspiração  islâmica  e 
não  parece  derivado  de  tradições  visigodas  ou  astur-leonesas,  mas  C.  Sánchez-Albomoz  (1954)  1 30- 
-13)  e  (1980)  576  admite  que  desde  cedo  ele  se  tivesse  realizado  no  reino  astur-leonês.  Em  Leão  e 
Castela  só  excepcionalmente  se  recorreu  a  um  cerimonial  de  homenagem  do  mesmo  tipo  do  usado  na 
França  setentrional,  com  as  mãos  do  vassalo  colocadas  entre  as  do  senhor  superior,  e  acompanhado 
pelo  juramento  de  fidelidade.  Ver:  H.  Grassotti  (1969)  162  e  segs.;  C.  Sánchez-Albomoz  (1954)  131; 
id.  (1980)  576:  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  237-238.  Mas  note-se  que  em  Aragâo,  pelo  menos  no 
último  quartel  do  século  XI,  a  crer  em  J.  M.  Lacarra  (1968)  502,  as  senhorias  vassálicas  de  que  o 
monarca  concedia  apenas  a  posse,  sem  a  propriedade  plena,  exigiam  uma  homenagem  em  moldes 
idênticos  aos  praticados  na  França  setentrional. 

Na  França  setentrional  dos  séculos  XIII  e  XIV,  esclarece  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  121.  a  home¬ 
nagem  prestada  pelos  plebeus  que  obtinham  senhorias  vassálicas  limitava-se  à  colocação  das  mãos 
entre  as  mãos  do  senhor  superior  e  não  incluía  o  beijo,  um  elemento  do  ritual  revelador  de  que  ambas 
as  partes  pertenciam  à  mesma  ciasse  social.  Isto  leva  J.  Le  Goff  ( 1976)  726  a  concluir  que  um  plebeu 
não  podia  ser  um  verdadeiro  vassalo.  Todavia,  a  leitura  de  G.  Fourquin  ( 1964)  125  sugere-me  que  em 
França,  no  final  do  século  XIII  e  durante  o  século  XIV,  embora  a  prestação  de  homenagem  e  a  deten¬ 
ção  de  uma  senhoria  vassálica  não  proporcionassem  imediatamente  o  enobrecimento  de  um  membro 
da  plebe,  o  vínculo  não  deixava  por  isso  de  se  integrar  no  quadro  da  vassalidade.  Afinal,  não  devemos 
esquecer  que  a  mobilidade  social  tomava  a  classe  dominante  mais  ampla  do  que  a  nobreza. 

■'  P.  Toubert  (1973  b)  1090-1097  e  1 102  e  segs.  mostra  que  no  Latium,  onde  não  existia  qualquer 
tradição  vassálica  proveniente  do  período  antenor.  os  papas  recorreram  a  formas  jurídicas  originaria- 
mente  estranhas  às  relações  de  subordinação  para  criar  e  desenvolver  as  suas  redes  de  vassalos.  Só 
mais  tarde  o  sistema  vassálico.  já  enraizado  firmemente,  foi  aqui  assimilado  pelo  quadro  jurídico  pre¬ 
valecente  a  norte. 

4  J.  M.  Klassen  (1978)  47-48.  por  exemplo,  pretende  que  as  concessões  feudais  praticamente  só 


Oa  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


22.s 


cismo  tem  sido  sistemático  a  respeito  das  regiões  a  sul  do  Loire5.  Porém,  estes  autores 
deviam  re flectir  sobre  o  facto  de  em  toda  a  França,  no  começo  do  período,  a  autoridade 
dos  príncipes  ter  sido  a  tal  ponto  soberana  que  na  maior  parte  dos  casos  a  homenagem 
que  eles  prestavam  ao  monarca  não  supunha  a  execução  dos  deveres  de  vassalo6.  Espe¬ 
cialmente  significativo  era  o  caso  do  duque  da  Normandia,  cuja  homenagem  ao  rei  não 
implicava  formalmente  quaisquer  obrigações  práticas,  nem  sequer  a  promessa  de  não 
lhe  fazer  guerra,  de  modo  que  a  única  função  da  cerimónia  consistia  em  confirmar  a 
superioridade  hierárquica  do  rei  sobre  o  duque  .  Assim,  a  vassalidade  foi  empregue 
mesmo  para  o  estabelecimento  de  hierarquias  genéricas,  e  isto  sucedeu  na  própria  Nor¬ 
mandia,  onde  defensores  intransigentes  do  modelo  clássico  das  relações  intersenhoriais 
admitem  que  a  pirâmide  das  relações  vassálicas  estava  desenhada  com  perfeição8.  É 
uma  experiência  interessante  mudar  dos  historiadores  franceses  para  os  espanhóis,  e 
verificamos  então  que  estes  atribuem  à  Catalunha  um  sistema  vassálico  inteiramente 
desenvolvido,  enquanto  no  resto  da  península  ibérica,  com  excepção  da  Galiza,  conside¬ 
ram  frequentemente  que  as  relações  de  subordinação  se  teriam  mantido  em  formas 
embrionárias  ou  obedeceriam  a  uma  estrutura  menos  coerente4.  Ora,  sob  o  ponto  de 
vista  da  cultura  e  das  instituições  políticas,  a  Catalunha  era  um  anexo  da  França  meri¬ 
dional,  pelo  que  aquela  mesma  situação  que  para  muitos  especialistas  franceses  demons¬ 
traria  a  inexistência  de  vassalidade  a  sul  do  Loire  serve  aos  seus  colegas  espanhóis  para 


apareceram  na  Boémia  a  partir  do  começo  da  segunda  década  do  século  XIV.  trazidas  pelos  monarcas 
da  dinastia  do  Luxemburgo,  e  que  no  último  terço  desse  século  a  nova  situação  deu  azo  à  resistência 
armada  da  nobreza  contra  a  coroa.  O  que  na  realidade  ocorreu,  em  meu  entender,  foi  o  choque  entre 
duas  modalidades  de  concessões  vassálicas.  sendo  o  sistema  tradicional  adequado  a  uma  maior  dis¬ 
persão  dos  poderes,  enquanto  o  novo  sistema  acompanhava  os  esforços  de  centralização  régia. 

5  Quando  E.  Perroy  et  al.  (1955)  245-246  defendem  que  nas  regiões  meridionais  do  continente  as 
obrigações  implicadas  pelas  relações  de  subordinação  eram  muito  menos  precisas  do  que  a  norte,  será 
à  realidade  prática  que  se  referem  ou  apenas  ao  grau  de  rigor  assumido  pelas  fórmulas  jurídicas?  É 
significativo  a  este  respeito  o  diálogo  entre  E.  Magnou-Nortier  e  R.  Boutruche  em  Centre  National  de 
la  Recherche  Scientifique  ( 1968)  479-480.  Para  E.  Magnou-Nortier  (1980)  161  e  163  a  vassalidade  só 
a  partir  do  século  Xll  se  teria  desenvolvido  na  França  meridional,  segundo  um  processo  exterior  aos 
quadros  jurídicos  autóctones.  Também  P.  Ourliac  (1968  )  582,  585  e  588  não  encontrou  juramentos  de 
fidelidade,  nem  cerimónias  de  homenagem,  nem  vassalos  na  área  compreendida  entre  os  rios  Tam  e 
Viaur  no  final  do  século  XII.  Logo  a  norte  desta  região,  porém,  na  Auvergne,  A.-G.  Manry  (org. 
1974)  103  mostra  que  a  ausência  de  homenagem  não  impediu  a  vassalidade  de  proliferar  desde  o  prin¬ 
cípio  do  período,  e  logo  a  sul.  em  tomo  de  Béziers,  M.  Gramain  ( 1980)  1 30  e  132  observa  que  o  facto 
de  nas  atribuições  de  senhorias  não  estarem  especificados  quais  os  serviços  requeridos  ao  concessio¬ 
nário  nem  ser  exigida  a  prestação  de  homenagem  ou  de  fidelidade  não  obstou  à  formação  de  vínculos 
de  subordinação  bastante  fones.  Por  seu  tumo,  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  147  afirmam  que  a  vassalagem 
se  desenvolveu  no  sul  da  França  no  interior  dos  quadros  jurídicos  tradicionais  e  P.  Bonnassie  (1980) 
41-43  acrescenta  mesmo  que  se  tratava  de  um  sistema  vassálico  perfeito,  e  não  incompleto.  Todavia, 
no  seu  estudo  sobre  a  Provença  J.-P.  Poly  ( 1976)  143-156.  depois  de  prolixos  raciocínios  jurídicos 
respeitantes  ás  várias  formas  de  concessão,  conciui  que  até  ao  século  XII  as  relações  vassálicas  não 
constituíram  a  forma  preponderante  de  detenção  dos  castelos. 

fiJ.  Dhondtt  1948  b)  254. 

7  M.  Bouard  (org.  1970)  1 19. 

8  Ver,  por  exemplo,  R.  Boutruche  ( 1968-1970)  II  316. 

9  Consultar  neste  sentido:  G.  Valdeavellano  ( 1955)  5-7,  58-59.  72;  id.  (1958)  223-224,  228-229;  J. 
Vicens  Vives  ( 1959)  1 34.  Ver  também:  E.  Lourie  ( 1966)  61 . 63. 


22  6 


Forma  II  do  dinheiro 


confirmar  a  presença  de  uma  vassalidade  perfeita  na  Catalunha.  Por  vezes  invoca-se  o 
facto  de  os  vínculos  de  subordinação  poderem  ser  interrompidos  com  facilidade  em 
Leão  e  Castela,  tanto  por  parte  do  vassalo  como  do  senhor  superior,  para  se  declarar  que 
não  teria  ali  existido  um  sistema  vassálico  coerente,  ou  que  ele  possuiria  características 
muito  especiais10.  E,  todavia,  sabemos  que  na  Germânia,  onde  no  plano  jurídico  as  obri¬ 
gações  recíprocas  do  senhor  superior  e  do  vassalo  eram  consideradas  válidas  por  toda  a 
vida,  na  prática  elas  sofriam  interrupções  com  muita  frequência11,  tal  como  no  Mâcon- 
nais  o  elo  de  subordinação  passou  a  poder  ser  quebrado  pelo  vassalo12.  Uma  vez  mais. 
não  são  poucos  os  historiadores  a  esquecer-se  de  que,  quando  não  existem  diferenças 
práticas  entre  os  fenómenos,  só  restam  para  analisar  as  diferenças  nas  suas  expressões 
jurídicas.  Com  efeito,  os  elos  de  subordinação  estruturaram  a  aristocracia  castelhano- 
-leonesa  com  a  mesma  intensidade  que  encontramos  do  outro  lado  dos  Pirenéus12. 

Um  grande  historiador  afirma,  no  entanto,  que  a  vassalidade  atingiu  formas  regula¬ 
res  e  perfeitas  só  na  Inglaterra  normanda,  nas  áreas  de  soberania  normanda  da  Itália 
meridional  e  da  Sicília,  e  nos  territórios  ocupados  pelos  peregrinos  cristãos  na  Síria  e 
na  Palestina,  precisamente  onde  dinastias  vencedoras,  estabelecidas  por  conquista, 
teriam  importado  o  sistema,  junto  com  os  seus  guerreiros  e  os  seus  administradores  de 
confiança14.  Mas  trata-se  apenas  de  uma  imagem  criada  pela  documentação  e  pelas  fór- 


10  Vão  neste  sentido  as  leses  de  C.  Sánchez- Albornoz  (1980)  576,  58(1  e  L.  G.  Valdeavellano 
(1958)  232.  238-239.  241-246.  Ainda  quanto  à  possibilidade  da  interrupção  voluntária  do  elo  de  vas¬ 
salagem.  ver:  H.  Grassotti  (1968)  424,  436-437:  id.  (1969)  295-296,  441, 456.  472  e  segs.;  C.  Sán- 
chez-Albomoz  (1954)  131,  136-137,  139.  É  interessante  neste  ponto  lembrar  que  E.  Fügedi  (1986  a) 
78  usa  o  mesmo  argumento  a  respeito  da  Hungria. 

11  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  152. 

12  G.  Duby  (1953)  179-180. 

12  C.  Sánchez-Albomoz  (1980)  574-576  assinala  a  frequência  das  relações  vassálicas  no  reino 
astur-leonês  já  no  começo  do  período  e  invoca  (p.  504)  a  vassalização  lenta  e  gradual  do  exército.  A 
este  respeito  ver  igualmente  id.  (1954)  127  e  segs.  Alguns  autores  especificam  que  o  sistema  vassᬠ
lico  foi  especialmente  difundido  e  precoce  na  Galiza:  M.-C.  Gerbet  (1994)  14:  H.  Grassotti  (1969) 
266;  C.  Sánchez-Albomoz  (1980)  199;  G  Valdeavellano  (1955)  59,  72.  Referindo-se  à  época  com¬ 
preendida  entre  os  séculos  X  e  XH,  H.  Grassotti  em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientifique 
(1968)  448  sintetiza  a  questão,  afirmando.  «O  feudalismo  de  Leão  e  Castela  constitui  um  tipo  especí¬ 
fico,  no  interior  do  quadro  geral  da  época  [...]>•.  Esta  historiadora  explica  ainda  que  existiam  relações 
de  tipo  beneficiário  e  vassálico,  ainda  que  diferentes  das  que  se  encontravam  a  norte  dos  Pirenéus. 
Mas  logo  interveio  R.  Boutruche  em  ibid  ,  448-449,  defensor  acérrimo  de  uma  definição  restrita  dos 
elos  de  subordinação,  pretendendo  que  em  tais  condições  seria  impossível  falar  de  feudalismo.  No 
entanto,  mesmo  na  perspectiva  que  atribui  à  França  setentrional  o  lugar  de  modelo  único,  é  interes¬ 
sante  recordar  a  tese  de  C.  Sánchez-Albomoz  (1914)  290,  quando  afirma  que  na  vassalidade  caste- 
Ihano-ieonesa  as  relações  entre  os  magnates  e  o  rei  se  assemelhavam  àquelas  que,  em  França,  ligavam 
os  subvassalos  e  os  seus  senhores  superiores,  mais  do  que  aos  elos  de  subordinação  existentes  entre 
estes  senhores  superiores  e  a  coroa.  Em  Portugal,  embora  a  tradição  historiográfica  desse  país  tenha 
negado  a  ocorrência  da  vassalidade.  ela  não  deixou  de  existir,  assevera  J.  Mattoso  [1994  b[  193-194. 
mas  com  uma  estrutura  mais  frouxa  do  que  em  outros  lugares.  Numa  atitude  aparentemente  contrária, 
R.  Durand  (1982)  594  escreve  que  só  na  terceira  década  do  século  XIII  começaram  a  aparecer  em 
Portugal  alguns  escassos  indícios  de  vínculos  vassálicos.  Este  autor  prossegue,  todavia,  afirmando 
(pp,  614-6151  que  a  questão  de  saber  se  existiu  ou  não  feudalismo  constitui  em  grande  parte  uma  que¬ 
rela  terminológica  e  que.  como  os  monarcas  procediam  a  concessões  senhoriais  em  contrapartida  dos 
serviços  que  a  aristocracia  lhes  prestava,  o  sistema  era  incontestavelmente  feudal. 

14  M.  Bloch  ( 1939-19401  1  280-290.  379 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


227 


mulas  legais.  Nas  regiões  onde  resullou  de  um  processo  de  desenvolvimento  puramente 
interno,  a  vassalidade  manifestou-se  de  maneiras  variadas  e  contraditórias,  que  expri¬ 
miam  a  pluralidade  de  tradições  jurídicas.  Mas  se  um  grupo  de  cavaleiros  vencesse  a 
aristocracia  nativa  e  se  apoderasse  da  coroa,  pretendendo  de  um  dia  para  o  outro  impor 
à  população  subjugada  os  seus  moldes  jurídicos  próprios,  tinha  para  isso  de  lhes  dar  um 
carácter  altamente  sistematizado;  a  coberto  destas  fórmulas  rígidas,  porém,  a  sociedade 
tinha  outros  matizes15. 


15  Numerosos  especialistas  não  aceitam  que  o  thegn  da  época  anglo-saxónica  fosse  um  verdadeiro 
vassalo.  Por  exemplo.  F.  M.  Stenton  (1971)  682  considera  que  o  serviço  guerreiro  cumprido  pelo 
thegn  era  de  ordem  pessoal,  sem  qualquer  relação  com  as  senhorias  que  ele  pudesse  ter  recebido,  o 
que  seria  suficiente  para  provar  a  inexistência  de  vassalidade  naquela  época.  Não  deixa  de  ser  curioso 
recordar  que  mesmo  em  regiões  do  continente  onde  os  historiadores  são  unânimes  em  confirmar  a 
existência  do  sistema  vassálico  é  um  tema  usual  de  debate  saber  se  a  relação  era  de  carácter  pessoal 
ou  fundiário.  Ver  neste  capítulo  a  n.  70.  Quanto  a  esta  problemática,  um  bom  número  de  autores  não 
parece  ser  capaz  de  detenninar  claramente  a  linha  divisória  entre  a  regra  e  as  excepçôes.  Afirmando 
também  que  o  sistema  militar  anglo-saxómco  não  tinha  características  vassálicas,  C.  W.  Hollister 
(1968)  175-184  admite  que  este  sistema  tivesse  coexistido  durante  algum  tempo  com  o  sistema  vassᬠ
lico  introduzido  pelos  conquistadores  nomiandos.  No  entanto,  quando  os  especialistas  analisam  a 
questão  com  algum  detalhe,  indicam  que  nos  anos.  ou  nas  décadas,  posteriores  à  conquista,  enquanto 
a  situação  continuava  instável,  os  novos  senhores,  tanto  laicos  como  eclesiásticos,  dispunham  normal- 
mente  do  serviço  guerreiro  de  vassalos  domésticos,  mantidos  sobretudo  mediante  prebendas,  mas  que 
recebiam  também  senhorias  minúsculas  na  vizinhança  imediata  dos  castelos.  Ver  a  este  respeito:  F.  L. 
Ganshof  (1968  b)  66,  89-90;  J.  Le  Patourel  ( 1 969)  424-425;  M.  M.  Postan  (1978  a)  95:  F.  M.  Stenton 
(1971)  635;  R.  F.  Trehame  (1946-1948)  2.  7.  Isto  mostra  que,  longe  de  levarem  consigo  uma  vassali¬ 
dade  perfeita  e  bem  estruturada,  os  Normandos  recorreram  a  formas  mistas,  localizadas  entre  a  fideli¬ 
dade  guerreira  e  a  vassalagem  propriamente  dita.  Todavia,  antes  ainda  de  se  ter  extinguido  esta  situa¬ 
ção  transitória,  chegando-se  à  vassalidade  plena,  já  a  coroa  se  havia  apercebido  das  fraquezas  da  hoste 
vassálica  e  começara  a  introduzir  paralelamente  outras  modalidades  de  recrutamento  e  de  organização 
das  tropas,  como  mencionam:  A.  L.  Poole  ( 1946)  39.  42-43;  M.  M.  Postan  (1978  a)  95;  J.  O.  Prest- 
wich  (1954)  22-25;  M.  Prestwich  ( 1972)  67.  Afinal,  como  o  leitor  sabe  (desde  os  capítulos  5.c  e  6.b 
da  Parte  1),  parece-me  preferível  admitir,  com  E.  John  (1960)  124,  138,  140,  145-146,  149  e  segs., 
160  e  ( 1963-1964)  31,  35-36,  que  o  serviço  militar  prestado  pelos  thegn  s  fosse  de  carácter  vassálico. 
Nesta  perspectiva,  compreende-se  mais  facilmente  que  na  época  normanda  a  estrutura  dos  exércitos 
tivesse  continuado  a  escapar  ao  modelo  de  vassalidade  tido  como  clássico. 

A  leitura  de  J.  Prawer  (1968  b)  157  revela  que  as  mesmas  incertezas  caracterizaram  também  as 
relações  de  subordinação  no  reino  latino  de  Jerusalém,  onde  Balduíno  1,  que  reinou  nas  duas  décadas 
inaugurais  do  século  XII.  manteve  na  sua  domesticidade  numerosos  vassalos;  de  igual  modo  (p.  160). 
os  grandes  senhores  contavam  com  a  presença  doméstica  de  uma  quantidade  muito  considerável  de 
vassalos.  Outro  factor  de  irregularidade,  existente  desde  o  primeiro  momento  no  reino  de  Jerusalém, 
deveu-se  às  terras  conquistadas  e  ocupadas  pela  aristocracia  nas  campanhas  iniciais,  fora  de  qualquer 
sanção  régia  e  completamente  alheias  ao  sistema  de  serviços  vassálicos,  como  refere  id.  (1951-1952) 
83;  ora.  estas  senhorias  continuaram  de  então  em  diante  a  manter  uma  total  autonomia.  Às  anomalias 
originárias,  os  territórios  levantinos  sujeitos  à  soberania  cristã  acrescentaram  depois  outras  peculiari¬ 
dades,  resultantes  do  seu  processo  de  desenvolvimento.  Numa  análise  minuciosa,  id.  (1968  b)  168- 
-174  mostra  que  a  pirâmide  vassálica  veio  na  realidade  a  adoptar  uma  forma  truncada,  reforçando- se  o 
pequeno  número  de  famílias  da  alta  nobreza,  que  em  princípio  deveriam  ocupar  apenas  o  segundo 
nível  da  hierarquia,  e  declinando  a  autoridade  real.  até  se  extinguir  completamente,  o  que  deixou  o 
sistema  sem  vértice.  A  tal  ponto  que  nos  meados  do  século  Xll  o  rei  de  Jerusalém,  a  quem  cabia  for- 
maimente  o  título  de  senhor  superior  dos  demais  príncipes  cristãos  da  Palestina  e  da  Síria,  já  não 
podia  invocar  os  elos  de  subordinação  para  obter  o  eventual  apoio  destes  príncipes,  como  recorda  M. 
W.  Bald wm  (1955)  529. 


228 


Forma  II  do  dinheiro 


Em  qualquer  caso.  mesmo  que  não  ocorresse  o  ritual  da  homenagem  e  não  se  esti¬ 
pulassem  formalmente  os  serviços  devidos  pelo  vassalo,  para  que  existisse  a  relação  de 
subordinação  era  absolutamente  necessário  verificar-se  uma  concessão,  que  tanto  podia 
dizer  respeito  a  um  bem  efectivamente  transferido  da  posse  do  senhor  superior  para  a 
do  vassalo  como  consistir  num  bem  já  pertencente  ao  vassalo  e  que  este  atribuía  no 
plano  simbólico  ao  senhor  superior,  dele  o  recebendo  de  novo.  acompanhado  eventual¬ 
mente  por  outras  concessões.  Na  realidade,  desde  o  começo  do  período  que  o  sistema 
vassálico  se  desenvolveu  através  desta  segunda  via.  Tratava-se  para  os  aristocratas  mais 
poderosos  de  um  meio  de  assimilar  à  esfera  do  seu  bannurn  os  outros  senhores  meno¬ 
res,  com  os  seus  dependentes  e  as  suas  posses16.  A  rede  de  relações  de  subordinação  só 
acessoriamente  se  formou  por  projecção,  e  na  grande  maioria  dos  casos  constituiu-se 
por  anexação.  Uma  das  finalidades  dos  rituais  de  vassalagem  ou.  quando  eles  não  exis¬ 
tiam.  das  representações  mentais  que  se  encontravam  difundidas  nesta  sociedade  era 
precisamente  escamotear  a  diferença  substancial  existente  entre  aqueles  dois  processos, 
considerando-se  que  o  vassalo  tanto  recebia  a  concessão  quando  ela  era  retalhada  do 
conjunto  de  terras  e  direitos  decorrentes  do  senhor  superior  como  quando  a  senhoria 
vassálica  estava  já  originariamente  nas  mãos  do  vassalo,  e  só  no  plano  dos  valores  sim¬ 
bólicos  havia  sido  transferida  para  o  senhor  superior,  para  que  ele  aparentasse  cedê-la 
ao  vassalo.  Era  esta  ficção,  porém,  que  conferia  toda  a  realidade  ao  gesto,  porque  não 
se  tratava  aqui  de  entregar  objectos  físicos,  mas  de  tecer  relações  sociais.  Só  mediante  a 
concessão  vassálica  se  marcava  a  hierarquia  entre  aristocratas,  que  constituía  um  dos 
objectivos  centrais  deste  sistema  de  relacionamento. 

Na  França  meridional  e  na  Catalunha,  por  exemplo,  era  muitíssimo  divulgado  entre 
famílias  da  aristocracia  um  certo  tipo  de  pactos  jurados,  que  tanto  incluía  as  modalida¬ 
des  em  que  ocorria  uma  concessão  senhorial,  e  que  por  conseguinte  representavam  um 
elo  vassálico.  como  circunstâncias  de  tipo  diferente,  em  que  existia  reciprocidade  no 
caso  de  haver  veiculação  de  bens  e  que  supunham,  portanto,  um  relacionamento  em 
plano  de  igualdade,  pelo  menos  no  que  dizia  respeito  aos  termos  do  pacto17.  Logo,  é 
improcedente  o  intuito  polémico  de  alguns  historiadores,  que  recusam  em  bloco  o 


16  Sob  o  ponto  de  vista  económico,  observa  A.  Déiéage  (1941  >  615  a  propósito  da  Borgonha,  a 
história  da  senhoria  vassálica  é  a  história  da  incorporação  da  pequena  senhona  na  grande  senhoria. 
Acerca  da  transformação  sistemática  de  senhonas  independentes  em  senhorias  vassálica*.  mediante  a 
conversão  dos  seus  antigos  proprietários  em  vassalos,  ver:  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  265-266:  P.  Bon- 
nassie  <  1980)  22-23;  R.  Boutruche  (1968-1970)  1  200.  II  276  e  segs..  284.  316;  G.  Duby  1 1953)  141- 
-142.  174.  495-496;  L.  Genicot  ( 1975)  47.  As  modalidades  jurídicas  em  que  esta  operação  se  reali¬ 
zava  eram  variáveis,  e  M.  Aurell  i  Cardona  (1986)  39  descreve  um  caso.  ocorrido  em  Aries  nos  mea¬ 
dos  do  século  XII,  em  que  as  formas  arcaicas  do  direito  escrito  relativas  ao  penhor  e  ao  caucionante 
foram  empregues  para  justificar  o  que  constituiu  na  realidade  a  mutação  de  uma  senhoria  indepen¬ 
dente  em  senhoria  vassálica. 

17  Para  uma  definição  destes  pactos,  denominados  convenieninv.  ver  P.  Bonnassie  (1968)  529. 
Este  historiador  esclarece  (p.  533).  a  propósito  do  caso  catalão,  que  frequentemente  a  convenientia  se 
limitava  a  indicar  a  obrigação  de  fidelidade  do  vassalo  ao  seu  senhor  superior,  sem  mencionar  em 
contrapartida  qualquer  concessão,  devendo  então  o  documento  ser  completado  por  outro,  subscrito 
pelo  senhor  superior,  e  relativo  à  atribuição  da  senhoria  vassálica;  muitas  vezes,  porém,  a  convenien¬ 
tia  continha  ambos  os  aspectos.  Ainda  acerca  das  convenientúe.  J.-P.  Poly  et  al.  ( 1980)  146  observam 
que  na  França  a  sul  do  Loire  o  vínculo  de  vassalagem  era  marcado  pelo  juramento,  parecendo  que  não 


i)a  vassaUJiide  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


229 


carácter  vassálico  a  todos  estes  pactos,  qualquer  que  fosse  o  seu  conteúdo18.  As  condi¬ 
ções  jurídicas  na  França  meridional,  bem  como  na  Catalunha,  que  lhe  era  culturalmente 
adjacente,  parecem  implicar  que  uma  mesma  fórmula  servisse  às  relações  de  subordi¬ 
nação  e  às  relações  entre  pares19.  A  função  do  historiador  é  desvendar  estas  situações, 
em  vez  de  se  deixar  mistificar  por  elas. 


existia  homenagem,  mas  que  mesmo  na  Catalunha,  onde  tinha  lugar  a  cerimónia  da  homenagem,  o 
juramento  era  considerado  o  elemento  fundamental.  Em  termos  jurídicos,  elucida  Pierre  Bonnassie 
em  op.  eii..  534.  a  convenientia  era  mais  importante  do  que  a  homenagem,  e  o  juramento  de  fidelidade 
implicava  a  redacção  de  outro  documento.  Este  historiador,  em  (1980)  38  n.  83  e  39,  deixou  muito 
claro  o  lugar  central  ocupado  pelas  convenientia1  nas  relações  de  subordinação  não  só  na  Catalunha, 
mas  em  toda  a  península  hispânica. 

18  É  uma  posição  assumida,  entre  outros,  por  A.  R.  Lewis  (1965)  307-309  e  376-377.  Para  com¬ 
preender  a  tese  deste  historiador  leia-se  neste  capítulo  a  n.  58.  Todavia,  a  defesa  mais  extrema  do  mesmo 
ponto  de  vista  deve-se  a  E.  Magnou-Nortier,  nomeadamente  em  ( 1968)  468  e  470-476.  Para  esta  autora, 
tais  pactos,  denominados  convenientia.  diriam  respeito  à  ordem  pública  e  não  às  relações  de  subordina¬ 
ção,  as  quais  seriam  remetidas  para  o  domínio  privado  e  que,  além  disso,  jamais  implicariam  qualquer 
hierarquia  entre  as  partes.  Assim,  Élisabeth  Magnou-Nortier  conclui  (p.  476)  que  na  França  meridional 
os  juramentos  de  fidelidade  e  as  relações  de  vassalagem  nunca  se  teriam  fundido,  e  em  (1980)  161  volta 
a  atribuir  a  todas  as  convenientia  o  carácter  de  contratos  igualitários,  que  não  ocasionavam  vínculos  de 
subordinação.  Na  sua  série  de  artigos  de  (1981-1984)  a  historiadora  desenvolveu  (XII,  pp.  88,  90-91, 
93)  a  tese  relativa  ao  carácter  fiscal  destas  instituições  e  à  persistência  do  poder  público  na  França  a  sul 
do  Loire.  Para  uma  crítica  a  tais  concepções  ver,  na  Parte  I.  a  n.  2  do  capítulo  1  e  a  n.  14  do  capítulo  9. 
No  que  diz  respeito  mais  directamente  ao  problema  aqui  em  discussão,  Élisabeth  Magnou-Nortier  consi¬ 
dera  (XII,  pp.  76  e  segs.,  87)  que  as  concessões,  quando  ocorriam,  não  implicavam  qualquer  vassalagem 
e  reafirma  (XII,  pp.  89-91 )  o  carácter  não  vassálico  dos  pactos  jurados.  Aliás,  a  autora  indica  de  maneira 
geral  (XII,  pp.  54-55,  76,  89)  a  inexistência  de  um  sistema  vassálico  no  Languedoc,  mas  para  avaliar¬ 
mos  o  significado  destas  apreciações  convém  saber  que,  em  seu  entender  (XII,  pp.  90-91 . 93),  enquanto 
a  concessão  recebida  por  um  castelão  lhe  garantia  certos  rendimentos,  que  ela  classifica  como  sendo  de 
ordem  pública,  o  juramento  de  fidelidade  diria  respeito  apenas  ao  compromisso  de  assumir  correcta¬ 
mente  as  funções  inerentes  ao  cargo.  Fico  sem  saber  o  que  admirar  mais,  se  a  completa  ausência  de  uma 
perspectiva  sociológica  que  insufle  uma  certa  vida  nestas  fantasmagorias  jurídicas,  se  uma  tão  grande 
dose  de  ingenuidade.  Para  uma  crítica  às  concepções  desta  autora  ver  igualmente  neste  capítulo  as  nn.  5 
e  28.  Partindo  de  pressupostos  metodológicos  muito  mais  amplos  e  demonstrando  uma  compreensão 
muito  mais  profunda  da  dinâmica  histórica,  P.  Bonnassie  (1968)  530  e  segs.  e  <  1980)  41-42  não  duvida 
do  carácter  perfeitamente  vassálico  das  relações  de  subordinação  veiculadas  pelas  convenientice.  Con¬ 
sultar  no  mesmo  sentido  M.-C.  Gerbet  ( 1 994 )  31.  A  meio  entre  uma  e  outra  posição,  parece-me  dificil¬ 
mente  compreensível  a  tese  de  Th.  N.  Bisson  ( 1 980)  1 75- 1 77,  que  depois  de  pretender  que  na  Catalunha 
do  século  XII  o  juramento  dos  pactos  nunca  implicav  a  o  estabelecimento  de  elos  de  vassalagem,  conclui 
que  os  castelos,  apesar  de  detidos  nos  termos  dos  pactos,  formavam  a  base  de  um  amplo  sistema  vassᬠ
lico.  É  especialmente  interessante  a  polémica  gerada  em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientifique 
(1968)  560-561.  Élisabeth  Magnou-Nortier  começa  por  afirmar  que  o  facto  de  as  convenientice  do  Lan¬ 
guedoc  não  apresentarem  fórmulas  suplementares  de  fidelidade  determina  que  não  existiria  um  sistema 
vassálico.  Em  resposta,  Pierre  Bonnassie  revela  que  a  documentação  por  ele  usada  para  a  Catalunha  foi 
extraída  de  arquivos  laicos,  e  observa  que  se  tivesse  restado  apenas  o  acervo  eclesiástico  não  seria  possí¬ 
vel  encontrar  as  fórmulas  suplementares.  Pressionada  por  Jean-Pierre  Poly,  Élisabeth  Magnou-Nortier 
esclarece  então  que  no  seu  estudo  da  França  meridional  emprega  exclusivamente  documentação  ecle¬ 
siástica.  No  entanto,  Poly  informa  que  o  escasso  número  de  documentos  encontrados  nos  fundos  laicos 
da  Provença  se  assemelha  aos  apresentados  por  Élisabeth  Magnou-Nortier,  e  não  aos  utilizados  por 
Bonnassie.  o  que  serve  a  Jean  Schneider  para  encerrar  a  discussão,  afirmando  apressadamente  que  a  ori¬ 
gem,  eclesiástica  ou  laica,  da  documentação  não  constitui  um  factor  decisivo. 

|u  Referindo-se  à  França  meridional  e  à  Catalunha  no  começo  do  período,  J.-P.  Poly  et  al.  (1980) 


230 


Forma  II  do  dinheiro 


A  regra  que  me  guia  neste  capítulo,  e  permite  simplificar  os  fenómenos,  é  bastante 
clara.  A  vassalidade  caracterizava-se  pelo  facto  de  as  concessões  de  terras  e  homens, 
ou  de  rendimentos,  ou  de  direitos,  implicarem  para  as  duas  partes  um  vínculo  mais 
amplo,  mais  profundo  e  mais  prolongado  do  que  sucedia  com  os  tipos  de  relaciona¬ 
mento  que  diziam  estrilamente  respeito  à  mera  transferência  de  bens.  Quaisquer  que 
fossem  as  cerimónias  e  as  regras  de  direito  a  assinalar  o  acto  da  concessão,  se  ele  ser¬ 
visse  para  desenvolver  aquela  teia  de  relações,  então  concluo  que  se  tratava  de  vassa¬ 
lagem. 

Nesta  perspectiva  devemos  recordar  que  o  modelo  da  linhagem,  levando  a  uma 
demarcação  muito  precisa  dos  contornos  de  cada  família,  tomava  necessário  consolidar 
uma  rede  de  alianças  que  impedisse  a  classe  dominante  de  se  digladiar  intemamente  até 
à  exaustão.  Vimos  (no  capítulo  6.b)  que  as  estratégias  matrimoniais  constituíram  uma 
das  fornias  de  resolução  deste  problema.  Outra  forma  consistiu  na  proliferação  das 
relações  de  vassalagem  e  na  aplicação  de  sistemas  de  vassalidade  muito  mais  rigorosos 
do  que  os  existentes  no  período  anterior.  Aliás,  as  duas  maneiras  de  reforçar  a  coesão 
da  aristocracia  combinavam-se  perfeitamente,  e  sucedia  que  o  estabelecimento  do  vín¬ 
culo  de  subordinação  fosse  precedido  pelo  casamento  do  candidato  a  vassalo,  ou  de  um 
homem  pertencente  à  sua  família,  com  uma  mulher  originária  da  família  do  futuro 
senhor  superior20.  A  ordem  dos  acontecimentos  podia  também  ser  a  inversa,  servindo 
então  as  relações  matrimoniais  para  consolidar  solidariedades  vassálicas  já  definidas21. 
O  que  me  interessa  neste  capítulo,  todavia,  não  são  as  alianças  conjugais  propriamente 
ditas,  mas  as  suas  eventuais  repercussões  sobre  os  elos  de  subordinação.  Convém  anali¬ 
sar  em  primeiro  lugar  a  proliferação  das  relações  vassálicas,  que  através  da  vassalagem 
múltipla  ocorreu  no  mesmo  plano,  por  assim  dizer,  e  ao  mesmo  tempo  também  em  pro¬ 
fundidade,  pelo  recurso  sistemático  à  subvassalização. 

Inicialmente  não  se  podia  estar  subordinado  a  mais  de  um  senhor  superior,  e  a 
vassalagem  múltipla  ou  surgiu  nos  últimos  anos  do  século  IX  ou  começara  mesmo  a 


146  chamam  a  atenção  para  o  facto  de  aqueles  pactos  jurados,  as  convenienüce,  servirem  para  uma 
multiplicidade  de  objectivos.  incluindo  o  estabelecimento  de  vínculos  de  subordinação,  e  de  em  todos 
o$  casos  ser  invariável  o  texto  do  juramento.  Também  P.  Bonnassie  ( 1968)  529-530,  a  propósito  da 
situação  da  Catalunha  no  século  XI,  observa  que  este  tipo  de  pactos  jurados  dizia  respeito  aos  mais 
diversos  assuntos,  mas  acrescenta  que  a  maior  pane  se  aplicou  às  relações  vassálicas.  Na  segunda 
metade  do  século  XI  e  nos  começos  do  século  seguinte,  especifica  id.  (1975-1976)  736-737.  a  maioria 
das  convenientue  tinha  como  finalidade  definir  as  obrigações  recíprocas  que  uniam  os  senhores  supe¬ 
riores  aos  seus  vassalos. 

M.-C.  Gerbet  <  1994)  59;  J.  Mattoso  [1994  bj  137,  192;  J.  E.  Ruiz  Domenec  ( 1979)  308. 

Nos  meados  do  século  XIII  o  rei  de  Portugal  desposou  uma  filha  bastarda  do  soberano  de  Leão 
e  Castela  ao  mesmo  tempo  que  lhe  prestava  vassalagem  pelo  reino  do  Algarve,  consoante  indica  J. 
Mattoso  [  1994  b)  137. 

Nos  territórios  sujeitos  à  soberania  cristã  na  Palestina  e  na  Síria.  M.  W.  Baldwin  (1955)  529 
regista  uma  evolução  peculiar.  Nos  meados  do  século  XII  deixaram  de  se  respeitar  os  elos  vassálicos 
que  subordinavam  ao  reino  de  Jerusalém  os  principados  de  Trípoli  e  da  Antioquia.  e  de  então  em 
diante  a  intervenção  do  rei  nestes  principados  foi  assegurada,  quando  possível,  pelas  relações  de 
parentesco.  Aqui.  em  vez  de  prepararem  o  estabelecimento  de  laços  de  vassalagem,  os  casamentos, 
pelo  contrário,  remediaram  a  dissolução  desses  vínculos. 

21  A.  Guerreau-Jalabert  ( 1981 1  1040. 


Da  vassa!  idade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


231 


difundir-se  a  partir  de  meados  desse  século22.  Ao  longo  deste  segundo  período,  porém, 
a  vassalagem  múltipla  tomou-se  normal  em  todas  as  áreas  de  soberania23,  sendo 
conhecidos  casos  de  homens  subordinados  a  várias  dezenas  de  senhores  superiores24. 
Por  vezes  foram  os  próprios  senhores  superiores  a  estimular  que  os  seus  vassalos  pres¬ 
tassem  igualmente  homenagem  a  outro  senhor  superior,  e  reciprocamente,  de  maneira 
que  com  estas  fidelidades  cruzadas  os  magnates  teciam  entre  eles  alianças  mais  estrei¬ 
tas25.  Por  outro  lado,  para  evitar  fricções  ou  consolidar  acordos  podiam  estabelecer-se 
vínculos  de  subordinação  entre  grandes  senhores  igualmente  poderosos26.  Uma  tal 
ampliação  do  quadro  da  vassalagem  permitia  até  que  a  mesma  pessoa  tivesse  senhores 
superiores  pertencentes  a  áreas  de  soberania  diferentes27,  o  que  basta  aliás  para  mos¬ 
trar  como  a  actual  noção  de  Estado  é  inaplicável  àquela  época.  Só  assim  se  esclarecem 
alguns  aspectos,  à  primeira  vista  difíceis  de  explicar,  acerca  da  forma  como  se  proces¬ 
savam  as  rivalidades  entre  soberanos.  A  complexidade  das  alianças  e  os  variadíssimos 
interesses  e  ambições  em  jogo  levaram  também  a  que  frequentemente  os  grandes 
senhores  se  tornassem  vassalos  de  aristocratas  de  menor  prestígio28,  beneficiando 
deste  modo  de  concessões  rendosas,  enquanto  ampliavam  a  teia  de  relações  em  que  se 
inseriam.  Sucedia  nestes  casos  o  mesmo  que  vimos  já  ter  acontecido  naquelas  modali¬ 
dades  de  família  artificial  em  que  um  magnate  se  fazia  adoptar  como  filho  por  alguém 
com  fortuna  inferior  ou  mesmo  de  estatuto  mais  baixo,  no  intuito  de  lhe  herdar  os  bens 
ou  de  se  introduzir  numa  esfera  de  apropriação  colectiva29.  E  esta  similitude  na  inver- 


22  O  exemplo  mais  antigo  que  se  conhece  de  vassalagem  prestada  a  dois  senhores  superiores  data  de 
895.  na  região  de  Tours.  consoante  leio  em  M.  Bloch  ( 1939-1940)  1  326,  R.  Boutmche  ( 1968-1970)  I 
217  e  F.  L.  Ganshof  (1955  b)  111.  Todavia,  Robert  Boutruche  em  op.  cit..  I  217  e  11  162  e  segs.  admite 
que  a  situação  cm  que  um  mesmo  vassalo  prestava  uma  pluralidade  de  homenagens  se  verificasse  já  na 
primeira  metade  do  século  IX  e  tivesse  começado  a  difundir-se  a  partir  de  meados  desse  século. 

23  M.  Bloch  (1939-1940)  1  326:  P.  Bonnassie  ( 1975  1976)  743:  R.  Boutniche  (1968-1970)  II  16.3; 
G.  Duby  ( 1953)  182.  192-193:  F.  L.  Ganshof  (1955  b)  1 12;  id.  <  1968  b)  95-97:  L.  Genicot  (1975)  48;  F. 
Lebrun  (org.  1972)  129;  J.-F.  Lemarignier  (1965)  60-64;  A.-G.  Manry  (org.  1974)  103;  E.  Perroy  et  al. 
(1955)  244;  F.  M.  Stenton  (1971)491;  P.  Toubert  (1973  b)  1 153-1 154;  L.  G.  Valdeavellano  ( 1958)  250. 

H.  Grassotti  ( 1969)  363.  E.  Lourie  (1966)  63  e  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  239  afirmam  que  em 
Castela  era  proibida  a  vassalagem  múltipla.  Por  outro  lado,  Hilda  Grassotti  em  op.  cit..  122  escreve 
que  o  senhor  de  um  município  proibia  os  membros  da  cavalaria  popular  dessa  localidade  de  se  subor¬ 
dinarem  a  outro  senhor  que  não  ele  próprio.  Será  que  a  facilidade  com  que  se  podiam  aqui  romper  os 
elos  de  subordinação  tomava  inútil  a  multiplicação  simultânea  dos  vínculos? 

24  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  326;  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  95. 

25  Foi  o  que  sucedeu  no  começo  do  período  na  França  a  sul  do  Loire,  segundo  indicam  J.-P.  Poly 
etal.  (1980)  142. 

26  P.  Bonnassie  (1968)  538;  ü.  Duby(1953)  187-189. 

27  M.  Sczaniecki  (1946)  92. 

28  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  363:  G.  Duby  ( 1953)  181,  193-194. 

Vemos,  assim,  que  é  inteiramente  improcedente  um  dos  argumentos  com  que  E.  Magnou-Nortier 
(1968)  468  pretende  recusar  o  carácter  vassálico  a  todo  o  tipo  de  convenientiee .  invocando  o  facto  de 
um  nobre  de  hierarquia  superior  poder  prestar  juramento  a  outro  de  estatuto  inferior.  Acerca  do  pro¬ 
blema  das  convenientiee  no  contexto  geral  da  vassalidade  no  sul  da  França  ver  neste  capítulo  as  nn.  17 
a  19.  Só  na  Germânia  era  considerado  que  o  vassalo  se  degradava  se  se  subordinasse  a  alguém  com 
um  estatuto  inferior  ao  seu.  esclarece  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  363  e  II  84. 

29  Recordo  a  este  respeito,  na  Parte  I.  a  n.  63  do  capítulo  18  e  a  n.  105  do  capítulo  19  e,  na  Parte 
II,  as  nn.  9  e  10  do  capítulo  9. 


232 


Forma  II  do  dinheiro 


são  das  hierarquias  usuais  não  deve  espantar-nos.  pois  a  vassalidade  constituía  uma 
forma  transformada  de  família  artificial. 

Enquanto  progredia  a  vassalagem  múltipla,  ia-se  também  convertendo  numa  situa¬ 
ção  normal  a  subvassaiização,  mediante  a  qual  um  vassalo,  a  partir  da  sua  senhoria  vas- 
sálica.  procedia  a  novas  concessões  em  benefício  de  vassalos  seus,  numa  cadeia  que 
podia  reproduzir-se30.  Parece  que  a  prática  da  subvassaiização  requerera  de  início  o 
consentimento  prévio  do  senhor  superior,  mas  rapidamente  isto  se  tomou  desnecessᬠ
rio31  e  o  processo  passou  a  desenvolver-se  sem  limitações  externas.  Só  na  Inglaterra,  no 
final  do  século  XIII,  encontro  notícia  de  uma  reacção  dos  magnates,  que  procuraram 
pôr  cobro  à  subvassaiização.  Com  efeito,  para  alérn  de  um  dado  ponto  os  senhores 
superiores  originários,  que  ocupavam  o  vértice  das  hierarquias,  perdiam  o  controlo 
sobre  os  níveis  inferiores  se  o  desdobramento  destes  níveis  ocorresse  sem  a  sua  autori¬ 
zação.  Mas  talvez,  afinal,  as  medidas  restritivas  só  tivessem  sido  eficazes  porque  entre¬ 
tanto  se  haviam  desenvolvido  outras  formas  de  concessão  vassálica,  que  escapavam  às 
novas  leis  ’-. 

Em  consequência  do  duplo  processo  de  proliferação,  as  numerosas  relações  de 
subordinação  em  que  ficava  inserido  um  mesmo  vassalo  começaram  a  entrar  em  cho¬ 
que  recíproco,  tomando-se  necessário  defini-las  com  muito  mais  rigor  e  hierarquizá- 
-las.  Desde  o  início  do  período  foi-se  difundindo  progressivamente  uma  nova  modali¬ 
dade  de  vassalagem,  considerada  preferencial  relativamente  a  todas  as  outras  que  o 
mesmo  vassalo  pudesse  ter  prestado,  ou  viesse  a  prestar  no  futuro".  A  leste  do  Reno  a 


30  M.  Bouard  (org.  1970)  174;  G.  Duby  (1953)  178-179.  292-297;  A.  J.  Gourévitch  referido  por 
A.  Lioublinskaía  (1963)  730;  J.  M.  Lacarra  (1968)  509;  F.  Lebrun  (org.  1972)  128;  R.  Lennard  ( 1959) 
22;  J.  Mattoso  ( 1994  bj  193:  S.  Painter  (1960)  10,  16;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  244. 

Noie-se  que.  segundo  Ph.  Dollinger  (1949)  305,  entre  os  mimsteriales  da  Baviera,  uma  nobreza 
vassálica  não-livre,  enquanto  os  mais  poderosos  podiam  ter  vassalos  próprios,  isto  já  não  podia  acon¬ 
tecer  com  os  elementos  da  camada  inferior.  J.  Prawer  ( 1968  b)  160  afirma  que  as  circunstâncias  espe¬ 
ciais  prevalecentes  no  reino  latino  de  Jerusalém,  onde  as  terras  eram  poucas  para  o  número  de  cava¬ 
leiros  existente,  teriam  levado  os  legisladores  a  aceitar  a  subvassaiização  apenas  nos  casos  em  que  o 
senhor  superior  originário  mantivesse  um  conjunto  senhorial  correspondente  a  mais  do  que  o  total  das 
áreas  subvassalizadas. 

31  F.  L.  Ganshof  ( 1955  b)  106:  id.  (1968  bi  130. 

32  G.  A.  Holmes  C 1957)  83:  E.  Miller  (1965  b)  124-125,  127,  128. 

33  Vários  historiadores  descrevem,  nem  sempre  de  maneira  concordante,  as  etapas  geográficas  e  a 
cronologia  da  difusão  da  vassalagem  preferencial:  R.  Boutruche  (1968-1970)  JJ  165-166;  F.  L.  Gans¬ 
hof  (1968  b)  95-97:  F,  Lebrun  (org.  1972)  129;  Ch.  E.  Perrin  1 1957-1959)  157-158:  J.-P.  Poly  et  al. 
(1980)  143.  Acerca  da  divulgação  da  vassalagem  preferencial  ver  igualmente:  P.  Bonnassie  (1968) 
534:  id.  (1975-1976)  744-745:  id.  (1980)  22-23:  G.  Duby  (1953)  567-569:  F.  L.  Ganshof  (1955  b) 
112-113:  L.  Genicot  (1975)  48;  J.  Prawer  (1968  b)  168-173:  M.  Sczaniecki  (1946  )  80:  P.  Toubert 
(1973  b)  xxiv,  1154-1156. 

E.  Lourie  ( 1966)  63  afirma  que  em  Leão  e  Castela  não  se  praticou  a  vassalagem  preferencial,  o 
que  é  lógico,  se  for  certo  que  não  existiu  aí  também  vassalagem  múltipla.  Ver  a  este  respeito  a  n.  23. 
Note-se  que  existiram  outras  formas  de  seleccionar  vassalagens.  Na  França  meridional,  a  crer  em  J.-P. 
Poly  et  al.  ( 1980)  144,  uma  das  várias  finalidades  das  convenientia  era  firmar  acordos  entre  senhores 
superiores  destinados  a  limitar  as  fricções  decorrentes  das  vassalagens  entrecmzadas.  E  na  Itália 
setentrional,  nos  casos  de  vassalagem  múltipla.  F  L.  Ganshof  (1968  b)  95  indica  que  prevalecia 
aquela  que  tivesse  ocorrido  primeiro. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


vassalagem  preferencial  praticamente  não  existiu  até  aos  meados  do  século  XII,  só 
começando  a  divulgar-se  de  então  em  diante,  embora  em  menor  grau  do  que  sucedia  a 
ocidente-4.  Talvez  a  política  centralizadora  inicialmente  prosseguida  pela  coroa  germ⬠
nica  tivesse  conservado  durante  algum  tempo  uma  certa  coerência  nas  hierarquias  vas- 
sálicas  da  região,  o  que  contribua  para  explicar  o  desfasamento.  Mas  é  possível  também 
que  o  motivo  principal  consistisse  no  facto  de  se  manter  então  vigorosa  em  toda  a  Ger- 
mânia  a  instituição  de  uma  vassalidade  que.  apesar  de  nobre,  eslava  sujeita  a  restrições 
decorrentes  de  uma  situação  de  ausência  de  liberdade  e  cujos  membros,  portanto,  se 
encontravam  ligados  aos  senhores  superiores  por  um  vínculo  suficientemente  forte  para 
dispensar  a  introdução  de  preferências'5.  No  entanto,  mesmo  estes  vassalos  não-livres 
começaram  a  receber  concessões  de  vários  senhores  superiores,  o  que  levou  à  divulga¬ 
ção  da  vassalagem  preferencial  na  Germãnia4’. 

Pode  argumentar-se  que,  além  das  repercussões  exercidas  sobre  a  vassalidade  pela 
reorganização  familiar  da  aristocracia,  o  fraccionamento  do  bannum  na  área  do  antigo 
império  carolíngio  e  a  instabilidade  que  durante  muito  tempo  caracterizou  os  limites 
das  novas  esferas  de  soberania  tiveram  também  como  efeito  multiplicar  os  elos  de 
subordinação.  Mas  não  se  tratou  de  um  motivo  suficiente,  pois  à  medida  que  a  coroa 
francesa  foi  prosseguindo  a  sua  obra  centralizadora  não  observamos  qualquer  redução 
da  vassalidade  múltipla.  Entretanto,  do  outro  lado  do  Reno  a  concentração  inicial  do 
poder  nas  mãos  do  imperador  efectuou-se  em  boa  medida  através  dos  vínculos  de 
subordinação57.  Aliás,  também  na  Inglaterra  o  recurso  às  hierarquias  vassálicas  ajudou 
os  reis  a  deter,  durante  a  maior  parte  do  período,  os  principais  instrumentos  governati¬ 
vos.  Regressando  ao  império  germânico,  os  percalços  sofridos  em  seguida  por  aquela 
tentativa  de  centralismo  contribuíram  igualmente  para  a  proliferação  dos  elos  vassáli- 
cos3s,  sem  que  as  oscilações  da  soberania  de  cada  um  dos  príncipes  se  repercutissem 


54  Ph.  Dollinger  torg.  1970)  97  e  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  158  consideram  que  a  vassalagem 
preferencial  não  se  difundiu  a  leste  do  Reno.  Todavia,  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  166  afirma  que 
esta  instituição  se  divulgou  na  Germãnia  a  partir  de  meados  do  século  XII,  embora  com  uma  ampli¬ 
tude  menor  do  que  sucedia  a  oeste  daquele  rio.  Ver  no  mesmo  sentido:  H.  Dubled  ( 1960  b)  157;  F.  L. 
Ganshof  ( 1968  b)  95-97. 

15  Ch.  E.  Pemn  <  1957-1959)  161.  Ver  ainda:  H.  Dubled  ( 1960  b)  156. 

F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  95-97. 

Como  observa  K.  Bosl  ( 1979)  296  e  305.  o  quadro  da  vassalidade  e  das  senhorias  vassálicas  con¬ 
fundiu  gradualmente  os  minisienales  com  a  restante  nobreza.  Em  tais  condições  desapareceu,  por¬ 
tanto.  a  especificidade  originária  daquele  vínculo. 

-  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b  l  64  observ  a  que  as  relações  vassálicas  se  generalizaram  nos  séculos  X  e 
XI  tanto  em  França  e  no  reino  da  Borgonha  como  no  oeste  da  Germãnia  e.  embora  em  menor  grau, 
também  na  Germãnia  meridional.  Ora,  eram  muito  diferentes  as  condições  do  exercício  do  poder  nes¬ 
tas  várias  áreas  de  soberania.  Na  Germãnia.  ao  ser  coroado  imperador  no  começo  do  segundo  terço  do 
século  X,  Otâo  1  recebeu  a  vassalagem  dos  duques,  consoante  indica  G.  Barraclough  ( 1972)  28.  Não 
compreendo  que  R  Fossier  (org.  1974)  159-160  atribua  a  escassez  das  relações  vassálicas  na  Picardia 
ao  facto  de  a  autoridade  régia  ter  sido  especialmente  forte  naquela  região,  pois  vimos  que  noutros 
lados  a  coroa  recorreu  precísamcnte  aos  vínculos  de  subordinação  para  consolidar  o  seu  poder. 

-w  Chegada  ao  seu  termo  a  dinastia  sália.  no  primeiro  quartel  do  século  XII,  a  vassalidade  estava 
já  muito  difundida,  esclarece  G.  Barraclough  (1972)  136.  e  a  teia  destas  relações  desenvolveu-se  mais 
ainda  em  virtude  da  crise  do  poder  régio. 


234 


Forma  1/  do  dinheiro 


directamente  neste  processo.  Os  magnates  passaram  a  exigir  que  todos  os  aristocratas 
seus  inferiores  ficassem  inseridos  nas  teias  de  subordinação,  mas  eles  próprios  não  pres¬ 
taram  homenagem  ao  imperador’9,  de  modo  que  as  pirâmides  vassálicas  se  multiplica¬ 
ram.  permanecendo  desprovidas  de  um  vértice  comum.  Mais  tarde,  na  segunda  metade 
do  século  XII.  quando  o  imperador  da  nova  dinastia  procurou  firmar  a  sua  autoridade 
mantendo  um  equilíbrio  entre  os  interesses  contraditórios  dos  principais  magnates,  estes 
tomaram-se  de  novo  vassalos  da  coroa40,  ampliando  ainda  as  relações  de  subordinação. 
Assim,  a  centralização  ou  a  descentralização  das  monarquias  explicava  o  perfil  assu¬ 
mido  pelas  redes  de  vassalagem,  mas  não  influía  em  nada  no  crescimento  numérico  des¬ 
tas  relações  nem  nas  tentativas  de  lhes  reforçar  a  coerência  interna.  Também  na  Catalu¬ 
nha  os  vínculos  de  vassalagem  se  propagaram  durante  as  décadas  de  crise  da  soberania 
no  século  XI41.  continuando  a  desenvolver-se  quando  o  conde  de  Barcelona  se  conse¬ 
guiu  impor  aos  demais  magnates  e  passou  a  usar  as  hierarquias  da  subordinação  para 
consolidar  a  sua  posição  cimeira42.  E  em  Leão  e  Castela,  se  na  sua  estratégia  centraliza¬ 
dora  a  monarquia  recorreu,  pelo  menos  a  partir  do  segundo  quartel  do  século  XII.  aos 
vínculos  vassálicos43,  as  crises  sofridas  por  este  processo  de  concentração  do  poder  só 
contribuíram  para  multiplicar  também  os  elos  de  subordinação44.  Como  quer  que  se 
apresentasse  a  conjuntura  política,  em  suma,  o  resultado  era  sempre  o  desenvolvimento 
da  subordinação  vassálica,  o  que  me  leva  a  concluir  que  foram  os  problemas  decorren¬ 
tes  da  reorganização  das  famílias  aristocráticas,  e  não  a  situação  das  estruturas  governa¬ 
tivas,  a  determinar  de  maneira  decisiva  a  tendência  para  a  multiplicação  e  a  sobreposi¬ 
ção  das  relações  de  vassalagem  e  para  a  definição  rigorosa  das  obrigações  recíprocas. 

A  evolução  do  sistema  familiar  da  aristocracia  teve  ainda  outro  tipo  de  reflexos 
sobre  a  vassalidade.  Na  medida  em  que  um  número  crescente  de  filhos  segundos  era 
afastado  da  residência  de  origem,  a  sua  relação  com  o  chefe  do  ramo  principal  da  famí- 


44  ld..  ibid..  143. 

40  Id..  ibid..  175-176. 

41  P.  Bonnassie  ( 1968)  543-545;  id.  (1980)  21-22.  36;  M.-C.  Gerbet  (1994)  31. 

42  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  600-608;  id.  (1980)  22-23;  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  3 1 . 

43  Referindo-se  às  Astúrias,  a  Leão  e  a  Castela,  C,  Sánehez  Albornoz  (1914)  269-270  pretende 
que  inicialmente  a  ameaça  islâmica  impusera  aos  Cristãos  uma  condução  centralizada  da  guerra,  o 
que  se  teria  oposto  ao  desenvolvimento  do  sistema  vassálico.  Encontra-se  a  mesma  tese.  relativa- 
mente  a  Portugal,  em  R.  Durand  ( 1982)  627  Todavia,  e  uma  vez  mais,  conhecem-se  casos  em  que  os 
vínculos  de  vassalagem  foram  um  dos  instrumentos  de  centralização  da  monarquia  Aliás,  M.-C.  Ger¬ 
bet  ( 1994)  28  afirma  que  Afonso  VII  foi  o  primeiro  dos  reis  de  Leão  e  Castela  a  usar  a  vassalidade 
como  modo  de  governo.  Em  (1968  a)  367,  C.  Sánchez  Albornoz  adianta  unia  explicação  diferente 
para  o  referido  processo  de  centralização  dos  meios  militares,  escrevendo  que  as  elevadíssimas  somas 
monetárias  pagas  durante  uma  certa  época,  a  título  de  tributo  de  guerra,  pelos  pequenos  reinos  muçul¬ 
manos  permitiram  aos  monarcas  cristãos  recrutar  exércitos  estipendiados,  escusando  de  recorrer  à 
vassalidade.  Ora,  na  região  entre  os  rios  Mosa  e  Loire,  durante  a  passagem  do  século  X  para  o  século 
seguinte.  J.  Boussard  ( 1968  b)  148- 149  indica  que  tanto  o  serviço  vassálico  como  o  recrutamento  de 
mercenários  contribuíram  para  a  ampliação  das  hostes  guereíras  Também  M.  Prestwich  (1972)  67 
mostra  que  na  Inglaterra,  no  último  quartel  do  século  XIII,  o  assalariamento  de  mercenários  pela 
coroa  coexistiu  com  a  convocação  da  hoste  vassálica.  e  acrescenta  (p.  90)  que.  qualquer  que  tosse  o 
método  de  recrutamento,  o  exército  em  campo  era  praticamente  o  mesmo  Assim,  o  angariamento  de 
mercenários  nem  sempre  foi  contraditório  com  o  serviço  vassálico. 

44  P.  Bonnassie  i  1980)  36. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


235 


lia  adquiria  muitíssimas  vezes  um  carácter  vassálico  mais  ou  menos  acentuado,  trans¬ 
formando-se  numa  subordinação  entre  domesticidades  claramente  demarcadas  aquilo 
que  antes  fora  uma  mera  diferença  de  prestígio  no  interior  da  camada  superior  das  mes¬ 
mas  famílias45.  Um  processo  de  tipo  idêntico  sucedera  já  na  transição  do  período  ante¬ 
rior  para  este  período,  na  zona  onde  predominou  a  família-clientela  (ver  o  capítulo  19.a 
da  Parte  I).  Enquanto  as  unidades  componentes  daqueles  vastos  grupos  familiares  se 
foram  convertendo  em  linhagens  agnáticas  bem  definidas,  ocorreu  a  progressiva  disso¬ 
lução  das  antigas  hierarquias  e  solidariedades,  baseadas  no  parentesco,  e  a  sua  substi¬ 
tuição  por  elos  vassálicos46.  Tais  situações  generalizaram-se  neste  período,  nomeada¬ 
mente  quando  se  adoptava  um  sistema  sucessório  em  que  os  filhos  mais  novos  de  um 
vassalo  falecido,  ao  receberem  as  suas  partes  da  concessão  que  fora  do  pai,  prestavam 
homenagem  ao  irmão  primogénito,  convertendo-se  em  vassalos  dele  e,  portanto,  em 
subvassalos  do  senhor  superior  originário47.  Ou  podia  ocorrer  uma  forma  alternativa, 
mediante  a  qual  o  primogénito  subvassalizava  partes  do  seu  conjunto  senhorial  vassᬠ
lico  aos  irmãos  mais  novos48.  Na  Inglaterra  do  século  XII  a  subvassalização  no  âmbito 
familiar  atingiu  proporções  tão  consideráveis  e  cresceu  de  tal  maneira  em  cadeia  que 
eram  frequentes  os  exemplos  de  senhorias  vassálicas  detidas  por  filhos,  incluindo  filhos 
segundos,  ou  outros  parentes  do  senhor  superior,  e  nas  quais  se  haviam  retalhado  partes 
concedidas  por  sua  vez  a  filhos  desse  vassalo-parente.  No  termo  de  um  processo  de 
sucessivas  subvassalizações  aconteceu  que  alguns  magnates  ingleses  deixaram  prati¬ 
camente  de  ter  património  na  sua  posse  directa,  ficando  convertidos  em  chefes  de  uma 
associação  familiar  estruturada  consoante  o  modelo  vassálico49.  Encontramos  em  Espa¬ 
nha  uma  variante  deste  sistema,  quer  no  começo  do  período,  no  reino  astur-leonês,  quer 
já  nos  séculos  XIII  e  XIV,  em  Leão  e  Castela,  quando  membros  da  família  real,  e  talvez 
até  os  próprios  filhos  do  monarca,  entravam  na  vassalagem  do  rei50.  O  mesmo  sucedeu 
em  Portugal  na  penúltima  década  do  século  XIII,  ao  resolver-se  uma  disputa  entre  o 
soberano  e  um  seu  irmão  mediante  a  conversão  de  um  em  vassalo  do  outro51  e,  num 


45  «{...]  a  família  é,  evidentemente,  uma  metáfora  do  poder»,  define  A.  Barbero  ( 1987)  1 16  numa 
síntese  admirável,  e  acrescenta  que  no  século  XII  a  linha  de  clivagem  não  passava  apenas  entre 
senhores  superiores  e  vassalos,  mas  atravessava  igualmente  as  linhagens,  opondo  os  chefes  de  família 
aos  filhos  segundos  celibatários. 

4(1  R.  Hennebicque  (1981 )  332. 

47  J.  Gaudemet  (1963)  99  n.  54;  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  180  181;  G.  Sivéry  (1977-1980)  175. 

48  G.  Fourquin  (1964)  120;  E.  Milter  ( 1965  b)  119-120:  S.  Painter  (1960)  9-1(1.  16. 

Nos  Países  Baixos,  segundo  B.  D.  Lyon  (1954  b)  423,  podia  suceder  que  uni  primogénito,  depois 
de  ter  herdado  a  senhoria  vassálica  que  havia  pertencido  ao  pai,  concedesse  aos  irmãos  mais  novos 
senhorias  vassálicas  constituídas  por  uma  dada  soma  em  dinheiro,  paga  anualmente. 

44  S.  Painter  ( 1960)  9-10,  16.  Acerca  desta  questão  consultar  igualmente  J.  C.  Holt  ( 1972)  42. 

S.  Painter  ( 1960)  9-10  indica  que  num  inquérito  realizado  pela  coroa  em  1 166,  e  ao  qual  respon¬ 
deram  cerca  de  cento  e  quarenta  magnates,  quase  45%  tinham  concedido  senhorias  vassálicas  a  um  ou 
mais  parentes. 

50  É  o  que  mostra  H.  Grassotti  ( 1969)  273-275  para  Leão  e  Castela.  Quanto  ao  reino  astur-leonês, 
C.  Sánchez-Albomoz  ( 1980)  577  refere  casos  em  que  os  monarcas  concederam  benefícios  territoriais 
temporários  a  parentes  seus,  mas  este  notável  historiador  não  admite  que  se  tratasse  de  uma  relação 
vassálica. 

51  J.  Mattosol  1994  b)  159. 


236 


Forma  II  do  dinheiro 


plano  social  bastante  mais  modesto,  parece  ter  sido  frequente  que  os  senhores  superio¬ 
res  aceitassem  enquanto  vassalos  alguns  dos  seus  parentes,  filhos  segundos  de  ramos 
familiares  menos  afortunados52.  Este  tipo  de  situação  obteve  um  grande  significado  na 
Normandia  no  inicio  do  período,  e  o  duque  escolhia  os  condes  entre  os  membros  dos 
ramos  colaterais  -  tanto  legítimos  como  bastardos  -  da  sua  família,  ligando-os  a  si  por 
elos  de  subordinação  e  concedendo-lhes  as  senhorias  vassálicas  inerentes  ao  cargo55. 
Casos  semelhantes  verificavam-se  na  mesma  época  no  Languedoc,  mas  nas  camadas 
inferiores  da  hierarquia  vassálica54.  Noutra  modalidade,  com  um  ponto  de  partida  dife¬ 
rente  mas  chegando  a  resultados  comparáveis,  a  senhoria  vassálica  era  atribuída  desde 
início  a  um  grupo  de  parentes,  que  se  apresentavam  em  conjunto  perante  o  senhor  supe¬ 
rior,  sendo  a  partir  de  então  representados  por  um  deles.  Neste  caso  a  senhoria  vassálica 
depressa  deixava  de  ser  explorada  colectivamente  e  era  repartida  na  prática,  mas  como 
em  termos  jurídicos  se  mantinha  enquanto  entidade  única,  os  co-vassalos  tinham  de 
continuar  relacionados  e  quando  um  deles  morria  os  seus  filhos  integravam-se  na 
subordinação  colectiva55.  Existiam  também  situações  em  que  o  recurso  aos  elos  de 
subordinação  no  quadro  familiar  se  operava  de  maneira  mais  atenuada,  ou  a  mais  longo 
prazo.  Assim,  por  exemplo,  podia  acontecer  que,  embora  a  senhoria  vassálica  fosse 
dividida  entre  os  vários  filhos  do  defunto,  o  primogénito  prestasse  homenagem  por  toda 
a  família  perante  o  senhor  superior  e  se  responsabilizasse  pelos  serviços  de  vassalagem 
devidos  pelos  innãos.  Neste  caso  os  filhos  segundos  não  prestavam  homenagem  ao 
mais  velho  pelos  quinhões  que  recebiam  da  concessão  vassálica  originária,  limitando- 
se  a  jurar-lhe  fidelidade  ou  regulando  até  as  suas  relações  pelas  normas  familiares. 
Todavia,  se  o  contacto  entre  os  herdeiros  dos  vários  imiãos  se  prolongasse  ao  longo  de 
sucessivas  gerações  e  ultrapassasse  o  grau  do  parentesco  canónico,  os  representantes 
dos  ramos  mais  novos  deviam  prestar  homenagem  ao  representante  do  ramo  primo¬ 
génito56.  o  que  significa  que  a  vassalagem  só  era  plenamente  introduzida  nesta  moda¬ 
lidade  para  reforçar  laços  de  família  que  o  tempo  ia  tomando  mais  ténues.  Embora 
podendo  usar  meios  legais  distintos,  quando  o  chefe  da  linhagem  principal  recorria  à 
qualidade  de  senhor  superior  para  impor  a  sua  autoridade  aos  demais  parentes,  eles 
eram  vassalos  ou  membros  da  família?  Para  entendermos  estas  situações  não  devemos 
distinguir  ambos  os  aspectos,  mas  confundi-los.  Só  assim  se  explicam  casos  como  o  do 


52  Id.ibid..  194. 

52  M.  Bouard  (org.  1970)  115,  118. 

54  E.  Magnou-Nortier  (1981-1984)  Xll  71  e  74  informa  que  muitos  filhos  segundos  de  famílias 
condais  e  viscondais  recebiam  um  cargo  de  eiguier.  que  eles  procuravam  tornar  hereditário  cm  bene¬ 
fício  dos  seus  primogénitos,  ao  mesmo  tempo  que  conteriam  aos  seus  filhos  segundos  o  lugar  de 
p agense.  o  mais  baixo  na  hierarquia  vassálica.  Recorde-se.  todavia,  que,  como  tive  já  inúmeras  opor¬ 
tunidades  de  referir  ao  longo  desta  obra.  Éhsabeth  Magnou-Nortier  recusa-se  a  admitir  que  a  França 
meridional  fosse  uma  sociedade  vassálica  e  interpreta  em  termos  de  autoridade  pública  o  que  eu  aqui 
apresento  como  relações  de  subordinação. 

55  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  182-183. 

Talvez  se  possam  interpretar  nesta  perspectiva  os  casos  relatados  para  a  Espanha  por  P.  Bonnassie 
( 1980)  36-37.  quando  os  membros  de  um  dado  grupo  familiar  entravam  conjuntamente  em  vassala¬ 
gem.  Ver  também  id.  <  1 968 1  53 1  -532  a  respeito  da  Catalunha  no  princípio  do  período. 

J.  Gaudemet  (1963)  99:  E.  Miller(1965  bi  !  19-120:  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-19591  180. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


/ 


tribunal  condal  de  Barcelona,  ao  decidir  que  nos  processos  judiciários  entre  filhos 
e  pais  se  aplicavam  as  leis  vigentes  nos  litígios  entre  vassalos  e  senhores  superiores57. 
As  formas  da  vassalidade  haviam  acabado  por  servir  de  quadro  às  próprias  relações 
familiares5*'. 

A  transformação  das  relações  entre  irmãos  em  relações  vassálicas  assumiu  uma 
importância  tão  grande  que  se  converteu  num  modelo  de  aplicação  geral.  Assim,  por 
exemplo,  os  bandos  de  filhos  segundos  da  aristocracia  que  erravam  pelo  noroeste  da 
França  no  século  XII  eram  com  frequência  comandados  por  um  filho  segundo  que 
tivesse  sido  recentemente  armado  cavaleiro  e  eram  constituídos  por  outros  filhos  segun¬ 
dos.  procedentes  de  famílias  que  estavam  em  situação  de  vassalagem  para  com  o  pai  do 
chefe  do  bando.  Convém  salientar  que  os  membros  destes  grupos  se  consideravam  uns 
aos  outros  como  irmãos59.  Assim,  ao  mesmo  tempo  que  os  vínculos  de  subordinação 
sen' iam  de  quadro  para  o  relacionamento  entre  primogénitos  e  filhos  segundos,  os  elos 
entre  filhos  segundos  de  várias  famílias,  unidos  em  fraternidades  artificiais,  modela¬ 
vam-se  igualmente  pela  vassalidade. 

Pode  estabelecer-se  um  paralelo  com  o  sucedido  na  classe  senil.  Entre  os  campone¬ 
ses  (  ver  o  capítulo  1  .c),  a  redução  das  unidades  familiares  ao  seu  limite  conjugal  susci¬ 
tou  o  desenvolvimento  do  carácter  parafamiliar  das  colectividades  rurais.  Também  no 
interior  da  classe  dominante  se  desenvolveu  o  carácter  parafamiliar  da  vassalidade, 
quando  as  famílias,  apesar  de  se  prolongarem  no  tempo  sob  a  forma  de  linhagens, 
estreitaram-se  em  cada  geração  mediante  a  transmissão  do  núcleo  patrimonial  a  um 
herdeiro  privilegiado.  Contudo,  no  meio  camponês  a  progressão  do  regime  senhorial, 
enquanto  reforçava  as  formas  de  organização  parafamiliares,  reduzia  a  amplitude  da 
família,  mas  na  aristocracia  os  moldes  familiares  que  presidiram  ao  desenvolvimento 
das  relações  vassálicas  não  enfraqueceram  os  elos  de  parentesco.  As  famílias  senhoriais 
mudaram  de  perfil,  sem  que  o  seu  âmbito  diminuísse,  pois  se  é  certo  que  em  cada  gera¬ 
ção  limitavam  o  seu  escopo,  faziam-no  para  se  projectarem  no  tempo  através  da  conti¬ 
nuidade  patrimonial  da  linhagem. 

Enquanto  por  um  lado,  como  acabámos  de  ver,  sucedia  que  as  relações  familiares  se 
sobrepusessem  às  relações  vassálicas.  por  outro  lado  os  elos  de  subordinação,  ou  por 
vezes  de  mera  clientela,  podiam  adoptar  modalidades  de  inspiração  doméstica60.  Em 


57  M.  Bloch  (1939-1940)  I  356-357. 

1(J..  ibitl..  I  354  e  segs.  afirma  não  só  que  os  moldes  da  vassalidade  influenciaram  a  família,  mas 
ainda  que  o  vínculo  vassálico  era  considerado  superior  ao  elo  de  parentesco.  Em  sentido  contrário,  e 
para  tentar  demonstrar  que  as  convenientia  Firmadas  a  respeito  dos  castelos  pelos  principais  nobres  da 
França  meridional  não  decorriam  do  sistema  vassálico.  A.  R.  Lewis  ( 1965)  307-308  invoca  o  facto  de 
tais  acordos  dizerem  por  vezes  respeito  a  membros  de  uma  mesma  família,  adiantando  que  as  relações 
de  subordinação  não  podiam  existir  no  âmbito  familiar.  Creio  ter  provado  abundantemente  que  esta 
tese  é  incorrecta.  Acerca  do  carácter  vassálico  de  muitas  convenientiie  ver  neste  capítulo  as  nn.  17  a  19. 

^G.  Duby  (1964)837-838. 

60  Por  vezes,  observam  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  245,  as  relações  de  vassalagem  tomavam-se  mais 
estreitas  e  moldavam-se  pelos  elos  de  parentesco  E,  referindo-se  ao  Mâconnais  até  ao  final  do 
segundo  terço  do  século  XII.  G.  Duby  ( 1953)  141-142  e  183-184  considera  que  os  serviços  devidos 
pelos  vassalos  eram  de  carácter  semelhante  aos  prestados  no  seio  da  família.  Reciprocamente,  na 
Inglaterra  do  final  via  época  anglo-saxóniea.  quando  as  solidariedades  assentes  no  parentesco  estavam 


23S 


Forma  II  do  dinheiro 


França,  por  exemplo,  perduraram  até  ao  século  XIII  os  grupos  de  cavaleiros  agregados 
aos  castelos.  Embora  estivessem  estabelecidos  em  senhorias  vassálicas  próprias,  estes 
cavaleiros  residiam  em  conjunto  durante  algumas  épocas  do  ano  no  interior  da  forta¬ 
leza,  reproduzindo  assim  parcialmente  a  situação  dos  fiéis  guerreiros  e  ficando  sobre¬ 
maneira  acentuado  o  seu  carácter  doméstico,  que  podia  ser  reforçado  por  elos  matrimo¬ 
niais61.  Na  generalidade  das  regiões,  sabe-se  também  que  originariamente  a  atribuição 
de  uma  senhoria  vassálica  não  impedia  que  o  senhor  superior  incluísse  esse  vassalo  no 
grupo  das  pessoas  que  recebiam  prebendas,  e  o  costume  conservou-se  até  uma  data 
tardia  nas  situações  em  que  todos  os  anos  eram  entregues  vestimentas  aos  vassalos62. 
Bastava  isto  para  que  as  domesticidades  vassálicas.  apesar  da  autonomia  de  que  goza¬ 
vam.  se  mantivessem  ligadas  à  casa  do  senhor  superior.  Mas  o  nexo  podia  ser  ainda 
mais  íntimo,  quando  as  roupas  distribuídas  tinham  as  mesmas  cores  das  librés  usadas 
pela  criadagem  do  senhor  superior,  pelos  seus  agentes  e  fiéis  guerreiros,  bem  como 
pela  demais  clientela62.  Assim,  as  cores  das  armas  marcavam  um  perímetro  muito 
vasto,  dentro  do  qual  se  inseria  toda  uma  família  artificial,  de  maneira  que  os  vestígios 
de  domesticidade  que  a  prebenda  trazia  já  do  período  anterior  se  reforçaram  agora  com 
novas  modalidades  e  novas  implicações.  E  em  Leão  e  Castela  havia  mesmo  uma  pala¬ 
vra  própria  para  designar  o  conjunto  formado  pelos  membros  de  uma  família  e  pelos 
seus  vassalos64. 

Aliás,  nunca  neste  segundo  período  a  vassal  idade  perdeu  completamente  a  conota¬ 
ção  doméstica  que  lhe  estivera  na  origem6'',  e  é  muitas  vezes  difícil  discernir  o  limite 


já  muito  debilitadas,  H.  P.  R.  Finberg  ( I972i  522-523  esclarece  que  a  protecção  perante  a  justiça  pas¬ 
sou  a  caber  sobretudo  ao  senhor  superior.  Resumindo  ambas  as  situações,  P.  Bonnassie  (1975-1976) 
773-774  invoca,  a  propósito  da  Catalunha,  o  carácter  familiar  das  relações  entre  senhor  superior  e 
vassalo. 

G.  Foumieri  1978)  114-118. 

62  M.  Bloch  (1928  c)  53.  55-56;  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  90:  E.  Perroy  et  al.  (1955)  243:  L.  G.  Val- 
deavellano  ( 1958)  231.  235.  Ainda  acerca  da  atribuição  de  prebendas  a  vassalos  ver  G.  Duby  ( 1953  ) 
564-567. 

É  interessante  considerar  que  os  ministenalcs  da  Baviera,  uma  nobreza  vassálica  não-livre,  e  por¬ 
tanto  especialmente  ligada  à  domesticidade  do  senhor  superior,  recebiam  regularmente  prebendas 
compostas  por  peças  de  vestuário.  Ver  Ph.  Dollinger  (1949)  298.  Este  facto,  ocorrido  em  tal  contexto 
social,  confirma  que  a  concessão  de  prebendas  implicava  a  existência  de  um  elo  familiar  particular- 
mente  estreito. 

A  libré,  afirma  G.  A.  Holmes  (1957)  59,  era  um  sinal  exterior  de  vinculaçâo  a  um  dado  senhor. 
Acerca  do  uso  de  librés  ver  a  n.  76  do  capítulo  6. 

64  Este  conjunto  de  pessoas  chamava-se  «bando»,  elucida  S.  M.  Belmartino  (1968)  262-263. 

65  Na  opinião  de  M.  Bloch  (1939-1940)  II  244,  o  sistema  vassálico  não  só  veio  depois  das  socie¬ 
dades  dominadas  pelo  parentesco  e  das  sociedades  dominadas  pelo  Estado,  como  trouxe  ainda  o 
cunho  de  tais  instituições.  E  no  período  anterior,  recorda  R.  Aubenas  (1960)  6,  os  «irmãos  de  armas» 
encontravam-se  unidos  por  um  vínculo  muito  sólido,  que  talvez  estivesse  na  génese  das  relações  vas¬ 
sálicas;  nestes  termos,  o  senhor  superior  era  o  ancião  fictício  de  uma  fraternidade  guerreira  composta 
pelos  seus  vassalos.  Aliás,  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  1 53-154  observa  que  na  Germània  o  ritual  a  que 
inicialmente  um  vassalo  recorria  para  simbolizar  o  repúdio  do  vínculo  e  o  rompimento  com  o  senhor 
superior  era  inspirado  por  uma  antiga  cerimónia  dos  Sálios,  mediante  a  qual  uma  pessoa  cortava  as 
relações  com  os  parentes  e  renunciava  à  solidariedade  familiar.  E  certo  que  a  ruptura  do  elo  de  subor¬ 
dinação  passou  rapidamente  a  ser  anunciada  por  um  ritual  de  outro  tipo,  mas  isto  não  invalida  a  exis- 


Da  vassal idade  pessoed  ú  domesticidade  impessoal 


239 


entre  os  vínculos  de  família  e  os  de  vassalagem.  Em  diversas  regiões,  quando  os  senho¬ 
res  superiores  procuravam  intervir  no  casamento  dos  seus  vassalos  e  exerciam  a  tutela 
sobre  os  filhos  menores  dos  vassalos  falecidos,  eles  estavam  a  aplicar,  no  âmbito  das 
relações  de  subordinação,  uma  autoridade  característica  do  chefe  de  família66.  A  confu¬ 
são  entre  as  duas  instituições  foi  mais  drástica  ainda  em  Leão  e  Castela,  onde  era  habi¬ 
tual  que  filhos  de  magnates  fossem  enviados  para  junto  do  senhor  superior,  o  rei,  e 
crescessem  no  palácio.  Ao  mesmo  tempo,  o  rei  mandava  filhos  seus  para  serem  educa¬ 
dos  por  vassalos,  escolhidos  entre  os  mais  distintos.  Em  ambos  os  casos  a  ligação  do 
pupilo  a  quem  o  havia  criado  tomava-se  mais  forte  e  duradoura  do  que  a  sua  relação 
com  o  pai67,  e  assim  o  sistema  vassálico.  depois  de  obedecer  nestas  situações  ao 
modelo  da  família,  acabava  em  seguida  por  superar  o  próprio  quadro  familiar. 

É  nesta  perspectiva  de  relações  familiares  que  se  pode  compreender  o  problema  da 
hereditariedade  das  senhorias  vassálicas6*,  incluindo  aquelas  concedidas  aos  subvassa- 
los69,  em  tomo  do  qual  têm  travado  debates  tão  improfícuos  os  historiadores  que  se 


tência  de  uma  inspiração  onginariamente  familiar  Também  na  Normandia,  no  primeiro  terço  do 
século  XI,  a  vas.salidade  distinguia-se  ainda  mal  da  fidelidade  doméstica,  a  crer  em  M.  Bouard  (org. 
1970)  125.  A  mesma  conotação  mantinha-se  viva  na  Hungria,  onde  E.  Fügedi  (1986  a)  78  relata  que 
os  pequenos  aristocratas  que  se  subordinavam  aos  magnates  tomavam-se  membros  da  família  do 
senhor  superior  e  eram  denominados  « familians •  ou  « serviens ■>.  Note-se  que  o  carácter  doméstico 
deste  último  termo  não  é  menor  do  que  o  do  primeiro.  Do  mesmo  modo,  em  Leão  e  Castela,  tal  como 
referi  na  nota  anterior,  o  conjunto  dos  parentes  e  dos  vassalos  de  uma  dada  família  era  designado  por 
um  vocábulo  comum,  -bando-,  consoante  esclarece  S.  M.  Belmartino  ( 1968)  262-263,  acrescentando 
(p.  313)  que  o  monarca  e  os  magnates  laicos  e  eclesiásticos  estavam  rodeados  das  suas  mesnadas, 
compostas  por  cavaleiros  escolhidos  entre  parentes  e  vassalos.  E  certo  que  no  Namurois,  segundo  L. 
Genicot  (1943-1995)  11  63.  apesar  de  a  palavra  -família*  ser  por  vezes  empregue  em  sentido  amplo, 
aplicando-se  a  todos  os  que,  de  maneira  temporária  ou  permanente,  e  qualquer  que  fosse  o  seu  esta¬ 
tuto,  rodeavam  um  magnate  e  o  ajudavam,  nos  casos  mais  frequentes  o  termo  era  usado  apenas  para 
classificar  aqueles  que,  no  interior  desse  grupo,  não  eram  nobres  nem  livres.  Mas  não  devemos  tam¬ 
bém  esquecer  que  ao  frequentarem  a  casa  do  senhor  superior,  juntamente  com  os  seus  parentes  e  a 
clientela,  os  vassalos  se  inseriam  num  quadro  que  demarcava  os  limites  da  família,  como  ressalta  das 
observações  de  R.  Sánchez  Saus  (1989)  51-52. 

66  M.  Bloch  i  1933  b)  28;  G.  Duby  ( 1981 )  102;  S.  Painter  ( 1960)  3-8;  E.  Searle  ( 1979)  9. 

67  S.  M.  Belmartino  (1968)  279-2,80.  288-292.  Ver  igualmente:  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  235. 

H.  Grassotti  ( 1969)  344  e  segs.  observa,  porém,  que  no  palácio  e  em  casa  dos  magnates  tanto  se 

criavam  filhos  de  famílias  ilustres  como  outros  de  condição  mais  modesta. 

6S  Quanto  ao  facto  de  a  hereditariedade  das  senhorias  vassálicas  ter  sido  aceite  cada  vez  mais 
regularmente  pelos  senhores  superiores,  ver:  Th.  N.  Bisson  ( 1980)  178;  M.  Bloch  ( 1939- 1940)  I  306- 
-308;  M.  Bouard  i.org.  1970)  124;  A.  Déléage  (1941)  616-619;  H.  Dubled  (1960  bt  167;  G.  Duby 
(1953)  180:  R.  Durand  (1982)  612;  F.  L.  Ganshof  (1968  b>  121  e  segs.;  L.  Genicot  (1975)  50;  H. 
Grassotti  (1968)  422.  443;  id.  (1969  )  459-461;  G.  A.  Holmes  (1957)  45:  J.  C.  Holt  (1982-1983) 
XXX11I  209;  F.  Lebrun  (org.  1972)  128;  P.  S.  Leicht  (1946)  55;  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  133;  J. 
Richard  1 1980)  657.  P.  Toubert  ( 1973  b»  1 1 7 1;  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  250-251. 

Na  Baviera,  no  caso  dos  ministcriales.  a  hereditariedade  da  concessão  vassálica  estabeleceu-se 
mais  lentamenie,  a  crer  em  Ph.  Dollinger  (1949)  298.  Por  seu  lado.  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  232 
indica  que  no  reino  astur-leonés  as  concessões  vassálicas  feitas  a  título  temporário,  em  benefício, 
nunca  se  tomaram  hereditárias.  Ver  igualmente  E  Umrie  (1966)  61.  A  hereditariedade,  porém,  pas¬ 
sou  a  verificar-se  na  prática  mais  tarde,  no  reino  de  Leão  e  Castela,  como  esclarece  H.  Grassotti 
(1968)  422  e  443. 

ftu  No  começo  do  segundo  terço  do  século  XI  os  subvassalos  da  região  milanesa  pegaram  em 


240 


Forma  II  do  dinheiro 


limitam  a  uma  visão  jurídica  deste  fenómeno.  Afirma-se  com  muita  frequência  que  o 
carácter  hereditário  atribuído  cada  vez  mais  regularmente  à  concessão  recebida  pelo 
vassalo  representaria  a  preponderância  do  aspecto  dito  fundiário  sobre  o  aspecto  pes¬ 
soal  nas  relações  de  subordinação,  já  que  as  obrigações  teriam  passado  a  caracterizar  a 
senhoria  e  o  vassalo  lhes  estaria  sujeito  apenas  enquanto  detentor  de  tal  senhoria70. 
Este  ponto  de  vista  parece-me  completamente  ineorrecto.  Antes  de  mais,  porque  os 
vassalos  não  recebiam  apenas  senhorias  pessoais,  assentes  numa  base  fundiária  bem 
definida,  mas  igualmente  senhorias  impessoais,  sobretudo  o  exercício  de  direitos  e  a 
cobrança  de  rendimentos,  e  relativamente  a  elas  colocava-se  de  maneira  muito  diferente 
a  questão  da  base  territorial71.  Mas  é  outro  o  problema  decisivo.  A  hereditariedade  das 
senhorias  vassálicas  acarretava  a  breve  trecho  a  sua  patrimonialização,  e  elas  mistura¬ 
vam-se  facilmente  num  conjunto  único  com  as  terras  e  os  servos  que  formavam  a  pro¬ 
priedade  original  da  família  do  vassalo,  podendo  mesmo  ser  alienadas72.  E  se  de  início 
fora  obrigatório  o  recurso  ao  senhor  superior  enquanto  intermediário  nos  actos  de 
escambo,  venda  ou  doação  da  senhoria  vassálica,  ao  longo  do  tempo  até  esta  função 
acabou  por  ser  dispensada'-.  Nada  havia  de  especial,  portanto,  na  concessão  de  senho¬ 
rias  em  regime  de  propriedade  plena74,  pois  o  senhor  superior  estava  apenas  a  anteci¬ 
par-se  ao  resultado  provável  do  processo.  Se  nestes  casos  o  senhor  superior  prescindia 
de  extensões  tão  vastas,  de  tantos  camponeses,  de  tantos  direitos,  isso  confirma  apenas 
que  para  ele  era  mais  importante  dispor  do  apoio  de  cavaleiros  bem  armados  e  do  con¬ 
selho  de  alguns  aristocratas  ajuizados  e  de  administradores  competentes,  ou  ter  pelo 


armas  contra  os  seus  senhores  superiores,  para  os  obrigar  a  reconhecerem-lhes  o  direito  de  transmis¬ 
são  hereditária  das  suas  concessões.  O  exército  dos  pequenos  senhores  derrotou  os  magnates,  o  que 
ajudou  à  legitimação  do  princípio  da  hereditariedade  das  senhorias  vassálicas  em  todo  o  império  ger¬ 
mânico.  Acerca  deste  conflito  e  das  suas  repercussões  consultar:  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  305-306:  G. 
Tabacco  (1979)  228.  Quanto  ao  sucedido  em  Parma  na  mesma  época  ver:  R.  Schumann  (1973)  175. 

70  M.  Bloch  (1939-1940)  1  362;  G.  Duby  (1953)  177-178:  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  135,  137-139; 
L.  Genicot  ( 1967)  3-4;  E.  Perroy  et  al.  ( 1955 )  243. 

7 1  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  105. 

12  Acerca  da  patrimonialização  das  senhorias  vassálicas  ver:  M.  Bloch  <  1939-1940)  1  321-322, 
324:  G.  Duby  (1953)  181:  J.  M.  Lacarra  1 1968)  492:  P.  S.  Leicht  (1946)  55;  G.  Martini  et  al.  (1981) 
235-236:  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  244;  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  133:  G.  Rippe  (1980)  423-425. 

71  G.  Duby  (1953)481:  F.  L.  Ganshof  (1955  b)  106-107;  id.  (1968  b)  130-133. 

Em  França,  porém,  segundo  indica  E.  Miller  (1965  b)  122.  os  costumes  de  algumas  regiões  conti¬ 
nuavam  no  século  Xlll  a  requerer  o  consemimento  prévio  do  senhor  superior  para  que  pudesse  ocor¬ 
rer  a  alienação  da  senhoria  vassálica. 

4  Quanto  a  este  tipo  de  concessões  ver:  Th.  N.  Bisson  ( 1980)  178;  R.  Boutruche  (1968-1970)  1 
200;  E.  Fíigedi  (1986  a)  42-43;  F.  L.  Ganshof  ( 1955  b)  88.  91 :  H.  Grassotti  <  1969)  483,  487,  540-541. 
690-694;  J.  M.  Lacarra  ( 1968)  490,  496.  504. 

Quando  se  referem  à  França  a  sul  do  Loire.  alguns  especialistas,  por  exemplo  A.  R.  Lewis  ( 1965) 
310,  354-357  e  382-385.  argumentam  que  a  frequente  realização  de  concessões  sob  a  forma  de  pro¬ 
priedade  plena  demonstraria  a  inexistência  de  sistema  vassálico.  Também  relativamente  a  Leão  e  Cas¬ 
tela  e  ao  reino  de  Portugal  há  quem  considere  que  as  concessões  em  propriedade  plena  constituiriam 
um  sintoma  da  fragilidade  do  sistema  vassálico.  C  onsultar  neste  sentido  J.  Mattoso  1 1994  b]  194  e  L. 
G.  Valdeavellano  (1958)  229.  Ver  ainda  id.  (1955)  18-19.  Na  realidade,  porém,  sabemos  que  se  tratou 
de  um  processo  inteiramente  convergente  com  o  verificado  na  França  setentrional  e  nas  demais 
regiões  onde  é  incontestada  a  manifestação  da  forma  clássica  das  relações  de  subordinação. 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


241 


menos  a  garantia  de  que  outros  aristocratas  da  vizinhança,  mesmo  que  não  o  apoiassem 
activamente.  não  se  voltariam  contra  ele,  do  que  beneficiar  de  eventuais  rendimentos 
futuros,  resultantes  das  senhorias  que  havia  concedido  aos  seus  vassalos7'.  Este  foi  um 
sistema  de  relações  entre  pessoas,  e  a  assimilação  das  senhorias  vassálicas  pelo  restante 
património  do  vassalo,  em  vez  de  conferir  qualquer  relevo  ao  aspecto  dito  fundiário  da 
relação,  pelo  contrário  mostra  que  o  factor  humano  era  o  único  significativo,  por  isso  se 
perpetuava  ao  longo  de  gerações.  Só  nestes  termos  podemos  compreender  a  patrimo- 
nialização  das  senhorias  vassálicas,  que  foi  um  mero  corolário  de  uma  tendência  muito 
mais  decisiva,  a  do  carácter  hereditáno  que  passou  a  atribuir-se  à  relação  entre  a  família 
do  vassalo  e  a  do  senhor  superior.  A  importância  crescente  assumida  pela  linhagem, 
prolongando  no  tempo  a  família  aristocrática,  acabou  por  impor  ao  senhor  superior  e 
aos  seus  descendentes,  como  um  facto  inteiramente  natural,  que  o  filho  do  vassalo 
defunto  sucedesse  ao  seu  pai76.  Mais  tarde,  e  na  ausência  de  um  descendente  directo 
masculino,  os  senhores  superiores  acabaram  por  admitir  que  parentes  colaterais,  ou  às 
vezes  até  mesmo  mulheres,  recebessem  como  herança  a  senhoria  e  a  posição  de 
vassalo77.  A  hereditariedade  da  vassalagem,  com  a  consequente  patrimonialização  das 
senhorias  vassálicas,  resultou  da  hegemonia  conseguida  pelo  factor  familiar  no  interior 
das  relações  de  subordinação. 

Assim,  foram  indissociáveis  duas  tendências  contraditórias:  de  um  lado,  dava-se  aos 
elos  vassálicos  uma  conotação  familiar,  ou  de  família  artificial;  e,  do  outro  lado,  trans¬ 
formavam-se  os  vínculos  familiares,  na  medida  em  que  eles  eram  transpostos  para  o 


75  No  sistema  vassálico,  afirma  M.  Bioch  ( 1939-1940)  II  247,  a  terra  só  se  apresenta  como  uma 
riqueza  preciosa  porque  permite,  através  de  concessões,  obter  fidelidades.  Nào  se  entende,  então,  que 
noutro  lugar  da  mesma  obra  (1.  pp.  362-363)  Marc  Bioch  possa  admitir  a  tese  do  prevalecimento  do 
aspecto  fundiário  sobre  o  aspecto  pessoal  na  relação  vassálica. 

70  Id..  ibid..  I  293-296:  G.  Duby  í  19531  280:  F  L.  Ganshof  ( 1955  bi  104-105. 

Analisando  a  Catalunha  do  século  XI.  P.  Bonnassie  ( 1968)  532-533  indica  que,  se  os  parentes  do 
vassalo  participassem  na  convenientiu.  então  o  acordo  estipulava  os  casos  em  que  era  admitida  a  here¬ 
ditariedade.  Nada  podia  ilustrar  melhor  até  que  ponto  o  direito  à  sucessão  hereditária  resultou  da 
penetração  do  sistema  familiar  no  quadro  vassálico. 

77  Acerca  da  extensão  da  hereditariedade  aos  parentes  colaterais  ver:  M.  Bioch  < 1939-1940)  1  308- 
-309. 

Segundo  J.  Prawer  1 1968  b)  160.  as  circunstâncias  especiais  em  que  se  vivia  no  reino  latino  de 
Jerusalém  levaram  os  senhores  superiores,  numa  primeira  fase.  a  aceitar  que,  na  ausência  de  filhos 
masculinos  do  vassalo  defunto,  a  senhoria  vassálica  nào  só  pudesse  ser  herdada  por  colaterais,  mas 
pudesse  também  ser  transmitida  por  uma  linha  de  sucessão  feminina:  ao  longo  do  segundo  terço  do 
século  Xll.  contudo  (pp.  161-164).  as  normas  sucessórias  alteraram-se  em  benefício  dos  primogénitos 
e  passaram  a  favorecer  a  concentração  das  fortunas.  Mas  aquela  situação  não  foi  inteiramente  anó¬ 
mala,  porque  na  Inglaterra,  durante  o  segundo  terço  do  século  XIII.  B.  D.  Lyon  (1951)  168  afirma  que 
era  corrente  as  mulheres  deterem  senhorias  vassálicas  de  carácter  militar,  prestando  mesmo  homena¬ 
gem  ao  senhor  supenor.  E.  Searle  ( 1979)  9  especifica,  porém,  que  na  Inglaterra  o  senhor  superior  só 
aceitava  o  princípio  da  sucessão  feminina  se  estivesse  sob  o  seu  controlo  a  escolha  dos  homens  que 
haviam  de  desposar  as  filhas  dos  seus  vassalos.  H  Dubled  1 1960  b)  168-169  relata  casos  de  sucessão 
feminina  nas  senhorias  vassálicas  da  Alsácia.  durante  o  século  XIII.  Finalmente.  F..  Fügedi  (1986  a) 
61  esclarece  que.  na  Hungria,  só  a  partir  do  final  do  século  XIV  as  descendentes  femininas  deixaram 
de  poder  herdar  os  castelos  Aliás,  na  França  do  século  XIII  uma  senhoria  vassálica  adquirida  por  um 
plebeu  podia  passar  para  a  viúva  do  vassalo  defunto,  consoante  indica  H.  Richardot  í 1950)  277. 


242 


Forma  II  do  dinheiro 


plano  das  relações  de  subordinação.  Desta  dialéctica  ambos  os  sistemas  institucionais, 
a  vassalidade  e  a  família  aristocrática,  saíram  reforçados.  A  reestruturação  familiar  da 
classe  senhorial,  tal  como  levou  à  multiplicação  de  relações  entre  famílias  estritamente 
demarcadas,  suscitou  também  o  desdobramento  dos  elos  de  vassalagem78. 

Este  duplo  processo,  em  que  a  rede  de  relações  familiares  e  parafami liares  se  modi¬ 
ficava  ao  mesmo  tempo  que  se  estendia,  e  em  que  proliferavam  as  relações  de  subordi¬ 
nação,  ocorreu  enquanto  se  afirmava  a  forma  impessoal  do  poder  e  a  senhoria  pessoal 
se  integrava  no  último  escalão  das  novas  hierarquias.  Num  período  em  que  prevalecia  o 
poder  impessoal,  a  grande  diversidade  de  estatutos  no  interior  da  classe  dominante  já 
não  se  inseria  num  quadro  de  relações  de  clientela,  que  no  período  anterior  pudera 
inclusivamente,  como  sabemos,  adoptar  numa  vastíssima  zona  a  estrutura  de  família- 
-clientela.  Agora  as  linhagens  aristocráticas  marcavam  claramente  os  seus  limites  pró¬ 
prios,  e  neste  contexto  o  sistema  vassálico  deparava  com  problemas  específicos,  pelo 
facto  de  existir  uma  pluralidade  de  fortunas  e  de  tipos  de  rendimento  e  ser  necessário, 
ao  mesmo  tempo,  fazer  com  que  os  ocupantes  de  cada  uma  dessas  situações  se  incluís¬ 
sem  conscientemente  na  mesma  classe  social79.  Nas  margens  deste  processo  deviam  até 
lecer-se  elos  que  legitimassem  a  entrada  dos  novos  ricos  na  aristocracia,  ou  pelo  menos 
que  representassem  a  aceitação  factual  dessa  ascensão80.  De  maneira  genérica,  o  desen- 


7K  Os  dois  grandes  tipos  de  relacionamento,  define  L.  Genicot  ( 1975)  44  e  47,  eram  o  parentesco  e 
a  fidelidade  pessoal.  E  M.  Bloch  (1939-1940)  i  346  indica  a  igualdade  de  vocação  das  relações  de 
parentesco  e  das  de  vassalagem  no  que  dizia  respeito  às  vinganças  privadas  e  aos  processos  em  jus¬ 
tiça.  Depois  de  afirmar  a  existência  de  uma  rivalidade  entre  a  estrutura  familiar  e  a  estrutura  vassálica, 
S.  Painter  (1960)  1-2  acrescenta  que  se  atribuía  geralmente  bastante  importância  à  sobreposição  de 
ambos  os  tipos  de  laços  e  dá  (p.  16)  alguns  exemplos  concretos.  No  mesmo  sentido,  para  Marc  Bloch 
em  op.  cit.,  I  220-221  a  vassalidade  e  as  relações  familiares  reforçaram-se  simultaneamente,  assim 
como  mais  tarde  se  desagregaram  ao  mesmo  tempo.  Ver  ainda:  P.  Bonnassie  (1980)  36:  R.  Fossier 
( 1976)  161-162:  J.  Heers  ( 1974)  13;  J.  E.  Ruiz  Domenec  (1979)  315.  Especialmente  interessantes  são 
as  observações  de  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  773-774  a  respeito  da  Catalunha  na  segunda  metade  do 
século  XI  e  no  começo  do  século  seguinte,  ao  mostrar  que  as  solidariedades  familiares  foram  reforça¬ 
das  pelos  vínculos  de  vassalagem  e,  reciprocamente,  que  as  relações  entre  uni  senhor  superior  e  os 
seus  vassalos  apresentavam  um  carácter  familiar.  No  entanto,  é  aquele  mesmo  Marc  Bloch,  em  op. 
cit..  1  378-379.  a  considerar  que  numa  situação  de  fortes  solidariedades  de  parentesco  se  mantinha 
limitado  o  desenvolvimento  da  vassalidade,  e  também  R.  Fossier  (1968)  550-551.  apesar  da  opinião 
que  o  vimos  exprimirem  ( 1976)  161-162.  assegura  que  na  Picardia  os  elos  de  parentesco  se  opuseram 
à  difusão  e  ao  reforço  dos  vínculos  de  vassalagem.  Talvez  a  dialéctica  muito  estreita  que  unia  e  ao 
mesmo  tempo  contrastava  ambos  os  sistemas  de  relacionamento  contribua  para  explicar  as  contradi¬ 
ções  de  historiadores  tão  ilustres.  Com  efeito,  como  escreve  G.  Duby  ( 1953)  183-184  a  propósito  do 
Mâconnais.  a  vassalidade  tanto  podia  substituir  como  reforçar  as  relações  familiares,  e  uma  tese  idên¬ 
tica  é  sustentada  por  J.  A.  Garcia  de  Cortázar  1 1990)  51  a  respeito  das  Espanhas.  Em  sentido  oposto, 
alguns  especialistas  admitem  apenas  que  os  elos  de  parentesco  se  fortaleciam  em  detrimento  das  rela¬ 
ções  de  subordinação.  Ver,  por  exemplo,  J.  Bieniak  ( 1977)  321  e  J.  Mattoso  [1994  bj  194. 

79  Um  aspecto  essencial  da  aristocracia,  observa  R.  Hilton  (1973  a)  44-46.  era  a  sua  constituição 
hierárquica,  acentuada  pela  existência  de  uma  clivagem  entre  um  pequeno  número  de  famílias  muito 
poderosas  e  a  massa  dos  pequenos  senhores  Só  os  vínculos  vassálicos,  conclui  este  historiador,  asse¬ 
guravam  a  coesão  de  classe  da  aristocracia  e  impediam  que  a  diferenciação  económica  originasse  uma 
ruptura  social. 

1,(1  R.  Boutmche  ( 1968-1970)  1  217-218  observa  que  a  multiplicação  dos  elos  de  subordinação  per¬ 
mitiu  aos  vassalos  mais  pobres  prosperarem  e  impediu  a  exclerose  da  sociedade,  contribuindo  assim 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


243 


volvimento  da  subvassalização,  atenuando  o  controlo  directo  que  os  magnates  podiam 
exercer  sobre  os  níveis  inferiores  das  hierarquias  vassálicas,  decerto  constituiu  para  a 
baixa  aristocracia  um  factor  muito  importante  de  promoção.  Ao  mesmo  tempo  foram- 
-se  gerando  diversos  canais  específicos  de  mobilidade  social,  como  sucedeu,  por  exem¬ 
plo.  com  o  estatuto  de  escudeiro  na  Itália  setentrional,  no  século  XII.  Recrutados  entre 
o  campesinato  mais  próspero,  os  escudeiros  montavam  a  cavalo  e  auxiliavam  durante  o 
combate  os  cavaleiros  nobres,  a  quem  serviam  enquanto  fiéis  guerreiros  ou  sob  uma 
forma  de  vassalagem  setniplebeia.  Como  no  princípio  do  século  XIII  esta  categoria 
social  se  extinguiu,  ficando  as  terras  dos  escudeiros  convertidas  ou  em  senhorias  vassᬠ
licas  propriamente  ditas  ou  em  casais  camponeses,  deve  deduzir-se  que  as  possibilida¬ 
des  de  ascensão  assim  oferecidas  tinham  atingido  o  seu  limite  máximo81.  Por  outro 
lado,  os  mecanismos  da  vassalagem  permitiam  também  formalizar  o  rompimento  das 
últimas  ligações  com  a  classe  dominante  por  parte  daquelas  famílias  que  haviam  empo¬ 
brecido  a  ponto  de  perderem  o  seu  estatuto.  O  facto  de  no  interior  de  um  mesmo  grau 
da  hierarquia  vassálica  coexistirem  pessoas  dos  mais  variados  níveis  sociais  não  distin¬ 
guiu  em  especial  um  qualquer  pequeno  principado  cristão  na  Palestina82,  mas,  embora 
talvez  em  formas  menos  extremas,  caracterizou  todo  o  regime  senhorial  ao  longo  deste 
período. 

A  complexidade  resultante  deste  conjunto  de  circunstâncias  condicionou  a  adopção 
de  novas  formas  de  subordinação.  Mas  as  tensões  que  se  chocavam  eram  contrastantes 
demais  e  as  necessidades  que  se  sobrepunham  eram  múltiplas  em  demasia  para  que  o 
novo  sistema  de  vassalidade  pudesse  fornecer  regras  inteiramente  coerentes.  Sempre 
que  se  introduziram  outras  normas  e  modalidades  destinadas  a  assegurar  a  capacidade 
de  resposta  à  proliferação  de  situações,  não  se  conseguiu  senão  levar  ao  aparecimento 
de  novos  paradoxos.  Mal  surgira  a  vassalagem  preferencial,  logo  no  século  XI,  e  já 
havia  quem  começasse  a  tomar-se  vassalo  preferencial  de  vários  senhores  superiores  ao 
mesmo  tempo83,  sendo  estes  casos  cada  vez  mais  numerosos  de  então  em  diante84  e, 
pelo  menos  em  certas  regiões,  reconhecidos  até  pelo  direito85.  Perante  isto,  tentou-se 
recorrer  a  critérios  suplementares,  considerando-se  que  a  vassalagem  preferencial  mais 
antiga  devia  prevalecer  sobre  os  restantes  vínculos  do  mesmo  tipo86,  ou  introduzindo 
outras  normas  de  prioridade87.  Mas  com  que  resultados?  A  vassalagem  múltipla  pene¬ 
trara  a  própria  vassalagem  preferencial,  que  havia  sido  criada  para  a  limitar  e  pôr  cobro 


para  assegurar  a  longevidade  do  sistema,  em  vez  de  o  pôr  em  risco.  Além  disso,  como  indica  K.  Bosl 
(1979)  296  e  305,  o  quadro  da  vassalidade  ajudou  à  fusão  gradual  da  nobreza  não-livre  germânica,  os 
ministeriales,  na  restante  nobreza, 

81  Acerca  dos  escudeiros  ver  F.  Menant  ( 1980)  285-296. 

82  Segundo  informa  J.  Prawer  (1952-1953)  XXII  24-25,  na  senhoria  de  Tiro,  durante  o  século 
XIII,  existiam  apenas  três  graus  na  hierarquia  vassálica,  de  maneira  que  no  nível  inferior  incluíam-se 
pessoas  de  estatuto  social  muito  variado. 

85  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  167  e  segs. 

84  Ph.  Dollinger  (org,  1970)  97;  H.  Dubled  ( 1960  b)  156;  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  95-97;  L.  Geni- 
cot  ( 1975  )  49. 

85  L.  Genicotd  975)  49. 

86  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  95-97.  B.  D.  Lyon  (1951)  165. 

87  L.  Genicot  (1975)  49-50;  M.  Parisse  (org.  1977)  161. 


244 


Formo  II  do  dinheiro 


aos  seus  efeitos.  Como  pôde,  então,  a  classe  dominante  reforçar  a  sua  coesão  interna,  se 
a  estrutura  vassálica,  que  lhe  dava.  a  par  do  sistema  familiar,  um  quadro  de  funciona¬ 
mento,  não  conseguiu  manter  a  coerência? 

Foi  este  avolumar  de  contradições  que  possibilitou,  ou  exigiu,  a  difusão  do  dinheiro 
nas  relações  intersenhoriais.  As  hierarquias  haviam-se  tomado  demasiado  numerosas  e 
ao  mesmo  tempo  mutáveis  para  poderem  inserir-se  num  único  sistema  de  vassalidade. 
Mas  o  dinheiro,  que  constituía  tradicionalmente  um  instrumento  de  medida  e,  nas  peças 
de  maior  valor,  também  um  factor  de  prestígio,  permitia  uma  classificação  rigorosa  das 
posições  relativas,  registava  com  imparcialidade  as  ascensões  e  os  declínios,  e  ao 
mesmo  tempo  veiculava,  através  da  multiplicidade  de  operações  financeiras,  todo  o  tipo 
de  elos  que  se  desejassem  estabelecer.  O  dinheiro,  na  sua  Forma  II.  foi  o  grande 
cimento  da  classe  dominante  neste  período,  remediando  as  insuficiências  apresentadas 
pelos  restantes  quadros  institucionais. 


b.  Senhorias  pecuniárias 

Ao  longo  deste  período,  e  na  totalidade  das  regiões,  verificou-se  uma  profunda 
inovação  em  numerosíssimas  concessões  vassálicas.  Frequentemente  o  vassalo,  em  vez 
de  receber  uma  terra  e  um  conjunto  de  famílias  servis,  ou  direitos  sobre  uma  determi¬ 
nada  população,  obtinha  um  rendimento  anual,  constituído  muitas  vezes  por  géneros 
agrícolas,  ou  peixe,  embora  na  maior  parte  dos  casos,  e  de  maneira  sempre  mais  siste¬ 
mática,  este  rendimento  fosse  pago  directamente  em  dinheiro  pelos  cofres  do  senhor 
superior**8.  Aliás,  se  o  vassalo  pretendesse  alienar  o  rendimento  em  géneros,  ele  era 
avaliado  em  termos  monetários89.  Este  novo  tipo  de  concessões  não  beneficiou  apenas 
de  uma  difusão  geográfica,  mas  social  também,  porque  se  nos  Países  Baixos  a  esmaga¬ 
dora  maioria  das  senhorias  pecuniárias  foi  concedida  pelos  príncipes90,  em  muitas 
outras  regiões  tanto  os  soberanos  como  os  magnates  ou  mesmo  senhores  mais  modes¬ 
tos  atribuíram  aos  seus  vassalos  rendas  anuais  em  dinheiro  ou  em  géneros91.  Outro  ele¬ 
mento  de  divulgação  consistiu  no  facto  de,  tal  como  vimos  suceder  nos  demais  tipos  de 
concessão,  ser  possível  que  a  mesma  pessoa  recebesse  rendimentos  em  géneros  ou 
numerário  de  vários  senhores  superiores,  desenvolvendo-se  sem  restrições  a  vassala¬ 
gem  múltipla92. 


88  M.  Sezaniecki  ( 1946)  3-4.  159-160.  Ver  igualmente:  C.  Calien  ( 1940)  528:  F.  L.  Ganshof  ( 1955 
b)  101:  id.  ( 1968  b)  105;  B.  D.  Lyon  ( 1951)  162;  id.  ( 1954  b)  423:  J.  Prawcr  ( 1952-1953)  XXII  23;  J. 
Riley-Smith  ( 1973)  5,  6. 

89  M.  Sezaniecki  f  1946)  160. 

90  B.  D.  Lyon  (1954  b)  423.  427-428.  Ver  igualmente:  L.  Genicoí  (1943-1995)  1  62-64. 

91  P.  Bonnassie  (1968)  540-541:  E.  Boumazel  (1975)  106;  H.  Grassotti  (1969)  757.  768;  J.-P. 
Poly  et  al.  ( 1980)  282;  M.  Sezaniecki  ( 1946)  14.  20-21. 98. 

Miehel  Sezaniecki  em  op.  ei i.  acrescenta  (p.  98).  porém,  que  em  França  a  concessão  de  senhorias 
pecuniárias  por  senhores  de  condição  modesta  se  tomou  mais  rara  a  partir  da  segunda  metade  do 
século  XIII. 

B.  D.  Lyon  ( 1951)  165-166:  id.  (1954  b)  431:  M  Sezaniecki  ( 1946)  99- 100. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


245 


O  carácter  verdadeiramente  específico  e  inovador  deste  tipo  de  senhorias  ressalta  ao 
observarmos  que  não  parece  ter  existido  qualquer  relação  genética  entre  a  atribuição  de 
rendimentos  vassálicos  em  somas  monetárias  e  a  sua  atribuição  em  artigos  rurais,  pois 
em  França  os  mais  antigos  exemplos  conhecidos  diziam  respeito  indiferentemente  a 
uma  e  outra  modalidade-'’,  o  que  decerto  demonstra  o  seu  aparecimento  simultâneo.  E 
quando  lembramos  (ver  o  capítulo  4.b)  que  muitos  senhores  recorriam  aos  pagamentos 
em  géneros  como  uma  maneira  de  evitar  as  consequências  da  depreciação  monetária, 
compreendemos  que  em  diversas  ocasiões  se  transitasse  facilmente  da  concessão  em 
dinheiro  para  a  concessão  em  géneros04.  Além  disso,  parece  certo  que  a  senhoria  pecu¬ 
niária,  em  dinheiro  ou  mesmo  em  produtos  agrícolas,  não  se  referia  aos  rendimentos  de 
dadas  terras  e,  quando  não  era  remetida  directamente  à  tesouraria  geral  do  senhor  supe¬ 
rior,  resultava  de  outros  tipos  de  receita,  tanto  de  proveniência  urbana  como  decorrentes 
da  aplicação  dos  exclusivos  senhoriais  no  meio  rural95.  Se  assim  for.  concluo  que  as 


9i  M.  Sczaniecki  ( 1946)  19. 

94  A.  Castro  (1964- 1979)  II  1 12-113;  M.  Sczaniecki  (1946)  160. 

Referindo-se  ao  sucedido  em  Leão  e  Castela  no  período  delimitado  pelo  terceiro  quartel  do  século 
XIII  e  o  terceiro  quartel  do  século  seguinte.  H.  Grassotti  (1969)  791  e  segs.  defende  a  estranha  teoria 
de  que  a  depreciação  monetária,  com  o  consequente  aumento  da  inflação,  teria  contribuído  para  a 
multiplicação  do  número  de  concessões  de  senhorias  pecuniárias.  Esta  historiadora  argumenta  (p. 
795)  que  o  acréscimo  da  inflação,  levando  ao  declínio  dos  rendimentos  dos  aristocratas,  fez  com  que 
eles  pedissem  um  maior  número  de  senhorias  pecuniárias.  A  autora  pretende  mesmo  (p.  796)  que  o 
montante  das  senhorias  pecuniárias  se  elevava  para  compensar  o  agravamento  do  custo  de  vida,  o  que 
me  parece  uma  afirmação  muitíssimo  contestável.  Finalmente,  Hilda  Grassotti  escreve  (p.  809)  que  a 
difusão  das  senhorias  pecuniárias,  suscitada  pelas  pressões  inflacionistas,  ajudou  por  sua  vez  a  agra¬ 
var  a  inflação. 

95  É  esta  a  lese  sustentada  por  M.  Sczaniecki  ( l°46)  7.  Ver  igualmente:  J.  M.  W.  Bean  ( 1989)  32, 
113:  P.  Bonnassie  < 1975-1976)  757;  R.  Boutruche  (1968-1970)  II  270.  272;  F.  L,  Ganshof  (1968  b) 
106-107:  B.  D.  Lyon  ( 1951 )  170-174. 

Assim,  as  senhorias  pecuniárias  não  devem  confundir-se  com  certas  concessões  de  que  beneficia¬ 
vam  os  agentes  senhoriais  e  que,  segundo  G.  Duby  (1962)  460,  incluíam  uma  percentagem  das  exac- 
ções  cobradas  aos  camponeses.  Nestes  casos  a  remuneração,  mesmo  que  fosse  em  numerário,  decorria 
directamente  de  uma  terra  e  de  um  conjunto  populacional  bem  definidos,  o  que  não  sucedia  com  as 
senhorias  pecuniárias.  Ao  ler  Ch.  Higounet  (1980)  113-116  vejo  que  a  mesma  distinção  se  deve 
observar  relativamente  à  forma  como  os  castelãos  mais  modestos  do  sudoeste  da  Aquitânia  sustenta¬ 
vam  os  seus  cavaleiros,  concedendo-lhes  uma  percentagem  dos  tributos  devidos  pelos  habitantes  das 
aldeias  fortificadas. 

No  entanto,  N.  Dídier  mencionado  por  B.  D.  Lyon  (1954  b)  424  pretende  que  no  Hainaut  se  refe¬ 
ria  frequentemente  de  maneira  explícita  o  rendimento  de  uma  certa  terra  enquanto  fonte  de  pagamento 
de  uma  dada  senhoria  pecuniária  e  acrescenta  que.  se  o  senhor  superior  faltasse  ao  prometido,  o  vas¬ 
salo  entraria  na  posse  desses  campos.  Por  seu  lado,  analisando  o  caso  inglês.  S.  Harvey  (1970)  24  e  27 
afirma  com  toda  a  naturalidade  que  a  renda  estava  assente  numa  base  lundíána.  Com  efeito,  W.  H. 
Dunham  Jr.  ( 1968)  223  escreve  que  na  Inglaterra  as  vimas  pagas  no  quadro  das  senhorias  pecuniárias 
provinham  muitas  vezes  de  terras  especificamente  mencionadas  nos  contratos  escritos,  que  na  ilha 
podiam  acompanhar  este  género  de  concessões  vassalicas.  Porém,  tais  contratos  cobriam  acima  de 
tudo  situações  de  outro  tipo,  decorrentes  de  uma  forma  de  assalanamcnto  militar  e  mais  próximas, 
portanto,  de  uma  modalidade  renovada  de  prebenda  do  que  dos  elos  de  subordinação  Ver  a  este  res¬ 
peito:  J  M.  W.  Bean  ( 1989)  10,  32.  1 13-114,  123-124,  129.  143,  140-147.  232;  G.  A.  Holmes  (1957) 
59-60;  B.  D  Lyon  (1951)  192-193;  kl.  (1954  a)  510-511.  Mesmo  assim.  G.  A.  Holmes  (1957)  84 
esclarece  que.  se  os  pagamentos  estipulados  em  tais  contratos  se  referissem  a  terras,  isso  dizia  geral- 


246 


Fornia  II  do  dinheiro 


senhorias  pecuniárias  nunca  se  teriam  originado  nas  formas  comuns  de  senhoria  e  se 
inseriram  de  imediato  no  novo  quadro  de  relações  monetarizadas.  A  crermos  em  alguns 
especialistas,  porém,  esta  regra,  embora  válida  quanto  à  génese  das  senhorias  pecuniᬠ
rias,  não  se  aplicaria  ao  seu  processo  de  desenvolvimento  a  longo  prazo,  pois  tanto  os 
reis  de  França  como  os  da  Inglaterra,  bem  como  os  senhores  superiores  germânicos,  e 
até  por  vezes  os  condes  de  Barcelona,  concederam  geralmente  este  tipo  de  senhorias  a 


mente  respeito  a  rendas,  ficando  inalterada  a  estrutura  das  hierarquias  vassálicas.  Posso  concluir  com 
as  palavras  de  J.  M.  W.  Bean  ( 1989)  32  e  1 13.  sublinhando  que  na  Inglaterra  não  ocorreu  qualquer 
transformação  do  vínculo  fundiário  num  vínculo  pecuniário.  Na  verdade,  o  facto  de  a  senhoria  pecu¬ 
niária  ser  paga  em  dinheiro  tem  levado  vários  historiadores  a  confundirem-na  com  as  demais  retribui¬ 
ções  em  numerário  verificadas  entre  aristocratas.  Estes  autores  limitam-se,  assim,  a  uma  abordagem 
formal  e  alheiam-se  da  compreensão  estrutural  dos  fenómenos.  A  maneira  como  alguns  historiadores 
analisam  o  sucedido  na  península  hispânica  levanta  outro  género  de  problemas.  Referindo-se  ao  reino 
de  Castela,  M.-C.  Gerbet  <  1994)  74  indica  que  a  quantia  anual  estipulada  na  senhoria  pecuniária 
podia,  entre  outros  vocábulos,  denominar-se  ««erra»,  e  que  consistia  no  rendimento  extraído  de  uma 
dada  terra.  Porém,  ao  relatar  o  sucedido  no  extremo  final  do  período,  tudo  o  que  id.,  ibid.,  1 14  men¬ 
ciona  é  que  as  somas  previstas  nas  senhorias  pecuniárias  atribuídas  pelo  monarca  deviam  ser  cobradas 
em  certos  lugares  e  decorriam  de  determinados  rendimentos,  o  que  é  insuficiente  para  presumir  a 
existência  de  qualquer  relação  fixa  com  uma  base  fundiária.  Também  em  Portugal,  e  apesar  de  as 
senhorias  pecuniárias  serem  designadas  pelo  termo  «quantias»,  desde  o  final  do  século  XIII.  mas 
sobretudo  durante  o  terceiro  quartel  do  século  XIV,  o  seu  pagamento  seria  com  muita  frequência  pro¬ 
veniente  dos  rendimentos  de  terras  específicas,  a  crer  em  A.  Castro  (1964-1979)  II  357  e  360.  Con¬ 
tudo.  id..  ibid..  11  131  e  VIU  356  informa  que  durante  a  época  mencionada  ocorreu  um  movimento  de 
conversão  das  senhorias  pecuniárias,  mesmo  das  que  eram  pagas  em  numerário  e  géneros,  em  rendas 
de  terras  determinadas.  A  ser  assim,  havia  uma  diferença  de  fundo  entre  ambas  as  modalidades  de 
concessão  vassálica,  e  pode  supor-se  que  quando  as  senhorias  pecuniárias  se  referiam  a  rendimentos 
específicos  eles  não  decorriam  de  campos  de  cultura  bem  definidos,  mas  de  outros  tipos  de  rendimen¬ 
tos,  e  que  as  rendas  directamente  assentes  numa  base  fundiária  não  preenchiam  as  senhorias  pecuniᬠ
rias.  É  certo  que  na  segunda  década  do  século  XIV  o  rei  de  Portugal  concedeu  ao  novo  almirante  um 
conjunto  vassálico  composto,  entre  outros  bens,  por  uma  dada  soma  anual  em  numerário,  paga  a  partir 
dos  rendimentos  provenientes  de  quatro  terras,  designadas  em  documento;  mas  poucos  anos  depois 
aquela  senhoria  pecuniária  foi  substituída  pela  atribuição  de  senhorias  vassálicas  comuns.  Ver  a  este 
respeito  H.  G.  Barros  (1945-1954)  I  358  e  359  n.  I.  A  mesma  perspectiva  crítica  deve  empregar-se  a 
respeito  da  situação  nos  territórios  ocupados  no  Levante.  Encontra-se  em  S.  Runciman  ( 1955-1957)  11 
298  a  tese  de  que  no  reino  latino  de  Jerusalém  as  senhorias  pecuniárias  eram  sustentadas  por  rendi¬ 
mentos  monetários  fixos  provenientes  de  dadas  cidades  ou  aldeias,  e  no  principado  de  Antioquia  C. 
Cahen  ( 1940)  528  pretende  que  o  pagamento  de  cada  senhoria  pecuniária  era  garantido  por  um  dado 
rendimento,  de  uma  dada  localidade.  Mas  nenhum  destes  autores  assegura  que  tais  rendimentos 
decorressem  forçosamente  de  uma  base  fundiária  determinada.  Descrevendo  a  situação  do  reino  latino 
de  Jerusalém  no  século  XIII,  J.  Riley-Smith  ( 197.3)  6  enuncia  a  existência  de  três  tipos  de  senhoria 
pecuniária:  um  em  que  o  senhor  superior  se  comprometia  simplesmente  a  pagar  ao  vassalo  uma  dada 
soma  anual;  outro  em  que  o  pagamento  era  referido  aos  rendimentos  de  uma  aldeia  ou  de  um  grupo  de 
aldeias,  ou  a  receitas  provenientes  de  exclusivos  senhoriais  e  de  taxas;  finalmente,  num  terceiro  tipo. 
o  mais  comum,  as  senhorias  pecuniárias  remenam-se  a  rendimentos  exelusivamente  urbanos.  Por  seu 
lado.  J.  Prawer  (1969-1970)  I  473  e  574  explica  que  no  reino  de  Jerusalém  as  somas  compreendidas 
nas  senhorias  pecuniárias  podiam  ser  provenientes  de  taxas  cobradas  nos  mercados  urbanos,  de  direi¬ 
tos  portuários  ou  de  exclusivos  senhoriais,  aplicáveis  tanto  nas  cidades  como  no  meio  rural.  Aliás.  id. 
(1968  b)  165-166  menciona  apenas  as  senhorias  pecuniárias  constituídas  por  rendimentos  urbanos,  e 
acrescenta  que  quanto  mais  os  ataques  islâmicos  reduziam  o  território  cristão  tanto  maior  era  a  impor¬ 
tância  adquirida  pelas  senhorias  pecuniárias,  o  que  confirma  que  elas  se  baseavam  aqui  sobretudo  em 
rendimentos  típicos  da  cidade.  Ver  no  mesmo  sentido  H  E.  Mayer  ( 1972)  149. 


Da  vassahdade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


247 


título  prov  isório,  enquanto  não  dispunham  de  terras  suficientes  para  proceder  à  atribui¬ 
ção  de  senhorias  comuns96.  Todavia,  quando  se  sabe  que  na  maior  parte  dos  casos 
aquelas  concessões  de  rendimentos  nunca  chegaram  a  adquirir  uma  base  fundiária97, 
verifica-se  que  na  prática,  e  quaisquer  que  fossem  as  intenções  conscientes  dos  senho¬ 
res  superiores,  a  senhoria  pecuniária  se  manteve  em  geral  no  seu  plano  próprio.  É  espe¬ 
cialmente  ilustrativo  o  sucedido  em  Leão  e  Castela,  pois  apesar  de  as  conquistas  terem 
ampliado  o  território  e  os  monarcas  terem  distribuído  vastas  terras  aos  seus  vassalos, 
não  deixou  de  aumentar  o  número  das  senhorias  pecuniárias98.  O  único  ponto  de  con¬ 
tacto  entre  este  tipo  de  concessão  vassálica  e  os  tipos  clássicos  ocorria  precisamente 
quando  ela  chegava  ao  seu  termo,  e  mesmo  assim  não  se  tratou  de  uma  situação  gené¬ 
rica.  Se  o  senhor  superior  cancelasse  o  pagamento  anual  das  rendas,  o  que  sucedeu  com 
frequência  em  algumas  regiões,  tinha  obrigatoriamente  de  dar  ao  vassalo  uma  soma  em 
numerário.  Na  Germânia  e  nos  Países  Baixos,  mas  parece  que  não  na  França,  o  vassalo, 
por  sua  vez,  ficava  frequentemente  vinculado  a  empregar  aquela  quantia  na  aquisição  de 
terras,  peias  quais  deveria  prestar  homenagem  ao  mesmo  senhor  superior,  de  maneira  a 
prolongar  o  elo  de  subordinação99.  Na  sua  génese  e  enquanto  vigorava,  porém,  a  senho¬ 
ria  pecuniária  conservou  a  especificidade. 

Em  suma,  a  senhoria  pecuniária,  pelo  seu  conteúdo  e  pela  sua  forma  de  execução, 
tinha  já  características  francamente  impessoais,  que  mais  salientes  se  tomavam  ainda  se 
for  certo  que  o  vassalo  beneficiava  do  direito  a  receber  periodicamente  um  rendimento 
pago  directamente  pela  administração  do  senhor  superior,  e  independente  de  qualquer 
relação  com  uma  determinada  terra.  Esta  situação  conferia  à  senhoria  pecuniária, 
mesmo  na  modalidade  cobrada  em  géneros,  um  carácter  totalmente  impessoal.  Com 
efeito,  as  concepções  jurídicas  da  época  identificavam  a  terra  da  senhoria  e  os  direitos 
senhoriais,  a  tal  ponto  que  tanto  a  base  fundiária  como  os  rendimentos  dela  obtidos 
eram  incluídos  na  categoria  dos  imóveis100.  A  senhoria  pecuniária  escapava  a  esta  clas¬ 
sificação,  na  medida  em  que  não  estava  vinculada  a  uma  terra,  e  podia,  portanto,  gozar 
plenamente  dos  atributos  de  mobilidade  do  dinheiro. 

Tal  como  sucedeu  no  sistema  de  exploração  servil,  também  no  interior  da  classe 
dominante  a  divulgação  do  dinheiro  minou  o  carácter  pessoal  das  relações101.  Seria 


96  P.  Bonnassíe  (1968»  541;  B.  D.  Lyon  (1951)  168:  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  125;  M.  Scza- 
niecki  ( 1946)  89.  122.  129. 

97  P.  Bonnassíe  ( 1968)  541:  M.  Sczaniecki  <  1946)  124.  126. 

ys  H.  Grassolti  (  1969)  693-694,  758-759 

Para  explicar  que  mesmo  após  a  conquista  de  Toledo  tivesse  sido  mais  fácil  conceder  senhorias 
pecuniárias  do  que  distribuir  terras,  id..  ibid  .  751  afirma  que  a  area  entre  o  Douro  e  a  Cordilheira 
Central  fora  colonizada  por  município-.,  c  não  por  magnates  laicos  e  eclesiásticos. 

99  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  424,  434:  M.  Sczaniecki  (1946)  129-131 . 

100  M.  BlochC  1928  o  52. 

101  L.  K.  Lmle  1 197 1 )  29.  30;  id.  ( 1974)  29. 

Não  concordo  com  C.  Sánchez  Albornoz  (1968  a)  369.  quando  pretende  que  as  senhorias  pecu¬ 
niárias  constituíram  um  obstáculo  a  progressão  das  relações  vassálicas.  R.  Boutrucbe  (1968-1970)  II 
273-274  tem  razão  ao  sublinhar  que  a  concessão  de  senhorias  pecuniárias  não  foi  sintoma  de  qualquer 
declínio  do  sistema  vassálico  e  que  o  dinheiro  representou  um  instrumento  dc  subordinação.  Mas 
parece-me  mais  importante  ainda  chamar  a  atenção  para  a  transformação  que  as  relações  impessoais 


248 


Forma  II  do  dinheiro 


interessante  comparar  a  cronologia  do  aparecimento  da  senhoria  pecuniária  e  as  áreas 
sucessivas  da  sua  difusão  com  o  que  sabemos  a  respeito  da  cronologia  e  da  progressão 
geográfica  da  comutação  monetária  dos  serviços  de  trabalho  e  da  conversão  dos  tribu¬ 
tos  em  géneros  por  tributos  em  numerário  (  ver  o  capítulo  2.a).  mas  não  encontrei  entre 
os  especialistas  elementos  de  análise  suficientemente  detalhados  e  coerentes.  Posso 
ensaiar,  no  entanto,  algumas  conclusões  genéricas.  É  conhecido  nos  Países  Baixos  o 
caso  da  atribuição  de  uma  senhoria  pecuniária  nos  derradeiros  anos  do  século  X10-. 
mas  os  exemplos  são  muito  raros  no  século  seguinte  e  só  no  último  quartel  do  século 
XII  estas  concessões  se  generalizaram  bruscamente103.  Fico  sem  saber  se  algo  de  seme¬ 
lhante  se  passou  na  Inglaterra.  Logo  no  primeiro  ano  da  conquista  normanda  a  nova 
dinastia  recorreu  a  esta  modalidade  de  senhorias  vassálicas104,  e  apesar  de  um  especia¬ 
lista  sustentar  que  a  sua  verdadeira  divulgação  se  registou  na  ilha  apenas  a  partir  da 
última  década  do  século  XII105,  outros  antecipam  o  processo  para  a  abertura  desse 
século106.  Em  França  a  propagação  talvez  fosse  tardia,  já  que  a  menção  mais  antiga  a 
uma  senhoria  pecuniária  data  aí  do  final  da  penúltima  década  do  século  XI107,  e  parece 
que  só  a  partir  da  transição  do  século  XII  para  o  século  XIII  o  sistema  se  teria  tomado 
usual108.  Quanto  à  Gertnânia,  as  senhorias  pecuniárias  foram  sobretudo  frequentes  na 


impuseram  aos  vínculos  de  vassalagem.  Embora  B.  D.  Lyon  (1951)  164-165  observe  que  a  senhoria 
pecuniária  obedecia  às  mesmas  normas  jurídicas  que  se  aplicavam  à  senhoria  comum,  em  (1954  a) 
511  ele  considera  a  senhona  pecuniária  como  uma  instituição  híbrida,  ligada  à  vassalidade  e  à  econo¬ 
mia  monetária.  Era  o  dinheiro,  escreve  A.  Barbero  ( 1987)  119  a  propósito  da  França  do  século  XIII, 
que  determinava  a  oposição  entre  quem  comandava  c  quem  obedecia,  por  isso  a  aristocracia  dessa 
época  começou  a  prestar  uma  tão  grande  atenção  ao  cálculo  dos  seus  rendimentos.  G.  Duby  (1973) 
282  acrescenta  que  nos  meados  deste  período  o  dinheiro  tomou-se  o  mais  poderoso  dos  instrumentos 
do  poder. 

I0-  R.  Boutruche  ( 1968-1970)  II  273;  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  106;  M.  Sczaniecki  ( 1946)  21;  P. 
Spufford  (1984)  369. 

103  B.  D.  Lyon  (1954  b)  424-427;  P.  Spufford  (1984)  369. 

A  cronologia  definida  para  a  generalidade  dos  Países  Baixos  reproduziu-se  no  caso  particular  do 
Hainaut,  situado  na  articulação  da  França  com  a  Flandres,  onde  N.  Didier  referido  por  B.  D.  Lyon 
(1954  b)  423  indica  que  as  senhorias  fundiárias  surgiram  no  final  do  século  XI.  aumentando  de 
importância  no  século  seguinte  e  atingindo  a  maior  difusão  durante  o  século  XIII  e  grande  parte  do 
século  XIV. 

164  M.  Sczaniecki  (1946)  22. 

105  P.  Spufford  <  1984)  369. 

106  W.  H.  Dunham  Jr.  (1968)  223;  B.  D.  Lyon  (1954  a)  506.  Ver  acessoriamente:  S.  Harvev 
(1970)24. 

107  M.  Sczaniecki  ( 1946)  18. 

F.  L.  Ganshof  ( 1955  b)  101  menciona  o  exemplo  de  uma  senhoria  pecuniária  em  França  no  século 
X  ou  na  primeira  metade  do  século  XI,  acrescentando  que  se  tratava  de  um  caso  excepcional.  J.-P. 
Poly  et  al.  ( 1980)  280-281  consideram  que  as  senhorias  pecuniárias  teriam  começado  a  difundir-se  cm 
França  na  segunda  metade  do  século  XI.  mas  os  dois  co-autores  assimilam  a  essas  concessões  as  pre¬ 
bendas  em  dinheiro,  o  que  me  parece  incorrecto,  como  procurarei  mostrar  mais  à  frente. 

108  P.  Spufford  ( 1984)  369 

No  entanto,  G.  Foumier  ( 1978)  1 18  invoca  casos  de  castelãos  que.  na  França  do  século  XII,  recor¬ 
reram  à  concessão  de  senhorias  pecuniárias  para  assegurar  o  sustento  dos  cavaleiros  pertencentes  à 
guarnição  da  fortaleza  e  E.  Boumazel  ( 1975)  107  assevera  que  este  tipo  de  senhorias  vassálicas  era 
comum  já  nos  meados  do  século  XII.  quatro  décadas  antes  da  data  usualmemc  indicada 


Da  vassal idade  pessoal  â  domesticidade  impessoal 


249 


parte  ocidental  do  império100,  também  desde  o  início  do  século  XIII110.  Não  disponho 
de  informações  acerca  do  sucedido  na  Itália,  a  não  ser  que  até  ao  final  do  século  XII  foi 
ignorada  no  Latium  a  concessão  deste  tipo  de  rendimentos,  tanto  em  géneros  como  em 
dinheiro111.  Onde  as  senhorias  pecuniárias  se  tomaram  muito  comuns  e  numerosas 
desde  o  início  do  período  foi  nos  reinos  cristãos  das  Espanhas,  e  o  hábito  não  esmore¬ 
ceu  nos  séculos  seguintes112.  Do  outro  lado  do  Mediterrâneo,  logo  no  primeiro 
momento  em  que  os  peregrinos  cristãos  ali  se  estabeleceram,  e  de  então  em  diante,  ao 
longo  dos  séculos  XII  e  XIII.  este  tipo  de  concessão  divulgou-se  muitíssimo  nos  reinos 
e  principados  latinos  da  Palestina  e  da  Síria,  e  em  menor  grau  no  principado  franco  da 
Morea11  \  Por  fim.  nos  séculos  XIII  e  XIV  a  atribuição  de  senhorias  pecuniárias  havia- 
-se  convertido  numa  prática  corrente  na  França,  na  Germânia  ocidental,  na  Flandres, 
nos  Países  Baixos,  na  Inglaterra  e  no  que  restava  dos  territórios  de  soberania  latina  no 
Levante1  !4. 

É  muito  curioso  observar  os  paradoxos  decorrentes  da  atribuição  de  causas  particu¬ 
lares  a  fenómenos  de  amplitude  geral.  Assim,  numerosos  historiadores  consideram  que 
a  difusão  precoce  das  senhorias  pecuniárias  nas  Espanhas  se  deveu  à  supremacia  mili¬ 
tar  obtida  pelos  reinos  cristãos  sobre  os  pequenos  potentados  islâmicos  resultantes  da 


109  M  Sezaniecki  (1946)  8-9,  11-13. 

1,0  P.  Spufford  ( 1984)  369. 

Todavia,  G.  Barraclough  ( 1972)  83  escreve  que  durante  a  vigência  da  dinastia  sália.  que  reinou  na 
Gennânia  desde  o  extremo  final  do  pnmetro  quartel  do  século  X!  até  ao  termo  do  primeiro  quartel  do 
século  seguinte,  a  exploração  das  minas  de  prata  de  Rammelsberg  se  destinou  a  pôr  à  disposição  do 
monarca  numerário  suficiente  para  poder  beneficiar  os  seus  partidários  sem  amputar  em  terras  o  con¬ 
junto  senhorial  da  coroa.  Estas  concessões  de  somas  monetárias  não  seriam  senhorias  pecuniárias?  F. 
L.  Ganshof  (1955  b)  101  refere  dois  casos  de  concessão  de  senhorias  pecuniárias  na  Gennânia  antes 
do  meio  do  século  XI,  embora  advirta  que  se  tratava  de  ocorrências  invulgares. 

111  P.Toubert  (1973  b)  1160. 

112  P.  Bonnassie  (1968  )  541;  id.  (1975-1976)  757;  M.-C.  Gerbet  (1994)  14.  33,  74;  H.  Grassotti 
em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientilique  ( 1968  )  449,  450;  id.  (1969)  483.  751-752;  E.  Lourie 
(1966)  60;  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  234-235:  J.  Valdeón  Baruque  (1976)  58-59. 

Th.  N.  Bisson  ( 1980)  178  considera  que  as  senhorias  pecuniárias  se  tomaram  raras  na  Catalunha 
do  século  XII.  Em  Leão  e  Castela,  porém,  P.  Bonnassie  (1980)  39  afirma  que  as  senhorias  pecuniárias 
foram  as  concessões  vassálicas  mais  características  do  segundo  quartel  do  século  XII.  Como  sabemos 
já  das  nn.  8  e  13  deste  capítulo.  Robert  Boutruche  defende  uma  concepção  tão  restrita  de  vassalidade 
que  reduz  o  seu  âmbito  praticaroente  à  França  setentrional.  O  carácter  insustentável  desta  tese  fica 
patente,  por  exemplo,  em  id.  ( 1968- 1970)  II  273-274.  Depois  de  afirmar  -  muito  justamente  -  que  a 
concessão  de  senhorias  pecuniárias  cra  inteiramente  adequada  ao  sistema  vassálico,  Boutruche  sus¬ 
tenta  que  aquele  tipo  de  senhoria  não  obteve  êxito  na  península  hispânica,  onde,  em  sua  opinião,  não 
teria  havido  verdadeira  vassalagem.  Ora.  é  sabido  que  as  senhorias  pecuniárias  atingiram  desde  cedo 
uma  difusão  considerável  nas  Espanhas. 

R.  Boutruche  ( 1968-1970)  II  273:  C.  Cahcn  ( 1940)  528;  H.  E.  Mayer  (1972)  149:  J.  Prawer 
(1952-1953)  XXII  21:  id.  (1968  b)  165-166;  id.  (1969-1970)  I  468;  J.  Richard  (1980)  654-655;  J. 
Riley-Smith  ( 1973)  5;  S.  Runciman  ( 1955-1957)  II  298. 

H.  E.  Mayer  (1972)  163  afirma  que  no  principado  de  Antioquia  as  senhorias  pecuniárias  eram 
ainda  mais  difundidas  do  que  no  reino  de  Jerusalém,  mas  S.  Runciman  (1955-1957)  III  361  sustenta  a 
posição  exaetamente  oposta,  escrevendo  que  os  príncipes  de  Antioquia  e  os  condes  de  Trípoli  conce¬ 
deram  menos  senhorias  pecuniárias  do  que  os  rets  de  Jerusalém. 

114  L.  Genicot  ( 1975)  50;  G.  A.  Holmes  ( 1957)  83.  M.  Sezaniecki  (1946)  8-9.  11-13. 


'50 


Forma  II  do  dinheiro 


desagregação  do  Califado,  que  além  de  serem  vítimas  de  pilhagens  frequentes  estavam 
obrigados  ao  pagamento  anual  de  enormes  tributos  em  dinheiro115,  enquanto  autores 
especializados  no  reino  latino  de  Jerusalém  e  nas  demais  áreas  de  soberania  franca  do 
Levante  justificam  a  proliferação  de  senhorias  pecuniárias  precisamente  pelo  insucesso 
da  actividade  guerreira  dos  Cristãos,  que  não  obtiveram  territórios  suficientes  para 
poderem  concedê-los  como  senhorias  vassálicas  comuns*  *6.  Mas,  para  além  deste  desa¬ 
bafo  de  ordem  metodológica,  talvez  o  esboço  de  cronologia  me  permita  chegar  a  algu¬ 
mas  conclusões.  Em  primeiro  lugar,  numa  perspectiva  temporal,  vemos  que  a  progres¬ 
são  das  relações  impessoais  no  interior  da  classe  dominante  através  das  senhorias  pecu¬ 
niárias  ocorreu  com  um  atraso  sensível  se  comparada  com  a  sua  difusão  nas  relações  de 
exploração  mediante  a  monetarização  das  prestações  servis,  excepto  na  Espanha,  onde 
as  senhorias  pecuniárias  se  tomaram  comuns  bastante  antes  de  o  numerário  ter  conquis¬ 
tado  a  hegemonia  nos  mecanismos  de  exploração.  Em  segundo  lugar,  quanto  às  áreas 
geográficas,  a  diferença  que  se  me  afigura  mais  flagrante  resulta  da  comparativa  escas¬ 
sez  de  senhorias  pecuniárias  no  leste  da  Germânia,  precisamente  onde  as  migrações  e 
os  desbravamentos  haviam  estimulado  a  impessoalidade  nos  contactos  entre  servos  e 
senhores.  Mas  serão  estes  elementos  suficientes  para  estabelecer  que  existiu  uma  certa 
independência  entre  o  desenvolvimento  dos  factores  impessoais  nas  relações  de  explo¬ 
ração  e  nas  relações  internas  da  classe  senhorial? 

O  carácter  inteiramente  impessoal  da  senhoria  pecuniária  tomou-a  o  instrumento 
melhor  adaptado  às  condições  da  nova  época117.  Pelo  menos  na  generalidade  dos 
Países  Baixos  e  em  França,  bem  como  na  Catalunha,  tão  próxima  socialmente  do  que 
se  passava  a  norte  dos  Pirenéus,  observa-se  um  nexo  muito  íntimo  entre  a  recepção  de 
senhorias  pecuniárias  e  a  situação  de  vassalo  preferencial118,  o  que  permite  entender 


115  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  665-668;  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)  48;  M.-C.  Gerbet  (1994)  14;  H. 
Grassotti  (1964)  52,  55  e  segs.;  id.  em  Centre  National  de  la  Recherche  Scientifique  (1968)  450:  id. 
( 1969)  738  e  segs.;  J.  M.  Lacarra  (1968)  508-509;  E.  Lourie  ( 1966)  60;  C.  Sánchez  Albornoz  ( 1968  a) 
367. 

Todavia.  P.  Bonnassie  (1975-1976)  346  e  segs.  e  668  considera  que  na  Catalunha  estas  entradas 
maciças  de  numerário  não  se  deveram  apenas  aos  tributos  pagos  pelos  reis  das  taifas,  mas  igualmente 
ao  facto  de  muitos  cavaleiros  cristãos  servirem  como  mercenários  nas  hostes  islâmicas,  o  que  sucedeu 
tanto  nas  épocas  em  que  os  Cristãos  detinham  a  supremacia  guerreira  como  quando  se  conservavam 
na  defensiva. 

116  C.  Cahen  (1940)  528;  D.  Jacoby  <  1973)  886-887;  J.  Prawer(1968  b)  165-166:  id.  (1969-1970) 
I  473. 

Joshua  Pravver,  um  dos  mais  brilhantes  estudiosos  do  reino  latino  de  Jerusalém,  pode  chegar  ao 
ponto  de  pretender,  em  (1969-1970)  I  473.  que  as  senhorias  pecuniárias,  muito  difundidas  na  Pales¬ 
tina  cristã,  só  excepcionalmente  teriam  existido  na  Europa. 

117  Empregando  uma  terminologia  drástica,  mas  expressiva.  M.  Sczaniecki  (1946)  108  escreve 
que  enquanto  a  generalidade  das  rendas  era  de  carácter  económico,  a  senhoria  pecuniária  era  de  carác¬ 
ter  político.  No  mesmo  sentido.  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  446  e  segs.  pode  invocar  a  concessão  de  senho¬ 
rias  pecuniárias  como  um  instrumento  de  diplomacia. 

HS  P.  Bonnassie  (1968)  541;  id.  (1980)  22-23;  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  33:  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  428- 
-429;  M.  Sczaniecki  (1946)  81. 99,  105. 

No  Hainaut,  porém,  a  crer  no  estudo  efectuado  por  N.  Didier  referido  por  B.  D.  Lyon  (1954  bl 
424.  a  relação  inicial  entre  a  senhoria  pecuniária  e  a  vassalagem  preferencial  ter-se-ia  extinguido  no 
final  do  século  XIII  e  ao  longo  do  século  seguinte.  E  na  Flandres  do  século  XIV.  segundo  D.  Nicholas 


Da  vassaliiiiiitt  pessoal  a  JumeMifiiiade  impesboul 


25J 


sob  nova  luz  ambos  os  aspectos.  De  um  lado,  se  uma  instituição  aparentemente  criada 
para  reforçar  o  teor  pessoal  do  elo  de  vassalagem  pôde  servir  de  quadro  à  difusão  da 
forma  mais  impessoal  de  concessão  vassálica,  isto  confirma  o  que  observei  já  acerca  da 
incapacidade  da  subordinação  preferencial  para  conter  a  proliferação  de  fidelidades. 
Em  sentido  contrário,  todavia,  como  em  França,  e  de  certo  modo  nos  Países  Baixos  e 
na  Inglaterra,  se  a  subvassalização  e  a  alienação  de  senhorias  pecuniárias  eram  severa- 
mente  regulamentadas119,  conclui-se  -  de  maneira  inesperada  -  que  uma  modalidade 
tão  acentuadamente  impessoal  serv  ia  para  forjar  ligações  pessoais  mais  estáveis.  Estes 
paradoxos,  em  vez  de  nos  confundirem,  devem  elucidar-nos  sobre  o  sentido  dos  fenó¬ 
menos.  Por  outro  lado  ainda,  ao  vermos  que  os  vassalos  preferenciais,  esses  pilares  de 
todas  as  estratégias  e  manobras  políticas  dos  senhores  superiores,  estavam  muitíssimo 
interessados  pela  concessão  de  receitas  em  numerário,  podemos  deduzir  que  este  tipo 
de  senhorias  tinha  uma  vocação  diplomática  especialmente  acentuada.  No  caso  francês 
a  teia  tecida  pelas  senhorias  pecuniárias  tomou-se  tão  densa  que  ultrapassou  os  víncu¬ 
los  decorrentes  dos  outros  tipos  de  concessão  vassálica120,  e  em  Portugal  os  rendimen¬ 
tos  que  a  nobreza  extraía  das  suas  terras  teriam  acabado  por  equivaler  apenas  a  entre 
1/6  e  1/4  das  somas  que  lhe  eram  distribuídas  pela  coroa  sob  a  forma  de  senhorias 
pecuniárias121.  Mas  foi  para  o  exterior  das  fronteiras  que  as  senhorias  pecuniárias  possi¬ 
bilitaram  as  actuações  mais  inovadoras. 

Com  efeito,  as  concessões  em  dinheiro  não  necessitavam  de  respeitar  os  limites 
geográficos  de  cada  esfera  de  soberania122,  e  sucedeu  vezes  sem  conta  que  soberanos 
beneficiassem  com  senhorias  pecuniárias  príncipes  de  outros  territórios123,  bem  como 
as  atribuíam  sistematicamente  a  magnates  estrangeiros  e  a  pessoas  que  ocupavam  car¬ 
gos  elevados  nas  cortes  ou  nas  administrações  de  reinos  e  principados  vizinhos  ou  dis- 


(1971 )  280-281,  as  disposições  condais  destinadas  a  excluir  os  cidadãos  da  posse  de  senhorias  vassá- 
licas  nunca  abrangeram  as  senhorias  pecuniárias,  o  que  parece  mostrar  que  este  tipo  de  concessões 
não  estava  já  estritamente  relacionado  com  a  vassalagem  preferencial.  Quanto  à  Inglaterra,  B.  D. 
Lyon  ( 195  l  i  165  considera  que,  apesar  de  a  recepção  de  uma  senhoria  pecuniária  implicar  frequente¬ 
mente  a  prestação  de  uma  homenagem  preferencial,  a  forma  simples  era  mais  comum.  No  reino  latino 
de  Jerusalém,  fico  sem  saber  se  J.  Richard  (1953)  87  se  refere  à  existência  de  um  nexo  entre  vassala¬ 
gem  preferencial  e  senhoria  pecuniária. 

1 '''  M.  Sczaniecki  ( 1946)  98  e  151-152  afirma  que  em  França  foi  muito  rara  a  subvassalização  das 
senhorias  pecuniárias  e  que  a  venda  deste  tipo  de  concessões,  embora  frequente,  requeria  a  autoriza¬ 
ção  prévia  do  senhor  superior,  sendo  comuns  os  casos  de  proibição.  Nos  Países  Baixos,  segundo  B.  D. 
Lyon  ( 1954  b)  424  e  435-437.  as  alienações  eram,  em  geral,  possíveis,  mas  os  exemplos  de  subvassa¬ 
lização  não  eram  habituais.  Na  Inglaterra  não  leriam  ocorrido  alienações  nem  subvassalizações  de 
senhorias  pecuniárias,  a  crer  em  id.  ( 1951 )  169. 

12(1  M.  Sczaniecki  (1946)  97. 

121  A.  Castro  (1964-1979)  II  131-133. 

122  As  senhorias  pecuniárias,  observa  M.  Sczaniecki  (1946)  82-83  e  89.  permitiram  aos  senhores 
superiores  exercer  influência  muito  além  dos  limites  do  seu  conjunto  senhorial  ou  da  sua  esfera  de 
soberania. 

123  Logo  em  1066,  o  conquistador  do  trono  inglês  concedeu  uma  senhoria  pecuniária  ao  conde  da 
Flandres.  e  os  seus  sucessores  fizeram  mais  tarde  o  mesmo,  consoante  indica  id„  ibid.,  22.  Quanto  aos 
príncipes  germânicos,  Ch.  E.  Perrin  (1957-1959)  1 25  esclarece  que  eles  foram  abundantemente  provi¬ 
dos  de  senhorias  pecuniárias  pelos  reis  da  França  e  da  Inglaterra. 


Formo  II  do  dinheiro 


757 


tantes124.  Nestes  casos,  quando  as  senhorias  pecuniárias  cabiam  a  aristocratas  estran¬ 
geiros  cujos  soberanos  eram  por  seu  tumo  vassalos  de  quem  praticava  a  concessão, 
então  o  senhor  superior  estava  a  esquivar  as  cadeias  da  subvassalização  e  a  estabelecer 
vínculos  directos  com  níveis  mais  baixos  da  hierarquia,  reforçando  a  sua  própria  hege¬ 
monia1 2\  As  relações  vassálicas  puderam  assim  tecer-se  sem  peias  entre  diferentes 
pirâmides  hierárquicas,  ou  directamente  entre  níveis  distanciados  da  mesma  pirâmide, 
dando  às  alianças  maior  dimensão  e  outras  clivagens1 2h.  Como  todos  os  soberanos 
recorriam  ao  mesmo  método,  os  interesses  pecuniários  cruzados  suscitaram  em  cada 
área  de  soberania  a  formação  de  coligações  opostas  em  matéria  de  política  estran¬ 
geira127.  Um  tipo  de  concessão  vassáliea  que  não  estava  vinculado  a  qualquer  terra  nem 
a  qualquer  grupo  fixo  de  camponeses  deu  pela  primeira  vez  aos  poderosos  a  possibili¬ 
dade  de  atingirem  mais  longe  do  que  o  território  e  a  população  colocados  directamente 
sob  o  seu  domínio. 

Sendo  inteiramente  doméstica  enquanto  fonte  de  rendimentos,  já  que  era  paga  pela 
administração  do  senhor  superior  e  não  decorria  do  cultivo  de  um  dado  campo,  a 
senhoria  pecuniária  apresentava-se  como  uma  variante  da  prebenda.  Tratava-se,  porém, 
de  uma  prebenda  de  tipo  inteiramente  novo.  sem  vinculação  às  formas  clássicas128,  o 
que  se  confirma  quando  observamos  que  na  concessão  de  senhorias  pecuniárias  os  fiéis 
guerreiros  não  eram  mais  beneficiados  do  que  os  vassalos129.  Assim,  esta  modalidade 
de  senhorias  não  mostrava  qualquer  vocação  preferencial  pelo  âmbito  doméstico  tradi¬ 
cional.  Além  disso,  quando  os  senhores  superiores  passaram  a  converter  sistematica¬ 
mente  os  fiéis  em  vassalos,  recorreram  sobretudo  às  atribuições  de  terras  e  servos  e  só 
de  maneira  episódica  usaram  a  senhoria  pecuniária120.  Sob  o  ponto  de  vista  jurídico 


124  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  446-449:  M.  Sczaniecki  <  1946)  82.  95-96.  168. 

B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  436  esclarece  que  podiam  ocorrer  restrições  à  alienação  das  senhorias  pecu¬ 
niárias  quando  elas  eram  concedidas  nos  Países  Baixos  por  senhores  superiores  estrangeiros. 

1:5  M.  Sczaniecki  i  1946)  81-82. 

1:6  A  principal  importância  das  senhorias  pecuniárias,  escreve  id..  ibid.,  75-76.  foi  de  ordem  polí¬ 
tica,  tanto  interna  como  extema.  E  este  especialista  aborda  com  detalhe  (pp.  91  e  segs.)  o  papel 
desempenhado  pelas  senhorias  pecuniárias  no  estabelecimento  das  alianças  externas. 

12  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)446-449;  M.  Sczaniecki  (1946)  103. 

128  Todavia,  na  Catalunha  P.  Bonnassie  (1975-1976)  757  afirma  que  na  origem  da  senhoria  pecu¬ 
niária  estiveram  certos  tipos  de  prebenda  que  os  senhores  superiores  concediam  aos  vassalos  quando 
eles  lhes  prestavam  homenagem. 

129  B.  D.  Lyon  (1951 )  190  n.  1;  M.  Sczaniecki  <  1946)  23-25.  Ver  igualmente:  B.  D.  Lyon  (1954 
b)  449. 

Depois  de  chamar  a  atenção  para  a  dificuldade  de  esclarecer  a  origem  da  senhoria  pecuniária,  E. 
Boumazel  (1975)  107-108  sustenta  a  tese  de  que  ela  teria  procedido  das  prebendas  tradicionais, 
mediante  a  transformação  da  distribuição  diária  dc  géneros  numa  renda  em  géneros,  que  numa 
segunda  fase  se  converteria  numa  renda  em  dinheiro.  Mas,  como  tive  oportunidade  de  constatar,  as 
concessões  de  rendimentos  periódicos  em  produtos  agrícolas  e  em  numerário  surgiram  simultanea¬ 
mente  e.  além  disso,  parece-me  que  o  quadro  geral  em  que  vigoravam  as  senhorias  pecuniárias  as  des¬ 
tacava  claramente  das  antigas  prebendas. 

130  M.  Sczaniecki  ( 1946)  23-25. 

Em  sentido  oposto,  S.  Harvey  ( 1970)  24  e  27  pretende  que  na  Inglaterra  a  concessão  de  senhorias 
pecuniárias  fez  parte  do  processo  de  passagem  da  fidelidade  doméstica  á  autonomia  vassáliea.  mas 
esta  autora  considera  que  aquelas  rendas  estavam  assentes  numa  base  fundiária. 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


25J 


operava-se  igualmente  uma  diferença  muito  clara  entre  as  senhorias  pecuniárias  e  as 
prebendas  em  dinheiro,  embora  na  prática  a  clivagem  pudesse  ser  mais  difícil  de  esta¬ 
belecer.  Tomou-se  muito  comum,  ou  mesmo  indispensável,  como  veremos  na  continua¬ 
ção  deste  capítulo,  que  os  senhores  superiores  remunerassem  com  somas  monetárias  o 
serviço  guerreiro  dos  seus  vassalos,  pelo  menos  quando  ele  se  prolongava  além  de  um 
certo  número  de  dias,  mas  em  termos  legais  não  era  este  pagamento  que  conferia  ao 
serviço  um  carácter  obrigatório.  Os  deveres  do  vassalo  tinham  origem  na  própria  con¬ 
cessão,  quer  ela  incluísse  terras  e  servos,  ou  direitos,  ou  rendimentos,  neste  caso  rendi¬ 
mentos  monetários.  A  senhoria  pecuniária,  como  todas  as  demais  concessões  vassáli- 
cas,  era  criadora  de  um  vínculo  de  subordinação,  com  os  respectivos  direitos  e  obriga¬ 
ções.  o  que  jamais  sucedia  com  as  prebendas,  mesmo  as  distribuídas  em  numerário131. 
Esta  distinção  foi  especialmente  flagrante  na  Inglaterra,  onde  o  vassalo  que  detivesse 
uma  senhoria  pecuniária,  e  contrariamente  ao  que  sucedia  com  os  que  possuíam  apenas 
senhorias  vassálicas  comuns,  recebia  uma  remuneração  por  cada  dia  de  serviço  militar, 
mesmo  que  estes  dias  estivessem  previstos  no  prazo  mínimo,  O  facto  de  tanto  a  conces¬ 
são  como  a  remuneração  ocorrerem  sob  a  forma  monetária  não  nos  deve  fazer  esquecer 
que  uma  criava  o  vínculo,  com  os  respectivos  deveres,  e  a  outra  se  limitava  a  estipen¬ 
diar  a  execução  de  uma  obrigação  já  contraída1'2.  Também  no  reino  de  Castela  o  vas¬ 
salo  a  quem  fora  atribuída  uma  senhoria  pecuniária  beneficiava  de  uma  soma  suple¬ 
mentar  por  cada  dia  de  serviço  militar  que  prestava133.  Algo  de  semelhante  sucedia 
com  as  quantias  em  dinheiro  que  eram  frequentemente  dadas  pelos  senhores  superiores 
para  convencer  alguém  a  transformar  em  senhoria  vassálica  uma  senhoria  patrimonial 
independente.  Nos  casos  mais  comuns  tratava-se  de  pagamentos  feitos  por  uma  única 
vez,  e  não  do  direito  a  receber  de  maneira  regular  e  periódica  um  certo  rendimento,  o 
que  exclui  a  possibilidade  de  os  considerarmos  como  senhorias  pecuniárias134. 

Talvez  em  nenhuma  outra  aplicação  das  senhorias  pecuniárias  ressaltasse  de 
maneira  tão  flagrante  o  seu  carácter  impessoal  e,  ao  mesmo  tempo,  a  sua  conotação 
doméstica  como  quando  eram  usadas  por  chefes  de  família  para  converterem  em  elos 
de  vassalagem  as  relações  com  parentes.  No  Hainaut  sucedeu  com  certa  frequência  que 


131  Para  esta  distinção  jurídica  consultar:  H.  Grassotti  (1969)  767;  M.  Sczanieeki  (1946)  31  e 
segs.  Ver  também:  R.  P.  Abeis  ( 1988)  168;  B  D.  Lyon  ( 1951)  187. 

Todavia,  B.  D.  Lyon  (1951)  162  n.  1  previne  que  é  muito  difícil  distinguir  entre  as  senhorias 
pecuniárias  e  os  rendimentos  anuais  de  carácter  não  vassálico.  E,  analisando  o  sucedido  em  Leão  e 
Castela.  H.  Grassotti  ( 1964)  100  e  (1969)  769.  828  e  segs.  afirma  que  o  estado  de  guerra  interna  per¬ 
manente  em  que  se  digladiaram  durante  três  décadas  as  facções  da  nobreza,  desde  os  últimos  anos  do 
século  Xlll  até  ao  final  do  primeiro  quartel  do  século  seguinte,  teria  eliminado  a  distinção,  que  antes 
fora  nítida,  entre  as  senhorias  pecuniárias  e  os  soldos  de  guerra,  já  que  os  soldos  de  guerra  deixaram 
de  ser  ocasionais  e  passaram  a  ser  concedidos  sistematicamente,  enquanto  as  senhorias  pecuniárias 
começaram  a  ser  atribuídas  como  complemento  das  senhorias  comuns. 

l3:  J.  M.  W.  Bean  (1989)  32,  231;  B.  D.  Lyon  (1951)  186-187. 

133  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  74-75. 

Mas  seria  esta  a  situação  de  todos  os  vassalos?  Consultar  neste  capítuio  a  n.  148. 

134  G.  Duby  <  1953)  495-496;  B.  D.  Lyon  (1954  b)  441-442,  453. 

Na  Inglaterra,  porém,  B.  D.  Lyon  (1951)  169  observa  que,  se  a  soma  monetária  fosse  concedida 
com  a  condição  de  ser  investida  na  aquisição  de  campos,  o  rendimento  anual  que  eles  geravam  era 
considerado  uma  senhoria  pecuniária. 


254 


Forma  II  do  dinheiro 


o  primogénito,  tendo  ficado  com  a  totalidade  do  património  fundiário,  concedesse 
senhorias  pecuniárias  aos  irmãos  mais  novos135.  Do  mesmo  modo,  e  não  só  no  Hainaut 
como  em  todos  os  Países  Baixos,  as  senhorias  pecuniárias  foram  muitíssimas  vezes 
alienadas  e  constituídas  como  dote  das  filhas  casadoiras136.  ou  serviram  de  presente  do 
noivo  à  noiva137.  Aliás,  na  generalidade  das  regiões,  a  partir  dos  séculos  XI  ou  XII,  por 
vezes  mais  tarde,  o  dote  das  noivas  começou  a  ser  convertido  em  dinheiro138,  o  que 
abria  decerto  a  possibilidade  de  se  recorrer  sistematicamente  àquele  tipo  de  concessões. 
A  dupla  tensão  subjacente  à  transformação  dos  elos  de  parentesco  em  elos  de  subordi¬ 
nação  encontrou  na  atribuição  periódica  de  somas  monetárias  o  veículo  ideal,  onde  se 
manifestava  a  distância  da  impessoalidade  e,  simultaneamente,  a  proximidade  invocada 
pela  prebenda.  Imeiramente  impessoal,  ao  ponto  de  penetrar  sem  dificuldade  áreas  de 
soberania  rivais,  a  senhoria  pecuniária,  apesar  de  aparecer  como  um  novo  tipo  de  pre¬ 
benda,  era  capaz  de  se  afastar  mais  da  domesticidade  do  senhor  superior  do  que  o  fazia 
qualquer  outra  forma  de  concessão  vassálica.  No  contexto  genérico  do  relacionamento 
impessoal,  que  caracterizou  este  período,  surgira  o  instrumento  de  uma  domesticidade 
impessoal.  Este  aparente  paradoxo  constituiu,  na  verdade,  o  quadro  que  havia  de  inspi¬ 
rar  todo  o  desenvolvimento  da  monarquia  absoluta,  quando  a  cobrança  de  um  imposto 
geral  sob  forma  monetária  permitiu  converter  a  globalidade  dos  súbditos  numa  espécie 
de  enorme  domesticidade  régia.  Na  senhoria  pecuniária  encontramos  o  modelo  e  o 
gérmen  -  ou  seja,  o  paradigma  -  de  uma  nova  etapa  dos  sistemas  de  poder. 


c.  Mercenários 

A  introdução  do  dinheiro  no  serviço  militar  representou  uma  das  manifestações 
mais  esclarecedoras  do  desenvolvimento  das  relações  impessoais  no  interior  da  aristo¬ 
cracia.  Para  isso  contribuiu  de  maneira  decisiva  a  proliferação  de  senhorias  pecuniárias. 
Talvez  este  tipo  de  concessão  vassálica  não  se  destinasse  a  remunerar  preferencial¬ 
mente  a  actividade  guerreira.  É  certo  que  muitas  senhorias  pecuniárias  foram  instituí¬ 
das  por  motivos  estranhos  à  carreira  das  armas,  embora  os  especialistas  discutam  qual 
seria  a  situação  nas  várias  regiões 1?g.  Mas  mesmo  sendo  sabido  que  a  veiculação  mone¬ 
tária  dos  elos  de  subordinação  alcançou  um  âmbito  geral  e  se  verificou  a  propósito  das 


135  ld.  ( 1954  b)  423. 

136  Id„  ibid.,424.  445. 

ld.  (1951)  168  indica  que  na  Inglaterra  as  mulheres  podiam  deter  senhorias  pecuniárias,  o  que 
deixa  antever  a  hipótese  de  também  aí  este  tipo  de  concessão  ter  sido  usado  como  dote. 

137  ld.  (1954  b)  445. 

138  R.  Aubenas  ( 1936)  526,  536:  P.  Bonnassie  (1978)  288;  G.  Duby  1 1962)  395-396;  id.  ( 1977  a)  30. 

1 39  Estudando  o  sucedido  em  França  e  na  Inglaterra,  M.  Sczaniecki  (1946)  32-33.  54.  56,  73.  75- 
-76,  81  e  segs.  e  108  pretende  que  a  vocação  das  senhorias  pecuniárias  não  foi  suscitar  o  serviço  de 
guerra,  mas,  acima  de  tudo,  angariar  apoios  políticos  e  diplomáticos.  Este  especialista  chama  a  aten¬ 
ção  (p.  56).  todavia,  para  a  necessidade  de  averiguar  a  questão  nas  outras  regiões.  Em  sentido  contrᬠ
rio,  B.  D.  Lyon  (1954  b)  464-465  afirma  que  em  França  e  nos  territórios  cristãos  da  Síria  e  da  Pales¬ 
tina  as  senhorias  pecuniárias  teriam  como  objectivo  principal  conseguir  o  auxílio  regular  de  guerrei¬ 
ros,  enquanto  a  obtenção  de  serviços  diplomáticos  assumiria  a  preponderância  na  Germânia.  de  maneira 


Da  \  assai  idade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


255 


demais  iniciativas  nobres,  a  importância  da  guerra  nesta  época  fez  com  que  as  senho¬ 
rias  pecuniárias  tivessem  uma  incidência  especial  na  esfera  militar. 

Ao  mesmo  tempo,  a  prebenda  concedida  aos  fiéis  guerreiros  começou  a  assumir, 
pelo  menos  em  parte,  uma  forma  monetária14".  Nestas  circunstâncias,  passaram  igual¬ 
mente  a  receber  prebendas  em  dinheiro  aqueles  guerreiros  que,  sem  serem  vassalos, 
também  não  se  integravam  de  maneira  estável  e  permanente  em  qualquer  domestici¬ 
dade  senhorial,  colaborando  com  os  outros  combatentes  apenas  quando  os  exércitos 
eram  convocados.  Estes  homens,  que  formavam,  por  assim  dizer,  uma  categoria  de  pre¬ 
bendados  temporários  especializada  no  manejo  das  armas,  converteram-se  de  maneira 
gradual  em  assalariados.  Mas  a  transformação  não  quebrou  definitivamente  a  sua  rela¬ 
ção  com  o  quadro  doméstico  tradicional,  porque  em  algumas  regiões  e  épocas  o 
monarca,  além  de  pagar  o  soldo  aos  mercenários,  distribuía-lhes  alimentos  durante  as 
campanhas  militares141,  mantendo-os  portanto  numa  forma  mista  de  assalariamento  e 
prebenda  em  géneros. 


que,  globalmente,  seriam  os  interesses  militares  a  prevalecer.  E,  a  propósito  dos  Países  Baixos,  id., 
ibid..  455-462  mostra  que  era  muito  divulgada  a  prática  de  atribuir  senhorias  pecuniárias  para  reunir 
cavaleiros  no  campo  de  batalha.  A  mesma  posição  é  adoptada  por  E.  Boumazel  ( 1975)  106-108  a  res¬ 
peito  da  França,  sustentando  que  as  senhorias  pecuniárias  retribuíam  a  activ  idade  guerreira.  Quanto  à 
Inglaterra,  W.  H.  Dunham  Jr.  ( 1968)  223  invoca  a  concessão  de  senhorias  pecuniárias  para  vincular 
cavaleiros  à  prestação  do  serviço  militar,  e  B.  D.  Lyon  < 1951 )  174  e  segs.  e  186  esclarece  que  houve 
poucos  casos  de  senhorias  pecuniárias  concedidas  pelos  monarcas  ingleses  apenas  em  compensação 
de  serviços  políticos  ou  diplomáticos,  destinando-se  a  maior  parte  a  fins  militares;  as  senhorias  pecu¬ 
niárias,  acrescenta  este  autor  (p.  190),  foram  um  instrumento  de  recrutamento  que  completou  o  sis¬ 
tema  de  mercenários.  Evitando  o  problema,  R.  Hilton  (1973  a)  46  menciona  a  concessão  de  quantias 
em  dinheiro  a  troco  de  uma  lealdade  militar  e  política.  Também,  analisando  o  caso  do  Hainaut.  N. 
Didier  citado  por  B.  D.  Lyon  (1954  b)  423  considera  que  as  senhorias  pecuniárias  eram  empregues 
para  dispor  de  apoios  tanto  militares  como  políticos.  Em  Portugal,  na  segunda  metade  do  século  XIV, 
A.  Castro  (1964-1979)  II  110  e  358  refere  que  dois  monarcas  pagaram  somas  em  dinheiro  a  nobres 
que  haviam  participado  em  campanhas  militares,  mas  sem  esclarecer  devidamente  se  se  tratava  de 
soldos  ou  de  senhorias  pecuniárias. 

140  Foi  o  que  aconteceu  em  Inglaterra  no  primeiro  terço  do  século  XI  sob  a  monarquia  anglo- 
-escandinava.  e  a  mesma  situação  já  havia  ocorrido,  por  exemplo  no  último  quartel  do  século  IX,  pelo 
menos  sob  um  rei  anglo-saxónico.  Ver  a  este  respeito  R.  P.  Abeis  (1988)  167-168.  Por  seu  lado.  e 
ainda  a  propósito  do  caso  inglês,  J.  M.  W.  Bean  ( 1989)  146  defende  que  os  pagamentos  pecuniários 
realizados  anualmente  também  vigoraram  no  âmbito  doméstico.  De  igual  modo.  nas  Espanhas.  L.  G. 
Valdeavellano  (1958)  223-224  e  229  refere  a  distribuição  de  prebendas  em  dinheiro  a  cavaleiros  man¬ 
tidos  na  casa  do  senhor.  Consultar  no  mesmo  sentido  C.  Sánchez-Albomoz  (1968  b)  373-377  a  res¬ 
peito  de  Castela  no  início  do  período.  Na  Auvergne,  durante  a  segunda  metade  do  século  IX,  é  inte¬ 
ressante  o  caso  de  Géraud  d"  Aurillac.  a  quem  era  atribuído  o  título  de  conde  e  que  na  sua  época  foi 
considerado  santo.  A.  R.  Lewis  (1964  a)  50-53  e  55  mostra  que.  graças  a  um  hábil  equilíbrio  entre 
casas  rivais,  Géraud  conseguiu  não  entrar  na  vassalagem  de  nenhum  príncipe,  mas  também  não  dispu¬ 
nha  de  vassalos,  contando  apenas  com  fiéis  guerreiros,  remunerados  com  prebendas  em  géneros  e 
igualmente  em  dinheiro. 

141  Foi  o  que  sucedeu  na  Inglaterra  pelo  menos  no  último  quartel  do  século  XIII  e  na  primeira 
década  do  século  seguinte,  durante  o  reinado  de  Eduardo  I,  a  crer  em  M.  Prestwich  (1972)  114.  Con¬ 
sultar  igualmente  J.  M.  W.  Bean  (1989)  1 3  e  232.  Pelo  que  leio  em  P.  Bonnassie  (1975-1976)  672-673, 
a  siniação  foi  mais  complexa  na  Catalunha  durante  o  segundo  terço  do  século  XI,  já  que  podiam  tam¬ 
bém  ser  em  numerário  os  presentes  que  o  conde  distribuía  aos  mercenários  no  início  das  campanhas. 


256 


Forma  II  cio  dinheiro 


Ora.  os  vassalos  também  beneficiavam  frequentemente  da  repartição  de  prebendas, 
em  especial  quando  as  hostes  se  punham  em  marcha142,  e  a  monetarização  atingiu-os 
por  mais  este  viés.  Com  efeito,  os  senhores  superiores,  e  os  soberanos  acima  de  todos 
eles,  tanto  passaram  a  angariar  mercenários  como  a  remunerar  o  serviço  militar  dos 
vassalos.  Sob  o  ponto  de  vista  jurídico  a  demarcação  entre  os  dois  processos  não  dei¬ 
xava  lugar  a  dúvidas,  porque  no  segundo  caso  a  obrigação  era  anterior  ao  pagamento, 
decorrendo  da  própria  situação  subordinada  do  vassalo,  enquanto  no  primeiro  caso  só  o 
assalariamento  vinculava  o  mercenário  ao  combate143.  Na  prática,  contudo,  as  confu¬ 
sões  proliferavam.  A  partir  de  datas  variadas,  consoante  as  regiões,  mas  de  maneira 
cada  vez  mais  sistemática,  sempre  que  a  prestação  militar  dos  vassalos  se  prolongava 
além  de  um  dado  número  de  dias,  previamente  estabelecido,  ou  quando  as  campanhas 
se  realizavam  fora  de  uma  área  geográfica  bem  determinada,  o  senhor  superior  ficava 
obrigado  a  entregar  uma  quantia  em  numerário144.  E  sucedia  até  em  algumas  regiões 
que  todo  o  tempo  de  actividade  guerreira  do  vassalo  devesse  ser  remunerado,  mesmo 
que  se  incluísse  no  prazo  do  serviço  obrigatório147.  Além  disso,  tomou-se  muito 
comum  ao  longo  do  século  XIII  que.  terminado  aquele  período  de  serv  iço,  os  vassalos 
continuassem  a  guerrear  sob  o  comando  do  mesmo  senhor  superior,  recebendo  idêntica 
gratificação,  mas  agora  na  situação  de  mercenários146.  Multiplicaram-se  assim  as  opor¬ 
tunidades  de  difundir  o  dinheiro  nas  relações  de  subordinação,  ficando  facilitado  o  seu 
uso  em  todos  os  aspectos,  e  o  serviço  vassálico  converteu-se  progressivamente  numa 
profissão  paga.  E  se  for  exacto  que  em  Leão  e  Castela,  onde  desde  cedo  começara  a  ser 
atribuída  aos  vassalos  nobres  uma  soma  suplementar  em  dinheiro  pelo  cumprimento 
dos  deveres  militares14',  os  membros  da  cavalaria  popular,  mesmo  estando  na  vassala¬ 
gem  de  senhores  particulares,  só  nos  séculos  XIV  e  XV  teriam  passado  a  receber  siste¬ 
maticamente  uma  remuneração  pecuniária148,  de  novo  concluímos  que  o  aparecimento 


142  M.  Bloch  (1928  c)  53,  55-56;  Ph.  Dollinger  (1949)  298;  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  90. 

143  Ver  neste  capítulo  a  n.  131 . 

144  F.  L.  Ganshof  <  1968  b)  84;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  174;  M.  Sczaniecki  (1946)  30.  31. 

145  R.  W.  Kaeuper  ( 1973 1  174;  E.  Lourie  (1966)  60;  B.  D.  Lyon  ( 1954  a)  503;  C.  Sánchez-Albor- 
noz  (1980)  199-200;  M  Sczaniecki  (1946)  30;  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  2.71.  Parece  ser  esta  a 
situação  a  que  se  referem:  E.  Boumazel  (1975)  106;  H.  Grassotti  (1969)  733-734,  768:  J.  Mattoso 
[1994  b]  194;  P.  Spufford  ( 1984  )  369. 

Não  vejo  razão  para  considerar,  com  R.  Koebner  (1965)  43,  que  os  pagamentos  monetários  efec- 
tuados  pela  coroa  polaca  aos  seus  vassalos,  em  troca  do  cumprimento  do  serviço  militar,  fossem  uma 
especificidade  daquele  reino,  devida  à  manutenção  de  um  certo  número  de  tradições  eslavas  pré- 
-  senhoriais. 

146  H.  Grassotti  (1969)  769.  828  e  segs.:  R.  W.  Kaeuper  (1973)  174;  M.  Sczaniecki  (1946)  30-31. 
Consultar  igualmente:  H.  Grassotti  (1964)  100:  M.  Prestwich  (1972)  90. 

147  H.  Grassotti  ( 1969)  733-734;  E.  Lourie  1 1966)  60;  L.  G.  Valdeavellano  ( 1958)  23 1 . 

I4íl  É  esta  a  tese  defendida  por  C.  Pescador  (1961-1964)  XXXV-XXXVI  152-153.  Por  seu  turno. 
H.  Grassotti  (1969)  734-735  admite  que  talvez  já  no  reino  astur-leonês  se  recompensasse  com 
dinheiro  o  serviço  militar  de  membros  da  cavalaria  popular  que  tivessem  sido  nobilitados.  Mas 
parece-me  que  em  tais  casos  seria  enquanto  nobres  que  eles  recebiam  o  pagamento,  o  que  confirma  a 
tese  de  Carmela  Pescador.  Todavia,  referindo-se  à  época  em  que  Castela  se  manteve  autónoma  do 
reino  de  Leão,  C.  Sánchez-Albomoz  (1980)  184  afirma  que  desde  a  segunda  metade  do  século  X 
membros  da  cavalaria  popular  podiam  tomar-se  vassalos,  obtendo  então  do  senhor  superior  ou  con¬ 
cessões  fundiárias  ou  somas  de  dinheiro. 


Da  vassatiJudí  pessoa!  u  dvmesiu  idade  impessoal 


257 


do  dinheiro  nas  relações  de  subordinação  se  iniciou  na  própria  esfera  da  nobreza,  e  não 
por  influência  ou  contaminação  de  meios  plebeus.  Nestas  circunstâncias,  era  cada  vez 
mais  difícil  saber  se  um  dado  cavaleiro,  num  dado  dia,  batalhava  como  vassalo  ou 
como  mercenário  e  se  a  soma  que  embolsava  era  uma  prebenda  pecuniária  ou  um  ver¬ 
dadeiro  soldo149.  No  final  do  período,  será  que  os  cavaleiros  que  cobravam  em  numerᬠ
rio  a  concessão  vassálica.  e  a  quem  era  distribuída  igualmente  em  numerário  a  gratifi¬ 
cação  usual  durante  os  dias  de  serviço  obrigatório,  seriam  capazes  de  discernir  com 
suficiente  subtileza  jurídica  o  carácter  de  ambas  as  quantias? 

Decerto  não,  porque  mesmo  as  formas  da  lei  começaram  a  ser  condicionadas  por 
aquela  indefinição,  e  deram  em  Inglaterra  o  estatuto  de  uma  instituição  àquilo  que  hoje, 
na  perspectiva  da  dinâmica  histórica,  nos  aparecem  como  modalidades  distintas, 
embora  conjugadas  numa  mesma  fase  de  transição.  A  partir  da  passagem  do  século 
XIII  para  o  século  XIV  a  cavalaria  do  exército  inglês  começou  a  basear-se  num  sistema 
em  que  um  número  reduzido  de  magnates,  mediante  um  dado  tipo  de  contrato  escrito 
em  duas  cópias,  e  a  troco  de  uma  remuneração  em  dinheiro,  se  comprometia  a  pôr  à 
disposição  da  coroa,  ou  de  outro  magnate,  uma  certa  quantidade  de  guerreiros  monta¬ 
dos  e  bem  equipados,  ou  ainda  profissionais  de  outras  especialidades  militares.  Por  sua 
vez,  era  muito  comum  que  cada  um  destes  combatentes  estivesse  também  ligado  por 
um  contrato  idêntico  ao  magnate  que  os  recrutara  e  lhes  pagava  o  respectivo  soldo.  O 
prazo  de  todos  estes  contratos  era  variável,  podendo  durar  meses  ou  anos,  ou  limitar-se 
a  uma  dada  campanha,  ou  prolongar-se  vitaliciamente150.  Se  bem  que  se  tratasse  de 
uma  forma  tipicamente  mercenária  de  recrutamento,  o  recurso  aos  magnates  enquanto 
intermediários  perpetuava,  nas  novas  circunstâncias,  a  antiga  relação  entre  os  grandes 
vassalos  régios  e  os  subvassalos151.  Além  disso,  o  género  de  documentos  que  fornecia 
o  suporte  jurídico  àqueles  contratos  assim  como  dizia  respeito  ao  assalariamento  de 
combatentes  segundo  o  estilo  dos  mercenários  prestava-se  igualmente  a  registar  novas 
modalidades  de  serviço  doméstico  e  ainda  situações  tão  próximas  da  concessão  de 
senhorias  pecuniárias  que  facilmente  se  confundem  com  elas152.  O  facto  de  estas  dife- 


149  H.  Grassotti  (1964)  100;  id.  ( 1969)  769.  828  e  segs.;  J.  Mattoso  [1994  b]  194;  M.  Prestwich 
(1972)  90,  91;  M.  Sczamecki  ( 1946)  30-31. 

150  Acerca  destes  contratos,  as  indentures.  naquilo  que  diz  respeito  aos  aspectos  mencionados, 
ver:  J.  M.  W.  Bean  ( 1989)  10,  13.  55:  G.  A.  Holmes  (1957)  59-60,  79-81,  84;  B.  D.  Lyon  (1951)  192- 
-193;  id.  (1954  a)  504,  51 1;  M.  Prestwich  (1972)  91. 

151  Aliás,  referindo-se  ao  reinado  de  Eduardo  1,  no  último  quartel  do  século  XIII  e  na  primeira 
década  do  século  seguinte.  R.  W.  Kaeuper  (1973)  174  afirma  que.  além  destes  mercenários,  os  mag¬ 
nates  mobilizavam  ainda  hostes  vassálicas. 

152  J.  M.  W.  Bean  ( 1989)  32.  65,  113-114,  123  124,  129,  146.  231-232;  W.  H.  Dunham  Jr.  (1968) 

223. 

Ainda  que  os  termos  destes  contratos  fossem  muito  semelhantes  aos  das  senhorias  pecuniárias,  B. 
D.  Lyon  (1954  a)  510  observ  a  que  num  caso  o  dinheiro  constituía  a  única  razão  de  ser  do  vínculo, 
enquanto  no  outro  caso  o  elo  era  estabelecido  por  relações  de  subordinação,  implicando  a  homenagem 
e  os  deveres  de  fidelidade.  Mas  este  especialista  logo  acrescenta  (pp.  510.  5 1 1)  que  a  senhoria  pecu¬ 
niária  foi  o  precedente  vassálico  da  indenture.  Ver  igualmente  id.  ( 195 1 )  1 90.  Como  sempre  sucede,  é 
praticamente  impossível  traçar  linhas  de  demarcação  no  interior  das  formas  de  transição,  onde  aspec¬ 
tos  decorrentes  de  instituições  distintas  são  articulados  num  conjunto  único. 


25S 


Forma  II  do  dinheiro 


rentes  alternativas  serem  então  concebidas  em  Inglaterra  como  decorrendo  de  um 
modelo  jurídica  único,  integrador  do  sistema  de  contratos,  ilustra  as  condições  vigentes 
na  época.  Um  episódio  sucedido  em  Castela  na  segunda  metade  do  século  XIV  des¬ 
venda  a  outra  face  da  mesma  situação.  Na  guerra  dinástica  que  então  dilacerou  a 
monarquia,  o  bastardo  rebelde  assalariou  tropas  estrangeiras  e  por  esta  ou  por  outras 
razões  conseguiu  triunfar  e  tomar-se  rei.  Chegado  ao  trono,  distribuiu  extensas  senho¬ 
rias  vassálicas  aos  comandantes  mercenários,  mas  só  um  deles  permaneceu  no  país, 
tendo  todos  os  demais  vendido  as  terras  e  partido153.  Haveria  maneira  mais  eloquente 
de  mostrar  que  o  objectivo  destes  homens  era  apenas  servir  por  dinheiro?  A  mesma 
forma  monetária  que  podia  estabelecer  uma  indefinição  entre  as  senhorias  pecuniárias  e 
o  soldo  dos  mercenários  oferecia  uma  base  suficiente  para  diferenciar  o  assalariamento 
guerreiro  da  vassalagem  clássica. 

Estava  criado  o  quadro  para  que  os  vassalos  se  convertessem  em  mercenários,  e  eles 
fizeram-no  através  de  duas  vias,  quer  imediatamente,  comutando  por  um  pagamento 
monetário  a  totalidade  do  seu  serviço  militar  e  empregando-se  depois  como  cavaleiros 
estipendiados,  quer  mediata  e  parcialmente,  cumprindo  o  seu  serv  iço  na  hoste  e  perma¬ 
necendo  depois  enquanto  mercenários  sob  o  comando  do  mesmo  senhor  superior,  de 
maneira  que  a  soma  que  até  um  dado  dia  lhes  era  atribuída  sob  a  forma  de  prebenda  em 
dinheiro  convertia-se  depois  num  soldo.  Em  qualquer  caso,  o  resultado  foi  o  mesmo.  A 
difusão  das  senhorias  pecuniárias,  a  evolução  sofrida  pelos  guerreiros  prebendados  e  a 
transformação  operada  nas  prebendas  monetárias  formaram  um  ambiente  muitíssimo 
propício  ao  recrutamento  sistemático  de  mercenários. 

No  começo  deste  período,  ou  antes,  durante  a  crise  que  desarticulou  o  antigo  impé¬ 
rio  carolíngio,  praticamente  não  deparamos  com  mercenários154.  Na  Inglaterra  da  pri¬ 
meira  metade  do  século  XI.  governada  por  uma  dinastia  dinamarquesa,  regista-se  a 
actividade  de  numerosos  mercenários  escandinavos,  pagos  em  dinheiro155.  Mas  penso 
que  a  sua  presença  se  justificaria  por  quaisquer  elementos  institucionais  próprios  da 
sociedade  escandinava  e  alheios  às  condições  prevalecentes  no  regime  senhorial 
daquela  época,  pois  logo  que  se  restabeleceu  uma  dinastia  anglo-saxónica  foram  dissol¬ 
vidas  as  hostes  mercenárias156.  E  no  continente,  onde  os  invasores  depressa  haviam 
adoptado  o  sistema  senhorial,  que  aliás  contribuíram  para  desenvolver  (ler  na  Parte  II  o 
capítulo  5.b),  era  talvez  provável  que  os  Magiares  e  os  Escandinavos  da  Normandia  que 
combatiam  ao  lado  de  soberanos  e  magnates  não  recebessem  qualquer  soldo  e  benefi¬ 
ciassem  apenas  com  as  razias  e  as  oportunidades  de  pilhagem  oferecidas  por  todas  as 
grandes  campanhas157.  Além  disso,  desde  cedo  os  habitantes  das  cidades  fortificadas 


153  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  389.  II  55. 

154  J.  Boussard  (1968  b)  132-133  afirma  que  emre  os  rios  Mosa  e  Loire.  no  início  do  século  X, 
não  se  encontra  qualquer  referência  à  presença  de  mercenários,  e  acrescenta  (p.  133)  que  até  ao  final 
daquele  século  não  sabemos  como  eram  remunerados  os  guerreiros  profissionais  que  frequentemente 
auxiliavam  as  hostes  vassálicas. 

155  P.H.  Sawyer  (1962)  115-116. 

I5h  Id.,  ibid.,  1 15-1 16  indica  que  em  1051  Eduardo  o  Confessor  dissolveu  as  últimas  hostes  de 
mercenários  escandinavos. 

157  J.  Boussard  ( 1968  b)  142-145. 


Da  vasxalitíaJe  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


25  9 


prestavam  serviço  gratuito  em  exércitos  com  fins  predominantemente  defensivos158,  e 
mesmo  ao  aproximar-se  o  termo  do  período,  apesar  de  ser  cada  vez  menor  o  número  de 
membros  destas  milícias  urbanas  e  mais  reduzida  a  sua  função  militar,  pelo  menos  em 
Itália  sabe-se  que  continuavam  a  ser  convocados,  combatendo  ao  lado  das  companhias 
mercenárias159.  O  assalariamento  regular  de  guerreiros  começou  a  verificar-se  em  cer¬ 
tas  regiões  na  passagem  do  século  X  para  o  século  seguinte160.  embora  noutras  o  seu 
aparecimento  tivesse  sido  muito  mais  tardio161.  Alguns  especialistas  da  história  das 
Espanhas  afirmam  que  pelo  menos  a  partir  de  meados  do  século  XI  ou  do  último  quar¬ 
tel  desse  século  se  difundiu  o  recrutamento  de  mercenários,  tanto  em  Leão  e  Castela162 
como  em  Aragão16-’  e  na  Catalunha164.  Infelizmente,  porém,  nem  sempre  é  possível 
saber  até  que  ponto  estes  autores  não  confundem  o  assalariamento  de  guerreiros  com  a 
concessão  de  senhorias  pecuniárias.  Outros  historiadores  invocam  também  o  emprego 
precoce  de  tropas  estrangeiras  em  Inglaterra,  no  último  terço  do  século  XI,  ao  serviço 
da  nova  dinastia  normanda165.  Todavia,  quando  reflectimos  acerca  da  organização  mili¬ 
tar  promovida  pelos  conquistadores  e  vemos  a  importância  dos  cavaleiros  domésti¬ 
cos166  e  dos  que  se  mantinham  numa  modalidade  intermédia  entre  a  fidelidade  domés¬ 
tica  e  a  autonomia  vassálica167,  podemos  talvez  deduzir  que  aqueles  guerreiros  estipen¬ 
diados  que  combatiam  em  prol  do  novo  monarca  e  dos  seus  companheiros  estariam 
mais  próximos  do  quadro  doméstico  da  prebenda  do  que  da  mobilidade  do  assalaria¬ 
mento168.  Só  nas  peregrinações  armadas  que  rumaram  para  a  Palestina  e  a  Síria  parece 


158  Segundo  id..  ibid.,  146-148  e  158-160.  era  esta  a  situação  nas  cidades  fortificadas  entre  o 
Mosa  e  o  Loire,  no  começo  do  período,  e  R.  S.  Lopez  (1965)  333  indica  que  as  milícias  das  cidades 
italianas  combatiam  sem  receber  qualquer  pagamento.  No  entanto,  D.  Waley  (1968)  72  admite  como 
muito  provável  que  em  Florença  o  serviço  militar  prestado  pelos  habitantes  fosse  remunerado.  Na 
Itália,  no  século  XII,  mesmo  os  artesãos  das  categorias  mais  humildes  participavam  nas  milícias 
comunais,  consoante  leio  em  M.  B.  Becker  (1970)  178-179. 

159  M.  B.  Becker  (1970)  179,  189;  W.  M.  Bowsky  < 1971 )  78-79;  D.  Waley  (1968)  107-108. 

160  E  esta  a  cronologia  proposta  por  J.  Boussard  (1968  b)  148  e  160-168  para  a  área  entre  os  rios 
Mosa  e  Loire. 

161  No  Mâconnais,  segundo  G.  Duby  ( 1953)  491.  os  mercenários  só  apareceram  no  extremo  final 
do  segundo  terço  do  século  XII. 

162  C.  Sánchez  Albornoz  ( 1968  a)  367. 

165  J.  M.  Lacarra  ( 1968)  509. 

164  P.  Bonnassie  (1975-1976)  572-573,  673,  739. 

165  S.  Harvey  ( 1970)  6,  29-30;  J.  O.  Prestwich  ( 1954)  22  e  segs.,  43. 

166  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  66.  89-90;  M.  M.  Postan  ( 1978  a)  95;  F.  M.  Stenton  (1971)  635;  R.  F. 
Trehame  ( 1 946- 1 948 )  2. 

167  J.  Le  Patourel  (1969 )  424-425. 

168  Precisamente  a  propósito  da  situação  dos  mercenários  ao  serv  iço  dos  conquistadores  norman- 
dos  na  Inglaterra  do  último  terço  do  século  XI.  S.  Harvey  (1970)  30  observa  que  originariamente 
aqueles  guerreiros  mal  se  distinguiam  dos  cavaleiros  mantidos  nas  domesticidades  senhoriais  ou  colo¬ 
cados  numa  posição  intermédia  entre  a  prebenda  doméstica  e  a  senhoria  vassálica  autónoma.  Sally 
Harvey  considera  também  (p.  29)  que  em  tal  contexto  não  havia  qualquer  demarcação  social  nítida 
entre  os  mercenários  e  os  subvassalos.  Por  seu  lado,  J.  O.  Prestwich  (1954)  25  refere  a  existência  de 
casos  em  que  Guilherme  o  Conquistador,  depois  de  ter  suprimido  revoltas  e  confiscado  as  terras  dos 
conspiradores,  usou  os  rendimentos  dessas  terras  para  estipendiar  mercenários,  em  vez  de  as  distribuir 
sob  a  forma  de  concessões  vassálicas.  Se  bem  interpreto  estes  factos,  tratou-se  de  uma  remuneração 
muito  mais  próxima  da  prebenda  regular  em  géneros  do  que  de  qualquer  assalariamento  em  dinheiro. 


260 


Forma  II  do  dinheiro 


certo  que  a  participação  de  tropas  mercenárias  ocorresse  logo  de  início,  desde  os  derra¬ 
deiros  anos  do  século  XI169. 

Em  geral,  porém,  foi  ao  longo  do  século  XII  que  se  iniciou  verdadeiramente  a  difu¬ 
são  do  assalariamento  militar170.  Mesmo  assim,  e  segundo  a  avaliação  de  um  especia¬ 
lista.  nesse  século  o  contingente  máximo  de  mercenários  num  exército  não  excederia 
possivelmente  seis  mil  homens171,  enquanto  no  final  do  século  seguinte  e  no  começo 
do  século  XIV  as  guerras  prosseguidas  pela  coroa  inglesa  mobilizavam  já  muitos 
milhares  de  combatentes  assalariados177.  Em  Inglaterra  foi  na  segunda  metade  do 
século  XII  que  a  monarquia  organizou  os  mercenários  de  maneira  definitiva  e  lhes  con¬ 
feriu  o  papel  fundamental  que  de  então  em  diante  não  deixaram  de  ter173.  A  participa¬ 
ção  da  cavalaria  mercenária  nas  hostes  das  cidades  italianas  assinala-se  desde  o  último 
terço  do  século  XII174.  Quanto  ao  exército  da  coroa  francesa,  só  a  partir  da  penúltima 
década  do  século  XII.  senão  um  pouco  depois,  ele  passou  a  contar  com  a  presença  per¬ 
manente  de  mercenários175.  Desde  então,  tanto  em  França  como  na  Inglaterra  ou  na 
Itália,  e  parece  que  também  no  reino  de  Castela,  as  tropas  em  campanha  remodelaram  a 
sua  aparência  e  as  estratégias  empregues,  em  função  das  dimensões  crescentes  assumi¬ 
das  pelas  companhias  mercenárias176,  e  pelo  menos  em  França  as  guarnições  dos  caste¬ 
los  deram  igualmente  a  primazia  aos  guerreiros  a  soldo17'.  Depois  de  terem  passado 
por  uma  fase  em  que  ficaram  reduzidas  a  uma  função  meraniente  acessória178,  as  hos- 


189  H.  E.  Mayer  (1972)  164. 

170  Foi  o  que  sucedeu  entre  o  Mosa  e  o  Loire,  a  crer  em  J.  Boussard  (1968  b)  132-133.  Esta  apre¬ 
ciação  é  confirmada  por  M.  Bouard  (org.  1970)  176  a  respeito  da  Normandia,  onde  se  verifica  o  papel 
crescente  dos  mercenários  no  século  XII.  Também  na  Inglaterra  a  importância  dos  combatentes  assa¬ 
lariados  só  no  século  XII  começou  a  manifesiar-se  efectivamente.  consoante  escreve  A.  L.  Poole 
(1946)42-43. 

171  J.  Boussard  (1945-1946)  220. 

172  R.W.  Kaeuper  (1973)  175. 

173  J.  Boussard  (1945-1946)  192-193,  217. 

174  M.  B.  Becker (1970)  178-179. 

A  primeira  prova  documental  do  emprego  de  mercenários  pela  cidade  de  Florença  data  só  de 
1208.  mas  D.  Waley  (1968)  72-73  esclarece  que  esta  prática  se  iniciara  forçosamente  no  século  ante¬ 
rior,  pois  nos  finais  do  século  XII  o  assalariamento  de  guerreiros  profissionais  era  já  corrente  nas 
cidades  toscanas. 

175  Para  J.  Boussard  ( 1945-1946)  217  os  mercenários  passaram  a  ser  empregues  de  maneira  per¬ 
manente  no  exército  real  francês  mais  ou  menos  a  partir  de  1 180  e  G.  Foumier  (1978)  148,  menos 
preocupado  com  a  precisão,  coloca  o  início  deste  processo  no  final  do  século  XII.  Mas  M.  Sczaniecki 
(1946)  44-45  propõe  uma  data  um  pouco  mais  tardia,  afirmando  que  em  França  os  mercenários  se  tor¬ 
naram  uma  instituição  regular  desde  o  princ  ípio  do  século  XIII.  Com  efeito,  foi  já  na  segunda  década 
do  século  XIII,  no  decurso  da  sua  campanha  contra  os  Cátaros  do  Languedoc,  que  Simon  de  Monfort 
se  apercebeu  da  insuficiência  das  hostes  vassálicas  e  começou  a  recorrer  de  maneira  crescente  ao 
recrutamento  de  mercenários,  conforme  esclarece  A  P.  Evans  ( 1962)  294. 

176  A.  Barbero  (1987)  1 19;  J.  Boussard  (1945-1946)  195  e  segs.,  224;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978) 
I  389.  11  55;  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  174;  R.  S.  Lopez  (1965)  333;  B.  D.  Lyon  (1954  a)  503;  A.  L. 
Poole  ( 1946)  42-43;  M.  Prestwich  (1979)  80;  J.  R.  Strayer  (1977)  269-270;  D.  Waley  (1968)  83. 

177  G.  Foumier  (1978)  118,212. 

178  A.  P.  Evans  ( 1962)  294;  G.  Foumier  ( 1978)  148. 

Em  Inglaterra,  durante  o  reinado  de  Eduardo  I,  que  começou  um  pouco  antes  do  último  quartel  do 
século  XIII  e  se  estendeu  até  ao  final  da  primeira  década  do  século  seguinte,  embora  o  recrutamento 


I)a  vassaluiade  pessoal  u  domesin  idade  impessoal 


2òl 


tes  vassálicas  acabaram  por  ser  abolidas  em  França179,  e  julgo  que  o  mesmo  teria  acon¬ 
tecido  noutros  lugares.  Com  efeito,  os  exércitos  mercenários  haviam-se  revelado  imba- 
tíveis  quando  confrontados  com  as  antigas  formações  decorrentes  dos  vínculos  de 
subordinação180.  E.  assim,  foram-se  agravando  as  despesas  em  numerário  a  que  monar¬ 
cas  e  príncipes  se  viam  obrigados  para  estipendiar  bandos  de  guerreiros  cada  vez  mais 
truculentos  e  numerosos181.  Talvez  por  este  motivo  tivesse  por  vezes  ocorrido  a  remu¬ 
neração  dos  mercenários  com  peças  de  carácter  fiduciário,  quer  pedaços  de  couro  mar¬ 
cados  com  o  selo  do  soberano182  quer  símbolos  metálicos  gravados  com  os  mesmos 
brasões  das  librés  vestidas  pelos  combatentes18’;  mas  nestes  casos  tratava-se  certa¬ 
mente  de  pagamentos  feitos  a  tropas  com  um  baixo  estatuto  social,  sem  que  esta  moda¬ 
lidade  fiduciária  se  incluísse  portanto  no  âmbito  da  Forma  II  do  dinheiro.  Embora  tra¬ 
çadas  muito  grosseiramente,  as  etapas  desta  evolução  não  parecem  contradizer  a  crono¬ 
logia  da  difusão  das  senhorias  pecuniárias,  o  que  confirma  a  existência  de  um  quadro 
comum  a  ambas  as  manifestações  de  impessoalidade. 

Quanto  maior  era  o  interesse  que  os  soberanos  manifestavam  pelo  assalariamento  de 
guerreiros,  tanto  mais  variada  era  a  sua  proveniência  social,  e  a  partir  do  último  quartel 
do  século  XII  proliferaram  os  mercenários  de  origem  plebeia184,  o  que  contribuiu  para 
alterar  a  fisionomia  dos  exércitos.  Em  Inglaterra,  a  grande  maioria  dos  combatentes 
estipendiados  na  segunda  metade  do  século  XII  não  era  composta  por  cavaleiros,  mas 
por  peões,  e  basta  isto  para  lhes  definir  a  condição  social18-'.  Aliás,  a  baixa  remunera¬ 
ção  recebida  pelos  soldados  de  infantaria,  na  França  e  na  Inglaterra,  leva  a  crer  que 
pertencessem  a  estratos  particularmente  humildes186.  E  em  França  parece  que  muitos 
dos  cavaleiros  que  se  ofereciam  para  batalhar  a  troco  de  um  soldo  haviam  nascido  na 


de  mercenários  tivesse  assumido  grandes  dimensões,  a  convocação  das  hostes  vassálicas  continuou  a 
ter  lugar.  E  apesar  de  ser  cada  vez  menor  o  número  dos  vassalos  que  se  apresentavam  para  prestar  ser¬ 
viço  pessoalmente,  o  monarca  acabou  por  formar  os  seus  exércitos  quase  que  recorrendo  apenas  ao 
sistema  vassálico.  Acerca  desta  questão  consultar  M.  Prestwich  ( 1972)  67.  75-76.  78-80  e  90. 

179  Em  França,  na  passagem  do  século  XIII  para  o  século  XIV  as  obrigações  militares  decorrentes 
da  vassalidade  estavam  já  extintas,  a  crer  em  A.  Barbero  ( 1987)  1 19. 

180  J.  Boussard  1 1945-1946  )  195  e  segs. 

181  C.  M.Cipolla  (1962-1963)  414,  418-419;  J.  K.  Hyde  (1973)  183  e  segs.;  J.  Piquet  ( 1939)  8-10; 
P.  Spufford  (1984)  370;  J.  R.  Strayer  (1977)  273-274. 

É  inteiramente  anacrónica  a  tese  de  J.  R.  Strayer  ( 1977)  291,  ao  pretender  que  o  elevado  custo  das 
operações  militares  podia  ter  contribuído  decisivamente  para  a  grande  crise  do  século  XIV.  na  medida 
em  que  transferia  recursos  do  sector  produtivo  para  um  sector  improdutivo.  Não  creio  que  este  tipo  de 
mecanismos  capitalistas  se  possa  aplicar  ao  regime  senhorial.  Mais  perspicaz  é  M.  B.  Becker  (1968) 
126  ao  observar  que  as  guerras  ocorridas  no  final  do  período  estimularam  a  economia  florentina,  pois 
os  mercenários  gastavam  grande  parte  dos  seus  soldos  na  cidade. 

182  W,  Charlton  ( 1906')  316;  W.  J.  Counenay  (1972  )  194;  id.  (1972-1973)  281. 

182  J.  Labrot  ( 1989)  87. 

184  P.  Spufford  (1984)  369-370. 

185  J.  Boussard  ( 1945-1946)  194. 

18(1  J.  R.  Strayer  ( 1977)  279-280. 

Em  Portugal,  porém,  no  final  do  período,  H.  G.  Barros  ( 1945-1954)  III  29-30  considera  verosímil 
que  o  tipo  de  remuneração  cujo  montante  decorria  do  arbítrio  do  senhor  fosse  atribuído  a  quem  pres¬ 
tava  o  serviço  militar  ou  se  dedicava  a  tarefas  menos  humildes,  enquanto  os  jornaleiros  e  os  servido¬ 
res  domésticos  receberiam  sempre  um  salário  pré-estabelecido. 


262 


Forma  II  ilo  dinheiro 


pequena  nobreza  rural  empobrecida187.  No  século  XIV  angariaram-se  também  numero¬ 
sos  mercenários  entre  a  população  de  grandes  cidades  mercantis  italianas,  tanto  na  elite 
como  na  plebe188,  uma  prática  que  decerto  nada  tinha  de  paradoxal,  pois  havia  quem 
ganhasse  a  vida  dedicando-se  alternadamente  ao  comércio  e  ao  combate  remune¬ 
rado189.  Na  mesma  época,  também  Lisboa  forneceu  mercenários  ao  rei  de  Portugal190. 

O  dinheiro  atingiu  assim  plenamente  uma  esfera  de  actividade  considerada  a  mais 
nobre  de  todas.  Isto  não  pôs  em  causa  a  lealdade  dos  combatentes,  sem  a  qual  nenhuma 
batalha  se  poderia  travar  e  qualquer  exército  se  desarticularia.  Simplesmente,  aquela 
lealdade  que  antes  encontrara  um  esteio  firme  nas  relações  de  homem  para  homem 
passou  a  ser  sustentada  com  muito  mais  eficácia  por  um  soldo  bem  sonante191. 

Desde  o  final  do  século  XII  os  mercenários  constituíam  bandos  dotados  de  uma 
organização  cada  vez  mais  eficaz,  e  comandados  por  chefes  próprios,  mercenários  tam¬ 
bém192.  Muitas  regiões  foram  vítimas  das  deambulações  destas  companhias  militares, 
que  pilhavam  e  cobravam  taxas  quando  não  arranjavam  quem  lhes  alugasse  os 
serviços193.  Por  vezes  é  difícil  decidir  se  um  soberano  ou  uma  cidade  tinham  recrutado 
uma  hoste  de  mercenários,  ou  se  fora  essa  hoste  a  impor  o  seu  recrutamento.  E  será  que 
a  distinção  tinha  muito  significado?  Paradoxalmente,  numa  época  em  que  o  Estado 
começava  a  demarcar  limites  cada  vez  mais  rigorosos  para  o  exercício  do  seu  poder,  o 
assalariamento  sistemático  de  bandos  de  guerreiros  tomava  indefinida  a  separação  entre 
as  grandes  guerras  políticas  e  as  pequenas  campanhas  militares  privadas. 


d.  Prestações  vassálicas  em  dinheiro 

Tal  como  se  monetarizaram  as  senhorias  concedidas  pelos  senhores  superiores  aos 
vassalos  e  se  divulgou  o  dinheiro  no  recrutamento  de  combatentes,  também,  no  per¬ 
curso  inverso,  os  serviços  devidos  pelos  vassalos  aos  senhores  superiores  foram-se 
transformando  em  pagamentos  em  numerário.  Sem  um  movimento,  o  outro  teria  sido 
impossível. 

Já  desde  o  período  anterior,  os  vassalos  estavam  frequentemente  obrigados  à  presta¬ 
ção  de  pagamentos  simbólicos,  que  tanto  podiam  constar  de  algumas  moedas  como  de 
objectos  de  carácter  ritual,  cumprindo  neste  caso  funções  de  dinheiro.  Tais  pagamentos, 
geralmente  de  pequeno  montante,  não  tinham  como  finalidade  proporcionar  rendimen¬ 
tos  ao  senhor  superior.  Através  daquelas  moedas  ou  daqueles  artigos  o  vassalo  estava 


187  G.  Fourquin  ( 1964)  138-140;  R.  S.  Lopez  (1965)  333. 

188  Quanto  ao  sucedido  em  Génova  ver  B.  Z.  Kedar  (1976)  69.  Todavia,  id.,  ibid.,  73  esclarece 
que  os  Venezianos  só  muito  raramente  se  alistavam  como  mercenários. 

189  Id.,  ibid.,  70. 

IW  A.  Castro  (1964-1979)  II  358. 

191  Na  Inglaterra  da  primeira  metade  do  século  XII,  J.  O.  Prestwich  (1954)  28-29  menciona 
provas  documentais  mostrando  que  a  lealdade  dos  mercenários  a  quem  lhes  pagava  era  superior  à 
manifestada  pelos  vassalos  relativameme  aos  seus  senhores  superiores. 

192  J.  Boussard  (1945-1946)  194;  P.  Spufford  (1984)  370;  D  Waley  ( 1968  )  98. 

193  G.  A.  Brucker  ( 1962)  85. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


263 


antes  de  tudo  a  vincar  a  sua  subordinação,  ou  reconhecendo  o  dever  de  ajudar  o  senhor 
superior  mediante  um  apoio  de  carácter  genérico  e  não  especificado,  ou  confirmando  a 
obrigação  de  efectuar  um  certo  número  de  serviços  de  carácter  honroso.  Os  pagamen¬ 
tos  simbólicos  continuaram  a  verificar-se  neste  período,  por  vezes  mesmo  em  datas 
bastante  tardias'1'4,  e  quando  um  rei  de  Inglaterra,  na  segunda  década  do  século  XIII.  se 
viu  na  necessidade  de  pedir  o  auxílio  do  papa  contra  os  nobres  revoltados  e  lhe  prestou 
homenagem,  tal  como  o  fez  o  seu  sucessor  alguns  anos  mais  tarde,  a  promessa  de 
entregar  regularmente  uma  soma  monetária  constituiu  a  caução  de  que  o  monarca  não 
faltaria  aos  seus  deveres  de  vassalo195.  O  mesmo  havia  já  feito  no  segundo  quartel  do 
século  XII  o  soberano  do  jovem  reino  de  Portugal  para  consolidar  a  sua  posição  diplo¬ 
mática  perante  o  rei  de  Leão  e  Castela,  oferecendo-se  como  vassalo  do  papa  e  compro¬ 
metendo-se  a  pagar-lhe  regulannente  uma  quantia  simbólica  em  metal  precioso196. 
Aliás,  nos  séculos  XIII  e  XIV  o  pontífice  romano  recebia  numerosas  somas  em  reco¬ 
nhecimento  da  subordinação  em  que  perante  ele  se  encontravam  reis,  príncipes  e  gran¬ 
des  estabelecimentos  eclesiásticos197. 

Noutros  casos,  porém,  as  quantias  que  o  vassalo  devia  entregar  periodicamente  ao 
senhor  superior  aumentaram  consideravelmente  de  montante  e  a  sua  função  alterou-se. 
Ocorreu  na  Catalunha  uma  situação  intermédia,  quando  o  vassalo,  logo  depois  de  exe¬ 
cutada  a  homenagem,  dava  ao  senhor  superior  uma  soma  em  dinheiro,  enquanto  garan¬ 
tia  do  cumprimento  das  suas  obrigações.  Poderia  julgar-se  que  se  tratava  de  um  gesto 
simbólico,  não  fosse  o  facto  de  o  montante  da  caução  ser  proporcional  ao  valor  da 
senhoria  vassálica  recebida198,  o  que  denota  a  evolução  de  uma  prestação  ritual  para 
uma  prestação  resultante  de  uma  avaliação  realista.  Neste  sentido,  veio  mesmo  a  suce¬ 
der  que  a  detenção  de  uma  senhoria  vassálica  supusesse  o  pagamento  de  uma  certa 
quantidade  de  géneros199,  ou  de  somas  de  numerário200,  que  representavam  uma  parti¬ 
cipação  do  senhor  superior  na  exploração  dos  servos  directamente  dependentes  do  vas¬ 
salo.  O  carácter  impessoal  adquirido  pelo  processo  de  exploração  ficava  assim  refor¬ 
çado.  Em  vários  lugares  do  Latium.  durante  os  séculos  XII  e  XIII.  os  bispos  foram  ao 


194  A.  Blanchet  ( 1955)  1  147  e  segs.;  W.  M.  Bowskv  ( 1970)47-48;  G.  Duby  (1962)  386-387;  F.  L. 
Ganshof  (1955  b)  91;  id.  ( 1968  b)  85.  Ainda  acerca  da  cunhagem  de  moedas  de  ouro  exclusivamente 
destinadas  a  pagamentos  simbólicos,  ver:  Ph.  Gnerson  1 1954  c)  302,  305-306;  id.  (1976  a)  69,  84;  P. 
D.  A.  Harvey  (1973)  28. 

195  W.  E.  Lunt  ( 1939-1962)  1131.  133  e  segs..  140. 

196  H.  G.  Barros  (1945-1954)  II  22. 

Segundo  afirma  Gama  Barros,  Afonso  Henriques  comprometeu-se  a  entregar  anualmente  ao  papa 
quatro  onças  de  ouro,  que  depois  elevou  para  dois  marcos.  O  carácter  simbólico  deste  pagamento 
constata-se  quando  sabemos  que  no  último  terço  do  século  XI  o  conde  de  Barcelona  atribuía  sistema¬ 
ticamente  senhorias  pecuniárias  constituídas  por  uma  renda  anual  de  vinte  onças  de  ouro,  por  vezes 
mesmo  de  cem  onças,  e  não  ignoramos  que  o  conde  recorreu  amplamente  a  este  tipo  de  concessões 
vassálicas.  Ver  a  tal  respeito  P.  Bonnassie  (1968)  541  e  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  33.  E,  no  terceiro  quartel 
do  século  XI.  um  membro  da  comunidade  judaica  emprestou  doze  onças  de  ouro  ao  bispo  de  Béziers. 
consoante  leio  em  A.  Dupont  1 1942)  530. 

197  Y.  Renouard(  194 1(25-26. 

,9S  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  250. 

190  G.  Duby  (1953)567. 

200  Id..  ibid..  567;  F.  L.  Ganshof  (1968  b)  86. 


264 


Forma  ll  do  dinheiro 


ponto  de  exigir  aos  seus  vassalos,  além  do  usual  serviço  guerreiro,  uma  prestação  equi¬ 
valente  a  1/10  dos  rendimentos  das  senhorias  que  lhes  haviam  concedido*01.  E  quando 
o  senhor  superior,  para  prover  os  futuros  vassalos  com  as  devidas  concessões,  os  for¬ 
çava  a  entregar  adiantadamente  somas  monetárias  muito  avultadas*02,  não  temos  aqui 
também  um  exemplo  de  participação  na  exploração,  embora  antecipada  no  tempo  e 
concentrada  num  acto  único?  De  igual  modo,  se  o  senhor  superior,  usando  as  suas  atri¬ 
buições  parafamiliares.  proporcionasse  ao  vassalo  um  casamento  rico,  o  favor  era 
remunerado  em  dinheiro  pelo  beneficiário20',  introduzindo-se  um  factor  impessoal  num 
quadro  que  teimava  em  manter  características  pessoais.  A  mesma  monetarização  dos 
elos  parafamiliares  ocorreu  em  França  e  na  Inglaterra  à  medida  que  se  foi  tomando 
mais  fácil  a  transmissão  hereditária  da  senhoria  vassálica  e  até  a  sua  alienação,  já  que 
os  senhores  superiores  passaram  então  a  interessar-se  sobretudo  pela  cobrança  de  uma 
taxa  sempre  que  a  concessão  mudava  de  tnãos2(M.  Aconteceu  ainda  que  antigos  serviços 
honrosos,  como  o  dever  de  albergar  e  alimentar  o  senhor  superior  e  o  seu  séquito 
durante  um  certo  número  de  dias  e  em  determinadas  condições,  fossem  comutados  por 
pagamentos  anuais  em  dinheiro205.  E  desta  maneira  uma  relação  que  tradicionalmente 
se  estabelecera  no  plano  doméstico  e  pessoal  tomou-se  inteiramente  impessoal.  Noutro 
contexto,  e  com  repercussões  económicas  mais  vastas,  o  dever  dos  vassalos  de  contri¬ 
buírem  para  o  resgate  do  senhor  superior,  no  caso  de  ele  ser  preso  durante  uma  batalha, 
serviu  por  vezes  aos  soberanos  para  lançarem  sobre  todos  os  súbditos  tributos  extraor¬ 
dinários  muitíssimo  pesados206.  Afinal,  tudo  se  tomou  pretexto  para  exigir  pagamentos 
ao  vassalo,  de  modo  que  um  sistema  de  presentes,  assente  nas  contraprestações,  desli¬ 
zou  gradualmente  para  um  sistema  de  transacções  impessoais. 

Os  serviços  de  armas  devidos  pelos  vassalos  aos  senhores  superiores,  e  acima  de 
tudo  devidos  pela  totalidade  da  aristocracia  de  uma  dada  área  de  soberania  ao  primeiro 
dos  senhores,  o  monarca  ou  o  príncipe,  foram  comutados  de  maneira  sempre  mais  sis¬ 
temática,  comprometendo-se  o  vassalo  a  pagar  uma  compensação  monetária,  variável 
consoante  os  jogos  de  força  que  em  cada  circunstância  a  fixavam207.  Pelo  menos  na 
Inglaterra  e  em  França,  na  segunda  metade  do  período,  até  os  monarcas  acabaram  por 
promover  esta  prática208,  e  no  caso  inglês  sabe-se  que  o  sistema  deu  azo  nos  séculos 
XII  e  XIII  a  verdadeiros  negócios.  Os  grandes  vassalos  estavam  obrigados  a  pôr  à  dis¬ 
posição  do  soberano,  além  do  seu  próprio  serviço  militar,  o  de  uma  certa  quantidade  de 
subvassalos,  e  quando  ocorria  a  comutação  monetária  destes  serviços  cada  grande  vas- 


201  P.  Toubert  (1973  b)  877-878. 

Todavia,  quando  este  historiador  afirma  que  tal  prestação  constituía  uma  singularidade  do  sistema 
vassálico  do  Latium,  não  devemos  esquecer  que  o  quadro  geral  em  que  ela  se  incluía  era  comum  a 
todo  o  regime  senhorial. 

202  G.  Duby  (1953)  178-179;  J.  M.  Klassen  (1978)  47. 

205  S.  Painter  (1960)  8. 

204  G.  A.  Holmes  (1957)  55;  E.  Miller<1965  b)  127. 

205  H.  Richardot  (1935)  315-316. 

206  E.  Bridrey  (1906)  508. 

207  M.  Bouard  (org.  1970)  176;  F.  L.  C.anshof  1 1968  b)  85;  L.  K.  Little  ( 1971)  29-30;  id.  (1974) 
29:  R.  S.  Lopez  (1965)  336;  A.  L.  Poole  1 1946)  40;  R.  F.  Trehame  ( 1946-1948)  6. 

20S  F  L.  Ganshof  ( 1968  bi  85;  R.  S.  Lopez  (1965)  333. 


Ihi  vassatidade  pessoa!  a  domesticidade  impessoal 


265 


saio  pagava  ao  rei  o  equivalente  a  si  mesmo  e  ao  contingente  que  devia  participar  con¬ 
sigo  na  hoste  real;  sucedia  com  muita  frequência,  porém,  que  os  magnates  tivessem  na 
sua  vassalagem  um  número  de  homens  superior  ao  estabelecido,  e  como  cobravam  a 
todos  eles  a  taxa  de  comutação,  mas  entregavam  à  coroa  apenas  a  soma  equivalente  à 
quantidade  obrigatória,  embolsavam  o  restante  e  obtinham  bons  lucros209.  A  actividade 
guerreira,  cujos  ganhos  provinham  do  saque,  sofrera  aqui  uma  alteração  muito  substan¬ 
cial  e  convertera-se  em  mais  uma  oportunidade  para  especulações  financeiras. 

O  que  distinguia  este  processo  da  mera  transferência  de  rendimentos  para  o  senhor 
superior  era  o  facto  de  as  somas  entregues  pelos  vassalos  em  troca  do  cancelamento 
dos  deveres  militares  serem  na  sua  totalidade  usadas  pelo  senhor  superior  com  o  objec- 
tivo  único  de  assalariar  guerreiros210.  Ou  seja.  os  vassalos,  em  vez  de  cumprirem  o  seu 
serviço  nos  castelos  ou  nas  hostes,  ou  em  vez  de  o  cumprirem  em  toda  a  sua  dimensão 
tradicional,  pagavam  ao  senhor  superior  para  que  este  pudesse  por  seu  turno  formar 
exércitos  com  combatentes  estipendiados,  onde  se  incluíam  aqueles  mesmos  vassalos. 
Vimos  repetidamente  que  no  plano  jurídico  a  participação  de  alguém  nos  combates 
pelo  facto  de  ter  recebido  uma  concessão  vassálica  se  diferenciava  rigorosamente  da 
situação  em  que  o  mesmo  homem  batalhava  na  estrita  medida  em  que  recebia  um 
soldo.  As  senhorias  vassálicas  destinavam-se  a  criar  um  vínculo,  com  todas  as  obriga¬ 
ções  dele  decorrentes,  e  não  a  remunerar  a  execução  de  deveres.  O  que  se  passava, 
então,  era  que  os  vassalos  iam  progressivamente  comutando  as  suas  obrigações  milita¬ 
res  por  pagamentos  em  dinheiro,  e  com  a  ajuda  destas  somas  os  senhores  superiores, 
principalmenie  os  soberanos,  estipendiavam  guerreiros,  entre  os  quais  se  contavam  os 
próprios  vassalos.  Para  que  se  recorria  a  um  tal  vaivém  monetário,  que  à  primeira  vista 
se  afigura  perfeitamente  absurdo?  A  substituição  do  tradicional  exército  vassálico  por 
companhias  formadas  por  combatentes  remunerados,  fossem  eles  também  vassalos  ou 
meros  mercenários,  representou  a  conversão  de  um  vínculo  de  carácter  estritamente 
pessoal  noutro  tipo  de  elo.  inteiramente  impessoal.  Foi  o  percurso  do  dinheiro,  em 
ambos  os  sentidos,  a  assegurar  tal  transformação. 


e.  Crédito 

A  Forma  II  do  dinheiro  desenvolveu -se  para  introduzir  uma  nova  ordenação  num 
quadro  de  relações  vassálicas  que.  apesar  de  se  desdobrar  e  multiplicar,  era  incapaz  de 
dar  conta  das  hierarquias  de  facto  existentes.  Esta  forma  monetária  só  pode,  por  isso, 
começar  a  ser  verdadeiramente  entendida  no  círculo  formado  pelos  dois  movimentos, 
para  um  lado  as  concessões  vassálicas  em  numerário  e  o  assalariamento  de  guerreiros, 
e  no  sentido  oposto  os  pagamentos  em  dinheiro  efectuados  pelos  vassalos  aos  seus 
senhores  superiores.  A  única  razão  de  ser  de  cada  um  destes  movimentos  era  o  outro,  e 


2CW  A.  L.  Poote  (1946)  40-4 1 

Leio  em  M.  Prestwich  (1972)  82  uma  versão  diferente,  segundo  a  qual  os  grandes  vassalos  paga¬ 
vam  à  eoroa  taxas  de  comutação  menores  do  que  aquelas  que  extorquiam  aos  seus  próprios  vassalos. 
2,0  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  85;  L.  K.  Litcle  (1971)  29-30;  íd.  (1974)  29;  A.  L.  Pooie  (1946)  42-43. 


266 


Forma  //  do  dinheiro 


justificavam-se  reciprocamente.  Mas  como  as  prestações  cobradas  em  numerário  e  a 
receita  dos  impostos  estavam  muito  longe  de  equivaler  aos  montantes  despendidos  em 
senhorias  pecuniárias  e  em  soldos  de  mercenários,  era  necessário  recorrer  a  mecanis¬ 
mos  que  ajudassem  ambos  os  movimentos  a  equilibrar-se. 

As  transacções  constituíram  um  desses  mecanismos,  difundindo-se  e  multiplicando- 
-se  neste  período  a  mercantilização  de  senhorias  pessoais  e  impessoais21'.  Já  não  se 
tratava  apenas  de  alienar  extensões  mais  ou  menos  reduzidas,  mas  cidades212,  principa¬ 
dos,  reinos  até.  puderam  ser  vendidos  contra  peças  bem  sonantes212.  Quando  ouvimos 
aquele  rei  gritar  no  chão  da  batalha  que  vendia  o  seu  reino  por  um  cavalo,  só  o  preço 
era  extraordinário,  não  a  própria  transacção.  Malgrado  o  carácter  espectacular  de  tais 
operações  comerciais,  não  foram  elas,  mas  o  crédito,  o  principal  mecanismo  a  assegu¬ 
rar  o  equilíbrio  dos  movimentos  monetários  num  e  noutro  sentido  das  relações  de 
subordinação. 

O  auxílio  eventual  prestado  pelo  senhor  superior  aos  seus  vassalos  pôde  transfor- 
mar-se  em  empréstimos  pecuniários.  Isto  aconteceu  de  maneira  sistemática  nos  casos 
em  que  o  candidato  a  vassalo  entregava  ao  futuro  senhor  superior  o  seu  património 
independente,  e  ao  recebê-lo  de  volta,  já  enquanto  concessão  vassálica,  obtinha  ainda 
uma  remuneração  suplementar  em  dinheiro214.  Noutros  casos,  parece  que  correntes  nos 
Países  Baixos,  um  vassalo  que  tivesse  contraído  uma  dívida  junto  a  terceiros,  e  cuja 
concessão  consistisse  numa  senhoria  pecuniária,  podia  pedir  ao  seu  senhor  superior  que 
desse  directamente  ao  credor  os  montantes  anuais  da  concessão,  até  que  a  soma  adian¬ 
tada  ficasse  paga215.  Dentro  do  mesmo  âmbito,  sabe-se  que  as  coroas  francesa  e 
inglesa,  que  recorreram  sistematicamente  às  capacidades  bancárias  dos  Templários  até 
eles  serem  suprimidos  no  começo  do  século  XIV.  determinaram  com  frequência  que 
dadas  quantias  fossem  pagas  à  Ordem  para  que  esta.  por  seu  tumo.  procedesse  a  vários 
tipos  de  pagamento  por  conta  do  monarca216,  entre  os  quais,  muito  possivelmente,  dos 
rendimentos  das  senhorias  pecuniárias.  Ora.  como  no  sistema  de  conta  corrente  que  era 
empregue  nestas  operações  os  Templários  permitiam  que  fossem  despendidas  somas 
superiores  ao  montante  depositado  no  momento217,  também  aqui  surgiu  oportunidade 
para  a  introdução  do  crédito.  Vemos  que  a  difusão  do  dinheiro  no  interior  da  aristocra¬ 
cia  tanto  converteu  as  relações  de  subordinação  em  relações  de  crédito  como  levou  a 
que  os  empréstimos  se  inserissem  no  quadro  da  vassalidade. 


21 1  G.  Duby  (1962)  466.  499-500. 

212  Em  1344  um  príncipe  italiano  adquiriu  Parma  por  70.000  florins  e  quatro  anos  depois  o  papa 
comprou  Avignon  à  rainha  de  Nápoles  por  80.000  florins,  o  que  permite  pensar  que  o  rei  de  França  não 
tivesse  realizado  um  mau  negócio  em  1 349.  ao  dar  o  equivalente  a  1 33.000  florins  por  toda  a  cidade  de 
Montpellier.  Ver  a  este  respeito:  R.  S.  Lopez  ( 1965)  301;  Y.  Renouard  ( 1 94 1 )  60;  id.  ( 1949)  124. 

213  L.  K.  Little  ( 1974)  30  menciona,  sem  especificar,  a  compra  e  venda  de  condados  e  mesmo  de 
reinos. 

214  Ver.  por  exemplo.  G.  Duby  1 1953)  495-496. 

215  B.  D.  Lyon  ( 1954  b)  437. 

216  E.  Ferrist  1902- 1903)  12.  13;  J.  Piquet  (1939)  59-61. 

217  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  405. 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


267 


A  oferta  de  crédito  verificou-se  igualmente  em  sentido  inverso.  Os  tradicionais 
auxílios  pecuniários  que  os  vassalos  deviam  em  certos  casos  prestar  aos  seus  senhores 
superiores  puderam  cair  em  desuso  ao  aproximar-se  o  final  do  período218  porque  foram 
integrados  de  maneira  regular  em  mecanismos  financeiros  mais  gerais.  Embora  aparen¬ 
temente  sem  relação  com  o  problema  do  crédito,  é  interessante  verificar  que  no  século 
XIV  a  coroa  francesa  sujeitava  a  aristocracia  a  uma  contribuição  extraordinária  que  até 
na  sua  designação  reflectia  as  antigas  ajudas  em  numerário219.  E  ainda  em  França,  onde 
ao  longo  do  século  XII  se  estabelecera  como  um  dos  deveres  do  vassalo  a  participação 
com  somas  de  dinheiro  quando  o  senhor  superior  ficasse  preso  numa  batalha  e  se  tor¬ 
nasse  necessário  pagar  o  seu  resgate220,  foi  precisamente  a  necessidade  de  reunir  a 
enorme  quantia  exigida  pelos  Ingleses  no  final  do  segundo  terço  do  século  XIV  para 
libertar  o  rei  capturado  que  serviu  de  pretexto  à  monarquia  para  tentar  a  instauração  de 
um  imposto  geral  e  permanente221.  Ora,  este  tipo  de  carga  tributária  estava  estreita¬ 
mente  relacionado  com  os  empréstimos  forçados  que  também  no  final  do  período  cons¬ 
tituíram  um  dos  recursos  fiscais  mais  usados  pela  coroa  francesa222.  Além  disso,  como 
era  muito  frequente  que  os  monarcas  nâo  pagassem  sequer  aqueles  empréstimos,  eles 
acabavam  por  equivaler  a  um  acto  de  confisco22-  e  eram.  portanto,  um  verdadeiro 
imposto.  A  ajuda  do  vassalo  ao  seu  senhor  superior,  que  fora  uma  obrigação  pessoal,  ao 
converter-se  num  misto  de  imposto  e  de  crédito  forçado  tomou-se  um  dever  impessoal 
e  genérico.  Outra  modalidade,  muitíssimo  difundida  e  comum  pelo  menos  em  regiões 
como  os  Países  Baixos,  foi  um  crédito  involuntário  de  âmbito  particularizado,  praticado 
sempre  que  o  senhor  superior  protelava  os  pagamentos  respeitantes  a  uma  senhoria 
pecuniária224.  Em  termos  financeiros,  tal  atraso  significava  um  crédito,  pois  durante 
esse  prazo  o  senhor  superior  utilizava  em  benefício  próprio  uma  quantia  que  já  devia 
ter  sido  entregue  ao  vassalo.  No  sentido  contrário,  a  tendência  para  a  introdução  do  cré¬ 
dito  nas  obrigações  do  vassalo  para  com  o  senhor  superior  vinha  a  verificar-se  desde  o 
princípio  do  período,  e  pode  assinalar-se  sempre  que  um  senhor  aceitava  a  homenagem 
de  alguém  apenas  para  lhe  reclamar  um  empréstimo.  Encontra-se  um  exemplo  desta 


21s  Referindo-se  à  Germânia  e  à  França  durante  o  século  X  e  a  primeira  metade  do  século 
seguinte.  F.  L.  Ganshof  (1955  b)  88  admite  que  em  certos  casos  excepcionais  o  vassalo  talvez  devesse 
prestar  uma  ajuda  financeira  ao  senhor  superior.  Todavia.  Ch.  E.  Perrin  ( 1957-1959)  206  afirma  que 
na  Germânia  os  senhores  superiores  não  exigiam  aos  vassalos  auxílios  em  dinheiro.  A  partir  do  século 
XIII  os  auxílios  pecuniários  teriam  caído  em  desuso,  segundo  M.  Bloch  ( 1939-1940)  I  344.  O  que  não 
impedia  que  na  Grécia  franca,  precisamente  durante  o  século  XIII  e  a  primeira  década  do  século 
seguinte,  a  crer  em  J.  Longnon  <  1962)  249.  o  principal  dos  senhores  superiores,  o  príncipe  da  Acaia. 
devesse  prestar  ajudas  pecuniárias  ao  seu  senhor  preferencial,  o  imperador  latino  de  Constantinopla. 

214  Acerca  das  aides.  contribuições  extraordinárias  cobradas  pelo  rei  aos  senhores,  ver  por  exem¬ 
plo  L.  Mirou  1905)  71. 

220  E.  Perroyet  al.  <  1955)  245. 

221  E.  Bridrey  (1906)508. 

222  H.  A.  Miskimin  ( 1963)  7-8. 

223  ld..  ibid.,  8. 

224  B.  D.  Lyon  ( 1954  b>  437-439. 

Aliás,  em  França,  no  final  do  período,  a  coroa  ficou  também  a  dever  somas  enormes  aos  mercenᬠ
rios.  Ver  a  este  respeito  M.  Rey  (1965  b)  403-404  e  407-408. 


268 


Forma  II  do  dinheiro 


prática  logo  no  terceiro  quartel  do  século  XI.  quando  o  bispo  de  Béziers  pediu  empres¬ 
tadas  doze  onças  de  ouro  a  um  membro  da  comunidade  judaica  e  em  troca  lhe  entre¬ 
gou,  enquanto  concessão  vassálica,  algumas  povoações  de  Saint-Nazaire,  junto  com  um 
certo  número  de  direitos  senhoriais2-5.  Muito  mais  tarde,  na  primeira  metade  do  século 
XIV,  grandes  comerciantes  e  banqueiros  estrangeiros  que  exerciam  a  sua  actividade  no 
reino  de  Nápoles  receberam  do  monarca  senhorias  e  castelos,  em  recompensa  dos  ser¬ 
viços  financeiros  prestados  à  coroa226.  E  sabe-se  que  a  elite  de  Huy  facultava  emprésti¬ 
mos  ao  bispo,  a  nobres  e  até  a  príncipes  vizinhos,  recebendo  por  vezes  em  troca  senho¬ 
rias  pecuniárias  e  direitos  senhoriais227.  Aliás,  as  relações  de  subordinação  forneceram 
a  tal  ponto  um  modelo  às  relações  de  crédito  que  no  final  do  período  era  frequente  que 
o  devedor,  para  ceder  uma  exploração  agrícola  como  penhor  ao  credor,  lhe  concedesse 
uma  senhoria  em  termos  vassálicos,  inclusivamente  ao  nível  da  subvassalagem228.  Nes¬ 
tes  casos,  os  benefícios  pecuniários  que  o  senhor  superior  conseguia  extrair  ao  vassalo 
justificavam  uma  aparente  inversão  dos  papéis,  apresentando-se  o  devedor  com  uma 
hierarquia  senhorial  acima  da  do  seu  credor. 

No  interior  da  aristocracia,  a  difusão  dos  elos  impessoais  sustentou  tanto  a  transfor¬ 
mação  da  vassalidade  em  crédito,  sempre  que  os  deveres  recíprocos  de  ambas  as  partes, 
expressos  em  termos  estritamente  pecuniários,  ficavam  sujeitos  a  desfasamentos  tem¬ 
porais.  como  do  crédito  em  vassalidade.  por  exemplo  quando  os  credores  se  apropria¬ 
vam  das  senhorias  vassálicas  de  devedores  insolventes  e,  com  elas,  da  própria  condição 
de  vassalos229.  A  partir  do  final  do  século  XI  e  durante  o  século  seguinte  o  crédito 
deixou  de  constituir,  para  os  senhores,  um  recurso  episódico,  convertendo-se  num  sis¬ 
tema  normal  de  gestão  do  património230.  A  articulação  do  bannum  com  o  mundium  no 


225  A.  Dupont  (1942)  472,  530. 

R.  Caggese  (1922-1930)  I  576. 

227  A.  Joris  ( 1959)  372. 

228  F.  L.  Ganshoft  1968  b)  114. 

22g  Para  exemplos  desta  última  situação  consultar  R.  Caggese  (.1922-1930)  I  576. 

2-’°  É  G.  Duby  (1973)  259-260  quem  considera  que  a  partir  daquela  época  o  recurso  ao  crédito 
passou  a  constituir  para  os  senhores  um  processo  normal  de  gestão.  O  exemplo  da  abadia  de  Cluny  é 
elucidativo,  pois  id.  (1952)  17(1  e  (1973)  243-245  informa  que  na  transição  do  primeiro  para  o 
segundo  quartel  do  século  XII  este  poderoso  estabelecimento  eclesiástico  começou  a  fundar  delibe- 
radamente  sobre  o  crédito  a  administração  da  sua  economia  doméstica.  E,  sempre  segundo  id.  (1973) 
245-246,  procederam  do  mesmo  modo  todos  os  mosteiros  beneditinos  tradicionais.  Para  a  compreen¬ 
são  deste  problema  deve  consultar-se  também  id.  (1962)  464-465,  onde  se  afirma  (p.  465)  que  a  par¬ 
tir  dos  meados  do  século  Xll  o  endividamento  dos  senhores  se  tomou  crónico.  Este  facto  fica  ainda 
mais  claro  quando  se  lê  em  C.  Violante  (1962)  455  e  457  que  em  Milão,  na  segunda  metade  do 
século  XI,  não  eram  apenas  membros  de  famílias  em  declínio  quem  contraía  dívidas,  mas  igual¬ 
mente  as  famílias  em  rápida  ascensão  social  e  política.  Aliás,  já  G.  Duby  1 1962)  465  prevenira  que 
os  mais  endividados  eram  os  senhores  mais  poderosos.  E  na  Toscana,  durante  o  século  XII  e  mais 
ainda  ao  longo  do  século  seguinte,  o  endividamento  das  famílias  aristocráticas,  mesmo  das  camadas 
superiores  da  nobreza,  deveu-se  em  boa  medida  a  despesas  planificadas,  que  lhes  permitiram  adqui¬ 
rir  terras  com  uma  extensão  superior  à  das  áreas  que  empenhavam,  consoante  esclarece  P.  J.  Jones 
(1968)  216-217  Na  mesma  perspectiva,  é  interessante  observar,  com  C.  B.  Bouchard  (1987)  220. 
que  no  século  Xill  foi  em  grande  parte  através  da  oferta  de  crédito  que  os  mosteiros  se  relacionaram 
com  o  mundo  laico. 

É  comum  os  historiadores  atribuírem  às  expedições  contra  a  Palestina  a  responsabilidade  pelo 


Da  vassalidade  pessoal  á  domesticidade  impessoal 


26  9 


quadro  da  classe  senhorial  passou  a  ser  fundamentalmente  veiculada  pelo  dinheiro  e 
estruturada  em  formas  de  crédito.  Mas  o  processo  ampliou-se  e  todas  as  relações  entre 
senhores,  mesmo  aquelas  estabelecidas  exteriormente  aos  limites  formais  da  vassali- 
dade.  tenderam  a  seguir  o  modelo  das  relações  de  crédito.  O  perímetro  das  clientelas 
podia  ser  traçado  com  precisão  pelas  teias  dos  empréstimos.  Não  nos  devemos,  porém, 
deixar  iludir  pelo  facto  de  algumas  vezes  serem  idênticos  os  termos  jurídicos  em  que  se 
processava  o  crédito  praticado  pelos  senhores  relativamente  aos  camponeses  e  o  crédito 
que  os  senhores  realizavam  entre  si.  No  primeiro  caso,  o  mutuante  estava  a  agravar 
directamente  a  taxa  de  exploração  sofrida  pelo  mutuário,  enquanto  no  segundo  caso 
eram  os  servos  do  mutuário  que  passavam  a  ser  explorados,  total  ou  parcialmente,  pelo 
mutuante.  Os  empréstimos  efectuados  no  interior  da  clase  dominante  serviam  para  des¬ 
viar  em  proveito  do  credor  os  mecanismos  da  exploração,  apressando  a  ascensão  social 
de  certas  famílias  e  contribuindo  para  precipitar  outras  no  declínio  e  na  ruína.  Como  tão 
frequentemente  acontece,  as  concepções  jurídicas  ocultaram  as  situações  reais.  Assim 
como  no  período  anterior  (ver  o  capitulo  ló.c  da  Parte  I),  quando  prevalecia  o  relacio¬ 
namento  de  carácter  pessoal,  a  articulação  do  bannum  com  o  mundium  confundia  a 
subordinação  vassálica  e  a  dependência  sen  il,  também  neste  período,  assumida  a  hege¬ 
monia  pelo  sistema  de  relações  impessoais,  coube  ao  crédito  executar  uma  função  idên¬ 
tica.  Mediante  o  emprego  do  dinheiro,  as  operações  financeiras  reestruturaram  nos  mol¬ 
des  da  impessoalidade  o  bannum  e  o  mundium. 

Não  se  deve  descurar  a  participação  da  aristocracia  laica  na  oferta  de  empréstimos 
pecuniários231.  A  preservação  de  que  beneficiaram  os  arquivos  das  instituições  religio- 


aumento  òa  procura  de  crédito  por  pane  dos  senhores  laicos.  Ver,  por  exemplo:  C.  B.  Bouchaid 
(1987»  222-223:  G.  Devailly  (1973)  524  e  segs.:  G.  Duby  (1952)  161;  H.  Enjalbert  (org.  1979)  105; 
R.  Génestal  ( 1901 )  64-65;  J.  W.  Thompson  (1959)  393-394.  No  entanto,  procuro  mostrar  aqui  que  o 
desenvolvimento  das  operações  de  credito  no  interior  da  classe  senhorial  se  deveu  a  razões  muito 
mais  gerais  e  profundas. 

231  G.  Duby  ( 1962)  224-225  e  ( 1973)  259  menciona  empréstimos  contraídos  por  senhores  rurais 
junto  a  negociantes  da  elite  urbana  e  mesmo  artesãos  das  cidades,  e  D.  Nicholas  ( 1971 1  309  dá  o 
exemplo  da  Flandres  no  século  XIV.  Para  o  caso  de  Huy  ver  A.  Joris  (1959)  372.  Na  França  do  século 
XII,  E.  Bouma/el  ( 1975)90  evoca  as  operações  de  crédito  contra  penhores  realizadas  pelos  cavaleiros 
das  cidades  e  dos  castelos.  A.  Chédeville  (1974)  324,  referindo-se  à  Bretanha,  ao  Maine,  ao  Vendô- 
mois,  ao  Anjou  e  à  Touraine  duranie  os  séculos  XI,  XII  e  XIII.  afirma  que  muito  frequentemente 
ocorria  entre  senhores  laicos  a  prestação  de  crédito  consoante  o  sistema  da  reme  constíiuée.  Quanto  a 
este  tipo  de  crédito  ver  a  n.  238.  Com  efeito,  ainda  a  propósito  do  Maine  no  século  XIII.  A.  Bouton 
(1975-1976)  II  637  considera  que  lauto  senhores  como  cidadãos  se  dedicaram,  embora  em  menor 
escala,  às  mesmas  operações  financeiras  realizadas  pelos  estabelecimentos  eclesiásticos.  Alguns  eas- 
telãos  tio  Máconnais  encontravam  crédito  em  condições  favoráveis  nas  cidades  sujeilas  ao  seu  con¬ 
trolo  e  emprestavam  depois  estas  somas  de  dinheiro  a  senhores  rurais  em  dificuldades,  conseguindo 
abundantes  lucros  na  operação,  como  elucida  G.  Duby  (1953)  487-494.  Na  mesma  região,  mais  elo¬ 
quente  ainda  é  o  sucedido  com  a  abadia  de  Cluny  a  partir  do  começo  do  século  XII,  quando  id.  (1952) 
168-170  mostra  que  ela  começou  a  contrair  empréstimos  não  só  junto  de  mercadores,  mas  igualmente 
de  grandes  senhores.  Na  Provença,  uma  família  da  cavalaria  urbana  estudada  por  M.  Aurell  i  Cardona 
(1986)  50,  detentora  de  direitos  de  senhoria  impessoal  sobre  parte  da  cidade  de  Aries,  além  de  nume¬ 
rosas  terras  e  rendimentos,  praticava  o  crédito  contra  penhores  e  nos  dois  primeiros  terços  do  século 
XII  adiantara  aos  condes  de  Barcelona  somas  muitíssimo  respeitáveis,  equivalentes,  no  total,  a  cerca 
de  duas  centenas  e  meia  de  cavalos.  E  em  Toulouse,  na  passagem  do  século  XII  para  o  século 


270 


Forma  //  do  dinheiro 


sas  faz  com  que  sejam  sobretudo  elas  a  figurar  na  análise  histórica  do  lado  da  oferta  de 
crédito,  e  muitas  vezes  só  conhecemos  a  actuação  dos  senhores  laicos  enquanto 
mutuantes  pelos  vestígios  que  tais  operações  deixaram  precisamente  na  documentação 
eclesiástica2'2.  Mesmo  levando  em  conta  este  aspecto  do  problema,  não  parece  refutᬠ
vel  que  os  conventos233,  bem  como  membros  individuais  do  clero234,  tivessem  assu¬ 
mido  um  lugar  central  nos  mecanismos  do  crédito. 

Em  alguns  casos,  como  sucedeu  com  os  estabelecimentos  de  Cister  em  Inglaterra 
durante  o  século  XIII,  os  mosteiros  aceitavam  depósitos  do  rei,  de  magnates  e  até  de 
mercadores235,  mas  foi  sobretudo  pelo  lado  da  oferta  de  crédito  que  eles  se  destacaram. 
Uma  forma  de  empréstimo  pecuniário  abundantemente  praticada  pelos  mosteiros  per¬ 
mitia  que  o  credor  se  apropriasse  enquanto  juro  de  todo  o  rendimento  de  uma  dada 
terra  do  mutuário,  a  qual  servia  de  penhor.  Ora,  como  o  pagamento  destes  juros  não  era 
descontado  na  soma  total  adiantada  pelo  credor,  e  como  o  devedor  se  deparava  com  a 
redução  do  seu  património  útil.  o  cancelamento  final  do  empréstimo  afigurava-se  espe¬ 
cialmente  difícil  e  o  mutuante  encontrava-se  em  excelentes  condições  para  se  apoderar 
finalmente  da  terra  que  detinha  já  enquanto  penhor236.  Numa  variante  deste  tipo  de  cré¬ 
dito,  sem  dúvida  mais  adaptada  às  condições  de  senhoria  impessoal,  o  mutuante  ficava 


seguinte,  quando  foi  mais  intensa  a  oferta  de  crédito,  M.  Castaing  (1953-1954)  274  indica  que  algu¬ 
mas  destas  iniciativas  couberam  a  cavaleiros.  Vejamos  mais  detalhadamente  o  caso  da  Inglaterra  no 
século  XIII.  Durante  o  longo  reinado  que  durou  desde  os  meados  da  segunda  década  desse  século  até 
ao  termo  do  seu  terceiro  quartel,  foi  um  dos  irmãos  do  monarca  o  principal  credor  da  coroa,  como 
esclarece  R.  W.  Kaeuper  (1973)  78.  Por  seu  lado,  J.  E.  Madden  ( 1963)  345  mostra  os  próprios  monar¬ 
cas  a  procederem  a  empréstimos  aos  riquíssimos  mosteiros  de  Cister.  recorrendo  a  financeiros  judeus 
para  servirem  de  intermediários  nestas  transacções.  Aliás,  durante  o  reinado  que  ocupou  o  último 
quartel  desse  século  e  a  primeira  década  do  século  XIV,  a  maior  parte  dos  magnates  devia  dinheiro  à 
coroa,  o  que  os  tomava  vulneráveis  às  pressões  do  soberano,  como  sublinha  M.  Prestwich  (1972)  236. 
E,  ainda  no  século  XIII.  ao  sabermos,  graças  a  M.  M.  Postan  (1978  a)  183-184,  que  muitas  das  senho¬ 
rias  da  pequena  aristocracia  rural  hipotecadas  aos  financeiros  judaicos  acabaram  por  ser  compradas 
pelos  magnates,  verificamos  que,  mesmo  sem  aparecerem  em  primeiro  plano,  os  senhores  podiam 
estar  envolvidos  nos  mecanismos  resultantes  da  oferta  de  crédito.  Também  em  Portugal  não  sucedia 
apenas  que  a  aristocracia  rural  contraísse  dívidas  junto  à  elite  urbana,  como  escreve  A.  Cunhal  <  1963) 
103  a  propósito  do  século  XIV,  e  A.  Castro  (1964- 1 979)  I  202  e  364-365  recorda  que  os  reis  empres¬ 
tavam  igualmente  dinheiro  aos  mercadores. 

232  H.  van  Werveke  (1929)  64  adverte  quanto  a  este  problema  de  documentação. 

2,3  Para  exemplos  genéricos  de  empréstimos  concedidos  por  conventos  a  senhores  laicos  ver:  C. 
B.  Bouchard  (1987)  220-223:  G.  Devailly  ( 1973)  522-523;  J.  E.  Madden  (1963  )  342,  .347-349,  355; 
A.  Verhulst  (1966  b)  31. 

234  E.  Bach  (1957)  389;  R.  H.  Bowers  ( 1983)  67;  M.  Riu  ( 1979»  139-140. 

235  J.  E.  Madden  (1963)  342,  353-354. 

236  A  respeito  desta  modalidade  de  crédito,  denominada  mort-gage  em  francês,  ver  no  capítulo  5  a 
n.  42.  Fornecem  exemplos  de  abadias  praticando  este  tipo  de  empréstimos  relativamente  a  senhores 
laicos:  G.  Despy  (1974-1975)  71;  G.  Duby  (1952)  161;  H.  Enjalbert  (org.  1979)  105;  J.  E.  Madden 
( 1963)  347-348;  H.  van  Werveke  (1929)  55.  60  e  segs.,  68,  71.  Ainda  quanto  à  participação  dos  mos¬ 
teiros  na  oferta  deste  sistema  de  crédito,  ver:  A.  Chédeville  ( 1974)  317.  A  crer  em  R.  Génestal  ( 1901) 
68,  os  mutuários  que  recorressem  a  este  sistema  deviam  ser  suficientememe  ricos  para  poderem 
durante  algum  tempo  prescindir  dos  rendimentos  dos  bens  empenhados,  o  que  me  leva  a  pensar  que 
se  tratasse  sobretudo  de  senhores.  G.  Duby  (1953)  479  mostra  como  a  aristocracia  do  Mâconnais 
recorria  a  este  tipo  de  crédito. 


Da  vassalidade  pessoal  ú  domesticidade  impessoal 


27 1 


com  o  direito  à  cobrança  de  tributos  que  tinha  até  então  cabido  ao  mutuário*37.  Outra 
modalidade,  que  suplantou  as  anteriores  a  partir  de  meados  do  período,  consistia  em 
adiantar  uma  quantia  em  dinheiro,  cuja  restituição  definitiva  não  podia  ser  exigida,  mas 
a  troco  da  qual  os  monges  recebiam,  anual  ou  semestralmente,  rendimentos  decorrentes 
de  uma  dada  terra:  tais  rendimentos  podiam  por  vezes  ser  variáveis,  mas  na  maior  parte 
dos  casos  ficava  estipulado  um  montante  fixo.  Este  tipo  de  crédito  distinguia-se  da  pri¬ 
meira  modalidade  mencionada,  por  um  lado.  porque  só  na  primeira  modalidade  era 
possível  exigir  o  reembolso  do  empréstimo.  Além  disso,  se  entre  ambos  os  sistemas 
havia  em  comum  o  facto  de  o  mutuante  se  apropriar  do  rendimento  de  uma  terra  do 
mutuário,  eles  diferenciavam-se  porque  no  primeiro  caso  a  terra  era  explorada  à  custa 
do  mutuante  e  no  segundo  caso  os  encargos  recaíam  sobre  o  mutuário238.  Talvez  as 
vantagens  e  os  benefícios  de  cada  uma  destas  situações  fossem  mais  ambíguos  do  que 
poderia  pensar-se.  No  primeiro  caso.  embora  o  devedor  não  sofresse  as  despesas  da 
exploração,  estava  também  impossibilitado  de  exercer  o  hannum  sobre  os  camponeses 
da  senhoria  entregue  como  penhor,  enquanto  no  outro  sistema,  apesar  de  mais  oneroso, 
a  sua  autoridade  não  ficava  amputada239. 

Quanto  às  duas  grandes  Ordens  Militares,  os  Templários  e  a  Ordem  do  Hospital  de 
São  João  de  Jerusalém,  foram  despertadas  para  a  vocação  bancária  através  da  aceitação 
de  depósitos  que  os  peregrinos  deixavam  antes  de  partir  e  retiravam  depois  de  desem¬ 
barcar  no  Levante240.  A  Ordem  dos  Templários,  como  é  bem  conhecido,  foi  suprimida 
na  primeira  década  do  século  XIV,  numa  das  mais  colossais  operações  de  pilhagem 
promovidas  durante  este  período  pelas  monarquias241.  Mas  até  então  a  sua  vasta  rede 


237  A.  Chédeville  (1974)  319;  G.  Despy  (1974-1975)  71;  G.  Devailly  (1973)  523;  H.  van  Werveke 
(1929)71. 

Observa  A.  Chédeville  ( 1974)  319  que  só  os  membros  da  classe  senhorial  podiam  entregar  como 
penhor  o  direito  à  cobrança  de  tributos. 

238  Quanto  a  este  sistema  de  crédito,  a  que  em  ffancês  se  chama  rente  constítuée  e  eensus  em 
inglês,  ver  no  capítulo  5  a  n.  44.  Acerca  da  iniciativa  dos  mosteiros  nestas  operações  ver:  R.  Génestal 
(1901)  84-86,  156.  171-172;  S.  Homer  ( 1963 1  76.  Referem  casos  em  que  os  mutuantes  eram  mostei¬ 
ros,  sendo  senhores  laicos  os  mutuários;  A.  Bouton  (1975-1976)  11  619,  628-635;  A.  Chédeville 
(1974)  320.  No  Mâconnais,  segundo  G.  Duby  (1953)  479-480,  os  senhores  recorreram  cada  vez  mais 
a  esta  modalidade  de  crédito. 

239  R.  Génestal  ( 1901 )  33-35,  94-99.  106. 

240  J.  Richard  ( 1953)  108. 

Quanto  ao  caso  dos  Hospitalários  ver:  E  Ferris  <  1902-1903)  14;  J.  Piquet  <  1939)  241-242. 

241  Depois  de  afirmar  que  é  muito  pouco  provável  que  em  1307.  quando  suprimiu  a  Ordem  dos 
Templários,  o  rei  de  França  lhe  devesse  uma  soma  avultada,  pois  os  Templários  preferiam  servir  de 
fiadores  a  empréstimos  que  a  coroa  contraísse  junto  a  banqueiros  profissionais.  J.  Piquei  (1939)  187- 
-188  reconhece  que  quanto  a  este  assunto  não  é  possível  ultrapassar  as  meras  hipóteses.  Mas  este 
especialista  acrescenta  (p.  224)  que  após  a  eliminação  dos  Templários  todos  os  soberanos  procuraram 
«propriar-se  dos  seus  bens  ou  transferi-los  para  Ordens  Militares  de  âmbito  limitado  a  cada  uma  das 
esferas  de  soberania.  Com  efeito,  a  crer  em  L.  Delisle  (1889)  90-92,  o  monarca  francês,  se  não  se  apo¬ 
derou  do  tesouro  dos  Templários,  confiou-o  pelo  menos  à  administração  de  pessoas  da  sua  confiança, 
de  maneira  que  a  coroa  passou  a  participar  directa  e  activainente  na  gestão  dos  bens  da  antiga  Ordem. 
JL  S.  Lo  pez  (1965)  335  é  igualmente  radical  na  sua  apreciação,  escrevendo  que  em  1307  o  rei  de 
França  declarou  nulas  as  suas  próprias  dívidas  para  com  os  Templários  e  além  disso  adjudicou  uma 
larga  soma  do  património  da  extinta  Ordem  para  ser  reembolsado  de  dívidas,  verdadeiras  ou  fictícias. 


272 


Forma  II  do  dinheiro 


de  estabelecimentos  permitia-lhe  aliciar  depositantes  em  numerosíssimas  regiões  e  pro¬ 
ceder  a  pagamentos  a  grande  distância;  o  facto  de  dispor  de  sólidas  fortificações  e  de 
um  exército  bem  armado  constituía  uma  garantia  de  segurança  que  nenhuma  outra  ins¬ 
tituição  bancária  conseguia  oferecer,  tanto  mais  que  a  sua  autoridade  soberana  a  isen¬ 
tava  da  interferência  de  poderes  locais,  laicos  ou  eclesiásticos;  e  como  manejava  somas 
muitíssimo  avultadas  e  beneficiava  de  uma  administração  competente,  era  a  todo  o 
momento  capaz  de  efectuar  pagamentos  em  qualquer  lugar  sem  precisar  para  isso  de 
transportar  materialmente  os  fundos-42. 

A  actividade  de  aceitação  de  depósitos  confundia-se  com  as  operações  de  crédito 
quando  as  Ordens  Militares  recebiam  como  penhor  senhorias  que  faziam  parte  do  patri¬ 
mónio  dos  peregrinos  nas  suas  regiões  de  origem,  e  pagavam  depois  aos  peregrinos  os 
rendimentos  dessas  terras,  enquanto  eles  permanecessem  na  Síria  ou  na  Palestina243. 
Mas  as  iniciativas  financeiras  destas  singulares  instituições  religiosas  e  guerreiras, 
especialmente  dos  Templários,  assumiram  uma  amplitude  muitíssimo  mais  considerᬠ
vel  do  que  os  meros  movimentos  pecuniários  processados  entre  um  e  outro  extremo  do 
Mediterrâneo.  Tanto  em  França  como  na  Inglaterra,  não  só  em  Paris  e  Londres  mas 
igualmente  em  cidades  secundárias,  e  ainda  nas  Espanhas  e  no  reino  de  Nápoles,  os 
soberanos,  os  magnates  laicos  e  os  dignitários  religiosos,  bem  como  os  próprios  merca¬ 
dores  e  as  sociedades  mercantis  e,  afinal,  quaisquer  pessoas  com  alguma  fortuna  recor¬ 
riam  frequentemente  às  instalações  dos  Templários  para  depositar  com  segurança 
somas  de  dinheiro  e  outros  bens  preciosos244,  especificando  eventualmente  que  em 
dadas  ocasiões  tais  fundos  deveriam  ser  empregues  para  certos  fins243.  Também  para  o 
papado  a  Ordem  cumpriu  missões  financeiras,  colaborando  na  percepção  dos  tributos  e 
na  transferência  destas  somas  de  dinheiro  para  Roma246.  Apesar  do  silêncio  dos  docu¬ 
mentos.  não  deveremos  considerar  que  os  Templários  cobrariam  uma  percentagem  das 
quantias  que  lhes  eram  confiadas,  para  remunerarem  os  serviços  financeiros  e  contabi- 
lísticos  executados  em  benefício  dos  clientes247?  Mas  a  questão  apresenta  outra  faceta, 
pois,  além  de  ter  à  sua  guarda  cofres  particulares,  cujo  conteúdo  só  podia  usar  com 
autorização  expressa  dos  proprietários,  a  Ordem  recebia  a  maior  parte  dos  depósitos  em 
regime  de  fundo  comum248.  Assim,  nada  obstava  a  que  ela  empregasse  parte  destes 
fundos  em  operações  financeiras  que  lhe  dessem  um  lucro  directo.  E.  malgrado  a  idên- 


que  os  Templários  teriam  contraído  junto  da  coroa.  E  este  historiador  completa  o  quadro  ipp.  335- 
-336).  lembrando  que  os  demais  soberanos  agiram  de  maneira  idêntica. 

242  L.  Delisle  (1889)  20  e  segs.:  E.  Ferris  1 1902-1903)  12,  14.  G.  Olsen  1 1969-1970)  44:  J.  Piquet 
(1939)3-4,  27,31-32. 

243  J.  Richard  ( 1953)  280. 

244  A.  Bouton  (1975-1976)  II  640-643;  Ch.  N.  L.  Brooke  et  al.  (1975)  232;  L.  Delisle  ( 1889)  2  e 
segs.:  E.  Ferris  (1902-1903)  3-4.  14-15;  W.  E.  Lum  (1939-1962)  I  596-597;  J.  Piquet  (1939)  27.  35- 
-36.  38  e  segs.,  63.  224.  226.  236  e  segs.;  A.-E.  Sayous  1 1931 1  255:  A.  P.  Usher  1 1932-1934)  404-405. 

24?  L.  Delisle  (1889)  10  e  segs.:  E.  Ferris  ( 1902-1903)  6-7. 

246  G.  Olsen  t 1969-1970)  5(T  55:  J.  Piquet  ( 1939)  38.  63,  224;  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  405. 

247  L.  Delisle  1 1889 1  87  e  E.  Ferris  (1902- 1 903)  1 5  afirmam  que  nada  encontraram  na  documenta¬ 
ção  que  esclareça  a  maneira  como  a  Ordem  dos  Templários  se  fazia  remunerar  pelos  seus  serviços 
financeiros. 

245  L.  Delisle  (1889)  15;  J.  Piquet  ( 1939)  32. 


Da  vassalidatic  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


273 


tica  discrição  dos  arquivos,  quando  se  sabe  que  os  Templários  procediam  a  numerosos 
e  avultados  empréstimos  pecuniários,  e  quando  se  conhecem  exemplos  documentados 
de  cobrança  de  juros,  não  poderemos  admitir  que  mobilizassem  para  o  crédito  as  somas 
entregues  à  segurança  das  suas  instalações,  ampliando  os  seus  ganhos  e  dando  à  activi- 
dade  financeira  um  novo  escopo249?  Também  os  cavaleiros  da  Ordem  Teutónica,  espe¬ 
cialmente  poderosos  graças  ao  vasto  território  onde  detinham  a  soberania  exclusiva, 
facultavam  empréstimos  com  juros  a  príncipes  e  a  cidades250. 


249  É  esta  a  hipótese  que  se  afigura  mais  provável  a  L.  Delisle  <  1889)  14-19.  embora  ele  invoque  o 
silêncio  da  documentação.  Também  E.  Ferris  (1902-1903)  16.  depois  de  observar  que  os  Templários 
poderiam  obter  enormes  lucros  se  mobilizassem  as  somas  depositadas  nos  seus  cofres,  acrescenta  que 
ignoramos  em  que  medida  o  teriam  leito  e.  o  que  é  mais  grave,  não  temos  possibilidade  de  resolver  a 
questão.  Será  que,  decorrido  um  século,  ou  mais,  sobre  a  publicação  destes  dois  estudos,  dispomos  de 
informações  menos  omissas?  J.  Piquet  (1939)  32-3?  afirma  que  a  Ordem  dos  Templários  parecia 
manter  uma  certa  latitude  discricionária,  reservando-se  a  capacidade  de  interpretar  a  vontade  dos 
depositantes  e  de  empregar  por  vezes  os  depósitos  para  outros  fins  que  não  os  indicados.  Com  efeito. 
A.-E.  Sayous  ( 1 93 1 )  270  relata  um  caso  ocorrido  nos  meados  do  século  XIII,  em  que  a  coroa  francesa 
obrigou  os  Templários  a  emprestarem-lhe  fundos  que  haviam  sido  confiados  à  Ordem  com  a  condição 
expressa  de  não  serem  empregues  senão  a  favor  dos  depositantes.  Neste  exemplo  vemos  um  monarca 
pressionar  os  Templários  a  funcionarem  verdadeiramente  como  instituição  bancária.  Num  âmbito 
mais  geral,  todavia.  Jules  Piquet  em  op.  cit..  92  considera  que  os  grandes  investimentos  realizados 
pelos  Templários  na  aquisição  de  senhorias  limitavam  os  montantes  pecuniários  de  que  eles  podiam 
dispor  para  a  actividade  creditícia,  e  esclarece  (pp.  35,  56,  76-77,  90.  187-188)  que  em  várias  circuns¬ 
tâncias  a  Ordem  preferiu,  em  vez  de  emprestar  directamente  dinheiro,  fornecer  as  cauções  necessárias 
para  que  os  seus  clientes  encontrassem  crédito  junto  de  banqueiros  profissionais.  Nesta  mesma  pers¬ 
pectiva,  Jules  Piquet  conclui  (p.  241)  que  os  Hospitalários.  dispondo  talvez  de  mais  terras  do  que  os 
Templários,  prosseguiam  operações  financeiras  de  menor  vulto.  Também  Eleanor  Ferris  em  op.  cit.. 
8,  10  e  17  se  espanta  pelo  facto  de  os  empréstimos  adiantados  pela  Ordem  dos  Templários  à  coroa 
inglesa  não  terem  atingido  as  proporções  que  se  poderiam  esperar  tendo  em  conta  a  riqueza  dos  mon¬ 
ges  guerreiros  e  as  suas  estreitas  relações  com  os  monarcas.  Mas  estas  restrições  são  relativas,  e  ape¬ 
sar  delas  Jules  Piquet  em  op. ,  ir.  52  e  76  não  deixa  de  mencionar  os  numerosos  empréstimos  efectua- 
dos  pelos  Templários,  estando  documentada  (p.  54)  para  alguns  deles  a  cobrança  de  juros.  Na  Catalu¬ 
nha  do  século  XIII .  a  crer  em  J.  N  Hillgarth  ( 1976-1978)  1  272.  a  Ordem  dos  Templários  adiantava 
somas  de  dinheiro  â  coroa  de  Aragão.  J.  Day  ( 1994)  203  inclui  mesmo  estes  monges  guerreiros  entre 
os  agentes  económicos  que.  na  segunda  metade  do  século  XIII,  participaram  no  grande  aumento  da 
oferta  de  crédito.  No  Maine  do  século  XIII.  A.  Bouton  ( 1975-1976)  II  619  e  628-635  refere  a  inicia¬ 
tiva  dos  Templários  no  tipo  de  crédito  denominado  rente  constituée.  Segundo  A.  P.  Usher  <  1 932- 
-1934)  405,  a  Ordem  praticava  nomeadamente  o  overdraft,  aquela  forma  de  empréstimo  típica  do  sis¬ 
tema  de  conta  corrente,  que  consiste  em  permitir  ao  depositante  a  utilização  de  fundos  initn  montante 
superior  ao  que  existe  em  depósito  num  dado  momento.  Ver  no  mesmo  sentido  R.  S.  Lopez  (1965) 
335.  Efectivamente.  alguns  autores  assinalam  a  existência  de  numerosíssimos  depósitos  em  conta  cor¬ 
rente  nos  cofres  dos  Templários,  tanto  por  parte  de  soberanos  como  de  particulares:  E.  Ferris  (1902- 
-1903)  II;  J .  Piquet  (19391  38.  181;  A.  P.  Usher  (1932-1934)  405.  Todavia,  parece  que  os  Templᬠ
rios,  apesar  de  terem  colaborado  regularmente  no  transporte  dos  fundos  papais,  tal  como  há  pouco 
vimos  na  n.  246,  não  procederam  a  empréstimos  significativos  ao  papa,  e  G.  OI  sen  (1969-1970)  44 
explica  esta  lacuna  das  suas  actividades  com  o  argumento  de  que  a  Ordem  não  possuía  estabelecimen¬ 
tos  em  Roma.  É  tomar  um  efeito  pela  causa. 

250  J.  Piquet  (1939)  245. 

As  iniciativas  financeiras  da  Ordem  Teutónica.  porém,  só  adquiriram  certo  relevo  depois  de  ela 
ter  conquistado  a  Prússia,  e  mesmo  então  mantiveram-se  num  plano  secundário,  esclarece  id.,  ibid., 
245-246.  cabendo  a  primazia  à  acção  colonizadora.  Embora  confirme  que  as  operações  bancárias 


274 


Forma  II  do  dinheiro 


A  participação  decisiva  dos  estabelecimentos  religiosos  nas  operações  de  crédito 
explica-se  facilmente  se  tivermos  em  conta,  em  primeiro  lugar,  que  eles  estavam  no 
centro  da  rede  de  relações  tecida  entre  as  famílias  senhoriais  (ver  o  capítulo  6.d). 
Assim,  o  crédito  concedido  por  um  convento  a  um  senhor  laico  representava,  na  reali¬ 
dade,  um  empréstimo  feito  a  partir  de  bens  postos  em  comum  por  uma  boa  parte  da 
aristocracia  da  área.  Os  monges  guerreiros  reproduziam  este  processo  com  uma  latitude 
ainda  mais  considerável,  já  que  não  havia  região  da  Cristandade  ocidental  de  onde  os 
Templários  e  os  Hospitalários  não  obtivessem  membros,  e  cada  uma  das  restantes 
Ordens  tinha  todo  um  reino  como  área  de  recrutamento. 

Em  segundo  lugar,  a  fracção  clerical  da  classe  dominante  distinguia-se  dos  senhores 
laicos  acima  de  tudo  por  assumir  como  vocação  o  exercício  do  mundium,  e  o  crédito 
não  era  mais  do  que  a  forma  monetarizada  da  benevolência,  encontrando  a  sua  outra  e 
inseparável  face,  o  bannum,  nos  processos  económicos  que  precipitavam  com  muita 
frequência  a  desgraça  do  devedor.  Não  escasseiam  referências  a  estabelecimentos  ecle¬ 
siásticos  que  engrossaram  o  seu  património  com  as  senhorias  e  os  direitos  empenhados 
por  devedores  que,  afinal,  se  haviam  revelado  incapazes  de  pagar  o  empréstimo251.  É 
certo  que  no  decorrer  do  período  alguns  mosteiros  se  arruinaram,  ou  pelo  menos  sofre¬ 
ram  dificuldades  económicas  consideráveis252,  o  que  leva  um  reputado  historiador  a 
concluir  que  ficara  comprometido  o  papel  deste  tipo  de  instituições  como  fornecedoras 
de  crédito25  - .  Mas  ao  mesmo  tempo  outros  mosteiros  ampliaram  o  seu  conjunto  senho¬ 
rial,  e  parece  até  que  o  crescente  endividamento  registado  por  muitos  deles  resultou  de 
um  mero  expediente  administrativo,  destinado  a  arranjar  rapidamente  somas  de  nume¬ 
rário,  que  logo  eram  reembolsadas  por  ocasião  das  colheitas254.  Aliás,  sabe-se  que  a 
poderosa  abadia  de  Cluny  começou  a  contrair  empréstimos  superiores  ao  que  seria 
necessário  para  cobrir  as  despesas,  com  o  objectivo  de  dispor  de  quantias  de  dinheiro 
que.  por  seu  turno,  pudesse  emprestar  à  pequena  e  à  média  aristocracia  da  região.  E  não 
só  outros  estabelecimentos  menores  lhe  seguiram  o  exemplo255,  como  em  Inglaterra  os 


desta  Ordem  jamais  atingiram  a  dimensão  das  efeetuadas  pelos  Templários.  K.  Gorski  ( 1966)  288 
acrescenta  que  ela  conseguiu  excluir  da  sua  área  de  soberania  tanto  os  Judeus  como  os  iombardos.  e 
chama  a  atenção  para  o  facto  de  ser  a  Ordem  Teutõnica.  na  qualidade  de  soberano,  quem  procedia  aos 
empréstimos,  enquanto  no  resto  do  regime  senhorial  era  o  contrário  que  se  passava  e  os  soberanos 
apareciam  sempre  como  mutuários. 

251  C.  B.  Bouchard  ( 1987)  223;  G.  Despy  ( 1974-1975)  71;  G.  Devailly  ( 1973)  523-524;  ü.  Duby 
( 1953)  485-487:  H.  Enjalbert  (org.  1979)  105;  R.  Génestal  (1901)  65.  67;  J.  Piquet  (1939)  242;  C. 
Violante  ( 1962)  446  e  segs. 

Analisando  as  baladas  de  Robin  Hood.  J.  C  Holt  (1976  a)  243  e  segs.,  25 1  e  253  procura  mostrar 
que  elas  reflectem  temas  que  inquietavam  os  pequenos  senhores  rurais  no  século  XIII.  nomeadamente 
a  usura  praticada  pelos  estabelecimentos  eclesiásticos,  que  através  do  crédito  se  apoderavam  de  terras 
da  baixa  aristocracia. 

252  E.  Perroy  (1962-1963)40;  H.  van  Werveke  ( 1929)  72  e  segs, 

25 1  G.  Duby  ( 1 973  )  245-246.  258-259. 

E.  no  entanto,  Georgcs  Duby  sustentara  duas  décadas  antes  uma  posição  diferente.  Ver  a  este  res¬ 
peito  a  n.  255.  Já  não  é  a  primeira  vez  que  constato  em  cenas  teses  defendidas  pelo  notável  historia¬ 
dor  uma  regressão  relativamente  ao  seu  grande  estudo  sobre  o  Mâeonnais. 

254  C.M.Cipolla  (1947)  318. 

255  G.  Duby  (1953)485-487. 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


275 


riquíssimos  mosteiros  de  Cister  endividaram-se  durante  o  século  XIII  a  um  ritmo  muito 
rápido,  ao  mesmo  tempo  que  passaram  a  constituir  a  principal  fonte  de  oferta  de  crédito 
nomeio  rural256. 

Chegado  o  período  ao  seu  termo,  nada  parecia  ligar  tão  estreitamente  os  senhores  de 
todas  as  áreas  de  soberania  como  a  sua  inserçào  nas  operações  de  crédito.  Mas  não  era 
unívoco  o  sentido  em  que  no  interior  destas  redes  de  relações  se  afirmavam  as  situações 
de  predomínio.  Quando  um  arcebispo  de  Bordéus  foi  nomeado  papa  na  primeira 
década  do  século  XIV  e  usou  o  tesouro  pontifício  para  consentir  avultadíssimos 
empréstimos  aos  reis  de  França  e  da  Inglaterra,  bem  como  a  um  visconde  seu  sobri¬ 
nho257,  não  devemos  deduzir  que  era  a  hegemonia  do  papa  que  assim  se  afirmava,  até 
porque  foi  ele  quem  transferiu  para  Avignon  o  trono  de  São  Pedro,  submetendo-se 
completamente  aos  interesses  da  coroa  francesa.  O  pontífice  credor  estava  nas  mãos 
dos  soberanos  devedores,  e  o  mesmo  sucedia  com  inúmeros  outros  mutuantes.  Só  o 
facto  de  o  empréstimo  vir  ou  não  a  ser  remunerado  e,  no  caso  afirmativo,  a  forma  assu¬ 
mida  pelo  juro  é  que  nos  podem  esclarecer  acerca  das  hierarquias  relativas  ocupadas 
por  mutuante  e  mutuário. 

O  anacronismo  é  a  doença  profissional  dos  historiadores,  e  alguns  espantam-se  por 
nem  sempre  encontrarem  na  documentação  traço  dos  juros,  enquanto  remuneração  do 
crédito.  Atribuem  o  silêncio  à  repercussão  de  certas  normas  religiosas,  que  proibiam  a 
usura,  mas  esta  é  uma  explicação  insustentável,  como  procurarei  demonstrar  detalhada¬ 
mente  mais  adiante  (no  capítulo  12. b).  Para  já,  basta  reflectir  que  as  formas  de  ajuda, 
que  começaram  neste  período  a  desenvolver-se  em  dadas  orientações  e  deram  origem 
ao  que  passou  a  denominar-se  crédito,  haviam  constituído  inicialmente  modalidades  do 
sistema  de  troca  de  presentes,  e  compreendemo-las  de  maneira  muito  mais  realista  se  as 
analisarmos  em  tal  perspectiva.  O  que  hoje  nos  aparece  como  um  empréstimo  não  era, 
para  as  concepções  arcaicas,  mais  do  que  um  dos  muitos  momentos  de  uma  rede  multi- 
lateral  de  prestações  desfasadas  no  tempo.  Recordando  o  que  escrevi  a  este  respeito  (no 
capítulo  24.a  da  Parte  I),  constatamos  que  existiam  tradicionalmente  dois  tipos  gerais 
de  remuneração  do  crédito,  consoante  o  contexto  social  em  que  o  empréstimo  se  efec- 
tuara. 

Se.  pelo  menos  em  função  do  acto  da  transferência,  o  estatuto  dos  intervenientes 
fosse  equiparável,  então  a  circulação  dos  bens  e  serviços  realizar-se-ia  dentro  de  par⬠
metros  de  estrita  igualdade,  ou  que  eram  assim  avaliados  naquela  época.  A  monetariza- 
ção  deste  tipo  de  operações  não  trouxe,  de  início,  qualquer  ónus  para  o  devedor,  e  a  res¬ 
tituição  do  empréstimo  devia  ocorrer  no  interior  das  velhas  cadeias  de  relacionamento 
equitativo,  o  que  significa  que  o  adiantamento  de  um  dado  bem  ou  serviço  era  recom¬ 
pensado  por  um  bem  ou  serviço  de  valor  considerado  idêntico.  Aquilo  a  que  depois  se 
chamou  juro  não  tinha  aqui  lugar. 


Na  Toscana  dos  séculos  XII  e  XIII.  indica  P  J.  lones  (1968)  217.  os  estabelecimentos  eclesiásti¬ 
cos  que,  por  um  lado,  contraíam  dívidas  estavam,  por  outro,  a  adquirir  extensões  de  terra  superiores  às 
áreas  empenhadas. 

J.  E.  Madden  ( 1963)345-349. 

Ch.  Higounet  (org.  1971)  194. 


276 


Forma  II  do  dinheiro 


Podia  suceder,  porém,  que  os  intervenientes  estivessem  em  posição  de  radical  desi¬ 
gualdade.  Não  me  refiro  à  clivagem  social  que  separava  os  servos  dos  senhores,  pois  é 
outro  o  assunto  desta  secção,  que  diz  respeito  somente  às  relações  no  interior  da  classe 
dominante.  Mas  o  vínculo  de  vassalagem  manifestava,  neste  contexto,  a  existência  de 
um  profundo  desnivelamento  entre  uma  parte  e  outra.  Para  mentalidades  e  comporta¬ 
mentos  arcaicos,  e  em  situação  de  desigualdade,  se  o  empréstimo  não  tivesse  sido  pago 
e,  portanto,  se  um  gesto  não  tivesse  sido  cancelado  pelo  gesto  recíproco,  não  era  apenas 
da  soma  emprestada  que  o  mutuário  se  encontrava  em  dívida.  Não  se  tratava  de  dever 
alguma  coisa,  mas  de  dever  pura  e  simplesmente,  e  por  isso,  enquanto  não  fosse  resga¬ 
tada,  a  dívida  era  ilimitada.  O  que  existia  não  era  uma  dívida  concreta,  mas  uma  situa¬ 
ção  geral  de  dívida.  Se  pudéssemos  aplicar  aqui  os  termos  de  juro.  isto  significaria  que 
a  taxa  de  juro  tendia  a  aproximar-se  do  infinito.  De  certo  modo,  era  o  que  se  passava 
entre  o  vassalo  e  o  senhor  superior,  e  a  noção  de  dívida  permanente  caracterizava  o  vín¬ 
culo  de  subordinação.  Mas  o  que  sucedia  se  a  relação  de  crédito  se  estabelecesse  em 
sentido  inverso?  Num  poema  escrito  provavelmente  por  algum  letrado  que  frequentou  a 
corte  do  imperador  germânico  no  segundo  terço  do  século  XI.  um  rei,  patrono  do  per¬ 
sonagem  principal,  aconselha-o  a  nunca  emprestar  dinheiro  ao  seu  senhor  superior,  pois 
o  crédito  era  gerador  de  ressentimentos  e  rancores,  sendo  preferível  oferecer  a  soma 
pretendida.  Senão,  mais  tarde  ou  mais  cedo  o  senhor  superior  encontraria  maneira  de 
acusar  o  vassalo  de  qualquer  ofensa,  e  muita  sorte  seria  a  sua  se  perdesse  só  a  quantia 
confiscada  e  não  a  vida  também25*.  Esta  regra  de  conduta  revela-se  sensata  num  sis¬ 
tema  de  troca  de  presentes.  Neste  caso  o  empréstimo  pressupunha  a  existência  de  uma 
desigualdade  estrutural  entre  os  intervenientes,  pois  sem  isso  nunca  o  senhor  superior 
teria  pedido  a  ajuda  pecuniária  do  vassalo,  considerado  enquanto  vassalo.  Ora,  como  a 
relação  do  mutuante  para  com  o  mutuário  implicava  uma  superioridade  permanente,  ela 
constituía  exactamente  o  inverso  do  vínculo  que  devia  ligar  o  vassalo  ao  senhor  supe¬ 
rior.  A  perturbação  da  hierarquia  era  aqui  flagrante,  e  insustentável. 

Enquanto  o  sistema  de  presentes  operou  com  bens  e  serviços,  e  não  com  dinheiro, 
ou  enquanto  operou  com  formas  paramonetárias  e  modalidades  de  dinheiro  que  vigora¬ 
vam  apenas  em  certas  circunstâncias,  nada  pressionou  estes  dois  tipos  gerais  de  crédito 
a  integrarem-se  num  quadro  único.  Mas  a  difusão  das  relações  impessoais  a  todos  os 
níveis  da  sociedade,  com  a  consequente  ampliação  da  esfera  de  circulação  monetária, 
alterou  radicalmente  a  situação  e  começou  a  inter-relacionar  ambos  os  tipos  de  crédito, 
tanto  sob  o  ponto  de  vista  temporal  como  sob  o  ponto  de  vista  do  valor. 

Quanto  ao  decurso  do  tempo,  se  o  tecido  social  manifestasse  ainda  um  carácter 
acentuadamente  pessoal,  uma  dada  contraprestação  não  decorria  exclusivamente  de 
uma  dada  ajuda  financeira.  Verificava-se  então  um  fluxo  mais  ou  menos  regular  de  pre¬ 
sentes.  sem  que  existisse  obrigatoriamente  uma  coordenação  entre  pares,  e  o  presente 
inicial,  ou  seja.  o  empréstimo,  era  um  mero  elo  numa  cadeia  de  presentes  e  contrapre- 
sentes  sempre  repetidos.  Mesmo  que  a  quantia  emprestada  fosse  restituída  integral¬ 
mente  e  de  uma  só  vez.  não  se  estava  por  este  motivo  a  quebrar  uma  série  de  prestações 


:?s  K.  Leyser  <  1068)  42-43. 


Da  vassalidade  pessoal  à  donwsiit  Idadt  impessoal 


277 


determinada  exclusivamente  pelo  relacionamento  pessoal  já  estabelecido  entre  os  inter¬ 
venientes.  Nesta  modalidade  arcaica,  em  qualquer  caso  o  pagamento  do  empréstimo 
nunca  tinha  uma  relação  temporal  estrita  com  a  soma  adiantada.  No  século  XIII  encon¬ 
tram-se  exemplos  especialmente  interessantes  deste  mecanismo  obsoleto,  quando  os 
Templários  abriam  crédito  ao  rei  de  França  sem  lhe  cobrar  juros,  pois  como  se  encarre¬ 
gavam  simultaneamente  da  gestão  das  finanças  do  soberano  iam  obtendo  numerosas 
vantagens  económicas  e  políticas259.  Tratava-se  aqui,  de  maneira  muito  clara,  de  uma 
atribuição  ininterrupta  de  benefícios  que  decorria  em  ambas  as  direcções,  e  os  emprés¬ 
timos,  tal  como  os  privilégios  de  vária  ordem,  eram  meros  episódios  destas  cadeias 
contínuas.  Com  o  desenvolvimento  da  impessoalidade,  porém,  mutuante  e  mutuário 
passaram  a  estar  unidos  exclusivamente  pela  própria  operação  de  crédito,  ou  então, 
noutros  casos,  a  relação  de  crédito  passou  a  confundir-se  com  o  vínculo  que  ligava 
ambas  as  partes.  A  monetarização  da  sociedade  não  foi  senão  a  liquidação  das  formas 
de  relacionamento  que  antes  eram  independentes  das  transacções  e  se  sustentavam 
numa  história  de  contactos  pessoais,  e  a  sua  conversão  em  elos  que  se  mantinham  ape¬ 
nas  enquanto  o  dinheiro  circulava,  e  na  estrita  medida  dessa  circulação.  A  partir  de 
então  o  pagamento  dos  empréstimos  começou  necessariamente  a  obedecer  a  prazos 
fixos. 

Por  outro  lado.  vimos  que  na  modalidade  arcaica  os  casos  em  que  os  intervenientes 
estavam  separados  por  uma  clivagem  social  não  supunham  qualquer  proporcionalidade 
em  termos  de  valor  entre  a  remuneração  do  empréstimo  e  a  quantia  emprestada, 
enquanto  que  se  as  duas  partes  ocupassem  o  mesmo  plano  social,  a  restituição  era  feita 
em  condições  de  estrita  equivalência.  Mas  como  manter  uma  cisão  tão  abissal  entre  os 
dois  tipos  de  crédito  quando  ambos  eram  cada  vez  mais  veiculados  pela  mesma  forma 
monetária  e  no  interior  dos  mesmos  circuitos  de  circulação  do  dinheiro? 

No  período  iniciado  no  século  XI,  adiantar  uma  certa  soma  pecuniária  exigia  uma 
contraprestação  que  podia  ainda  obedecer  ao  sistema  de  gratificações,  benefícios  e  pri¬ 
vilégios  diversos.  Esta  modalidade  de  crédito  adquiria,  no  entanto,  uma  conotação  cada 
vez  mais  antiquada,  e  o  desenvolvimento  do  carácter  impessoal  das  relações  sociais 
levou  progressivamente  à  concretização  da  dívida  e  à  definição  do  montante  da  contra¬ 
prestação  como  uma  função  estrita  do  montante  da  prestação.  A  remuneração  do  cré¬ 
dito  acabava,  assim,  por  ser  necessariamente  incluída  no  mesmo  processo  que,  em  sen¬ 
tido  inverso,  havia  permitido  receber  o  empréstimo.  Se  inicialmente  o  mutuante  recla¬ 
mara  um  penhor  cujo  rendimento  constituía  o  juro.  obedecendo  a  um  modelo  de  con¬ 
traprestação  determinado  pelo  sistema  em  que  se  trocavam  presentes  inteiramente  dis¬ 
tintos,  mais  tarde  começaram  a  ser  aceites  reconhecimentos  de  dívidas  cujo  juro  era  um 
mero  produto  da  soma  emprestada2**'.  Esta  nova  situação  fez  com  que  os  dois  tipos 
arcaicos  de  crédito  tendessem  a  resutuir-se  a  um  quadro  comum,  e  foi  aí  que,  pouco  a 
pouco,  a  noção  de  uma  taxa  de  juro  surgiu  e  se  desenvolveu.  Podemos  seguir  esta  evo¬ 
lução.  por  exemplo,  ao  observar  o  sucedido  com  uma  forma  muito  divulgada  de  cré¬ 
dito,  em  que  a  troco  de  uma  certa  quantia  em  numerário,  cujo  reembolso  definitivo  não 


259  E.  Fr  ms  <  1902-1903)  15:  I  Piquei  ( 1939)  52. 
-w  M.  Caslaing  ( 1953-1954)  273-274. 


27, ff 


Forma  II  do  dinheiro 


podia  ser  exigido  pelo  mutuante,  o  devedor  ficava  obrigado  a  pagar  anual  ou  semestral¬ 
mente  os  rendimentos  de  uma  dada  terra.  Originariamente  estes  rendimentos  compu¬ 
nham-se  de  produtos  agrícolas,  e  como  descrever  então  o  que  se  passava?  Por  um  lado, 
uma  pessoa  adiantara  a  outra  uma  soma  em  dinheiro,  dando  início  a  uma  série  de  trans¬ 
ferências  a  serem  processadas  futuramente  em  seu  benefício,  de  tal  modo  que  a  opera¬ 
ção  parecia  uma  compra  antecipada  de  géneros,  em  que  o  comprador  -  que  neste  caso 
era  o  mutuante  -  pagava  de  uma  vez  por  todas  e  o  vendedor  -  que  era  aqui  o  mutuário 
-  repetia  indefinidamente,  ou  durante  um  prazo  muito  longo,  o  acto  de  entrega  do  pro¬ 
duto.  Progressivamente,  o  rendimento  devido  em  troca  do  empréstimo  começou  a  assu¬ 
mir  a  forma  pecuniária,  convertendo-se  assim  num  juro,  por  vezes  de  montante  variᬠ
vel,  mas  em  grande  parte  dos  casos  estipulado  numa  soma  fixa.  Porém,  e  apesar  do 
aspecto  monetário  de  que  se  revestia,  o  juro,  em  vez  de  ser  definido  estritamente  em 
função  da  quantia  emprestada,  continuava  a  ser  condicionado  pelo  rendimento  daquela 
terra.  No  caso  de  ter  um  montante  variável,  o  juro  correspondia  às  oscilações  da  produ¬ 
tividade  da  exploração  agrícola  e.  quando  se  tratava  de  um  juro  fixo,  ele  fora  decerto 
determinado  pela  produtividade  inicial  do  terreno.  Em  ambas  as  modalidades,  portanto, 
o  juro  mantinha-se  ainda  no  quadro  do  sistema  de  presentes.  Só  depois,  numa  fase 
final,  a  abertura  deste  tipo  de  crédito  passou  a  ser  estipulada  integralmente  em  dinheiro, 
tanto  a  soma  adiantada  como  a  sua  remuneração,  o  que  sem  dúvida  pressionou  a  taxa 
de  juro  a  adquirir  maior  independência  relativamente  à  base  fundiária261. 

As  taxas  de  juro  aplicadas  naquela  época  podem  hoje  parecer-nos  paradoxais,  por¬ 
que  elas  resultavam  de  processos  então  muito  recentes,  e  gerados  a  partir  de  esferas  dis¬ 
tintas.  Seria  necessário  reanalisar  nesta  perspectiva  toda  a  enorme  massa  documental 
existente  nos  arquivos,  de  maneira  a  considerar  com  outros  olhos  o  comportamento 
económico  da  aristocracia  coeva  e  a  descobrir  em  níveis  muito  mais  profundos  a  raiz  de 
algumas  formas  económicas  hoje  tão  divulgadas.  Mas  como  recuperar  o  tempo  perdido 
pelos  historiadores  que  interpretam  essas  informações  em  função  de  uma  versão  banali¬ 
zada  do  capitalismo  contemporâneo?  Nos  meados  deste  período,  nos  séculos  XII  e 
XIII,  tanto  se  empregou  a  modalidade  arcaica,  pessoal,  como  a  modalidade  impessoal, 
e  esta  conjugação,  que  devia  servir  para  esclarecer  os  estudiosos  acerca  do  verdadeiro 
lugar  ocupado  pelo  crédito,  parece  que  só  os  confunde.  De  então  em  diante,  o  pro¬ 
gresso  das  relações  de  tipo  impessoal  reílectiu-se  na  supremacia  que  o  juro  veio  a  assu¬ 
mir  relativamente  ao  contrapresente.  Mas  num  aspecto  básico  a  noção  moderna  de  juro 
perpetua  os  mecanismos  do  sistema  de  presentes.  Vimos  que  o  juro  não  podia  ter  nas¬ 
cido  no  tipo  de  crédito  em  que  os  intervenientes  se  confrontavam  no  mesmo  plano 
social.  Apenas  um  desnível  radical  de  estatutos  originava  a  diferença  entre  o  que  se 
dava  e  o  que  se  recebia,  e  nestes  termos  o  devedor  só  podia  pagar  o  empréstimo  se  res¬ 
tituísse  de  uma  só  vez  todo  o  montante,  o  que  em  geral  não  conseguia  precisamente 
porque  se  situava  num  plano  inferior  ao  do  credor.  Assim,  o  devedor  encontrava-se 
sujeito  à  obrigação  de  transferir  incessantemente  para  o  credor  bens  ou  serviços  que. 


261  Para  a  evolução  deste  tipo  de  crédito  consultar:  S.  Honier  (1963)  75-76:  J.  T.  Noonan  Jr. 
(1957)  154-155. 


Da  vassalidadc  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


279 


isoladamente,  tinham  um  valor  menor  do  que  a  quantia  emprestada,  mas  que  se  acumu¬ 
lavam  até  atingir  um  valor  superior  e  sempre  crescente.  Do  mesmo  modo.  todos  os 
métodos  de  remuneração  do  crédito  acabaram  por  ter  em  comum  o  facto  de  o  paga¬ 
mento  dos  juros  não  ser  deduzido  do  montante  em  dívida. 

Foi  assim  que  no  âmbito  do  mundium  se  geraram,  gradualmente,  as  formas  precur¬ 
soras  do  crédito  moderno.  Mas  para  compreender  o  funcionamento  do  crédito  neste 
período  é  necessário  não  esquecer  nunca  que  ele  veiculava  esferas  de  mundium  distin¬ 
tas.  Para  já.  podemos  definir  uma  que  dizia  respeito  às  relações  de  exploração  entre 
senhores  e  servos  e  se  processava  mediante  a  Forma  I  do  dinheiro,  e  outra  que  usava  a 
Forma  II  do  dinheiro  e  incidia  nas  hierarquias  internas  da  classe  senhorial.  Veremos 
mais  tarde  (no  capítulo  lO.b)  a  íntima  ligação  entre  o  crédito  e  a  Forma  III  do  dinheiro. 
Só  o  desenvolvimento  histórico,  ocasionando  a  crise  do  regime  senhorial  e  o  apareci¬ 
mento  do  modo  de  produção  capitalista,  permitiria  integrar  as  várias  facetas  do  crédito 
num  mecanismo  unificado. 


f.  Transformação  dos  agentes  senhoriais  em  burocracia  assalariada 

O  desenvolvimento  da  Forma  1  do  dinheiro  obrigou  os  senhores  a  reorganizarem  a 
gestão  das  suas  senhorias,  multiplicando-se  os  inventários  e  remodelando-se  as  opera¬ 
ções  de  contabilidade262.  Aliás,  no  plano  impessoal,  a  partir  do  momento  em  que  pre¬ 
valeceu  a  circulação  monetária,  bastou  o  mero  uso  contábil ístico  do  dinheiro  para  sus¬ 
citar  a  introdução  das  novas  técnicas  administrativas.  E  também  as  senhorias  pessoais, 
na  medida  em  que  acabaram  por  se  integrar  no  escalão  inferior  das  hierarquias  impes¬ 
soais,  foram  levadas  a  recorrer  a  métodos  actualizados  de  gestão.  Por  outro  lado,  nas 
relações  internas  da  classe  dominante,  a  difusão  do  dinheiro  na  sua  Forma  II  colocou 
novos  problemas  de  contabilidade  e  de  administração,  agravados  pela  ampliação  do 
crédito.  Os  velhos  sistemas  tomaram-se  caducos,  e  com  eles  declinaram  e  desaparece¬ 
ram  os  antigos  agentes  senhoriais263. 

A  nova  vaga  de  administradores  era  composta  por  letrados,  juristas,  notários,  conta¬ 
bilistas.  e  talvez  possa  admitir-se  que  a  nobreza  não-livre,  cujo  estatuto  peculiar  provi¬ 
nha  do  facto  de  se  dedicar  às  funções  de  agente  senhorial,  e  que  na  Germânia  durou  até 


262  G.  Duby  (1962)  462-464;  G.  Sivéry  (1977-1980)  374,  378  e  segs. 

Na  Itália,  segundo  G.  Sivéry  ( 1977-1980)  377,  parece  que  só  tardiamente  os  sistemas  contabilísli- 
cos  empregues  pelos  comerciantes  fizeram  sentir  a  sua  influência  sobre  a  contabilidade  das  senhorias 
rurais.  Analisando  a  Inglaterra  do  século  XIV.  onde  mesmo  as  senhorias  em  que  existia  apenas  um 
aparelho  administrativo  muito  rudimentar  dispunham  de  um  agenie  de  carácter  permanente,  escolhido 
entre  os  camponeses,  H.  S.  Bennett  (1926)  359-363  espanta-se  que  urna  pessoa  iletrada  conseguisse 
compilar  toda  a  informação  necessária  para  etectuar  as  contas  anuais,  e  admite  a  hipótese  de  que  estes 
agentes  senhoriais  beneficiassem  da  grande  memória  típica  dos  analfabetos.  B.  A.  Hanawalt  (1986) 
161-162,  porém,  referindo-se  à  Inglaterra  durante  a  mesma  época,  elucida  que  alguns  filhos  de  famí¬ 
lias  rústicas  frequentavam  a  escola,  pagando  para  isso  uma  taxa  ao  senhor,  o  qual  punha  por  vezes 
como  condição  que  o  jovem  não  se  destinasse  à  carreira  eclesiástica  e  viesse  mais  tarde  a  executar  as 
funções  de  agente  administrativo. 

261  M.  Bloch  ( 1960- 1961)1  196-197. 


280 


Forma  II  do  dinheiro 


uma  época  tão  tardia,  tivesse  apressado  a  sua  fusão  na  restante  nobreza  do  império  em 
virtude  do  aparecimento  dos  novos  profissionais  da  gestão.  Como  os  antigos  agentes 
senhoriais  haviam  abandonado  a  sua  actividade  específica,  nada  os  distinguia  já  das 
restantes  famílias  nobres.  Por  outro  lado,  parece  certo  também  que  a  existência  daquele 
tipo  arcaico  de  agentes,  inseridos  na  teia  das  relações  de  subordinação,  retardou  o 
desenvolvimento  de  instituições  políticas  inovadoras  nas  áreas  de  povoamento  tradicio¬ 
nal264,  porque  mais  a  leste,  nos  territórios  de  colonização,  foi  introduzida  de  maneira 
sistemática  e  uniforme  uma  administração  organizada  territorialmente  e  estruturada  em 
termos  burocráticos,  e  não  já  vassálicos265. 

Homens  de  leis  e  especialistas  da  gestão  financeira  ofereciam  os  seus  préstimos  às 
famílias  comuns  da  aristocracia,  e  às  maiores  de  todas,  as  famílias  dos  soberanos,  bem 
como  às  cidades  enquanto  senhores  colectivos.  Os  seus  talentos  permearam  sem  exeep- 
ção  todos  os  estratos  da  classe  dominante.  Aliás,  eram  tantos  os  afazeres,  e  por  vezes 
tão  rendosos,  que  forneciam  aos  letrados  e  juristas  uma  via  de  promoção  social  e  che¬ 
gavam  em  muitos  casos  a  proporcionar-lhes  o  acesso  à  nobreza266.  Os  pequenos  senho- 


264  É  esta  a  tese  defendida  por  K.  Bosl  <  1979)  293. 

G.  Barraclough  (1972)  279. 

266  Depois  de  sublinhar  que  na  Normandia  do  século  XI  a  monetarização  das  relações  sociais  se 
desenvolvera  já  num  grau  muito  acentuado,  L.  Musset  (1959)  285-2X9  e  295-298  afirma  que  ascende¬ 
ram  á  nobreza  alguns  agentes  senhoriais  encarregados  da  administração  fiscal  por  conta  do  duque  ou 
de  grandes  estabelecimentos  religiosos.  Mais  tarde,  porém,  quando  se  generalizou  o  novo  tipo  de 
administradores,  os  doutores  em  leis  não  tiveram  acesso  à  nobreza  no  norte  da  França,  garante  A. 
Gouron  (1969)  65.  Também  em  Metz.  nos  séculos  XIII  e  XIV,  indica  J.  Schnetder  ( 1950)  461.  as 
famílias  da  elite  não  queriam  aceitar  os  juristas  enriquecidos,  porque  eles  provinham  de  estratos  dedi¬ 
cados  a  ofícios  artesanais  ou  do  campesinato  abastado.  Mas  etn  qualquer  caso  a  efectiva  ascensão 
social  é  confirmada  pelo  próprio  facto  de  estes  problemas  se  colocarem.  Aliás,  a  relutância  à  admis¬ 
são  desses  administradores  na  nobreza  nem  sempre  se  verificou,  porque  J.  Richard  (org.  1978)  168- 
-169  mostra  que  na  Borgonha  dos  meados  do  século  XIV  foram  nobilitados  homens  de  leis  que 
haviam  feito  fortuna  ao  serviço  do  duque.  Mais  ao  sul,  nas  cidades  da  França  meridional  estudadas 
por  André  Gouron  em  op.  cit..  59-60  e  63-65,  os  juristas  acumularam  uma  fortuna  fundiária  que  os 
incluiu  de  facto  na  aristocracia  e.  apesar  da  resistência  da  elite  urbana  de  tradição  mercantil,  já  no 
século  XIV  muitos  deles,  ou  os  seus  filhos,  foram  nobilitados  e  esta  situação  tomou-se  corrente  no 
século  XV.  E  na  análise  detalhada  que  faz  de  Montaillou  no  primeiro  quartel  do  século  XIV,  E.  Le 
Roy  Ladurie  ( 1975)  40-41,  depois  de  observar  que  entre  a  nobreza  menos  abastada  e  o  campesinato 
mais  rico  não  existia  uma  clivagem  nítida,  acrescenta  que  era  igualmente  curta  a  distância  a  separar  os 
nobres  dos  homens  de  leis.  Também  na  Inglaterra  se  verificou  a  mesma  mobilidade,  pois,  no  final  do 
século  XIII,  P.  Coss  ( 1991 )  3 16  refere  o  recrutamento  dos  agentes  locais  e  dos  homens  de  leis  entre  os 
camponeses  mais  abastados  e  os  cidadãos  providos  de  fortuna,  o  que  não  impede  M.  M.  Postan  (1978 
a)  175-176  de  mencionar  a  entrada  dos  juristas  ingleses  na  classe  senhorial.  No  caso  de  Londres,  G. 
A.  Williams  ( 1963)  97  e  segs.  descreve  as  vias  de  ascensão  dos  juristas  até  à  elite.  Nas  Espanhas  a 
profissão  de  jurista  não  se  revelou  também  incompatível  com  o  estatuto  de  nobreza.  Em  Navarra,  no 
século  XIV,  eram  muitos  os  nobres  a  fazer  estudos  de  direito  para  ocuparem  cargos  administrativos, 
consoante  indica  M.-C.  Gerbet  (1994)  162.  E  a  mesma  historiadora  esclarece  ( pp.  75,  86)  que  no 
reino  de  Castela,  na  segunda  metade  do  século  XIII  e  no  século  seguinte,  os  juristas  eram  com  fre¬ 
quência  nobres  das  camadas  inferiores,  o  que  permite  compreender  que  as  habilitações  universitárias 
abrissem  aos  plebeus  abastados  o  acesso  à  nobreza.  É  de  igual  modo  sugestivo  o  que  sucedeu  com  o 
conselho  real.  instituído  em  1385  pelo  rei  de  Castela,  e  no  qual  estava  prevista  a  participação  de  pes¬ 
soas  da  nobreza  laica,  de  dignitários  eclesiásticos  e  da  elite  urbana.  Quando  lemos  em  id..  tbid..  1 1 1 


Da  vussalidude  pessoal  o  domestu  idade  impessoal 


2S1 


res  e  todos  aqueles  cidadãos  que  não  fossem  especialmente  ricos,  não  tendo  posses 
para  sustentar  um  corpo  de  funcionários  exclusivos,  recorriam  sobretudo  aos  notários. 
Os  historiadores  debruçam-se  com  certa  frequência  sobre  os  grandes  corpos  adminis¬ 
trativos  e  as  personalidades  proeminentes  da  jurisprudência,  e  neste  contexto  encon¬ 
tram-se  referências  a  notários  ao  serviço  da  elite  senhorial.  Mas  a  massa  dos  notários 
não  parece  ter  cativado  as  atenções  dos  especialistas,  e  no  entanto  foram  estes  modes¬ 
tos  profissionais20',  cada  vez  mais  numerosos,  que  permitiram  ao  conjunto  da  classe 
dominante  conduzir  os  seus  negócios  nas  novas  circunstâncias  do  relacionamento 
impessoal.  Originariamente  a  validade  dos  documentos  notariais  havia  sido  assegurada 
pelos  testemunhos  que  os  acompanhavam,  e  se  viesse  a  ocorrer  uma  contestação  aque¬ 
les  testemunhos  deviam  ser  renovados.  Porém,  na  Itália  a  partir  do  século  XII,  e  mais 
tarde  nas  outras  regiões,  o  carácter  da  actividade  notarial  transformou-se  profunda¬ 
mente  e  um  documento  redigido  e  assinado  por  um  notário  deixou  de  ter  necessidade 


que,  dois  anos  depois,  os  representantes  da  elite  urbana  foram  substituídos  por  juristas,  não  podere¬ 
mos  deduzir  que  isto  revela  uma  crescente  inclusão  dos  homens  de  leis  na  camada  superior  das  cida¬ 
des?  Acerca  do  conselho  real  veja-se  ainda  J.  N.  Hillgánh  (1976-1978)  II  194,  Aliás,  não  foi  decerto 
ocasional  que,  no  vizinho  reino  de  Portugal,  precisaniente  nas  cortes  gerais  reunidas  em  1385  os 
homens  de  leis  tivessem  pela  primeira  vez  aparecido  como  uma  categoria  social  específica,  ao  lado 
dos  prelados,  dos  nobres  laicos  e  da  elite  urbana,  como  indica  H.  G.  Barros  <  1945-1954)  111  216-217. 
Mas  foi  talvez  na  Itália  centro-setentrional  que  os  juízes  e  os  notários  mais  extensivameme  penetra¬ 
ram  na  elite  urbana,  figurando  desde  a  primeira  hora  cm  lugar  de  destaque  no  movimento  comunal. 
Consulte-se  a  este  respeito:  J.  K.  Hyde  (1973)  147:  C.-G,  Mor  <  1968)  178;  G.  Rossetti  (1975)  296: 
Ch.  Wickham  ( 1981 )  190.  Em  Pisa.  afirma  E.  Cristiani  (1962)  1 12.  os  juízes  e  os  juristas  pertenciam 
aos  estratos  superiores.  Esta  situação,  no  entanto,  não  impediu  que  a  carreira  jurídica  continuasse  a 
proporcionar  aos  recém-vindos  oportunidades  de  ascensão  social  nas  cidades  italianas,  e  no  final  do 
período,  ou  mesmo  depois,  juristas  oriundos  de  meios  populares  podiam  colocar  seriamente  em  risco 
a  hegemonia  da  elite  tradicional,  como  mostra  S.  Bertelli  (1978)  130  e  133-134.  Aliás,  estudando  o 
caso  de  Pádua  no  século  XIII,  J.  K.  Hyde  (1966)  90  índica  que  o  estudo  das  leis  constituía  uma  via  de 
promoção  e  adianta  tpp.  120.  131-132)  que  estes  profissionais  tanto  provinham  de  famílias  populares 
enriquecidas  como  de  famílias  nobres  em  risco  de  perder  o  seu  estatuto.  Porém.  B.  Z.  Kedar  (1976) 
70  e  72-73.  embora  assinale  que  em  Génova,  no  século  XIV,  a  carreira  jurídica  continuava  a  propor¬ 
cionar  ocasiões  de  elevação  social,  considera  que  a  situação  seria  diferente  naquela  época  em  Veneza, 
onde  não  surgiu  uma  elite  de  juristas  profissionais.  Talvez  a  diferença  se  esclareça  se  tomarmos  em 
conta  o  sucedido  em  Florença.  No  século  XIV,  o  grande  crescimento  verificado  no  número  de  funcio¬ 
nários  levou  a  que  se  abandonasse  o  velho  método  da  designação  por  sorteio  ou  por  escolha  eleitoral 
para  os  principais  cargos  financeiros  e  fiscais  e  se  começasse  sistematicamente  a  nomear  profissionais 
detentores  de  qualificações  técnicas;  assim,  como  observa  M.  B.  Becker  (1968)  1 19,  este  nível  da 
actividade  governativa  deixou  de  ser  atingido  pelas  convulsões  políticas.  Parece-me  possível  definir  a 
regra  de  que.  quanto  maior  fosse  a  instabilidade  política  numa  cidade,  e  portanto  maior  fosse  a  rota¬ 
ção  na  elite,  mais  a  perenidade  da  nova  burocracia  profissional  lhe  assegurava  o  controlo  dos  meca¬ 
nismos  do  poder  e  a  projectava  para  a  camada  social  cimeira. 

267  Estudando  Pádua  no  século  XIII.  J.  K  Hvde  ( 1966)  158-159  e  163  mostra  que,  apesar  da  sua 
relevância  profissional,  os  notários  gozavam  de  um  estatuto  inferior  ao  dos  restantes  homens  de  leis. 
Em  Veneza,  no  entanto,  no  final  do  período,  e  parece-me  que  também  em  Génova,  a  sua  posição  era 
mais  considerável,  consoante  relata  B.  Z.  Kedar  (1976)  72  e  74.  E  em  Florença,  pelo  menos  no  ter¬ 
ceiro  quartel  do  século  XIV.  os  notários  adquiriram  igualmente  grande  importância  enquanto  funcio¬ 
nários  do  governo  da  cidade,  a  crer  em  G.  A.  Brucker  (1962)  60.  Aliás,  no  começo  do  século  seguinte 
D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  1 14  observam  que  os  notários  figuravam  com  destaque  entre  as  famílias  abas¬ 
tadas  que  emigravam  do  campo  para  a  cidade. 


282 


Forma  lí  do  dinheiro 


de  validação  posterior268.  Nas  regiões  onde  prevalecia  o  direito  escrito,  mesmo  os  actos 
mais  simples  passaram  a  ser  registados  nos  livros  dos  notários269.  Mediante  remunera¬ 
ção  convencionada,  estes  homens  de  leis  mantinham-se  à  disposição  de  um  número  de 
senhores  indiscriminado  e  variável,  dando  conselho  a  todos  eles  e  servindo-lhes  de 
razão  e  de  memória.  E  como.  pelo  menos  nas  regiões  de  direito  escrito,  se  preferia 
resolver  os  litígios  mediante  compromisso,  recorrendo  à  arbitragem  de  notários  ou 
outros  homens  de  leis.  em  vez  de  aguardar  o  resultado  de  demoradíssimos  e  onerosos 
processos  em  tribunal270,  a  multiplicidade  de  profissionais  do  direito  contribuía  para 
estreitar  e  consolidar  a  coesão  da  classe  dominante. 

Os  magnates,  porém,  e  por  maioria  de  razão  os  príncipes  e  os  monarcas,  incluindo  o 
papa,  tinham  os  seus  próprios  corpos  de  funcionários.  Tomou-se  cada  vez  mais  comum 
que  os  soberanos  e  os  governos  das  cidades  contratassem  homens  de  leis  como  conse¬ 
lheiros  permanentes  e  especialistas  da  política  interna  e  da  diplomacia271.  Eram  estas, 
agora,  as  vozes  que  se  faziam  ouvir  na  gestão  dos  negócios  correntes.  Mas  é  sobretudo 
noutro  campo,  na  organização  das  finanças,  que  devemos  estudar  a  intervenção  do  novo 
tipo  de  funcionários  se  os  quisermos  entender  na  sua  existência  contraditória. 

Numa  fase  intermédia,  os  soberanos  recorreram  a  instituições  financeiras  autóno¬ 
mas,  tanto  laicas  como  eclesiásticas,  para  lhes  administrarem  as  receitas  e  as  despesas. 
Quanto  à  utilização  de  instituições  laicas,  o  caso  mais  conhecido  é  talvez  o  da  corte 
papal.  Já  nos  meados  do  século  XIII  sucedera  que  os  papas  aproveitassem  ocasional¬ 
mente  as  capacidades  administrativas  de  companhias  comerciais  e  bancárias,  mas  a 
partir  do  final  desse  século,  e  sobretudo  ao  longo  do  século  seguinte,  quando  o  chefe  da 
Igreja  se  instalou  em  Avignon,  algumas  companhias  foram  convertidas  em  verdadeiros 
corpos  de  funcionários,  encarregados  da  gestão  dos  rendimentos  e  finanças  pontifícias, 
tanto  em  âmbitos  provinciais  como  no  próprio  nível  central.  As  relações  eram  tão 
estreitas  que  por  vezes  membros  das  companhias  passaram  a  integrar  pessoalmente  os 


268  E.  Rossini  (1971)  28-29.  Acerca  do  desenvolvimento  do  estatuto  de  publica  fides  ver  também: 
P.Touberti  1973  b)  116. 

R.  de  Roover  ( 1948)  288  n.  65  afirma  que  a  autoridade  dos  notários  flamengos  provinha  de  man¬ 
datos  imperiais  ou  apostólicos,  e  que  por  isso.  embora  estes  profissionais  tivessem  surgido  na  Flan- 
dres  no  século  XIII  e  se  tivessem  difundido  rapidamente,  não  atingiram  então  uma  importância  igual  à 
alcançada  pelos  seus  colegas  na  Itália,  No  entanto,  P.  Toubert  ( 1973  b)  1 16-1 17  observa  que  o  carác¬ 
ter  apostólico  do  notariado  do  Latium  e  a  sua  adesão  às  novas  estruturas  estatais  desenvolvidas  pelos 
papas  se  explica  pelo  facto  de  ser  do  seu  interesse  ligarem  o  exercício  da  profissão  a  uma  fonte  de 
soberania  de  carácter  geral  e  estável,  como  era  o  papado,  e  não  de  âmbito  limitado  e  vida  política  atri¬ 
bulada.  como  foi  a  comuna  consular  romana.  Depois,  com  a  ida  dos  pontífices  para  Avignon,  Pierre 
Toubert  esclarece  íp.  120)  que  o  notariado  papal  foi  substituído,  nas  regiões  centrais  da  península, 
pelo  notariado  imperial. 

2W  A.-M.  Landès-Mallet  ( 1985)  13. 

270  A.  Gouron  ( 1969)  56;  A.-M.  Landès-Mallet  ( 1985)  13. 

271  E.  Baratier  (org.  1969)  157;  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  II  213;  S.  Bertelli  (1978)  128  e  segs.:  R. 
H.  Bowers  (1983)  60;  G.  Cracco  (1967)  162-163;  M.-C.  Gerbet  (1994)  75,  86.  1 14-1 15;  A.  Gouron 
1 1969)  56-59;  D.  Herlihy  (1967)  231-237;  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  I  99-104;  J.  K.  Hyde  (1966)  193. 
247;  G.  Orlandelli  (1965)  349-350:  J.  M.  Powell  (1962)  476;  G.  A.  Williams  ( 1963 )  95  e  segs..  264. 

Em  Portugal,  porém,  a  crer  em  J.  N.  Hillgarth  !  1976-1978)  11  197,  os  funcionários  da  corte  régia 
foram  sempre  em  número  reduzido. 


Da  vassalidadc  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


283 


órgãos  fiscais  do  papado27-.  Aliás,  ao  recordarmos  que  os  clérigos  participavam  habi¬ 
tualmente  no  comércio  e  nas  especulações  monetárias273,  entendemos  que  não  podia 
haver  qualquer  clivagem  nítida  entre  as  companhias  de  negociantes  e  o  aparelho  central 
da  Igreja.  Mas  também  soberanos  laicos  angariaram  os  serviços  das  companhias274.  A 
coroa  inglesa,  mesmo  quando  dispunha  já  de  órgãos  financeiros  muito  desenvolvidos, 
contava  na  sua  actividade  fiscal  com  a  ajuda  de  banqueiros  profissionais275.  E  no  Forez, 
por  exemplo,  na  segunda  metade  do  século  XIV.  tomou-se  muito  considerável  a  inter¬ 
venção  de  banqueiros  e  outros  homens  de  negócios  na  organização  das  finanças  do 
conde,  e  mesmo  no  governo  geral  do  condado276. 

O  papel  relevante  coube,  no  entanto,  à  Ordem  dos  Templários,  como  analisei  já 
neste  capítulo.  Em  França,  enquanto,  por  um  lado,  os  serviços  integrados  na  corte  do 
monarca  fiscalizavam  a  contabilidade  e  se  encarregavam  da  administração  financeira, 
por  outro  lado,  o  tesouro  principal,  que  aumentava  de  importância  à  medida  que  a  eco¬ 
nomia  se  ia  monetarizando,  estava  desde  o  termo  do  século  XII  ou  o  princípio  do 
século  seguinte  depositado  na  Ordem.  Como  o  tesoureiro  dos  Templários  cumpria  ao 
mesmo  tempo  iguais  funções  para  o  rei.  os  rendimentos  do  monarca  deixaram  de  ser 
considerados  um  mero  depósito  e  depressa  passaram  a  ser  geridos  em  sistema  de  conta 
corrente,  de  maneira  que  ao  longo  do  século  XIII  foi-se  tomando  sempre  mais  eficaz  a 
intervenção  da  Ordem  em  todos  os  aspectos  centrais  das  finanças  régias2'7.  Os  Templᬠ
rios  encarregaram-se  igualmente  do  tesouro  da  coroa  de  Nápoles,  enquanto  reinou  a 
dinastia  inaugurada  pelo  irmão  de  um  soberano  francês27s.  E  no  final  do  primeiro  quar¬ 
tel  do  século  XIII  o  detentor  da  coroa  de  Aragão  nomeou  um  membro  da  Ordem  para 
administrar  os  rendimentos  reais  na  Catalunha  e  outro  para  desempenhar  a  mesma  acti¬ 
vidade  no  reino  de  Aragão279.  Em  Inglaterra,  porém,  a  monarquia  desenvolveu  mais 
rapidamente  órgãos  financeiros  próprios.  Por  isso,  embora  a  Ordem  dos  Templários 
tivesse  executado  também  serviços  bancários,  de  gestão  fiscal  e  de  transporte  de  fundos 
para  o  soberano  inglês,  ela  não  chegou  a  atingir  desse  lado  da  Mancha  a  importância 
que  adquiriu  do  lado  de  lá  e  nunca  administrou  o  tesouro  real280.  De  certo  modo,  ao 
apelarem  para  os  monges  guerreiros  os  reis  estavam  apenas  a  conferir  um  aspecto  ino¬ 
vador  a  um  recurso  tradicional.  Desde  o  período  anterior  que  os  monarcas  utilizavam  o 
aparelho  clerical  para  fins  governativos,  e  na  Germânia  isto  sucedeu  de  maneira  siste¬ 
mática  com  as  dinastias  reinantes  durante  os  séculos  X  e  XI281.  O  desenvolvimento  do 


372  Acerca  das  relações  entre  o  papado  e  as  companhias  comerciais  e  financeiras  ver  Y.  Renouarci 
(1941)  93-94  e  4 1 2  e  segs. 

373  ld„  ibid..  15  e  segs 

374  Ver  a  n.  86  do  capítulo  1 3. 

275  G.  L.  Harriss  1 1975)  203. 

27(1  E.  Foumialt  1967  )  377. 

277  L.  Delisle  (18891  32.  40  e  segs.,  58;  B.  Lyon  et  al.  (1967)  41:  J.  Piquet  (1939)  181-183. 

278  J.  Piquei  (1939)  224. 

270  M.  Riu  1 1979)  137. 

No  entanto,  A.  P.  Usher  (1932-1934)  405  prev  ine  que  não  existem  provas  de  que  os  Templários 
se  tivessem  encarregado  da  conta  corrente  do  rei  dc  Aragão. 

28(1  L.  Delisle  (1889)  37;  E.  Ferris  (1902-1903)  4-6;  J.  Piquet  ( 1939)  227  e  segs.,  239. 

381  Ver  no  capítulo  6  as  nn.  146.  149  e  150. 


Forma  //  cio  dinheiro 


2X4 


poder  impessoal  alterou  o  eixo  do  interesse  dos  soberanos  pelas  instituições  eclesiásti¬ 
cas,  fazendo-os  aproveitar  sobretudo  as  suas  capacidades  bancárias.  Seria  impossível 
manifestar  de  maneira  mais  explícita  o  papel  do  crédito  no  aparecimento  dos  novos 
modelos  de  gestão. 

Em  seguida,  as  administrações  dos  maiores  senhores  e  dos  soberanos  autonomiza¬ 
ram-se  institucionalmente  dos  estabelecimentos  bancários.  Nos  territórios  directamente 
decorrentes  da  coroa  francesa,  já  durante  o  reinado  que  ocupou  as  duas  últimas  décadas 
do  século  XII  e  as  duas  primeiras  do  século  seguinte,  os  serviços  administrativos  incluí¬ 
dos  na  corte  do  rei,  apesar  de  terem  começado  a  usar  de  maneira  sistemática  a  compe¬ 
tência  financeira  da  Ordem  dos  Templários,  inauguraram  uma  caixa  própria,  distinta  do 
tesouro  depositado  na  Ordem282.  E  o  monarca  que  subiu  ao  trono  em  França  cem  anos 
depois  esforçou-se,  com  um  êxito  muito  acima  do  previsível,  por  cercear  a  importância 
dos  Templários.  Mandou  instalar  o  tesouro  no  seu  principal  palácio,  entregando-o  à 
gestão  directa  de  agentes  da  coroa,  mas  foi  uma  situação  que  durou  poucos  anos  e  em 
breve  os  cofres  reais  voltaram  à  guarda  dos  Templários283.  A  partir  de  então,  porém, 
parece  que  o  rei  nomeou  vários  funcionários  laicos,  que  gozavam  da  sua  confiança, 
para  coadjuvarem  o  tesoureiro  da  Ordem  enquanto  ele  lhe  administrava  as  finanças284. 
Quatro  anos  depois,  em  1307,  como  é  bem  sabido,  este  monarca  exterminou  a  Ordem 
dos  Templários,  e  com  tal  demonstração  de  autoridade,  brusca  e  sanguinária,  criou  as 
condições  para  que  a  coroa  desenvolvesse  uma  burocracia  financeira  própria,  sem  a 
tutela  de  quaisquer  instituições  exteriores285.  O  eixo  desta  progressiva  autonomização 
consistiu  precisamente  na  difusão  dos  impostos  e  na  redução  da  importância  relativa 
dos  recursos  extraídos  do  conjunto  senhorial  do  monarca,  consoante  um  processo  que 
analisei  já  neste  capítulo.  À  medida  que  se  foi  tomando  mais  clara  a  demarcação  entre 
ambas  as  fontes  de  rendimento,  e  que  começou  a  haver  uma  base  prática  para  se  distin¬ 
guir  ideologicamente  a  fortuna  pessoal  do  soberano  e  a  autoridade  impessoal  da  coroa, 
cada  um  destes  aspectos  passou  a  ser  orientado  de  maneiras  específicas  e  graças  a 
corpos  diferentes  de  funcionários. 

Na  Normandia,  onde  a  veiculação  monetária  das  relações  sociais  foi  muito  pre¬ 
coce286,  desde  cedo,  antes  já  do  último  terço  do  século  XI,  que  a  cobrança  dos  rendi¬ 
mentos  provenientes  do  conjunto  senhorial  do  duque  era  organizada  separadamente  da 
administração  dos  rendimentos  extraordinários287.  Muito  perto,  porém,  nos  territórios 
decorrentes  da  coroa  francesa,  no  princípio  do  século  XII  eram  os  mesmos  vocábulos  a 
designar  tanto  a  elite  dos  fiéis  guerreiros,  a  quem  cabia  guardar  o  monarca  e  o  seu 
tesouro,  como  os  agentes  encarregados  de  gerir  os  rendimentos  reais,  todos  eles  inte¬ 
grando  a  mesma  instituição  e  devendo  ao  soberano  conselhos  e  orientações  quanto  à 


282  B.  Lyon  et  al.  (1967  )  42;  J.  Piquet  ( 1939  )  1 82. 

231  J.  Piquet  (1939)  36-37,  184.  185. 

L.  Delisle  (1889)  58  considera,  porém,  que  os  cofres  instalados  no  Louvre  constituíam  um 
segundo  tesouro. 

3,44  Id.,  ibid.,  58;  J.  Piquei  ( 1939)  187. 

385  J.  R.  Strayer  ( 1969-1970)  1 16  e  segs. 
m  L.  Musset  1 1959)  285-288. 

287  B.  Lvon  et  al.  (1967)  41. 42:  A.  Verhuist  (1966  b)  31. 


Da  vassalidade  pessoal  à  domesticidade  impessoal 


2X5 


política  a  $eguir2ss.  Não  há  dúvida  que.  em  tal  situação,  deveriam  estar  completamente 
confundidas  fontes  de  receitas  que  hoje  mostramos  relutância  em  identificar.  E  quando 
nos  chega  notícia  de  que  no  final  desse  século  e  no  começo  do  século  XIII  as  finanças 
régias  eram  administradas  por  dois  órgãos  diferentes,  continuamos  ainda  sem  saber  em 
que  medida  esta  distinção  institucional  correspondia  a  uma  divisão  quanto  à  natureza 
das  receitas289.  Talvez  tivesse  sido  um  pouco  mais  precoce  a  evolução  a  sul  dos  Pire¬ 
néus.  pois  desde  a  segunda  metade  do  século  XIII  assinala-se  no  reino  de  Portugal  a 
tendência,  embora  ainda  incipiente,  para  separar  as  funções  da  administração  pública 
das  funções  próprias  da  domesticidade  do  monarca290. 

Em  Inglaterra  as  transformações  sofridas  pela  administração  governamental  foram 
estudadas  com  detalhe.  Originariamente  aquele  tipo  de  rendimentos  que  depois  se  con¬ 
siderou  típico  da  coroa  permanecia  indiferenciado  dos  bens  próprios  do  monarca,  mas 
o  declínio  relativo  dos  proventos  regulares  do  conjunto  senhorial  e  o  montante  cada  vez 
mais  significativo  das  receitas  e  despesas  pecuniárias  de  carácter  extraordinário  inspira¬ 
ram  uma  série  de  reformas,  levando  a  que  instituições  distintas  se  encarregassem  prefe¬ 
rencialmente  da  gestão  e  da  contabilidade  de  cada  uma  dessas  áreas.  A  medida  que 
ocorria  a  separação  de  funções,  também  os  métodos  de  actuação  se  tomaram  diferentes, 
de  maneira  que  existia  um  tesouro  itinerante,  necessário  às  despesas  de  um  governo 
pessoal,  exercido  pela  intervenção  directa  do  monarca  em  cada  lugar,  e  um  tesouro 
fixo,  que  satisfazia  os  gastos  de  um  governo  impessoal,  capaz  de  agir  à  distância  atra¬ 
vés  do  uso  da  escrita  e  do  emprego  regular  de  funcionários  especializados.  Foi  um  pro¬ 
cesso  gradual  e  durante  bastante  tempo  manteve-se  uma  considerável  margem  de  inde¬ 
finição,  embora  por  fim  as  instituições  demarcassem  claramente  os  seus  âmbitos  e  entre 
elas  passasse  a  existir  uma  verdadeira  hierarquia,  correspondente  à  importância  relativa 
das  fontes  de  rendimentos  que  administravam  e  à  hegemonia  detida  pelo  poder  impes¬ 
soal  sobre  o  poder  pessoal.  No  primeiro  terço  do  século  XII  a  supervisão  central  do 
tesouro  fixo,  decorrente  de  uma  esfera  que  hoje  tenderíamos  a  considerar  pública,  foi 
atribuída  a  um  corpo  de  funcionários  especializados,  que  se  repartiam  por  uma  câmara 
alta.  desempenhando  as  funções  de  tribunal  de  contas,  e  uma  câmara  baixa,  composta 
por  uma  tesouraria  fixa  e  por  vários  serviços  técnicos,  nomeadamente  a  contabilidade. 
Tratava-se,  como  vemos,  de  uma  instituição  integrada,  e  completa  nos  seus  vários 
aspectos,  que  dispunha  mesmo  da  autoridade  pública  necessária  para  resolver  judicia- 


288  E.  Boumazel  (19751  108-109.  149-151,  169;  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  277-279.  285-286. 

289  A.  Verhulst  ( 1 966  b)  3 1 . 

No  entanto,  E.  Boumazel  ( 1975)  169  pretende  que  na  segunda  metade  do  século  Xll  começou  a 
progredir  muito  gradualmente  em  França  a  distinção  entre  os  serviços  do  palácio  e  os  do  reino.  Por 
seu  lado,  R.  S.  Lopez  (1965)  239  afirma  que  no  reinado  que  ocupou  as  duas  últimas  décadas  do 
século  XII  e  as  duas  primeiras  do  século  seguinte  se  formaram  conselhos  técnicos  no  seio  do  conselho 
do  rei,  o  que  tena  constituído  a  génese  dos  futuros  ministérios.  Mas  a  identidade  destes  conselhos  téc¬ 
nicos  não  seria  decerto  muito  vincada,  pois  o  mesmo  historiador  adverte  (p.  330)  que  só  a  partir  do 
teimo  do  século  XIII  ou  do  início  do  século  seguinte  surgiram  comissões  especializadas  no  interior 
dos  dois  conselhos  reais. 

290  H.  G.  Barros  (1945-1954)  111  221.  Ver  igualmenie:  J.  Mattoso  [1994  b)  275;  A.  Sousa  |1994] 


515. 


286 


Forma  II  do  dinheiro 


riamente  pendências  de  carácter  fiscal  e  financeiro.  Mais  tarde,  a  partir  do  termo  do  pri¬ 
meiro  terço  do  século  XIII,  este  corpo  de  funcionários  ocupou  o  lugar  central,  obteve  a 
hegemonia  sobre  o  órgão  encarregado  do  tesouro  privado  do  rei  e  conseguiu  até  interfe¬ 
rir  noutras  instâncias  governativas.  Afinal,  assim  como  o  poder  pessoal  foi  assimilado 
pelo  poder  impessoal,  que  o  inseriu  nas  suas  ordens  inferiores,  também  o  órgão  encar¬ 
regado  do  tesouro  móvel  privado  acabou  por  funcionar  como  um  verdadeiro  departa¬ 
mento  sujeito  ao  tesouro  central.  Podia  suceder  que  as  guerras  em  Gales  ou  no  conti¬ 
nente.  obrigando  à  realização  de  avultadas  despesas  longe  da  capital  do  governo,  fizes¬ 
sem  com  que  a  parte  mais  considerável  dos  rendimentos  da  coroa  fosse  despendida 
durante  algum  tempo  pelo  tesouro  móvel,  mas  isto  ocorria  já  num  sistema  institucional 
inteiramente  enquadrado  e  desenvolvido  pelo  tesouro  central291. 

Os  acontecimentos  revelaram-se  igualmente  elucidativos  na  Flandres.  Aí.  desde 
o  final  do  século  XI.  o  chanceler,  o  agente  do  conde  a  quem  cabia  superintender  a 
cobrança  dos  rendimentos  fixos  e  regulares  derivados  do  conjunto  senhorial  do  sobe¬ 
rano,  foi  pouco  a  pouco  passando  para  um  plano  secundário,  enquanto  ascendia  o 
camareiro,  um  funcionário  cujas  competências  se  centravam  na  organização  das  recei¬ 
tas  e  das  despesas  pecuniárias,  e  que  gradualmente  ampliou  o  escopo  da  sua  interven¬ 
ção.  Este  processo  reproduziu-se  em  seguida,  desde  o  fim  do  século  XII  e  ao  longo  do 
século  XIII,  de  maneira  que  um  funcionário,  inicialmente  sob  as  ordens  do  camareiro,  e 
que  se  encarregara  das  operações  de  caixa  e  de  um  novo  serviço  de  contabilidade,  rele¬ 
gou  para  a  gestão  das  despesas  privadas  da  corte  a  instituição  que  antes  o  superinten¬ 
dera  e  acabou  por  assumir  a  direcção  de  todos  os  serviços  financeiros  do  soberano. 
Mas,  apesar  de  a  administração  do  condado  sofrer  a  nível  central  uma  evolução  tão  vin- 
cadamente  impessoal  e  burocratizante.  na  esfera  local  a  responsabilidade  pela  cobrança 
das  exacções  decorrentes  do  conjunto  senhorial  do  conde  foi  atribuída  a  aristocratas, 
em  termos  de  concessão  vassálica292.  Aliás,  uma  dicotomia  comparável  encontrava-se 
até  ao  início  do  século  XIII  na  Nonnandia  e  nos  territórios  colocados  directamente  sob 
a  coroa  de  França,  enquanto  a  cobrança  local  dos  rendimentos  do  soberano  não  foi 
entregue  à  supervisão  de  funcionários  especializados293.  Estavam  criadas  assim  as 
bases  sociais  que  haveriam  de  justificar  a  existência  de  uma  burocracia  pública,  por 
oposição  aos  agentes  estritamente  privados. 

A  separação  da  esfera  pública  e  da  esfera  privada,  sem  a  qual  não  se  desenvolveria  o 
Estado  moderno,  teve  a  sua  génese  neste  periodo,  embora  a  evolução  estivesse  ainda 


291  A  respeito  das  transformações  internas  operadas  na  administração  financeira  dos  reis  de  Ingla¬ 
terra  ver:  J.  Boussard  (1958)  475,  478-480,  484-485;  G.  L.  Harriss  (1975)  187-217;  R.  S.  Lopez 
(1965)  243;  B.  Lyon  et  al.  (1967)  55-56,  58.  60-62,  68-69.  80-81. 

M.  Prestwich  (1972)  50,  151-152  e  155-156  pretende  que  no  último  quanel  do  século  XIII  e 
durante  a  primeira  década  do  século  seguinte,  enquanto  reinou  Eduardo  I.  o  wardrohe  ocupou  o  pri¬ 
meiro  lugar  na  administração  das  finanças.  Todavia,  G.  L.  Harriss  (1975)  201-207  e  213  mostra  que 
mesmo  nessa  altura  a  supremacia  institucional  continuara  a  caber  ao  exchequer.  Acerca  desta  questão 
ver,  acessoriamente.  R.  H.  Bowers  (1983)  60. 

292  Acerca  das  transformações  internas  sofridas  pela  administração  dos  condes  da  Flandres  ver:  B. 
Lyon  et  al.  (1967)  15-19.  25-26.  37,42.  55-56,  60-61;  A  Verhulst  ( 1966  b)  31-32. 

292  B.  Lyon  et  al.  ( 1967)  43;  A.  Verhulst  ( 1966  b)  33. 


Da  vassalidade  pessoa!  à  domesticidade  impessoal 


287 


numa  fase  contraditória  e  bastante  embrionária.  Por  um  lado.  se  tomarmos  como  campo 
de  análise  a  França  na  segunda  metade  do  século  XIV,  verificamos  que  os  funcionários 
governamentais  praticavam  a  cooptação  e  começavam,  por  conseguinte,  a  assumir  uma 
estrutura  interna  de  feição  burocrática,  que  iria  mais  tarde  fornecer  uma  base  sólida  ao 
absolutismo  monárquico294.  Por  outro  lado.  todavia,  sabe-se  que  numerosos  altos  fun¬ 
cionários  que  participavam  na  administração  central  das  finanças  régias  se  mantinham 
na  clientela  de  grandes  senhores,  a  quem  haviam  previamente  servido  e  cujos  interesses 
económicos  continuavam  a  defender  nas  posições  de  autoridade  para  onde  haviam  sido 
transferidos293.  Se  limitássemos  o  estudo  ao  final  deste  período,  ignorando  os  aconteci¬ 
mentos  posteriores,  seria  impossível  decidir  em  que  medida  se  estava  a  gerar  um  novo 
poder  de  Estado,  centralizado  e  burocrático,  ou  a  dar  um  novo  fôlego  às  antigas  hierar¬ 
quias.  Os  métodos  de  gestão  públicos  e  os  privados  confundiam-se  por  vezes  a  um 
ponto  tal  que,  por  exemplo,  os  funcionários  da  coroa  continuavam  a  reproduzir  o 
modelo  de  actuação  e  até  o  tipo  de  operações  daquelas  instituições  religiosas  que  antes 
se  haviam  responsabilizado  pelas  finanças  do  soberano.  Uma  vez  mais,  o  caso  francês  é 
típico,  pois  o  rei  que  foi  progressivamente  reduzindo  o  escopo  de  actuação  dos  Templᬠ
rios  e  que  transferiu  durante  alguns  anos  o  tesouro  para  o  seu  palácio  manteve  exacta- 
mente  a  mesma  organização  bancária  adoptada  pela  Ordem296.  Finalmente,  quando  este 
monarca  acabou  por  liquidar  a  Ordem,  conservou  as  estruturas  de  administração  da 
tesouraria  que  haviam  sido  usadas  pelos  monges  guerreiros297.  Só  já  em  pleno  século 


294  R.  Cazelles  i 1982)  548  pretende  que  a  cooptação  praticada  entre  os  funcionários  governamen¬ 
tais  limitava  sensivelmente  a  autoridade  que  o  rei  podia  exercer  sobre  tais  órgãos.  Mas  esta  é  precisa¬ 
mente  a  característica  das  burocracias,  e  o  poder  de  Estado,  anónimo  e  impessoal,  em  nada  se  con¬ 
funde  com  a  intervenção  mais  ou  menos  discricionária  que  notabiliza  o  poder  pessoal.  Aliás,  é  inte¬ 
ressante  neste  contexto  a  observação  de  M.  Bloch  (1928  c)  69-70,  ao  escrever  que  os  funcionários 
assalariados  eram  mais  dóceis  do  que  os  antigos  agentes  senhoriais,  pois  estes,  sendo  remunerados  em 
senhorias,  podiam  ascender  à  classe  dominante.  Apercebemo-nos  muito  claramente  desta  dialéctica 
ao  seguirmos  a  evolução  do  colégio  cardinalício  a  partir  de  meados  do  século  XI.  tal  como  é  descrita 
por  P.  Toubert  (1973  b)  1044-1051.  Para  se  emanciparem  do  ascendente  exercido  pela  aristocracia 
romana,  os  papas  recrutaram  os  cardeais  predominantemente  entre  a  boa  nobreza  rural  do  Latium  e, 
dispensando-os  a  partir  de  certo  momento  das  funções  litúrgicas,  converteram  o  colégio  cardinalício 
num  órgão  exclusivamente  político  e  administrativo,  encarregado  do  governo  central.  Em  tomo  deste 
colégio  foi-se  desenvolvendo  uni  conjunto  de  instituições  financeiras  e  administrativas  de  carácter 
especializado,  cujos  profissionais  eram  iguatmente  escolhidos  entre  a  nobreza  rural  da  região.  Como 
desde  o  segundo  quartel  do  século  XII  estas  funções  acessórias  começaram  a  permitir  a  ascensão  até  à 
púrpura  cardinalícia,  e  desde  a  segunda  metade  desse  século  esta  via  de  promoção  passou  a  ter  o  trono 
papal  como  objectivo  supremo,  posso  deduzir  que  o  mesmo  processo  de  cooptação  e  de  burocratiza- 
ção  que  reforçou  a  autonomia  do  sumo  pontífice  relativamente  à  aristocracia  romana  reduziu,  por 
outro  lado.  a  sua  capacidade  de  resistência  às  pressões  internas  da  burocracia.  Mas  esta  é  a  ambigui¬ 
dade  de  todos  os  Estados  despóticos. 

295  M.  Rey  ( 1965  a)  115,  116,  118-122. 

296  J.  Piquet  (1939)  185. 

Note-se  que  L.  Delisle  (1889)  58  e  segs..  para  quem  esta  medida  teria  correspondido  à  criação  de 
um  segundo  tesouro,  directamenle  sujeito  à  administração  régia,  admite  como  provável  a  hipótese  de 
que  não  houvesse  ocorrido  uma  divisão  clara  de  funções  entre  ambos  os  órgãos  financeiros.  Em  qual¬ 
quer  caso,  confirma-se  que  a  autonomização  institucional  não  implicava  por  si  só  uma  independência 
nas  formas  de  gestão. 

297  L.  Delisle  ( 1889)  61. 90-92:  J.  Piquet  ( 1939)  187.  230. 


Forma  //  do  dinheiro 


2HH 


XV  as  finanças  centrais  do  reino  de  França  assumiram  mais  visivelmente  urn  certo 
carácter  de  administração  pública298.  Ao  mesmo  tempo,  porém,  desde  o  século  XIII.  e 
não  só  no  norte  do  continente  como  em  regiões  do  sul,  por  exemplo  na  Provença,  fun¬ 
cionários  de  novo  tipo.  alheios  ao  sistema  vassálico  e  capazes  de  se  encarregar  das 
questões  financeiras,  sobretudo  no  que  dizia  respeito  aos  rendimentos  extraordinários, 
foram  estendendo  o  âmbito  da  sua  supervisão  às  circunscrições  locais,  o  que  contribuiu 
fortemente  para  marginalizar  os  agentes  de  tipo  tradicional299.  A  partir  do  século  XIV  o 
aparelho  político  moderno  já  não  se  limitava  aos  centros  de  poder  e  o  Estado  começava 
a  dispor  de  uma  implantação  local  própria,  instítuindo-se  uma  distinção  clara  entre  os 
órgãos  administrativos  dos  soberanos  e  os  agentes  encarregados  da  gestão  dos  interes¬ 
ses  privados.  Encontramos  uma  boa  ilustração  deste  tipo  de  situações  na  Boémia, 
durante  o  longo  reinado  que  ocupou  o  último  terço  do  século  XIV  e  as  duas  primeiras 
décadas  do  século  XV,  quando  o  aparelho  administrativo  e  judiciário  que  servia  toda  a 
aristocracia,  e  para  o  qual  o  monarca  era  apenas  um  senhor  entre  os  demais,  passou  a 
distinguir-se  do  aparelho  exclusivo  da  coroa,  sobre  o  qual  o  rei  detinha  uma  autoridade 
absoluta200 

A  formação  tradicional  revelou-se  inteiramente  inadequada  para  assegurar  aos  letra¬ 
dos,  aos  juristas,  aos  contabilistas  a  gama  de  aptidões  de  que  eles  necessitavam.  Nos 
territórios  directamente  sujeitos  à  coroa  de  França,  no  começo  do  período,  quando  não 
se  havia  ainda  operado  a  distinção  entre  o  conjunto  senhorial  do  rei,  enquanto  fortuna 
privada,  e  os  rendimentos  da  monarquia,  enquanto  finanças  públicas,  os  lugares  da 
administração  central  eram  preenchidos  pelos  clérigos  da  capela  real301.  Também  na 
Flandres,  e  nas  mesmas  circunstâncias,  na  época  em  que  a  noção  de  finanças  públicas 
se  mantinha  diluída  nos  rendimentos  privados  do  soberano,  os  membros  dos  órgãos 
administrativos  condais  eram  todos  eles  eclesiásticos,  e  para  facilitar  o  seu  recruta¬ 
mento  os  condes  estabeleceram  congregações  religiosas  junto  às  suas  residências  prin¬ 
cipais302.  Este  sistema  foi  muito  comum  na  Borgonha.  e  bom  número  de  castelãos  fun¬ 
dou  capelas  onde  pequenas  congregações  de  clérigos,  além  dos  seus  deveres  litúrgicos. 
desempenhavam  funções  administrativas303.  Mas  funcionários  deste  tipo  eram  incapa¬ 
zes  de  actuar  numa  ordem  jurídica  em  que  a  esfera  pública  começava  a  destacar-se  cla¬ 
ramente  da  esfera  privada  e  em  que  a  crescente  circulação  monetária  veiculava  o  carác¬ 
ter  impessoal  das  relações.  Tomou-se  necessário  então  criar  instituições  onde  o  ensino 
não  se  confundisse  com  a  preparação  do  clero. 

O  movimento  de  fundação  de  universidades  iniciou-se  no  final  do  século  XI  em 
Bolonha,  com  o  renascimento  do  estudo  do  direito  escrito304,  e  no  princípio  do  século 


29*  J.  Piquet  ( 1939)  230. 

299  E.  Baratier  (org.  1969)  157:  R.  S.  Lopez  (1965)  239.  330;  B.  Lyon  et  al.  (19671  44;  A. 
Verhufst  ( 1966  b>  34-36. 

500  J.  M.  Klassen  (1978)  48-49. 

301  W.  M.  Newman  (1929)  58-60,  62. 

302  J.  Dhondt(1944)63. 

303  J.  Richard  (org.  1978.)  151. 

3U4  M.  Bloch  ( 1939-1940)  1  184  e  segs. 

Estudando  o  meio  rural  inglês.  P.  Coss  (1991)  317  observa  que  muito  antes  de  se  ter  difundido  a 


Da  vassalidade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


289 


XIII  a  universidade  bolonhesa  começou  a  encarregar-se  também  da  formação  acadé¬ 
mica  dos  notários305.  Nas  Espanhas  as  exigências  da  centralização  governamental  e  a 
criação  de  corpos  de  funcionários  especializados,  que  se  observam  já  no  século  XII  e 
mais  ainda  ao  longo  do  século  seguinte,  levaram  à  reformulação  das  noções  jurídicas. 
Primeiro,  e  se  tomarmos  como  exemplo  o  reino  de  Portugal,  os  monarcas  recrutaram 
homens  de  leis  diplomados  em  Bolonha;  mas  depois  desenvolveu-se  localmente  a  nova 
docência  do  direito,  criando-se  várias  universidades’06.  Nas  escolas  de  Paris,  porém,  só 
tardiamente,  ao  encerrar-se  o  terceiro  quartel  do  século  XII,  se  encontram  os  primeiros 
indícios  de  ensino  jurídico307,  e  no  sul  da  França  foi  necessário  aguardar  o  termo  do 
período  para  que  afluíssem  estudantes  a  Bolonha  e  se  iniciasse  o  surto  de  fundação  das 
universidades  locais308.  Entretanto,  com  o  aparecimento  de  uma  universidade  em 
Nápoles3'19  no  final  do  primeiro  quartel  do  século  XIII,  a  Itália  meridional  conseguira  já 
ultrapassar  o  exclusivo  detido  pelo  norte  da  península  sobre  os  estudos  de  direito.  Por 
outro  lado,  a  universidade  napolitana  decerto  permitiu  que  os  funcionários  da  corte 
superassem  o  peso  das  influências  bizantina  e  islâmica310  e  se  inserissem  plenamente 
num  regime  senhorial  de  tipo  impessoal.  Talvez  o  facto  de  o  sul  da  Itália  incorporar 
uma  convergência  tão  complexa  de  tradições  governativas  tivesse  levado  o  mesmo 
soberano  a  quem  se  deveu  a  criação  da  universidade  a  promulgar,  no  início  da  quarta 
década  do  século  XIII.  uma  recolha  sistemática  das  leis  vigentes  no  reino311.  De  então 
em  diante,  a  elaboração  de  códigos  nunca  deixou  de  estar  estreitamente  associada  ao 
desenvolvimento  das  instituições  universitárias,  e  sem  ambos  estes  processos  teria  sido 
impossível  às  monarquias  treinar  um  funcionalismo  especializado  e  mantê-lo  actuante. 
Não  se  julgue,  porém,  que  a  remodelação  do  conteúdo  e  dos  objectivos  do  ensino  supu¬ 
sesse  qualquer  irrupção  de  uma  mentalidade  laica  na  vida  intelectual312,  já  que  um  dos 


presença  de  verdadeiros  juristas  profissionais  havia  algumas  pessoas  a  aparecer  repetidamente 
enquanto  representantes  legais  de  outras.  E  este  autor  conclui  que  o  processo  de  profissionalização 
dos  homens  de  leis  ocorreu  gradualmente. 

305  G.  Orlandelli  ( 1965)  329  e  segs. 

306  M.-C.  Gerbet  (1994)  74,  86;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  99-104:  J.  Mattoso  {1994  b|  155. 
276. 

307  para  justificarem  o  atraso  com  que  o  direito  romano  se  difundiu  nos  territórios  direetamente 
decorrentes  da  coroa  francesa,  J.-P.  Poly  et  al.  <  1980)  306-307  invocam  a  rivalidade  que  opunha  o  rei 
de  França  ao  imperador  germânico,  o  qual  era  protector  da  escola  de  Bolonha.  Todavia,  uma  disputa 
entre  as  duas  coroas  parece-me  que  deveria  sobretudo  estimular  o  rei  de  França  a  criar  os  seus  pró¬ 
prios  centros  de  ensino  jurídico.  A  explicação  só  pode  residir  no  atraso  com  que  se  desenvolveram  as 
instituições  administrativas  francesas. 

3W  A.  Gouron  (1969)  55 

É  interessante  considerar  que  Carlos  de  Anjou.  irmão  do  rei  de  França,  enquanto  foi  conde  da 
Provença.  desde  1246  até  á  sua  morte  em  1285.  recorreu  sistematicamente  ao  serviço  de  juristas  ita¬ 
lianos,  como  indica  N.  Coulet  <  1984)  494495,  e  fê-lo  muito  antes  de  ter  obtido  o  trono  de  Nápoles. 

309  J.  M.  Powellt  1962)  476. 

3111  As  tradições  bizantina  e  islâmica  vigentes  na  Sicília  conjugaram-se,  a  partir  da  conquista  nor- 
manda,  com  as  instituições  do  regime  senhorial,  como  observa  R.  S.  Lopez  (1965)  248. 

311  J.  M.PowelM  1962)  476.' 

312  Talvez  P.  Desportes  (1979)  625  insista  demasiado  no  carácter  laico  da  nova  justiça,  por  oposi¬ 
ção  aos  antigos  tribunais  religiosos.  Deve.  no  entanto,  levar-se  em  conta  a  observação  de  J.  Mattoso 


290 


Forma  U  do  dinheiro 


aspectos  da  reforma  religiosa  consistiu  na  promoção  dos  cursos  universitários.  Como 
jamais  deixou  de  suceder  ao  longo  destes  séculos,  a  vertente  laica  e  a  vertente  eclesiás¬ 
tica  permaneceram  indissociáveis.  Aliás,  pelo  menos  nas  cidades  da  França  meridional, 
no  termo  do  período,  era  comum  que  os  doutores  em  leis  recebessem  benefícios  da 
Igreja  e  o  direito  de  cobrar  rendas  eclesiásticas31-'.  E  na  Inglaterra  do  século  XIII  a 
maior  parte  dos  funcionários  da  coroa  era  composta  por  clérigos,  tendo  na  sua  maioria 
recebido  ordens  menores314.  A  tradição  universitária  radica-se,  portanto,  no  aspecto 
crucial  das  relações  entre  classes,  a  gestão  do  processo  de  exploração,  e  secundaria¬ 
mente  na  manipulação  dos  jogos  de  poder  no  interior  da  aristocracia.  Como  sempre,  a 
organização  interna  da  classe  dominante  dependia  da  forma  como  ela  se  articulava  com 
a  classe  explorada. 

No  contexto  geral  de  monetarização  das  relações  sociais,  e  já  que  eles  estavam 
situados  precisamente  no  ponto  mais  importante  destas  relações,  compreende-se  que  os 
novos  agentes  senhoriais  e  os  novos  funcionários  dos  soberanos  e  dos  governos  urba¬ 
nos  fossem  pagos  em  numerário315.  O  conselho  prestado  gratuitamente  ao  senhor  supe¬ 
rior,  que  constituíra  um  dos  deveres  tradicionais  do  vassalo,  caiu  em  desuso,  e  foi  gra¬ 
ças  à  cobrança  de  taxas  e  impostos  que  os  soberanos  começaram  a  estipendiar  funcio¬ 
nários  administrativos.  Tratou-se  de  um  processo  idêntico  ao  que  levou  à  substituição 
do  serviço  guerreiro  pelo  assalariamento  de  mercenários316.  Assim,  a  nova  burocracia 
incipiente  constituída  por  letrados  e  juristas  recebia  com  muita  frequência  uma  forma 
monetária  de  prebenda,  convertendo-se  em  assalariados317.  Noutros  casos  eram-lhe 


[1994  b]  155  a  propósito  do  sucedido  em  Portugal  nos  tinais  do  século  XIII,  quando  a  adopção  da  lín¬ 
gua  vulgar  nos  documentos  oficiais  de  chancelaria,  em  íntima  relação  com  a  criação  da  universidade, 
teria  representado  o  triunfo  dos  funcionários  civis  sobre  os  funcionários  eclesiásticos. 

313  A.  Gouron  (1969)  58. 

Todavia,  nas  cidades  italianas,  a  crer  em  E.  Rossini  <  ] 97 1 )  28,  os  notários  eram  obrigados  a  aban¬ 
donar  a  profissão  se  desejassem  entrar  para  o  clero  ou  receber  benefícios  de  natureza  eclesiástica. 
Veneza  seria  certamente  uma  e.xcepção,  pois  G.  Cracco  {19671  30-31  menciona  a  importância  dos 
eclesiásticos  notários  durante  o  século  XIF. 

314  R.  H.  Bowers  (1983)60. 

Aliás,  este  autor  mostra  (p.  67)  que  a  promoção  ao  episcopado  recompensou  vários  destes  ecle¬ 
siásticos  pelos  serviços  de  administração  financeira  que  haviam  prestado  à  coroa. 

315  G.  A.  Holmes  (1957)  76,  78-79;  L.  K  Little  (1978)  30:  Ch.-E.  Perrin  (1951-1955)  219:  P. 
Spufford  ( 1 984)  369. 

’16  Chamam  a  atenção  para  este  paralelismo:  L.  K.  Little  ( 1978)  30;  J.  O.  Prestwich  (1954)  36;  P. 
Spufford  ( 1984)  369. 

317  Ver  em  geral:  M.  Aurell  i  Cardona  (1986)  152-153;  G.  Cracco  (1967)  309,  317:  D.  Herlihy 
(1967)  233-236;  B.  Z.  Kedar(1976)  74;  R.  S.  Lopez  (1965)  330;  A.  H.  O.  Marques  ( 1964)  160. 

Na  Alsácia  dos  séculos  XI  e  Xll.  H.  Dubled  (1960  a)  437-438  indica  que  a  remuneração  dos  agen¬ 
tes  senhoriais  ou  consistia  na  concessão  de  senhorias  ou  na  atribuição  de  uma  parte  dos  rendimentos 
de  uma  senhoria  ou  de  um  grupo  de  senhorias.  Parece-me  que  esta  segunda  alternativa  representou 
uma  transição  para  a  forma  pecuniária  de  pagamento.  A  crer  em  G.  Duby  (1953)  328-329  e  383-389. 
um  processo  idêntico  foi  percorrido  no  Mâconnais  entre  a  penúltima  década  do  século  X  e  o  final  do 
segundo  terço  do  século  XII.  quando  os  principais  agentes,  que  superintendiam  a  administração  das 
senhorias  impessoais,  além  de  receberem  senhorias,  por  vezes  em  termos  que  se  aproximavam  da 
vassalidade.  eram  também  recompensados  com  parte  dos  rendimentos  decorrentes  dos  direitos  do 
senhor,  e  que  eles  estavam  precisamente  encarregados  de  cobrar.  Em  França,  foi  durante  o  reinado  que 


Da  vassahdade  pessoal  á  domcshndadc  impessoal 


291 


atribuídas  senhorias  pecuniárias'18.  E  quando  o  homem  de  leis  ou  o  notário  oferecia  as 
suas  habilitações  profissionais  ao  público  em  geral,  era  igualmente  pago  em  numerário, 
consoante  o  tipo  de  serviço  executado319.  Num  ciclo  em  que  se  perdem  os  limites  da 
causa  e  do  efeito,  o  volume  crescente  dos  impostos  e  demais  taxas  em  dinheiro  e  a 
remuneração  monetária  de  um  número  cada  vez  maior  de  funcionários  e  de  homens  de 
guerra  foram  processos  que  se  sustentaram  reciprocamente,  caracterizando  a  política 
das  monarquias  a  partir  de  meados  deste  período320. 

Ao  contrário  do  que  sucedia  com  a  prebenda  em  géneros,  que  obrigava  quem  a  rece¬ 
bia  a  coabitar  com  o  chefe  da  família,  ou  pelo  menos  a  partilhar  as  refeições  da  casa.  a 
prebenda  em  dinheiro  permitia  que  os  agentes  e  funcionários  constituíssem  unidades 
familiares  completamente  distintas.  As  mesmas  implicações  caracterizavam  as  senho¬ 
rias  pecuniárias  que,  como  sabemos,  no  quadro  das  relações  vassálicas  contribuíram 
para  renovar  a  noção  de  prebenda.  No  final  desta  época  era  cada  vez  menos  sensível  a 
diferença  entre  um  vassalo  detentor  de  uma  senhoria  pecuniária  e  um  administrador 
que  recebesse  uma  remuneração  regular  em  dinheiro.  Deste  modo,  e  uma  vez  mais, 
vemos  que  a  rigorosa  delimitação  do  perfil  das  unidades  familiares  na  aristocracia,  que 
acompanhava  o  prevalecimento  das  linhagens,  se  tomou  possível  graças  à  circulação 
monetária,  e  ao  mesmo  tempo  estimulou  esta  circulação.  Por  outro  lado,  e  inseparavel¬ 
mente.  os  circuitos  do  dinheiro  permitiram  às  domesticidades  dos  soberanos  e  dos  mag- 


ocupou  os  dois  quartéis  médios  do  século  XIII  que  começou  a  cair  em  desuso  a  atribuição  de  pre¬ 
benda  aos  funcionários  e  eles  passaram  a  obter  uma  remuneração  diária  ou  anual,  escreve  M.  Scza- 
niecki  (1946)  79.  No  conjunto  senhorial  do  bispado  de  Worcester.  nos  meados  do  século  XIII,  quando 
se  desenvolveu  muito  a  exploração  dominiai  directa.  Ch.  Dyer  ( 1980)  64-65  observa  que  os  agentes 
senhoriais  de  categoria  inferior  eram  pagos  com  parte  das  rendas  que  contribuíam  para  cobrar, 
enquanto  os  agentes  de  nível  superior  recebiam  salários  em  dinheiro.  Será  difícil  ilustrar  melhor  a 
proximidade  entre  o  poder  impessoal  e  o  assalariamento. 

?i8  B.  D.  Lyon  < 1954  b)  423.  444. 

A  propósito  da  França  no  século  XIII,  M.  Sczanieckt  ( 1946)  79  observa  que  as  senhorias  pecuniᬠ
rias.  atribuídas  com  muita  frequência  aos  funcionários,  não  se  confundiam  com  o  salário. 

319  Este  processo  foi  analisado  em  Itália  por  E.  Rossini  ( 197 1 )  2 1  -22  e  27-28. 

320  Referindo-se  à  Inglaterra  e  à  França  no  século  XIII,  3.  R.  Strayer  (1977)  269-270  pretende  que 
o  aumento  dos  impostos  e  das  taxas  sobre  o  comércio  levou  ao  acréscimo  dos  rendimentos  do 
governo  central  e.  por  conseguinte,  ao  reforço  da  sua  capacidade  de  intervenção.  Uma  abordagem 
semelhante  é  usada  por  J  M.  Powell  (1962)  476  e  480  a  respeito  do  reino  da  Sicília  na  primeira 
metade  do  século  XIII,  ao  escrever  que  as  necessidades  crescentes  de  dinheiro  sentidas  pela  coroa 
levaram-na  a  agravar  a  carga  fiscal  e  a  ampliar  o  escopo  dos  impostos,  o  que  exigia  um  aumento  do 
número  de  funcionários  encarregados  de  proceder  a  este  tipo  de  operações.  D.  Herlihy  (1967)  238- 
-239.  no  seu  estudo  de  Pistoia,  adopta  a  perspectiva  inversa  e  considera  que  foi  o  acréscimo  do 
número  de  funcionários  governamentais  a  permitir  o  aumento  dos  impostos,  o  que  aliás,  em  seu 
entender,  teria  precipitado  a  economia  para  uni  estado  de  recessão.  Uma  visão  do  mesmo  tipo  encon- 
tra-se  em  R.  Hilton  í  1973  a»  152  a  propósito  da  Inglaterra  no  final  do  período  e  em  G.  A.  Williams 
(1963)  278  e  segs.  a  respeito  da  cidade  de  Londres.  Ainda  acerca  da  relação  entre  o  agravamento  da 
carga  Fiscal  e  o  crescimento  do  número  de  funcionários  governamentais  ver  M.  B.  Becker  (1967- 
-1968)  II  182-184.  Referindo-se  a  Portugal  a  partir  do  último  terço  do  século  XIE,  J.  Mattoso  [1994  b] 
142-143  apresenta  o  ciclo  completo,  afirmando  que  o  desenvolvimento  das  instituições  administrati¬ 
vas,  encarregadas  da  cobrança  das  prestações,  levou  ao  acréscimo  dos  rendimentos  fiscais  da  coroa,  a 
qual  pôde  assim  pagar  um  número  crescente  de  funcionários. 


292 


Forma  II  do  dinheiro 


nates  crescer  desmedidamente,  integrando  unidades  familiares  perfeitamente  diferen¬ 
ciadas  e  bem  definidas  num  quadro  de  família  artificial  com  uma  amplitude  sem  prece¬ 
dentes.  Nesta  dialéctica,  e  apesar  da  demarcação  rígida  que  caracterizava  as  famílias  da 
classe  dominante,  era  o  centralismo  monárquico  que  a  todas  ultrapassava  e  saía  refor¬ 
çado,  marcando  os  grandes  rumos  da  evolução  futura. 


g.  Domesticidade  impessoal 

Suscitada,  em  última  análise,  pelo  desenvolvimento  do  novo  sistema  familiar  na 
classe  senhorial,  e  servindo  de  veículo  à  difusão  das  relações  impessoais,  a  Forma  II 
do  dinheiro  teve,  afinal,  consequências  sociais  aparentemente  contraditórias  com  a  sua 
origem. 

Por  um  lado,  as  senhorias  pecuniárias  assemelhavam-se  a  uma  modalidade  actuali- 
zada  da  velha  prebenda,  renovando  portanto  com  o  vassalo  um  vínculo  de  cariz  domés¬ 
tico.  Por  outro  lado,  a  constituição  gradual  de  exércitos  de  mercenários  fez  com  que  os 
monarcas,  muito  tempo  depois  de  terem  abandonado  as  suas  antigas  hostes  privadas 
para  confiarem  exclusivamente  no  serviço  vassálico,  restabelecessem  um  novo  tipo  de 
guerreiros  domésticos,  embora  num  âmbito  muitíssimo  mais  ampliado.  E  não  se  tratava 
apenas  de  uma  situação  objectiva,  porque  podia  suceder  que  o  carácter  doméstico  da 
relação  fosse  vincado  explicitamente.  Na  Inglaterra,  o  rei  que  na  segunda  metade  do 
século  XII  organizou  pela  primeira  vez  de  maneira  sistemática  e  permanente  o  emprego 
de  mercenários  parece  ter-lhes  atribuído  um  armamento  uniforme321.  A  confirmar-se, 
esta  iniciativa  deixá-los-ia  relativamente  à  coroa  no  mesmo  plano  em  que  mais  tarde 
cada  um  dos  grandes  senhores  veio  a  colocar  todos  aqueles  a  quem  fazia  vestir  com  as 
cores  das  suas  armas,  integrando  numa  nova  modalidade  de  clientela  tanto  vassalos 
como  servidores  da  casa  ou  mesmo  pessoas  que  merainente  lhe  devessem  um  ou  outro 
favor  e  circulassem  na  sua  esfera  de  interesses-’22.  Aliás,  quando  sabemos  que  em 
numerosos  casos  o  senhor  superior  devia  repartir  uma  vez  por  ano,  ou  em  ocasiões 
especiais,  tecidos  e  roupas  entre  os  seus  vassalos32  ’,  verificamos  que  estavam  desde  há 
muito  criadas  as  condições  para  que  se  uniformizassem  fardamentos  e  librés.  E  ao 
observar  que  na  Inglaterra  do  final  do  século  XIV,  ou  talvez  mesmo  já  em  épocas  ante¬ 
riores,  a  libré  podia  ser  substituída  pelo  porte  de  um  emblema  ou  de  qualquer  outro 
símbolo324,  concluo  que  se  desenvolveram  neste  quadro  formas  de  paradinheiro.  desti¬ 
nadas  exclusivamente  a  veicular  de  maneira  simbólica  relações  sociais.  Tanto  assim 
que  ao  longo  desse  mesmo  século  XIV,  na  Inglaterra,  a  concessão  de  terras  aos  vassalos 
foi  sendo  suplantada  pela  distribuição  de  numerário  e  de  tecido  para  librés  ’25.  O  parale¬ 
lismo  é  esclarecedor,  revelando  que  a  conotação  simbólica  atribuída  àquele  tipo  de 


321  J.  Boussard  (1945-1946)  194. 

322  Quanto  ao  uso  de  librés  ver  no  capítulo  6  a  n.  76. 

323  Ph.  Dollinger  <  1949)  298;  F.  L.  Ganshof  <  1968  b)  90. 

324  J.  M.  W.  Bean  (1989)  22.  146. 

325  W.  H.  Dunham  Jr.  (1968)  223. 


Da  vas  sal  idade  pessoal  a  domesticidade  impessoal 


29d 


indumentária  não  era  menor  do  que  a  conferida  à  Forma  II  do  dinheiro326.  Assim,  as 
famílias  mais  poderosas  cercavam-se  de  uma  rede  pecuniária  complexa,  articulando 
tipos  de  dinheiro  modernos  e  arcaicos,  que  permitiam  transpor  para  termos  impessoais 
os  mecanismos  da  domesticidade.  Até  o  crescimento  da  nova  burocracia  de  letrados  e 
juristas,  substituindo  os  grandes  vassalos  no  serviço  de  corte,  parecia  restaurar  a  impor¬ 
tância  da  domesticidade  palatina  ou,  a  um  nível  mais  modesto,  renovar  os  agentes 
senhoriais  no  meio  familiar  dos  magnates. 

Em  suma.  o  desenvolvimento  do  poder  impessoal,  em  vez  de  extinguir  a  domestici¬ 
dade  do  grande  senhor,  e  especialmente  do  soberano,  pelo  contrário,  aumentou-lhe 
enormemente  a  importância,  embora  em  formas  renovadas.  A  corte  de  administradores, 
homens  de  leis,  mercenários,  menestréis  e  restante  criadagem  convertia  numa  verda¬ 
deira  unidade  de  vida  social  a  parte  dos  rendimentos  destinada  a  sustentar  a  domestici¬ 
dade327.  O  dinheiro  não  liquidou  os  vínculos  de  cariz  doméstico,  e  inesperadamente 
serviu  para  lhes  dar  uma  inusitada  amplitude,  transportando-os  para  o  plano,  aparente¬ 
mente  antagónico,  das  relações  impessoais. 

Agora,  toda  aquela  gente  paga  em  numerário  já  não  era  forçada  a  habitar  na  residên¬ 
cia  do  senhor  e  podia  ter  família  própria,  em  casa  à  parte.  A  nova  domesticidade  desen¬ 
volveu-se  como  um  quadro  de  relações  impessoais,  no  centro  da  teia  impessoal  que  se 
estendera  a  toda  a  sociedade.  Era  a  Forma  II  do  dinheiro  que  integrava  esta  pluralidade 
de  domesticidades  menores  na  domesticidade  do  senhor  superior.  A  passagem  do  elo 
pessoal  ao  elo  impessoal  operara-se,  numa  fase  intermédia,  através  da  dissolução  da 
domesticidade,  graças  à  formação  de  uma  classe  sen  il  e  à  organização  vassálica  da 
aristocracia.  Chegou-se  neste  período  a  uma  fase  terminal,  em  que  a  domesticidade, 
num  plano  impessoal,  absorveu  um  grande  número  de  trabalhadores,  convertendo-os 
em  vários  tipos  de  assalariados,  e,  estipendiando  os  membros  da  classe  dominante, 
absorveu-os  também.  Estas  características  aprofundaram-se  e  ampliaram-se  após  o 
encerramento  do  período,  mas  elas  eram  já  claramente  detectáveis  no  século  XIV.  De 
então  em  diante  (  ver  o  capítulo  13.0,  os  quatrocentos  anos  que  o  regime  senhorial  leria 
ainda  de  cumprir  para  chegar  ao  seu  termo  foram  ocupados  pelo  desenvolvimento  e  a 
mundialização  dos  elos  que  renovaram  a  esfera  doméstica  num  âmbito  impessoal.  Não 
foi  outra  coisa  a  política  absolutista  no  quadro  de  uma  economia  mercantilista.  Nesta 
perspectiva,  a  família  artificial  assumiu  no  final  deste  período  uma  importância  maior 
ainda  do  que  aquela  -  e  fora  muito  grande  -  que  lhe  coubera  antes.  E  do  século  XV  até 
ao  século  XVIII  toda  a  vida  social  e  política  pode  ser  analisada  nos  termos  paradoxais 
da  domesticidade  impessoal  artificial. 


32(1  Depois  de  afirmar  que  o  uso  de  libré  era  um  sinal  exterior  de  vinculaçào  a  um  dado  senhor.  G. 
A.  Holmes  ( 1957)  5b  acrescenta  que  outro  vínculo  consistia  em  aceitar  pagamentos  desse  senhor. 

327  Esta  tese,  defendida  por  id.,  ibid.,  58  a  propósito  da  Inglaterra  no  século  XIV,  parece-me  apli¬ 
cável  a  todo  o  regime  senhorial  no  final  do  período 


CAPITULO  8 


CONTEÚDO  DA  FORMA  II  DO  DINHEIRO 


A  circulação  monetária  no  interior  da  classe  senhorial  não  se  deve  confundir  com  a 
circulação  processada  entre  senhores  e  servos,  que  estudámos  na  secção  anterior,  pois 
cada  uma  obedecia  a  condicionantes  muito  diferentes  e  desenvolveram-se  seguindo 
rumos  divergentes.  Esta  discrepância  ficou  marcada  materialmente  nas  próprias  peças. 
Na  Forma  II  do  dinheiro  as  moedas  caracterizavam-se  por  um  apreciável  valor  metᬠ
lico,  e  o  seu  uso  não  podia  senão  estar  restrito  à  classe  dominante1.  Aliás,  sucedia  que 
os  coevos  não  confiassem  apenas  nas  barreiras  económicas,  já  que  a  mobilidade  de  for¬ 
tunas  tomava  indefinidos  alguns  limites  que  as  convenções  sociais  se  esforçavam  por 
manter  vivos,  e  por  isso  os  legisladores  procuraram  por  vezes  proibir  as  pessoas  da 
plebe  de  manusear,  ou  até  de  empregar  como  referência  contabilística.  as  moedas  mais 
valiosas2. 

A  distinção  entre  esferas  do  dinheiro  consoante  os  níveis  sociais  em  que  ele  circu¬ 
lava,  ou  de  acordo  com  o  grau  de  prestígio  atribuído  aos  âmbitos  em  que  era  aplicado, 
não  representa  qualquer  originalidade  do  regime  senhorial.  Não  é  todos  os  dias  que 
um  ficcionista  se  ocupa  de  questões  pecuniárias,  por  isso  vale  a  pena  recordar  Eumes- 
wil,  a  cidade  imaginária  onde  existiam  dois  sistemas  de  circulação  monetária,  baseado 
um  no  ouro  e  destinado  a  adquirir  bens  tangíveis  e  visíveis,  incluindo  o  trabalho 
humano,  e  empregue  o  outro  para  a  aquisição  de  energia,  entendida  enquanto  jogos, 
difusão  de  notícias  e  acção  das  máquinas.  Mas  como  a  diferença  entre  ambos  seria 
fundamentalmente  contabilística  e  um  tipo  de  dinheiro  poderia  converter-se  livre¬ 
mente  no  outro,  esta  utopia  pecuniária  reduz-se  a  uma  metáfora  de  ordem  moral,  em 
que  o  valor  da  moeda  dedicada  ao  trabalho  e  aos  bens  palpáveis  residiria  de  maneira 
estável  e  duradoura  nela  própria  e  teria  a  vocação  do  entesouramento,  enquanto  a 
moeda  que  visava  a  actividade  lúdica  e  a  energia  seria  de  utilização  rápida  e  o  seu 


1  Cada  tipo  de  moeda,  escreve  C.  M.  Cipolla  1 1956)  26  e  34.  tendia  a  circular  em  classes  sociais 
diferentes,  de  maneira  que  as  peças  de  valor  elevado  eram  manuseadas  apenas  pelos  ricos.  Ver  no 
mesmo  sentido  A.  De  Maddalena  ( 1982)  5 1 5. 

-  Em  Florença,  segundo  M.  B.  Becker  (1960  )  44  e  (1967-1968)  í  196,  os  estatutos  do  podestà 
reservavam  aos  mestres  das  principais  corporações  o  emprego  do  florim  de  ouro  enquanto  padrão  de 
valor  nas  transacções  e  o  seu  uso  nos  registos  enquanto  unidade  contabilística.  Consultar  igualmente 
R.  de  Roover  (1968)  305. 


2V6 


Forma  //  do  dinheiro 


valor  dependeria  exclusivamente  da  continuidade  do  funcionamento  das  máquinas  e 
da  prestação  de  serviços7’. 

Como  tantas  vezes  sucede,  a  realidade  histórica  foi  mais  eficaz  do  que  a  imaginação 
de  um  romancista,  e  podemos  observar  a  separação  de  esferas  pecuniárias  num  grande 
número  de  culturas,  especialmente  no  Oceano  Pacífico.  Na  ilha  Tikopia,  situada  no 
arquipélago  das  Ilhas  Salomão,  no  Pacífico  oriental,  o  dinheiro  só  podia  ser  aplicado 
em  bens  que  gozassem  de  um  dado  estatuto,  e  não  em  bens  aos  quais  fosse  atribuída 
uma  categoria  superior  ou  inferior4.  Noutros  casos  circulavam  paralelamente  vários 
tipos  de  dinheiro,  servindo  um  deles  para  os  pagamentos  de  maior  prestígio  e  deixando- 
*se  os  demais  para  as  transacções  correntes.  Foi  esta  a  situação  nas  Novas  Hébridas5,  o 
actual  Vanuatu,  um  arquipélago  a  leste  da  Nova  Caledónia.  Igualmente  na  Ilha  de  Bou- 
gainville.  integrada  no  arquipélago  das  Ilhas  Salomão,  e  na  ilha  Buka,  ao  norte  da  ante¬ 
rior  e  pertencente  ao  mesmo  arquipélago,  havia  dois  tipos  de  dinheiro,  um  dos  quais 
circulava  exclusivamente  de  maneira  cerimonial,  no  pagamento  de  dotes  ou  na  compen¬ 
sação  de  crimes6.  Em  várias  ilhas  do  Arquipélago  de  Bismarck  existia  um  tipo  de 
dinheiro  usado  sobretudo  em  ocasiões  especiais7,  e  na  Nova  Irlanda,  uma  das  ilhas 
desse  arquipélago,  os  melhores  espécimes  do  dinheiro  corrente  destacavam-se  e  eram 
reservados  para  o  pagamento  do  dote  da  noiva8.  Vemos  neste  último  caso  que  mesmo 
onde  aparentemente  não  se  encontrava  mais  de  um  tipo  pecuniário  podiam  definir-se 
diferentes  esferas  de  circulação.  A  vitalidade  de  tais  práticas  confirma-se  quando  obser¬ 
vamos  que  elas  nasciam,  ou  quem  sabe  se  renasciam,  de  maneira  inteiramente  pragmᬠ
tica  e  ocasional.  Assim,  em  Malaita,  por  exemplo,  uma  ilha  do  arquipélago  das  Ilhas 
Salomão,  as  moedas  europeias,  mesmo  que  fossem  de  pouco  valor,  eram  consideradas 
mais  preciosas  do  que  o  dinheiro  autóctone9.  Deparamo-nos  com  circunstâncias  com¬ 
paráveis  na  África,  entre  os  Majita.  que  consideravam  profundamente  desonroso  com¬ 
prar  comida  com  dinheiro  moderno  e  o  remetiam  para  a  aquisição  de  artigos  de  luxo10. 
Aliás,  a  regra  geral  era  que  as  potências  coloniais,  ao  introduzirem  os  seus  próprios  sis¬ 
temas  monetários  nas  regiões  que  colonizavam,  liquidassem  os  sistemas  de  dinheiro 
autóctones  ou  os  relegassem  para  um  plano  subordinado;  neste  caso.  os  sistemas  tradi¬ 
cionais  sobreviviam  nas  pequenas  transacções  entre  os  nativos,  como  sucedeu  na  China 
e  na  índia11.  E  esta  divergência  não  se  deveu  decerto  apenas  ao  colonialismo  europeu, 
já  que  pelo  menos  desde  o  século  Xíl.  e  até  à  primeira  metade  do  século  XX,  em  nume¬ 
rosas  regiões  da  índia  as  moedas  eram  empregues  para  os  pagamentos  mais  avultados  e 
o  dinheiro-conchas  ficava  destinado  aos  pequenos  pagamentos,  cabendo  a  sua  manipu¬ 
lação  sobretudo  às  camadas  sociais  inferiores12.  Uma  situação  idêntica  prevaleceu  na 


E.  Jüngerl  1981  >269-274. 

4  P.  Einzig  <1948)46. 

5  !d..  ibid.,  59,  62. 
h  ld.,  ibid..  68. 

7  Id..  ibid..  87. 

11  ld..  ibid.,  87. 
q  ld..  ibid..  72. 

10  ld.,  ibid..  131.  138. 

11  A.  K.  Bagchi  (1984)  1 16. 

12  A.  H.  Quiggin  (.  1949)  193-194. 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


297 


Itália  meridional  sob  o  domínio  nonmando,  quando  os  conquistadores  continuaram  a 
usar  entre  eles  a  moeda  de  prata  do  seu  país  de  origem,  ao  mesmo  tempo  que  para  a 
população  indígena  procederam  à  cunhagem  do  ouro  segundo  os  moldes  autóctones13. 
Este  tipo  de  casos  leva-me  a  passar  das  clivagens  do  dinheiro  suscitadas  pelo  quadro 
material  em  que  era  empregue  para  as  diferenças  de  carácter  social  geradas  na  sua  cir¬ 
culação. 

Nesta  outra  modalidade  geral,  o  critério  da  distinção  não  residia  no  estatuto  atri¬ 
buído  aos  pagamentos,  mas  na  hierarquia  das  pessoas  que  manuseavam  o  dinheiro, 
ficando  um  ou  mais  dos  tipos  pecuniários,  especialmente  valiosos,  reservados  para  a 
elite.  Era  o  que  se  passava  com  um  tipo  de  dinheiro  na  Nova  Caledónia,  um  arquipé¬ 
lago  do  sudeste  do  Pacífico,  onde  os  nativos  comparavam  estes  artigos  privilegiados  ao 
ouro  na  sociedade  colonizadora14.  Nas  Ilhas  Palau.  situadas  na  extremidade  ocidental 
das  Ilhas  Carolinas,  e  onde  as  clivagens  sociais  eram  muito  pronunciadas,  os  três  tipos 
de  dinheiro  considerados  superiores  só  podiam  ser  empregues  pelos  chefes,  enquanto 
os  tipos  restantes,  além  de  estarem  diferenciados  pelo  poder  aquisitivo,  destinavam-se 
também  a  ser  usados  separadamente  pelos  vários  estratos  da  sociedade.  No  entanto, 
eram  frequentes  os  câmbios,  sustentados  pela  existência  de  uma  unidade  contabilística 
única,  que  inter-relacionava  as  várias  esferas  pecuniárias.  Mas  as  trocas  de  um  tipo  de 
dinheiro  por  outro  eram  muito  onerosas,  e  o  custo  do  câmbio  levava  em  conta  o  esta¬ 
tuto  social  de  cada  uma  das  partes15.  Na  ilha  Rossel.  a  sudeste  da  Papuásia.  no  sudoeste 
do  Oceano  Pacífico,  coexistiam  dois  tipos  de  dinheiro,  num  dos  quais  as  peças  de  valor 
mais  elevado  tendiam  a  permanecer  entre  os  chefes16.  O  sexo  fornecia  outro  critério  de 
separação  das  esferas  pecuniárias  de  acordo  com  as  categorias  sociais.  Na  ilha  Buin, 
por  exemplo,  um  tipo  especial  de  dinheiro,  aliás  mais  valioso,  estava  reservado  às 
mulheres1'.  Também  na  ilha  Rossel  uma  das  características  que  distinguiam  os  dois 
tipos  de  dinheiro  em  circulação  consistia  no  facto  de  um  deles  ser  manipulado  prefe¬ 
rencialmente  pelas  mulheres18. 

No  regime  senhorial,  porém,  as  Formas  I  e  II  do  dinheiro,  que  neste  período  sempre 
se  demarcaram  pela  sua  função  social,  não  estiveram  originariamente  corporal  izadas 
em  peças  distintas.  Só  as  pressões  divergentes  exercidas  por  cada  urna  das  formas 
monetárias  levaram  à  cunhagem  de  tipos  materialmente  diferentes  e,  afinal,  divergentes 
também.  Note-se  que,  se  assim  foi,  mais  difícil  ainda  ficará  a  resolução  do  problema 
que  deixei  em  suspenso  (no  capítulo  2.d),  de  saber  qual  das  duas  formas  de  dinheiro 
teria  dado  o  maior  impulso  inicial  à  busca  de  metais  preciosos.  Mas  analisemos  agora 
os  mecanismos  que  operaram  a  progressiva  separação  entre  os  conteúdos  metálicos  de 
ambas  as  formas  monetárias,  e  que  tiveram  como  elemento  central  as  operações  de 
depreciação. 


IJ  Ph.  Grierson  ( 1976  a)  109. 

14  P.  Einzig  (.1948)  47. 

15  Id„  ibirf..  53-55. 

16  L.  Bane  (1964)  42-43. 

17  P.  Einzig  ( 1948)  68. 

18  L.  Baric  t 1964)  43;  P.  Einzig  ( 1948)  75. 


298 


Forma  //  do  dinheiro 


Recordemos  que  a  Forma  I  do  dinheiro  tinha  de  ser  posta  à  disposição  de  um 
número  cada  vez  maior  de  camponeses,  que  deviam  usá-la  para  finalidades  sempre 
mais  variadas.  Como  vimos  (nos  capítulos  2.d  e  4.a),  dado  o  insuficiente  acréscimo  da 
extracção  de  metais  preciosos,  só  a  depreciação  monetária  podia  multiplicar  a  quanti¬ 
dade  de  peças  em  circulação  de  maneira  a  satisfazer  as  necessidades.  Por  mais  mesqui¬ 
nhos  que  fossem  a  aparência  e  o  conteúdo  de  uma  dada  série  de  moedas,  para  a  classe 
servil  e  para  a  arraia-miúda  elas  recordariam  sempre  o  esplendor  de  quem  as  emitira,  já 
que  a  esmagadora  maioria  desta  população  sobrevivia  ao  nível  da  subsistência,  sem 
possibilidades  de  acumulação  e,  portanto,  sem  poder  aspirar  a  quaisquer  fastos.  No  sis¬ 
tema  de  presentes,  alguém  incapaz,  de  praticar  até  formas  comuns  de  potlatch  estava 
condenado  a  sentir  como  totalmente  avassaladoras  mesmo  as  instâncias  mínimas  de 
poder  a  que  ficasse  submetido.  Além  disso,  e  num  plano  decerto  mais  relevante,  o 
exclusivo  da  emissão  monetária,  que  também  em  peças  de  valor  metálico  ínfimo  cabia 
sempre  a  senhores  ou  instituições  senhoriais,  retirava  a  moeda  do  âmbito  da  iniciativa 
camponesa  e  fazia  dela,  em  quaisquer  circunstâncias,  um  testemunho  da  presença  do 
bannum  senhorial,  permeando  todas  as  modalidades  de  relacionamento. 

A  situação  era  muito  diferente  na  vassalidade,  já  que.  apesar  da  subordinação  do 
vassalo  ao  senhor  superior,  ambos  pertenciam  à  classe  dominante  e  se  posicionavam  no 
mesmo  plano.  Uma  relação  com  estas  características  só  podia  ser  veiculada  por  objec- 
tos  que  ostentassem  uma  conotação  de  prestígio.  Assim,  por  exemplo,  na  França  dos 
séculos  XI  e  Xll,  muito  antes  de  o  ouro  ter  voltado  a  ser  cunhado  regularmente,  nume¬ 
rosos  pagamentos  simbólicos  destinados  a  representar  o  vínculo  de  subordinação  eram 
efectuados  -  ou  pelo  menos  eram  estipulados  e  registados  -  em  moedas  áureas19.  No 
sul  do  reino,  igualmente  durante  o  começo  do  período,  o  ouro  era  por  vezes  empregue 
nos  contactos  entre  magnates,  mas  sobretudo  em  somas  devidas  por  senhores  ao  papa, 
bem  como  em  direitos  cobrados  por  dignitários  eclesiásticos  a  outros  estabelecimentos 
religiosos20.  Nesta  esfera,  em  que  a  autoridade  senhorial  era  relevada  pela  glória  da  fé. 
parecia  então  conveniente  usar  uma  matéria  mais  nobre  do  que  a  prata.  E  até  ao  século 
XIU  os  poderosos  do  Languedoc  preferiram  realizar  em  lingotes  de  prata  os  pagamen¬ 
tos  com  que  selavam  alianças  e  acordos21,  decerto  por  os  considerarem  um  artigo  mais 
ostentatório  do  que  a  mera  moeda,  numa  época  em  que  não  começara  ainda  a  difundir- 
se  a  cunhagem  das  peças  grandes  de  prata.  Também  na  Inglaterra,  no  final  do  século 
Xll  e  durante  a  primeira  metade  do  século  XIII,  se  recorreu  ao  ouro  para  efectuar  paga¬ 
mentos  cerimoniais22. 

Mas  mesmo  nas  relações  correntes  no  interior  da  aristocracia,  quando  elas  podiam 
ser  satisfeitas  pela  circulação  de  peças  argênteas,  e  mais  tarde,  quando  as  emissões 
áureas  voltaram  a  ser  habituais,  era  necessário  que  as  cunhagens  em  que  tomava  corpo 
a  Forma  II  do  dinheiro  mantivessem  um  conteúdo  de  metal  precioso  bastante  elevado22. 


19  A.  Blanchet  ( 1955 i 1  147  e  segs..  E.  Foumial  ( 1970»  76. 

20  M.  Castaing-Sieard  (  1961 )  69-72. 

21  Id..  ibid..  63-66. 

22  P.  D.  A.  Harvey  (1973)28. 

22  Parece-me  inaceitável  a  tese  formulada  por  M  Bloch  (1933  ci  22-23,  25-26.  30-31  e  <1953« 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


299 


De  qualquer  modo,  o  que  irradiava  destas  moedas  era  o  prestígio  em  que  a  classe  domi¬ 
nante  se  via  a  si  própria.  Concebendo  a  Forma  II  do  dinheiro  na  perspectiva  do  relacio¬ 
namento  entre  os  poderosos,  compreendemos  que,  além  de  veicular  as  hierarquias 
senhoriais,  ou  seja.  numa  definição  genérica,  a  vassalidade,  bem  como  a  remuneração 
dos  principais  agentes,  ela  servisse  também  para  processar  as  modalidades  de  troca  de 
presentes  que  se  operavam  entre  aristocratas  num  plano  de  estrita  igualdade.  E  fica 
claro  então  o  motivo  por  que  certo  tipo  de  documentação  generalizado  na  França  meri¬ 
dional  e  na  Catalunha  podia  registar  situações  indubitavelmente  vassálicas  a  par  de 
outras  onde  não  existia  hierarquia24.  A  Forma  II  do  dinheiro  permitia  ambos  os  casos  e, 
como  tantas  vezes  acontece,  o  veículo  acabou  por  fornecer  o  modelo  conceptual  em 
que  se  analisaram  os  conteúdos.  Esta  forma  do  dinheiro  serviu  também  de  agente  à 
evolução  das  relações  no  interior  do  quadro  familiar  da  classe  dominante25.  Do  mesmo 
modo,  foi  a  Forma  II  do  dinheiro  que  operou  naquele  tipo  de  transacções  que  muitos 
historiadores  erradamente  classificam  como  mercado  fundiário.  No  regime  senhorial  a 
terra  tinha  um  estatuto  especial,  valendo  apenas  enquanto  lugar  do  trabalho  da  classe 
servil,  e  a  aquisição  de  campos  de  cultura  ou  de  espaços  incultos  representava,  acima 
de  tudo,  uma  possibilidade  de  exercer  o  bannum,  com  as  implicações  inerentes.  Um 
plebeu  que  enriquecesse  graças  a  especulações  mercantis  não  podia  contar  apenas  com 
a  sua  fortuna  pecuniária  para  se  converter  num  senhor,  e  tinha  de  comprar  terra.  A 
terra,  com  os  senos  que  a  trabalhavam  ou  a  usavam,  e  com  o  grau  de  controlo  que  per¬ 
mitia  sobre  a  vida  rural,  era  o  quadro  mais  elementar  da  autoridade  senhorial.  A  com¬ 
pra  de  terras  não  deve  ser  vista  como  a  obtenção  de  um  direito  sobre  uma  coisa,  mas  de 
direitos  sobre  pessoas.  Por  isso  era  a  Forma  II  do  dinheiro  a  intermediar  estas  verdadei¬ 
ras  transferências  de  bannum. 


435,  pretendendo  que  o  fabrico  de  boa  moeda,  especialmente  o  recomeço  da  cunhagem  regular  do 
ouro,  se  teria  devido  às  necessidades  impostas  pelo  tráfico  de  longo  curso  e  pelo  desenvolvimento  do 
comércio  interno.  A  mesma  posição  é  sustentada  por  G.  Duby  (1973)  278-280,  ao  escrever  que  as 
emissões  monetárias  de  conteüdo  metálico  estável  e  de  valor  elevado  se  destinavam  a  ser  empregues 
pelos  grandes  comerciantes  nos  negócios  além-fronteiras,  e  que  os  soberanos  começaram  a  fabricar 
moedas  deste  tipo  para  não  deixarem  escapar  uma  fonte  de  rendimentos  tão  proveitosa.  Ver  no 
mesmo  sentido  C.  M.  Cipolla  (1956)  33  e  H.  van  Werveke  (1949)  122.  Na  minha  opinião,  pelo  con¬ 
trário.  a  Forma  II  do  dinheiro  deveu-se  exclusivamente  a  transformações  operadas  no  seio  da  classe 
senhorial.  P.  Spufford  (1988)  321  considera  que  no  século  XIV  as  moedas  de  ouro  serviam  funda- 
tnentalmente  para  os  grandes  pagamentos  de  ordem  política  efectuados  pelos  soberanos,  ou  seja,  res¬ 
gates  e  acordos  diplomáticos,  acrescentando  que  este  tipo  de  emissões  era  usado  pela  nobreza,  pelos 
funcionários  governamentais  e  pelos  grandes  mercadores.  Aliás,  é  elucidativo  recordar,  com  C.  Lan- 
sing  ( 1991 )  12.  que  em  Florença  foi  o  primeiro  governo  formado  pela  nova  elite  de  origem  popular 
quem  iniciou  a  cunhagem  da  moeda  áurea.  Ora.  as  ligações  desta  nova  elite  com  o  grande  tráfico  de 
longo  curso  não  eram  tão  estreitas  como  o  haviam  sido  as  da  elite  anterior.  De  qualquer  modo,  não 
dispomos  de  análises  empíricas  que  permitam  validar  quantitativamente  qualquer  destas  teses,  pois, 
como  previne  A.  De  Maddalena  (1982)  520-522.  ignora-se  qual  seria  a  composição  monetária  da 
caixa  nos  negócios  efectuados  pelos  grandes  mercadores  e  pelos  banqueiros. 

24  Ver  no  capítulo  7  as  nn.  17  a  19. 

25  No  sul  de  França  a  prata  não  cunhada,  avaliada  a  peso.  foi  empregue  para  dotes,  contratos  de 
casamento  e  outros  assuntos  familiares,  como  indicam  M.  Castaing-Sicard  (19611  63-64  e  P.  Spufford 
(1988)213 


300 


Forma  II  do  dinheiro 


Os  mesmos  soberanos  que  deliberadamente  degradavam  o  teor  da  Forma  I  do 
dinheiro  investiam  a  Forma  II  de  todo  o  prestígio  dos  seus  reinos,  dos  seus  principa¬ 
dos  ou  das  suas  cidades26.  Os  dois  mecanismos  estavam  estreitamente  ligados,  como 
adiante  (no  capítulo  1 1 )  mostrarei  com  certo  detalhe,  pois  a  depreciação  da  moeda 
fraca  subsidiava  a  estabilidade  da  moeda  forte  e,  sern  uma  política  inflacionista  pros¬ 
seguida  no  âmbito  da  Forma  I  do  dinheiro,  o  carácter  durável  dos  preços  no  âmbito 
da  Forma  II  teria  acarretado  consequências  muitíssimo  funestas  para  a  economia 
senhorial27.  Uma  dicotomia  idêntica  vigorara,  aliás,  no  Império  Romano  durante  os 
séculos  III  e  IV,  degradando-se  a  moeda  de  prata  a  um  ponto  ta!  que  o  seu  conteúdo 
em  metal  precioso  praticamente  desapareceu,  enquanto  a  moeda  de  ouro,  apesar  de 
sofrer  uma  redução  de  peso,  manteve  inalterado  o  seu  teor28.  Do  mesmo  modo,  no 
regime  senhorial  as  moedas  destinadas  a  circular  exclusivamente  no  seio  da  classe 
dominante  tinham  de  conservar  a  sua  aura  e  não  podiam  ser  atingidas  por  uma  depre¬ 
ciação  notória.  Enquanto  se  destinou  a  assumir  funções  ilustres  no  interior  da  aristo¬ 
cracia.  e  mesmo  perante  os  soberanos,  a  moeda  manteve  alguns  dos  traços  que  a 
haviam  assinalado  no  período  anterior.  Por  isso  a  Forma  II  do  dinheiro  distínguiu-se 
por  aspectos  mais  arcaicos  do  que  a  Forma  I.  Não  podendo  prescindir  de  um  teor  de 
metal  precioso  relativamente  elevado,  o  numerário  na  Forma  II  jamais  desenvolveu  as 
características  fiduciárias  que,  para  a  evolução  histórica,  se  revelaram  a  virtualidade 
mais  positiva  da  Forma  I.  E  assim  os  mecanismos  da  depreciação  estabeleceram  uma 
diferenciação  cada  vez  mais  acentuada  entre  os  conteúdos  da  Forma  I  e  da  Forma  II 
do  dinheiro29. 

Numa  primeira  fase.  ao  mesmo  tempo  que  a  depreciação  atingia  alguns  tipos  de 
moeda,  circulavam  também  moedas  mais  valiosas,  embora  originariamente  todas  elas 
houvessem  possuído  as  mesmas  características  de  peso  e  de  teor  metálico.  Depois,  na 
segunda  metade  do  século  XII,  assinala-se  o  esforço  do  imperador  germânico,  e  talvez 
igualmente  de  certas  cidades  da  Toscana.  por  manterem  em  curso  peças  argênteas  que. 


26  Depois  de  observar  que  as  moedas  de  ouro  cunhadas  no  reino  da  Sicília  por  ordem  de  Frederico 
II  se  deveram  mais  a  motivos  políticos  do  que  económicos.  Ph.  Grierson  (1176  a)  167  conclui  que 
aquelas  emissões  não  tiveram  grande  êxito.  Todavia,  o  facto  de  a  moeda  grande  de  prata  que  começou 
a  ser  fabricada  em  Veneza  no  começo  do  século  XIII  representar  urn  símbolo  do  poderio  crescente  da 
cidade,  tal  como  afirma  L.  B.  Robbert  (1974)  59  60.  não  impediu  estas  peças  de  alcançarem  um 
enorme  sucesso  numa  vasta  área  de  circulação.  Nem  foi  menor  o  triunfo  financeiro  obtido  pelo  florim 
de  ouro.  apesar  da  sua  indissolúvel  ligação  à  glória  política  e  militar  de  Florença,  como  sublinha  J. 
Day  ( 1%8 )  1058-1059  e  ( 1 994)  33.  Na  realidade,  a  cunhagem  dos  metais  preciosos  era  sempre  consi¬ 
derada  uma  expressão  de  prestígio  e  de  supremacia  política,  como  recorda  oportunamente  R.  S.  Lopez 
(1953  b)  163  e  167-169. 

27  C.  M.  Cipolla  1 1956)  33-34. 

A.  Evans  (1930-1931)  495  está  completamente  equivocado  ao  pretender  que  não  foi  o  dinheiro 
contabilístico,  mas  a  moeda  grande  de  prata  e  a  moeda  de  ouro.  a  fornecer  um  meio  de  troca  estável. 
Na  verdade,  a  Forma  II  do  dinheiro  não  permitia  a  resolução  dos  problemas  internos  da  Forma  1. 

2X  P.  Einzig  (1948)  238.  Ver  igualmente:  P.  Andcrson  ( 1974)  93 

29  M.  B.  Becker  ( 1960)  44;  J.  Belaubre  ( 1986)  75:  R.  R.  Betts  <  1952)28;  C.  M.  Cipolla  ( 1948)35- 
-36;  kl.  (1956)  23.  33;  J.  Day  (1994)  208;  R  de  Roover  (1968)  305:  F.  Graus  ( 1951)  447:  F.  C.  Lane 
(1973)  148:  L.  B.  Robbert  ( 1974)  50-51:  F  Thiriet  (1959)  306:  H.  van  Werveke  ( 1049)  122:  C.  V ro¬ 
lante  1 1954)  153-155:  A.  M.  Watson  <  1967)  32-33 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


301 


sem  se  distinguirem  por  um  peso  mais  elevado,  tinham  beneficiado  de  uma  melhoria  da 
sua  composição  em  metal  precioso30  Esta  reforma  preparou  a  fase  seguinte. 

Na  segunda  fase.  iniciada  decerto  na  abertura  do  século  XIII,  as  moedas  mais  valio¬ 
sas  destacaram-se  claramente  das  restantes  e.  se  bem  que  prosseguindo  apenas  a  cunha¬ 
gem  da  prata,  fabricaram-se  peças  não  só  com  um  teor  metálico  superior,  mas  também 
maiores  e  mais  pesadas.  Foi  a  Itália  que  inaugurou  o  processo,  precisamente  porque  a 
degradação  do  numerário  argênteo  atingira  aí  níveis  extremos31.  A  nova  moeda  de 
prata  tinha  um  valor  pelo  menos  vinte  e  quatro  vezes  mais  elevado  do  que  qualquer 
outra  moeda  de  prata  italiana  então  em  circulação32.  Nada  poderia  ilustrar  melhor  a 
relação  entre  a  depreciação  da  moeda  corrente  e  a  necessidade  de  lançar  paralelamente 
outra  moeda,  mais  valiosa  e  de  conteúdo  metálico  garantido.  Nas  principais  cidades  ita¬ 
lianas  estas  emissões  não  resultaram  de  uma  reforma  única,  mas  de  uma  série  de  medi¬ 
das  que  estabeleceram  para  as  novas  moedas  um  peso  e  um  teor  comuns,  de  maneira  a 
criar  uma  área  de  circulação  conjunta33.  De  então  em  diante  as  peças  grandes  de  prata 
generalizaram-se.  e  ao  terminar  o  século  XIII  todo  o  regime  senhorial  a  norte  dos  Pire¬ 
néus  praticava  a  nova  cunhagem34,  simultaneamente  com  o  fabrico  de  peças  cada  vez 
mais  depreciadas. 

Finalmente,  na  última  fase  deste  processo,  a  progressiva  diferenciação  consumou-se 
pela  cunhagem  de  um  metal  ainda  mais  precioso  do  que  a  prata,  de  modo  que  a  esfera 
social  de  difusão  das  moedas  grandes  de  prata  beneficiou  de  um  grau  superior  de  deli¬ 
mitação  devido  ao  reaparecimento  das  moedas  de  ouro35.  De  então  em  diante  a  Forma 


30  R.  S.  Lopez  (1967  b)  179  esclarece  que  a  boa  moeda  de  prata  cunhada  sob  as  ordens  do  impera¬ 
dor  Frederico  I  não  se  caracterizava  por  um  peso  maior,  mas  por  uma  liga  melhor,  e  acrescenta  (p. 
180)  que  talvez  estivessem  nas  mesmas  condições  as  novas  peças  de  prata  emitidas  na  Toscana, 
nomeadamente  em  Pisa.  na  última  década  do  século  XII. 

31  Ph.  Grierson  ( 1976  a)  155  observa  que  a  Itália  deu  início  à  cunhagem  da  moeda  grande  de  prata 
porque  fora  aí  que  a  moeda  de  praia  corrente  chegara  ao  nível  de  depreciação  mais  baixo. 

32  L.  B.  Robbert  (1974)  49. 

33  R.  S.  Lopez  ( 1967  b)  180 

33  A  grande  moeda  de  praia  talvez  tivesse  principiado  a  ser  cunhada  em  Veneza  em  1 192.  mas  é 
mais  provável  que  a  emissão  sc  iniciasse  em  1202  ou  1203,  e  quinze  ou  vinte  anos  depois  desta  última 
data  surgia  em  Génova  a  primeira  menção  ao  fabrico  do  novo  tipo  de  moeda.  No  começo  do  segundo 
terço  desse  século  já  Florença  e  Luca  faziam  correr  o  novo  numerário,  e  entre  1230  e  1240  as  cinco 
maiores  cidades  toscana*  haviam  homogeneizado  a  cunhagem  das  grandes  peças  argênteas,  de 
maneira  a  criarem  uma  área  de  circulação  comum,  à  qual  se  ligou  na  prática  a  nova  moeda  genovesa. 
A  partir  de  meados  do  século  estas  emissões  generalizaram-se  às  restantes  cidades  mercantis  da 
península,  Na  passagem  do  segundo  para  o  terceiro  terço  do  século  XIII  o  rei  de  França  ordenou  o 
fabrico  de  moedas  grandes  de  prata,  e  no  começo  do  último  quartel  do  século  elas  eram  emitidas  na 
Flandres  e  em  Inglaterra,  sendo  cunhadas  nos  derradeiros  anos  do  século  XIII  em  Praga,  por  ordem  do 
rei  da  Boémia,  que  em  breve  obteria  também  a  coroa  da  Polónia.  Para  esta  cronologia  ver:  E.  Foumial 
(1970)  79-80;  R.  S.  Lopez  (1967  b>  ISO;  L.  B.  Robbert  <  1974)  48-49,  55-56. 

33  A  cunhagem  da  moeda  grande  de  prata,  afirma  R.  S.  Lopez  ( 1967  b)  174,  preparou  o  recomeço 
da  cunhagem  regular  do  ouro.  a  tal  ponto  que  o  prevalecimento  das  peças  de  ouro  levou  à  dissolução 
(p.  181 1  da  liga  de  cidades  toscanas  que,  na  quarta  década  do  século  XIII,  haviam  definido  para  as 
suas  grandes  moedas  de  prata  um  peso  comum  e  um  teor  metálico  uniforme.  Ainda  quanto  ao  nexo 
estabelecido  enlre  o  fabrico  de  grandes  moedas  de  prata  e  o  recomeço  das  emissões  áureas,  ver  M. 
Blocht  1933  0  25-26. 


302 


Forma  II  do  dinheiro 


II  do  dinheiro  passou  a  combinar  a  emissão  das  novas  moedas  áureas  com  a  continua¬ 
ção  do  fabrico  das  moedas  valiosas  de  prata,  cuja  criação  marcara  a  segunda  fase  deste 
processo  evolutivo.  É  certo  que  o  ouro  vinha  já  a  ser  empregue  em  pagamentos  desde  o 
começo  do  período36,  e  em  França  haviam-se  produzido  algumas  moedas  de  ouro 
recorrendo  aos  cunhos  usados  para  as  moedas  de  prata-7.  No  entanto,  certos  especialis¬ 
tas  consideram  que  faltava  a  estas  primeiras  utilizações  do  numerário  áureo  uma  verda¬ 
deira  dimensão  de  dinheiro  pelo  facto  de  se  destinarem  a  funções  rituais38.  O  argu¬ 
mento  não  é  convincente,  porque  as  manifestações  de  poder  jamais  deixaram  de  possuir 
uma  acentuada  conotação  cerimonial,  mais  patente  ainda  em  peças  que  rodavam  exclu¬ 
sivamente  no  seio  da  classe  dominante.  E  outro  o  motivo  que  reduziu  a  um  significado 
marginal  as  cunhagens  de  ouro  realizadas  no  início  do  período  -  o  seu  carácter  mera¬ 
mente  ocasional39.  Além  disso,  as  peças  áureas  emitidas  nos  séculos  XI,  XII  e  XIII  a 
sul  dos  Pirenéus  por  soberanos  cristãos40  não  se  deveram  a  quaisquer  necessidades 
internas  da  aristocracia.  Estes  reinos  eram  percorridos  pelas  rotas  de  longo  curso  gera¬ 
das  no  império  muçulmano,  e  a  circulação  de  moedas  islâmicas  tomara-se  corrente 
entre  os  Cristãos,  acabando  por  fornecer  na  quase  totalidade  do  território  o  padrão 
hegemónico.  A  partir  do  momento  em  que  as  moedas  islâmicas  deixaram  de  chegar 
com  a  abundância  requerida,  os  monarcas  cristãos  viram-se  forçados  a  mandar  fabricar 
peças  com  a  mesma  aparência,  peso  semelhante  e  teor  comparável,  de  maneira  a  pros¬ 
seguir  o  comércio  externo.  Tratava-se,  em  suma,  de  imitações,  que  confirmam  a  inclu¬ 
são  da  Espanha  cristã  daquela  época  na  área  económica  muçulmana41.  Circunstâncias 
similares  justificam  o  facto  de  o  regime  senhorial  ter  continuado  na  Itália  meridional  e 
na  Sicília  as  emissões  de  ouro  islâmicas,  e  tanto  a  cunhagem  que  os  conquistadores 
normandos  efectuaram  para  circular  entre  as  populações  submetidas  como  aquela  que 
foi  mais  tarde,  no  começo  da  quarta  década  do  século  XIII.  ordenada  pelo  imperador 
germânico  se  inseriram  no  sistema  monetário  muçulmano42.  Do  mesmo  modo,  nos 


36  Em  momento  algum,  previne  R.  S.  Lopez  (1953  b)  19-20.  o  Ocidente  esteve  privado  da  circula¬ 
ção  monetária  do  ouro. 

37  E.  Foumial  (1970)  76:  Ph.  Grierson  (1976  a)  69. 

3-  A.  Blanchet  (1955)  1  151;  M.  Castaing-Sicard  (1961)  72:  E.  Foumial  (1967)  280:  P.  Spufford 
(1988)185-186. 

39  Quanto  ao  carácter  ocasional  das  primeiras  emissões  áureas  ver  Ph.  Grierson  (1976  a)  84. 

40  Segundo  A.  M.  Watson  ( 1967)  I  n.  2,  em  Barcelona  ocorreu  a  emissão  de  moedas  de  ouro  no 
século  XI.  M.  Bloch  ( 1933  c)  4  escreve  que  em  1175  Afonso  VIII  mandou  fabricar  em  Toledo  as  pri¬ 
meiras  moedas  de  ouro  castelhanas,  e  E.  Foumial  (1970)  80  confirma  esta  data.  implícita  também  na 
análise  a  que  procede  A.  H.  O.  Marques  ( 1965)  275,  mas  leio  em  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)  64  a  men¬ 
ção  à  cunhagem  do  ouro  por  Afonso  VII,  que  reinou  no  segundo  quartel  do  século  XII.  Em  Portugai. 
Oliveira  Marques  em  op.  cu.,  276  indica  que  a  primeira  cunhagem  áurea  se  verificou  entre  1185  e 
1188. 

Jl  Vários  historiadores  mostram  que  a  cunhagem  de  ouro  por  iniciativa  dos  condes  de  Barcelona  e 
dos  reis  de  Leão  e  Castela  e  de  Portugal  se  limitou  a  seguir  o  padrão  das  emissões  islâmicas:  M. 
Bloch  (1933  c)  4;  E.  Foumial  ( 1970)  80:  J.  Gautier-Dalché  ( 1969  )  61-65;  A.  H.  O.  Marques  ( 1965) 
275-276;  P.  Spufford  (1988)  177;  A.  M.  Watson  (1967)  1  n.  2.  Ainda  quanto  à  cunhagem  de  imita¬ 
ções  do  dinar  muçulmano  pelos  reis  cristãos  da  Espanha  ver  Ph  Grierson  ( 1976  a)  84. 

42  M.  Bloch  (1933  c)  4;  E.  Foumial  ( 1970)  80;  Ph.  Grierson  1 1976  a)  109.  167;  J.  l.afaune  ( 1970) 
1 18;  R.  S.  Lopez  ( 1965)  248:  P.  Spufford  (1988)  1 7;  A  M.  Watson  ( 1967)  1  n.  2 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


303 


territórios  conquistados  pelos  peregrinos  cristãos  na  Síria  e  na  Palestina  o  ouro  come¬ 
çou  a  ser  cunhado  desde  o  terceiro  quartel  do  século  XII,  ou  talvez  antes,  numa  cópia 
deteriorada  do  numerário  islâmico4-.  Outros  soberanos  houve  que  mandaram  também 
fabricar  réplicas  de  peças  áureas  estrangeiras44.  Estes  casos  marginais  não  alteraram  as 
condições  de  vigência  da  Forma  II  do  dinheiro. 

A  verdadeira  inovação,  que  caracteriza  a  terceira  fase,  deveu-se  a  regiões  em  que 
desde  há  séculos  o  ouro  deixara  de  ser  cunhado  e  onde,  apesar  disso,  se  deu  início  a  um 
fabrico  de  moedas  áureas  que  não  foi  apenas  sistemático  mas  se  explica  antes  de  tudo 
por  problemas  resultantes  das  relações  intersenhoriais.  Após  alguns  ensaios  abortados 
ou  sem  continuidade,  durante  o  segundo  quartel  do  século  XIII45.  foi  nos  meados  desse 
século  que  a  cunhagem  regular  do  ouro  recomeçou  no  Ocidente46.  E,  de  novo.  o  facto 
de  os  centros  urbanos  italianos,  onde  a  moeda  comum  estava  muitíssimo  depreciada, 
terem  sido  pioneiros  na  emissão  da  boa  moeda  áurea  demonstra  que  a  Forma  II  do 
dinheiro  se  destacava  tanto  mais  quanto  mais  degradado  fosse  o  teor  metálico  atingido 
pela  Forma  l47.  Na  mesma  perspectiva,  posso  concluir  que  quanto  mais  alto  e  estável  se 
mantivesse  o  valor  das  peças  tradicionalmente  componentes  da  Forma  II  tanto  menos 
necessária  era  a  circulação  de  outras  peças  de  valor  elevado.  Com  efeito,  aquela  cidade 
italiana  que  inaugurara  a  segunda  fase,  criando  a  moeda  grande  de  prata  e  mantendo- 
-Ihe  ao  longo  do  tempo  um  considerável  valor,  de  maneira  a  garantir-lhe  uma  aceitação 
generalizada,  foi  agora  a  última  das  grandes  cidades  da  península  a  cunhar  o  ouro,  e 
durante  décadas  os  seus  habitantes  manifestaram  uma  acentuada  relutância  ao  emprego 
pecuniário  deste  metal48.  Mais  ou  menos  rapidamente,  porém,  durante  a  segunda  metade 


47  A.  M.  Watson  (1967)  10-11. 

44  M.  Bloch  <  1933  c)  19-20. 

45  A  crer  em  id..  ibid.,  4,  Marselha  teria  tentado  iniciar  uma  cunhagem  regular  do  ouro  em  1227, 
mas  sem  resultado.  E.  Foumial  ( 1970)  80  reporta  este  facto  a  1226,  acrescentando  que  pouco  antes  de 
1246  foi  fabricada  moeda  de  ouro  em  Luca. 

46  É  sabido  que  o  regresso  à  cunhagem  do  ouro  no  Ocidente  teve  lugar  em  1252,  em  Florença  e 
em  Génova.  Ver  a  este  respeito,  por  exemplo.  M.  Bloch  (1933  c)  4  e  P.  Spufford  ( 1988)  176.  Defende 
R.  S.  Lopez  (1967  b)  174-175  que  alguns  meses  antes  de  a  nova  emissão  se  ter  verificado  em  Flo¬ 
rença  já  ela  ocorrera  em  Génova.  Por  seu  turno,  e  ao  contrário  da  opinião  comum,  E.  Foumial  (1967) 
580  e  ( 1970)  80  considera  que  o  fabrico  de  moedas  áureas  se  teria  iniciado  em  1252  em  Génova  e  só 
no  ano  seguinte  em  Rorença.  A  posição  inversa  é  sustentada  por  J.  Day  ( 1994)  33  n.  4.  para  quem  a 
moeda  de  ouro  de  Génova,  começada  a  cunhar  em  1252,  constituiria  uma  imitação  do  florim,  que 
datava  do  mesmo  ano. 

47  A  relação  entre  o  começo  da  emissão  monetária  do  ouro  na  Itália  e  o  nível  de  depreciação  atin¬ 
gido  pela  cunhagem  corrente  italiana  é  estabelecida  por  Ph.  Grierson  ( 1976  a)  155. 

4!l  Vimos  na  n.  34  deste  capítulo  que  o  fabrico  das  moedas  grandes  de  prata  se  iniciou  em  Veneza, 
decerto  nos  primeiros  anos  do  século  XIII.  Vários  especialistas  chamam  a  atenção  para  a  estabilidade 
em  que  durante  muito  tempo  foi  mantido  o  grosso  de  prata  veneziano:  J.  Day  (1984)  20:  id.  (1994) 
208;  F.  C.  Lane  í  1973)  148;  L.  B.  Robbert  (1974)  49:  F.  Thiriet  ( 1959)  305-306.  Quanto  ao  facto  de 
esta  moeda  gozar  de  uma  aceitação  generalizada,  ver:  F.  C.  Lane  (1973)  148;  L.  B.  Robbert  (1974) 
58;  F.  Thiriet  (1959)  305-306.  Ora,  só  em  1284  Veneza  começou  a  cunhar  ouro.  como  afirmam  C.  M. 
Cipolla  (1948)  10.3  e  F.  C.  Lane  (1973)  148.  Apesar  do  seu  atraso,  as  emissões  áureas  venezianas 
parece  terem  sido  prematuras,  porque  Frederic  C.  Lane  em  op.  cit.,  148  e  150  descreve  a  desconfiança 
que  até  aos  meados  do  século  XIV  os  habitantes  da  cidade  manifestaram  relativamente  ao  ouro. 
mesmo  em  funções  meramente  contabilísticas. 


304 


Forma  //  do  dinheiro 


do  século  XIII  a  emissão  de  peças  de  ouro  difundiu-se  por  todos  os  grandes  núcleos 
urbanos  da  Itália  centro-setentrional  e  iniciou-se  na  Inglaterra  e  na  França4^.  Depois,  na 
primeira  metade  do  século  XIV  a  cunhagem  do  ouro  foi  adoptada  nos  Países  Baixos50, 
bem  como  pelo  papa  sediado  em  Avignon51,  que  numerosos  pequenos  príncipes  vizi¬ 
nhos  imitaram52.  A  moeda  áurea  começou  então  também  a  ser  fabricada  em  muitos  ter¬ 
ritórios  germânicos  e  nos  reinos  situados  no  leste  do  regime  senhorial,  com  excepção 
da  Polónia53.  Entretanto,  na  Espanha  e  na  Sicília  aumentara  o  peso  e  melhorara  o  teor 
metálico  dos  tipos  de  moeda  de  ouro  já  existentes54. 

Por  fim,  as  peças  áureas  haviam-se  tomado  absolutamente  generalizadas,  e  com  fre¬ 
quência  obedeciam  a  padrões  comuns  de  formato,  peso.  teor  e  por  vezes  até  de  gravura, 
ditados  pelos  centros  económicos  mais  poderosos  e  (como  veremos  no  capítulo  13.a) 
vigentes  em  vastas  zonas  monetárias55.  Na  mesma  época  em  que  a  concessão  de  senho¬ 
rias  pecuniárias  multiplicava  os  elos  entre  diferentes  áreas  de  soberania  (ver  o  capítulo 
7.b).  a  Forma  II  do  dinheiro  vigorava  também  num  quadro  alargado  e  as  zonas  monetᬠ
rias  inseriam  uma  pluralidade  de  hierarquias  vassálicas  em  sistemas  financeiros  únicos. 
Em  sentido  contrário,  porém,  vários  soberanos  esforçaram-se  por  promover  as  suas 
próprias  moedas  de  ouro,  e  para  isso  recorreram  a  uma  actuação  dupla.  No  interior  das 
suas  áreas  de  soberania,  tinham  de  se  impor  aos  príncipes  a  eles  subordinados,  impe¬ 
dindo-os  de  fabricar  numerário  que  concorresse  com  o  seu  próprio.  Foi  o  que  sucedeu 
em  França  a  partir  do  último  terço  do  século  XIII.  quando  vários  decretos  promulgados 
pela  coroa  remeteram  a  cunhagem  dos  príncipes  e  outros  magnates  para  o  âmbito  da 
Forma  I  do  dinheiro  e  reservaram  às  emissões  régias  o  exclusivo  das  peças  grandes  de 


4U  O  período  decisivo  para  o  recomeço  da  cunhagem  do  ouro  decorreu  entre  1252  e  1284.  escla¬ 
rece  R.  S.  Lopez  ( 1953  b)  179.  quando  as  novas  moedas  passaram  a  ser  emitidas  pelas  principais  cida¬ 
des  da  Itália  centro-setentrional  e  pelos  reinos  da  Inglaterra  e  da  França.  As  mesmas  datas  c  áreas  de 
difusão  cncontram-se  mencionadas  em  E.  Foumíal  ( 1970)  81.  embora  em  (1967)  280  este  especialista 
levante  dúvidas  sobre  o  carácter  inovador  da  cunhagem  áurea  de  L  uís  IX  de  França  e  atribua  a  Filipe 
IV  o  Belo  a  iniciativa  da  primeira  cunhagem  do  ouro  consoante  os  novos  padrões,  em  1290.  No  que 
diz  respeito  à  Itália.  M.  Bloch  (19.33  c)  5  confirma  a  cronologia  proposta  por  Roberto  Sabatino  Lopez, 
mas,  no  tocante  à  França,  o  grande  historiador  considera  lambem  que  só  com  Filipe  o  Belo  as  emis¬ 
sões  áureas  teriam  adquirido  verdadeira  importância,  e  acrescenta  que,  no  caso  inglês,  após  repetidos 
fracassos  a  cunhagem  do  ouro  só  foi  tentada  novamente  em  1344.  Mais  radicalmente  ainda.  H.  A. 
Miskimin  (1963)  33  sustenta  que  até  1344  apenas  se  cunhou  prata  em  Inglaterra.  Por  seu  lado.  P. 
Spufford  (1988)  185-186  recusa  igualmente  o  carácter  inovador  ás  moedas  de  ouro  fabricadas  na 
Inglaterra  por  ordem  de  Henrique  III  e  devidas  em  França  ao  governo  de  Luís  IX.  Todavia,  J.  Lafaurie 
( 1 970)  1 1 8  indica  que  Luís  IX  de  França  inaugurou  em  1 266  o  sistema  monetário  tnplo.  com  a  cunha¬ 
gem  de  peças  de  liga  deteriorada,  de  prata  e  de  ouro.  É  estranho  que,  dadas  as  suas  outras  posições,  E. 
Foumial  (1967)  276-277  afirme  o  mesmo. 

50  M.  Bloch  (1933  c)  5;  E.  Foumial  (1967)  580-581. 

51  M.  Bloch  (1933  c)  5:  E.  Foumial  (1967)  58 1 . 

5;  E.  Foumial  (1967)  581. 

53  M.  Bloch  11933  c)  5:  E.  Foumial  ( 1967)  580-581:  E.  Fügedi  ( 1986  a)  118:  R.  S.  Lopez  (1953  b) 
179. 

M.  Bloch  ( 193.3  c)  5  esclarece  que  na  Polónia  só  no  início  do  segundo  quartel  do  século  XVI  se 
passou  a  cunhar  o  ouro. 

54  E.  Foumial  (1967)582;  R.  S.  Lopez(l953  b)  179 

55  J.  Day  ( 1968)  1058;  id.  (1984)  18-19:  id.  (1994)  33:  E.  Foumial  (1967)580-582;  id.  ( 1970)  81. 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


305 


prata  e  das  peças  de  ouro:  deste  modo  o  monarca  assegurou  que  só  a  sua  moeda  circu¬ 
lasse  em  todo  o  reino36.  Ao  mesmo  tempo  que  começavam  assim  a  constituir-se  o  que 
mais  tarde  haveriam  de  ser  esferas  pecuniárias  nacionais,  os  soberanos  tinham  de 
enfrentar  também  os  grandes  centros  emissores  das  moedas-padrão.  Para  tal,  definiam 
oficialmente  para  o  seu  próprio  numerário  mais  valioso  uma  taxa  de  câmbio  que  o 
sobreavaliava  perante  as  principais  moedas  áureas  estrangeiras57.  Mas  podia  recorrer-se 
a  medidas  mais  drásticas.  Nas  cidades  hanseáticas,  por  exemplo,  a  partir  da  penúltima 
década  do  século  XIV  abandonou-se  a  cunhagem  do  ouro  e  regressou-se  à  grande 
moeda  de  prata,  tomando-se  disposições  contra  o  emprego  das  peças  de  ouro  nas  tran- 
sacções  de  longo  curso.  Este  monometalismo  argênteo  era  imposto  intemamente  por 
uma  união  monetária  rigorosa,  assente  na  coligação  política  da  Hansa,  que  ultrapassava 
as  pequenas  esferas  de  soberania  e  visava  o  que  no  futuro  seriam  esboços  de  nacionali¬ 
dade;  por  outro  lado,  e  no  plano  externo,  procurava-se  aumentar  a  coesão  desta  área  de 
soberania  monetária,  em  detrimento  dos  grandes  centros  comerciais  e  bancários  meri¬ 
dionais,  que  emitiam  as  moedas  áureas  padrão58.  No  final  do  período,  todas  as  medidas 
concretas  de  política  financeira  resultavam  de  uma  articulação  entre  aquelas  duas  ten¬ 
dências  contraditórias,  conjugando  o  reforço  interno  das  áreas  de  soberania  com  a  for¬ 
mação  de  amplíssimos  circuitos  monetários  que  ultrapassavam  as  fronteiras.  Tendeu-se. 
assim,  a  uma  relativa  harmonização,  em  que  o  ouro  servia  em  geral  de  instrumento  nos 
percursos  da  Forma  II  do  dinheiro  que  uniam  áreas  de  soberania  bem  demarcadas, 
enquanto  as  moedas  de  prata  de  teor  elevado  davam  corpo  à  Forma  II  do  dinheiro  nas 
circulações  que  se  restringiam  ao  interior  de  cada  área  de  soberania59.  Foi  nesta  dialéc- 
tica  de  alianças  e  rupturas  que,  enquanto  se  cavavam  oposições,  reforçavam-se  também 
além  das  fronteiras  os  elementos  de  coesão  interna  da  classe  senhorial,  começando  a 
esboçar-se  o  que  mais  tarde  seria  uma  verdadeira  política  internacional  das  jovens 
nações. 

Na  realidade,  acontecia  que  se  a  depreciação  atingisse  insistentemente  peças  de 
prata  originariamente  valiosas,  como  muitas  vezes  ocorreu,  elas  acabavam  por  ser  reme¬ 
tidas  para  a  Forma  1  e  passavam  a  ser  fabricadas  peças  novas,  que  sucediam  às  anteriores 
enquanto  símbolos  representativos  da  Forma  II60.  Nesta  perspectiva,  entende-se  melhor 


56  M.  Castaing-Sicard  ( 1961 )  75.  Ver  igualmente  as  nn.  16  e  17  do  capítulo  13. 

í7  J.  H.  Munro  (19791  174  observa  que  até  os  florins  e  os  ducados  italianos,  embora  gozassem  de 
uma  aceitação  generalizada,  eram  usualmente  subavaliados  no  estrangeiro,  porque  os  outros  sobera¬ 
nos  promoviam  as  suas  próprias  moedas  ao  estabelecerem  as  taxas  de  câmbio  oficiais.  Este  facto  não 
impede  Y.  Renouard  (1941)  535  de  pretender  que  o  enorme  raio  de  acção  do  florim  constituía  para  os 
mercadores  de  Florença  uma  fonte  de  lucros  adicionais.  Parece-me  que  estas  contradições  dos  histo¬ 
riadores  reflectem,  afinal,  a  própria  situação  de  conflito  que  então  se  vivia,  entre  a  tendência  a  definir 
esferas  nacionais  e  a  tendência  para  ampliar  além-fronteiras  os  sistemas  monetários.  Ainda  quanto  à 
articulação  contraditória  entre  as  emissões  áureas  que  circulavam  através  de  diversas  áreas  de  sobera¬ 
nia  e  as  emissões  cuja  circulação  se  limitava  ao  interior  de  cada  uma  dessas  áreas,  ver  P.  Spufford 
(1988)319-320. 

's  Para  a  descrição  do  sucedido  na  Hansa  ler  J.  Day  <  1994)  208. 

59  M.  Bloch  (1933  c)  30-31:  A.  De  Maddalena  1 1982)  515:  H.  A.  Miskimin  ( 1963)  33:  P.  Spuf¬ 
ford  (1984)  389. 

6(1  Ver  a  n.  1 3  do  capítulo  4.  Consultar  igualmente:  M.  Bloch  (1935  c)  324. 


306 


Forma  II  do  dinheiro 


o  recomeço  das  emissões  em  ouro,  e  a  absoluta  separação  em  que  elas  se  mantiveram 
relativamente  às  condições  prevalecentes  na  cunhagem  da  prata61.  Aliás,  na  própria 
monetarização  da  prata  existia  uma  clivagem  muito  nítida  entre  a  produção  estável  de 
moedas  fortes  e  o  fabrico  das  pequenas  moedas  de  conteúdo  cada  vez  mais  degra¬ 
dado62.  A  necessária  divergência  entre  os  teores  metálicos  de  ambas  as  formas  do 
dinheiro  passou  a  regular  alguns  dos  mecanismos  da  depreciação,  e  bastava  que  fosse 
diferente  a  percentagem  do  mesmo  metal  precioso  em  cada  um  dos  tipos  de  moeda  para 
que  as  variações  do  curso  do  mercado  os  afectassem  de  maneira  distinta,  levando-os  a 
um  afastamento  crescente63.  A  circulação  simultânea  do  ouro  e  da  prata  só  veio  com¬ 
plicar  a  situação,  e  algumas  das  mutações  realizadas  na  Forma  II  do  dinheiro  tiveram 
como  objectivo  adaptar  a  cunhagem  à  evolução  do  valor  comercial  dos  metais  precio¬ 
sos64.  As  pessoas  mais  sabedoras,  ou  melhor  informadas,  encontraram  oportunidade 
para  belas  especulações. 

Talvez  este  processo  contribua  para  explicar  uma  boa  parte  das  reclamações  contra  a 
quebra  de  moeda,  registadas  na  documentação.  As  camadas  sociais  que  se  faziam  ouvir 
pertenciam  praticamente  todas  à  classe  senhorial  ou,  no  máximo,  eram  compostas  tam¬ 
bém  por  elementos  que  haviam  beneficiado  de  uma  promoção  recente,  tanto  campone¬ 
ses  enriquecidos  como  pessoas  da  elite  urbana  de  origem  popular.  Se  a  tese  que  aqui 
proponho  estiver  correcta,  a  insatisfação  destes  meios  sociais  manifestar-se-ia  não  a 
propósito  da  degradação  do  teor  da  Forma  I  do  dinheiro,  mas  apenas  quando  a  depre¬ 
ciação  tivesse  atingido  a  Forma  II65.  Os  protestos  tenderiam,  então,  a  apressar  a  substi- 


61  Muito  sagazmente,  id.  (1933  c)  5-6.  (1953)  435  e  (1954)  55  observa  que,  como  as  funções 
desempenhadas  pelo  ouro  e  pela  prata  eram  muito  diferentes,  eles  não  eram  verdadeiramente  permu¬ 
táveis,  não  se  tratando  por  isso  da  forma  clássica  de  bimetalismn.  Consultar  no  mesmo  sentido  J.  Day 
(1984)  20.  Ver  ainda:  R.  de  Roover  (1948)  231:  id.  (1968)  305:  H.  A.  Miskimin  í  1963)  33. 

62  P.  Toubert  (1973  b)  592, 595. 

63  J.  Day  (1994)  251,  254:  R.  S.  Lopez  (1982)  10. 

64  E.  Foumial  (1967)  277  e  segs. 

Como  a  prata  estava  em  geral  sobreavaliada  no  seu  curso  oficial,  elucida  M.  Bloch  ( 1933  o  31,  o 
curso  comercial  das  moedas  de  ouro  era  usualmente  superior  ao  seu  curso  oficial.  A  este  respeito  con¬ 
sultar  igualmente  J.  Day  (1984)  17.  É  interessante  seguir  o  caso  de  Veneza,  o  primeiro  centro  urbano 
a  cunhar  a  grande  moeda  de  prata.  A  estabilidade  metálica  com  que  esta  peça  foi  mantida,  exprimindo 
a  importância  política  e  económica  da  cidade,  fez  com  que  ela  beneficiasse  de  uma  ampla  aceitação,  a 
tal  ponto  que  o  governo  veneziano  só  muito  tardiamente  acrescentou  à  Forma  II  do  dinheiro  as  emis¬ 
sões  áureas.  Ver  a  este  respeito  a  n.  48  deste  capitulo.  No  século  XIV.  porém,  as  alterações  na  relação 
comercial  entre  os  dois  metais  preciosos  tomaram  cada  vez  mais  difícil  às  autoridades  conservar  os 
conteúdos  metálicos  do  velho  grosso  de  prata  e  do  ducado  de  ouro,  até  que  finalmente  as  intenções 
políticas  tiveram  de  ceder  perante  as  pressões  cambiais.  Acerca  desta  questão  consultar:  J.  Day  ( 1984) 
20;  id.  (1994)  208;  F.  Thiriet  (1959)  306-307. 

65  Nos  meados  do  século  XIII,  indica  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  28,  a  elite  mercantil  de  Londres 
estava  preocupada  com  a  abundância  da  circulação  de  moedas  de  ouro,  pois  temia  que.  isso  lhes  redu¬ 
zisse  o  valor.  Parece-me  que  nesta  perspectiva  se  podem  compreender  as  teses  monetárias  de  Nicole 
Oresme,  tal  como  são  apresentadas  por  E.  Bndrey  (1906).  Ao  insistir  no  carácter  do  numerário 
enquanto  meio  de  conservação  do  valor  (pp.  1 89-192)  e  ao  opor  se  às  depreciações.  Oresme  formulou 
uma  teoria  adequada  apenas  à  Forma  II  do  dinheiro.  As  consequências  catastróficas  da  política  mone¬ 
tária  que  a  coroa  francesa  prosseguiu  por  inspiração  de  Oresme  deveram-se  ao  facto  de  se  ter  preten¬ 
dido  aplicar  à  Forma  I  do  dinheiro  o  mesmo  modelo  dc  estabilidade  que  só  era  conveniente  para  a 


Conteúdo  da  Forma  U  do  dinheiro 


307 


tuição  das  emissões  depreciadas  por  peças  novas  de  maior  valor,  compatíveis  com  as 
funções  que  deviam  ser  desempenhadas  pela  Forma  II  do  dinheiro. 

Todavia,  as  pressões  inerentes  à  Forma  II  do  dinheiro  eram  tão  fortes  e  a  sua  urgên¬ 
cia  era  tal  que  nem  sempre  foi  possível  aguardar  as  consequências  do  processo,  forço¬ 
samente  longo,  de  depreciação  de  uns  tipos  monetários  e  de  revalorização  de  outros. 
Sabe-se,  por  exemplo,  que  nos  séculos  X  e  XI.  nas  cidades  do  norte  do  continente, 
como  havia  uma  grande  procura  da  moeda  de  prata  para  as  transacções  correntes,  o 
ouro  ficava  frequentemente  subavaliado  em  termos  da  moeda  argêntea66,  o  que  retar¬ 
dava  a  depreciação  da  Forma  1  do  dinheiro  e  a  revalorização  da  Forma  II.  Por  isso, 
sobretudo  na  metade  inicial  do  período,  quando  não  se  dispunha  ainda  de  peças  cunha¬ 
das  com  um  valor  individual  apreciável  e  um  alto  teor  de  metal  precioso,  usaram-se 
jóias  ou  quaisquer  outros  artigos  de  luxo6',  como  por  exemplo  a  pimenta68. 

No  seio  da  classe  dominante,  porém,  e  mesmo  depois  de  se  ter  iniciado  a  emissão 
das  peças  grandes  de  prata  e  de  se  ter  recomeçado  a  cunhagem  regular  do  ouro,  eram 
lingotes  destes  dois  metais6^,  bem  como  ouro  em  pó70,  as  principais  modalidades  de 


Forma  II.  Ver  acerca  desta  questão  as  nn.  26  e  33  do  capítulo  4.  Com  efeito,  embora  admitindo  que 
fosse  necessária  a  circulação  de  peças  de  má  liga  (p.  220),  destinadas  às  transacções  de  pequeno  valor, 
aos  salários  dos  jornaleiros  e  às  esmolas  (pp.  226-227  ).  Oresme  defendia  que  a  composição  metálica 
destas  moedas  devia  ser  tal  que  o  seu  valor  nominal  fosse  igual  ao  valor  do  conteúdo  (p.  229). 

66  I.  A.  Agus  ( 1965)  377. 

67  Ver  as  nn.  31  e  32  do  capítulo  3.  Num  contexto  especi ficamente  intra-senhorial,  H.  Grassotti 
(1969)  739  refere  que  em  Leão  e  Castela,  no  século  XII,  além  das  senhorias  pecuniárias  em  numerário 
existiam  outras,  pagas  em  objectos  de  culto,  em  jóias,  ou  em  armas  e  cavalos.  Estudando  os  meios  de 
pagamento  empregues  na  Itália  centro-setentrional  entre  o  último  terço  do  século  X  e  o  primeiro  terço 
do  século  Xll  nas  compras  de  terras,  bem  como  noutros  tipos  de  transferências  fundiárias,  D.  Herlihy 
(1937-1958)  2-6  esclarece  que  cerca  de  40%  dos  casos  não  envolveram  moeda.  Destes,  só  em  2/3  a 
documentação  informa  quais  foram  os  artigos  usados  como  dinheiro,  prevalecendo  os  objectos  de 
metal  precioso,  mas  encontrando-se  igualmente  outras  variedades  de  bens  de  luxo.  Por  fim,  David 
Herlihy  conclui  (pp.  7-9)  que  só  nas  imediações  de  Milão,  Pavia  e  Roma.  onde  era  fácil  obter  numerᬠ
rio,  a  documentação  regista  raramente  casos  de  meios  de  pagamento  não-monetários.  Assim,  quando 
P.  Toubert  (1973  b>  603  e  segs.  observa  que  no  Latium,  pelo  menos  até  ao  século  XII,  foi  muito 
escasso  o  uso  de  objectos  preciosos  para  fins  pecuniários,  está  a  confirmar  as  conclusões  de  Herlihy  a 
respeito  da  região  de  Roma,  e  não  se  entende  que  Pierre  Toubert  possa  presumir  (p.  606)  que  a  sua 
análise  tenha  posto  em  causa  o  referido  estudo  de  Herlihy. 

M  Ver  no  capítulo  3  a  n.  33. 

^  J.  Belaubre  (1986)  74;  M.  Bloch  (1933  c)  12.  17,  23;  E.  Bndrey  (1906)  166;  M.  Castaing- 
-Sicard  (1961 )  61;  R.  de  Roover  (1948)  230;  E.  Foumial  (1967)  384-385;  G.  Luzzatto  (1961  b)  99;  P. 
Spufford  (1984)  390;  id.  (1986)  xxvi.  xxvii,  id.  (1988)  131,  209.  212  e  segs.;  H.  van  Werveke  (1932) 
461-463. 

Não  parece  que  tivessem  resultado  as  medidas  tomadas  no  início  do  século  XIII  pelo  imperador  e 
pelos  príncipes  germânicos  com  o  objectivo  de  impedir  o  uso  de  lingotes  de  metal  precioso  enquanto 
meio  de  pagamento  nas  transacções  comerciais.  Acerca  desta  proibição  consultar  S.  Bolin  (1954)  13. 
P.  Spufford  ( 1988)  222  indica  que,  com  a  grande  difusão  do  ouro  proveniente  das  minas  húngaras,  o 
emprego  de  lingotes  de  prata  declinou  muito  a  partir  do  segundo  terço  do  século  XIV,  e  acrescenta 
(pp.  282-283)  que,  nas  regiões  onde  o  ouro  da  Hungria  chegou  mais  tarde,  também  se  recorreu 
durante  mais  tempo  aos  lingotes  de  prata. 

70  M.  Bloch  ( 1933  c)  1 2,  23:  P.  Spufford  (1986)  xxvi. 

P.  Spufford  (1986)  xxvii  especifica  que  o  uso  de  ouro  em  pó  para  os  pagamentos  se  limitava  à 
orla  mediterrânica. 


30 8 


Forma  II  do  dinheiro 


dinheiro  não-monetário.  É  elucidativo  recordar  que  precisamente  em  Veneza,  que  inau¬ 
gurara  o  fabrico  das  moedas  grandes  de  prata  e  lhes  mantinha  o  teor  metálico  com  uma 
notável  estabilidade,  afluíram  com  profusão  lingotes  de  prata  ao  longo  do  século  XIII, 
sendo  empregues  a  par  das  moedas71.  Além  disso,  por  todo  o  lado  fora  muito  frequente 
a  circulação  de  numerário  de  ouro  estrangeiro72;  mas  no  exterior  dos  seus  territórios  ori¬ 
ginários  as  peças  cunhadas  valiam  apenas  pelo  seu  conteúdo  metálico  e  eram  decerto 
tratadas  de  maneira  idêntica  aos  lingotes.  Como  os  lingotes  não  se  destinavam  somente 
ao  tráfico  de  longo  curso  com  outras  sociedades77,  e  como  beneficiavam  de  uma  difusão 
muito  grande  no  regime  senhorial,  servindo  para  quaisquer  pagamentos  volumosos74, 
devemos  concluir  que  o  seu  uso  se  deveu  a  pressões  internas  do  regime.  Aliás,  as  minas 
de  metal  precioso  tinham  uma  relação  mais  directa  com  os  lingotes  do  que  com  a 
moeda.  No  século  XIII  as  grandes  explorações  argentíferas  de  Freiberg,  de  Friesach  e  de 
Villa  di  Chiesa  produziram  um  enorme  número  de  lingotes,  que  se  espalharam  por  todo 
o  continente,  e  das  mais  ricas  jazidas  de  prata  descobertas  neste  período,  em  Kutná 
Hora.  o  metal  saía  no  século  XIV  sobretudo  na  forma  de  lingotes7"1.  É  incontestável  que 
as  necessidades  de  crescimento  da  Forma  II  do  dinheiro,  para  a  qual  não  se  podia  recor¬ 
rer  à  depreciação,  iam  bem  além  das  capacidades  da  cunhagem.  A  mesma  observação 
repete-se  a  propósito  do  ouro.  Como  o  desenvolvimento  de  minas  auríferas  na  área  do 
regime  senhorial  fora  precedido  pelo  regresso  à  cunhagem  deste  metal76,  podemos  infe¬ 
rir  que  havia  aumentado  a  necessidade  de  o  empregar  enquanto  meio  de  pagamento, 
de  modo  que  o  ouro  foi  sobretudo  importado  graças  ao  comércio  feito  com  a  África  sub- 
saariana'7. 


71  F.  C.  Lane  11973)  148;  P.  Spufford  0984)  359-360,  379;  id.  0986)  x.xviii. 

Quanto  ao  imponanie  pape!  desempenhado  por  Veneza  na  cunhagem  da  prata,  ver  neste  capítulo 
as  nn.  34.  48  e  64. 

72  M.  Bloeh  0933  c>  12,  13  17;  J.  Duplessv  0985)  IS;  J.  Gautier-Dalché  0  969)  64:  A.  II.  O. 
Marques  ( 1 965 )  276,  278.  28 1 . 

No  Latium,  porém,  a  crer  em  P.  Toubert  )  1973  b)  620  e  622,  a  circulação  de  moedas  de  ouro 
estrangeiras  interrompeu-se  após  a  primeira  metade  do  século  IX.  para  recomeçar  apenas  no  segundo 
quartel  do  século  XIII.  pouco  antes  de  se  voltar  à  cunhagem  deste  metal. 

7  Vários  historiadores  referem  o  uso  de  lingotes  na  aetividade  comercial  além-fronteiras:  I.  A. 
Agus  0965)  318:  .1.  A.  Gade  095! )  60;  F.  C.  Lane  (1973)  148;  R  Pemoud  (1949)  170;  P.  Spufford 
( 1986)  xxvi. 

74  M.  Bloeh  0935  c)  323;  id.  <  1953)  434;  E  Bridrey  ( 1906)  166;  F.  Foumial  0967)  384.  499:  P. 
Spufford  (1984)  388-389:  id  (1986)  xxvi;  id.  (1988)  212  e  segs. 

P.  Spufford  (1988)  213  indica  que  no  vale  do  Ródano,  durante  o  século  XIII.  era  frequente  que 
grandes  senhores  usassem  prata  não-cunhada.  em  vez  de  terras,  para  dotar  as  filhas  casadoiras  ou  as 
mulheres  viúvas. 

75  Id.  <  1984  )  359. 

7(1  A  exploração  das  minas  de  ouro  húngaras  iniciara-se  no  século  XIII,  a  crer  em  B.  H.  Slicher 
van  Bath  ( 1966  a)  106,  e  também  Ph.  Grierson  ( 1976  a)  155  menciona  a  extracçào  do  ouro  nos  territó¬ 
rios  húngaros  da  Eslováquia  e  da  Transilvânia  a  partir  do  século  XIII.  P.  Spufford  (1988)  267  escla¬ 
rece  que  já  no  princípio  desse  século  se  encontram  referências  á  mineração  ocasional  do  ouro  na 
Transilvânia,  embora  fosse  na  terceira  década  do  século  XIV  que  a  extracçào  deste  metal  passou  a 
assumir  grandes  proporções  no  reino  da  Hungria.  Erik  Fúgedi  em  <>p  nr.,  ibitl  indica  igualmente  que 
a  exploração  do  ouro,  tal  como  da  prata,  se  desenvolveu  na  primeira  metade  do  século  XIV. 

"7  J.  Day  ( 1994)  71:  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  34. 


Conteúdo  da  Forma  II  do  dinheiro 


309 


Encontram-se  com  certa  frequência  referências  à  avaliação  do  metal  precioso  a 
peso78,  o  que  aparentemente,  na  pratica,  em  nada  se  distinguiria  do  uso  de  lingotes. 
Porém,  a  fixação  da  prata  e  do  ouro  na  forma  de  lingotes  correspondeu  neste  período  a 
um  avanço  rumo  à  monetarização.  Já  não  se  tratava  de  uma  rnera  sobrevivência  de 
comportamentos  que  haviam  sido  habituais  no  período  anterior,  quando  fora  comum  o 
recurso  a  variadíssimos  bens.  tanto  de  vulgar  consumo  como  de  luxo,  para  os  fazer  cir¬ 
cular  enquanto  dinheiro.  Observa-se  agora  uma  indubitável  tendência  para  a  monetari¬ 
zação,  e  não  o  aproveitamento  ocasional  de  suportes  pecuniários  que  em  todo  o 
momento  pudessem  regressar  a  outro  tipo  de  funções.  Possivelmente  a  partir  dos  mea¬ 
dos  do  século  XIII,  os  lingotes  começaram  a  ser  marcados  com  sinais  que  lhes  garan¬ 
tiam  a  pureza  do  teor  metálico,  e  cuja  colocação  era  reservada  a  instituições  especiali¬ 
zadas,  por  vezes  as  próprias  olicinas  de  cunhagem,  que  para  isso  chegavam  a  empregar 
os  cunhos  com  que  gravavam  a  moeda79.  Em  suma.  da  Itália  até  à  Flandres  e  à  Ingla¬ 
terra,  passando  pela  Germânia,  operou-se  um  verdadeiro  processo  de  monetarização 
dos  lingotes,  que  ostentavam  símbolos  de  soberania  e  estavam  sujeitos  a  exclusivos  de 
emissão.  A  moeda  propriamente  dita  reassumia  assim,  na  Forma  II,  o  seu  lugar 
enquanto  uma  das  variantes  do  dinheiro-bens  preciosos,  o  que  mais  radicalmente  desta¬ 
cava  os  âmbitos  da  Forma  I  e  da  Forma  II  do  dinheiro. 

Quando  passaram  a  circular  com  abundância  moedas  de  prata  de  valor  elevado, 
bem  como  moedas  de  ouro,  as  quais  não  podiam  ser  tocadas  por  outras  mãos  que  não 
fossem  as  de  ricos  e  poderosos,  e  que  estavam  inevitavelmente  relacionadas  com  situa¬ 
ções  de  prestígio,  os  lingotes  foram-se  pouco  a  pouco  desmonetarizando.  É  certo  que 
os  metais  preciosos  não-cunhados  funcionaram  enquanto  dinheiro  até  ao  final  do 
período,  embora  as  marcas  de  garantia  caíssem  em  desuso.  Nas  cidades  hanseáticas  os 
lingotes  de  prata  continuaram  até  ao  termo  do  século  XIV  a  ostentar  o  símbolo  da 
pureza  do  seu  teor  metálico80,  mas  nas  cidades  da  Flandres  a  gravação  dos  lingotes  de 
prata  deixou  de  ser  praticada  após  os  meados  desse  século81,  e  antes  disso  já  o  havia 


x  G  Duby  1 1973)  278-2X0  menciona  o  emprego  de  metal  a  peso  como  meio  de  pagamento  nas 
grandes  iransacções.  Na  Normandia.  Th.  N.  Bisson  (1979)  24  indica  que  os  pagamentos  avultados 
eram  feitos,  ou  estipulados,  em  moeda  a  peso.  tomando-se  esta  prática  usual  no  segundo  terço  do 
século,  para  declinar  no  seu  final  Com  uma  cronologia  inversa.  F.  Dumas-Dubourg  (1971 1  62  mostra 
que  o  número  de  pagamentos  em  que  se  incluía  prata  e  ouro  a  peso.  embora  pouco  elevado,  aumentou 
na  Francia  Occidcntalis  do  século  X  para  o  século  XI.  Também  no  começo  do  período,  mas  no  Lan- 
guedoc.  Thomas  N.  Bisson  em  up.  t  ir..  63  esclarece  que  não  eram  raros  os  pagamentos  efectuados  em 
metal  precioso  a  peso.  For  seu  lado.  M.  Castaing-Sicard  ( 1961 )  61-66  relata  que  no  Languedoc.  até  ao 
século  XIII.  foram  frequentes  os  pagamemos  em  prata  a  peso.  e  acrescenta  (p.  65 >  que  por  ocasião  de 
perturbações  monetárias  se  esigia  esta  modalidade  de  pagamento.  No  Forez.  no  século  XJ1  e  no  prin¬ 
cípio  do  século  seguinte,  os  grandes  pagamentos  eram  efectuados  com  facilidade  em  prata  a  peso,  a 
crer  em  E.  Foumial  ( 1967)  499.  c  o  mesmo  autor,  em  <  1963)  588-589.  recorda  que  voltaram  a  sê-lo 
duranie  o  terceiro  quartel  do  século  XIV.  em  resposta  às  perturbações  monetárias  Finalmcnte.  no 
reino  astur-leonês.  na  abertura  do  período,  foi  bastante  comum  o  uso  de  prata  a  peso  e  de  moeda  a 
peso.  cosoante  leio  em  C.  Sanchez- Albornoz  1 1980)  88  e  93. 

4  R.  dc  Roover  1 1948.1  230.  244  n.  67;  F.  C.  Lane  ( 1973»  148;  R.  C.  Mueller  1 1984)  201:  P.  Spuf- 
fordt  1984)  390;  jd.  (1988)  210-217.  220 
s"  R.  de  Roover  ( 1948)  244  n.  73. 

Sl  Id..  ibid..  232;  P.  Spufford  í  1988)  278. 


310 


Forma  11  do  dinheiro 


sido  em  Veneza82.  A  aparência  exterior  dos  lingotes  voltou  a  divergir  das  moedas, 
agora  que  havia  um  numerário  suficientemente  valioso  e  prestigiado  para  constituir 
como  que  verdadeiros  lingotes  cunhados.  Com  efeito,  possuindo  um  valor  nominal 
muito  próximo  do  valor  atribuído  ao  seu  conteúdo  metálico,  e  sistematicamente  sujei¬ 
tas  a  operações  de  pesagem  e  de  verificação83,  as  grandes  moedas  de  prata  e  as  moedas 
áureas  serviam  na  realidade  como  lingotes  de  outro  formato84,  com  a  diferença  suple¬ 
mentar  de  apresentarem  sinais  de  soberania.  O  círculo  encerrava-se,  porém,  quando  as 
moedas  eram  fundidas  e  transformadas  em  lingotes,  o  que  sucedeu  mesmo  numa 
região  e  numa  época  tão  intensamente  monetarizadas  como  a  Itália  do  século  XIV85. 
Afinal,  o  uso  das  moedas  enquanto  lingotes  acabou  em  muitos  casos  por  converter 
outra  vez  em  lingote  a  própria  forma  monetária. 

Enquanto  isto  se  passava,  as  moedas  mais  prestigiadas,  nomeadamente  as  peças  de 
ouro  de  Florença,  para  evitarem  as  perdas  de  metal  precioso  devidas  a  cortes  fraudulen¬ 
tos  ou  ao  mero  atrito,  eram  encerradas  em  sacos  de  couro,  selados  com  a  estampilha  de 
um  departamento  oficial86.  E  outras  cidades  toscanas  reproduziram  esta  prática87. 
Neste  caso  as  moedas  circulavam  de  tal  maneira  que  se  aproximavam  economicamente 
de  lingotes,  já  que  a  sua  alma  monetária  ficava  oculta  por  um  corpo  que  se  limitava  a 
garantir-lhes  o  peso  e  o  conteúdo  metálico.  Mas  que  fazer  quando  começaram  a  difun- 
dir-se  bolsas  com  selos  falsificados88?  Tratava-se  em  qualquer  caso  de  modalidades 
da  Forma  II  do  dinheiro,  e  nada  as  podia  poupar  às  tensões  inerentes  a  esta  esfera  de 
circulação. 


8-  P.  Spufford  (1984)  390  afirma  que  a  partir  de  1284,  quando  Veneza  passou  a  emitir  os  ducados 
de  ouro.  se  tomou  desnecessária  a  instituição  encarregada  de  certificar  a  pureza  dos  lingotes  deste 
metal.  Todavia,  id.  ( 1988 )  2 1 7  indica  que  em  Veneza  a  marcação  dos  lingotes  de  prata  com  a  garantia 
do  seu  teor  era  realizada  nas  oficinas  de  cunhagem  e.  pelo  menos  desde  1273  até  1362,  se  recorria  aos 
próprios  cunhos  usados  na  gravação  das  moedas.  Qual  o  motivo  que  tomava  inútil  para  o  ouro  uma 
prática  que  continuava  a  ter  lugar  para  a  prata? 

w  M.  Bloch  (1935  c)  323;  P.  Spufford  (1984)  390. 

84  Já  Nicole  Oresme  observara  que  a  pesagem  habitual  da  moeda  a  convertia  em  lingote,  como 
leio  em  E.  Bridrey  ( 1906)  257-258. 

85  P.  Spufford  (1988)  216. 

88  M.Bemocchi  (1982)  21-22. 

87  Id.,  ibid..  28. 

88  ld„  ibid..  23. 


SECÇÃO  III 

FORMA  III  DO  DINHEIRO 


Vimos  que  a  Forma  II  do  dinheiro  se  desenvolveu  devido  às  necessidades  internas 
da  aristocracia.  Mas  a  existência  das  cidades  enquanto  senhores  colectivos  suscitou  na 
classe  dominante  problemas  próprios,  que  explicam  o  aparecimento  de  outra  modali¬ 
dade  pecuniária.  Rapidamente  as  emissões  fiduciárias  teceram  com  o  tráfico  mercantil 
de  longo  curso  uma  rede  impossível  de  deslindar,  e  que  abraçou  todo  o  regime  senho¬ 
rial  num  quadro  de  circulação  único.  Afinal,  a  utilização  conjunta  das  Formas  II  e  III 
do  dinheiro  garantiu  à  aristocracia  um  elevadíssimo  grau  de  coesão,  possibilitando-lhe 
o  controlo  completo  da  Forma  I  e  assegurando,  assim,  a  eficácia  das  relações  de  depen¬ 
dência  impessoais. 


CAPÍTULO  9 


ESTRUTURAS  FAMILIARES  NO  MEIO  URBANO 


Quando  analisei  a  evolução  das  cidades  neste  período  (na  secção  IV  da  Parte  II) 
mostrei  que  elas  se  desenvolveram  como  verdadeiros  senhores  colectivos.  No  entanto, 
pode  parecer  estranho  que  tal  houvesse  sucedido,  porque  na  realidade  o  meio  urbano 
estava  muitíssimo  fragmentado  e  as  divisões  reproduziam-se  em  sentidos  diversos  e  em 
vários  níveis.  Com  os  dados  que  forneci,  é  efectivamente  inexplicável  que  das  rupturas 
que  existiam  e  se  multiplicavam  no  interior  de  uma  cidade  tivesse  resultado  uma  colec- 
tividade  coerente,  capaz  de  uma  actuação  unificada.  Vou  descrever  neste  capítulo  as 
principais  linhas  de  clivagem  que  separavam  a  população  urbana  numa  variedade  de 
grupos  menores.  Deixarei  de  lado  a  confusão  de  jurisdições  senhoriais  que  durante 
muito  tempo  se  entremearam  no  espaço  urbano,  porque  se  tratava  geralmente  de  uma 
herança  de  outras  eras,  condenada  ao  declínio,  e  parece-me  que  por  si  só  a  diversidade 
de  estatutos  legais  não  levantaria  obstáculos  sérios  à  coesão  social  dos  habitantes.  O 
que  aqui  me  interessa  são  as  cisões  geradas  no  próprio  processo  de  desenvolvimento 
das  cidades.  No  capítulo  seguinte  analisarei  os  mecanismos  que,  em  cada  centro 
urbano,  permitiram  conjugar  todos  esses  grupos  num  senhor  colectivo. 


a.  Estrutura  das  famílias  da  elite 

As  cidades  encontravam-se,  acima  de  tudo,  divididas  em  famílias,  que  muitas  vezes 
se  opunham  em  ásperos  antagonismos.  Quando  sabemos  que  a  solidariedade  dos  paren¬ 
tes  tinha  um  campo  privilegiado  de  exercício  nas  vinganças  privadas  e  nos  testemunhos 
em  justiça',  podemos  concluir  que  a  coesão  no  interior  do  âmbito  familiar  se  afirmava 
através  da  discórdia  entre  famílias.  Por  outro  lado,  o  facto  de  as  famílias  urbanas  esta¬ 
rem  inseridas  na  vasta  família  artificial  que  era  a  cidade  certamente  lhes  afectou  a 
estrutura,  diferenciando-as  das  famílias  no  meio  rural,  tanto  servis  como  aristocráticas. 
Começo  por  estudar  os  sistemas  de  família  existentes  na  elite  urbana,  que  se  distin¬ 
guiam  do  modelo  vigente  entre  os  demais  senhores. 


1  J.  Schneider  ( 1950)  1 17  faz  esta  reflexão  a  propósito  de  Metz  nos  séculos  XIII  e  XIV,  mas  creio 
que  se  trata  de  uma  questão  de  pertinência  geral 


Forma  Ul  do  dinheiro 


316 


1 

Tal  como  se  passou  com  a  aristocracia  dos  campos,  na  camada  superior  das  cidades 
constituíram-se  linhagens,  mas  em  cada  geração  a  unidade  familiar  era  mais  ampla  do 
que  sucedia  entre  os  restantes  senhores  ou,  pelo  menos,  abria-se  a  uma  rede  de  relações 
horizontais,  em  vez  de  se  cingir  ao  eixo  vertical  que  lhe  assegurava  a  continuidade  no 
tempo2.  Basta  constatar  uma  certa  persistência,  ou  talvez  um  revivescimento,  do  cogna- 
tismo  na  elite  urbana’  para  deduzirmos  que  o  perímetro  das  unidades  familiares  devia 


-  D.  O.  Hughes  1 1975)  3  sustenta  que.  contrariamente  à  tese  deíendida  pela  historiografia  tradicio¬ 
nal,  o  desenvolvimento  urbano,  em  vez  de  nuclearizar  as  famílias,  correspondeu  à  formação  de  siste¬ 
mas  familiares  sempre  mais  complexos.  Observações  do  mesmo  tipo  são  feitas  por  J.  Heers  ( 1974) 
57-58  a  respeito  da  Itália  e  por  C.  Lansing  ( 1991 1  xii  a  propósito  de  Rorença. 

H.  Bresc  (1986)  389  esclarece  que  na  segunda  metade  do  período  o  eognatismo  não  manteve 
apenas  algumas  posições  entre  a  elite  urbana  nas  regiões  de  influencia  latina,  mas  igualmente  nas  de 
tradição  germânica,  e  dá  o  exemplo  de  Metz  no  século  XIII.  Referindo-se  também  a  Metz.  M.  Parisse 
(org.  1977)  168  considera  que,  apesar  de  se  ter  desenvolvido  uma  modalidade  de  primogenitura,  as 
relações  por  via  materna  eram  muito  importantes.  Ainda  a  respeito  do  eognatismo  em  Metz,  ver  J. 
Schneider  (1950)  127  e  146.  Analisando  a  situação  em  Génova.  E.  Grendi  1 1975)  273  previne  que  nos 
faltam  conhecimentos  para  estabelecer  se  o  eixo  de  descendência  agnático  teria  sido  o  elemento  domi¬ 
nante,  ou  mesmo  um  dos  elementos  necessários,  no  processo  de  formação  dos  grupos  familiares,  e  em 
seguida  (p.  277)  põe  em  dúvida  o  prevalecimento  do  agnatismo.  D.  O.  Hughes  (1975)  5-7.  13  e  22. 
todavia,  insiste  na  importância  do  agnatismo  para  a  constituição  das  linhagens  em  Génova,  as  quais  se 
associaram  posteriormente  em  grupos  familiares;  mas  é  certo  que  esta  historiadora  afirma  (pp.  1 1-12) 
que  se  desconhece  o  modo  como  o  chefe  da  família  governava  intemamente  as  linhagens.  A  mesma 
autora,  em  (1976)  939.  continua  a  defender  o  predomínio  do  sistema  patrilinear  em  Génova.  Já  nas 
cidades  da  Toscana,  no  finai  do  período,  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  352  e  356  consideram  que  o  eixo  de 
descendência  agnático  não  eliminara  completamente  o  significado  do  parentesco  por  via  feminina.  No 
entanto,  estudando  a  formação  dos  grupos  familiares  em  Pisa  durante  os  séculos  XI  e  XII,  G.  Rossetti 
(1977  a)  175  refere  apenas  a  via  de  descendência  masculina.  Numa  perspectiva  semelhante,  Ch.  Kla- 
pisch-Zuber  (1980)  78-79  atribui  a  exclusividade  ao  sistema  patrilinear  e  à  linha  de  descendência 
varonil  em  Rorença.  na  segunda  metade  do  período,  e  as  mesmas  conclusões  são  reafirmadas  por  C. 
Lansing  (1991)  xii,  21,  29.  37,  40,  109  e  141  no  seu  estudo  sobre  a  elite  florentina  no  século  XIII.  No 
entanto.  Ch.  Klapisch  (1976)  963  indica  a  importância  do  relacionamento  com  os  afins  e  com  os 
parentes  do  lado  materno  na  Florença  do  final  do  período  e.  do  mesmo  modo.  quando  procede  a  uma 
análise  mais  detalhada,  Carol  Lansing  em  <>p.  <•//.,  29  e  142  mostra  que  os  elos  de  afinidade  e  a  solida¬ 
riedade  com  os  parentes  do  lado  materno  puderam  desempenhar  um  papel  crucial  nas  estratégias 
familiares  do  estrato  dominante  de  Florença,  sobretudo  (pp.  xii-xiii.  142)  a  partir  das  últimas  décadas 
do  século  XIII.  Além  disso,  esta  historiadora  acrescenta  (pp.  141-142)  que  na  elite  os  dotes  atribuídos 
às  mulheres  eram  tão  consideráveis  que.  com  o  decorrer  do  tempo,  foi-se  formando  uma  rede  de 
heranças  de  origem  feminina,  distinta  do  sistema  de  heranças  dominante,  o  qual  passava  exclusiva- 
mente  pela  via  masculina.  Vem  a  propósito  intercalar  uma  observação.  Parece  que  a  adopçâo  de  uma 
perspectiva  feminista  leva  algumas  historiadoras  a  sustentar,  como  sc  sc  tratasse  de  uma  questão  de 
princípio,  o  prevalecimento  exclusivo  do  agnatismo,  para  em  seguida,  quando  procedem  à  análise 
concreta,  se  verem  na  necessidade  de  recorrer  a  uma  postura  menos  rígida,  mostrando  que  a  mobiliza¬ 
ção  das  solidariedades  familiares  por  via  feminina  pôde,  em  certas  circunstâncias,  assumir  uma 
grande  importância.  Os  valores  do  «-masculino»  e  do  «feminino»,  tal  como  a  ideologia  feminista  os 
considera,  são  meramente  convencionais,  quando  não  mesmo  míticos,  o  que  não  impede  as  -  e  os  - 
feministas  de  confundirem  estes  valores  tanto  com  os  caracteres  biológicos  como  com  as  posições 
ocupadas  socialmente  nos  sistemas  familiares.  Daí  resulta  a  improcedência  científica  do  feminismo 
enquanto  quadro  geral  de  reflexões.  Continuando  o  périplo  acerca  da  existência  de  formas  de  cogna- 
tisino  na  elite  urbana,  cabe  mencionar  o  caso  de  Bishop’s  Lynn,  que  no  final  do  período  era  uma 


Estruturas  familiares  no  meio  urhuiio 


s  17 


forçosamente  ser  mais  vasto  e.  ao  mesmo  tempo,  estaria  desenhado  com  menos  rigor 
do  que  na  aristocracia  rural,  que  evoluiu  toda  ela  para  um  estrito  agnatismo. 

Mesmo  tendo  em  conta  que  não  se  deve  confundir  a  atribuição  sistemática  da  chefia 
familiar  ao  filho  mais  velho  com  um  sistema  de  primogenitura  rigorosa  na  herança  dos 
bens  (ver  o  capítulo  6.a),  parece  indubitável  que  a  formação  de  linhagens  constituiu  um 
processo  mais  contraditório  entre  a  aristocracia  urbana  do  que  entre  a  rural.  Em  Metz, 
por  exemplo,  onde  o  direito  tradicional  requeria  a  partilha  igualitária  dos  bens  por 
todos  os  herdeiros,  só  o  emprego  de  artifícios  jurídicos  permitiu  que  os  chefes  das 
linhagens  da  elite  retirassem  do  património  familiar  extensões  consideráveis  de  terra  e 
privilegiassem  um  dos  descendentes,  consoante  critérios  de  idade  ou  de  aptidões  pes¬ 
soais4.  Também  nas  cidades  provençais  se  adoptou  uma  forma  de  partilha  igualitária5. 
Na  mesma  área  de  tradições,  em  Montpellier,  a  legislação  do  começo  do  século  XIII 
estimulou  a  liberdade  testamentária  e  estabeleceu  que  só  uma  parte  muito  reduzida  do 
património  fosse  distribuída  pela  generalidade  dos  herdeiros,  de  maneira  que  os  filhos 
começaram  a  ser  favorecidos  em  detrimento  das  filhas  e  os  filhos  mais  velhos  em  pre¬ 
juízo  dos  mais  novos,  desenhando-se  assim  o  eixo  de  continuidade  das  linhagens6.  E  se 
daqui  passarmos  para  leste  dos  Alpes,  nas  cidades  do  golfo  da  Ligúria,  durante  o  século 
XII  a  tradição  da  divisibilidade  da  herança  entre  os  filhos,  registada  nos  testamentos, 
começou  a  entrar  em  contradição  com  o  desejo  manifestado  pelos  chefes  das  famílias 
da  elite  de  beneficiar  um  ou  dois  filhos,  destinando-os  a  desempenharem  funções  diri¬ 
gentes  na  política  urbana7.  Aliás,  em  Génova  a  repartição  da  herança  não  implicava  o 
termo  obrigatório  de  toda  a  vida  em  comum  e  era  frequente  que  os  irmãos  continuas¬ 
sem  a  coabitar  depois  da  morte  do  pai*.  A  mesma  contradição  detecta-se  em  Veneza, 
onde.  apesar  da  ausência  de  primogenitura  e  da  distribuição  do  património  entre  os 
filhos,  a  colocação  de  algumas  filhas  em  conventos  e  a  restrição  do  número  de  filhos 
autorizados  a  casarem-se  contribuía  para  definir  um  eixo  de  linhagem9.  Em  Florença, 
durante  o  século  XIII.  não  só  a  elite  procedia  à  partilha  igualitária  dos  bens  entre  todos 


cidade  inglesa  bastante  apreciável,  onde  J.  Beauroy  ( 1992)  177.  180  e  187  determinou,  num  acervo  de 
cento  e  vinte  e  cinco  testamentos,  na  sua  maior  parte  emanados  de  membros  da  elite  urbana,  entre  a 
penúltima  década  do  século  XIII  e  o  primeiro  quartel  do  século  XV'.  que,  apesar  de  prevalecerem  os 
herdeiros  masculinos,  a  principal  preocupação  dos  testadores  era  garantir  o  conforto  material  das 
esposas,  que  ficavam  além  disso  investidas  de  autondade  sobre  os  filhos  órfãos.  Em  Portugal,  se 
seguimios  a  apreciação  de  J.  Mattoso  [1994  b|  221-222  e  228.  o  cognatismo  teria  tido  uma  relevância 
assinalável  entre  a  elite  urbana  dos  pequenos  centros  do  interior,  mas  não  nas  cidades  principais  do 
litoral. 

4  J.  Schneider  ( 1950)  354-355,  455. 

?  R.  Aubenas  (1936)  538. 

Escrevendo  a  respeito  de  Tarascon  no  século  XIV,  quando  este  centro  urbano  era  um  dos  mais 
importantes  da  Provença.  M.  Hebert  ( 1979)  60  observa  que  nada  se  sabe  acerca  das  estruturas  familia¬ 
res,  mas  acrescenta  (p.  133)  que  as  famílias  da  elite  apresentavam  uma  elevada  continuidade. 

6  D.  O.  Hughes  ( 1976)  932.  937. 

7  Id.  ( 1975)  10-1 1.  16;  id.  (1976)  936,  938-939.  942, 

Em  Génova,  segundo  afirma  E.  Grendi  ( 1975)  28 1 .  a  sucessão  por  primogenitura  só  apareceu  tar¬ 
diamente. 

8  D.  O.  Hughes  ( 1975)  20. 

9\1.  Beard  (1938)  111. 


318 


Forma  III  do  dinheiro 


os  filhos  varões10,  podendo  aliás  este  património  manter-se  indiviso11,  como  nem 
sequer  o  número  de  filhos  autorizados  a  casarem-se  parece  ter  sido  sujeito  a  limita¬ 
ções12.  Não  se  verificavam  então  quaisquer  esboços  de  primogenitura13.  Só  no  final  do 
período,  e  mesmo  bastante  depois,  a  regra  da  repartição  igualitária  da  herança  entre  os 
filhos  masculinos  começou  a  chocar,  em  Florença,  com  as  tentativas,  por  parte  do  chefe 
da  família,  de  beneficiar  o  primogénito14.  Por  outro  lado.  todavia,  devemos  decerto 
extrair  uma  lição  de  carácter  genérico  do  que  sabemos  ter  acontecido  nas  cidades  ingle¬ 
sas  do  final  do  período,  em  que  o  texto  dos  testamentos  oferecia  muitas  vezes  um  indí¬ 
cio  enganador,  pois  podia  suceder  que  eles  fossem  redigidos  após  actos  de  doação  que 
beneficiavam  certos  membros  da  família,  por  exemplo  as  filhas  casadas,  sem  que  tais 
parentes,  portanto,  ficassem  mencionados15. 

Além  de  o  eixo  das  linhagens  estar  definido  com  menos  precisão  nas  cidades  do  que 
nos  campos,  as  margens  de  cada  unidade  familiar  da  elite  eram  pouco  nítidas10,  pois 
girava  em  seu  tomo  um  enxame  variegado  de  clientes,  amigos  e  associados17.  Nos  cen¬ 
tros  urbanos  a  sul  dos  Alpes,  assim  como  na  Inglaterra  e,  na  Germânia,  nas  cidades  de 
império,  as  famílias  mais  ricas  rodeavam-se  de  uma  corte  de  miseráveis18.  E  no  caso  de 
uma  cidade  inglesa  estão  documentados  os  elos  consideravelmente  fortes  unindo  os 
núcleos  conjugais  da  elite  aos  seus  serv  idores  e  aprendizes19,  que  formavam  uma  clien¬ 
tela  humilde.  Por  vezes  mesmo  é  difícil  destrinçar  clientes  e  elementos  da  camada  infe¬ 
rior  da  família,  como  sucedia  por  exemplo  em  Metz,  quando  os  membros  da  elite  recor¬ 
riam  aos  seus  criados  particulares  enquanto  intermediários  em  certos  tipos  de  opera¬ 
ções  financeiras20,  ou  em  Saragoça,  onde  os  documentos  notariais  que  mencionavam 
contratos  de  angariação  de  criados  no  primeiro  terço  do  século  XIV  são  comparáveis 
aos  diplomas  que  agregavam  pessoas  a  uma  família  ampla21.  Neste  contexto,  pode  defi- 


10  C.  Lansing(  199 1)37,  38. 

11  Id.  (1991)  38. 

17  D.  Herlihy  (1995  a)  213;  C.  Lansing  ( 1991 )  34. 

13  C.  Lansingl  199 1)38. 

14  Ch.  Klapisch-Zuber  (1980)  78,  101. 

15  Isto  ier-se-ia  passado  em  Inglaterra  no  final  do  período,  segundo  J.  Beauroy  ( 1992)  175.  em 
especial  relativamente  às  doações  que  beneficiavam  as  filhas  casadas. 

I(’  A  propósito  do  Mâconnais.  G.  Duby  (1953)  401-402  afirma  que  o  elevado  grau  de  mobilidade 
das  fortunas  dos  cidadãos  determinou  que  as  suas  famílias  tivessem  uma  coesão  menor  e  se  dispersas¬ 
sem  mais  facilmente  do  que  sucedia  no  meio  rural.  Invocando  o  mesmo  argumento  da  mobilidade  das 
fortunas,  que  seria  mais  acentuada  na  cidade  do  que  no  campo,  tanto  no  sentido  ascendente  como  no 
descendente,  Georges  Duby,  na  sua  colaboração  em  E.  Perroy  et  al.  (1955)  261,  pretende  igualmente 
que  os  elos  familiares  eram  mais  fracos  na  sociedade  urbana  do  que  na  rural. 

17  Acerca  das  clientelas  urbanas  ver.  em  geral.  M.  Bloch  (1939-1940)  1  193.  No  caso  das  cidades 
hanseáticas  ver  F.  Rõng  ( 1967  )  36. 

18  M.  Mollatl  1978)  201. 

19  Os  cento  e  vinte  e  cinco  testamentos  redigidos  entre  a  penúltima  década  do  século  XIII  e  o  pri¬ 
meiro  quartel  do  século  XV,  e  na  sua  maior  parte  emanados  de  membros  da  elite  de  Bishop’s  Lynn. 
que  era  então  uma  cidade  inglesa  importante,  incluem  numerosos  legados  de  que  deviam  beneficiar 
servidores  e  aprendizes,  a  crer  em  J.  Beauroy  (1992)  1 78  e  187 

20  J.  Schneider  ( 1 950)  273  n.  3. 

21  J.-P.  Barraquéf  1991)  365. 


Estruturas  familiares  no  meto  urbano 


319 


nir-se  uma  forma  de  família  artificial  centrada  numa  unidade  familiar  mediante  a  asso¬ 
ciação  de  elementos  dispersos  exteriores,  e  este  facto  é  suficiente  para  nos  recordar  que 
não  existiu,  em  toda  esta  época,  qualquer  separação  clara  entre  parentesco  de  sangue  e 
parentesco  artificial.  Ao  rodarem  na  órbita  de  famílias  possuidoras  de  uma  indiscutível 
base  biológica,  os  clientes  introduziram  nesses  vínculos  um  carácter  artificial. 

Mas  será  que  as  relações  artificiais,  unindo  as  células  familiares  em  redes  vastas, 
permitiam  ultrapassar  as  clivagens  e  dar  às  cidades  uma  coerência  global?  Vamos  ver 
que,  na  realidade,  foi  o  contrário  que  aconteceu. 


2 

Sendo  delimitadas  de  maneira  menos  rígida  do  que  sucedia  na  aristocracia  rural,  era 
mais  fácil  que  as  unidades  familiares  da  elite  urbana  se  articulassem  reciprocamente. 
De  certo  modo,  as  teias  subjacentes  à  formação  de  famílias  amplas  foram  favorecidas 
pela  frequência  com  que  se  estabeleceram  elos  de  afinidade  no  interior  da  elite  mercan¬ 
til22.  Nas  cidades  da  Flandres,  por  exemplo,  foi  observada  a  disposição  dos  membros 
do  estrato  superior  para  se  casarem  entre  si23,  e  a  mesma  tendência  para  a  endogamia 
verificou-se  em  Reims24.  Como  as  relações  matrimoniais  dão  normalmente  origem  a 
relações  de  sangue,  no  decurso  das  gerações  mesclavam-se  os  vínculos  de  afinidade  e 
os  de  descendência.  Em  Lübeck,  nas  últimas  décadas  do  século  XIV,  a  maior  parte  dos 
membros  do  conselho  estava  unida  pelo  parentesco  em  terceiro  grau25,  tecendo  uma 
teia  tão  densa  que  pôde  ser  usada  para  preservar  da  concorrência  os  negócios  locais. 
Com  efeito,  já  no  século  XV  os  grandes  mercadores  da  capital  da  Hansa  procuraram 
opor-se  à  penetração  dos  financeiros  italianos  e,  para  autorizarem  um  ramo  de  uma  das 
mais  importantes  casas  bancárias  florentinas  a  encarregar-se  da  transferência  de  fundos 
eclesiásticos  para  Roma,  impuseram,  entre  outras  condições,  que  o  gerente  desse  ramo 
da  companhia  encontrasse  esposa  em  Lübeck,  de  maneira  a  ficar  assegurada  a  sua  inte¬ 
gração  na  comunidade  local26.  E  como  os  profissionais  do  tráfico  de  longo  curso  não 
confinavam  a  sua  actividade  aos  limites  da  cidade  natal,  mas  estabeleciam  colónias  ou 
entrepostos  noutros  centros  urbanos,  quando  não  presidiam  mesmo  à  fundação  de  cida¬ 
des  novas,  as  relações  de  parentesco  podiam  unir  a  elite  de  vastas  áreas,  por  vezes  a 


22  R.  Pemoud  (1948)  234. 

Em  Génova,  D.  O.  Hughes  ( 1975)  12,  que  defende  o  prevalecimento  do  agnatismo  no  desenvolvi¬ 
mento  do  sistema  familiar  da  elite  (ver  neste  capítulo  a  n.  3),  afirma  que  os  vínculos  resultantes  do 
casamento  eram  muno  mais  ténues  do  que  os  determinados  pela  linhagem.  Todavia,  em  (1976)  944- 
-945  esta  historiadora  mostra  a  importância  das  relações  matrimoniais  para  a  consolidação  dos  grupos 
familiares  genoveses  e,  na  mesma  perspectiva,  defende  em  (1977)  1 10  que  no  final  do  período  a  ten¬ 
dência  para  a  exogamia  diminuiu  na  elite  daquela  cidade.  Consultar  a  este  respeito  a  n.  57.  Uma  vez 
mais  a  análise  concreta  permitiu  a  Diane  Owen  Hughes  -  felizmente  -  ultrapassar  as  limitações  dos 
«eus  postulados  feministas. 

23  R.  Pemoud  (1948)  148. 

24  P.  Desportes  ( 1979)  283. 

25  Ph.  Dollinger  (1964)  167. 

26  M.  Beard  (1938)  97. 


320 


Forma  lll  do  dinheiro 


enorme  distância.  Na  origem  da  Hansa  parece  terem  estado  os  laços  familiares  criados 
pelos  grandes  homens  de  negócios  à  medida  que,  com  o  movimento  rumo  ao  leste, 
ocorriam  as  migrações  de  uma  cidade  para  outra;  nesta  perspectiva,  a  rede  dos  paren¬ 
tescos  teria  precedido  a  constituição  da  liga  mercantil,  e  no  começo  do  século  XIV  os 
governos  das  cidades  hanseáticas  cabiam  a  famílias  aparentadas  entre  si27.  Associados 
na  detenção  dos  principais  cargos  governativos,  os  comerciantes  mais  prósperos  encon¬ 
travam-se  presos  também  por  laços  familiares. 

Mas  ao  observarmos  que  nalguns  casos,  por  exemplo  em  Colónia  no  século  XII,  o 
governo  urbano  detinha  dentro  de  muros  um  apreciável  conjunto  de  propriedades2®, 
seria  errado  imaginar  que  isto  bastasse  para  assegurar  a  coesão  interna  da  elite.  A  vidaj 
política,  assim  como  podia  pressionar  a  uma  convergência  de  preocupações,  constituí^ 
igualmente  um  poderoso  factor  de  discórdia,  e  as  relações  matrimoniais  entre  membro^ 
de  unidades  familiares  distintas  nunca  se  revelaram  suficientes,  por  si  só,  para  contra-j 
balançar  os  motivos  de  divisão29.  Aliás,  julgo  que  na  maior  parte  das  regiões  nem  eu 
muito  corrente  que  o  governo  de  uma  cidade  detivesse  em  comum  um  montante  signifi¬ 
cativo  de  propriedades  nem  esta  prática  tendia  a  aumentar  ao  longo  do  período30,  ( 
quando  acontecia  que  houvesse  propriedades  urbanas  comuns  ou  elas  eram  cedidas  I 
particulares  no  termo  de  um  prazo  relativamente  breve31  ou  a  sua  utilização  era  arren- 


27  F.  Rõrig  (1967)  36.  Consultar  igualmente:  R.  Pemoud  (1948)  220-221.  1 

28  P.  Strait  (1974)  34-35.  j 

29  Na  elite  genovesa,  por  exemplo,  não  ocorriam  em  geral  casamentos  entre  membros  de  famíliM 
inimigas,  consoante  esclarece  D.  O.  Hughes  (1975)  12 

30  Embora  em  França  os  centros  urbanos  só  muito  raramente  possuíssem  bosques,  na  Germânà 

tal  situação  foi  comum  tanto  nas  cidades  grandes  como  nas  pequenas,  consoante  indica  M.  Devèa 
(1966)  CCXXXV  375.  Note-se,  todavia,  que  no  começo  do  período,  a  crer  em  J.  Hecrs  (1990)  210 
não  se  verificava  qualquer  concentração  das  actividades  económicas  nas  cidades  germânicas.  Na  ItA 
lia,  G.  Banti  et  al.  ( 1971 )  131-133  e  230-232  dão  alguns  exemplos  da  concessão  de  incultos  por  impo 
radores  a  colectividades  urbanas  ou,  mais  restntamente.  ao  conjunto  da  elite  de  uma  cidade,  e  referea 
noutra  passagem  (pp.  265-266)  a  existência  de  bens  públicos  pertencentes  a  cidades,  mas  trata-se  àt 
casos  do  final  do  século  X  e  do  início  do  século  XI  Também  na  Itália,  e  com  os  mesmos  limites  cro 
nológicos,  ver  G.  Fasoli  et  al.  (1966)  299.  Em  Inglaterra  sabemos,  com  H.  R.  Loyn  ( 1963)  371,  qw 
no  final  da  época  anglo-saxónica  os  cidadãos  compravam  por  vezes  colectivamente  igrejas  e  terras  d( 
cultivo  ou  de  pastoreio  e  alugavam  em  conjunto  oficinas  de  cunhagem.  Mas  na  Londres  do  sécuk 
XIII,  segundo  G.  A.  Williams  (1963)  89-90.  era  muito  escassa  a  propriedade  comum  da  cidade,  mo»-] 
mando-se  o  governo  urbano  relutante  em  proceder  a  investimentos  deste  tipo.  i 

Acerca  desta  questão  convém  ainda  recordar,  na  Parte  II,  as  nn  23  e  42  a  45  do  capítulo  132 
Vemos  aí  que  a  propriedade  colectiva  dos  governos  urbanos  nas  áreas  rurais  dominadas  pelas  respec¬ 
tivas  cidades  se  exercia  mais  sobre  direitos  e  privilégios  do  que  sobre  senhorias,  e  que  tais  direitos 
permitiam  precisamente  que  os  membros  da  elite  adquirissem  senhorias. 

31  Nos  territórios  resultantes  da  colonização  germânica  ao  longo  da  costa  báltica  e.  mais  a  sul,  u 
Silésia,  R,  Koebner  (1966)  90  menciona  a  fundação  de  centros  urbanos  dotados  de  extensões  conside¬ 
ráveis  de  terra  arável,  a  qual  podia  ser  adquirida  pelos  cidadãos.  Será  que  o  mesmo  sucedeu  naquelas 
cidades  dos  Eslavos  ocidentais  que,  nos  séculos  XIII  e  XIV,  segundo  indica  A  Gieysztor  (1963)  186, 
adoptaram  o  direito  germânico  e  passaram  a  deter  terras  cultiváveis?  A.  Castagnetti  (1974)  367-374 
relata  que  no  final  do  século  XII  a  comuna  de  Verona  procedeu  à  secagem  e  â  preparação  de  uma  área 
pantanosa,  que  havia  pertencido  à  coroa  e  passara  a  ser  propriedade  colectiva  da  cidade:  pouco  depois 
(pp  375  e  segs.)  a  comuna  iniciou  o  desbravamento  destas  terras,  distribuindo-as  em  seguida  entre  os 
cidadãos. 


Estruturas  familiares  fív  meio  urbano 


321 


dada3-.  Este  tipo  de  situações  não  pode  explicar-se  apenas  pelo  facto  de  o  desenvolvi¬ 
mento  da  senhoria  impessoal  ser  para  a  cidade,  enquanto  senhor  colectivo,  um  anseio 
estratégico  muito  mais  importante  do  que  a  mera  detenção  de  senhorias  pessoais,  por¬ 
que  todos  os  aristocratas,  tanto  rurais  como  urbanos,  que  pretendessem  manter  um 
certo  estatuto  tinham  de  integrar  no  seu  conjunto  senhorial,  além  das  senhorias  impes¬ 
soais,  também  senhorias  pessoais.  O  desinteresse  dos  governos  das  cidades  pela  deten¬ 
ção  colectiva  de  propriedades  fundiárias,  ou  a  incapacidade  de  procederem  a  este  tipo 
de  apropriação,  parece  indicar  que.  no  estrito  plano  familiar,  não  existiam  forças  sufi¬ 
cientes  para  pressionar  os  participantes  no  poder  a  um  grau  elevado  de  coesão.  Para 
atingirem  certa  solidez  e  estabilidade,  os  laços  de  família  ampla  tinham  de  resultar  de 
uma  deliberação  explícita  e  confirmada  ritualmente.  Era  isto  a  família  artificial. 

Pelo  menos  em  Génova3-  e  nas  cidades  da  Toscana  ocorreu  uma  fase  intermédia  no 
processo  de  fundação  de  famílias  amplas,  quando  pessoas  pertencentes  a  unidades 
familiares  distintas,  e  em  muitos  casos  sem  relações  prévias  de  parentesco,  se  reuniram 
em  sociedades  de  torres  para  enfrentar  de  maneira  solidária  as  contendas  e  para  deter  e 
usar  em  comum  a  mesma  fortificação  urbana,  provendo  conjuntamente  às  despesas  exi¬ 
gidas  pela  sua  edificação  e  pela  sua  manutenção34.  Na  medida  em  que  as  torres  eram 
um  elemento  imprescindível  na  estratégia  política  das  famílias  da  elite35,  os  elos  teci¬ 
dos  no  interior  destas  associações  constituíam  uma  modalidade  de  parentesco  artifi¬ 
cial36.  Aliás,  como  sucedia  em  alguns  casos  que  membros  de  uma  sociedade  fossem 
aceites  noutras  sociedades3',  os  vínculos  multiplicavam-se  e  o  perfil  das  relações  para- 
familiares  tomava-se  ainda  rnais  amplo.  Mas  será  que  as  sociedades  de  torres  se  limita¬ 
ram  à  Itália  central  e,  acessoriamente,  à  Ligúria?  Sabemos  que  se  mantiveram  torres 


-’2  Foi  o  que  sucedeu  em  Estrasburgo,  de  acordo  com  H.  Dubled  (1962)  64-65.  E  leio  em  W.  M. 
Bowsky  (1981)  187  que  a  comuna  de  Siena  alugava  frequentemente  os  pastos  e  bosques  de  que  era 
proprietária. 

33  Quanto  à  existência  de  sociedades  de  torres  em  Génova  ver  D.  O.  Hughes  ( 1975)  6-7. 

34  Acerca  das  sociedades  de  torres,  em  especial  na  sua  relação  com  os  sistemas  familiares,  consul¬ 
tar  antes  de  mais  P.  Santmi  (1887)  37  e  178  e  segs.  Acessoriamente,  ver:  J.  Heers  ( 1974)  202  e  segs.; 
id.  ( 1990)  276  e  segs.:  J.  K.  Hyde  f  1973)  56:  C  Lansíng  ( 1991)  9.  56.  84,  87,  89-93,  97. 

35  J.  Lestocquoy  ( 1 952)  181-182. 

’6  Já  P.  Santini  (1887)  180  observara  que  colectividades  urbanas  amplas  e  complexas,  como  as 
sociedades  de  torres  e  a  própna  comuna,  tinham  como  modelo  a  família,  de  tal  modo  que  as  socieda¬ 
des  de  torres  prolongavam  artificialmente  as  solidariedades  do  parentesco.  S.  Bertelli  ( 1978)  47  escla¬ 
rece  que  tanto  a  fraterna  como  o  albergo  ou  as  sociedades  de  torres  eram  exemplos  de  consortium. 
situando  assim  todas  estas  modalidades  institucionais  no  âmbito  das  relações  familiares  amplas.  Tam¬ 
bém  J.  Heers  (1974)  208  afirma  que  as  sociedades  de  torres  estiveram  frequentemente  na  origem  de 
grupos  familiares  amplos,  ou  até  mais  ou  menos  artificiais.  Por  seu  lado,  D.  Herlihy  et  al.  (1985  )  344 
estabelecem  uma  relação  íntima  entre  os  grupos  familiares  toscanos  e  as  sociedades  de  torres.  Numa 
perspectiva  oposta  posiciona-se  C.  Lansing  í  1991  >  56  e  89-90,  ao  sustentar  que  as  sociedades  de  torres 
florentinas  do  final  do  século  XII  e  do  começo  do  século  seguinte  não  tinham  um  carácter  familiar, 
nem  sequer  um  carácter  de  família  artificial;  esta  historiadora,  no  entanto,  acrescenta  (p.  90)  que  as 
sociedades  de  torres  se  desenvolveram  paralelamente  aos  grupos  familiares  e  serviram  em  parte  os 
mesmos  objectivos.  o  que  me  parece  scr  um  reconhecimento  da  equivalência  funcional  de  ambas  as 
instituições,  remetendo  necessariamente  as  sociedades  de  torres  para  um  âmbito  de  conotação  familiar. 

37  C.  Lansing  (1991)  92:  P.  Santini  (1887)  184-185. 


322 


Forma  III  do  dinheiro 


privadas  nas  cidades  do  sul  da  França  e  da  Germânia  central  e  meridional,  e  talvez  tam¬ 
bém  do  noroeste  do  continente-18,  bem  como  em  algumas  cidades  dos  Países  Baixos39  e 
noutras  regiões4".  É  verdade  que  na  Toscana  as  torres  urbanas  foram  mais  frequentes  e 
mais  duradouras  do  que  em  outros  lugares,  porque  durante  bastante  tempo  não  existiu 
ali  uma  soberania  central  capaz  de  se  opor  à  proliferação  de  poderes  periféricos,  como 
sucedeu  por  exemplo  em  França,  onde  a  coroa  obrigou  a  arrasar  as  torres41.  Além 
disso,  as  torres  nas  cidades  toscanas  eram  empregues  apenas  nas  guerras  entre  facções 
e  nunca  se  destinaram  a  servir  de  residência42,  enquanto  na  Germânia,  por  exemplo, 
elas  eram  habitadas  de  maneira  contínua,  inclusivamente  em  tempo  de  paz43,  e  sabe¬ 
mos  que  em  muitos  centros  urbanos  das  Espanhas  e  da  Germânia  as  próprias  casas 
assumiam  .suplementarmente  características  de  fortificação44.  Mas  bastarão  estas  dife¬ 
renças  para  devermos  excluir  a  existência  generalizada  de  uma  fase  intermédia  de  famí¬ 
lia  artificial  composta  por  sociedades  de  torres? 

O  certo  é  que  no  final  do  período,  em  numerosas  cidades  de  variadíssimas  regiões,  o 
carácter  artificial  dos  sistemas  de  parentesco  atingiu  uma  nova  dimensão  mediante  a 
difusão  dos  grupos  familiares,  que  passaram  a  incluir  uma  grande  quantidade  de 
membros  e  marcaram  com  um  cunho  muito  profundo  todos  os  aspectos  da  vida  urbana. 
Os  grupos  familiares  foram  especialmente  bem  estudados  na  Itália,  sobretudo  em 
Génova45  e  em  Florença46  e  outras  cidades  toscanas4  ,  mas  existiram  igualmente  em 
centros  urbanos  da  Germânia48,  da  França  setentrional40  e  das  Espanhas5".  e  talvez^ 


w  J.  Heers  ( 1974)  202  e  segs. 

WJ.  Lestocquoy  < 1952)  182-183. 

40  Ver,  no  capítulo  1 1  da  Parte  11,  a  n.  181. 

41  J.  Heers  (1990)  290-291,  360-361. 

42  Id..  ibid.,  289.  295. 

44  Id..  ibid.,  296  esclarece  que  na  Germânia  as  torres  urbanas  eram  geralmente  habitadas  tambéa 
nas  épocas  de  paz,  mesmo  que  estivessem  separadas  da  residência  principal.  Em  Metz.  segunde 
indica  E.  Ennen  (1979)  158,  as  famílias  nobres  moravam  em  torres. 

44  J.  Heers  (1990)  293-295. 

45  Os  alherghi  genoveses  foram  estudados  com  detalhe  e  profundidade  por  E.  Grendi  (1975)  244- 
-247.  261-262,  271-273,  277,  280-281  e  284.  Consultar  igualmente:  M.  Balard  (1978)  249-250,  262, 
527:  H.  Bresc  (1986)  394;  J.  Heers  (1974)  91  e  segs.:  id.  (1981 )  270:  D.  O.  Hughes  (1975)  27-28;  kl 
( 1976)  944-945:  id.  ( 1977)  108-110:  A.-E.  Sayous  ( 1937)  368.  374-375. 

46  Quanto  às  consorierie  florentinas  no  século  XIII  a  análise  mais  extensa  e  pormenorizadi 
encontra-se  em  C.  Lansing  (1991 1  passirn.  Ver  também:  Ch.  Klapisch-Zuber  (19801  79. 

47  Acerca  das  consorterie  na  generalidade  da  Toscana  ver  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  344.  A  donwM 
de  Pisa  foi  estudada  para  os  séculos  XI  e  XII  por  G.  Rossetti  (1977  a)  175-177.  Encontra-se  um» 
breve  referência  aos  grupos  familiares  pisanos  em  J  Heers  (1974)47-48. 

4S  J.  Heers  (1974)  21  e  95  afirma  a  existência  de  grupos  familiares  urbanos  na  Germânia.  O» 
paraiges  de  Metz  foram  analisados  sobretudo  por  J  Schneider  ( 1950)  12!  e  segs..  457  e  485.  A  res¬ 
peito  dos paraiges  ver  igualmente:  E.  Ennen  ( 1979)  158,  M.  Parisse  (org.  1977)  168. 

49  P.  Desportes  ( 1979)  280-282  analisou  os  grupos  familiares  de  Reims. 

50  As  linajes  das  Astúnas.  de  Castela  e  do  País  Basco  encontram-se  mencionadas  em  M.  A. 
Ladero  Quesada  (1991)  111-115  e  120-121.  De  maneira  mais  detalhada.  A.  Rucquoi  ( 1983)  40-47 
estudou  as  linajes  de  Valladoüd,  cidade  que  nos  séculos  XIV  e  XV  cumpriu  de  facto  as  funções  de 
capital  do  reino.  H.  Bresc  (1986)  394  refere  sumariamente  algumas  características  das  linajes  err 
Sória,  Valladoüd.  Medina  dei  Campo.  Salamanca  e  Ávila. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


323 


pelo  menos  numa  forma  embrionária,  tivessem  surgido  na  Inglaterra51.  E  na  Polónia 
podemos  considerar  como  grupos  familiares  urbanos  aqueles  clãs  de  formação  inteira¬ 
mente  artificial  que  associavam  famílias  enobrecidas  da  elite52. 

Uma  análise  comparativa  sistemática  permite  extrair  algumas  conclusões  genéricas, 
e  a  mais  importante  parece-me  resultar  do  facto  de  nesses  grupos  familiares  urbanos  a 
componente  artificial  ser  indistinguível  dos  elos  de  descendência  e  de  afinidade.  Gru¬ 
pos  originariamente  constituídos  entre  famílias  aparentadas  podiam  receber  a  adesão  de 
pessoas,  de  famílias  ou  mesmo  de  grupos  familiares  exteriores55  e.  além  disso,  pelo 
menos  no  caso  genovés,  não  havia  qualquer  diferença  de  estatuto  entre  os  membros 
novos  e  os  antigos54.  Por  outro  lado.  os  agrupamentos  cuja  formação  resultara  de  um 
processo  totalmente  artificial,  associando  famílias  que  não  haviam  estado  previamente 
ligadas  por  relações  de  sangue  ou  por  relações  sistemáticas  de  matrimónio,  possuíam 
uma  estrutura  interna  que  em  nada  os  distinguia  dos  grupos  de  origem  exclusiva  ou  pre¬ 
dominantemente  familiar55.  É  interessante  comparar  o  que  se  passou  em  Metz  e  em 
Génova.  Nos  meados  do  século  XIII,  em  Metz.  antes  de  os  novos  ricos  terem  formado 
um  grupo  familiar  inteiramente  artificial,  a  elite  tradicional  só  através  do  casamento 


51  Em  Bishop's  Lynn,  que  era  na  época  uma  importante  cidade  inglesa,  tanto  sob  o  ponto  de  vista 
mercantil  como  político.  J.  Beauroy  (1992)  analisou  cento  e  vinte  e  cinco  testamentos,  na  sua  maior 
pane  emanados  de  membros  da  elite  urbana,  entre  a  penúltima  década  do  século  XIII  e  o  primeiro 
quartel  do  século  XV,  e  concluiu  (pp.  176-177,  179)  que.  embora  fosse  reduzido  o  número  médio  de 
membros  das  unidades  familiares,  muitos  testamentos  beneficiavam  irmãos  e  irmãs,  bem  como  sobri¬ 
nhos  e  sobrinhas.  Será  que  a  existência  deste  círculo  familiar  amplo  denotava  uma  tendência  para  a 
formação  de  grupos  familiares? 

52  J.  Bieniakt  1977)  325. 

52  Era  o  que  sucedia  geralmente  em  Itália,  informam  S.  Benelli  (1978)  50  e  A.  Guerreau-Jalabert 
(1981 )  1035.  Com  efeito,  vários  autores  confirmam  a  ocorrência  deste  processo  em  Génova:  S.  Ber- 
telli  (1978)  86;  H.  Bresc  (1986)  394;  E.  Grendi  (1975)  246-247;  J.  Heers  (1974)  62.  91  e  segs.;  D.  O. 
Hughes  ( 1977)  108-109;  A.-E.  Sayous  ( 1937)  374.  O  mesmo  acontecia  em  Metz,  consoante  indica  J. 
Schneider  ( 1950)  121.  Quanto  à  situação  em  Valladolid  ver:  H.  Bresc  (1986)  394:  M.  A.  Ladero  Que- 
sada  ( 1991 )  1 18;  A.  Rucquoi  (1983)  45.  A  originalidade  de  cidades  castelhanas  como  Valladolid  e 
Salamanca,  acrescenta  Adeline  Rucquoi  em  op  at..  46.  consistiu  em  terem  tomado  permanente  o 
processo  de  abertura  dos  grupos  familiares  a  novos  ricos  e  mesmo  a  pessoas  de  condição  mais 
modesta,  e  em  terem  regulamentado  este  processo  através  de  normas  explícitas.  A  propósito  das  cida¬ 
des  italianas.  Sérgio  Bertelli  em  op.  rit.,  50  define  como  regra  que  quanto  mais  poderoso  e  rico  se  tor¬ 
nasse  um  grupo  familiar  tanto  mais  membros  estranhos  ele  atraía. 

54  A.-E.  Sayous  ( 1937)  374. 

55  Na  Polónia,  os  clãs  da  nobreza  tradicional,  assentes  em  relações  de  parentesco,  serviram  de 
modelo  aos  clãs  da  elite  urbana  enobrecida,  constituídos  de  maneira  artificial,  consoante  esclarece  J. 
Bieniak  (1977)  325;  e  este  autor  acrescenta  que  ambos  os  tipos  de  clã  ocupavam  a  mesma  posição  na 
sociedade  nobre.  Em  Génova,  os  alberghi  de  formação  inteiramente  artificial  tinham  uma  estrutura 
idêntica  à  daqueles  que  originariamente  se  haviam  baseado  no  parentesco  de  sangue,  como  indicam  J. 
Heers  ( 1974)  94  e  A.-E.  Sayous  (1937)  368.  Por  seu  lado.  H.  Bresc  ( 1986)  394  recorda  que  os  mem¬ 
bros  dos  cerca  de  tnnta  alberghi  artificiais,  criados  em  Génova  nos  séculos  XIV  e  XV,  além  de  adop- 
tarem  instituições  próprias,  destinadas  a  regular  a  vida  interna  do  agrupamento,  escolhiam  um  sobre¬ 
nome  colectivo  e  um  brasão.  Em  Metz,  porém,  J.  Schneider  (1950)  145  afirma  que  o  paraige  artificial 
organizado  nos  meados  do  século  XIV  nem  estava  dividido  em  subgrupos,  como  acontecia  com  os 
restantes  paraiges.  estruturados  sobre  a  base  do  parentesco  de  sangue,  nem  tinha  selo  próprio.  Ora, 
como  aqueles  subgrupos  começaram  a  diluir-se  no  último  quartel  do  século  XIV  no  interior  dos  gru- 


324 


Forma  III  do  dinheiro 


acedia  a  aceitá-los  nos  seus  grupos5*',  usando  assim  os  vínculos  de  afinidade  para  selar 
uma  associação  que  deveríamos  mais  propriamente  considerar  artificial.  Ora,  no  caso 
genovês  sabemos  que  se  multiplicavam  os  casamentos  entre  membros  de  células  fami¬ 
liares  unidas  nos  grupos  artificiais,  de  maneira  que  os  dois  tipos  de  elos  de  parentesco 
reforçavam-se  reciprocamente57.  Também  na  Polónia  parece  ter  havido  cidadãos  que 
por  meio  do  matrimónio  eram  integrados  nos  clãs  da  nobreza  tradicional,  do  mesmo 
modo  que  famílias  da  elite,  podendo  mesmo  ser  originárias  de  cidades  diferentes,  se 
agruparam  em  clãs  artificiais58.  Tomava-se  afinal  impossível  demarcar  as  relações  de 
sangue  daquelas  que  hoje  consideramos  artificiais.  Aliás,  quando  vários  grupos  familia¬ 
res  se  reuniam  num  só  grupo,  dando  assim  lugar  a  uma  associação  muitíssimo  vasta, 
instituições  que  podiam  ter  originariamente  resultado  de  elos  de  parentesco  passavam  a 
sustentar  uma  instituição  de  carácter  artificial.  E  será  que  algo  de  fundamental  distin¬ 
guia  a  formação  de  enormes  grupos  familiares  a  partir  da  federação  de  grupos  menores, 
como  se  verificou  por  exemplo  em  Génova59,  da  subdivisão  de  grandes  grupos  em  gru¬ 
pos  mais  pequenos,  tal  como  se  sabe  ter  ocorrido  em  Florença  durante  o  século  XIII60, 
em  Metz  até  ao  final  do  século  XIV61  e  em  Vailadolid  no  termo  do  período63? 

Por  uma  via  ou  por  outra,  chegava-se  a  um  sistema  do  mesmo  tipo.  Pelo  menos  em 
Itália  e  em  Castela,  parece  que  os  grupos  familiares  eram  providos  de  órgãos  de  che¬ 
fia,  dotados  de  alguns  poderes  jurisdicionuis  relativamente  aos  demais  parentes63.  E 


pos  familiares  originados  entre  parentes  (p.  146).  deduzo  que  o  parai-se  de  formação  artificial  antecipou 
uma  estrutura  intenta  que  vinha  |á  a  configurar-se  nos  outros.  Note-se  que  em  Pádua.  na  segunda 
metade  do  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  XIV.  a  crer  em  J.  K.  Hyde  (1966)  58.  não  se 
encontravam  entre  a  elite  traços  de  comunidades  familiares  que  incluíssem  grupos  de  diferentes  origens. 

,6J.  Schneider  (1950)  138. 

57  H.  Bresc  (1986)  394-395:  D.  O.  Hughes  (1976)  944-945. 

J.  Heers  (1974)  63  pretende  que  os  grupos  familiares  eram  estritaniente  exogàmicos,  mesmo  nos 
casos  em  que  haviam  assumido  grandes  dimensões  e  agrupavam  centenas  de  membros.  Todavia,  D. 
O.  Hughes  (1977)  110  elucida  que  no  século  XIV  a  propensão  à  exogamia  diminuiu  entre  a  elite 
genovesa,  observando-se  então  o  crescimento  de  uma  tendência  para  a  endogamia  no  seio  dos 
alherghi.  Aliás.  A.  Grohmann  1 1981 )  163  refere  lambém  a  prática  sistemática  da  endogamia  nos  gru¬ 
pos  familiares  de  Perugia,  e  R.  de  Roover  (1948)  152  admite  como  provável  que  os  prestamistas  lont- 
bardos  procurassem  geralmente  esposa  entre  as  famílias  de  colegas,  mas  justifica  esta  hipótese  invo¬ 
cando  o  ostracismo  social  a  que  estariam  votados  os  profissionais  da  usura.  A  explicação  não  é  talvez 
a  melhor,  já  que  em  Luca  as  famílias  de  cambistas,  que  não  exerciam  qualquer  actividade  censurável 
consoante  os  padrões  da  época,  casavam-se  frequentemente  entre  si  no  século  XIII,  a  crer  em  Th.  W. 
Blomquist  (1979)  58.  Além  disso,  convém  notar  que.  tal  como  sucedia  em  Metz,  as  famílias  dominan¬ 
tes  dos  grupos  familiares  genoveses  recorriam  muitas  vezes  aos  elos  matrimoniais  para  integrar  os 
homens  mais  prósperos  da  sua  clientela.  Ver  a  este  respeito  D.  O.  Hughes  (1977)  101. 

-S*J.  Bientak  (1977)  325. 

59  H.  Bresc  (1986)  395. 

60  C.  Lansing  ( 1991 )  31. 

M  J.  Schneider  <  1950)  144,  146. 

62  H.  Bresc  (1986)  394;  A.  Rucquoi  <  1983  )  40  e  segs. 

0?G.  Fasoli  ( 1980)  379;  J.  K.  Hyde  (1973)  105:  MA.  Ladero  Quesada  (1991)  111. 

Em  Florença,  C.  Lansing  (1991 )  30.  depois  de  afirmar  que  no  seio  de  cada  grupo  familiar  não  se 
destacava  um  chefe  único,  acrescenta  (pp.  54-57)  que  ignoramos  como  se  efectuava  exactamente  na 
prática  a  administração  dos  bens  indivisos,  embora  pareça  que  os  grupos  evitavam  qualquer  modali¬ 
dade  de  chefia  fixa  e  estável. 


Estruturas  familiares  nu  meio  urbana 


325 


em  todos  os  casos  os  membros  de  cada  um  dos  grupos  familiares  tinham,  ou  adopta- 
vam,  um  sobrenome  comum64  e.  eventualmente,  um  mesmo  brasão65  ou  um  estan¬ 
darte66,  o  que  conferia  à  associação  uma  identidade  própria,  superior  à  das  unidades 
familiares  componentes.  Nas  regiões  meridionais  mesmo  os  clientes  de  estatuto  mais 
humilde  adoptavam  o  sobrenome  usado  pelos  chefes  da  família  em  cuja  órbita  se  inse¬ 
riam67.  E  como  a  formação  de  grupos  familiares  ocorreu  tanto  entre  a  elite  tradicional 
como.  mais  tarde,  entre  os  novos  ricos  de  origem  popular68,  verificamos  que  não  se  tra¬ 
tava  de  qualquer  herança  das  velhas  famílias-clientela  do  período  anterior  nem  de  qual¬ 
quer  tradição  oriunda  do  meio  rural,  mas  de  um  sistema  que  correspondia  a  neces¬ 
sidades  especificamente  urbanas  e  que  chegou  às  modalidades  mais  evoluídas  precisa¬ 
mente  naqueles  casos  em  que  as  cidades  mais  se  desenvolveram69.  Em  Génova  foi  a 
partir  do  século  XIV  que  os  grupos  se  manifestaram  de  maneira  quase  paradigmática70, 


M  M.  Balard  (1978)  249.  305;  H.  Brese  (1986)  394;  P.  Desportes  (1979)  281;  G.  Duby  (1973) 
272;  E.  Grendi  (1975)  244-245.  261,  284;  A  Guerreau-Jalabert  (1981)  1035;  J.  Heers  (1974)  95;  id. 
(1981)  270;  D.  O.  Hughes  (1975)  28;  Ch.  Klapisch-Zuber  ( 1980)  79;  C.  Lansing  (1991)  29;  A.-E. 
Sayous ( 1937) 374. 

Em  Pisa,  a  crer  em  G.  Rossetti  (1977  a)  177,  as  famílias  participantes  num  mesmo  grupo  tanto 
podiam  possuir  um  só  sobrenome  como  vários.  Mas  talvez  esta  peculiaridade  se  deva  ao  facto  de  a 
autora  estudar  a  situação  nos  séculos  XI  e  XII.  quando  o  processo  não  estava  ainda  plenamente  desen¬ 
volvido. 

65  H.  Brese  ( 1986)  394;  G.  Fasoli  (1980)  379;  E.  Grendi  (1975)  261;  Ch.  Klapisch-Zuber  (1980) 
79;  A.-E.  Sayous  (1937)  374. 

Em  Pisa  a  lei  proibiu  os  populares  de  ostentarem  os  brasões  de  famílias  da  elite  nobre,  a  não  ser 
que  o  fizessem  há  pelo  menos  dez  anos,  o  que  revela  os  vínculos  existentes  entre  ambas  as  camadas 
sociais.  Ver  a  este  respeito  E.  Cristiani  (1962 i  1 1 1 . 

66  G.  Fasoli  (1980)  379. 

97  J.  Heers  ( 1990)  264. 

J.  Bieniak  (1977)  325;  H.  Brese  (1986)  394;  E.  Cristiani  ( 1962)  111;  E.  Grendi  ( 1975)  247;  J. 
Heers  ( 1974)  21. 94;  A.-E.  Sayous  <  1937)  368.  374;  J.  Schneider  (1950)  141. 457.  485. 

69  J.  Heers  (1974)  27-55  e  262-263  sustenta  -  e  trata-se  de  uma  das  teses  fundamentais  do  seu 
livro  -  que  os  grupos  familiares  existentes  entre  a  elite  tradicional  das  cidades  constituíam  uma 
herança  da  nobreza  rural,  a  qual  os  havia  introduzido  no  meio  urbano.  E  certo  que,  como  vimos  já  (no 
capítulo  6.a),  desde  o  princípio  do  período  se  difundiram  muito  as  associações  de  co-herdeiros  entre 
todas  as  camadas  da  nobreza  rural  das  regiões  do  norte  e  do  centro  da  Itália,  e  a  coesão  destas  associa¬ 
ções  foi  ajudada  pela  detenção  em  comum  de  alguns  elementos  de  propriedade  urbana,  nomeada¬ 
mente  casas  fortificadas.  Mas  esta  modalidade  de  família  ampla  limitava  os  seus  objeetivos  à  conser¬ 
vação  de  um  núcleo  patrimonial  comum  ao  longo  de  sucessivas  gerações,  enquanto  os  grupos  familia¬ 
res  urbanos  tinham  finalidades  muitíssimo  mais  variadas  e  exigiam  um  grau  incomparavelmente  supe¬ 
rior  de  coesão  interna.  Por  ouiro  lado,  o  facto  de  os  grupos  familiares  urbanos  se  terem  difundido 
entre  a  elite  de  extracção  popular  da  mesma  maneira  que  o  haviam  feito  entre  a  velha  elite  tradicional 
e  o  facto  de  estes  grupos  atingirem  formas  cada  vez  mais  desenvolvidas  e  sistemáticas  à  medida  que 
se  verificava  o  crescimento  das  cidades  mostram  que  se  tratava  de  um  fenómeno  especificamente 
urbano.  Além  disso,  os  grupos  familiares  urbanos  encontravam-se  também  em  várias  regiões  a  norte 
dos  Alpes,  onde  não  parece  que  a  aristocracia  rural  tivesse  criado  associações  de  co-herdeiros.  E  na 
Polónia,  precisamente  onde  a  nobreza  adoptou  uma  estrutura  clânica  muito  sólida  e  coerente,  julgo 
que  os  grupos  familiares  artificiais  não  assumiram  nas  cidades  qualquer  dimensão  notável.  Não  creio 
que  aquela  tese  de  Jaeques  Heers  tenha  validade. 

7(1  Quanto  ao  carácter  tardio  com  que  os  alberghi  genoveses  assumiram  a  sua  forma  mais  evoluída, 
ver:  M.  Balard  ( 1978)  527  n.  31;  H.  Brese  (1986)  394;  D.  O.  Hughes  (1975)  27-28:  id.  (1977)  109. 


Forma  III  do  dinheiro 


d  26 


servindo  a  vários  historiadores  de  tenno  de  comparação  com  o  que  se  passava  nas 
outras  cidades. 

As  margens  dos  grupos  familiares  podiam  ser  ainda  menos  bem  demarcadas  do  que 
as  das  unidades  que  os  integravam71,  e  em  tomo  deles  formaram-se  em  muitas  regiões 
clientelas  de  composição  variada  e  oscilante72.  Foram  numerosas  as  cidades  italianas 
onde  os  grupos  familiares  incluíram  pessoas  de  fortuna,  profissão  e  condição  social 
muito  diferentes73,  e  sucedeu  que  imigrantes  camponeses  entrassem,  pelo  menos  tem¬ 
porariamente,  para  a  domesticidade  dos  seus  antigos  senhores,  pertencentes  à  elite 
urbana,  e  se  integrassem  na  criadagem74.  Esta  conversão  dos  elos  de  servidão  em  rela¬ 
ções  de  clientela  teve  outros  exemplos  na  Florença  do  século  XJV,  quando  pessoas  que 
haviam  deixado  o  campo  para  passarem  a  trabalhar  como  assalariados  nas  manufactu¬ 
ras  urbanas  continuaram,  apesar  disso,  a  circular  na  órbita  dos  grupos  familiares  dos 
seus  antigos  senhores'5.  Aliás.  naToscana,  no  final  do  período,  «parentes»,  «amigos»  e 
«vizinhos»  eram  termos  sistematicamente  associados76,  o  que  denota  a  ausência  de 
fronteiras  precisas  entre  a  família  e  a  clientela.  Quando  sabemos  que  na  elite  florentina 
os  padrinhos  e  as  madrinhas  não  provinham  normalmente  do  grupo  familiar  da  criança, 
sendo  escolhidos  de  preferência  entre  os  vizinhos  ou  entre  os  colegas  de  negócios  do 
pai77,  concluímos  que  o  facto  de  o  parentesco  de  sangue  e  o  parentesco  espiritual  não 
coincidirem  criava  uma  margem  propícia  à  consolidação  de  clientelas7*.  Digno  de 
especial  menção  é  o  caso  de  Génova  e  das  suas  colónias,  em  que  as  enormes  diferenças 
de  fortuna  e  de  estatuto  social  que  se  verificavam  entre  os  membros  de  cada  grupo 
familiar  permaneceram  contidas  no  seu  seio,  dando  lugar  à  formação  de  clientelas 
internas79.  Também  em  Reims,  até  à  segunda  metade  do  século  XIV,  enquanto  duraram 
os  grupos  familiares  da  elite  tradicional,  eles  mantiveram  no  seu  interior  os  parentes 


71  Os  limites  de  um  grupo  familiar  não  eram  fixos  nem  estáveis,  escreve  C.  Lansing  ( 1991 )  36  a 
propósito  da  situação  em  Florença. 

72  Nas  cidades  da  Germânia  ignoramos  se  nas  casas  das  famílias  da  elite  residiam  igualmente  uni¬ 
dades  familiares  menos  abastadas,  em  situação  de  clientela,  previne  J.  Heers  ( 1990)  264  e  268-269, 
acrescentando  que  nas  regiões  meridionais  do  continente  a  condição  social  da  elite  urbana  supunha 
que  os  seus  membros  se  apresentassem  rodeados  de  clientes.  Em  Castela  os  chefes  dos  grupos  fami¬ 
liares,  que  residiam  na  casa  principal,  estavam  cercados  de  clientes  e  servidores,  consoante  indica  M. 
A.  Ladero  Quesada  <  1991)  1 1 1.  Todavia,  a  propósito  do  sucedido  em  Florença  durante  o  século  XIII. 

C.  Lansing  (1991)  173-175  observa  que,  enquanto  as  famílias  da  elite  tinham  uma  residência  estável, 
as  camadas  mais  humildes  moravam  em  habitações  arrendadas  e  mudavam  com  frequência  de  lugar, 
o  que  levaria  as  clientelas  a  serem  bastante  efémeras  neste  nível  social. 

73  G.  A.  Brucker  (1962)  29,  51 ;  J.  Heers  (1981 )  270 

74  J.  Heers  (1981)  18-19. 

7?  Ch.-M.  La  Roncière  ( 1974)  742. 

76  Ch.  Klapisch  ( 1976)  953. 969-970. 

77  Id..  ibid.,  971-972;  id.  ( 1980)  81. 

'K  Acerca  das  clientelas  dos  grupos  familiares  florentinos  ver;  G.  A.  Brucker  1 1962)  120:  Ch.  Kla¬ 
pisch  (1976)  970:  C.  Lansing  í  1991 )  172-174. 

79  M.  Balard  (1978)  250,  305;  S.  Bertelli  (1978)  86;  E.  Grendi  ( 1975)  277;  J.  Heers  ( 1981 )  270: 

D.  O.  Hughes  (1975)  28;  id.  (1977)  109. 

As  clientelas  internas  constituíam-se  sobretudo  nos  alherghi  mais  ricos  e  poderosos,  observa  D. 
O.  Hughes  1 1977)  109,  enquanto  nos  outros,  correspondentes  a  camadas  da  elite  menos  prósperas,  o 
grupo  representava  com  frequência  uma  associação  entre  iguais 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


527 


mais  modestos,  que  cumpriam  aí  as  funções  de  clientes  dos  membros  mais  prósperos 
do  grupo*0.  E  os  grupos  familiares  de  Valladolid  vieram  a  absorver  famílias  de  condi¬ 
ção  relativamente  humilde*1.  Já  em  Metz,  todavia,  os  grupos  familiares  não  abarcavam 
todos  os  parentes,  sendo  excluídas  as  unidades  familiares  mais  pobres82;  e  em  Flo¬ 
rença.  no  termo  do  período,  embora  em  caso  de  necessidade,  ou  se  tivesse  ocorrido 
qualquer  desgraça,  os  membros  de  uma  unidade  familiar  pudessem  passar  a  residir  na 
casa  de  outra  unidade  do  mesmo  grupo,  um  ramo  da  família  que  sofresse  uma  perda 
efectiva  de  estatuto  ficava  definitivamente  afastado83.  Mas  será  que  estes  parentes 
pobres  não  continuavam  na  órbita  do  grupo,  prestando-lhe  serv  iços,  quando  necessário, 
na  esperança  de  receberem  alguns  benefícios?  Bastaria  esta  situação  para  que  os  grupos 
familiares,  mesmo  que  tivessem  na  sua  origem  elos  exclusivamente  de  sangue,  não 
pudessem  senão  estar  abertos  a  modalidades  de  relacionamento  artificial.  Sem  isso, 
aliás,  não  se  teria  conseguido  conferir-lhes  uma  estrutura  tão  rigorosa  como  a  que 
encontramos  em  diversas  cidades.  Só  a  racionalidade  artificial  permitia  corrigir  as  múl¬ 
tiplas  imperfeições  resultantes  dos  acasos  do  parentesco  biológico84. 

3 

O  carácter  fluido  das  linhagens  urbanas,  se  as  compararmos  com  as  linhagens 
desenvolvidas  pela  aristocracia  rural,  suscitava  problemas  de  coesão  interna  e  tomava 
necessário  mobilizar  elementos  que  reforçassem  as  solidariedades  do  parentesco.  Neste 
contexto,  é  assinalável  que  não  se  tivesse  recorrido  com  sistematicidade  a  formas  estᬠ
veis  e  duradouras  de  detenção  colectiva  do  património,  juntando  os  vários  herdeiros85. 
Na  esfera  hanseática.  embora  as  sociedades  comerciais  assumissem  frequentemente  um 
carácter  familiar,  elas  agrupavam  em  geral  um  número  muito  reduzido  de  membros  e 
eram  constituídas  por  prazos  fixos  e  para  operações  estipuladas,  devendo  salientar-se 
que  a  modalidade  de  associação  integral,  em  que  os  irmãos  mantinham  indivisa  a 
herança  paterna,  não  era  adoptada  na  maior  parte  dos  casos86.  A  situação  parece  ter 


80  P.  Desportes  ( 1979»  282. 

Passados  os  meados  do  século  XIV.  porém,  id.,  íbid.,  642  indica  que  a  diferença  de  estatuto  eco¬ 
nómico  entre  os  vários  ramos  de  um  mesmo  grupo  familiar  os  levava  a  divergirem  e,  finalmente,  a 
separarem-se. 

81  A.  Rucquoi  ( 1983)  45. 

82  J.  Schneider  ( 1950)  146. 

83  E  assim  que  interpreto  as  afirmações  de  Ch.  Klapisch  ( 1976)  957  e  959-960. 

M  Os  grupos  familiares  genoveses  deram  uma  coerência  absoluta  ao  modelo  da  família,  observa 
E.  Grendi  ( 1975)  261 .  Na  mesma  perspectiva.  S.  Bertelli  ( 1978)  86  sustenta  que  os  grupos  familiares 
conseguiram  naquela  cidade  uma  duração  espeeialmente  longa  porque  se  haviam  convertido  numa 
instituição  inteiramente  artificial. 

85  A  única  razão  de  ser  da  solidariedade  e  da  coesão  do  núcleo  familiar  sob  a  autoridade  paterna, 
pretende  P.  Cammarosano  (1977)  188  a  propósito  das  cidades  italianas  na  segunda  metade  do 
período,  era  a  detenção  de  um  património  comum.  Contudo,  os  casos  particulares  mencionados  nas 
análises  históricas  mostram  que  a  forma  completa  e  duradoura  de  associação  de  negócios  entre  paren¬ 
tes  foi  uma  excepção,  e  não  a  regra. 

86  Ph.  Dollinger  <  1964)  207-208:  E.  Ennen  <  1979)  130. 


Forma  III  do  dinheiro 


.m 


sido  ainda  mais  extrema  nas  cidades  da  Boémia,  onde  as  comunidades  de  irmãos, 
embora  existissem,  eram  raras*7.  Entre  os  financeiros  de  Metz,  na  segunda  metade  do 
período,  sucedia  que  parentes  próximos  se  associassem  porque  haviam  recebido  em 
herança  o  direito  de  cobrar  certas  dívidas8*,  mas  penso  que  nada  mais  era  colocado  em 
comum  além  destes  créditos,  que  forçosamente  se  extinguiriam  com  o  êxito  da  opera¬ 
ção.  E  numa  região  a  tantos  títulos  diferente  como  a  Provença,  também  a  actividade 
comerciai,  em  vez  de  ampliar  a  família,  a  nuclearizava:  enquanto  o  chefe  de  uma  famí¬ 
lia  mercantil  permanecia  à  frente  da  sede,  as  filiais  estabelecidas  noutras  cidades  eram 
encabeçadas  pelos  filhos  casados,  formando-se  deste  modo  núcleos  conjugais  autóno¬ 
mos  e  não  se  desenvolvendo  qualquer  comunhão  de  vida  sob  o  mesmo  tecto*9.  No  vizi¬ 
nho  Languedoc  a  comunidade  conjugal  de  bens  foi  muito  pouco  frequente  entre  a  elite 
dos  negócios90,  e  quando  sabemos  que  em  Montpellier91  ou.  transpostos  os  Alpes,  em 
Génova92  as  sociedades  de  carácter  familiar  podiam  servir  para  ajudar  um  filho  a 
lançar-se  nas  operações  de  comércio,  verificamos  que  ainda  aqui  o  objectivo  era  a  aqui¬ 
sição  da  autonomia  e  não  a  manutenção  da  comunidade.  Na  Itália  a  morte  do  chefe  da 
família  acarretava  normalmente  a  partilha  do  património  e  eram  muito  raras  a  coabita¬ 
ção  e  a  co-propriedade  entre  irmãos9- . 

Só  em  algumas  cidades  mercantis  especialmente  importantes,  e  sobretudo  numa 
fase  adiantada  deste  período,  as  famílias  mais  prósperas  adoptaram  regularmente  o  qua¬ 
dro  familiar  para  a  condução  dos  seus  negócios,  juntando  os  fundos  de  vários  parentes 
ou  instituindo  formas  de  co-propriedade  sobre  imóveis  urbanos94.  Em  Génova  era  fre- 


87  J.  Bardacht  1977)  341. 

S8J.  Sehneider(  1950)  273. 

89  R.  Aubenas  (19361  531,  538. 

Quando  M.  Beard  (1938)  89  escreve  que  os  negociantes  usavam  frequentemente  filhos  e  genros 
enquanto  agentes,  ela  eslá  na  verdade  a  mostrar  que  a  aciividade  mercantil  contribuía  para  reduzir  as 
unidades  familiares  ao  seu  núcleo. 

90  J.  Hilaire  (1973  )  25-26. 

91  K.  L.  Reyerson  (1985)  26. 

92  D.  O.  Hughes  (1975)  25. 

94  P.  Cammarosano  ( 1 977 )  191:  D.  Herlihy  1 1969-1970)  180. 

Na  segunda  metade  do  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  seguinte,  em  Pádua.  onde  os 
financeiros  se  limitavam  a  uma  actividade  muito  reduzida  e  não  participavam  nos  grandes  negócios 
de  longo  curso.  J.  K.  Hyde  ( 1966)  41  duvida  que  eles  tivessem  formado  sociedades  permanentes  e 
acrescenta  que  os  parentes  exerciam  geralmente  a  profissão  juntos.  Por  outro  lado  (p.  59),  enire  a  elite 
de  origem  nobre  seria  usual  os  co-herdeiros  manterem  o  património  em  comum,  pelo  menos  até  que 
cada  um  fundasse  família  própria.  Mas  é  certo  que  a  comunidade  patrimonial  só  devia  tomar-se  digna 
de  menção  quando  unisse  núcleos  conjugais. 

94  P.  Cammarosano  (1977)  191-192. 

J.  Gaudemet  (1963)  121  pretende  que.  contrariamente  aos  artesãos,  cujo  carácter  sedentário  os 
podia  deixar  interessados  pela  comunidade  familiar  dos  bens,  os  comerciantes,  obrigados  a  viajar  e 
detentores  de  fortunas  essencialmente  móveis,  suportavam  mal  as  obrigações  inerentes  a  uma  comu¬ 
nidade,  Se  este  argumento  fosse  exacto,  como  explicar  que  as  associações  familiares  entre  os  nego¬ 
ciantes  tivessem  sido  tanto  mais  frequentes  quanto  mais  activa  fora  a  vida  comercial  de  uma  cidade? 
Por  outro  lado,  ao  afirmar  que  a  maior  parte  dos  mercadores  prefena  as  pequenas  empresas  familia¬ 
res,  apesar  da  excepção  constituída  pelas  grandes  companhias  toscanas.  J.  Day  i  1994)  199  está  a  con¬ 
fundir  as  situações.  É  certo  que  a  redução  de  uma  empresa  ao  núcleo  conjugal  lhe  conteria  um  carác- 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


329 


quente  que  os  irmãos  coabitassem,  e  mesmo  depois  de  repartirem  a  herança  e  de  passa¬ 
rem  a  residir  em  casas  separadas  continuavam  geralmente  a  estar  associados  nos  negó¬ 
cios  e  a  deter  alguns  bens  em  comum9-.  Entre  a  elite  veneziana  parece  que  no  início  do 
período  a  indivisão  dos  bens  seria  excepcional96,  mas  com  o  desenvolvimento  econó¬ 
mico  a  comunidade  patrimonial  tomou-se  cada  vez  mais  frequente97,  até  que  os  bens 
passaram,  tanto  quanto  possível,  a  ser  mantidos  colectivamente98.  Aliás,  a  associação 
entre  os  irmãos  na  posse  dos  bens.  após  a  morte  do  chefe  da  família,  generalizou-se  a 
tal  ponto  em  Veneza  que  foi  esta  a  única  modalidade  de  comunhão  familiar  a  ser  regu¬ 
lamentada  juridicamente  na  cidade99.  De  acordo  com  a  lei.  os  membros  de  uma  família 
que  vivessem  juntos  e  conduzissem  negócios  em  comum  eram,  mesmo  na  ausência  de 
qualquer  contrato  formal,  imediatamente  considerados  como  fazendo  parte  de  uma 
comunidade  patrimonial  entre  irmãos100,  sendo  além  disso  cada  um  plenamente  res¬ 
ponsável  pelas  dívidas  dos  outros101.  A  partir  do  momento  em  que  ficou  sujeita  à  minú¬ 
cia  das  normas  jurídicas,  esta  forma  de  associação  familiar  em  nada  se  distinguiu  de 
uma  sociedade  comercial.  Mas  não  espanta  que  os  irmãos  procedessem  a  negócios  e 
investimentos  individuais  e  que  aquelas  associações  fossem  dissolvidas  com  certa  fre¬ 
quência10',  já  que  a  mutabilidade  dos  interesses  mercantis  passara  a  prevalecer  sobre  a 
perenidade  dos  vínculos  de  parentesco.  Como,  depois  de  desfeita  a  comunidade  fami¬ 
liar,  era  possível  que  os  irmãos  se  mantivessem  ligados  mediante  um  contrato  em  tudo 
idêntico  ao  que  unia  pessoas  desprovidas  de  qualquer  relação  de  sangue  ou  de  afini¬ 
dade103.  será  oportuno  sustentar  que  tivesse  existido  uma  diferença  fundamental  entre  o 


ter  individual,  enquanto  o  carácter  familiar  só  lhe  advinha  da  associação  de  uni  número  de  parentes 
mais  vasto.  Mas  nas  maiores  cidades  marítimas  mediterrânicas  os  múltiplos  pequenos  empreendimen¬ 
tos  mercantis  sobrepunham-se  e  conjugavam-se  a  tal  ponto  que  formavam  redes  muitos  vastas,  permi¬ 
tindo  a  associação  entre  parentes. 

95  M.  Balard  i  1978)  522.  52b,  528-529,  609;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  20;  id.  ( 19761  939-940.  94.3;  B. 
Z.  kedar  ( 1976)  26-27. 

96  G.  Zordan  !  1966)  127.  I46esegs. 

97  Id..  ibid..  163-164  pretende  que  o  desenvolvimento  económico,  obrigando  a  uma  concentração 
crescente  de  fundos,  levara  a  elite  mercantil  a  abandonar  gradualmente  a  repartição  do  património 
entre  os  herdeiros  e  a  adoptar  uma  forma  de  comunhão  dos  bens.  Todavia,  o  processo  de  concentração 
da  riqueza  não  implicava,  por  si  só.  que  tal  concentração  devesse  operar-se  em  quadros  familiares. 

98  M.  Beard  1 1938)  1 1 1;  J.  Heers  (1974.)  233-234;  F.  C.  Lane  (1944)  179;  id.  (1973)  51.  138;  G. 
Zordan  (1966)  164  e  segs..  186. 

99  G.  Zordan  (1966)  181-182. 

11X1  J.  Heers  (1974)  233;  F  C.  Lane  (1944)  178-179;  id.  (1973)  138. 

lm  F.  C.  Lane  ( 1973)  138;  R.  S.  Lopez  1 1965)  144;  G.  Zordan  (1966)  189. 

M.  M.  Postan  !  1957)  546-547  defende  que  a  cláusula  da  responsabilidade  ilimitada  de  cada  um 
dos  sócios  pelas  dívidas  cometidas  pela  sociedade  era  acene  pelos  tribunais  ingleses  para  qualquer 
tipo  de  sociedade  e.  com  este  argumento,  levanta  dúvidas  (p.  526  e  n.  12)  sobre  a  tese  que  afirma  a 
origem  familiar  da  compagna  italiana,  na  qual  ocorreria  também  a  responsabilidade  ilimitada  em 
matéria  de  dívidas. 

I,L’  S.  Bertelli  ( 1978)  89-90;  G.  Zordan  ( 1966)  191. 

Segundo  J.  Hílaire  ( 1973)  32,  esta  seria  uma  característica  genérica  das  comunidades  dc  tipo  fra¬ 
ternal  constituídas  entre  profissionais  da  manufactura  ou  do  comércio,  pois  todas  elas  eram  de  pouca 
duração,  limitando-se  geralmente  a  alguns  anos,  o  que  revelaria  a  influência  das  sociedades  mercantis. 

103  G.  Zordan  (1966)  193. 


330 


Forma  III  do  dinheiro 


quadro  familiar  e  o  comercia!  quando  ambos  levavam  a  uma  situação  prática  do  mesmo 
tipo?  Tanto  mais  que  este  modelo  de  sociedade  juntava  com  muita  frequência  pessoas 
estranhas,  embora  por  prazos  mais  curtos  do  que  sucedia  entre  irmãos104.  Também  na 
elite  das  cidades  toscanas  a  frequência  da  comunhão  patrimonial  entre  irmãos,  inclusi¬ 
vamente  após  a  morte  do  pai,  talvez  tivesse  aumentado  com  a  passagem  do  tempo, 
mesmo  além  do  termo  do  período,  embora  tais  associações  continuassem  a  ser  secun- 
darízadas  pela  família  conjugal105.  Encontro  indicações  da  existência  ocasional  de 
algumas  comunidades  de  posse  e  de  habitação  muito  duradouras  em  Florença,  reunindo 
os  irmãos  até  ao  fim  da  vida106.  E  sabe-se  que  nesta  cidade,  tal  como  em  Siena,  a  maior 
parte  dos  primeiros  bancos  de  câmbio  e  de  empréstimo  resultou  de  sociedades  consti¬ 
tuídas  entre  irmãos107.  Mas,  paralelamente,  a  participação  nas  companhias  bancárias  e 
noutros  negócios  não  juntava  mais  do  que  alguns  parentes,  associados  além  disso  a 
numerosos  elementos  exteriores10*,  o  que  nos  deixa  de  novo  sem  saber  se  o  vínculo 
mais  forte  se  estabeleceria  no  âmbito  familiar  ou  no  mercantil.  E  se  for  certa  a  tese  que 
pretende  que  na  elite  comercial  florentina  os  irmãos  procuravam  dividir  rapidamente  o 
património  herdado  do  pai,  para  em  seguida,  com  muita  frequência,  redigirem  perante 
notário  acordos  que  punham  outra  vez  em  comum  toda  ou  parte  desse  património100, 
mais  razões  tenho  ainda  para  hesitar,  ignorando  se  o  quadro  familiar  se  dissolvia  em 
relações  de  negócios  ou  se,  pelo  contrário,  eram  os  contratos  comerciais  a  dar  novo 
vigor  aos  elos  de  parentesco. 

O  carácter  tardio  das  comunidades  familiares  de  cariz  imediatamente  económico  e  o 
facto  de  elas  se  terem  desenvolvido  precisamente  nos  centros  onde  a  economia  mais 
evoluíra  indicam  que  não  se  tratava  aqui  de  qualquer  traço  arcaico,  mas  de  um  fenó¬ 
meno  socialmente  inovador.  Isto  significa  que  nas  demais  cidades  a  esmagadora  maio¬ 
ria  das  famílias  da  elite  não  recorria  de  maneira  sistemática  a  este  tipo  de  meios  para  se 
opor  aos  factores  de  desagregação.  Por  outro  lado,  em  todos  aqueles  casos  verificados 


F.  C.  Lane  ( 1973  i  138;  G.  Zordaii  ( 1966)  191. 

105  Referindo-se  aos  centros  urbanos  da  Toscana.  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  332-335  pretendem 
que  ao  longo  do  século  XV  aumentou  a  probabilidade  de  os  irmãos,  mesmo  casados,  se  manterem 
em  comunidade  familiar,  tanto  antes  como  depois  da  morte  do  pai,  embora  previnam  (p.  335)  que  a 
frérèche  continuava  a  ser  um  fenómeno  secundário  relativamente  à  família  conjugal.  Todavia.  M.  B. 
Becker  (1967-1968)  II  90  sustenta  que  as  grandes  companhias  familiares  de  negócios  se  foram  tor¬ 
nando  cada  vez  mais  raras  em  Florença  no  final  do  período.  E  encontra-se  em  D.  Herlihy  ( 1995  a) 
212-213  a  tese  de  que  o  individualismo  teria  sido  completameme  hegemónico  na  vida  económica  flo¬ 
rentina;  acerca  desta  opinião  ver.  mais  à  frente,  a  n.  261.  Finalmente,  é  oportuno  recordar  que  no  pri¬ 
meiro  terço  do  século  XV,  quando  morreu  o  chefe  do  ramo  da  família  florentina  dos  Bardi  estabele¬ 
cido  na  Hungria,  onde  obtivera  grandes  sucessos  e  se  convertera  num  verdadeiro  nobre,  aparentado  por 
afinidade  com  a  aristocracia  local,  os  seus  quatro  filhos  continuaram  os  negócios  paternos,  na  maior 
parte  dos  casos  em  comum.  Ver  a  este  respeito  G.  Székely  (196-1)  47-48.  Mas  revelar-se-ão  nesta  prᬠ
tica  as  condições  familiares  florentinas  da  época  ou  a  situação  prevalecente  na  sociedade  magiar? 

106  Ch.  Klapisch-Zuber  (1980)  78-79;  C.  Lansmg  ( 1991 )  37-39. 

107  J.  Heers(  1974)  230. 

"*  R.-H.  Bautier  ( 1992)  65;  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  90;  H.  Bresc  ( 1986)  396;  G.  A.  Bnicker 
(1962)  26-27;  R.  de  Roover  (1948)  31;  C.  Lansing  (1991)  39,  53;  R.  Pemoud  (1948)  106;  Y. 
Renouard  1 1941 )  47. 

109  D.  Herlihy  (1995  a)  212. 


Estruturas  familiares  na  meio  urbano 


331 


nos  principais  centros  de  negócios,  como  se  tratava  de  relações  de  carácter  contratual, 
que  podiam  ser  ampliadas  de  maneira  a  incluir  pessoas  originariamente  estranhas  à 
família110,  as  associações,  em  vez  de  ajudarem  a  delimitar  o  perfil  das  linhagens,  pelo 
contrário,  contribuíram  para  tomá-lo  mais  difuso,  abrindo-o  a  modalidades  de  paren¬ 
tesco  artificial.  Aliás,  no  final  do  período,  parece  que  as  comunidades  baseadas  na  fra¬ 
ternidade  artificial,  estabelecidas  entre  estranhos  no  meio  manufactureiro  e  no  mercan¬ 
til,  eram  pelo  menos  tão  numerosas  como  as  que  incluíam  parentes111,  o  que  decerto 
explica  que  um  jurista  da  França  setentrional  na  segunda  metade  do  século  XIII  usasse 
o  mesmo  termo  tanto  para  a  comunidade  conjugal  e  as  comunidades  tácitas  como  para 
as  comunidades  de  mercadores1 12,  ou  que  em  Toulouse  a  palavra  aplicada  aos  membros 
das  comunidades  familiares  tácitas  servisse  igualmente  para  denominar  todos  os  que 
exploravam  ou  possuíam  bens  em  comum1 1  \  tal  como  em  Pisa,  no  começo  do  período, 
o  mesmo  vocábulo  designava  os  parentes  reunidos  por  um  património  indiviso  e  os 
estranhos  associados  num  negócio1 14. 

Os  riscos  de  desintegração  não  poupavam  também  as  sociedades  de  torres  e  até  os 
grupos  familiares,  não  obstante  ambos  terem  sido  constituídos  com  o  objectivo  de  con¬ 
solidar  vastas  relações  de  parentesco.  Mas  o  crescimento  do  número  de  membros  das 
sociedades  de  torres  em  Itália,  bem  como  a  dimensão  que  os  grupos  familiares  atingi¬ 
ram  em  várias  cidades,  suscitaram  diferenças  e  conflitos  entre  as  unidades  que  os  com¬ 
punham11-'.  tomando-se  necessário  desenvolver  formas  agregativas.  É  curioso  observar 
que  o  factor  patrimonial  parece  ter  representado  um  elemento  de  coesão  mais  forte  para 
as  sociedades  de  torres  e  para  os  grupos  familiares  do  que  para  as  células  familiares 
isoladas,  como  se  a  elite  urbana  achasse  na  família  ampla  o  quadro  verdadeiramente 
decisivo.  Nas  sociedades  de  torres  que  proliferaram  em  Itália  o  vínculo  entre  os  mem¬ 
bros  baseava-se  na  posse  comum  da  fortificação,  assegurada  contratualmente116.  Numa 
modalidade  mais  elaborada,  era  frequente  que  um  novo  sócio  cedesse  aos  demais  mem- 


1  lü  P.  Cammarosano  ( 1 977 1  191  Ver  igualmente:  R.  S.  Lopez  ( 1965)  144;  id.  (1974)  108-109. 

111  J.  Hilaire  ( 4973)  30-31;  V.  Rutenburg  (1974)  31. 

112  O  bailio  Philippe  de  Rémi.  senhor  de  Beaumanoir,  classificava  como  «companhias»  aquelas 
três  modalidades  de  comunidade,  consoante  indica  J.  Hilaire  ( 1973)  49  n.  115. 

u-  Acerca  do  emprego  do  termo  ■ parsonnier ••  em  Toulouse.  ver  G.  Sicard  ( 1953)  166-167. 

1 14  G.  Rossetti  1 1977  a)  1 75  elucida  o  uso  da  palavra  « consortes »  em  Pisa  nos  séculos  XI  e  XII. 

1,5  A  ampliação  exagerada  das  sociedades  de  torres  contribuiu  para  o  seu  declínio,  escreve  P. 
Santini  (1887)  187-188,  sendo  um  factor  de  instabilidade  interna.  J.  Heers  ( 1974)  97  observa,  por  seu 
lado,  que  a  notável  extensão  alcançada  por  muitos  grupos  familiares  propiciou  os  conflitos  no  seu 
seio.  comprometendo-lhes  assim  a  coesão  A  diferença  de  estatuto  económico  entre  os  vários  ramos 
de  um  mesmo  grupo  familiar  fazia  com  que  eles  divergissem  rapidamente  e  se  separassem,  afirma  P. 
Desportes  (1979)  642  a  respeito  de  Remis  na  segunda  metade  do  século  XTV.  E  na  Itália,  a  crer  em  S. 
Bertelli  ( 1978)  81  e  segs.,  a  ramificação  do  tronco  familiar  originário  levou  à  diversificação  das  posi¬ 
ções  políticas  assumidas  pelos  membros  do  grupo,  no  interior  de  uma  mesma  linha  agnática.  Com 
efeito,  G.  A.  Brucker  ( 1962)  128  dá  exemplo  de  famílias,  na  Florença  do  século  XIV,  cujos  membros 
pertenciam  a  facções  políticas  opostas.  Debruçando-se  igualmente  sobre  o  caso  de  Florença,  M.  B. 
Becker  (1967-1968)  1  211  considera  que  a  grande  variedade  de  estatutos  económicos  dentro  de  um 
mesmo  quadro  familiar  lhe  prejudicava  a  coesão,  e  uma  posição  idêntica  é  adoptada  por  C.  Lansing 
(1991)  57-58  e  230. 

Hí,J.  K.  Hydc  (1973)  56;  P.  Sammi(l887)  180-181.  184, 


332 


Forma  III  do  dinheiro 


bros  uma  pane  da  sua  residência,  recebendo  em  troca  uma  pane  numa  casa  contígua  à 
torre11 E  mesmo  depois  de  este  tipo  de  sociedades  ter  feito  época  encontravam-se.  por 
exemplo  na  Florença  dos  meados  do  século  XIV,  associações  guerreiras  de  carácter 
político  que  tinham  como  base  material  comum  não  uma  fortaleza,  mas  uma  dada  soma 
de  dinheiro1 18.  Quanto  aos  grupos  familiares  urbanos,  em  Reims.  até  se  dissolverem  na 
segunda  metade  do  século  XIV  e  serem  substituídos  por  outro  sistema  de  parentesco, 
eles  tiveram  nos  seus  patrimónios  fundiários  um  dos  mais  importantes  eixos  de  conti¬ 
nuidade119.  Mas  parece  que  foi  especialmente  nas  cidades  inediterrànicas  que  os  gru¬ 
pos  familiares  se  esforçaram  por  preservar  a  coesão  patrimonial  ao  longo  das  sucessi¬ 
vas  gerações120.  Na  Itália  um  dos  factores  de  unidade  destes  grupos  era  a  manutenção 
de  um  património  comum121,  e  sucedia  correntemente  que  a  casa  principal  e  as  fortifi¬ 
cações  urbanas,  ou  mesmo  bens  fundiários  com  um  estatuto  menos  prestigiado,  fossem 
conservados  de  maneira  indivisa  por  todos  os  herdeiros  directos122.  Ainda  aqui  a  com¬ 
ponente  mercantil  progrediu  no  interior  das  redes  de  parentesco,  e  alguns  grupos  fami¬ 
liares  da  Itália  centro-setentrional  não  tinham  já  como  foco  de  coesão  uma  fortaleza, 
mas  uma  soma  de  dinheiro12-1. 

Todavia,  para  que  o  património  funcionasse  como  factor  de  solidariedade  entre  os 
participantes  de  uma  sociedade  de  torre  ou  entre  os  membros  de  um  grupo  familiar  não 
era  necessário  mantê-lo  indiviso,  bastando  o  exercício  do  direito  de  opção.  Em  Itália,  se 
um  membro  de  uma  sociedade  de  torre  pretendia  alienar  a  sua  quota,  os  demais  mem¬ 
bros  tinham  prioridade  na  aquisição,  evitando-se  que  outras  famílias  se  introduzissem 
naquela  área  fortificada124.  No  caso  dos  grupos  familiares,  quando  as  alienações  de 
propriedades  fundiárias  e  de  casas  requeriam  a  concordância  de  um  certo  número  de 
parentes,  o  que  aconteceu  com  muita  frequência  nos  centros  urbanos  das  regiões  tnedi- 
terrânicas.  ou  por  vezes  necessitavam  mesmo  do  assentimento  de  um  conselho  do 
grupo125,  verificamos  que  a  repartição  do  património  entre  os  herdeiros  não  impedia, 
por  si  só,  a  manutenção  da  solidariedade  económica  entre  os  membros  da  associação 
familiar. 


111  P.  Santini  (1887)  185. 

I,s  Id.,  ibitf,  188-189. 

I|QP.  Desportes  (1979)  281. 

120  J.  Heers(  1990)  218. 

1:1  S.  Bertelli  (1978)  47-48,  50;  P.  Cammarosano  <  1977)  |92:  A.  Grohmann  ( 1981)  162;  C.  Lan- 
sing  (1991 )  21,  37;  G.  Rossetti  (1977  a)  175-176. 

Enquanto  no  século  XIII  os  grupos  familiares  florentmos  haviam  detido  consideráveis  patrimó¬ 
nios  comuns.  C.  Lansing  1 1991 )  57  e  230  esclarece  que  nos  séculos  XIV  e  XV  o  bens  nesta  situação 
se  tinham  tomado  raros,  limitando-se  por  vezes  a  um  carácter  simbólico. 

122  J.  Heers  (19901  218-220;  C.  Lansing  < 199h  36-37.  39.  50.  52.  84;  P  Santini  i  1887)  178;  Ch. 
Wiekham  (1981)  187. 

121  C.  Violante  (1977)  12.3. 

124  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  344;  C.  Lansing  i  1991  s  91 ;  P  Santini  1 1887)  37.  187 

125  E.  G rendi' ( 1975)  249;  J.  Heers  <  1990)  218.  C.  Lansing  i  1991  i  47.  49. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbana 


333 


4 

Tal  como  sucedeu  com  a  aristocracia  rural,  também  entre  a  elite  urbana  as  várias 
modalidades  de  indivisão  patrimonial  ou  de  associação  na  detenção  de  bens  se  revelaram 
insuficientes  para  garantir  à  família  uma  estrutura  com  a  solidez  adequada,  e  as  institui¬ 
ções  eclesiásticas  foram  utilizadas  para  promover  a  coesão  dos  parentes  e  das  clientelas. 

Continuou-se  ao  longo  de  todo  o  período  a  recorrer  às  antigas  práticas  que  consis¬ 
tiam,  por  um  lado.  em  assegurar  a  membros  da  unidade  familiar  ou  do  grupo  o  direito 
de  ocupar  dadas  dignidades  clericais126,  ou  em  reservar  para  a  família,  ou  para  as  famí¬ 
lias  associadas,  o  direito  de  nomear,  directa  ou  indirectamente,  as  pessoas  destinadas  a 
preencherem  tais  cargos127.  Por  outro  lado.  perdurava  também  o  direito  de  simples¬ 
mente  receber  ou  administrar  proventos  religiosos l2*.  Em  Pisa,  por  exemplo,  os  grupos 
familiares  consolidavam-se  e  reforçavam  a  sua  identificação  através  da  posse  em 
comum  de  direitos  de  patrono  sobre  instituições  eclesiásticas,  e  igualmente  prestando 
juramento  de  fidelidade  ao  bispo  pela  detenção  em  termos  vassálicos  de  bens  ou  rendi¬ 
mentos  da  Igreja121'.  O  mesmo  ocorria,  e  parece  que  com  notável  eficácia  e  durabili¬ 
dade,  nos  grupos  familiares  florentinos.  que  contavam  direitos  religiosos  entre  o  seu 
património  indiviso1’0,  sendo  aliás  estes  direitos  os  que  mais  tempo  mantiveram  na 
posse  comum1'1,  Noutra  modalidade,  sucedia  que  membros  laicos  da  elite  procurassem 
ocupar  funções  de  administração  comercial  c  financeira  ao  serviço  de  dignitários  do 
clero,  especialmente  cónegos,  ficando  portanto  associados  à  gestão  da  fortuna  da  Igreja 
local,  o  que,  além  de  isenções  fiscais,  sem  dúvida  lhes  trazia  outros  benefícios  pecuniᬠ
rios  consideráveis;  e  como  esses  eclesiásticos  inseriam  nas  suas  clientelas  os  adminis¬ 
tradores  laicos  e  lhes  estendiam  a  sua  protecção,  proporcionavam-lhes  também  maiores 
facilidades  de  ascensão  política  e  social1'2.  O  movimento  de  reforma  religiosa  não 
parece  ter  ocasionado  alterações  substanciais,  porque,  se  pudermos  generalizar  o  caso 
da  Provença  na  passagem  do  século  XI  para  o  século  seguinte,  os  membros  da  elite 
urbana  detentores  de  dignidades  e  proventos  da  Igreja  e  que  mais  se  haviam  oposto  à 
reorganização  dos  estabelecimentos  eclesiásticos  foram  afastados  e  substituídos  por 
clérigos,  campeões  da  causa  reformadora,  mas  pertencentes  também  à  elite132. 


126  M.  B.  Becker  (1960)47-48;  S.  Bertelli  ( 1978)  139;  G.  A.  Brucker  1 1962)  138-139;  P.  Despor¬ 
tes  (1979)  143  e  segs.:  J.  Lestocquoy  ( 1952)  42;  R.  S.  Lopez  <  1953  a)  38;  D.  Nicholas  ( 1971 )  310;  R. 
L.  Reynolds  <  1945)  4;  J.  Schneulcr  (1950)  436.  457. 

127  S.  Bertelli  (1978)  137;  J.  Heers  ( 1990)  252;  C.  Lansing  ( 1991)  68. 

128  A.  Grohmann  ( 1981)  793-794,  J.  Heers  (1990)  252:  R.  S.  Lopez  ( 1953  a)  28-29. 

I2y  G.  Rosscttii  1977  a)  177. 

120  C.  Lansing  (1991 )  35.  37.  52,  64-65 

131  ld..  ibid..  230. 

132  Acerca  dos  francs-sergents .  administradores  comerciais  e  financeiros  ao  serv  iço  dos  cónegos 
de  Reims  no  último  terço  do  século  XIII  e  no  primeiro  terço  do  século  seguinte,  ver  P.  Desportes 
( 1979)  223-226.  Não  se  imagine,  porém,  que  os  membros  do  clero  necessitassem  obrigatoriamente  de 
conduzir  os  seus  negócios  através  de  profissionais  laicos,  pois  Y.  Renouard  (1941)  16  e  segs.  dá 
exemplos,  no  século  XIV.  de  eclesiásticos  originários  do  meio  mercantil  c  que  se  dedicavam  ao 
comércio  ou  a  actividades  financeiras  quer  como  agentes  de  firmas  controladas  pelos  seus  familiares 
quer  ao  serviço  do  papado  de  Avignon. 

133  J.-P.  Polyi  1976)  300. 


334 


Forma  111  do  dinheiro 


Contudo,  neste  período  foi  de  outra  ordem  o  principal  interesse  que  os  chefes  das 
famílias  da  aristocracia  urbana  manifestaram  pelas  instituições  religiosas.  Nas  cidades 
italianas,  quando  as  paróquias  dos  bairros  populares  se  opunham  às  igrejas  sustentadas 
pelas  associações  de  parentes  e  pelas  respectivas  clientelas,  vemos  que  os  estabeleci¬ 
mentos  eclesiásticos  contribuíam  para  desenhar  os  contornos  sociais  e  topográficos  das 
famílias  e  das  facções134,  tanto  mais  que  na  igreja  familiar  a  torre  podia  servir  suple¬ 
mentarmente  de  fortificação135  e  o  corpo  do  edifício  podia  albergar  assembleias  do 
grupo136.  E  talvez  em  cidades  de  outras  regiões  se  tivessem  verificado  situações  idênti¬ 
cas137.  Por  outro  lado,  parece  que  entre  a  elite  de  Veneza  as  igrejas  familiares  foram  o 
principal  foco  de  agregação  dos  parentes138,  e  na  Gennânia,  sobretudo  nas  cidades  do 
vale  do  Reno,  numerosas  igrejas  foram  erigidas  por  iniciativa  de  membros  da  nobreza 
urbana  e  permaneceram  secularmente  no  âmbito  das  famílias  fundadoras,  frequentadas 
e  controladas  pelo  círculo  dos  descendentes1 39.  Noutras  cidades,  porém,  tais  estabeleci¬ 
mentos  seriam  raros,  como  sucedeu  em  Génova,  onde  estavam  reservados  apenas  aos 
grupos  mais  poderosos140,  multiplicando-se  depois  os  oratórios  privados  no  interior 
das  residências  da  elite141.  Em  muitos  casos  prevaleceram  modalidades  menos  apara¬ 
tosas,  sendo  bastante  corrente  que  dentro  das  igrejas  as  famílias  ou  associações  fami¬ 
liares  detivessem  capelas,  onde  sepultavam  os  seus  mortos,  e  o  nível  de  fortuna  e 
de  prestígio  de  cada  família  evidenciava-se  no  fausto  eventualmente  aplicado  nas  cape¬ 
las  e  na  importância  do  edifício  religioso  em  que  elas  se  localizavam.  Estas  capelas 
podiam  constituir  uma  fonte  de  rendimentos,  mesmo  após  o  movimento  de  reforma 


134  J.  Heers  (1990)  252.  Ver  igualmente:  G.  Fasoli  1 1980)  379. 

A  expansão  de  Veneza  ocorreu  no  início  do  período  mediante  a  formação  de  novas  paróquias, 
cada  uma  delas  correspondendo  a  uma  ilha,  e  F.  C.  Lane  ( 1973)  1 1  indica  que  a  praça  principal  de 
cada  ilha  estava  delimitada  de  um  lado  pelo  porto,  ou  por  armazéns  ou  oficinas,  de  outro  lado  pela 
igreja,  e  nos  dois  lados  restantes  pelas  residências  das  famílias  da  elite  que  haviam  contribuído  para  a 
igreja.  Afigura-se-me  que  o  estabelecimento  religioso  servia,  neste  caso.  de  elo  entre  unidades  fami¬ 
liares  da  elite,  dando-lhes  além  disso  uma  configuração  topográfica. 

135  J.  Heers  ( 1990)  252. 

,3ft  E.  Grendi  (1975)  281;  J.  Heers  <  1990)  255. 

137  H.  Kraus  (1979)  54  observa  que  os  cidadãos  de  Amiens  tiveram  uma  intervenção  decisiva 
enquanto  patronos  das  igrejas  paroquiais.  Poderá  isto  significar  que  famílias  ou  grupos  familiares  da 
elite  controlavam  a  igreja  do  seu  bairro?  Também  em  Londres  Ch.  N.  L.  Brooke  et  al.  (1975)  80 
incluem  entre  as  acções  reveladoras  do  estatuto  da  elite  as  doações  com  que  se  favoreciam  igrejas. 

13*  J.  Heers  (1990)  253. 

A  este  respeito  cabe  recordar,  como  indica  F.  C.  Lane  ( 1973)  12  e  88.  que  a  principal  igreja  da 
cidade  não  era  a  catedral,  mas  a  igreja  de  São  Marcos,  com  o  estatuto  de  capela  privada  do  doge. 
Esta  situação  explica-se  perfeitamente  no  contexto  senhorial,  sem  ser  necessário  invocar  a  tradição 
bizantina  de  submissão  das  autoridades  religiosas  ao  poder  laico,  corno  faz  Frederic  C.  Lane  em  op. 
iit  .  88. 

139  J.  Heers  (1990)  255-256. 

140  Id„  ibid..  253-254  afirma  que  em  Génova  as  igrejas  familiares  eram  pouco  numerosas  e  esta¬ 
vam  reservadas  a  alguns  alberghi  mais  solidamente  implantados.  Também  E.  Grendi  (1975)  263  con¬ 
sidera  que  o  interesse  dos  grupos  familiares  genoveses  pelas  igrejas  privadas  diminuiu  ao  longo  do 
período.  Ainda  acerca  da  detenção  de  igrejas  por  alberghi  ver:  H.  Bresc  (1986)  394:  D.  O,  Hughes 
(1975)9-10;  id.  <1977)100. 

141  E.  Grendi  (1975)  263. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


335 


religiosa142,  mas  era  outra  a  sua  principal  função.  Ao  reservarem  para  si  uma  parte  da 
igreja,  uma  dada  família  ou  um  dado  grupo  familiar  estavam  a  delimitar  o  seu  âmbito 
em  cada  geração,  e  simultaneamente  a  colecção  dos  túmulos  de  antepassados  e  as  ora¬ 
ções  em  sua  memória  ajudavam  a  estabelecer  uma  continuidade  temporal  e  serviam 
para  rememorá-la143.  Mas  para  se  delinear  o  eixo  de  uma  linhagem  não  era  necessário 
deter  fisicamente  um  espaço  eclesial.  bastando  assegurar  o  emprego  de  uma  parte  do 
tempo  do  clero,  que  ficava  encarregado  de  celebrar  periodicamente  ofícios  por  alma 
dos  membros  falecidos  de  uma  dada  família.  Embora  mais  modestamente  do  que  atra¬ 
vés  da  sua  inscrição  no  mármore,  a  invocação  regular  do  nome  dos  antepassados  recor¬ 
dava  em  público  a  perenidade  da  família.  Na  realidade  a  operação  era  bem  mais  mate¬ 
rial  do  que  etérea,  porque  o  clero  só  procedia  a  estas  orações  em  troca  de  dádivas  ou 
legados  que  tivessem  sido  entregues  pelo  defunto  ou  pelos  seus  descendentes144.  O  que 
tantos  historiadores  julgam  -  e  quem  sabe  se  muitos  coevos  acreditavam  também?  - 
tratar-se  de  inquietações  pela  salvação  da  alma  era,  com  muito  maior  verosimilhança,  o 
receio  de  que  viesse  a  ficar  comprometida  a  perpetuação  da  família  enquanto  linhagem. 

Além  disso,  entre  a  elite  urbana,  do  mesmo  modo  que  entre  os  senhores  rurais,  as 
congregações  eclesiásticas  recolhiam  muitos  dos  parentes  marginalizados  pelo  sistema 
de  linhagem145,  impedindo  que  eles  fossem  votados  a  uma  situação  de  miséria  e,  por¬ 
tanto,  atenuando  as  tensões  intentas  provocadas  pela  remodelação  da  estrutura  familiar. 
Mas  se  for  certo,  como  pretendo  desde  a  abertura  deste  capítulo,  que  as  linhagens 
senhoriais  se  definiram  com  menos  rigor  nas  cidades  e  que  os  testamentos  contempla¬ 
ram  aí  com  mais  equanimidade  todos  os  herdeiros  directos,  devemos  deduzir  que,  nesta 
perspectiva,  a  utilidade  de  tais  estabelecimentos  seria  menor  do  que  o  era  para  a  aristo¬ 
cracia  rural.  Esta  situação  intermédia  explica  provavelmente  que  cada  uma  das  Ordens 
Mendicantes  tivesse  fundado  Ordens  Terceiras,  onde  pessoas  que  se  mantinham  no 


l4’  R.  S.  Lopez  (1953  a>  28-29. 

141  Acerca  das  capelas-rnausolcus  familiares  ver:  E.  Grendi  ( 1975)  262.  263:  J.  Heers  ( 1990)  253- 
-254;  D.  O.  Hughes  <  1977)  100;  Ch.  Klapisch  (1976)  955:  H.  Kraus  (1979)  23,  29,  102;  Y.  Renouard 
(1949)  151. 

Note-se  que.  segundo  H.  Kraus  (1979)  103.  enquanto  as  corporações  de  ofícios  não  beneficiavam 
do  uso  exclusivo  das  capelas  que  mandavam  construir,  as  famílias  da  elite,  pelo  contrário,  eram  as 
únicas  detentoras  da  parte  da  igreja  que  haviam  adquirido.  E  na  catedral  de  Notre-Dáme,  em  Paris 
<pp.  23,  29),  embora  as  famílias  da  elite  pudessem  instituir  capelas,  os  lojistas  e  artesãos  não  estavam 
autorizados  a  fazê-lo,  com  a  única  excepção  da  corporação  dos  sapateiros.  Em  Veneza,  todavia,  F.  C. 
Lane  ( 1973)  105.  depois  de  recordar  que  na  origem  das  corporações  estavam  associações  de  devoção 
relacionadas  com  lugares  de  culto,  geralmente  uma  capela  ou  um  certo  altar,  acrescenta  (p.  165)  que 
mais  tarde  cada  corporação  mantinha  uma  capela,  ou  pelo  menos  um  altar,  numa  igreja  paroquial  ou 
num  mosteiro. 

144  Quanto  à  celebração  de  ofícios  por  alma  em  troca  de  dádivas  ver  R.  S.  Lopez  1 1953  a)  27-28. 

145  S.  Bertelli  ( 1978)  137;  F.  L.  Carsten  1 1954)  86;  G.  Cracco  ( 1967)  29-31;  G.  Duby  ( 1953)  406- 
-407;  R.  Fosster  (org.  1974)  155,  157.  P.  H.  Freedman  (1979)  482;  A.  Grohmann  (1981)  163;  J.  Les- 
tocquoy  (1966)  149;  D.  Nicholas  (1971)  310;  J  Schneider  ( 1950)  271,436,  457-458. 

Mas  não  creio  que  G.  Duby  ( 1953)  407  tenha  razão  ao  pretender,  a  propósito  do  Mâconnais,  que 
eram  as  comunidades  religiosas  urbanas  quem  melhor  realizava  a  fusão  entre  a  sociedade  mercantil  e 
a  sociedade  dos  cavaleiros.  Nem  a  nobreza  rural  estava  afastada  dos  negócios  nem  a  elite  urbana,  na 
sua  vida  corrente,  era  alheia  aos  valores  da  cavalaria. 


Forma  III  do  dinheiro 


336 


estado  laico  conjugavam  a  observância  de  uma  certa  disciplina  espiritual  com  o  prosse¬ 
guimento  dos  negócios  correntes146.  Aliás,  conhecem-se  casos  em  que  viúvas  de  moe- 
deiros  se  retiraram  para  conventos,  embora  sem  adoptarem  completamente  a  regra  ecle¬ 
siástica  e  continuando  a  proceder  a  negócios14  '  . 

Mas  será  que  esta  rede  de  relações  permitiu  que.  pelo  menos  na  esfera  da  Igreja  e 
dos  patrimónios  eclesiásticos,  a  cidade  ultrapassasse  a  fragmentação  e  se  convertesse 
verdadeiramente  numa  colectividade?  Com  efeito,  as  hierarquias  religiosas  estavam 
centralizadas  no  quadro  urbano,  e  talvez  seja  natural  assumirmos  que  uma  estrutura 
deste  tipo  contribuísse  para  a  formação  do  senhor  colectivo.  Mas  na  realidade  a  situa¬ 
ção  revelou-se  muito  contraditória. 

For  um  lado,  é  indubitável  a  existência  de  instituições  e  movimentos  religiosos 
sustentados  pela  globalidade  dos  cidadãos.  Uma  das  suas  manifestações  mais  explíci¬ 
tas  consistiu  na  utilização  das  igrejas  para  objectivos  estritamente  mercantis  e  em 
benefício  da  comunidade  dos  negociantes.  Nos  séculos  XI  e  XII,  tanto  em  cidades  e 
colónias  de  mercadores  do  norte  do  continente  e  da  Inglaterra  como  em  entrepostos 
comerciais  criados  no  Mediterrâneo  levantino,  sucedeu  que  os  edifícios  religiosos 
estivessem  no  centro  do  tráfico,  sendo  usados  para  armazenar  mercadorias  ou  mesmo 
para  proceder  às  operações  de  compensação  entre  os  vários  profissionais  activos  no 
mercado  local,  enquanto  eram  também  atribuídas  frequentemente  aos  padres  as  fun¬ 
ções  de  escriturários  ou  até  de  notários,  e  de  guardiães  dos  pesos  e  medidas.  E  difícil 
encontrar  uma  relação  mais  estreita  entre  uma  instituição  eclesiástica  e  uma  comuni¬ 
dade  urbana,  mas  este  nexo  desfez-se  nos  séculos  seguintes,  precisamente  devido  ao 
crescimento  das  colónias  mercantis148.  o  que  serve  para  nos  advertir,  uma  vez  mais, 
de  que  não  eram  simples  nem  unívocas  as  linhas  de  desenvolvimento  da  cidade 
enquanto  senhor  colectivo.  Noutro  plano,  ocorreram  também  movimentos  de  religio¬ 
sidade  emanados  do  conjunto  dos  cidadãos,  nomeadamente  o  apoio  às  Ordens  Mendi¬ 
cantes149. 

Em  sentido  contrário,  todavia,  basta  sabermos  que  o  contributo  dos  cidadãos  nem 
sempre  foi  um  factor  significativo  para  a  construção  das  catedrais 150  para  constatar¬ 
mos  que  não  existia  qualquer  tendência  que.  por  si  só,  levasse  a  camada  dominante  de 
uma  cidade  a  relacionar-se  globalmente  com  a  sede  da  diocese.  E  quando,  no  final  do 


|4,>  B.  W.  Rosenwein  et  al.  ( 1974)  28. 

147  R.S.  Lopez  (1953  ai  28. 

148  Acerca  da  utilização  de  igrejas  por  comunidades  de  mercadores  consultar  V.  Slessarev  (1967) 
177-178,  180.  183,  186  e  188-192.  No  norte  do  continente  esta  situação  é  referida  por  J.  Gilchrist 
(1969)  3-4  e  D.  M.  Nicholas  (1969)  104-105.  111.  Quanto  ao  sucedido  em  Inglaterra  ler  C.  Platt 
(1976)  157. 

149  B.  W.  Rosenwein  et  al.  (1974)  28  indicam  como  regra  geral,  em  todas  as  regiões,  que  o  apoio 
mais  dinâmico  prestado  às  Ordens  Mendicantes  se  deveu  k  elite  urbana,  seguindo  os  populares  na  sua 
esteira,  enquanto  a  arraia-miúda  se  manteve  alheia  ao  movimento 

150  H.  Kraus  ( 1979)  45. 

Em  Estrasburgo  foi  muito  avultada  a  contribuição  pecuniária  dos  cidadãos  para  a  construção  da 
catedral  e.  de  toda  a  Gennânia,  só  ali  e  em  Viena  eles  passaram  a  controlar  as  obras  do  edifício,  indica 
id.,  ibid..  112-113.  1 17  e  127  e  segs.  Também  a  catedral  de  Amiens  (pp.  43  e  segs.)  se  ergueu  com  a 
ajuda  de  subsídios  particulares. 


Estruturas  familiares  no  meto  urbano 


337 


período,  os  governos  urbanos  começaram  a  impor  nas  respectivas  áreas  de  poder  uma 
orientação  eclesiástica  comum151,  ou  mesmo  a  usar  instituições  religiosas  enquanto 
órgãos  de  administração  plenamente  inseridos  na  comunidade152,  já  essas  cidades  se 
apresentavam  enquanto  colectividades  políticas,  sem  que  nos  apercebamos  de  que 
maneira  a  relação  entre  as  famílias  da  elite  e  os  patrimónios  religiosos  leria  conseguido 
ajudar  este  processo1"’3. 


5 

Servindo  de  elemento  agregativo  paralelamente  às  facetas  económica  e  religiosa  do 
património,  ou  talvez  até  com  uma  eficácia  superior,  devemos  considerar  o  aspecto 
topográfico.  A  disposição  do  habitat  proporcionou  um  dos  meios  de  pressão  mais  notᬠ
veis  para  assegurar  a  coesão  das  famílias  e  dos  grupos  familiares.  Em  Douai  ficou 
registado  o  esforço  de  figuras  importantes  da  elite  para  concentrarem  na  mesma  área  da 
cidade  a  maioria  das  casas  que  adquiriam154.  Do  outro  lado  do  continente,  em  Veneza, 
as  luxuosas  residências  das  pessoas  mais  ilustres  formavam  uma  vasta  unidade  arqui- 
tectónica,  relativamente  auto-suficiente,  com  abastecimento  próprio  de  água  e  combus¬ 
tível,  e  incluindo  num  só  espaço  várias  gerações  de  irmãos  e  primos,  bem  como  a  cria¬ 
dagem  e  os  escravos155.  Também  em  Pisa  as  unidades  familiares  associadas  num  grupo 
habitavam  num  conjunto  de  edifícios,  e  a  identificação  topográfica  e  arquitectónica 


151  S.  Berrelli  1 1978)  135  e  segs.  afirma  que  em  Itália  os  bispos  só  muito  raramenie  residiam  na 
sede  das  dioceses  e.  como  a  continuidade  do  governo  das  Igrejas  locais  assentava  no  capítulo  das 
catedrais,  cujos  lugares  eram  preenchidos  sobretudo  por  pessoas  oriundas  das  famílias  mais  ricas, 
através  desre  órgão  a  elite  conseguiu  adquirir  o  controlo  tanto  dos  bens  temporais  da  Igreja  como  da 
vida  religiosa. 

152  Em  Estrasburgo,  no  último  terço  do  século  XIII,  depois  da  derrota  militar  infligida  ao  bispo 
pela  elite  da  cidade,  a  nova  autoridade  eclesiástica  aceitou  que  a  primeira  missa  de  cada  dia  fosse 
rezada  num  aliar  pertencente  ao  governo  urbano,  e  este  altar  supunha  igualmente  um  direito  de  asilo. 
Como  comenta  H.  Kraus  (1979)  1 17.  ficava  assim  criada,  no  interior  da  esfera  da  Igreja,  uma  área 
cívica  beneficiada  pela  protecção  divina.  E  este  autor  observa  também  (p.  128)  que  na  segunda 
metade  do  século  XIV  a  catedral  foi  utilizada  com  frequência  crescente  para  funções  administrativas  e 
governamentais. 

Vimos  na  n.  151  que  na  Itália,  segundo  S.  Bertelli  (1978)  135  e  segs.,  o  controlo  exercido 
sobre  o  capítulo  permitiu  à  elile  orientar  a  vida  religiosa  das  cidades.  Mas  sucedia  igualmente  o 
inverso,  e  a  relação  entre  u  elite  e  os  patrimónios  eclesiásticos  podia  prejudicar  a  afirmação  da  auto¬ 
nomia  do  governo  urbano.  Em  Reims.  por  exemplo.  P.  Desportes  ( 1979)  227  esclarece  que  o  capítulo, 
adverso  ao  estabelecimento  de  uma  comuna,  oferecia  à  elite  consideráveis  compensações  materiais. 
Neste  caso  os  benefícios  económicos  proporcionados  pela  gestão  dos  bens  do  clero  actuaram  em  sen¬ 
tido  contrário  a  aquisição  de  uma  supremacia  política.  A  respeito  dos  francs-sergrius  de  Reims  ver 
a  n.  132.  Aliás,  na  Florença  do  século  XIV  as  novas  famílias  da  elite,  de  origem  popular,  e  cujos 
membros  não  estavam  representados  entre  o  aito  clero,  conseguiram  ascender  no  governo  da  cidade  e 
impor  a  sua  hegemonia  sobre  a  elite  tradicional  na  medida  em  que  não  pouparam  os  privilégios  ecle¬ 
siásticos,  ate  que  após  os  meados  do  século  a  política  religiosa  deixou  de  constituir  uma  questão 
urgente.  Consultar  a  este  respeito  M.  B.  Becker  (1959)  62-63  e  G.  A.  Bnicker  ( 1962)  138,  157. 

154  J.  Lestocquoy  (1952)  179. 

155  F.  C.  Lane  (1973)  206.  Ver  também:  .1.  Lestocquoy  (1952)  181 


338 


Forma  III  do  dinheiro 


constituía  um  elemento  de  definição  a  tal  ponto  genérico  que  o  mesmo  termo  designava 
os  complexos  residenciais  e  os  grupos  familiares156. 

E  certo  que  na  maior  parte  das  cidades  os  membros  das  famílias  associadas  não  coa¬ 
bitavam  geralmente  numa  residência  única,  mas  a  sua  participação  no  grupo  implicava 
uma  vida  social  comum  num  espaço  próprio157,  marcado  pelas  praças  e.  quando  exis¬ 
tiam,  pelas  fortificações.  Em  todas  as  regiões  a  estrutura  urbanística  era  condicionada 
pela  presença  de  pequenos  pátios  interiores,  rodeados  pelas  habitações  e  outros  bens 
imóveis  pertencentes  aos  membros  de  cada  grupo  familiar  ou  aos  seus  clientes,  e  que 
lhes  serviam  de  local  de  reunião  e,  mais  genericamente,  de  centro  de  frequência 
social158.  Em  Génova,  onde  os  grupos  familiares  tiveram  como  uma  das  suas  origens 
a  convergência  das  residências  e  demais  propriedades  imobiliárias  nos  mesmos  bair¬ 
ros159,  a  instabilidade  política  do  século  XIV  veio  reforçar  ainda  esta  concentração,  de 
maneira  que  as  áreas  residenciais  se  transformaram  em  verdadeiros  complexos  fortifi¬ 
cados  e  defensivos160.  E  no  caso  de  Florença,  por  exemplo,  no  final  do  período  os  pri¬ 
mos  moravam  em  casas  próximas161,  delimitando  topograficamente  o  grupo  familiar. 
Nesta  cidade,  mesmo  quando  as  habitações  da  elite  eram  detidas  em  comum,  elas  esta¬ 
vam  repartidas  em  unidades  residenciais  separadas  e.  portanto,  se  fosse  posto  cobro  à 
indivisão,  o  conjunto  arquitectónico  permaneceria  integrado,  podendo  suceder  que  se 
mantivesse  colectivamente  a  propriedade  do  pátio  central,  usado  pelas  várias  unidades 
do  grupo  familiar162.  E  quanto  mais  poderoso  era  um  grupo  e  maior  a  sua  influência, 
tanto  mais  ele  contribuía,  através  da  concentração  de  casas  e  de  fortificações,  para 
ordenar  o  espaço  urbano  em  redor.  Os  grupos  familiares  florentinos  do  século  XIII 
fragmentaram  o  tecido  da  cidade,  deixando-lhe  bem  marcada  a  sua  relação  com  clien¬ 
tes,  vizinhos  e  inimigos,  de  modo  que  entre  os  objectivos  estratégicos  de  uma  grande 
família  estava  incluído  o  controlo  de  um  bairro16'.  Em  vez  de  serem  detidas  homoge¬ 
neamente  pelos  grupos  familiares,  as  circunscrições  de  Florença  eram  alvo  de  acesas 
disputas  entre  os  vários  grupos164. 


136  * Domus  •  designava  tanto  um  grupo  familiar  como  um  conjunto  residencial,  explica  G.  Ros- 
setti  ( 1977  a)  177. 

157  E.  Grendi  ( 1975)  277;  J.  Heers  (1974)  1 37-138;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  324. 

No  entanto,  o  que  P.  Desportes  (1979)  281  escreve  acerca  da  importância  da  residência  central 
como  eixo  de  continuidade  nos  grupos  familiares  de  Reims  leva-me  a  supor  que  ocorresse  aí  a  coabi¬ 
tação  das  várias  unidades  familiares  associadas.  Aliás,  na  medida  em  que  geralmente  se  agrupavam 
apenas  três  ou  quatro  núcleos  conjugais  e  que  só  as  famílias  principais  e  mais  antigas  reuniam  acima 
de  dez  núcleos,  a  coabitação  afigura-se-me  inteiramente  possível. 

I5!i  Acerca  dos  pátios  interiores  ver  pnncipalmente  J  Heers  (1990)  235-243.  que  insiste  no  facto 
de  esta  estrutura  urbanística  ser  comum  a  todas  as  regiões  do  regime  senhorial.  S.  Bertelli  1 1978)  48  e 
G.  Fasoli  (1980)  379  mencionam  a  importância  das  praças  para  os  grupos  familiares  das  cidades  ita¬ 
lianas.  Quanto  à  situação  em  Génova  consultar;  E.  Grendi  ( 1975)  262-263;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  9;  id. 
(1977)  1 00.  Acerca  de  Florença  ver:  R.  A.  Goldthwaite  ( 1 972 )  980. 

139  Ver  mais  adiante  a  n.  212. 

160  D.  O.  Hughes  (1975)  28;  id.  (1977)  109- 1 10. 

161  Ch.  Klapisch-Zuber  ( 1980)  79. 

1(0  C.  Lansing  (1991)  102. 

163  Id..  ibid.,  21,  37,  84. 

164  ld..  ibid..  176. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


339 


Por  outro  lado,  sempre  que  a  paisagem  urbana  se  eriçava  de  torres,  como  sucedia 
em  Itália,  era  à  volta  delas  que  se  dispunham  as  residências  que  os  membros  do  grupo 
iam  mandando  construir165.  E  quando  alguma  família  da  elite  tradicional  conseguia  ser 
encarregada  da  guarda  de  um  sector  das  muralhas,  o  que  ocorreu  frequentemente  num 
bom  número  de  cidades  da  Itália  e  do  sul  e  oeste  da  França,  e  talvez  até  do  noroeste166, 
afígura-se-me  possível  que  uma  relação  duradoura  com  tais  elementos  urbanísticos 
favorecesse  a  coesão  familiar. 

Afinal,  só  quando  as  famílias  e  os  grupos  familiares  passaram  a  remeter  a  sua  iden¬ 
tidade  para  o  Estado  e  encontraram  nele  um  novo  quadro  de  inter-relacionamento  é  que 
os  conjuntos  habitacionais  deixaram  de  incluir  no  seu  interior  espaços  públicos.  As 
residências  individualizaram-se  e  privatizaram-se167,  e  em  vez  dos  labirintos  defensivos 
de  fortificações  e  vielas  que  haviam  protegido  as  amplas  associações  familiares  e  dos 
pátios  intentos  que  tinham  servido  para  assinalar  a  coesão  dos  parentes  e  das  suas 
clientelas,  rasgaram-se  ruas  e  praças  abertas  à  frequência  de  todos  os  habitantes168  e 
construíram-se  poços  e  fontes  onde  qualquer  um  podia  buscar  a  água169.  A  cidade  deixou 
então  de  apresentar  uma  disposição  fragmentária,  surgiu  urbanisticamente  como  um 
todo.  e  os  seus  eixos  começaram  a  obedecer  a  uma  concepção  centralizada170. 

Mas  como  foi  possível  operar  as  transformações  sociais  que  a  pedra  registou, 
abrindo  a  todos  os  habitantes  os  antigos  espaços  familiares  e  integrando  bairros  rivais  e 
dando-lhes  coesão,  se  os  factores  que  até  agora  enunciei  não  conseguiram  superar  as 
hostilidades  e  o  fraccionamento  nem  impor  globalmente  uma  harmonização? 

6 

A  coesão  interna  das  unidades  familiares  e  a  sustentação  das  vastas  redes  de  solida¬ 
riedade  no  interior  dos  grupos  familiares  não  resultaram  apenas  da  detenção  colectiva 


Como  prev  ine  J.  Heers  ( 1990)  229-230,  nem  em  todas  as  regiões,  e  nem  sequer  em  todas  as  cida¬ 
des  italianas,  as  grandes  famílias  da  elite  dominaram  homogeneamente  bairros  inteiros.  Mas  J.  Les- 
tocquoy  (1952)  179-  ISO  refere  o  caso.  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XIII,  de  uma  família  flo- 
rentina  que  detinha  todo  um  bairro. 

165  S.  Benelli  (1978)  48:  J.  Heers  ( 1974)  208;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  7,  10. 

166  G.  Duby  ( 1959  b)  256-257:  J.  Heers  <  1974)  149.  189:  id.  ( 1990)  274-276. 

167  R.  A.  Goldthwaite  (1972)  983-985,  997-998. 

168  Id..  ibid..  988-989. 

16g  J.  Heers  (1990)  265,  314  e  segs. 

17,1  Quanto  mais  forte  era  a  comuna,  observa  id.  ( 1974)  167-168,  mais  facilmente  conseguia  derru¬ 
bar  o  antigo  plano  da  cidade  e  implantar  um  novo  tipo  de  urbanização;  em  sentido  contrário,  quanto 
mais  se  afirmavam  os  grupos  familiares,  tanto  menos  homogéneo  era  o  tecido  urbanístico.  E  este  his¬ 
toriador,  em  (1990)  271,  esclarece  que  na  Itália  peninsular  as  obras  de  centralização  urbanística  indi¬ 
cavam  o  declínio  dos  grupos  familiares  e  o  reforço  da  autoridade  governamental.  Foi  assim  que.  em 
Florença,  a  supremacia  adquirida  pelas  instituições  cívicas  fez  com  que  o  tecido  urbanístico  passasse 
a  obedecer  a  uma  ordenação  de  carácter  público,  escreve  C.  Lansing  (1991)  229.  Finalmente,  a  crer 
em  J.  Heers  ( 1990)  270,  também  em  Portugal,  apõs  o  segundo  quartel  do  século  XIV,  e  à  medida  que 
a  autoridade  do  rei  se  foi  afirmando  mais  directamente  sobre  as  cidades,  parece  ter  começado  a  dissol- 
ver-se  a  implantação  nos  mesmos  espaços  de  cada  família  da  elite  juntamente  com  a  sua  clientela. 


340 


Forma  III  do  dinheiro 


de  certos  elementos  patrimoniais,  do  recurso  aos  órgãos  da  Igreja  ou  da  implantação  de 
bens  estratégicos  numa  mesma  área,  mas  ampararam-se  igualmente  na  definição  de 
objectivos  políticos  comuns.  A  fortuna  não  se  podia  obter  nem  conservar  sem  uma  par¬ 
ticipação  continuada  no  governo  da  cidade,  o  que  levou  as  grandes  famílias  a  transfor- 
marem-se  naturalmente  em  organismos  políticos171,  tanto  mais  que  o  apoio  prestado 
uns  aos  outros  pelos  membros  do  grupo  tinha  nas  assembleias  políticas  uma  ocasião 
especialmente  propícia  para  se  manifestar172. 

Nesta  perspectiva,  os  partidos  que  se  digladiavam  nas  lutas  urbanas  devem  conside¬ 
rar-se  como  amplas  famílias  artificiais,  cada  um  deles  dirigido  por  uma  coligação  de 
unidades  familiares,  ou  grupos  familiares,  da  elite  e  congregando  uma  numerosa  clien¬ 
tela  recrutada  entre  os  populares  e  a  arraia-miúda17’.  Nas  cidades  italianas  é  bem 
conhecido  que  os  chefes  das  famílias  mais  prestigiadas  obtinham  dos  seus  clientes  o 
necessário  apoio  no  sufrágio  das  assembleias  e  o  braço  aguerrido  nas  batalhas  de  rua,  e 
em  troca  distribuíam-lhes  empregos  públicos,  além  de  lhes  concederem  outras  vanta¬ 
gens  directamente  económicas174.  Aliás,  talvez  tivesse  mesmo  ocorrido  uma  tendência 
evolutiva  transformando  as  sociedades  de  torres  em  associações  armadas  de  cariz  polí¬ 
tico,  cujos  membros  prometiam  auxílio  recíproco  nos  dissídios  e  vinganças  dentro  da 
cidade  l7\  e  se  tal  processo  se  houvesse  efectivamente  verificado  teríamos  a  mutação  de 
uma  forma  de  família  artificial  para  outra.  Mesmo  naqueles  centros  urbanos  em  que  os 
novos  ricos  de  origem  popular  alcançaram  a  hegemonia  nos  governos,  a  elite  tradicio- 


171  A  característica  do  governo  da  elite  era  a  transmissão  de  facto  do  poder  no  interior  das  mes¬ 
mas  famílias,  mostra  J.  Lestocquoy  (1952)  86  e  segs.  E,  a  partir  de  idêntica  constatação  acerca  de 
Meu,  J.  Schneider  i'  1 950 >  1 17- 1 18  acrescenta  que  os  grupos  familiares,  iniciados  como  associações 
de  carácter  privado,  passaram  a  ser  órgãos  do  poder  publico,  encarregados  do  governo  urbano.  Refe¬ 
rindo-se  às  cidades  italianas.  S.  Bertelli  ( 1978)  46  e  segs.  chama  a  atenção  para  o  facto  de  o  sistema 
de  famílias  amplas  da  elite  ter  transformado  os  governos  comunais  em  federações  de  grandes  famílias 
e,  depois  de  observar  tp.  50)  que  o  poder  económico  só  podia  ser  garantido  através  da  participação  no 
poder  político,  este  historiador  conclui  que  as  associações  familiares  se  converteram  em  instituições 
políticas.  Na  mesma  perspectiva,  C.  Lansing  (1991)  40  e  53  escreve  que  os  grupos  familiares  florenti- 
nos  não  se  destinavam  a  ser  unidades  económicas,  mas  instrumentos  de  poder  político.  Também  em 
Pádua.  na  segunda  metade  do  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  XIV.  a  crer  em  J.  K.  Hyde 
( 1966)  59.  a  política  era  considerada  em  termos  de  rivalidades  familiares  e  de  alianças  entre  famílias. 
A  esie  respeito  ver  igualmente:  H.  Brcsc  (1986)  395:  E.  Cristiani  ( 1962)  85  e  segs..  107  e  segs.:  E. 
Grendi  ( 1975)  277.  280:  J.  Heers  (1974)  250:  id.  (1990)  214:  D.  O.  Hughes  ( 1975)  25:  C.  Lansing 
(1991)  21.  36.46.  175:  G.  Rossetti  (1977  a)  176. 

177  G.  Fasoli  (1980)  379. 

177  E.  Cristiani  (1962)  81.  107  e  segs.:  J  Heers  (1974)  123:  D.  Herlihy  (1967)  199:  J.  K.  Hyde 
<  1966)  262-26.3:  id.  (1973)  145-147;  A.-E.  Sayous  <  I9.37Í  371. 

É  estranho  que  V.  Rutenburg  ( 1974)  180  cite  passagens  de  très  crónicas  relativas  a  cidades  italia¬ 
nas  dos  séculos  XIV  e  XV,  de  grande  importância  para  mostrar  a  composição  pura  familiar  e  interclas- 
sista  dos  partidos,  e  que  não  se  aperceba  destas  implicações,  parecendo  tomar  as  referências  no  sen¬ 
tido  literal  que  hoje  teriam. 

174  J.  Heers  ( Í990)  268-269. 

175  P.  Santini  ( 1887)  188-189. 

C.  Lansing  (1991)  92  afirma  que  as  redes  de  alianças  formadas  pela  inscrição  em  sociedades  de 
torres  constituíram  uma  das  bases  dos  partidos  guelfo  e  ghibelino.  Ler  nesta  perspectiva  J.  K.  Hyde 
1 1973)  145. 


Estruturai  familiares  no  meio  urbano 


341 


nal  continuou  a  deter  uma  efectiva  influência  política,  graças  às  clientelas  de  que  dispu- 
nhal7b.  Assim,  um  partido  juntava  duas  modalidades  de  parentesco  artificial,  uma  cons¬ 
tituída  pela  aliança  entre  famílias  da  elite  e  a  outra  constituída  pela  clientela. 

Mas  o  carácter  familiar  das  facções  não  se  cingiu  aos  centros  urbanos  a  sul  dos 
Alpes1  No  País  Basco178,  bem  como  na  Estremadura  castelhana,  em  Sória,  em  Valla- 
dolid.  em  Salamanca  e  em  Segóvia,  por  exemplo,  os  grupos  familiares,  associados  em 
partidos  e  seguidos  pelas  respectivas  clientelas,  dividiram  entre  si  os  cargos  munici¬ 
pais1'4.  Talvez  algo  de  semelhante  se  tivesse  passado  em  Portugal180.  E  na  metade 
meridional  da  península  hispânica,  em  Toledo  c  nos  outros  centros  urbanos  repovoados 
segundo  o  direito  toledano,  os  grupos  familiares,  embora  de  maneira  um  tanto  efémera, 
reuniram-se  igualmente  em  partidos1*1.  Numa  cidade  com  tradições  e  problemas  muito 
diferentes,  em  Reims,  também  a  coesão  interna  das  famílias  da  elite  implicara  tradicio¬ 
nalmente  o  recurso  às  armas  quando  era  necessário  defender  os  demais  membros  do 
grupo  familiar,  e  as  redes  de  alianças  fizeram  com  que  na  terceira  década  do  século 
XIV  o  estrato  dominante  se  dividisse  em  duas  facções,  chefiadas  pelos  dois  grupos 
principais,  e  procurando  cada  uma  alcançar  a  hegemonia.  Este  clima  de  conflitos,  por 
vezes  violentos,  só  se  modificou  ali  na  segunda  metade  do  século,  quando  a  antiga  elite 
se  extinguiu  e  se  desagregaram  os  grupos  familiares,  aparecendo  em  seu  lugar  uma 
elite  muitíssimo  menos  numerosa  e  formada  por  funcionários  do  governo  e  por  homens 
de  leis182.  O  novo  estrato  dominante,  cuja  razão  de  ser  provinha  exclusivamente  da 
actividade  governamental,  desempenhava  as  suas  funções  com  coesão  e  sem  acirrar  os 
dissídios.  A  partir  de  então  a  administração  urbana  funcionou  em  Reims  como  um 
Estado  coerente  e  pode  dizer-se  que  ela  passou  a  constituir  o  único  quadro  dos  vínculos 
artificiais  que  uniram  as  famílias  da  elite.  Inter-relacionadas  directamente  no  nível  polí¬ 
tico,  as  unidades  familiares  da  burocracia  governativa  e  judiciária  mantiveram  por  isso 
dimensões  reduzidas,  restringindo-se  aos  núcleos  conjugais18-.  Talvez  esta  experiência 
ilumine  o  sucedido  em  Metz.  Enquanto  os  grandes  grupos  familiares  da  elite,  que  se 


l7flJ.  Heerst  1974)59;  J.  K.  Hyde  (1975)  147. 

Por  isso  mesmo  os  governos  das  cidades  italianas  começaram  a  promulgar  legislação  com  o 
objectivo  de  diminuir  a  coesão  dos  grupos  familiares  e  lhes  dispersar  as  clientelas,  acrescenta  J.  Heers 
(1974)  87  e  segs.  E,  apesar  de  Génova  não  estar  exactamente  naquele  caso,  ver  D.  O.  Huahes  <  1977) 
102. 

1 '  Segundo  J  Lestocquoy  ( 1952  )  185.  os  conflitos  entre  famílias  da  elite  seriam,  no  entanto,  mais 
raros  na  Flandres  do  que  na  Itália. 

1  H  M.  A.  l.adero  Quesada  ( 1991  i  I  (2-1  15 

179  ld„  ibíd.,  III.  1 17-122:  A.  Rucquoi  1 1984)45.  45-46. 

18(1  Em  Portugal  a  existência  de  facções  urbanas  em  que  participavam  os  membros  da  cavalaria 
popular  é  referida  por  J  Mattoso  [  1 994  b]  221  e  228 .  sem  que,  no  entanto,  este  historiador  se  pronun¬ 
cie  sobre  a  eventual  relação  dos  partidos  com  a  estrutura  familiar. 

1X1  M.  A.  Ladero  Quesada  1 1991  j  125. 

|x-  Quanto  ás  lutas  de  facções  entre  o1-  grupos  familiares  de  Reims  e  ao  aparecimento  de  uma 
nova  elite,  ver  P.  Desportes  ( 1979)  280.  285-289  e  642. 

1x7  ld.,  ibíd..  642  afirma  que  o  sistema  familiar  da  nova  elite  de  Reims  assentava  no  núcleo  conju - 
gal.  reunindo  apenas  o  casal  e  os  seus  filhos,  sem  que  se  estabelecessem  solidariedades  entre  primos 
nem  existissem  grupos  familiares. 


342 


Forma  III  cio  dinheiro 


haviam  digladiado  para  obter  o  controlo  sobre  o  governo  da  cidade,  se  congregaram 
a  partir  do  final  do  século  XIII  e,  todos  juntos,  acabaram  por  hegemonizar  o  espaço 
político184,  as  famílias  populares,  pequenas  e  dispersas,  e  sem  disporem  de  vastas  redes 
de  solidariedade  como  as  que  ligavam  as  pessoas  mais  ricas,  conseguiram  contar  com 
o  apoio  de  alguns  novos  órgãos  de  governo.  Estes  órgãos  passaram  portanto  a  cum¬ 
prir,  para  a  camada  popular,  as  mesmas  funções  desempenhadas  na  elite  pela  teia 
das  relações  de  parentesco185.  A  equivalência  funcional  entre  a  adesão  a  um  grupo  polí¬ 
tico  e  a  participação  numa  família  artificial  caracterizou  a  vida  das  cidades  neste 
período. 

A  política  urbana  e  as  rivalidades  de  facções  eram  acima  de  tudo  uma  questão  fami¬ 
liar.  Nos  termos  de  hoje  as  famílias  da  elite  seriam  instituições  privadas,  mas  detentoras 
de  funções  públicas186.  E  encontramos  precisamente  aqui  o  cerne  das  transformações 
políticas  que  no  final  do  período  se  operaram  nas  mais  importantes  cidades  italianas. 
Quando  o  confronto  entre  as  várias  facções  chegava  a  um  estado  de  indecisão  em  que 
nenhuma  conseguia  vencer  e  todas  saíam  derrotadas,  sucedia  que  se  convidasse  algum 
nobre  ou  senhor  de  guerra  estrangeiro  e  se  lhe  entregasse  a  autoridade  suprema  durante 
um  período  bem  delimitado.  Ora,  ele  trazia  consigo  uma  corte  de  tipo  doméstico,  que  o 
auxiliava  na  execução  das  tarefas  governativas187,  continuando  portanto  o  exercício  do 
poder  a  supor  um  quadro  familiar.  Com  implicações  mais  substanciais  ainda,  a  nova 
elite  de  procedência  popular,  ao  reconhecer  enquanto  entidades  públicas  os  grupos 
familiares  da  elite  tradicional,  estava  a  co-responsabilizar  todos  os  seus  membros  pelas 
malfeitorias  praticadas  por  qualquer  deles.  O  ónus  da  solidariedade  tomava-se  assim 
insustentável,  o  que  agravava  os  factores  de  discórdia  e  de  fraccionamento  no  interior 
do  grupo  e  levava  ao  abandono  de  muitos  membros,  contribuindo  decisivamente  para  o 
declínio  da  instituição188.  Na  verdade,  aquele  princípio  legal  não  era  fundamentalmente 
novo,  já  que  a  co-responsabilização  estendeu  ao  Estado  as  implicações  da  vingança  pri¬ 
vada.  Ao  fazê-lo,  porém,  o  Estado  assumiu  uma  dimensão  sem  precedentes,  e  de  então 
em  diante  não  foi  já  ao  âmbito  público  das  famílias,  mas  directamente  ao  âmbito 
público  dos  governos  urbanos,  que  a  elite  de  origem  popular  recorreu  na  maior  parte 
dessas  cidades  como  um  dos  meios  de  organização  das  suas  clientelas  e  de  estabeleci¬ 
mento  de  novas  relações  interfamiliares189.  Evoluíra-se  de  um  governo  que  havia  fun¬ 
cionado  enquanto  associação  de  grupos  familiares  artificiais  para  um  governo  que  se 


184  J.  Schneider  ( 1950)  117-118,  122-123,  126.  138 

185  id..  ibiii..  118. 

,Xf>  Os  grupos  familiares  existentes  em  Metz,  os  paraiges,  afirma  id.,  ibid..  i  18  e  147,  eram  uma 
instituição  privada,  dotada  de  privilégios  de  carácter  público.  E  em  Itália,  depois  de  observar  a  con¬ 
versão  das  associações  familiares  em  partidos,  S.  Berrelli  (1978)  50  define  as  famílias  da  elite  como 
entidades  públicas,  e  não  privadas. 

187  Acerca  (|0  carácter  familiar  da  corte  que  acompanhava  o podestà.  ver  J.  K.  HyUe  ( 1973)  102. 

188  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  211-212,  II  89;  S.  Bertelli  i 1978)  81  e  segs.,  G.  Á.  Brucker  ( 1962) 
155:  C.  Lansing  (1991)  62,  229. 

184  As  solidariedades  principais  deviam  dizer  respeito  à  comuna,  e  não  ã  família,  observa  a  este 
propósito  D.  Herlihy  (1969-1970)  178-179.  A  mesma  perspectiva  é  aplicada  a  Florença  por  M.  B. 
Becker  (1967-1968)  I  211  eC.  Lansing  ( 1991 )  210.  229. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


343 


apresentava,  ele  próprio,  como  família  artificial.  Foi  diferente  o  caso  de  Génova,  onde 
as  tentativas  governamentais  para  reforçar  a  responsabilidade  nos  crimes  e  nos  contra¬ 
tos  depararam  com  resistências  tão  fortes 190  que  se  encontrou  outra  solução,  e  para  pôr 
cobro  às  guerras  entre  famílias  o  governo  tomou  obrigatória  a  inclusão  em  grupos 
familiares  e  determinou  que  os  grupos  mais  pequenos  se  integrassem  em  grupos  maio¬ 
res191.  Os  grupos  familiares  ficaram  deste  modo  convertidos  directamente  em  células 
da  vida  política.  Em  qualquer  caso,  os  vários  estratos  dominantes  da  cidade  podiam 
defrontar-se  mais  ou  menos  acerbamente  quanto  à  maneira  de  administrar  a  esfera 
pública  e  quanto  à  organização  a  conferir  à  esfera  privada,  mas  as  famílias  mais 
influentes,  apesar  de  terem  um  carácter  privado  pela  sua  génese  e  por  uma  parte  das 
suas  funções,  não  deixavam,  pela  parte  restante,  de  assumir  uma  conotação  pública. 
Este  paradoxo  deve  convencer-nos  de  que  tal  terminologia  não  é  compatível  com 
aquela  época.  No  exercício  do  poder  -  e  este  poder  era  o  único  critério  que  justificava  a 
coesão  das  suas  solidariedades  -  as  relações  familiares  da  elite  anularam  a  distinção 
entre  o  público  e  o  privado192. 


19(1  D.  O.  Hughes  (1975)  19,  27. 

É  curioso  observar,  a  este  respeito,  que  o  princípio  da  co-responsabilização  nos  casos  de  crime  de 
morte  fora  já  aplicado  no  âmbito  dos  bairros  genoveses,  consoante  indica  E.  Grendi  (1975)  284,  e 
veremos  na  n.  212  que  aqueles  bairros  constituíram  o  quadro  de  origem  dos  grupos  familiares  ou,  pelo 
menos,  contribuíram  decisivamente  para  a  sua  formação.  Aliás,  também  em  Florença,  como  esclarece 
C.  Lansing  ( 1991 )  171,  se  admitia  que  os  membros  de  uma  paróquia  fossem  colectivamente  responsᬠ
veis  pela  prisão  de  um  criminoso. 

191  A.-E.  Sayous  ( 1937)  375.  Ver  igualmente:  D.  O.  Hughes  (1975)  28. 

Referindo-se  a  Génova  durante  o  século  XV.  J.  Heers  ( 1974)  94  pretende  que,  contrariamente  ao 
que  sucedia  com  os  alberghi  nobres,  os  alberghi  constituídos  artificialmente  entre  a  elite  de  extracção 
popular  não  podiam  fornecer  um  quadro  de  participação  política.  Se  assim  tivesse  sido,  porém,  como 
explicar  a  insistência  do  governo  da  cidade  em  usar  a  totalidade  dos  grupos  familiares  enquanto  meio 
de  organização  política?  Note-se,  além  disso,  que  a  mahone  formada  em  1347  por  credores  do  Estado 
genovês  para  a  exploração  dos  rendimentos  públicos  de  Chio  e  das  duas  Phóceas  tinha  funções  gover¬ 
nativas  e,  portanto,  ao  converter-se  em  1  364  num  albergo  artificial,  de  conotação  partidária  estrita- 
mente  popular,  continuava  a  servir  de  órgão  de  intervenção  política  para  os  seus  membros.  Acerca  da 
mahone  de  Chio  e  da  sua  transformação  em  albergo,  ver:  M  Balard  (1978)  377,  384:  J.  Heers  ( 1974) 
235:  B.  Z.  Kedar<1976>  57;  A.-E.  Sayous  (1937)  368. 

192  Explica-se  assim  o  fenómeno  mencionado  por  J.  Heers  (1990)  242-243,  de  que  por  vezes  os 
pátios  interiores  dos  grupos  familiares  estavam  absolutamente  isolados  do  espaço  público  urbano, 
enquanto  noutros  casos  estes  pátios  resultavam  de  uma  apropriação  do  espaço  público,  que  o  autor 
reputa  abusiva.  Na  realidade,  a  própria  topografia  exprimia  a  dificuldade  de  estabelecer  demarcações 
rigorosas  entre  o  âmbito  público  e  o  privado,  como  comprova  o  exemplo  de  Florença,  onde  até  aos 
meados  do  século  XIII,  segundo  C.  Lansing  (1991)  xi,  havia  poucos  edifícios  públicos  e  os  governan¬ 
tes  reuniam  em  casas  privadas.  Na  mesma  cidade,  e  depois  de  observar  que  os  conjuntos  habitacionais 
dos  grupos  familiares  podiam,  por  um  lado.  ser  encerrados  em  ocasiões  de  confrontos  violentos, 
enquanto,  por  outro  lado.  regressada  a  acalmia,  se  entremeavam  com  o  espaço  público  através  de 
pequenas  praças,  de  passagens  e  de  lojas  comerciais.  R.  A.  Goldthwaitc  (1972)  98 1  e  9X3  conclui  que 
não  existia  uma  demarcação  clara  entre  as  esferas  privada  e  pública.  De  igual  modo,  as  situações 
mencionadas  por  Jaeques  Heers  em  op.  t  a..  274-276.  quando  tamílias  da  elite  nobre  conseguiam 
obter  a  guarda  de  sectores  da  muralha  da  cidade,  revelam  a  impossibilidade  de  dtscemir  adequada¬ 
mente  entre  uma  instituição  que  hoje  consideraríamos  privada  e  uma  função  que  tomaríamos  como 
pública. 


344 


Forma  Hl  do  dinheiro 


Tanto  mais  notável  se  toma,  neste  contexto,  a  divagem  política  promovida  pela 
arraia-miúda  florentina  durante  uma  das  principais  lutas  que  marcaram  o  encerramento 
deste  período,  na  revolta  do  Povo  de  Deus,  em  Agosto  de  1378.  Dois  meses  antes, 
quando  o  movimento  de  insatisfação  da  plebe  se  revelava  já  imparável,  o  governo  da 
cidade  fora  confiado  a  uma  comissão  extraordinária  de  várias  dezenas  de  membros, 
ampliada  pouco  depois,  e  que  recebeu  competências  muitíssimo  vastas  durante  um 
prazo  limitado.  Esta  comissão  contava  apenas  com  uma  minoria  de  assalariados  das 
manufacturas,  sendo  sobretudo  composta  por  populares,  manobrados  e  influenciados 
por  alguns  dos  mais  hábeis  representantes  da  elite  de  novos  ricos.  Não  se  tratava  só  de 
reproduzir,  uma  vez  mais,  o  tradicional  sistema  de  clientelas,  pois  os  membros  da 
comissão  juraram  solidariedade  recíproca  e  a  própria  lei  veio  conferir-lhes  um  estatuto 
de  família  artificial,  estipulando  que  se  considerassem  uns  aos  outros  como  parentes 
de  sangue.  Foi  através  deste  organismo  que  a  nova  elite  e  os  seus  apoiantes  populares 
conseguiram  inflectir  o  rumo  dos  acontecimentos,  abortando  a  insurreição  do  Povo 
de  Deus  e  abrandando  o  processo  de  democratização  da  cidade11’’.  O  Povo  de  Deus 
demonstrou,  por  isso.  um  elevado  grau  de  acuidade  política  quando  pretendeu  impedir 
a  transformação  da  comissão  extraodinária  numa  família  artificial 1  y4.  Com  efeito,  os 
insurrectos  da  arraia-miúda  eram  provenientes  de  todos  os  cantos  da  cidade,  sem  esta¬ 
rem  divididos  por  bairros  e  por  clientelas  supraclassistas,  o  que  indica  uma  forte  orga¬ 
nização  de  classe195  e  explica  que  eles  procurassem,  com  igual  determinação,  pôr  em 
causa  a  estrutura  parafamiliar  que  sustentava  os  partidos. 

Não  houve  cidade  em  que  a  elite  não  dominasse  os  cargos  governativos  e  muitas 
vezes  os  novos  ricos  lograram  ascender  e  renovar  a  elite.  Mas  como  se  conseguiu 
lançar  uma  ponte  sobre  as  discórdias  que  separavam  as  grandes  famílias  e  converter  o 
governo  urbano,  enquanto  família  política,  numa  instituição  integradora?  Não  é  possí¬ 
vel  encontrar  resposta  a  este  problema  na  esfera  em  que  estou  a  prosseguir  a  análise. 
Vimos  que  a  eventual  fluidez  dos  limites  das  unidades  familiares  e  a  sua  agregação  em 
formas  de  família  ampla  podiam  sustentar  alianças,  que  se  justificavam  apenas  pela 
vontade  de  desbaratar  as  alianças  concorrentes,  suscitando  divisões  novas,  e  por  vezes 
mais  agudas,  acirradas  pelas  hostilidades  entre  partidos196.  Nenhuma  das  facetas  do  sis¬ 
tema  familiar  da  elite  permite  supor  que  se  fosse  progressivamente  tecendo  uma  rede 


Acerca  da  comissão  extraordinária  criada  em  Florença  cm  Junho  de  1378.  \er  G.  A.  Brucker 
<  1962)  368,  372  e  1 1968  )  330-333,  346.  Aliás,  note-se  que  esta  comissão  veio  a  ser  denominada  Con- 
sorteria  delia  Lihertà.  sendo  « wónsorteria ••  o  próprio  termo  que  designava  os  grupos  familiares  da 
elite. 

lw  Apesar  do  que  ele  próprio  escreve  acerca  da  importância  da  estrutura  familiar  na  vida  política 
florentina,  id.  1 1968)  346  critica  esta  atitude  dos  Ciom/h.  considerando  a  questão  como  «  mesquinha  e 
insignificante». 

195  M.  Mollat  et  al.  {1970)  63  e  304  indicam  que  as  revoltas  sociais  urbanas  recorriam  frequente¬ 
mente  ao  quadro  dos  bairros,  mas  S.  K.  Cohn  Jr.  ( 1980)  171-175.  197  e  208  esclarece  que,  em  Flo¬ 
rença.  já  em  vários  surtos  de  violência  verificados  desde  1343  ate  a  grande  insurreição  de  1378  a 
arraia-miúda  se  sublevara  em  toda  a  cidade,  independeniemente  da  divisão  em  bairros  e  em  clientelas. 

196  Como  as  consonerie  italianas  tinham  de  assegurai  cargos  públicos  aos  seus  membros,  observa 
S.  Bertelli  (,  1 978 )  50-5 1 ,  a  obtenção  e  o  controlo  de  ta  is  cargos  lomaram-se  um  dos  principais  motivos 
da  luta  entre  facções. 


Estruturas  familiares  no  meto  urbano 


i45 


de  solidariedades  e  superando  as  clivagens  existentes  na  cidade.  Em  nenhum  plano,  em 
nenhuma  forma  de  relacionamento  estudada  até  aqui  neste  capítulo,  se  operou  a  passa¬ 
gem  das  unidades  familiares  e  dos  grupos  parafami liares  à  colectividade  urbana 
enquanto  vasto  quadro  familiar  artificial.  E.  no  entanto,  é  indubitável  que  esta  passa¬ 
gem  se  realizou  na  prática  da  história. 


b.  Estrutura  das  famílias  populares 

Sem  participarem  directamente  no  poder,  as  famílias  populares  tinham  uma  estru¬ 
tura  muito  diferente  das  famílias  da  elite,  reduzindo-se  a  unidades  conjugais  desprovi¬ 
das  de  clientelas,  que  não  se  agrupavam  de  maneira  estável  na  constituição  de  associa¬ 
ções  amplas197.  Aliás,  conhecem-se  casos  em  que  a  oligarquia  da  cidade  perseguia  os 
artesãos  que.  para  compensarem  a  ausência  de  redes  de  alianças  entre  parentes,  procu¬ 
ravam  recorrer  às  solidariedades  de  ofício198. 

Muitas  comunidades  formadas  entre  os  artesãos  destinavam-se  a  unir  pais  e  filhos, 
de  maneira  a  evitar  o  pagamento  de  taxas  de  sucessão1",  sem  que,  portanto,  os  elos 
artificiais  ampliassem  o  perímetro  de  cada  família.  Mesmo  quando  se  tratava  de  asso¬ 
ciações  de  trabalho  mantinham-se  muito  estreitos  os  limites  da  célula  familiar,  sempre 
próximos  do  modelo  conjugal.  Em  Paris,  na  segunda  metade  do  período,  embora 
pudesse  eventualmente  ser  aceite  a  colaboração  de  alguns  parentes  do  mestre  ou  da  sua 
mulher,  era  a  família  conjugal  a  unidade  de  produção,  e  com  ela  se  confundia  a  ofi¬ 
cina200.  Nos  séculos  XIV  e  XV,  no  Forez.  as  empresas  artesanais  assentavam  com  bas¬ 
tante  frequência  numa  comunidade  familiar,  reunindo  irmãos,  que  por  vezes  conserva¬ 
vam  o  património  indiviso,  ou  associando  pai  e  filho  ou.  numa  variante  desta  modali¬ 
dade.  o  sogro  e  o  genro;  em  qualquer  caso,  tratava-se  quase  sem  excepção  de  grupos 
modestos,  com  um  número  de  membros  muito  reduzido201.  É  também  elucidativo 
observar  o  que  na  mesma  época  sucedeu  na  orla  mediterrânica  do  Languedoc.  quando  a 
comunidade  conjugal  de  bens.  muito  rara  entre  a  elite  mercantil,  se  difundiu  bastante 
entre  os  pequenos  lojistas  e  os  artesãos202.  Nestas  camadas  relativamente  humildes  as 
associações  de  parentes  demarcavam  mais  rigorosamente  os  limites  de  cada  unidade 
familiar,  enquanto  no  estrato  urbano  superior  a  coesão  dos  núcleos  familiares  lhes  era 


197  Fora  da  elite,  comenta  D.  O.  Hughes  (1^75)  21-22  a  propósito  de  Génova,  o  individualismo 
prevalecia  sobre  as  relações  familiares  amplas.  Numa  perspectiva  idêntica,  e  acerca  da  mesma  cidade, 
ver  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  149.  Por  seu  lado,  referindo-se  à  Toscana  no  termo  do  período,  D.  Herlihy  et 
al.  ( 1985)  286-287.  296.  298.  325.  335-336  e  352  estabelecem  uma  relação  entre  a  fortuna  da  família 
urbana  e  a  dimensão  e  coesão  da  unidade  familiar.  A  mesma  relação  fora  já  observada  por  id.  (1967) 
118  a  respeito  de  Pistoia. 

198  Acerca  do  caso  de  Reims  durante  o  último  terço  do  século  XIII  e  o  primeiro  terço  do  século 
XIV,  ver  P.  Desportes  ( 1979)  488. 

199  R.  Grandetal.  (1950)  163. 

7,10  B.  Geremek  ( 1968)  14. 

201  E.  Foumial  (1967)  660. 

202  J.  Hilairet  1973)  25-26. 


m 


Forma  III  do  dinheiro 


assegurada  sobretudo  pela  sua  participação  em  vastas  redes  de  parentesco  e  de  solida¬ 
riedades.  Podemos  chegar  às  mesmas  conclusões  através  da  observação  do  caso  ita¬ 
liano.  Entre  os  artesãos  modestos  e  os  pequenos  comerciantes,  e  por  maioria  de  razão 
na  arraia-miúda,  não  se  verificava  qualquer  limitação  à  autonomia  dos  filhos  adultos, 
nem  se  recorria  a  formas  de  sociedade  que  pretendessem  consolidar  ou  prolongar  nou¬ 
tro  plano  os  elos  de  parentesco203.  Em  Génova  o  vínculo  familiar  central  entre  os  arte¬ 
sãos  era  o  casamento,  entendido  enquanto  sociedade2314,  e  pelo  menos  durante  o  século 
XII  e  o  começo  do  século  seguinte  estas  famílias  limitavam-se  ao  núcleo  conjugal,  sem 
que  ocorressem  quaisquer  tipos  de  solidariedade  económica  entre  os  parentes205.  O 
único  motivo  que  levava  os  artesãos  genoveses  do  século  XII  a  ampliarem  a  sua  célula 
familiar  era  a  inclusão  de  um  filho  adulto,  ou  de  um  genro,  capaz  de  gerir  a  oficina 
durante  a  velhice  dos  pais  ou  sogros206.  A  situação  não  era  diferente  em  Veneza,  onde  o 
mestre  de  uma  oficina  podia  associar-se  a  um  filho  para  evitar  o  pagamento  de  salários 
a  estranhos207.  Mas  no  final  do  período,  na  Toscana.  se  sei  interpretar  informações  apa¬ 
rentemente  contraditórias,  nem  sequer  o  núcleo  conjugal  teria  assumido  entre  os  arte¬ 
sãos  qualquer  papel  significativo,  porque  em  geral  os  profissionais  das  manufacturas  só 
conseguiam  casar-se  numa  idade  relativamente  avançada.  Além  disso,  com  o  sistema 
empresarial  e  o  crescimento  da  produção  têxtil,  muitas  oficinas  haviam-se  expandido  e, 
deixando  de  estar  a  cargo  de  um  só  mestre,  tinham  passado  a  ser  chefiadas  por  uma 
companhia,  de  modo  que  a  unidade  familiar  não  era  já  uma  unidade  de  produção.  Com¬ 
preende-se.  nestes  termos,  que  na  maior  parte  dos  casos  em  que  a  propriedade  das  ofi¬ 
cinas  era  colectiva  os  associados  nem  mesmo  fossem  parentes208. 


203  P.  Cammarosano  (1977)  188-189;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  524;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  25. 

Porém,  e  embora  referindo-se  aos  séculos  XI  e  XII,  G.  Zordan  (1966)  164  e  segs.  sustenta  que  em 

Veneza  as  associações  de  facto,  ainda  que  não  de  direito,  unindo  pais  e  filhos  numa  comunidade  patri¬ 
monial  tanto  ocorreram  entre  a  elite  como  nas  camadas  sociais  mais  humildes. 

204  F.  Gies  et  al.  (1987)  149-150;  D.  O.  Hughes  (1975)  25-24;  id.  ( 1976)  940-941. 

205  F.  Gies  et  al.  (1987)  149;  D.  O.  Hughes  (1975)  25-26;  id.  (1976)  959-941. 

D.  O.  Hughes  (1975)  24  pretende  que  na  actividade  manufactureira  genovesa  a  unidade  econó¬ 
mica  podia  limitar-se  frequentemente  ao  casal  porque  os  artesãos,  não  necessitando  de  obter  crédito  a 
longo  prazo,  não  precisavam  também  de  amplas  redes  de  parentes  para  fornecer  garantias  financeiras. 
Trata-se  de  um  bom  exemplo  dos  paradoxos  a  que  chegam  tantos  historiadores,  na  sua  predilecção 
por  salientarem  as  consequências  técnicas  e  esquecerem  os  fundamentos  sociais.  O  processo  foi  e.xac- 
tamente  o  inverso,  e  se  as  oportunidades  de  investimento  estavam  bloqueadas  na  manufactura  isto  não 
se  deveu  ao  facto  de  os  créditos  não  serem  necessários  neste  sector  de  actividade.  como  o  capitalismo 
veio  depois  a  mostrar,  mas  ao  facto  de  só  a  elite  comercial  dispor  de  um  sistema  familiar  que,  na 
época,  constituía  a  única  base  de  acesso  ao  crédito. 

206  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  149. 

207  G.  Zordan  (1966)  164  e  segs. 

208  D.  Herlihy  (1967)  96  indica  que  os  artesãos  se  casavam  tardiamente  em  Pistoia,  nos  séculos 
XIII  e  XIV.  A  mesma  afirmação  é  reproduzida  para  a  generalidade  das  cidades  toscanas  no  final  do 
período  por  id.  et  al.  (1985)  221.  que  acrescentam  que  nas  manufacturas  a  unidade  familiar  deixara  de 
constituir  uma  unidade  de  produção;  assim  <p.  525),  entre  as  camadas  mais  humildes  do  meio  urbano 
prevalecia  o  núcleo  conjugal,  quando  não  mesmo  elementos  isolados.  Por  seu  turno,  referindo-se  a 
Florença  e  a  Siena  nos  séculos  XIV  e  XV,  V.  Rutenburg  (1974)  50-5 1  afirma  que  muitas  oficinas  têx¬ 
teis  se  haviam  expandido,  deixando  a  sua  direcção  de  caber  a  um  único  mestre  e  sendo  entregue  a 
uma  companhia;  e  embora  em  alguns  casos  as  oficinas  fossem  propriedade  colectiva  de  irmãos,  ou 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


347 


Em  suma,  também  entre  os  cidadãos  modestos,  ainda  menos  até  do  que  entre  a  elite, 
não  surgiram  formas  de  relacionamento  que  tendessem  a  aglutinar  as  várias  unidades 
familiares  numa  colectividade  urbana  única. 


c.  Solidariedades  familiares  de  vizinhança 

Os  bairros  eram  outro  dos  subgrupos  em  que  cada  cidade  se  dividia.  Na  realidade,  é 
impossível  traçar  uma  linha  de  demarcação  clara  entre  as  solidariedades  familiares  e 
parafamiliares  da  elite  e  o  desenho  dos  bairros,  porque  as  redes  de  alianças  que  uniam  os 
parentes  e  vinculavam  a  cada  família  os  seus  clientes  tiveram,  como  vimos  há  pouco, 
uma  expressão  topográfica209.  As  relações  de  vizinhança  reforçavam  os  elos  de  famí¬ 
lia210,  a  tal  ponto  que  muitas  vezes  o  facto  de  viverem  num  mesmo  bairro  levou  grupos 
familiares  a  federarem-se  num  grande  grupo  comum211,  como  aconteceu  no  caso  de 
Génova212.  E  talvez,  embora  apresentando  traços  menos  acentuados,  não  tivesse  sido 
substancialmente  diferente  o  processo  de  desenvolvimento  dos  grupos  familiares  em 


mesmo  de  parentes  mais  afastados,  era  sobretudo  frequente  que  entre  os  proprietários  associados  não 
existissem  relações  familiares. 

2<w  A  cidade,  enquanto  colectividade  dos  seus  habitantes,  define  R.  Grand  (1942)  172,  consistia 
na  justaposição  de  comunidades  de  ordem  administrativa,  religiosa,  profissional  e  comercial,  perten¬ 
cendo  cada  cidadão  simultaneamente  a  várias  destas  comunidades.  S.  Bertelli  (1978)  74-76  aplica  a 
Florença  uma  perspectiva  semelhante,  escrevendo  que  cada  cidadão  participava  em  très  esferas,  a  das 
corporações  profissionais,  a  das  facções  políticas  e  a  da  organização  territorial,  e  obedecia  ao  mesmo 
tempo  a  diversos  tipos  de  autoridade,  com  inevitáveis  conflitos.  For  seu  lado,  D.  O.  Hughes  ( 1977)  95 
sublinha  a  existência  de  um  nexo  muito  estreito  entre  os  vínculos  de  sangue  e  os  de  vizinhança  e  D. 
Herlihy  (1969-1970)  178  descreve  as  cidades  da  Itália,  sob  o  ponto  de  vista  social  e  urbanístico,  como 
agregados  de  grandes  grupos  familiares.  Sérgio  Bertelli  em  up.  cit..  1 1  pretende  até  que  os  sistemas 
constitucionais  de  cada  cidade  italiana  se  distinguiam  sobretudo  através  das  várias  formas  como  evo¬ 
luiu  o  relacionamento  entre  as  grandes  famílias  da  elite,  com  as  suas  clientelas  e  os  seus  próprios 
espaços  urbanos.  Aliás,  a  sul  dos  Alpes,  entre  as  relações  de  vizinhança  e  as  relações  familiares  esta¬ 
vam  as  solidariedades  tecidas  no  interior  das  sociedades  de  torres,  observa  P.  Santini  ( 1 887 )  1 8 1 . 

210  J.  Heers  (1974)  14,  137.  151,  162-163;  Ch.  Klapisch  (1976)  961;  C.  Platt  (1976)  105;  J. 
Schneider  (1950)  128. 

211  J.  Heers  (1974)  163. 

212  E.  Grendi  (1975  )  244  e  248  define  o  albergo  genovès  como  «uma  instituição  de  carácter 
demo-topográfico»  e  insiste  <pp.  248,  284-285.  290)  na  caracterização  do  albergo  enquanto  bairro, 
chamando  a  atenção  para  a  semelhança  entre  a  estnitura  interna  de  ambas  as  instituições,  embora  pre¬ 
vina  (p.  290)  que  faltam  documentos  para  levar  mais  longe  esta  hipótese.  Também  D.  O.  Hughes 
(1975)  6-10  e  28  defende  que  os  bairros,  constituídos  formalmente  no  termo  do  século  XI,  serviram 
mais  tarde  de  quadro  à  associação  das  famílias  nobres  em  vastos  alberghi.  Este  processo  é  analisado 
com  detalhe  pela  mesma  autora  em  ( 1977)  98-103,  ao  mostrar-nos  como,  através  do  desenvolvimento 
dos  grupos  familiares  e  das  respectivas  clientelas,  e  através  da  sua  fixação  territorial,  a  elite  conseguiu 
desestruturar  os  bairros  e  reorganizá-los  segundo  o  molde  das  relações  de  parentesco.  Diane  Owen 
Hughes  oferece,  assim,  uma  perspectiva  de  análise  distinta  da  proposta  por  Edoardo  Grendi,  o  qual 
sustenta,  conto  vimos,  a  analogia  estrutural  dos  alberghi  e  dos  bairros.  Só  a  partir  do  começo  do 
século  XIV.  conclui  D.  O.  Hughes  (1077)  108-109  e  1 1 1.  o  modelo  de  constituição  dos  grupos  fami¬ 
liares  genoveses  se  tomou  mais  claramente  territorial.  Todavia,  J.  Heers  (1974)  164  adopta  uma  ati¬ 
tude  extrema  e  pretende  que  apenas  os  alberghi  de  origem  popular  se  fundaram  nas  relações  de  vizi¬ 
nhança,  enquanto  os  alberghi  nobres  leriam  assentado  geralmente  em  relações  de  sangue. 


348 


Forma  III  do  dinheiro 


Florença21-1  ou,  no  extremo  geográfico  oposto,  das  redes  de  parentesco  nas  cidades 
inglesas*-14.  Em  sentido  inverso,  não  só  nas  cidades  mediterrãnicas,  como  é  bem  conhe¬ 
cido.  mas  até  nas  regiões  setentrionais  do  continente,  a  coesão  necessária  às  grandes 
famílias  da  elite  levava  os  parentes  a  estabelecerem-se  na  proximidade  uns  dos  outros, 
com  os  respectivos  seguidores,  dominando  áreas  mais  ou  menos  vastas-1'  e  impondo- 
-lhes  a  heterogeneidade  social  das  suas  clientelas216.  Desta  maneira  o  processo  saía 
reforçado  por  ambos  os  lados,  podendo  mesmo  suceder  que,  de  efeito,  se  convertesse  em 
causa  e  que  um  grupo  familiar  recorresse  a  variadíssimos  estratagemas  para  impedir  que 
inimigos  ou  meros  estranhos  residissem  ou  começassem  a  fixar-se  na  sua  vizinhança217. 
Nem  em  todas  as  regiões,  e  nem  em  todas  as  cidades  italianas218,  as  famílias  da  elite 
dominavam  homogeneamente  bairros  inteiros;  e  na  Flandres219,  bem  como  na  Germânia 
em  geral,  com  a  possível  excepção  de  Colónia,  parece  que  o  controlo  do  espaço  urbano 
se  efectuou  em  blocos  não  contíguos220,  sucedendo  o  mesmo  em  Castela-a-Nova  e  na 
Andaluzia221.  Em  qualquer  caso,  porém,  as  grandes  famílias  contribuíram  de  modo  deci¬ 
sivo  para  polarizar  socialmente  e  para  ordenar  geograficamente  o  território  da  cidade, 
sendo  por  isso  um  elemento  determinante  na  formação  dos  bairros. 

Na  Itália  as  circunscrições  urbanas  prolongavam-se  na  área  rural  sujeita  à  cidade  e 
ordenavam  inclusivamente  o  espaço  nos  territórios  colonizados,  se  eles  existissem222. 


21  *'  A  leitura  de  C.  Lansing  ( 1991 )  9-10.  37.  84,  90-93  e  171-172  pode  deixar  a  ideia  de  que  a  con¬ 
centração  em  cada  bairro  de  várias  famílias  da  elite  contribuiu  para  as  associar,  de  maneira  a  que, 
pouco  a  pouco,  os  órgãos  políticos  dos  bairros  fossem  capturados  intemamente  pelos  grupos  familia¬ 
res.  Assim,  um  processo  que  começara  pelo  estreitamento  das  relações  entre  famílias  do  estrato  supe¬ 
rior  no  quadro  da  vizinhança  levaria  estas  famílias,  através  do  controlo  dos  espaços  urbanos,  a  con¬ 
verterem-se  elas  mesmas  nos  principais  órgãos  políticos  da  cidade. 

2,4  Na  Inglaterra  as  alianças  matrimoniais  prosseguidas  sistematicamente  entre  famílias  da  elite 
asseguravam-lhes  o  controlo  estável  dos  bairros,  afirma  C.  Platt  1 1976)  105. 

21í  S.  Bertelli  (1978)  48:  G.  Fasoli  (1980)  378-379;  R.  A.  Goldthwaite  (1972)  980:  E.  Grendi 
(1975)  249.  251:  J.  Heers  (1974)  104.  151,  157-158.  162-163,  166.  211;  id.  (1990)  224  e  segs.;  D. 
Herlihy  (1969-1970)  178:  id.  ( 1995  a)  213:  Ch.  Klapiseh  1 1976)  961-962:  C.  Lansing  (1991 )  49,  168; 
J.  Lestocquoy  (1952)  179-181;  G.  Rossetti  ( 1977  a)  177. 

J.  Heers  (1974)  151  insiste  no  facto  de  a  solidariedade  do  habitat  por  parte  dos  grupos  familiares 
se  ter  verificado  mesmo  nas  regiões  setentrionais. 

216  Id..  ibid..  175,  177:  id.  ( 1990)  262.  270;  D  O.  Hughes  ( 1977)  97. 

Vemos  que  é  injustificada  a  pretensão  de  F.  C.  Lane  ( 1973)  271  de  explicar  a  estabilidade  da  vida 
política  veneziana  através  do  carácter  pluriclassista  das  circunscrições  religiosas  em  que  a  cidade 
estava  dividida.  Os  bairros  e  os  demais  espaços  urbanos  controlados  pelas  famílias  da  elite  noutras 
cidades,  tanto  a  sul  como  a  norte  dos  Alpes,  incluíam  também  clientelas  formadas  por  todos  os  estra¬ 
tos  sociais,  e  isto  não  impedia,  antes  propiciava,  as  lutas  entre  partidos  Só  onde  os  grupos  familiares 
eram  menos  poderosos,  como  no  norte  da  França,  se  tomava  maior  a  segregação  social  no  interior  da 
cidade,  já  que  as  famílias  da  elite  não  se  faziam  rodear  sistematicamente  de  clientelas  plunclassistas, 
escreve  J.  Heers  (1974)  176. 

217  J.  Heers  (1974)  158;  id.  ( 1990)  224. 

2I*  Mesmo  na  Itália  não  ocorria  sistematicamente  a  identificação  entre  um  dado  grupo  familiar  e 
um  dado  bairro,  observa  id.  <  1990)  229-230. 

214  J.  Lestocquoy  11952)  181. 

220  J.  Heers  (1990)  229-230. 

221  id..  ibid.,  230. 

222  Id.  (1974)  148;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)41;  F.  Thiriet  ( 1959)  125-126. 


Estruturas  familiares  na  meto  urbano 


349 


Esta  norma  era  tão  importante  que  no  princípio  do  século  XIII.  quando  se  modificou  o 
desenho  das  circunscrições  de  Florença,  a  área  rural  da  cidade  foi  reorganizada  de 
maneira  correspondente223.  Aliás,  pelo  menos  em  Génova,  e  talvez  também  nas  coló¬ 
nias  ultramarinas  genovesas,  se  não  noutras  cidades  da  península,  a  hegemonia  conse¬ 
guida  por  um  grupo  familiar  sobre  um  dado  bairro  completava-se  pela  extensão  do  con¬ 
trolo  sobre  os  subúrbios  adjacentes,  e  este  complexo  territorial  e  predial  situava-se 
junto  ao  cantinho  que  conduzia  às  senhorias  rurais  detidas  pelos  membros  do  grupo224. 
A  relação  entre  as  áreas  rurais  e  os  espaços  urbanos  assumia  no  caso  genovês  uma 
expressão  familiar  e  topográfica  contínua,  mas  não  era  necessário  chegar  a  uni  resul¬ 
tado  tão  extremo  para  que  a  influência  exercida  pelas  famílias  da  elite  servisse  de  nexo 
entre  o  campo  e  a  cidade.  Muitas  vezes  o  camponês  que  decidia  abandonar  a  terra  natal 
procurava  fixar-se  numa  parte  da  cidade  onde  desembocavam  os  caminhos  e  estradas 
procedentes  do  seu  lugar  de  origem,  reencontrando  aí.  por  um  lado,  parentes  e  antigos 
vizinhos  e.  por  outro  lado,  inserindo-se  na  clientela  daquelas  famílias  da  elite  em  cuja 
dependência  havia  antes  vivido225.  Mesmo  sem  que  a  relação  fosse  veiculada  por  qual¬ 
quer  sequência  de  propriedades  mais  ou  menos  justapostas,  no  plano  estritamente 
social  cada  área  rural  projectava  em  cada  bairro  a  sua  réplica  urbana,  e  decerto  as  soli¬ 
dariedades  tecidas  no  meio  camponês  eram  assim  transportadas  para  as  circunscrições 
da  cidade,  acentuando  as  divisões  que  já  existiam  entre  elas,  ou  criando  novas  divisões 
no  seu  seio226.  Talvez  as  redes  de  solidariedade  reconstituídas  nos  espaços  urbanos 
pelos  imigrantes  oriundos  dos  mesmos  lugares  ajudem  a  explicar  as  situações,  conheci¬ 
das  por  exemplo  na  Provença  já  além  do  final  do  período,  em  que  se  mantiveram  algu¬ 
mas  instituições  colectivas  de  aldeias  que,  no  entanto,  sob  o  ponto  de  vista  material  e 
demográfico,  estavam  desabitadas22  .  A  aceitar-se  esta  hipótese,  a  vizinhança  nas  cida¬ 
des  contribuiria  para  a  perenidade  de  certas  facetas  da  sociedade  agrária  que,  sem  isso, 
se  teriam  extinguido. 

Animados  por  famílias  e  clientelas  rivais,  os  bairros  estiveram  cindidos  por  cliva¬ 
gens  muito  profundas.  Só  raramente  uma  assembleia  juntava  todos  os  habitantes  da 
cidade,  e  em  geral  as  reuniões  efectuavam-se  ou  no  quadro  de  cada  grupo  familiar  ou 
entre  os  filiados  de  uma  confraria  de  devoção  religiosa  ou  no  âmbito  de  cada  bairro228. 
Por  isso  os  bairros  formavam  circunscrições  administrativas  com  autoridades  prõ- 
prias22Q,  e  o  pagamento  de  tributos  podia  por  vezes  ser  feito  colectivamente  pelos 


223  É  o  que  indicam  D.  Herlihy  et  al.  1 1985)41,  acrescentando,  porém,  que  aquando  da  nova  divi¬ 
são  territorial  operada  nos  meados  do  século  XIV  os  elos  entre  as  circunscrições  urbanas  e  as  rurais  já 
se  haviam  enfraquecido  muito,  e  mais  ainda  declinaram  em  seguida. 

224  J.  Heers  (1990)  212.  213.  226-227. 

225  Id.  (1981)  18-19;  id.  (1990)  214;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  41;  D.  O.  Hughes  (1977)  105;  J.  M. 
Lacarra  ( 1963)  215-218;  C.  Lansing  1 1991 )  172,  Ch.-M.  La  Roncière  ( 1974)  742;  J.  Schneider  f  1950) 
336-339. 

22t!  D.  Herlihy  et  al.  (1985)41;  D  O.  Hughes  ( 1977)  105-106. 

227  N.  Coulet  (1969)  85-86.  88-90. 

228  R.  I.  Bums  (1967)  92;  J.  Heers  (1974)  173;  P.  Racine  (1977)  280;  P.  Strait  (1974)  46;  L. 
Zanoni  (1970)  1 14  e  segs. 

229  No  século  XI,  nas  cidades  da  Provença  e  da  Septimània,  G.  Duby  (1959  b)  253  indica  que 
cada  bairro  estava  submetido  a  um  mesmo  senhor.  E  na  Itália,  quando  os  membros  de  um  grupo 


J50 


Forma  lll  do  dinheiro 


moradores  de  um  bairro,  como  sabemos  ter  sucedido  em  Paris  nos  meados  do  século 
XII--10.  A  tal  ponto  os  bairros  deram  à  sociedade  urbana  o  seu  esqueleto  político  que  na 
Itália  do  século  XII  era  muito  frequente  que  o  número  de  membros  do  órgão  superiof 
do  governo  fosse  proporcional  ao  número  de  bairros  da  cidade231.  A  importância  doa 
bairros  no  desenvolvimento  de  Génova  oferece  um  exemplo  flagrante.  As  circunscri¬ 
ções  territoriais  desta  cidade  caracterizaram-se  até  aos  meados  do  século  XII  por  um 
elevado  grau  de  autonomia  e  uma  forte  organização  interna,  o  que  explica  que  a  colecti- 
vidade  urbana  tivesse  resultado,  no  extremo  final  do  século  XI,  de  um  juramento  de 
solidariedade  que  federara  todas  as  comunidades  de  vizinhos.  Até  uma  data  muito  tar¬ 
dia.  mesmo  depois  de  os  bairros  haverem  deixado  de  eleger  membros  para  o  conselho 
governativo  e  de  terem  caído  sob  a  incontestada  hegemonia  dos  grupos  familiares,  que 
os  reestruturaram  intemamente,  persistiram  alguns  traços  da  função  política  das  cir¬ 
cunscrições  urbanas  genovesas232.  A  situação  não  foi  sensivelmente  diferente  em  Flo¬ 
rença,  onde  as  associações  de  bairro,  ou  de  paróquia,  constituíram  durante  o  século  XII 
e  o  começo  do  século  seguinte  as  unidades  políticas  fundamentais,  e  os  membros  da 
instância  suprema  do  governo  começaram  por  ser  os  representantes  das  assembleias  de 
vizinhos.  A  comuna  nascera,  aliás,  da  fusão  destas  associações,  e  o  juramento  de  for¬ 
mação  da  comuna  não  reuniu  a  totalidade  dos  cidadãos  numa  convenção  única,  sendo 
prestado  separadamente  em  cada  uma  das  paróquias,  perante  as  autoridades  da  circuns- 

*  -  2  H 

cnçacr  . 

Os  bairros  serviam  igualmente  de  unidades  para  a  constituição  do  exército  e  para  a 
mobilização  de  tropas234.  Em  algumas  cidades  espanholas  as  circunscrições  ofereciam 
os  quadros  de  organização  das  campanhas  de  pilhagem  contra  os  Muçulmanos  e  era  no 
seu  interior  que  se  distribuíam  os  frutos  do  saque233.  E  em  Florença,  pelo  menos  nos 


familiar  eram  os  principais  proprietários  fundiários  numa  dada  área  urbana.  J.  K.  Hyde  (1973)  105 
observa  que  o  grupo  conseguia  adquirir  facilmente  uma  espécie  de  jurisdição  territorial.  Em  Sala¬ 
manca,  algumas  funções  governativas  não  podiam  ser  ocupadas  simultaneamente  por  representantes 
saídos  do  mesmo  bairro,  a  crer  em  J.  M.  Lacarra  ( 1963)  218.  Nas  cidades  do  Latium  e  da  Sabina, 
todavia,  P.  Toubert  (1973  b)  665-669  pretende  que  os  bairros  tiveram  uma  origem  exclusivamente 
topográfica  e  só  depois  começaram  a  servir  de  quadro  administrativo. 

2,(1  J.  Boussard  (1976)  310. 

231  G.  Martinietal.  (1981)  112-113. 

232  Quanto  à  importância  das  relações  de  vizinhança  no  desenvolvimento  da  colectivídade  urbana 
genovesa,  ver  antes  de  mais  D.  O.  Hughes  (1975)6  e  ( 1977)  95-99.  Consultar  ainda:  E.  Grendi  (1975) 
285;  A.-E.  Sayous  ( 1937)  369;  G.  Tabacco  ( 1979)  233. 

Tanto  mais  curioso  se  toma  o  facio  de  não  se  terem  verificado  rivalidades  e  hostilidades  entre  os 
bairros  de  Génova,  tal  como  aconteceu  noutras  cidades  italianas.  Pelo  menos,  é  o  que  afirma  D.  O. 
Hughes  (1977)  97. 

233  Acerca  da  importância  política  dos  bairros  em  Florença  consultar  C.  Lansing  (1991 1  9-10  e 
170.  Acessoriamente  lerP.  Santini  (1887)  180-181. 

234  J.  Heers  (1974)  148;  D.  Hertihy  í 1958  b)  54;  D.  O.  Hughes  (1975)  6;  id.  (1977)  97;  C.  Lansing 
( 1991 )  170;  M.  Mollat  et  al.  (1970)  303-304;  P.  Racine  ( 1977)  281. 

Em  Siena,  esclarece  W.  M.  Bowsky  (1972)  234,  a  lei  determinava  que  cada  bairro  formasse  uma 
companhia  militar,  mas  na  prática  isto  nem  sempre  sucedia  e  existiam  mais  bairros  do  que  compa¬ 
nhias. 

235  J.  M.  Lacarra  (1963)  218. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


351 


meados  do  século  XIII.  cada  divisão  administrativa  e  militar  tinha  a  sua  própria  cavala¬ 
ria.  devendo  alguns  dos  residentes,  individualmente  ou  em  grupo,  contribuir  com  uma 
ou  mais  montadas:  nesta  obrigação  os  parentes  encontravam,  aliás,  uma  oportunidade 
para  se  juntarem,  repartindo  entre  si  o  ónus  de  fornecer  o  animal236.  Era,  além  disso, 
comum  que  as  portas  das  muralhas  fossem  mantidas  e  guardadas  por  associações  de 
populares,  que  opunham  os  seus  centros  defensivos  às  torres  ou  outras  fortalezas 
domésticas  erguidas  pelas  famílias  da  elite237.  Deste  modo,  as  secções  em  que  se  divi¬ 
diam  os  muros  da  cidade  contribuíam  também  para  dispor  social  e  topograficamente  a 
vizinhança.  Na  Germânia,  no  início  do  período,  as  pequenas  fortalezas  das  famílias 
nobres  delimitavam  o  espaço  urbano  em  seu  redor,  e  cada  um  destes  bairros  incipientes 
se  encarregava,  quando  necessário,  da  sua  própria  defesa238.  Na  Itália,  porém,  a  função 
militar  dos  bairros  teve  implicações  mais  complexas.  Por  um  lado,  foi  nesse  quadro  que 
os  populares  começaram  a  armar-se  e  a  organizar-se  politicamente,  dando  corpo  a  insti¬ 
tuições  distintas  das  desenvolvidas  pela  elite  e  reclamando  a  partir  daí  a  democratiza¬ 
ção  dos  governos  urbanos,  em  muitos  casos  com  êxito239.  Mas.  em  sentido  contrário,  o 
controlo  que  as  grandes  famílias  e  as  suas  clientelas  exerciam  sobre  os  espaços  em  que 
estavam  implantadas  levou  a  que  algumas  vezes  o  organismo  militar  de  um  bairro, 
embora  submetido  à  hegemonia  nominal  dos  populares,  contasse  membros  da  elite 
entre  os  seus  chefes24".  Num  caso  como  no  outro,  o  resultado  final  foi  o  mesmo  na 
perspectiva  que  agora  me  ocupa,  aumentando  a  particularização  de  cada  bairro  e  agra- 
vando-se  as  divisões  entre  eles. 

A  especificidade  administrativa  e  militar  dos  bairros  era  reforçada  pelo  facto  de 
constituírem  ainda  circunscrições  religiosas,  ou  se  sobreporem  a  elas  num  mosaico 
complexo241.  As  paróquias  foram  desde  cedo  um  dos  quadros  de  associação  e  de  auto- 
-administraçào  nas  cidades  inglesas242.  E  em  Colónia,  no  século  XII ,  cada  membro  da 
colectividade  urbana  pertencia  também  a  uma  das  colectividades  de  paróquia,  que 
tinham  as  suas  redes  de  solidariedade,  a  sua  lei  especial  e  os  seus  funcionários  pró¬ 
prios.  Aliás,  as  paróquias  revelavam  então  potencialidades  integradoras  mais  fortes  do 
que  a  cidade  globalmente  considerada,  e  na  medida  em  que  as  comunidades  paroquiais, 
de  origem  privada,  assumiam  funções  públicas,  reproduzia-se  neste  plano  a  mesma 


239  D.  Waley  <  1968)75. 

237  J.  Heers  ( 1974)  149.  190  e  segs.;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  6. 

238  J.  Heers  (1990)  210. 

239  W.  M.  Bowsky  (1972)  233-236;  G.  Fasoli  et  al.  ( 1966)  305,  307:  J.  Heers  ( 1990)  331.  336:  D. 
Herlihy  ( 1958  b)  54-55. 

240  G.  Fasoli  et  al.  ( 1966)  307:  G.  Tabacco  ( 1979)  233. 

Em  Síena,  porém,  a  crer  em  W.  M.  Bowsky  ( 1972)  235-236,  os  membros  da  elite  tradicional  esta¬ 
vam  inteiramente  excluídos  das  Companhias  armadas  dos  populares. 

241  Em  Sória  os  sacramentos  tinham  de  ser  recebidos  na  igreja  do  bairro,  afirma  J.  M.  Lacarra 
(1963 )  2 1 8.  mas  em  Florença,  no  século  XIV,  a  crer  em  S.  K.  Cohn  Jr.  (1980)  25-26.  as  paróquias  não 
correspondiam  exactamente  às  circunscrições  fiscais  urbanas  e,  em  seguida,  ao  proceder-se  a  uma 
nova  divisão  interna  da  cidade,  parece  que  o  governo  procurou  deliberadamente  evitar  qualquer 
coincidência  entre  as  novas  circunscrições  e  as  paróquias.  Estes  dois  exemplos  ilustram  as  situações 
extremas. 

242  C.  Piau  (1976)  163-164;  M.  M.  Postan  (1978  a)  244-245. 


Formo  lll  do  dinheiro 


352 


situação  que  sabemos  ter  caracterizado  as  famílias  da  elite.  Todavia,  como  os  magistra¬ 
dos  das  paróquias  de  Colónia  eram,  sob  muitos  pontos  de  vista,  os  funcionários  gover¬ 
nativos  mais  importantes,  a  sua  autoridade  foi-se  gradualmente  reforçando  ao  longo 
do  século  XII,  em  detrimento  das  respectivas  comunidades24 \  Sabe-se  também  que 
em  Reims,  pelo  menos  no  último  terço  do  século  XIII  e  no  primeiro  terço  do  século 
seguinte,  a  paróquia  constituiu  a  divisão  administrativa  para  todos  os  assuntos  corren¬ 
tes244.  Do  mesmo  modo,  em  Florença  as  paróquias  tinham  organização  e  autoridades 
próprias,  confundindo-se  com  os  bairros  ao  fornecerem  a  primeira  estrutura  política  da 
comuna245.  É  particularmente  elucidativo  o  facto  de  em  Veneza,  onde  cada  uma  das 
várias  dezenas  de  paróquias  formava  uma  verdadeira  comunidade,  dotada  de  adminis¬ 
tração  específica,  elas  celebrarem  todos  os  anos  um  festival  que  representava  uma 
guerra  simbólica,  com  lutas  a  murro  e  combates  a  golpe  de  cana246.  A  necessidade  de 
transpor  para  um  plano  ritual  as  animosidades  existentes  entre  as  paróquias  mostra  até 
que  ponto  elas  podiam  ter  posto  em  perigo  o  carácter  colectivo  da  cidade. 

Compreende-se,  nestes  termos,  que  em  alturas  de  agravamento  das  lutas  sociais 
cada  facção  controlasse  a  área  de  certos  bairros24,  e  então,  confundidas  com  os  parti¬ 
dos,  as  divisões  territoriais  mais  ainda  se  demarcavam  reciprocamente.  É  elucidativo  o 
caso  de  Metz.  pois  quando  as  lutas  urbanas  perderam  o  carácter  violento,  no  final  do 
século  XIII,  os  membros  de  cada  grupo  familiar  começaram  a  dispersar-se  pelos  vários 
bairros,  salvo  as  famílias  mais  antigas,  que  permaneceram  geralmente  nos  seus  espaços 
tradicionais24*'.  E  em  Itália,  onde  os  grupos  familiares  da  elite,  com  as  respectivas 
clientelas,  esquartejavam  a  cidade  em  territórios  comandados  por  um  ou  outro  partido, 
foi  igualmente  no  quadro  dos  bairros  que  o  partido  popular  organizou  e  armou  os  seus 
seguidores  e  os  mobilizou  contra  a  elite  tradicional249.  De  uma  maneira  mais  drástica 
ainda,  em  vários  centros  urbanos  conquistados  pelos  Cristãos  na  costa  marítima  da 
Síria  e  da  Palestina  formaram-se  colónias  emanadas  de  cidades  italianas,  provençais  e 
catalãs,  cada  uma  ocupando  o  seu  bairro,  dando-lhe  um  grau  maior  ou  menor  de  auto¬ 
nomia  e  resguardando-o  com  muralhas.  Estas  microcidades  implantadas  dentro  da 
cidade  não  só  dividiam  o  tecido  urbano  como  o  rasgavam  em  combates  armados,  sem¬ 
pre  que  no  ultramar  se  reproduziam  as  guerras  entre  cidades-mães250. 

Assim,  os  bairros  podem  considerar-se  enquanto  colectividades  no  interior  da  colec- 
tividade  urbana251,  e  nesta  medida  eram  modalidades  de  família  artificial,  tal  como 


244  Acerca  das  paróquias  em  Colónia  no  século  XII  ver  P.  Strait  (1974)  .15,  46.  58  e  140. 

244  P.  Desportes  1 1979)  487. 

245  C.  Lansing  ( 1991 )  170-172;  P.  Santini  í  1887)  180-181. 

24ft  F.  C.  Lane  (19731  12,  98-99. 

247  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  303-304. 

24XJ.  Schneider  (1950)  128. 

249  Ver  a  n.  239. 

250  As  cisões  internas  nas  cidades  cristãs  da  Sina  e  da  Palestina  foram  estudadas  por  J.  Prawer 
(1968  a)  383  e  (1977)  187-190.  Talvez  esta  situação  contribua  para  justificar  a  ausência  de  movi¬ 
mento  comunal  naquelas  cidades,  em  vez  da  explicação  proposta  por  Joshua  Prawer.  Veja-se  a  este 
respeito  a  n.  37  do  capítulo  1 1  da  Parte  II.  Às  menções  incluídas  nessa  passagem  da  referida  nota  deve 
acrescentar-se:  J.  Prawer  (1977)  193-194. 

251  Um  dos  aspectos  essenciais  da  urbanização  medieval,  escreve  J.  Heers  (1974)  147.  era  a  frag- 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


353 


uma  cidade  globalmente  o  era.  Mas  como  foi  possível  que  os  bairros  se  fundissem 
numa  cidade,  quando  tudo  parecia  apontar  em  sentido  contrário,  e  as  identidades  topo¬ 
gráficas  se  afirmavam  mais  no  quadro  reduzido  das  vizinhanças  do  que  num  amplo 
meio  urbano? 


d.  Solidariedades  familiares  na  actividade  económica 

As  corporações,  bem  como  as  confrarias  de  conotação  religiosa,  embora  de  carácter 
profissional,  tomaram  igualmente  como  padrão  as  relações  familiares252,  por  isso  con¬ 
tribuíram  para  a  fragmentação  do  meio  urbano.  Muito  mais  latamente,  o  quadro  do 
parentesco,  tanto  de  sangue  como  artificial,  presidiu  a  toda  a  actividade  económica,  até 
nas  suas  células  elementares.  A  autoridade  exercida  numa  oficina  por  um  mestre  sobre 
os  vários  escalões  de  trabalhadores  obedeceu  ao  modelo  doméstico253,  e  o  mesmo  se 
passou  com  a  hierarquia  que  sujeitava  os  empregados  ao  patrão  de  uma  loja,  já  que  com 
frequência  um  era  o  chefe  da  família  e  os  outros  eram  parentes,  ou  tratados  -  maltrata¬ 
dos  -  como  tal.  A  casa  era  uma  unidade  de  produção  nas  manufacturas,  mas  também 
no  pequeno  comércio  ela  se  confundia  geralmente  com  a  sede  da  empresa,  e  até  nos 
grandes  negócios  de  longo  curso  urna  parte  dos  armazéns  ocupava  o  sótão  e  as  caves  da 
residência254 .  Nos  meios  profissionais,  porém,  a  modalidade  de  família  artificial  com 


mentação  da  cidade  em  unidades  mais  ou  menos  autónomas,  de  tal  modo  que  o  espaço  urbano  estava 
preenchido  por  «uma  aglomeração  multicelular»  (p.  167).  Ver  no  mesmo  sentido  id.  (1990)  204.  210. 
2 1 2-2 1 3,  224,  228  e  250.  E,  referindo-se  à  Flandres  no  princípio  do  período,  G.  Des  Marez  ( 1 898 )  6  e 
183  afirma  que  a  cidade  mais  não  era  do  que  uma  «justaposição»  de  grupos  de  pessoas  e  de  terras, 
submetidos  a  diferentes  jurisdições.  Também  G.  Dtiby  (1959  b)  255  considera  como  uma  «justaposi¬ 
ção»  de  bairros  as  cidades  da  Provença  e  da  Septimânia  no  século  XI. 

252  R.  Aubenas  ( 1960)  6-7  observa  a  existência  de  uma  relação  institucional  entre  as  corporações 
e  as  sociedades  familiares.  Em  Reims,  segundo  P.  Desportes  (1979)  488,  enquanto  a  elite  encontrava 
um  quadro  de  solidariedades  nos  grupos  familiares,  os  populares  tinham  de  recorrer  para  isso  às  cor¬ 
porações  de  ofício.  E  no  reino  latino  de  Jerusalém  a  própria  lei  considerava  as  confrarias  como  famí¬ 
lias.  de  maneira  que.  se  um  dos  membros  fosse  assassinado,  os  outros  podiam  recorrer  aos  tribunais, 
explica  J.  Richard  ( 1953)  231. 

253  Acerca  da  oficina  artesanal  enquanto  família  artificial  ver.  no  capítulo  12  da  Parte  II.  as  nn.  54, 
56,  58  e  59.  A  estas  menções  acrescento  agora:  J.-P.  Barraqué  (1991)  365. 

São  muito  sugestivas  as  transformações  operadas  na  esfera  vocabular,  tal  como  as  elucida  B. 
Geremek  (1968)  35-36  e  1 12.  No  artesanato  parisiense  dos  séculos  XIII  e  XIV  era  frequente  que.  ter¬ 
minada  a  aprendizagem,  o  profissional  servisse  durante  algum  tempo  como  companheiro  de  um  mes¬ 
tre.  Ora,  os  termos  que  designavam  com  mais  regularidade  estes  companheiros  eram  « valei ••  e,  aces¬ 
soriamente,  «sergent-,  sabendo-se  que  «valei»  era  também  usado  para  denominar  os  criados  domésti¬ 
cos,  enquanto  -servem-  deriva  de  - serviens ».  Na  Germânia  empregavam-se  na  mesma  situação  as 
palavras  « Knecht »  e  •* Gesinde ».  que  tinham  igualmente  uma  conotação  de  sujeição  pessoal.  Nos 
séculos  XIV  e  XV.  à  medida  que  aquela  categoria  profissional  foi  conseguindo  conquistar  um  maior 
grau  de  autonomia,  os  temios  -  valeta  e  «sergenr»  deram  lugar  a  «compagnon»  e,  na  Germânia. 
« Knecht »  deixou  de  ser  usado,  em  benefício  de  « Geselle ».  Esta  evolução  implicou  uma  ruptura  com  a 
esfera  doméstica,  já  que  «eompagnon  >  e  «Geselle»  haviam  até  então  servido  para  designar  os  mem¬ 
bros  de  uma  corporação,  incluindo  os  mestres. 

254  Acerca  do  carácter  doméstico  do  processo  de  trabalho  nas  empresas  comerciais  italianas,  ver 
R.  L.  Reynolds  1 1952)  352-354. 


354 


Forma  III  do  dinheiro 


implicações  mais  importantes  consistiu  nas  sociedades  estabelecidas  entre  artesãos, 
mas  sobretudo  entre  comerciantes255. 

Por  que  razão  se  submeteram  as  associações  económicas  a  um  modelo  de  carácter 
familiar,  pergunta  um  historiador,  se  existiam  à  disposição  dos  contemporâneos  várias 
formas  jurídicas  e  sociológicas  estritamente  contratuais?  Mas  as  hipóteses  de  resposta 
adiantadas  por  este  especialista  e  por  alguns  dos  seus  colegas  parecem-me  insatisfató¬ 
rias256.  Na  verdade,  a  dúvida  resulta  apenas  da  maneira  como  a  questão  é  colocada, 
projectando-se  para  este  período  uma  problemática  estritamente  decorrente  de  outros 
sistemas.  Nada  leva  a  presumir  que  a  esfera  dos  negócios  deva  obedecer  a  princípios 
contratuais  mais  do  que  a  princípios  familiares  ou  a  quaisquer  outros.  Num  regime  que 
encontrava  na  família  o  quadro  geral  de  organização,  o  normal  era  que  todas  as  activi- 
dades  adoptassem  este  modelo,  e  só  o  contrário  seria  para  estranhar.  O  carácter  familiar 
ou  parafamiliar  das  associações  económicas  neste  período  não  deve  ser  apresentado 
como  algo  intrigante,  mas  como  um  dos  elementos  que  ajudam  a  elucidar  o  âmbito 
genérico  assumido  então  pelas  relações  de  parentesco. 

Na  actividade  manufactureira  constituíram-se  por  vezes  associações  de  trabalho 
com  carácter  familiar2-57.  Entre  os  artesãos  genoveses  o  casamento  era  entendido  como 
uma  sociedade258,  e  podia  acontecer  que  na  sua  velhice  o  casal  integrasse  na  célula 
conjugal  um  filho  adulto  ou  um  genro,  para  gerirem  a  oficina259,  o  que  denota  o 
aspecto  económico  do  vínculo.  Aliás,  era  impossível  traçar  uma  linha  de  demarcação 
que  distinguisse  entre  a  fraternidade  de  tipo  familiar,  unindo  dois  artesãos  do  mesmo 
ofício  que  decidiam  partilhar  todos  os  seus  haveres  e  viver  sob  o  mesmo  tecto,  e  a 
sociedade  fraternal  exclusivamente  votada  aos  negócios,  em  que  não  existia  coabitação 
e  apenas  os  lucros  eram  partilhados2"0.  Nem  nas  concepções  nem  na  prática  da  época 
se  separava  a  associação  familiar  e  a  associação  profissional,  e  esta  continuidade,  em 
vez  de  nos  confundir,  deve  pelo  contrário  esclarecer-nos. 


255  Recorde-se  a  classificação  adoptada  por  Philippe  de  Beaumanoir,  que  mencionei  na  n.  1 12.  A 
propósito  da  Itália.  Y.  Renouard  (1949)  176  escreve  que  «a  cidade  constituía,  para  os  homens  de 
negócios,  como  que  uma  família  em  ponto  grande».  Ora,  as  associações  de  grandes  famílias  da  elite 
que  dirigiram  as  primeiras  comunas  ditas  mercantis  obedeciam  ao  modelo  das  companhias  comer¬ 
ciais,  como  salienta  J.  Heers  (1974)  22.  No  entanto,  baseando-se  em  algumas  características  da  situa¬ 
ção  jurídica  das  sociedades  em  Inglaterra.  M.  M.  Postan  ( 1957)  526  e  546-547  levanta  dúvidas  sobre 
as  teses  que  atribuem  uma  origem  familiar  à  tompagna  italiana. 

25(5  A  questão  é  levantada  por  I.  Chiva  em  Éeole  Pratique  des  Hautes  Études  (VIe  Section)  ( 1977) 
195,  e  não  me  parecem  adequadas  nem  as  hipóteses  de  solução  propostas  por  este  autor  (pp.  195-196) 
nem  as  adiantadas  por  C.  Kamoouh  (p.  200)  e  por  J.  Le  Goff  (pp.  201  -202). 

257  R.  Aubenas  (1960)  9:  H.  Bresc  <  1986)  396;  E.  Foumial  1 1967)  660;  B.  Geremek  (1968)  14;  J. 
Hilaire  ( 1973)  29-32;  V.  Rutenburg  (1974)  30-31;  G.  Zordan  ( 1966)  164  e  segs. 

Excluo  deste  tipo  de  associações  as  comunidades  tácitas  constituídas  por  famílias  de  artesãos  com 
o  único  objectivo  de  evitar  o  pagamento  das  taxas  sucessórias.  Ver  a  este  respeito  R.  Grand  et  al. 
(1950)  163. 

258  F.  Gies  et  al.  (1987)  149-150;  D.  O.  Hughes  (1975)  23-24;  id.  ( 1976)  940-941 . 

259  F.  Gies  et  al.  (1987)  149. 

Também  no  Forez  sucedia  que  o  genro  fosse  trabalhar  na  oficina  do  sogro,  conforme  indica  E. 
Foumial  ( 1967)  660. 

260  R.  Aubenas  (1960)  9. 


Estruturas  familiares  no  meto  urbano 


355 


Mas  a  ampliação  da  actividade  manufactureira  ocorreu  sempre  mediante  o  sistema 
empresarial,  e  neste  caso  o  empresário,  importador  da  matéria-prima  ou  do  produto 
semi-acabado  e  exportador  do  produto  final,  apresentava-se  em  cada  fase  da  laboração 
como  vendedor  e  comprador.  Isto  significa  que,  neste  período,  o  desenvolvimento  das 
manufacturas  nunca  deixou  de  se  realizar  sob  a  forma  de  uma  ampliação  das  operações 
comerciais.  Assim,  tanto  a  actividade  mercantil  como  a  artesanai  estimularam  directa- 
mente  a  formação  de  sociedades  comerciais,  e  foram  estas  o  elemento  preponderante. 

Na  sua  estrutura  interna,  nas  suas  hierarquias  e  mesmo  na  maneira  como  as  opera¬ 
ções  eram  prosseguidas,  as  sociedades  comerciais  obedeceram  sistematicamente,  ao 
longo  de  todo  este  período  e  nas  várias  regiões,  ao  modelo  da  família261,  devendo  con- 


2ftl  J.  Heers  ( 1974)  230-231  afirma  que  em  todas  as  regiões  as  sociedades  comerciais  e  as  compa¬ 
nhias  bancárias  tinham  a  família  como  base,  reunindo  innãos  ou  outros  parentes.  No  século  XII, 
quando  a  actividade  mercantil  ocorria  ainda  sob  a  forma  de  expedições  sazonais.  G.  Duby  (1973) 
269-270  indica  que  os  comerciantes  de  uma  mesma  cidade  formavam  uma  associação  de  carácter  fra¬ 
ternal,  durando  eslritamente  o  tempo  da  expedição.  Nesta  óptica,  a  respeito  do  sucedido  na  Hansa  ver 
R.  Pemoud  (1948)  221.  E,  no  final  do  período,  J.  Hilaire  (1973)  29  esclarece  que  os  cpntratos  para  o 
estabelecimento  de  comunidades  de  negócios  tanto  seguiam  o  modelo  da  comunidade  familiar  insti¬ 
tuída  entre  pais  e  filhos  casados  como  o  modelo  da  comunidade  entre  irmãos. 

Comparando  os  três  grandes  centros  mercantis  italianos,  alguns  historiadores  eminentes  preten¬ 
dem  que.  ao  contrário  do  sucedido  no  comércio  terrestre  de  longo  curso,  cujas  sociedades  obedeciam 
ao  modelo  amplo  da  família,  nos  negócios  por  mar,  muito  mais  arriscados,  empregavam-se  sobretudo 
modalidades  contratuais  menos  rígidas,  em  que,  por  conseguinte,  o  quadro  familiar  não  seria  tão 
importante  ou  se  limitaria  ao  âmbito  conjugal  Ver:  R.  S.  Lopez  ( 1974)  1 10;  G.  Luzzatto  (1961  b)  79; 
id.  (1967)  246;  R.  Pemoud  ( 1948)  107;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  359-360;  Y.  Renouard  (1941 )  107;  id. 
(1949)  63.  Estes  autores  confundem  a  amplidão  e  a  durabilidade  de  uma  sociedade,  típica  das  grandes 
companhias  toscanas.  com  a  sua  ligação  a  grupos  familiares.  Todavia,  tanto  em  Génova  como  em 
Veneza,  os  dois  principais  empórios  do  tráfico  mediterrânico,  as  associações  de  negócios  não  deixa¬ 
ram  de  obedecer  ao  quadro  da  família  e.  apesar  de  estas  associações  serem  múltiplas  e  efémeras  e  de 
cada  uma  se  limitar  a  uma  quantidade  reduzida  de  membros,  elas  conjugavam-se  em  vastas  redes,  que 
forneciam  oportunidades  de  associação  a  numerosos  parentes.  Depois  de  mostrar  que  as  avultadas 
operações  comerciais  e  financeiras  da  elite  genovesa  se  baseavam  numa  teia  de  relações  que  tinha  no 
centro  a  unidade  familiar  em  sentido  amplo  e  abarcava  também  afins  e  outros  parentes,  D.  O.  Hughes 
(1975)  16  afirma  que  estes  negócios  eram  sustentados  pela  segurança  da  família  e  não  revelavam, 
como  pretendem  aqueles  historiadores,  qualquer  carácter  individualista.  Também  M.  Balard  (1978) 
529  critica  os  especialistas  que  classificam  como  efémeros  os  elos  familiares  na  actividade  mercantil 
de  Génova  e  chama  a  atenção  para  o  facto  de  os  membros  de  cada  grupo  familiar  terem  procurado  os 
seus  associados  de  preferência  entre  os  demais  elementos  do  mesmo  grupo,  salientando  que  as  múlti¬ 
plas  formas  de  sociedade  comercial  e  financeira  e  o  uso  de  procurações  permitiram  constimir  redes  de 
negócios  muito  amplas,  extensivas  à  multiplicidade  de  parentes.  Acerca  da  situação  em  Génova  ver 
igualmente:  J.  Heers  (1974)  234-236;  D.  O  Hughes  (1977)  110;  B.  Z.  Kedar  (1976)  26-27.  Do 
mesmo  modo.  R.  de  Roover  ( 1974)  161  e  F.  C.  Lane  (1944)  178  sublinham  a  importância  dos  elos  de 
parentesco  na  vida  económica  de  Veneza,  e  J.  Heers  (1974)  233  considera  até  que  foi  nesta  cidade 
que  as  comunidades  familiares  nraís  se  impuseram  na  esfera  mercantil.  Acerca  da  situação  em  Veneza 
ver  também:  B.  Z.  Kedar(1976)  26-27.  G.  Zordan  (1966)  181-182,  191.  Note-se  ainda  que  mesmo  as 
grandes  empresas  de  carácter  familiar  não  foram  totalmente  estranhas  ao  comércio  marítimo,  pois 
constituíram-se  algumas  em  Génova  e  em  Veneza,  como  indicam:  M.  Balard  (1978)  526.  528-529;  B. 
Z.  Kedar  (1976)  56-57;  Y.  Renouard  (1949i  96  e  segs  No  panorama  historiográfico  parece-me  intei¬ 
ramente  singular  a  posição  defendida  por  D.  Herlihy  (1995  a)  212-213,  sustentando  que  no  meio  eco¬ 
nómico  florentino  prevaleceria  um  acentuado  individualismo  e  que  o  quadro  familiar,  em  vez  de  ins¬ 
pirar  as  sociedades  mercantis,  seria  reforçado  apenas  no  plano  ideológico  e  cultural. 


356 


Forma  III  do  dinheiro 


siderar-se  como  modalidades  de  família  artificial  ou,  pelo  menos,  como  instituições  de 
conotação  parafamiliar.  A  forma  mais  importante  de  contrato  estabelecida  no  comércio 
terrestre  baseou-se  nos  princípios  que  presidiam  à  administração  comum  das  heranças 
indivisas,  quer  os  sócios  estivessem  ou  não  unidos  por  elos  de  sangue  ou  de  afini¬ 
dade262,  e  na  Itália  os  membros  das  sociedades  de  carácter  económico  designavam-se  a 
si  próprios  com  uma  terminologia  empregue  igualmente  no  âmbito  dos  grupos  familia¬ 
res263.  Por  outro  lado,  era  muito  frequente,  sobretudo  a  sul  dos  Alpes,  que  os  descen¬ 
dentes  de  um  mesmo  antepassado  se  valessem  de  moldes  contratuais  para  colocar  em 
comum  fundos  destinados  à  actividade  comercial  e  financeira  ou  para  deter  colectiva- 
mente  imóveis  urbanos264,  e  o  recurso  generalizado  a  este  procedimento  indica  a  neces¬ 
sidade  de  dar  uma  base  de  outro  tipo  a  vínculos  que  já  não  encontravam  um  funda¬ 
mento  suficiente  na  solidariedade  do  parentesco265.  Aliás,  a  facilidade  com  que  os  elos 
podiam  ser  cancelados  e  com  que  pessoas  estranhas  eram  aceites  nessas  associações266 
revela  que  o  quadro  da  família  artificial  passara  a  determinar  o  próprio  relacionamento 
entre  parentes  de  sangue.  É  bastante  ilustrativo  o  sucedido  em  Veneza,  onde,  como 
vimos  há  pouco26',  a  lei  equiparava  a  uma  sociedade  comercial  entre  irmãos  a  coabita¬ 
ção  dos  membros  de  uma  família  que  prosseguissem  em  conjunto  os  seus  negócios, 
mesmo  que  não  tivesse  sido  formalmente  assinado  qualquer  contrato.  Esta  comunidade 
de  origem  familiar  envolvia  não  só  o  património  herdado,  mas  ainda  os  bens  adquiridos 
por  iniciativa  de  cada  um  dos  membros268:  e  como  ela  podia  ser  rompida  e  divididos  os 
bens269,  continuando  no  entanto  a  actividade  mercantil  a  processar-se  entre  os  parentes 
numa  forma  inteiramente  contratual270,  não  creio  que  fosse  possível  na  prática  distin¬ 
guir  ambas  as  situações. 


262  R.  S.  Lopez (1965)  144;  id.  (1974)  108-109. 

263  Em  Itália,  tanto  os  membros  dos  grupos  familiares  como  os  das  associações  económicas  eram 
denominados  •• parentes  et  vicini».  indica  A.  Guerreau-Jalabert  (1981)  1035.  E  em  Pisa.  nos  séculos 
XI  e  XII,  G.  Rossetti  ( 1977  a)  175  escreve  que  se  chamavam  indiferentemente  <• consortes »  as  pessoas 
associadas  num  negócio  e  os  membros  de  uma  família  reunidos  na  gestão  de  um  património  comum. 

264  Ver  em  geral:  Y.  Renouard  ( 1941)  43-48.  Quanto  à  Itália  em  geral,  ver:  P.  Cammarosano 
(1977)  191-192:  R.  de  Roover  ( 1948)  31:  J.  K.  Hyde  (1973  )  161.  Quanto  a  Génova:  M.  Balard  (1978) 
522.  526,  528-529,  609:  D.  O.  Hughes  ( 1975)  16.  20;  id.  ( 1976)  940,  943;  B.  Z.  Kedar  (1976)  26-27, 
56-57.  Quanto  a  Veneza:  G.  Cracco  (1967)  65,  193,  297;  J.  Heers  ( 1974)  233-234;  B.  Z.  Kedar  ( 1976) 
26-27,  56-57;  F.  C.  Lane  (1944)  178-179;  id.  (1973)  51,  138;  G.  Zordan  (1966)  163  e  segs..  181-182. 
Quanto  às  cidades  toscanas:  Th.  W.  Biomquist  (1979)  58;  Y.  Renouard  ( 1949)  160.  Quanto  ao  caso 
particular  de  Florença:  H.  Bresc  ( 1986)  396;  D.  Herlihy  ( 1995  a)  212;  C  Lansing  í  1991 )  39;  R.  Per- 
noud  (1948)  106-107;  Y.  Renouard  (1949)  119-120,  150-151.  Quanto  a  Siena:  H.  Bresc  (1986)  396. 
Acerca  dos  prestamistas  lombardos  ver:  R.-H.  Bautier  ( 1992)  65-66;  H.  Bresc  (1986)  396;  R.  de  Roo¬ 
ver  (1948)  115-116;  J.  Heers  (1974)  230-231. 

265  P.  Cammarosano  (1977)  191-192. 

266  M.  Balard  ( 1978)  526.  528-529:  R.-H.  Bautier  ( 1992)  65;  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  90;  S. 
Bertelli  (1978)  90;  P.  Cammarosano  ( 1977)  191:  R.  de  Roover  (1948)  31;  F.  C.  Lane  (1944)  178;  C. 
Lansing  (1991)  39.  53;  R.  Pemoud  ( 1948)  106:  Y.  Renouard  ( 1941 )  46-47. 

267  Ver  a  n.  100. 

2ftx  J.  Heers  (1974)  234;  F.  C.  Lane  (1944)  179;  G.  Zordan  ( 1966)  182. 

269  S.  Bertelli  ( 1978)  90:  G.  Zordan  (1966)  191. 

27(1  G.  Zordan  ( 1966)  193. 


Estruturas  familiares  no  meia  urbano 


357 


Em  todos  aqueles  tipos  de  casos  é  muito  difícil  decidir  se  a  família  inspirava  a  socie¬ 
dade  comercial  ou  se,  pelo  contrário,  era  o  quadro  dos  negócios  a  oferecer  à  família  um 
fôlego  novo-71.  Ao  sabermos,  por  exemplo,  que  a  sede  de  uma  firma  podia  ser  encabe¬ 
çada  pelo  chefe  de  uma  família,  que  colocava  os  seus  filhos  à  frente  das  filiais  estabele¬ 
cidas  noutras  cidades-'2,  ou,  numa  modalidade  diferente,  que  um  comerciante  usava 
parentes  seus  como  agentes  ou  correspondentes  em  outras  praças277,  ou  ainda  que,  já  na 
fase  sedentária  tia  actividade  da  Hansa.  quando  um  mercador  era  obrigado  a  deslocar-se 
ele  recorria  geralmente  a  um  parente  para  o  substituir  nas  transacções  em  curso274,  con¬ 
cluímos  que  havia  uma  exacta  equivalência  entre  a  hierarquia  interna  nos  negócios  e  a 
hierarquia  familiar.  Por  seu  turno,  as  sociedades  comerciais  que  empregavam  parentes 
contribuíam  para  reforçar  as  relações  já  existentes  entre  eles275.  Mas  não  é  menos  certo 
que  por  vezes  a  inclusão  dos  filhos  nas  sociedades  serviu  sobretudo  para  lhes  proporcio¬ 
nar  um  treino  básico  e  uma  rede  de  contactos  com  que  pudessem  depois  prosseguir 
sozinhos  os  seus  negócios276.  A  mesma  ambiguidade  se  reproduz  noutras  abordagens. 
Por  um  lado,  as  grandes  companhias  mercantis  e  financeiras,  que  encontraram  nas  cida¬ 
des  toscanas  os  exemplos  mais  perfeitos,  pareciam  em  tudo  determinadas  pela  pereni¬ 
dade  das  famílias  ou  dos  grupos  familiares  que  as  haviam  fundado.  Na  sua  solidez, 
mantida  ao  longo  de  décadas,  e  no  crédito  de  que  gozavam  reflectia-se  o  nome  da  famí¬ 
lia  fundadora,  que  se  confundia  aliás  com  a  própria  designação  da  firma.  Em  sentido 
contrário,  porém,  verificamos  que  estas  companhias  eram  periodicamente  encerradas  e 
fundadas  outra  vez.  com  base  em  novo  contrato.  E  apesar  de  as  novas  companhias  con¬ 
tinuarem  as  antecessoras,  na  medida  em  que  as  representavam  perante  os  seus  devedo¬ 
res  e  os  seus  credores,  elas  não  eram  juridicamente  responsáveis  pelas  acções  das  com¬ 
panhias  precedentes.  É  certo  também  que  se  conservava  a  grande  maioria  dos  sócios, 
mas  o  investimento  de  cada  um  variava,  sucedendo  além  disso  que  alguns  sócios  aban- 


271  Logo  depois  de  afimiarem  que  na  Génova  do  século  XII  as  alianças  matrimoniais  tinham, 
entre  outras  finalidades,  objectivos  comerciais,  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  148  acrescentam  que  um  vínculo 
inicialmente  resultante  do  casamento  era  em  seguida  reactivado  no  plano  dos  negócios. 

272  Era  o  que  se  passava  nos  centros  urbanos  da  Provença,  consoante  indica  R.  Aubenas  (1936) 
538.  E  leio  em  R.  de  Roover  ( 1948)  21  que  as  relações  de  parentesco  foram  também  muito  importan¬ 
tes  para  as  sociedades  mercantis  e  financeiras  italianas  activas  nas  cidades  flamengas  dos  séculos  XIV 
e  XV. 

273  M.  Balard  (1978)  506;  M.  Beard  (1938)  89;  Ch.  N.  L.  Brooke  et  al.  (1975)  227-228;  R.  de 
Roover  ( 1974)  161;  B.  Z.  Kedar  (1976)  47:  F.  C.  Lane  ( 1973)  138;  G.  Luzzatto  (1961  b)  79;  R.  Per- 
noud  ( 1948 )  232-233;  Y.  Renouard  ( 1 949)  1 1 1. 

Em  Génova,  no  entanto.  M.  Balard  ( 1978)  529-530  afirma  que  a  progressiva  sedentarização  dos 
negociantes  levou  a  um  aumento  considerável  da  quantidade  de  agentes  e  de  representantes  perma¬ 
nentes,  muitos  dos  quais  eram  recrutados  fora  do  grupo  familiar.  Na  importante  família  genovesa  dos 
Zaccaria.  por  exemplo  (p.  526).  embora  irmãos,  sobrinhos,  primos  e.  acessoriamente,  genros  partici¬ 
passem  nos  negócios  conduzidos  pelo  chefe  da  família,  os  numerosíssimos  procuradores  e  agentes 
eram  escolhidos  fora  do  âmbito  dos  parentes  c  em  meios  relativamente  modestos.  Talvez  fossem 
clientes. 

274  F.  Rõrig  ( 1967  )  44. 

275  M.  Balard  ( 1978)  522;  R.  de  Roover  ( 1948)  21;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  20;  F.  C.  Lane  ( 1944) 
178  179;  R.  L.  Reynolds  (1945)  15-16. 

2W  M.  Balard  (1978)  522;  D.  O.  Hughes  ( 1975)  25:  K.  L.  Reyerson  <  1985)  26. 


Forma  III  do  dinheiro 


358 


donassem  o  empreendimento  e  pessoas  eventualmente  estranhas  à  família  originária,  ou 
mesmo  grupos  familiares,  fossem  aceites  na  associação.  O  nexo  de  continuidade  entre 
as  sucessivas  companhias  era,  evidentemente,  fornecido  pelo  contexto  familiar.  Todavia, 
não  devemos  ignorar  que  sem  os  elementos  renovadores  de  carácter  estritamente  comer¬ 
cial  teria  sido  impossível  sustentar  em  termos  suficientemente  sólidos  e  duradouros  um 
quadro  fundado  apenas  no  parentesco27'.  Uma  vez  mais,  é  impossível  proceder  a  uma 
divisão  clara  entre  os  elos  de  sangue  e  de  afinidade  e  as  relações  artificiais.  A  tal  ponto 
que  em  Florença,  onde  os  grupos  familiares  se  mantiveram  circunscritos  à  elite  tradicio¬ 
nal  e  se  dissolveram  no  final  do  período,  as  sociedades  comerciais  passaram  a  consti¬ 
tuir,  na  nova  elite,  um  dos  instrumentos  privilegiados  de  aliança  entre  parentes,  refor¬ 
mulando-se  os  vínculos  familiares  em  moldes  contratuais27*.  Aliás,  no  estrato  superior 
florentino  as  associações  de  negócios  estabeleciam-se  preferencialmente  entre  corre¬ 
ligionários  políticos279,  e  como  vimos  já  que  as  facções  se  formavam  num  quadro  para- 
familiar.  as  relações  de  família,  de  partido  e  de  negócios  eram  indestrinçáveis.  Mas 
nesta  perspectiva  é  na  colónia  genovesa  de  Chio  que  encontramos  o  exemplo  mais  fla¬ 
grante,  quando  as  famílias  credoras  da  comuna  que  nos  meados  do  século  XIV  haviam 
fundado  uma  associação  de  carácter  comercial  e  de  conotações  políticas,  destinada 
a  explorar  os  rendimentos  públicos  da  ilha,  bem  como  das  duas  Phóceas,  decidiram 
década  e  meia  depois  unir-se  num  grupo  familiar280,  de  maneira  que  interesses  mer¬ 
cantis,  pactos  políticos  e  parentesco  artificial  ficaram  de  então  em  diante  estreitamente 
confundidos.  Afinal,  é  através  dos  critérios  rigorosos  da  contabilidade  que  melhor  pode¬ 
mos  conhecer  os  conceitos  vigentes  na  época,  e  quando  sabemos  que  na  Itália  a  pala¬ 
vra  «casa»  tanto  designava  uma  célula  conjugal,  uma  linhagem  ou  uma  família  ampla 
como  indicava  o  negócio  familiar,  e  que  nos  livros  de  registo  as  despesas  domés¬ 
ticas  apareciam  misturadas  com  os  lucros  e  os  prejuízos  da  actividade  comercial  e 


277  Embora  Y.  Renouard  (1941)  43-47  forneça  os  dados  necessários  para  analisar  esta  ambigui¬ 
dade  das  grandes  companhias,  que  conjugavam  o  quadro  familiar  com  o  comercial,  nas  suas  conclu¬ 
sões  (pp.  48,  77 i  ele  insiste  apenas  na  base  familiar  da  associação,  parecendo  não  ver  que,  ao  mesmo 
tempo,  a  organização  econômica  reforçava  os  vínculos  de  parentesco.  Essa  mesma  posição  é  reafir¬ 
mada  em  ( 1949)  150-151.  Ao  ler  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360  deduzo  que  o  facto  de  os  membros  de 
uma  dada  companhia  não  poderem  participar  noutras  consolidaria  o  carácter  familiar  do  empreendi¬ 
mento.  Mas  não  devemos  esquecer  que,  em  sentido  inverso,  a  companhia  aceitava  a  inclusão  de  ele¬ 
mentos  exteriores,  como  referem  vários  especialistas:  R.-H.  Bautier  (1992)  65;  H.  Bresc  (1986)  396; 
R.  de  Roover  (1948)  31;  C.  Lansing  (1991)  39,  53:  R.  Pemoud  (1948)  106:  Y.  Renouard  (1941)  47. 
Ora,  esta  admissão  de  sócios  era  suficiente  para  confundir  as  margens  do  parentesco  com  as  da  comu¬ 
nidade  de  interesses  mercantis.  Ainda  quanto  ao  carácter  familiar  das  grandes  companhias  toscanas 
ver:  R.-H.  Bautier  (1992)  65-66:  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  90:  J.  Heers  (1974)  231-233;  J.  K. 
Hyde  (1973)  161;  R.  Pemoud  (1948)  106-107;  Y.  Renouard  ( 1949)  63.  105.  1 19-120. 

278  S.  Bertelli  (1978  )  89  chama  a  atenção  para  o  facto  de  o  grupo  familiar  florentino  ter  sido  gra¬ 
dualmente  substituído  pela  sociedade  comercial.  Referindo-se  também  a  Florença.  D.  Herlihy  (1995  a) 
212  afirma  que,  nas  famílias  da  elite  mercantil,  os  irmãos  procuravam  dividir  rapidamente  o  património, 
mesmo  que  depois  o  pusessem  de  novo  em  comum,  total  ou  parcialmente,  mediante  acordos  notariais. 

279  G.  A.  Brucker  ( 1962)  126-128. 

280  Acerca  da  transformação  da  mahone  de  Chio  num  albergo  ver  neste  capítulo  a  n.  191. 

E.  Grendi  ( 1975)  277  admite  que  a  expansão  comercial  genovesa  tivesse  reforçado  a  solidariedade 
interna  dos  grupeis  familiares  na  cidade. 


Estruturas  familiares  no  meio  urbano 


359 


financeira2*1,  concluímos  que  o  vaivém  entre  o  âmbito  familiar  e  o  mercantil  os  unira 
indissoluvelmente  e  que  só  pelos  efeitos  recíprocos  ambos  se  podiam  sustentar. 

Esta  ambiguidade  ajuda  a  compreender  algo  que  indiquei  mais  atrás  neste  capítulo, 
ao  observar,  na  grande  maioria  dos  centros  urbanos,  a  escassez  de  formas  estáveis  e 
duradouras  de  comunidade  patrimonial,  que  servissem  para  congregar  linhagens.  Com 
efeito,  apesar  de  as  relações  de  parentesco  nunca  terem  deixado  de  inspirar  a  actividade 
mercantil  e  a  constituição  de  sociedades,  os  vínculos  familiares  modificavam  o  seu 
carácter  quando  eram  transpostos  para  o  plano  dos  negócios,  onde  se  confundiam  com 
os  elos  artificiais  resultantes  de  interesses  directamente  económicos.  Esbateu-se  assim 
o  rigor  da  demarcação  das  famílias  e  chegou-se  a  uma  situação  em  que  as  formas  de 
propriedade  podiam  estar  inteiramente  permeadas  pelas  relações  de  parentesco  sem 
que,  na  maior  parte  dos  casos,  fossem  capazes  de  oferecer  uma  base  sólida  que  assegu¬ 
rasse  a  coesão  de  cada  geração  e  desse  às  linhagens  um  eixo  de  continuidade. 

Mas  será  que  esta  articulação  paradoxal  entre  as  esferas  do  parentesco  e  dos  negócios 
permitiu  à  actividade  mercantil  superar  as  divisões  entre  famílias  e  conferiu,  enfim,  ao 
meio  urbano  uma  dimensão  verdadeiramente  colectiva?  Por  um  lado.  as  sociedades 
comerciais,  ao  abrirem-se  a  membros  de  diferentes  procedências,  poderiam  contribuir 
para  ultrapassar  a  fragmentação  interna  da  cidade  e  para  lhe  dar  alguma  coesão.  Assim, 
na  Itália,  as  primeiras  comunas  onde  prevaleceu  incontestado  o  tráfico  de  longo  curso 
foram  dirigidas  por  associações  de  grandes  famílias  da  elite  nobre,  coligadas  de  acordo 
com  o  modelo  fornecido  pelas  companhias  comerciais2*2.  Em  sentido  oposto,  porém, 
estas  companhias  só  encontravam  a  sua  justificação  nas  relações  de  concorrência  e,  por¬ 
tanto,  se  colmatavam  certas  divisões  era  para  introduzir  outras,  não  menos  profundas283. 

Fica  afinal  colocado  em  toda  a  sua  dimensão  um  dos  problemas  cruciais  da  socie¬ 
dade  urbana  neste  período.  Como  foi  possível  que  tantos  pequenos  grupos,  benefi¬ 
ciando  da  solidariedade  interna  assegurada  pelo  carácter  familiar  ou  parafamiliar  das 
suas  instituições,  se  conjugassem  numa  colectividade  coesa,  que  compunha  uma  ampla 
família  artificial  única  e  actuava  como  um  senhor  colectivo?  Como  puderam  as  cidades 
constituir-se  e  afirmar-se  enquanto  colectividades  se  não  existiram  níveis  de  agregação 
intermédios,  que  superassem  parcialmente  as  divisões  sem  introduzir  outras  novas?  A 
interrogação  tem  razões  de  ser  ainda  mais  profundas,  porque  vimos  (no  capítulo  1  l.b  e 
1  l.c  da  Parte  II)  que  as  convulsões  sociais  nas  cidades  e  o  acesso  de  novas  camadas  ao 
governo  não  ocorreram  em  geral  mediante  a  extinção  dos  órgãos  políticos  anteriores, 
mas  através  da  formação  de  instituições  novas,  que  se  adicionaram  às  já  existentes. 
Pareceria  que  o  meio  urbano  não  tinha  sido  capaz  senão  de  uma  interminável  colagem, 
gerando  uma  manta  de  retalhos  desprovida  de  qualquer  princípio  unificador.  E.  no 
entanto,  não  há  dúvida  que  as  cidades  se  afirmaram  como  senhores  colectivos.  com 
toda  a  coerência  interna  que  esta  posição  exigia. 


281  F.  C.  Lane  (1944)  179;  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  559. 

282  J.  Heers  ( 1974)  22. 

282  Acerca  das  cisões  no  interior  de  sociedades  comerciais,  provocadas  por  desentendimentos 
entre  ramos  da  mesma  família,  ver:  R.  de  Roover  (1974)  56-58;  Ch.  Klapisch  (1976)  960;  Y. 
Renouard  ( 1941  i  47.  151 . 


CAPITULO  10 


OPERAÇÕES  E  CONTEÚDO  DA  FORMA  III  DO  DINHEIRO 


Foi  o  dinheiro  que  permitiu  cimentar  numa  colectividade  única  todos  os  subgrupos 
que  se  demarcavam  e  rivalizavam  no  meio  urbano.  Na  sua  Forma  I,  o  dinheiro  serviu 
para  prender  a  arraia-miúda  aos  cidadãos  através  do  assalariamento.  Na  sua  Forma  lí,  o 
dinheiro  veiculou  certos  tipos  de  relações  entre  os  cidadãos.  Mas  estas  duas  modalida¬ 
des  não  bastaram  para  dar  às  cidades  a  coesão  de  senhores  colectivos.  A  sociedade 
urbana  constituiu  o  meio  privilegiado  em  que  melhor  se  difundiu  e  mais  se  desenvolveu 
a  Forma  III  do  dinheiro.  Embora  secundada  pelas  outras  duas  modalidades  pecuniárias, 
foi  a  Forma  III  que  contribuiu  decisivamente  para  juntar  os  vários  subgrupos  numa  só 
comunidade. 

Os  circuitos  do  dinheiro  revelaram  assim  a  sua  capacidade  agregativa.  Neste 
segundo  período  do  regime  senhorial,  em  que  as  instituições  familiares  propriamente 
ditas  reduziam  o  seu  escopo  e  em  que  os  sistemas  de  relacionamento  parafamiliar  tanto 
juntavam  conto  tinham  consequências  divisórias,  só  os  circuitos  pecuniários  ultrapassa¬ 
ram  barreiras  e  clivagens,  mostrando  aptidões  congregantes  incalculavelmente  superio¬ 
res  às  forças  de  fragmentação  que  rasgavam  em  todos  os  sentidos  a  sociedade  urbana. 


a.  Dinheiro  fiduciário 

A  Forma  III  do  dinheiro  era  exclusivamente  fiduciária,  o  que  significa  que,  sem 
qualquer  valor  próprio,  por  mínimo  que  fosse,  a  sua  difusão  repousava  apenas  na  cer¬ 
teza,  por  parte  daqueles  que  a  recebiam,  de  que  outros  a  aceitariam  do  mesmo  modo. 
Se  a  confiança  necessária  para  a  circulação  destes  instrumentos  pecuniários  requeria  o 
reconhecimento  da  autoridade  do  emissor,  tal  não  bastava,  e  era  igualmente  indispensᬠ
vel  que  se  tivesse  fé  na  probidade  e  na  solvência  de  cada  um  dos  demais  participantes 
no  circuito.  A  credibilidade  nestes  casos  não  podia  apenas  dever-se  à  iminência  da 
repressão,  pois  o  lapso  de  tempo  que  forçosamente  decorreria  entre  a  violação  e  a  puni¬ 
ção  destruiria  toda  uma  cadeia  de  circulação  fiduciária.  Não  era  suficiente  a  fiscaliza¬ 
ção  e  o  castigo  vindos  de  uma  instância  superior,  e  exigia-se  que  todos  os  intervenien¬ 
tes  se  vigiassem  mutuamente  de  maneira  constante  e  dispusessem  de  suficiente  autori¬ 
dade  para  exercer  pressões  tais  que  retirassem  a  qualquer  um  o  desejo,  ou  pelo  menos  o 
ensejo,  de  defraudar  a  confiança  alheia. 


362 


Forma  III  cio  dinheiro 


Nas  condições  da  sociedade  senhorial,  em  que  não  existiam  vastas  redes  de  transac- 
ções  a  unir  a  totalidade  da  população  em  sistemas  de  relacionamento  bem  estabelecidos 
e  enraizados,  só  no  quadro  familiar,  ou  em  famílias  artificiais  solidamente  organizadas, 
se  encontrava  o  tipo  de  confiança  recíproca  entre  os  intervenientes  indispensável  à  difu¬ 
são  do  dinheiro  fiduciário.  Por  isso  a  Forma  III  do  dinheiro  teve  o  seu  campo  de  circu¬ 
lação  privilegiado  nas  cidades,  que  formavam  vastas  famílias  artificiais  e  incluíam  um 
sem  número  de  grupos  menores,  de  carácter  familiar  ou  adoptando  também  o  modelo 
do  parentesco  artificial.  Ora,  no  meio  urbano  eram  as  instituições  mercantis  que  combi¬ 
navam  acentuadas  características  familiares,  ou  parafami liares,  com  uma  necessidade 
premente  de  utilizar  instrumentos  pecuniários.  A  modalidade  estritamente  fiduciária  do 
dinheiro  não  podia  deixar  de  surgir  e  de  se  desenvolver  no  interior  das  redes  de  interes¬ 
ses  que  uniam  a  multiplicidade  dos  negociantes  e  os  vários  cambistas,  e  progrediu 
igualmente  no  âmbito  das  sociedades  comerciais  estáveis  que  acabaram  por  se  impor 
no  tráfico  de  longo  curso1.  É  precisamente  a  este  respeito  que  a  concepção  dos  negó¬ 
cios  e  das  associações  mercantis  enquanto  tipos  de  família  artificial,  ou  pelo  menos 
enquanto  instituições  de  conotação  parafamiliar  (  ver  o  capítulo  9.d),  atinge  as  potencia¬ 
lidades  mais  importantes  e  decisivas.  A  tal  ponto  que  no  século  XIV  o  tráfico  de  longo 
curso  sustentava  já  relações  suficientemente  regulares  e  coerentes  para  estar  regido  glo¬ 
balmente  por  um  mesmo  sistema  de  normas  de  direito  comercial.  Antes  disso  os  nego¬ 
ciantes  de  longo  curso  oriundos  de  uma  cidade  viviam  sujeitos  a  represálias  por  parte 
dos  habitantes  das  outras  cidades,  e  quem  se  sentisse  defraudado  por  um  comerciante 
estrangeiro  exercia  uma  vingança  económica  sobre  os  seus  conterrâneos  que  se  encon¬ 
trassem  então  naquela  praça,  inclusivamente  apreendendo-lhes  as  mercadorias.  Ao 
longo  de  todo  o  século  XIII,  porém,  e  pelo  menos  nos  grandes  centros  mercantis  do 
Mediterrâneo  ocidental,  desde  Génova  e  Pisa  até  aos  territórios  da  coroa  de  Aragão, 


1  Depois  de  recordar  que  na  Itália  dos  séculos  XIII  e  XIV  todos  os  membros  de  uma  sociedade 
eram  geralmente  oriundos  de  uma  mesma  cidade  e  que  os  profissionais  do  longo  curso  preferiam 
entrar  em  relações  com  os  seus  conterrâneos,  Y.  Renouard  (1949)  175-176  comenta  que  para  os 
homens  de  negócios  o  meio  urbano  constituía  como  que  uma  grande  família.  Ainda  quanto  ao  facto 
de  tanto  os  sócios  como  os  empregados  das  companhias  italianas  serem  originários  das  mesmas  cida¬ 
des,  ver  id.  (1941 )  52-53.  Ora.  a  frequência  e  a  regularidade  das  transacções  de  longo  curso,  observa 
P.  Spufford  (1984)  376  e  (1986)  xxx.  fizeram  com  que  aumentasse  a  confiança  recíproca  entre  os 
comerciantes,  gerando-se  meios  de  pagamento  fiduciário#*  Por  seu  lado.  referindo-se  tanto  aos  contra¬ 
tos  de  câmbio  de  forma  notarial  como  aos  arfes  sons  seiag  prive,  ou  seja,  os  documentos  que.  apesar 
de  encerrados  com  selo  privado,  tinham  um  valor  probatório  quase  idêntico  ao  dos  escritos  notariais, 
e  referindo-se  igualmente  às  letras  de  câmbio,  caracterizadas  por  um  elevado  grau  de  informalidade, 
M.  Balard  (1978)  608  afirma  que  estas  três  modalidades  eram  concluídas  num  quadro  de  confiança 
recíproca,  sustentada  pela  existência  de  relações  permanentes  entre  os  negociantes  profissionais. 
Acerca  dos  actes  sons  seing  prive  ver  ainda  Michel  Balard  em  op.  m.  .611  e  62 1 .  E  este  estudioso  do 
comércio  ultramarino  genovês  acrescenta  (p.  87 1 )  que,  se  os  comerciantes  já  estivessem  ligados  num 
mesmo  circuito  de  relações,  eles  não  precisavam  de  aguardar  a  recepção  dos  seus  fundos  para  proce¬ 
derem  ao  reinvestimento.  bastando  para  isso  que  um  deles  remetesse  a  outro  os  lucros  resultantes  de 
um  contrato  precedente:  criava-se  assim  uma  modalidade  pecuniária  e  acelerava-se  a  rotação  dos  fun¬ 
dos.  Nesta  perspectiva,  não  creio  que  possa  tet  razão  Y  Renouard  (1949)  117.  ao  pretender  que  a 
estabilidade  política  de  Veneza  permitiu  o  desenvolvimento  da  aetividade  bancária,  contrariamente  ao 
sucedido  em  Génova,  onde  a  vida  política  foi  muito  agitada.  A  estabilidade  requerida  pela  Fomia  III 
do  dinheiro  dizia  respeito  às  próprias  associações  entre  negociantes,  c  náo  aos  governos  urbanos. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  lil  do  dinheiro 


363 


passando  pelas  principais  praças  do  sul  da  França,  os  profissionais  do  tráfico  marítimo 
começaram  a  eleger  órgãos  próprios,  que  adquiriram  jurisdição  sobre  o  porto,  se  encar¬ 
regaram  de  julgar  os  dissídios  relativos  aos  negócios  por  mar  e  foram  progressivamente 
regulamentando  a  actividade  comercial  de  longo  curso.  No  final  do  século  estas  normas 
esparsas  estavam  já  a  ser  reunidas  em  códigos  comerciais.  A  partir  de  então  o  escopo 
destes  tribunais  ampliou-se.  passando  a  julgar  quase  todo  o  tipo  de  questões  mercantis, 
e  não  só  as  relativas  aos  negócios  marítimos,  e  sendo  eleitos  pela  generalidade  dos 
comerciantes,  e  não  apenas  pelos  homens  do  mar2.  Ao  mesmo  tempo,  no  norte  da 
França,  mas  mobilizando  os  negociantes  de  quase  todo  o  regime  senhorial,  o  ciclo  das 
grandes  feiras  da  Champagne  lançou  a  base  de  códigos  comerciais  posteriores- .  e  tam¬ 
bém  aí  o  organismo  em  que  se  reuniam  os  mercadores  oriundos  das  cidades  italianas  e 
a  instituição  similar  onde  se  juntavam  Provençaís  e  Languedocianos  começaram  a 
desempenhar  funções  jurisdicionais4.  Com  a  uniformização  do  direito,  com  a  criação 
de  tribunais  de  comércio  nas  praças  mais  importantes,  com  o  abandono  das  retaliações 
e  a  adopção  de  um  método  legal  unificado  para  a  solução  dos  litígios,  o  tráfico  de  longo 
curso  passava  a  reger-se  por  princípios  de  estrita  confiança,  que  permitiam  o  desenvol¬ 
vimento  global  dos  mecanismos  fiduciários. 

Tratava-se  de  uma  dialéctica  peculiar.  Por  um  lado,  a  Forma  III  do  dinheiro  era  exi¬ 
gida  para  dar  coerência  a  um  meio  urbano  que  sem  isso  se  repartiria  na  multiplicidade 
dos  seus  componentes.  Por  outro  lado,  era  sobretudo  no  meio  urbano  que  se  encontra¬ 
vam  os  quadros  sociais  capazes  de  sustentar  uma  modalidade  de  dinheiro  exclusiva¬ 
mente  fiduciária.  Este  conjunto  de  razões  fez  com  que  a  cronologia  do  aparecimento  e 
os  percursos  da  difusão  da  Forma  III  do  dinheiro  correspondessem  ao  agravamento  das 
contradições  internas  da  sociedade  urbana,  desenvolvendo-se  as  relações  fiduciárias 
mais  rápida  e  mais  plenamente  nas  cidades  do  centro  e  do  norte  da  Itália,  e  logo  em 
seguida,  embora  em  menor  grau.  numa  ou  outra  cidade  da  Flandres  e  do  norte  do  conti¬ 
nente.  bem  como  em  algumas  cidades  da  França  meridional  e  da  Espanha  mediterrâ- 
nica5.  Muito  acima  de  quaisquer  outros,  foi  nestes  grandes  centros,  e  sobretudo  a  sul 


:  Acerca  do  abandono  do  sistema  de  represálias  e  da  adopção  de  um  direito  comercial  unificado, 
ver  em  geral  Y.  Renouard  (1949)  189-190.  Este  processo  foi  estudado  em  detalhe  nas  principais  pra¬ 
ças  da  coroa  de  Aragào  por  J.  N,  Hillgarth  ( 1976  1978)  1  272-273. 

1  R.-H.  Baulier  (1953)  97;  M.  Beard  (1938)  65. 

J  R.-H.  Baulier  (1953)  130.  132. 

s  No  final  do  período,  as  únicas  praças  comerciais  e  bancárias  dignas  de  nota  além  das  cidades  ita¬ 
lianas  eram,  a  crer  em  R.  de  Roover  ( 1948)  3,  Bruges.  Paris.  Londres,  Avignon  e  os  centros  urbanos 
da  Espanha  mediterrániea.  Em  ( 1974)  205  o  mesmo  historiador  completa  o  elenco,  enumerando,  em 
Itália;  Génova.  Milão.  Veneza,  Bolonha,  Pisa,  Luca,  Florença,  Siena,  Nápoles  e  Palermo.  além  da 
corte  papal  de  Roma;  no  norte:  Bruges.  Londres  e  Paris;  no  sul  da  França:  Montpellier  e  a  corte  papal 
de  Avignon:  finalmente,  na  Espanha  mediterrániea:  Barcelona,  Valência  e  Palma  de  Maiorea.  Refe¬ 
rindo-se  à  época  posterior  ao  declínio  das  feiras  da  Champagne,  que  se  verificou  a  partir  do  final  do 
século  XIII  e  no  começo  do  século  seguinte.  J.  Day  1 1994)  201  inclui  entre  as  principais  praças  de 
câmbio,  além  de  várias  cidades  italianas  e  das  duas  cortes  papais,  a  de  Roma  e  a  de  Avignon,  Bruges, 
Londres,  Parts.  Montpellier.  Barcelona.  Sevilha  e  Lisboa.  Mas  enquanto  as  feiras  da  Champagne 
atraíam  ainda  negociantes  de  todo  o  regime  senhorial  não  devemos  esquecer  Reims.  que  P.  Desportes 
1 1979)  125  classifica  como  um  dos  centros  financeiros  mais  destacados  da  França  setentrional  na  pri¬ 
meira  metade  do  século  XIII.  Por  outro  lado,  K.  L.  Reyerson  (1985)  109  considera  que  os  meeanis- 


364 


Forma  III  do  dinheiro 


dos  Alpes,  que  o  carácter  colectivo  da  elite  urbana  entrou  na  sua  segunda  fase  (ver  na 
Parte  II  o  capítulo  1  l.c),  sendo  portanto  aí  que  se  sentiu  mais  imperiosamente  a  neces¬ 
sidade  de  dar  um  cimento  agregativo  à  comunidade  e  que,  ao  mesmo  tempo,  maior 
amplitude  haviam  assumido  as  relações  de  confiança  no  interior  de  meios  sociais 
fechados.  Em  suma,  a  Forma  III  do  dinheiro  surgiu  em  modalidades  rudimentares  em 
todas  as  cidades,  mas  foi  na  Itália  que  primeiro  se  desenvolveu  plenamente.  É  certo  que 
não  dispomos  de  uma  documentação  homogénea,  e  lacunas  ocasionais  podem  fazer-nos 
julgar  que  não  ocorreu  um  dado  processo  quando  na  verdade  faltam  apenas  os  seus 
indícios  materiais6.  Por  exemplo,  a  distribuição  geográfica  das  letras  de  câmbio  que 
chegaram  ao  nosso  conhecimento  revela  a  existência  de  mecanismos  de  crédito  em 
lugares  de  onde  não  restam  quaisquer  outros  documentos  respeitantes  ao  assunto7. 
Apesar  disto,  a  precedência  italiana  não  deve  ser  posta  globalmente  em  dúvida. 

Depois,  quando  nas  outras  cidades  se  tomou  necessário  também  recorrer  às  modali¬ 
dades  fiduciárias  mais  evoluídas,  os  Italianos  eram  já  a  tal  ponto  os  especialistas  que  a 
eles  se  deveu  grande  parte  da  actividade  relacionada  com  esta  forma  pecuniária,  sobre¬ 
tudo  no  que  dizia  respeito  aos  contactos  entre  praças  diferentes^.  Os  historiadores  con- 


mos  cambiais  estavam  atrasados  em  Montpeliier  no  termo  do  século  XIV  por  comparação  com  o  que 
se  passava  então  na  Itália  e  na  Flandres.  Quanto  à  Itália,  Spufford  (1986)  xxi.x  confirma  que  o  desen¬ 
volvimento  bancário  foi  precoce.  J.  K.  Hyde  (1973)  158  observa  que  a  banca  comercial  de  PiacenzA 
era  muitíssimo  mais  importante  do  que  a  de  Milão,  embora  a  dimensão  das  duas  cidades  estivesse  na! 
ordem  inversa. 

6  Ignora-se  em  que  medida  os  negociantes  portugueses  usavam  as  novas  técnicas  comerciais  s 
financeiras,  escreve  A.  Sousa  11994]  381,  porque  não  chegaram  até  nós  quaisquer  arquivos  privadoj 
de  mercadores  e  banqueiros. 

7  A.  P.  Usher  (1943)  180. 

8  A  actividade  financeira  a  grande  distância,  assevera  R.  de  Roover  ( 1948)  3.  estava  imeíramente 
nas  mãos  dos  negociantes  italianos.  E  o  mesmo  especialista  indica,  em  (1953)  50,  que  em  todas  as 
praças,  excepto  Lübeck.  as  companhias  italianas  detinham  o  exclusivo  das  operações  cambiais,  acres¬ 
centando  (pp.  134-135)  que  eram  quase  sempre  italianos  os  mercadores-banqueiros  que  combinava» 
o  comércio  de  longo  curso  com  o  negócio  das  letras  de  câmbio.  Consultar  igualmente:  R.-H.  Bautier 
( 1992)  63-64;  R.  de  Roover  ( 1974)  184.  206,  P.  Desportes  <  1979)  125;  Y.  Renouard  (1949)  64-65.  Al 
feiras  da  Champagne  não  foram  exce.pção.  c  os  Italianos  dominavam  aí  a  actividade  cambial  e  bancá-; 
ria:  R.-H.  Bautier  (1992)  77;  M.  Crubellier  (org.  1975)  171;  R.  de  Roover  ( 1948)  287  n.  48:  id.  (1974)'- 
204:  J.  K.  Hyde  ( 1973)  69;  G.  Luzzatto  (1961  b)  100:  R.  L.  Reynolds  (19521  363.  Todavia.  P.  Despor¬ 
tes  (1979)  1 13  e  369  pretende  que  o  exercício  do  câmbio  nas  feiras  da  Champagne  estava  hereditaria- 
mente  a  cargo  de  algumas  famílias  da  elite  de  Reims  Acerca  do  predomínio  obtido  pelos  Italianos 
nos  mecanismos  financeiros  da  Flandres  a  partir  do  final  do  século  X 111.  ver  I  A.  van  Houtte  ( 1953) 
198.  E  leio  em  E.  Baratier  et  al.  ( 1955)  I  83  que  os  comerciantes  de  Marselha,  nos  séculos  XIV  e  XV, 
quando  necessitavam  de  verbas  em  praças  estrangeiras,  dirigiam-se  aos  negociantes  italianos  radica¬ 
dos  na  corte  pontifícia  de  Avignon.  Assim,  até  mesmo  na  administração  das  finanças  papais  os  Italia¬ 
nos  prevaleceram  sobre  as  Ordens  Militares,  não  obstante  o  carácter  religioso  dos  monges  guerreiros 
e  o  facto  de  se  dedicarem  em  grande  escala  à  actividade  financeira,  como  analisa  G.  Olsen  (1969- 
-1970)  50-52  e  55-56.  O  papado  continuou  a  usar  as  Ordens  Militares,  bem  como  outros  estabeleci¬ 
mentos  religiosos,  para  efectuar  depósitos,  esclarece  id..  ibid  .  45.  mas  o  credito  e  a  remessa  de  quan¬ 
tias  para  a  corte  pontifícia  cabiam  aos  negociantes  italianos.  Todavia,  na  sua  extensa  e  minuciosa  anᬠ
lise  das  relações  financeiras  entre  a  Inglaterra  e  o  papado,  W.  E.  Lunt  1 1939-1962)  1  332-333  e  596 
afirma  que  o  depósito  de  fundos  eclesiásticos  em  filiais  de  companhias  italianas  estabelecidas  na  ilha 
passou  a  ser  correntemente  praticado  desde  o  começo  do  último  quartel  do  século  XIII.  T  H.  Lloyd 
(1982)  170-171  e  197  confirma  este  facto,  mas  atribui-lhe  dimensões  e  implicações  mais  modestas: 


Operações  e  conteúdo  do  Fornia  Hi  do  dinheiro 


365 


fundem  por  vezes  estes  aspectos,  ao  atribuírem  a  certas  cidades  uma  data  demasiado 
tardia  para  o  aparecimento  da  Forma  III  do  dinheiro9.  Sucedia  com  frequência  que, 
embora  sem  estar  a  cargo  de  banqueiros  ou  negociantes  nativos,  a  Forma  III  progre¬ 
disse  graças  à  acção  de  imigrantes  vindos  de  além-Alpes.  Todavia,  não  deve  imaginar- 
-se  que  os  Italianos  tivessem  introduzido  mecanismos  fiduciários  para  os  quais  não 
existissem  já  precursores  autóctones10.  Muitas  vezes  foram  sobretudo  formais  as  modi¬ 
ficações  que  eles  suscitaram,  embora  nestas  questões  a  forma  seja  bastante  significativa 
e  dela  dependa  em  boa  medida  a  maleabilidade  e  a  eficácia  dos  instrumentos  fiduciários. 


aliás,  em  sentido  contrário  ao  da  generalidade  dos  especialistas,  este  autor  põe  em  dúvida  tpp.  169- 
-171}  a  importância  e  a  sistematicidade  do  transporte  de  fundos  realizado  pelos  Italianos  entre  a  Ingla¬ 
terra  e  a  corte  pontifícia.  Acerca  dos  serviços  financeiros  prestados  pelas  companhias  toscanas  ao 
papado,  nomeadamente  transferências  de  somas  a  grande  distância,  ler  ainda:  R.  W.  Kaeuper  (1973) 
32-33;  W.  E.  Lunt  (1939-1962)  I  596,  598-602.  II  204,  207;  G,  Olsen  (1969-1970)  43-44,  56:  E.  Per- 
roy  (1962-1963)48:  Y.  Renouard  (1941)  86-87.  89-92,  375;  id.  (1949)  133;  G.  Salvemini  (1957)471. 
A  este  respeito  veja-se  também  a  n.  289.  Encontro  em  R.  S.  Lopez  ( 1965)  306  uma  fórmula  brilhante, 
quando  este  historiador  escreve  que  os  banqueiros  italianos  constituíam  como  que  uma  segunda  buro¬ 
cracia.  indispensável  à  Igreja  universal.  Também  na  Inglaterra,  e  já  antes  do  final  do  século  XIII, 
nobres  e  mercadores  recorriam  regularmente  aos  Italianos  para  enviar  fundos  para  fora  do  reino,  con¬ 
soante  indica  T.  H.  Lloyd  ( 1982  )  199. 

R.  de  Roover  (1948)  348  atribui  aos  representantes  das  grandes  casas  bancárias  italianas  o  lugar 
cimeiro  em  Barcelona,  mas  leio  em  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  272  que  no  começo  do  último  terço 
do  século  Xlll  o  rei  de  Aragão  havia  proibido  o  estabelecimento  de  filiais  dos  bancos  toscanos,  e  que 
a  interdição  foi  mantida  em  vigor,  como  represália  pelo  apoio  prestado  pelos  Toscanos  à  dinastia  dos 
Alijou  de  Nápoles,  durante  a  guerra  da  Sicília. 

9  R.  de  Roover  ( 1948)  3,  60  e  353  considera  que.  devido  ao  primitivi.smo  dos  seus  métodos  eco¬ 
nómicos.  a  Germânia  pode  ser  deixada  inteiramente  de  lado  no  que  diz  respeito  à  actividade  bancária, 
não  existindo  mercados  cambiais  organizados  nem  sequer  em  Lübeck,  a  principal  cidade  hanseática. 
E  id.  (1974  )  205  insiste  em  afirmar  que  a  leste  do  Reno  não  houve  praças  bancárias  durante  este 
período.  A  mesma  tese  é  sustentada  por  P.  Spufford  (1984)  377,  Também  J.  Day  (1994)  201  escreve 
que  as  cidades  germânicas  não  faziam  ainda  parte  da  rede  de  crédito  externo  e  que  (p.  199)  na  liga 
hanseática  o  mercado  de  câmbios  era  pouco  desenvolvido,  ou  mesmo  inexistente.  M.  Maíowist 
(1966)  24-25  tenta  explicar  tal  situação  com  o  argumento  de  que  o  comércio  báltico  dizia  geralmente 
respeito  a  bens  de  baixo  preço  e  transaccionados  em  pequenas  quantidades,  o  que  dispensaria  o 
recurso  ao  crédito.  Mais  interessantes  rne  parecem  as  considerações  de  P.  Spufford  (1986)  xxxvi,  ao 
indicar  que  nos  casos  de  desequilíbrio  comercial  avultado  e  permanente,  como  sucedia  entre  os  cen¬ 
tros  de  mineração  e  as  regiões  comercialmente  mais  evoluídas,  um  sistema  de  letras  de  câmbio  tinha 
poucas  condições  de  desenvolvimento.  Quanto  aos  Países  Baixos.  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  403  asse- 
gura-nos  que  a  banca  se  mostrava  aí  muito  mais  atrasada  do  que  nas  regiões  mediterrânicas  do 
regime  senhorial;  e  entre  as  cidades  da  Flandres.  a  acrerditar  em  D.  Nicholas  (1971)  309.  só  Bruges 
sobressaía. 

10  J.-A.  van  Hourte  (1953)  197-198  demonstra  que  nas  regiões  vizinhas  do  Mar  do  Norte  as  letras 
obrigatórias,  ou  letras  de  feira,  constituíram  um  precedente  muito  próximo  das  letras  de  câmbio  difun¬ 
didas  por  acção  dos  negociantes  italianos  a  partir  do  final  do  século  XIII.  Porém,  no  ciclo  de  feiras  de 
Deventer.  nos  Países  Baixos  setentrionais,  R.  Feensira  ( 1953)  237  informa  que  os  pesquisadores  não 
encontraram  traços  documentais  do  uso  de  verdadeiras  letras  de  feira.  É  interessante  também  observar 
que,  enquanto  J.  Sehneider  (1950)  267  pretende  que  cm  Metz.  nos  séculos  XIII  e  XIV,  a  letra  de  câm¬ 
bio  não  foi  usada.  Ph.  Dollmger  (1950-1951 1  70  refere  a  existência  de  um  documento  do  começo  do 
segundo  quartel  do  século  XIV.  com  funções  muito  semelhantes  à  letra  de  câmbio,  embora  com  notᬠ
veis  diferenças  de  forma,  e  graças  ao  qual  uma  dívida  contraída  na  região  de  Metz  foi  paga  na  região 
de  Estrasburgo,  em  moeda  diferente  e  sem  movimentação  de  numerário. 


3  66 


Forma  III  do  dinheiro 


Em  tais  circunstâncias,  as  redes  bancárias  criadas  por  estrangeiros  não  corresponderam 
apenas  às  exigências  do  tráfico  de  longo  curso,  nem  foram  preferencialmente  utilizadas 
por  outros  estrangeiros".  Os  negociantes  italianos  mais  não  fizeram  do  que  antecipar- 
-se  aos  locais  no  desenvolvimento  de  instituições  que  tinham  origem  e  raízes  nas  neces¬ 
sidades  de  cada  praça,  e  só  alcançaram  êxito  na  medida  em  que  souberam  adaptar-se  às 
técnicas  cambiais  e  bancárias  usadas  pelos  nativos12. 

Foi  sem  dúvida  uma  problemática  deste  tipo  que  contribuiu  para  entravar  o  processo 
de  desenvolvimento  dos  mecanismos  bancários  e  fiduciários  no  interior  da  Hansa.  As 
dificuldades  surgidas  não  disseram  respeito  ao  aparecimento  desses  mecanismos,  que  se 
efectuara  normalmente,  mas  à  sua  evolução1'.  Na  medida  em  que.  no  final  do  período, 
se  tomara  impossível  expandir  a  actividade  bancária  sem  ao  mesmo  tempo  entrar  em 
relações  estreitas  com  as  sociedades  de  financeiros  italianos,  os  mercadores  hanseáticos, 
receosos  de  estarem  a  abrir  as  portas  precisamente  aos  seus  maiores  rivais,  decidiram 
restringir  o  mais  possível  o  recurso  ao  crédito14.  Esta  posição  paradoxal,  que  os  conde¬ 
nou  a  ficarem  definitivamente  marginalizados  nas  grandes  operações  de  longo  curso, 
deveu-se  também  a  outro  factor.  A  importância  da  Hansa  vinha-lhe  de  formar  uma 
ponte  entre  o  comércio  com  a  Flandres  e  a  Inglaterra  e  as  relações  com  os  mercados 
báltico  e  eslavo.  Sem  esta  conjugação  a  liga  hanseática  perderia  toda  a  razão  de  ser,  e  só 
o  acesso  aos  produtos  de  leste  lhe  conferiu  alguma  importância  no  Ocidente l?.  Ora,  o 


11  Na  praça  de  Montpellier,  escreve  K.  L.  Reyerson  <  1985)  109- 1 10,  a  letra  de  câmbio  foi  empre¬ 
gue  pelos  negociantes  estrangeiros  antes  de  entrar  no  uso  local.  No  entanto,  a  mesma  autora  mostra 
(pp.  107-1 10,  126)  que  se  haviam  já  desenvolvido  no  meio  autóctone  instrumentos  muito  próximos  da 
letra  de  câmbio  e  capazes  de  cumprir  funções  idênticas.  Também  R.  de  Roover  ( 1953)  14  afirma  que 
na  Inglaterra  a  letra  de  câmbio  foi  introduzida  pelos  Italianos  e  só  a  partir  dos  meados  do  século  XV 
começou  a  divulgar-se  entre  os  mercadores  ingleses.  Mas  o  interesse  autóctone  por  este  tipo  de  instru¬ 
mento  fiduciário  existia  forçosamente  desde  há  muito,  pois  leio  em  M.  Prestwich  ( 1972)  217  que  no 
último  quartel  do  século  XIII  a  coroa  inglesa  recorria  às  emissões  de  letras  de  câmbio  feitas  pelos 
banqueiros  italianos  para  proceder  a  pagamentos  no  exterior,  ou  a  outros  pagamentos  com  moeda 
estrangeira.  R.  de  Roover  (1948)  353  pretende  ainda  que  em  Bruges  as  facilidades  oferecidas  pelo 
mercado  monetário  eram  usadas  principalmente  pelos  membros  das  colónias  italiana  e  catalã.  Mas 
esta  tese  é  invalidada  quando  sabemos,  graças  a  R.  S.  Lopez  ( 1965)  301,  que  naquela  cidade,  no  final 
do  século  XTV,  uma  pessoa  em  cada  quarenta  possuía  conta  bancana  própria.  Note-se,  como  termo  de 
comparação,  que  A.  P.  Usher  ( 1 943)  1 80- 1 8 1  admite  que  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XV,  em 
Barcelona.  30%  ou  40%  das  famílias  tivessem  relações  com  a  banca  privada. 

"  Os  mercadores  italianos  activo*  em  Inglaterra,  informa  R.  de  Roover  <  1948)  353.  tiveram  de  se 
adaptar  às  técnicas  usadas  pelos  Ingleses  no  mercado  monetário 

'•*  Ph,  Dollinger  ( 1964)  204-206  e  252-253  mostra  que  já  desde  o  século  XIII  o  crédito  era  muito 
difundido  entre  os  mercadores  das  cidades  hanseaticas.  sendo-o  mais  ainda  ao  longo  dos  dois  séculos 
seguintes,  e  que,  embora  sem  terem  atingido  o  nível  encontrado  entre  os  Italianos,  se  desenvolveram 
também  as  técnicas  de  registo  dos  créditos  e  as  letras  de  câmbio 

14  M.  Beard  í  1938)  97:  J.  Day  (1994)  199:  Ph.  Dollinger  ( 1064)  256. 

Acerca  do  afastamento  dos  Italianos  do  mercado  cambial  de  Lübeck  ver  a  n  8. 

15  O  principal  objectivo  da  Hansa,  escreve  M.  Beard  ( 1938  )  80,  cra  manter  o  exclusivo  da  troca  das 
matérias-pnmas  do  norte  e  do  leste  do  continente  pelos  artigos  manufacturados  do  sul  e  do  ocidente. 
M.  Mollat  et  al.  (1955)  673  pretendem  que  no  comércio  com  Danzig  e  com  Novgorod  os  hanseáticos 
tinham  uma  margem  de  lucro  bastante  reduzida,  pelo  que  só  lhes  era  rentável  o  tráfico  de  bens  em 
grande  volume,  como  sucedia  com  os  cereais.  Se  assim  fosse,  porém,  seria  inexplicável  a  supremacia 
exercida  pelos  negócios  a  leste  no  equilíbrio  geral  da  Hansa.  como  veremos  já  em  seguida. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  UI  do  dinheiro 


367 


uso  como  dinheiro  de  pedaços  de  couro  e  de  peles  de  marta  constituía  tradicionalmente 
a  modalidade  fiduciária  prevalecente  nas  rotas  de  tráfico  russas,  e  os  mercadores  eslavos 
recusavam-se  a  substituí-la  por  um  tipo  de  dinheiro  fiduciário  que  era  emitido  através 
de  mecanismos  cambiais  e  de  crédito  bancário  sobre  os  quais  eles  não  tinham  qualquer 
influência.  Para  os  profissionais  activos  no  tráfico  do  leste  tal  mudança  corresponderia 
ao  abandono  de  um  sistema  pecuniário  que  estava  sob  o  seu  controlo,  para  adoptarem 
um  sistema  inteiramente  dominado  por  estranhos.  Já  no  começo  do  período  os  mercado¬ 
res  judeus  que  transaccionavam  tecidos  na  rota  da  Rússia  não  haviam  recorrido  ao  cré¬ 
dito,  mas  é  certo  que  estes  negociantes  seguiam  em  caravanas  e  não  pertenciam  a  qual¬ 
quer  associação  que  obrigatoriamente  conjugasse  o  tráfico  eslavo  com  o  comércio  prati¬ 
cado  no  interior  do  regime  senhorial,  enquanto  a  Hansa  se  deparava  precisamente  com 
tal  problema.  As  medidas  legislativas  contrárias  ao  crédito,  tomadas  nos  últimos  anos 
do  século  XIV  e  durante  o  século  XV,  mostram  como  as  autoridades  hanseáticas  se 
encontravam  repartidas  entre  duas  esferas  fiduciárias  antagónicas  e  incompatíveis  e 
como,  finalmente,  havia  prevalecido  a  opinião  defendida  desde  há  muito  pelos  nego¬ 
ciantes  interessados  no  mercado  eslavo.  Ao  procurarem  favorecer  exclusivamente  os 
circuitos  fiduciários  russos,  os  dirigentes  da  Hansa  optaram  por  uma  atitude  sensata, 
já  que  sem  a  manutenção  do  tráfico  a  leste  todo  o  seu  comércio  se  desmoronaria16. 
Mas  nem  por  isso  tal  decisão  era  aplicável,  pois  as  relações  com  as  praças  flamengas 
e  inglesas  só  podiam  sustentar-se  através  do  crédito.  Quando,  logo  na  abertura 
do  século  XV,  as  autoridades  de  Ltibeck  proibiram  pelo  prazo  de  três  anos  as  compras 
e  vendas  a  crédito  a  estrangeiros  na  Flandres,  a  agitação  foi  muito  grande  no  estabe¬ 
lecimento  hanseático  de  Bruges,  onde  os  mercadores  germânicos  se  encontravam 
com  os  italianos  e  os  negócios  do  Báltico  se  ligavam  aos  do  Mediterrâneo.  Esta  oposi¬ 
ção  fez  com  que  a  medida  não  fosse  aplicada,  limitando-se  a  interdição  ao  tráfico  entre 
a  Flandres  e  a  Livónia17.  Mas  como  deixar  o  crédito  desenvolver-se  a  ocidente,  e 
pretender  ao  mesmo  tempo  excluir  os  Italianos?  Repetidamente,  ao  longo  da  primeira 
metade  do  século  XV.  as  autoridades  hanseáticas  tomaram  disposições  com  o  objec- 
tivo  de  suprimir  o  uso  do  crédito  nos  negócios  na  Flandres18,  mas  a  própria  repe¬ 
tição  destas  medidas  parece  indicar  que  foi  muito  duvidosa  a  sua  aplicação.  Ape¬ 
sar  de  tudo,  a  estratégia  anti-italiana  continuou  a  ser  prosseguida  metodicamente,  e  os 


Mas.  num  balanço  final,  não  se  deve  exagerar  a  importância  económica  da  Hansa.  porque  o 
comércio  externo  genovês.  no  seu  auge.  durante  a  década  terminal  do  século  Xlll.  foi  quase  dez  vezes 
superior  ao  da  principal  cidade  da  liga  hanseática,  Ltibeck.  quando  ela  estava  no  apogeu,  no  começo 
do  último  terço  do  século  XIV.  consoante  indicam  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  70.  E,  a  crer  em  M. 
Beard,  op.  cit..  84,  um  só  empréstimo  adiantado  ao  papa  por  uma  das  companhias  florentinas  podia 
facilmente  exceder  o  rendimento  anual  do  conjunto  dos  mercadores  de  Lübeck. 

16  É  desta  maneira  que  interpreto  as  informações  fornecidas  por  Ph.  Dollinger  (1964  )  254-256. 
Acerca  do  emprego  de  couro  e  peles  paru  funções  pecuniárias  nas  rotas  russas,  ver  W.  Charlton 
(1906)  317.  Quanto  ao  facto  de  os  judeus  que  negociavam  na  Rússia  não  terem  utilizado  o  crédito,  ver 
J.  Brutzkus  ( 1943)  39. 

17  Quanto  à  oposição  suscitada  pelas  medidas  restritivas  do  credito  ver  Ph.  Dollinger  ( 1964)  255. 
Acerca  do  papel  de  charneira  desempenhado  por  Bruges  entre  as  duas  grandes  áreas  de  tráfico  ver  R. 
de  Roover  <  1948)  29. 

'*  Ph.  Dollinger  (1964)  255-256. 


368 


Forma  III  do  dinheiro 


raros  bancos  existentes  em  Lübeck  antes  do  final  do  século  XV  estavam  ligados  a 
Nuremberga19,  preferindo  as  relações  com  a  Germânia  meridional  do  que  com  as  pode¬ 
rosas  praças  a  sul  dos  Alpes.  O  êxito  da  Hansa  ficou,  atinai,  comprometido  pelo  facto  de 
ela  se  situar  na  charneira  entre  dois  mundos  com  estruturas  económicas  muito  diferen¬ 
tes,  e  isto  durante  um  período  em  que  um  destes  regimes,  o  senhorial,  já  só  podia  expan¬ 
dir-se  mediante  a  assimilação  dos  sistemas  vizinhos.  Ser  a  precursora  do  mercantilismo, 
sem  no  entanto  dispor  da  capacidade  de  violência  sistemática  que  o  imperialismo  mer¬ 
cantilista  exigia,  foi  este  o  drama  da  Hansa  e  o  motivo  do  seu  fracasso.  Só  neste  quadro 
genérico  conseguimos  compreender  a  sua  incapacidade  para  imitar  e  desenvolver  os 
mecanismos  bancários  e  fiduciários  propostos  pelas  cidades  de  além-Alpes. 

Mesmo  quando  operava  nas  feiras,  a  Forma  III  do  dinheiro  não  safa  do  quadro 
urbano.  No  plano  social,  aquele  comércio  de  longo  curso  que  a  esmagadora  maioria 
dos  historiadores  erradamente,  e  anacronicamente,  denomina  «internacional»  proces¬ 
sava-se  em  moldes  institucionais  equivalentes  aos  de  uma  cidade.  A  rede  de  contactos 
entre  os  mercadores  itinerantes  que  visitavam  as  feiras  e  entre  os  banqueiros  que  nelas 
abriam  as  suas  mesas  de  negócios  convertia  todo  o  sistema  de  feiras  numa  espécie  de 
enorme,  e  provisória,  cidade  mercantil-0.  Ou  talvez  se  possa  antes  dizer  que  foram  as 
grandes  cidades  comerciais  a  desenvolver  uma  forma  de  feira  ininterrupta21,  a  tal  ponto 
que  há  quem  sustente  que  uma  das  principais  razões  do  declínio  do  ciclo  das  grandes 
feiras  da  Champagne  foi  a  constituição  de  centros  urbanos  que  passaram  a  desempenhar 
a  função  das  feiras22.  E  quando  as  rotas  do  tráfico  uniam  uma  metrópole  a  um  certo 
número  de  praças  estrangeiras,  as  colónias  de  mercadores  estabelecidas  nestas  praças 
constituíam,  mesmo  em  lermos  jurídicos,  um  prolongamento  das  respectivas  metrópoles. 

As  principais  componentes  da  Forma  III  do  dinheiro  neste  período  foram  a  multi¬ 
plicação  do  dinheiro  bancário,  as  operações  de  compensação  e  a  emissão  de  letras  de 
câmbio.  Não  deve  haver  a  mínima  dúvida  de  que  nos  três  casos  se  geravam  modalida¬ 
des  de  dinheiro  fiduciário,  e  o  facto  de  não  ser  ainda  praticado  nem  o  endosso  nem  o 
desconto  dos  instrumentos  financeiros  não  constituiu  um  impedimento  sério  à  sua  cir- 


19  F.  Jeanntn  (1955)  235. 

20  Partindo  do  princípio  de  que  as  feiras  entraram  em  declínio  quando  o  volume  das  transacções 
cresceu  a  tal  ponto  que  se  tomou  impossível  processá-lo  durante  o  curto  período  em  que  os  mercado¬ 
res  se  encontravam  reunidos,  R.  S.  Lopez  et  al.  tl955)  79-80  explicam  a  raridade  das  feiras  nas 
regiões  mediterrànieas  do  regime  senhorial  afirmando  que  desde  cedo  o  tráfico  foi  ai  demasiado  volu¬ 
moso  para  poder  realizar-se  naquele  quadro.  A  razão,  porem,  parece-me  ser  outra.  L.  K.  Litlle  1 1978) 
11-12  observa  que  as  feiras  da  Champagne  cumpriam  no  norte  do  continente  a  mesma  função  que  no 
sul  era  desempenhada  pelas  cidades,  e  define  justainente  as  feiras  setentrionais  conto  -  cidades  tempo¬ 
rárias».  Assim,  a  proliferação  de  centros  urbanos  em  Itália,  e  o  carácter  muito  evoluído  de  tantos 
deles,  tornavam  desnecessária  a  formação  de  centros  episódicos,  que  eram  as  feiras. 

31  As  cidades  passaram  a  constituir  «feiras  permanentes»,  escreve  Y  Renouard  (1949)  85:  e  G. 
Luzzatto  (1961  b)  100  observa  que  a  praça  do  Rialto.  em  Veneza,  pode  ser  considerada  como  uma 
feira  permanente.  Também  Y.  Renouard  (1941  i  108.  citando  as  palavras  de  alguém,  classifica  Veneza 
como  uma  «feira  [...]  permanente»,  e  o  mesmo  faz  F.  Thiriet  ( 1959)  305. 

22  R.-H.  Bautier  (1945)  97;  id.  (1953)  144;  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  361-362  Ver  também:  M.  Cru- 
bellíer  (org.  1975)  171;  L.  K.  Little  ( 1978)  1 2:  E.  Perroy  1 1962-1963)  150;  Y.  Renouard  (1949)  ,85. 

Acerca  desta  questão,  porém,  deve  consuhar-sc  a  n  300. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


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culação  e  à  transferência  das  obrigações23.  Os  mecanismos  criadores  do  dinheiro  ban¬ 
cário  deveram-se  sobretudo  aos  cambistas,  e  formaram-se  a  partir  das  operações  de 


$  J.  Day  (1994)  41-42  é  muiio  céptico  a  este  respeito,  escrevendo  que  as  tetras  de  câmbio  não 
podem  ser  consideradas  como  uma  fonte  de  criação  de  dinheiro,  visto  que  geralmente  não  circulavam  de 
mão  em  mão,  e  que  o  crédito  bancário  transmissível  pelos  registos  de  contabilidade  era  um  sistema  pouco 
seguro,  usado  como  mero  expediente.  Este  especialista  conclui  (pp.  88.  101  n.  2)  que  antes  de  se  ter  difun¬ 
dido  a  prática  do  endosso  e  do  desconto  não  ocorreu  uma  criação  sistemática  de  dinheiro  fiduciário. 
Embora  talvez  de  maneira  menos  drástica.  H.  A.  Vliskimin  (1963)  13  defende  uma  tese  semelhante  e 
afirma  que.  numa  situação  em  que  as  transferências  de  depósitos  não  eram  facilitadas  e  em  que  não  era 
praticado  o  endosso  das  letras  de  câmbio,  os  instrumentos  de  dívida  dificilmente  se  tomavam  meios  de 
pagamento  e,  portanto,  o  efeito  principal  destes  mecanismos  se  exercia  mais  sobre  a  velocidade  da  cir¬ 
culação  pecuniária  do  que  sobre  a  oferta  de  dinheiro.  Peremptório  e  conciso.  E.  Eoumial  ( 1970)  6  sinte¬ 
tiza  estas  teses  numa  fórmula  lapidar,  afirmando  que  o  dinheiro  fiduciário  foi  ignorado  neste  período. 

Uma  posição  globalmente  oposta  é  tomada  por  E.  Perroy  1 1949)  170,  classificando  como  dinheiro 
fiduciário  tanto  o  dinheiro  contabilístico  processado  nos  livros  de  registo  dos  bancos  e  dos  comercian¬ 
tes  como  as  operações  de  compensação  e  as  letras  e  ainda  os  títulos  da  dívida  pública.  Aliás.  R.  C. 
Mueller  (1984)  195  observa  que  em  italiano  -  língua  então  usada  entre  todos  os  negociantes  de  longo 
curso  -  « denaro ••  significava  ao  mesmo  tempo  dinheiro  e  crédito.  Confirma-se,  assim,  que  para  os 
coevos  existia  uma  associação  estreita  entre  os  mecanismos  do  crédito  e  a  esfera  pecuniária,  mediante 
a  criação  de  dinheiro  fiduciário.  Note-se  que,  em  franca  contradição  com  a  tese  geral  que  sustenta  a 
este  respeito,  John  Day  reproduz  aquele  detalhe  linguístico  em  ( 1984)  24  n.  31 . 

Também  em  sentido  contrário  à  opinião  defendida  por  J.  Day  (1994)  42  a  respeito  do  dinheiro 
bancário,  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  399-400  mostra  que  os  mecanismos  de  multiplicação  bancária  do 
dinheiro  já  operavam  no  final  do  período,  mediante  um  sistema  de  transferência  de  depósitos  nos 
livros  de  contabilidade  e  graças  ás  compensações.  ld.  ( 1943)  3  estabelece  que  a  criação  de  crédito  por 
bancos  de  depósito  se  verifica  documentalmente  nas  regiões  mediterrânicas  do  regime  senhorial  desde 
o  começo  do  século  XIII,  sendo  muito  possível  que  datasse  de  uma  época  anterior.  Ver  ainda  id., 
ibid..  17-18.  E  certo  que  este  profundo  conhecedor  das  origens  do  sistema  bancário  europeu  classifica 
(P-  8)  como  «primitivo»  o  sistema  bancário  que  precedeu  a  prática  do  endosso  e  a  aceitação  generali¬ 
zada  da  negociabilidade,  mas  acrescenta  logo  em  seguida  (pp,  8-9)  que  não  se  devem  exagerar  as 
diferenças  relativamente  à  época  moderna,  pois  já  naquele  período  a  criação  de  crédito  ocorria  num 
grau  considerável.  Além  disso  (pp.  20,  185-187).  as  relações  interbancárias  haviam-se  desenvolvido 
mesmo  antes  do  aparecimento  da  negociabilidade  e  dos  cheques,  baseando-se  na  abertura  de  contas 
por  uns  banqueiros  nos  estabelecimentos  dos  outros.  Assim,  desde  o  final  do  século  XIII,  indica  id., 
ibid.,  4  e  88.  praticamente  todos  os  juristas  reconheciam  as  transferências  de  créditos  nos  registos  de 
contabilidade  dos  bancos  como  um  meio  de  pagamento  equivalente  à  moeda,  liquidando  inteiramente 
a  obrigação  do  devedor  originário,  enquanto  consideravam  que  a  mera  aceitação  de  uma  letra  não 
extinguia  as  obrigações  do  sacador.  Mas  o  facto  de  as  letras  ainda  não  serem  então  objecto  de  des¬ 
conto  não  as  impedia  de  serem  transaccionadas,  recorda  id.  (1932-1934)415. 

O  outro  dos  grandes  especialistas  da  génese  dos  mecanismos  fiduciários  europeus.  Raymond  de 
Roover.  permite  igualmente  sustentar  uma  perspectiva  oposta  à  de  John  Day  e  Harry  A.  Miskimin.  Tal 
como  Abbott  Payson  Usher,  também  R.  de  Roover  (1948)  3  e  54  considera  que  este  período  se  caracte¬ 
rizou  pela  ausência  de  instrumentos  de  credito  negociáveis  e  pelo  facto  de  ocorrer  a  transferência  dos 
depósitos,  em  vez  da  circulação  de  notas.  A  este  propósito  ver  ainda  id..  ibid..  283.  Tendo-se  tomado 
títulos  transferíveis,  que  davam  direito  a  dadas  somas  dc  dinheiro,  os  depósitos  bancários,  acrescenta 
Raymond  de  Roover  em  op.  cit .  247-250,  foram  cada  vez  mais  usados  enquanto  meio  dc  pagamento, 
convertendo-se  portanto  numa  modalidade  pecuniária.  Ora.  lembra  este  autor  (pp.  311-312,  320).  as 
funções  bancárias  são  exercidas  desde  que  as  reservas  constituam  apenas  uma  fracção  dos  depósitos 
totais,  criando-se  capacidades  aquisitivas,  e  desde  que  a  transmíssíbilidade  dos  depósitos  permita  que 
eles  sejam  extensivamente  empregues  cm  substituição  dos  pagamentos  monetários.  A  expansão  dos 
depósitos  bancários  corresponde  à  expansão  de  dinheiro  fiduciário,  assegura  de  Roover  em  op.  cit..  321, 
definindo  os  depósitos  bancários  e  as  notas  bancárias  como  modalidades  fiduciárias,  decorrentes  da 


370 


Forma  III  do  dinheiro 


confiança  que  o  público  tinha  na  solvabilidade  dos  bancos.  O  mesmo  ponto  de  vista  encontra-se  em  id. 
(1953)  135  e  1 1974)  215.  É  certo  que  não  existiam  ainda  cheques,  mas  esta  função  era  executada  pelo 
sistema  de  transferências  contabilísticas  nos  livros  de  registo  bancários,  argumenta  id.  (1948)  250,  atin¬ 
gindo-se  o  mesmo  resultado.  Quanto  às  letras  de  câmbio,  apesar  de  neste  período  não  serem  desconta¬ 
das  nem  circularem  por  meio  de  endosso,  este  especialista,  em  ( 1 948 )  49  e  (1953)  1 1 7,  considera-as  um 
substituto  do  numerário.  Aliás,  as  letras  eram  efectivamente  negociadas,  através  de  corretores,  como 
indica  id.  (1953)  50.  Acerca  desta  questão  ver  também  id.,  ibid..  63  e  146.  O  facto  de  o  desconto  e  o 
endosso  não  se  praticarem  ainda  nas  letras  de  câmbio  não  as  impedia  de  serem  transaccionadas,  observa 
fmalmente  id.  (1974)  185  e  210.  a  um  preço  que  variava  consoante  as  flutuações  do  câmbio.  Nem 
sequer  se  devem  exagerar  as  consequências  da  ausência  do  endosso,  pois  antes  de  se  ter  começado  a 
verificar  tal  prática  sucedia  ocasionalmente  que  o  beneficiário  de  uma  letra  escrevesse  uma  carta  ao 
sacado,  dando-lhe  indicação  para  pagar  a  uma  terceira  pessoa,  e  id..  ibid.,  220  comenta  que  a  única  dife¬ 
rença  entre  uma  missiva  deste  teor  e  o  endosso  consiste  no  facto  de  este  estar  escrito  no  próprio  título. 

P.  Spufford  ( 1984)  379  admite  também  o  carácter  pecuniário  das  contas  bancárias,  argumentando  que 
elas  acresciam  a  massa  de  dinheiro  disponível.  Em  ( 1986)  xxviii  este  autor  mostra  que  o  saque  a  desco¬ 
berto.  na  medida  em  que  permitia  a  manutenção  das  reservas  num  nível  inferior  ao  dos  depósitos  lotais, 
constituía  uma  fomia  de  criação  de  dinheiro.  A  tese  de  que  os  depósitos  à  ordem  eram  geradores  de 
dinheiro  fiduciário,  decorrente  da  promessa  de  pagamento  do  banqueiro,  e  que  este  dinheiro  podia  subs¬ 
tituir  a  moeda,  encontra-se  igualmente  em  R.  C.  Mueller  ( 1982)  77-78,  e  este  historiador  afirma  (p.  104) 
que  os  bancos  não  se  limitavam  a  criar  um  tipo  de  dinheiro  que  tomava  o  lugar  do  metal,  mas  davam  ainda 
origem  a  meios  de  pagamento  fiduciários.  Quanto  às  letras  de  câmbio,  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  178 
não  só  as  considera  como  um  tipo  de  dinheiro  capaz  de  substituir  o  numerário,  como  acrescenta  que  elas 
contribuíam  para  alimentar  novo  poder  de  compra,  o  que  permite  defini-las  verdadeiramente  como 
um  instrumento  pecuniário.  O  facto  de  neste  período,  embora  não  fosse  ainda  praticado  o  desconto  das 
letras,  elas  serem  já  negociáveis  é  igualmente  referido  por  P.  Spufford  ( 1986)  xxxi.  E  na  Flandres  as 
letras  obrigatórias,  ou  letras  de  feira,  precursoras  das  letras  de  câmbio,  permitiam  a  completa  transferên¬ 
cia  para  terceiros  dos  créditos  e  débitos  nelas  incluídos,  conforme  indica  J.-A.  van  Houtte  (1953)  198. 

Quanto  aos  problemas  levantados  pela  cronologia  da  prática  do  endosso  nas  letras  de  câmbio  ver, 
neste  capitulo,  a  n.  28 1 . 

Acerca  da  negociabilidade  das  ordens  de  pagamento  emitidas  pelo  rei  de  França  durante  a  sua 
campanha  na  Palestina  nos  meados  do  século  XIII,  ver  J  Piquet  (1939)  83.  Y.  Renouard  (1949)  68  e 
A.-E.  Sayous  (1931)  284-285.  Mas,  como  sublinha  André-E.  Sayous  em  op  cit.,  284-285.  as  formas 
práticas  de  desconto  eram  então  excepcionais.  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  86-87  e  104  mostra-se  bastante 
optimista  quanto  ao  ritmo  da  evolução  em  Montpellier,  afirmando  que.  embora  o  endosso  só  se 
tivesse  desenvolvido  postenormente.  os  documentos  notariais  daquela  cidade  revelam  a  negociabili¬ 
dade  de  instrumentos  de  crédito  e  a  existência  de  um  processo  de  desconto  das  dívidas.  A  propósito 
do  sucedido  em  Veneza,  Yves  Renouard  em  op.  cit..  1 1 3  considera  que  as  operações  de  compensação 
entre  contas  bancárias  criavam  uma  forma  de  dinheiro  que  substituía  o  numerário,  e  que  a  prática  do 
saque  a  descoberto  mais  ainda  desenvolvia  estas  funções  pecuniárias.  Por  seu  lado.  G,  Luzzatio  (1961 
b)  101  chama  a  atenção  para  o  facto  de  em  Veneza  os  pagamentos  efectuados  mediante  transferências 
entre  contas  bancárias  terem  permitido  aumeniar  a  uniformidade  e  a  estabilidade  da  circulação  pecu¬ 
niária.  É  interessante  saber  que  nessa  cidade,  no  século  XV.  como  informa  R  de  Roover  ( 1974)  215, 
os  depósitos  bancários  transferíveis  eram  designados  «maneta  di  hunco »  e  « contadi  di  hanco».  Final¬ 
mente.  como  o  próprio  Estado  veneziano,  em  especial  a  aduana,  encarregada  também  de  cobrar  o 
frete  das  galeras  estatais,  começou  a  aceitar  pagamentos  em  dinheiro  bancário  a  partir  da  terceira 
década  do  século  XIV.  R.  C.  Mueller  (1982)  88-90  comenta  que  os  órgãos  governativos,  ao  abrirem 
conta  em  bancos  e  ao  receberem  pagamentos  através  da  transferência  entre  comas,  estavam  a  aproxi¬ 
mar  o  dinheiro  bancário  da  categoria  de  legal  tender,  ou  seja.  um  dinheiro  de  curso  oficial.  Mais 
tarde,  no  começo  do  último  quartel  do  século  XIV.  progrediu  o  reconhecimento  oficial  da  criação 
bancária  de  dinheiro,  quando  a  guerra  contra  Génova  em  Chioggia  obrigou  o  governo  veneziano  a 
recorrer  sistematicamente  aos  bancos  para  obter  numerário  emprestado  e  para  abrir  em  nome  do 
Estado  linhas  de  crédito  que  lhe  permitissem  pagar  aos  seus  fornecedores.  Ora,  neste  último  caso, 
observa  Reinhold  C.  Mueller  em  op.  cit.,  97.  como  os  pagamentos  eram  feitos  por  transferência,  ocor- 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


371 


câmbio24.  Os  acordos  de  compensação  tiveram  uma  origem  dupla,  desenvolvendo-se 
tanto  nos  pagamentos  efectuados  no  tráfico  de  longo  curso,  em  especial  nos  ciclos  de 
feiras25,  como  no  interior  das  mesmas  praças,  já  que  quando  cada  banqueiro  abria  conta 
nos  estabelecimentos  dos  seus  colegas  tomava-se  possível  transferir  créditos  entre 
todos  os  bancos  de  uma  mesma  cidade26.  A  letra  de  câmbio  foi  a  última  destas  modali¬ 
dades  a  aparecer,  permitindo  articular  a  compensação  de  obrigações  inter-regionais 
com  a  compensação  de  obrigações  estritamente  locais,  realizada  no  interior  de  cada 
praça27.  A  letra  de  câmbio  surgiu  nas  cidades  toscanas,  e  sempre  no  âmbito  do  comér¬ 
cio  de  longo  curso,  na  sua  fase  já  sedentária,  quando  o  negociante,  em  vez  de  acompa¬ 
nhar  obrigatoriamente  a  mercadoria,  tratava  com  filiais,  agentes  e  correspondentes  nas 


ria  uma  dupla  promessa,  o  Estado  garantindo  o  pagamento  ao  banco  e  este  prometendo  pagar  ao  for¬ 
necedor  do  Estado;  e  assim,  conclui  aquele  especialista,  embora  as  ordens  fossem  dadas  oralmente,  o 
efeito  era  semelhante  ao  de  uma  nota  fiduciária  apoiada  pela  dívida  pública. 

:4  Contrariamente  ao  que  pretendia  André-E.  Sayous,  escreve  R.  de  Roover  ( 1974)  202,  a  banca 
não  se  desenvolveu  a  partir  do  crédito  e  dos  empréstimos  monetários,  mas  a  partir  do  câmbio  directo  e 
do  câmbio  externo;  mesmo  que  as  operações  cambiais  incluíssem  uma  componente  de  crédito,  a  din⬠
mica  do  processo  veio  mais  do  câmbio  do  que  do  crédito.  Este  especialista  exprime-se  no  mesmo  sen¬ 
tido  em  (1948)  247,  311.  346.  (1953)  23  e  ( 1974)  184,  236.  Note-se  a  formulação  de  J.  Piquet  (1939) 
67,  quando  escreve  que  ao  banqueiro  interessava  acima  de  tudo  o  aspecto  do  câmbio,  enquanto  o 
comerciante  se  preocupava  principalmente  com  o  aspecto  do  crédito.  Em  geral,  quanto  ao  papel  dos 
cambistas  no  desenvolvimento  do  dinheiro  bancário,  ver:  R.  de  Roover  (1948)  215;  id.  (1974)  213- 
-214;  R.  S.  Lopez  (1979)  9;  id.  et  al.  (1955)  162;  K.  L.  Reyerson  (1985)  91,  94;  P.  Spufford  (1984) 
378;  id.  (1986)  xxvii:  A.  P.  IJsher  (1943)  3.  O  caso  de  Metz.  tal  como  o  estuda  J.  Schneider  (1950) 
25 1  e  255,  confirma  esta  função  dos  cambistas.  O  mesmo  se  passou  no  ciclo  de  feiras  de  Deventer, 
nos  Países  Baixos  setentrionais,  a  crer  em  R.  Feenstra  (1953)  237-238,  e,  mais  ao  sul,  em  Bruges, 
segundo  R.  de  Roover  (1948)  202-204,  247  e  261.  A  situação  em  Génova  é  elucidada  por  id.  (1953) 
23-24.  Para  o  sucedido  em  Veneza  ver  R.  C.  Mueller  (1982)  78.  Acerca  de  Luca  no  século  XIII  con¬ 
sultar  Th.  W.  Blomquist  ( 1979)  55  e  62-66.  Aquilo  que  se  sabe  acerca  do  papel  dos  cambistas  em 
Espanha  e  da  sua  conversão  em  banqueiros  encontra-se  sintetizado  por  J.  Martínez  Gijón  (1964)  80- 
-83.  Quanto  à  actuação  dos  cambistas  nos  territórios  da  coroa  de  Aragão,  especialmente  em  Barce¬ 
lona.  ler  M.  Riu  ( 1979)  138  e  143. 

No  entanto,  Y.  Renouard  ( 1941)  67  pretende  que  as  companhias,  em  virtude  da  sua  própria  activi- 
dade  comercial,  começaram  a  dedicar-se  também  a  operações  de  câmbio,  de  depósito  e  de  crédito,  e 
que  (pp.  367-368)  nas  praças  mais  importantes  o  câmbio  directo  era  praticado  não  só  pelos  cambistas, 
mas  por  qualquer  comerciante. 

25  Acerca  da  importância  dos  grandes  ciclos  de  feiras,  particularmente  das  feiras  da  Champagne, 
para  o  desenvolvimento  dos  mecanismos  de  compensação  entre  contas,  ver:  R.  D.  Face  ( 1957-1958) 
437;  J.  Piquet  (1939)  66-67;  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  407;  id.  (1943)  20-21,  1 12-1 14. 

26  Acerca  da  compensação  mediante  operações  de  transferência  de  créditos  bancários  no  interior 
da  mesma  praça,  ver:  Th.  W.  Blomquist  (1979)  66-67;  R.  de  Roover  (1948)  203-204.  248-250.  261- 
-262,  267.  271,  283,  314-315;  id.  (1953)  24,  25,  135;  id.  (1974)  184,  202,  213-215:  F.  C.  Lane  (1973) 
147;  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  100;  R.  C.  Mueller  1 1982)  77-79,  93-94:  Y.  Renouard  (1949)  51-52,  1 12; 
K.  L.  Reyerson  ( 1985)  87,  106;  P.  Spufford  (1984)  378,  379:  A.  P.  Usher  ( 1943)  184-185.  Quanto  ao 
facto  de  cada  banqueiro  abrir  conta  nos  estabelecimentos  dos  colegas,  ver:  Th.  W.  Blomquist  (1979) 
67;  R.  de  Roover  (1948)  272,  276;  R  C.  Mueller  (1982)  93;  P.  Spufford  (1984)  378:  A.  P.  Usher 
(1932-1934)416;  id.  (1943)  20,  185-186.  Em  Monrpellicr,  K.  L.  Reyerson  (1985)  105-106  previne 
que  não  existem  provas  documentais  directas  dc  que  os  cambistas  tivessem  contas  abertas  nos  estabe¬ 
lecimentos  uns  dos  outros,  mas  isto  não  os  impediria  de  procederem  a  operações  de  compensação. 

27  A.  P.  IJsher  (1943)  7.  20-21. 


372 


Forma  III  do  dinheiro 


outras  praças28.  Como.  por  sua  vez,  mercadores  e  cambistas  partilhavam  interesses 
comuns  e  colaboravam  intimamente  numa  multiplicidade  de  transacções,  as  modalida¬ 
des  da  Forma  III  do  dinheiro  constituíam  uma  rede  única*9,  até  que  no  final  do  período 
se  notabilizaram  a  partir  da  Toscana  as  companhias  em  que  as  virtualidades  mais  rentᬠ
veis  da  actividade  comercial  de  longo  curso  e  da  actividade  bancária  externa  estavam 
fundidas,  formando  a  elite  dos  negócios*0. 

E  comum  entre  os  historiadores  o  argumento  de  que  os  comerciantes  recorriam  aos 
jogos  de  escrituração  por  comodidade,  só  porque  era  penoso,  ou  perigoso,  transportar 
para  lugares  distantes  grandes  somas  de  prata  ou  de  ouro,  cunhados,  em  barra  ou  em 
pó31.  E  estes  especialistas  não  reflectem  que  os  mercadores,  inevitavelmente,  levavam 
consigo  ou  despachavam  ern  longos  percursos  as  suas  mercadorias,  cujo  valor  era  idên¬ 
tico  ao  dos  referidos  montantes  em  numerário,  suscitando  portanto  iguais  cobiças,  e 
que  eram  sempre  incómodas  de  deslocar,  pois  o  seu  peso  e  o  seu  volume  não  podiam 
senão  ser  superiores  ao  do  metal  precioso.  Aliás,  sabe-se  que  na  feira  de  Colónia,  no 
início  do  período,  e  pelo  menos  entre  os  Judeus,  as  tão  invocadas  razões  de  comodi¬ 
dade.  em  vez  de  suscitarem  o  aparecimento  de  quaisquer  formas  de  dinheiro  fiduciário, 
levaram  os  negociantes  a  efectuar  correntemente  as  transacções  em  barras  de  prata, 
para  não  terem  de  proceder  â  contagem,  forçosamente  demorada,  de  uma  grande  quan¬ 
tidade  de  peças32.  Mais  tarde,  os  Templários  tanto  se  revelaram  capazes  de  transportar 
em  longos  percursos  somas  de  moeda  muito  consideráveis,  devido  aos  seus  numerosos 
estabelecimentos  fortificados  e  às  suas  hostes  bem  armadas,  como  efectuaram  paga¬ 
mentos  à  distância  através  de  ordens  escritas  e  de  inscrições  nos  livros  de  contabili¬ 
dade,  sem  movimentação  material  de  fundos33,  não  parecendo  que  esta  segunda  moda- 


Th.  W.  Blomquist  (1979)  69-70:  J.  Day  ( 1994)  201:  R.  de  Roovcr  (1948)  347:  id.  <  1953)  23-24. 
41,  134-135:  id.  (1974)  184,  202:  R.  C.  Mueller  ( 1982)  83:  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  176:  A.  P.  Usher 
(1943)79-81,  112. 

A  letra  obrigatória,  ou  letra  de  feira,  e  o  contrato  de  cambio  de  forma  notarial,  que  os  mercadores 
usavam  na  fase  itinerante  da  actividade  comercial,  revelaram-se  inadequados  para  a  fase  sedentária, 
afirma  R.  de  Roover  ( 1942)  35.  (1948)  12,  51.  (1953)  38-39  e  ( 1974»  203.  surgindo  então  a  letra  de 
câmbio.  Consultar  no  mesmo  sentido  M.  Balard  { 1978)  615. 

29  Os  banqueiros,  escreve  A.  P.  Usher  (1932-1934)  416,  estavam  estreitamente  associados  à  acti¬ 
vidade  comercial,  e  chegava  a  suceder  que  os  seus  interesses  mercantis  fossem  mais  importantes  do 
que  os  bancários.  R.  de  Roover  ( 1948)  310  observa  que  a  estreita  articulação  entre  bancos  e  negócios 
constituiu  uma  situação  geral.  E  o  mesmo  especialista  acrescenta,  em  (1953)  25.  que  por  todo  o  lado  o 
câmbio  e  a  banca  estavam  ligados. 

30  M.  Beard  (1938)  131:  R.  de  Roover  <  1948)  17.  20.  48.  89.  303:  id.  (1953)  25.  134-135;  id. 
(1974)  45,  70-71,  184:  D.  Herlihy  (1967)  167:  R  S.  Lopez  1 1979)  6-7.  12:  Y.  Renouard  ( 1941)  67-68; 
id.  (1949)  132;  A.  P.  Usher  (1943)  19. 

As  oportunidades  dc  lucro  aumentavam  se  uma  companhia  negociasse  em  mercadorias  e  ao 
mesmo  tempo  em  letras  de  câmbio,  observa  R.  de  Roover  (1948)  29-30.  porque  ela  podia  neste  caso 
orientar  os  fundos  de  um  para  outro  tipo  de  investimento.  Por  seu  lado.  Y.  Renouard  (1949)  142  con¬ 
sidera  que  os  lucros  das  companhias  eram  maiores  no  tráfico  de  longo  curso  do  que  no  comércio  local 
e  eram  maiores  na  actividade  financeira  do  que  na  transacção  dc  mercadorias. 

31  Ver.  por  exemplo:  R.  de  Roover  (1948)  12.  54.  349:  R.  W.  Kaeuper  (1973)  3:  W.  E.  I.unt 
( 1939-1962)  11  207:  J.  Piquet  1 1939)  66-67;  K.  L.  Reyerson  (1985)  125;  J.  Rtchard  ( 1953)  280. 

I.  A.  Agus  (1965)  109. 

L.  Delisle  ( 1889)  20:  G.  Olsen  ( 1969-1970)  44. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  l/l  do  dinheiro 


373 


lidade  tivesse  substituído  a  outra.  E  no  final  do  período  a  difusão  das  letras  de  câmbio 
ampliou  muitíssimo  o  volume  dos  negócios,  sem.  no  entanto,  levar  a  uma  diminuição 
sensível,  em  termos  absolutos,  da  quantidade  de  metal  precioso  movimentado  entre  as 
principais  praças  bancárias34.  Se  no  grande  ciclo  de  feiras  da  Champagne,  como  vere¬ 
mos  na  continuação  deste  capítulo,  os  mercadores  evitavam  tanto  quanto  possível  o 
numerário  e  recorriam  a  operações  de  compensação,  faziam-no  para  poupar  fundos  de 
reserva,  pois  este  sistema  permitia-lhes  pagar  as  compras  com  os  proventos  resultantes 
das  vendas  futuras.  Tal  mecanismo  só  pôde  tomar-se  geral  e  sistemático  porque  as  fei¬ 
ras  eram  um  meio  fechado  e  bem  regulamentado,  onde  todos  se  conheciam  ou,  pelo 
menos,  se  fiscalizavam  mutuamente.  O  uso  de  dinheiro  fiduciário  entre  os  profissionais 
do  tráfico  não  podia  ter  tido  motivos  de  facilidade  prática,  mas  razões  exclusivamente 
sociais.  De  uma  maneira  mais  sofisticada,  numerosos  autores  pretendem  que  foi  a 
sedentarização  da  actividade  mercantil  que  levou  ao  aparecimento  da  letra  de  câmbio, 
já  que  sem  este  instrumento  de  pagamento  à  distância  seria  impossível  alguém,  man- 
tendo-se  na  sua  cidade,  conduzir  negócios  noutras  praças33.  Mas  a  validade  do  argu¬ 
mento  fica  muito  diminuída  quando  vemos  alguns  outros  autores  afirmarem,  com  igual 
convicção,  que  só  o  desenvolvimento  da  letra  de  câmbio  permitiu  que  a  actividade  mer¬ 
cantil  se  sedentarizasse36.  Sempre  que  se  encontra  este  cruzamento  de  raciocínios 
inversos,  temos  a  indicação  de  que  o  problema  não  é  analisável  consoante  uma  linha  de 
causalidade  simples,  mas  apenas  em  termos  de  estnitura. 


,4  R.  C.  Mueller  1.1984}  195  sustenta  que  a  letra  de  câmbio  não  dispensava  a  transferência  de 
moeda,  e  esta  tese  c  corroborada  por  J.  Day  (1984»  14-15.  Numa  versão  mais  extrema.  P.  Spufford 
(1986)  xxxiii  pretende  que  a  quantidade  de  metal  precioso  transportado  entre  as  principais  praças  ban¬ 
cárias  não  diminuiu  em  virtude  do  desenvolvimento  das  letras  de  câmbio,  embora  o  volume  de  negó¬ 
cios  implicado  se  tivesse  ampliado  muitíssimo;  mesmo  entre  as  praças  comerciais  mais  importantes, 
afirma  este  especialista,  ainda  que  a  maior  pane  das  transaeções  fosse  efectuada  mediante  letras  de 
câmbio,  o  desequilíbrio  final  entre  as  balanças  tinha  de  ser  pago  em  metais  preciosos.  Todavia,  o 
facto  de  a  difusão  das  letras  de  câmbio  não  ter  levado  a  prescindir  da  movimentação  de  metal  no  trᬠ
fico  de  longo  curso  foi  estudado  especialmente  no  caso  veneziano  por  Reinhold  C.  Mueller  em  op. 
cit..  201  e  214.  Ora,  o  próprio  Peter  Spufford.  em  op.  cit..  xxxvi.  explica  o  reduzido  emprego  da  letra 
de  câmbio  nos  negócios  prosseguidos  entre  o  regime  senhorial,  o  norte  de  África  muçulmano  e  o 
Levante  devido  ao  facto  de  a  balança  comercial  estar  em  desequilíbrio  crónico  entre  estas  praças, 
sendo,  além  disso,  atribuídos  valores  muito  diferentes  ao  ouro  e  à  prata  em  cada  uma  dessas  três 
áreas.  Aliás,  já  J.  Piquet  ( 1939)  7 1  observara  que  a  situação  de  desequilíbrio  comercial  em  benefício 
do  Oriente  impedia  que  se  prescindisse  totalmente  das  remessas  de  metal  precioso.  Se  assim  tivesse 
sido,  o  fenómeno  detectado  por  Mueller  para  o  caso  de  Veneza,  cidade  que  dominava  precisamente  o 
comércio  com  a  África  islâmica  e  o  Levante  bizantino,  teria  uma  amplitude  menor  nas  demais  rotas 
de  tráfico.  Com  eleito.  T.  H.  Lloyd  (1082  »  199  limita-se  a  escrever  que  a  maior  parte  das  somas 
ganhas  no  continente  pela  venda  de  lã  inglesa  era  repatriada  para  a  ilha  na  forma  de  prata,  e  não 
mediante  letras  obrigatórias,  que  constituíram  um  instrumento  precursor  das  letras  de  câmbio.  Mais 
modestamente  ainda.  M.  Prestwich  ( 197b)  98  comenta  que  na  Inglaterra  do  final  do  século  XIII  e  do 
começo  do  século  seguinte  o  uso  de  letras  de  câmbio  não  eliminou  complctamcnte  as  remessas  de 
moeda  nos  pagamentos  efectuatlos  ao  estrangeiro. 

45  M.  Balard  tl978i  61o.  R.  de  Rouver  (1942)  35;  id.  (1948)  12.  51:  td  (1953)  26.  38;  Y 
Renouard  í  1 949 1  51;  K .  L.  Reyerson  ( 1 985  >  1 10-1 1 1;  A.-E.  Sa>  ous  ( )  935  >  473;  A.  P.  U  sher  <  1 943 ) 
80  81.  112. 

•'<*  J.  K.  Hyde  (1973)  162,  P.  Spufford  (1986)  xxx-xxxi.  No  mesmo  sentido  ver;  .1.  Day  (1994) 

200. 


374 


Forma  III  do  dinheiro 


Por  outro  lado,  também  não  vale  a  pena  atribuir  a  meras  sugestões  estranhas  a  adop- 
ção  de  formas  de  dinheiro  fiduciário,  porque  as  influências  só  são  seguidas  quando  uma 
sociedade  sente  a  necessidade  de  o  fazer  e  dispõe  de  instituições  que  tomem  isso  possí¬ 
vel.  No  quadro  comercial,  em  que  se  desenvolveram  várias  modalidades  fiduciárias,  só 
alguns  raros  tipos  de  contrato  podem  ser  filiados  de  maneira  incontroversa  na  tradição 
greco-romana,  e  os  demais  constituíram  decerto  inovações  desta  época'7.  Se  analisar¬ 
mos  noutra  direcção  as  eventuais  conexões,  talvez  a  inspiração  judaica  tenha  sido 
importante  no  começo  do  período38.  e  sabe-se  que  o  tráfico  mediterrânico  conduzido  a 
partir  do  regime  senhorial  sofreu  o  ascendente  dos  métodos  mercantis  difundidos  na 
sociedade  islâmica39.  Também  parece  indubitável  que  nas  suas  relações  com  os  Levan- 
tinos  e  com  o  Extremo  Oriente  os  Ocidentais  conhecessem  o  uso  das  ordens  de  paga¬ 
mento,  pois  desde  o  século  IX,  mas  sobretudo  desde  o  século  X,  era  muito  comum  nas 
regiões  orientais  do  mundo  islâmico  o  pagamento  através  de  uma  missiva  escrita  ende¬ 
reçada  a  um  banco40,  e  a  partir  do  século  VIII  era  bastante  usado  um  instrumento  que 
podia  servir  como  letra  de  câmbio41.  Mais  longe,  na  China,  durante  a  dinastia  T‘ang. 
que  reinou  entre  a  segunda  década  do  século  VÍI  e  a  primeira  década  do  século  X,  o 
emprego  regular  de  letras  de  câmbio  não  só  passara  a  fazer  parte  dos  meios  de  actuação 
dos  comerciantes  grossistas  de  chá,  e  também  de  mercadores  de  outros  produtos,  mas 
fora  igualmente  incorporado  na  própria  gestão  corrente  das  finanças  imperiais42. 
Seguindo  as  rotas  do  tráfico  de  longo  curso,  os  mercadores  muçulmanos,  e  através 
deles  os  ocidentais,  puderam  ter  acesso  a  estas  inovações43,  mas  tal  não  impediu  que  as 
ordens  de  pagamento  só  bastante  mais  tarde  começassem  a  difundir-se  no  regime 
senhorial,  e  em  modalidades  muito  mais  informais  do  que  aquelas  a  que  se  recorria  no 
Levante  e  na  China44.  Entretanto,  o  dinheiro-papel,  que  os  Chineses  haviam  começado 
a  emitir  no  termo  do  século  X,  fora  desde  o  primeiro  momento  usado  pelos  mercadores 
muçulmanos  nos  seus  negócios  orientais,  e  os  comerciantes  sediados  na  área  do  regime 


31  R.  S.  Lopez  (1974)  107. 

38  Partindo  do  princípio  de  que  ames  do  final  do  século  XI  praticamente  todos  os  mercadores  que 
frequentavam  as  feiras  eram  judeus  e  que,  portanto,  até  esta  data  todas  as  feiras  haviam  sido  organiza¬ 
das  e  desenvolvidas  por  iniciativa  judaica,  I.  A.  Agus  (1965)  179  pretende  que  a  organização  interna 
das  feiras  e  os  sistemas  de  protecção  dos  negociantes  que  se  deslocavam  para  as  frequentar  se  deve¬ 
ram  possivelmente  aos  mercadores  judaicos. 

39  A  commenda  começou  a  esboçar  se  no  Próximo  Oriente  durante  o  século  VII,  escreve  R.  S. 
Lopez  (1965)  143,  e  foi  mencionada  pela  primeira  vez  num  documento  venezíano  do  século  X.  Para 
uma  comparação  entre  a  muqarada  islâmica  e  a  commenda  ocidental  ver  id.  et  al.  (1955)  24  n.  31. 
Também  A.  E.  Lieber  1 1968)  235  e  240  reconhece  a  existência  de  formas  muçulmanas  precursoras  da 
commenda.  que  teriam  influenciado  decisivamente  as  práticas  comerciais  do  regime  senhorial.  Toda¬ 
via,  e  apesar  de  R.  S.  Lopez  (1965)  ibid.  afirmar  que  aquele  tipo  de  contrato  fora  desconhecido  em 
Roma,  H.  Pryor  (1977)  5  e  19  e  segs.  sustenta  que  as  origens  da  commenda  eram  compósitas,  tendo- 
-se  inspirado  em  modelos  romanos,  bizantinos,  judaicos  e  árabes.  Quanto  à  mahone.  Alfred  E.  Lieber 
em  op.  cit..  241-242  detecta  a  influência  islâmica  na  sua  génese. 

4,1  A.  E.  Lieber  ( 1968 )  232-233. 

41  Acerca  deste  instrumento,  denominado  suflaja  em  persa,  ver  id..  ibid.,  233-234. 

42  Id..  ibid..  234. 

43  Id..  ibid.,  234-235.  237  e  segs. 

44  Id..  ibid..  239-240. 


Operações  e  conteúdo  do  Forma  III  ac  dinheiro 


375 


senhorial  conheceram  iguaimente  o  dinheiro-papel  chinês,  pois  deixaram  dele  descri¬ 
ções  detalhadas.  Apesar  disto,  nem  uns  nem  outros  o  introduziram  nos  respectivos 
países,  e  quando  os  Mongóis  emitiram  dinheiro-papel  na  Pérsia,  nos  últimos  anos  do 
século  XIII,  impresso  em  caracteres  chineses  e  letras  árabes,  viram-se  obrigados  a 
retirá-lo  de  circulação  sem  demora.  Enquanto  modalidade  fiduciária,  o  dinheiro-papel 
requeria  a  existência  de  um  governo  central  forte  e  de  uma  administração  financeira 
sólida45.  As  formas  de  dinheiro  fiduciário  que  se  desenvolveram  neste  período  no 
regime  senhorial  estiveram  exclusivamente  adaptadas  à  existência  de  uma  teia  muito 
vasta  e  densa  de  relações  entre  negociantes,  tanto  comerciantes  como  banqueiros,  mas 
sem  que  existisse  qualquer  centro  estável  de  soberania  com  um  raio  de  acção  global. 

Já  no  final  do  período  anterior  as  estreitas  redes  de  solidariedade  que  caracterizavam 
o  meio  dos  mercadores  de  longo  curso  haviam  sido  capazes  de  sustentar  tipos  de 
dinheiro  fiduciário.  Mogúncia  era  então  o  principal  extremo  das  rotas  que  punham  o 
regime  senhorial  em  contacto  com  os  seus  vizinhos  de  nordeste  (ver  na  Parte  I  o  capítulo 
24.b).  e  sabe-se  que  nessa  cidade,  pelo  menos  desde  o  século  X,  nas  transaeções  com  os 
Eslavos  da  Boémia,  bem  como  nos  centros  de  negócios  da  Polónia  setentrional  e  no  pró¬ 
prio  Báltico,  corria  uma  forma  de  dinheiro  fiduciário  constituída  por  pedacinhos  de 
tecido,  com  os  quais  se  podia  adquirir  mesmo  os  artigos  mais  preciosos.  No  primeiro 
quartel  do  século  XII  o  dinheiro  em  forma  de  tecido  serviu  ainda  a  um  bispo  para  resga¬ 
tar  prisioneiros  cristãos  na  Pomerânia  pagã.  e  mais  tarde,  nos  confins  do  Mar  Negro,  foi 
frequente  que  os  Genoveses,  numa  transacção  inversa,  comprassem  escravos  usando  o 
tecido  como  unidade  contábil ística4'’.  Mas  até  ao  termo  do  primeiro  período  o  tráfico 
com  as  regiões  distantes  havia-se  mantido  estruturalmente  exterior  tanto  à  sociedade 
senhorial  como  aos  povos  que  atravessava,  ligando-se  a  uma  e  aos  outros  apenas  nos  cen¬ 
tros  frequentados  pelos  mercadores  de  longo  curso.  Este  modelo  de  actividade  mercantil 
e  o  dinheiro  fiduciário  que  ele  supõe  só  podem  ser  aplicados  ao  estudo  do  segundo 
período  nos  casos  em  que  o  tráfico  continuava  a  obedecer  a  mecanismos  distintos  daque¬ 
les  que  regiam  a  economia  senhorial.  Foi  o  que  sucedeu,  como  há  pouco  vimos,  nas  rela¬ 
ções  entre  os  comerciantes  hanseáticos  e  os  povos  eslavos.  E  foi  o  que  ocorreu  também 
quando  a  aquisição  de  escravos  não  se  processava  no  interior  do  regime  senhorial,  onde 
este  género  de  transaeções  envolvia  ainda  a  população  urbana  de  numerosas  áreas,  mas 
nos  lugares  mais  ou  menos  longínquos  em  que  a  mercadoria  humana  era  comprada  ou 
capturada.  Neste  tipo  de  casos,  quando  se  mantinha  a  clivagem  entre  os  mecanismos  eco¬ 
nómicos  correntes  e  as  operações  mercantis  características  do  tráfico  de  longo  curso,  as 
formas  pecuniárias  empregues  pelos  negociantes  não  exerciam  qualquer  influência  sobre 
a  generalidade  da  população.  No  entanto,  em  todas  as  outras  modalidades  de  comércio 
de  longo  curso  efectuadas  neste  segundo  período  a  situação  foi  a  oposta,  e  as  relações 
com  praças  distantes  arrastavam,  directa  ou  indirectamente.  uma  parte  muitíssimo  consi¬ 
derável  dos  habitantes  das  cidades.  Assim,  os  cambistas  e  os  negociantes  produziram 
tipos  de  dinheiro  fiduciário  cujo  uso  se  estendeu  ás  demais  categorias  profissionais. 


45  Acerca  do  malogro  da  emissão  de  dinheiro-papel  fora  da  China  e  das  condições  necessárias 
para  sustentar  com  êxito  este  tipo  de  dinheiro  fiduciário,  ver  id.,  ibid..  235. 

46  Acerca  do  dinheiro-tecido  ver  a  n.  35  do  capitulo  3. 


376 


Forma  lll  do  dinheiro 


O  facto  de  o  dinheiro  fiduciário  só  poder  surgir  e  desenvolver-se  num  ambiente  de 
características  familiares  é  confirmado  quando  observamos  que,  fora  dos  meios  mer¬ 
cantis  estritamente  urbanos,  a  Forma  III  do  dinheiro  apenas  atingiu  dimensões  conside¬ 
ráveis  no  interior  daquelas  Ordens  monásticas  que  se  dedicavam  activamente  aos  negó¬ 
cios  de  longo  curso  e  que  devem,  portanto,  considerar-se  como  uma  forma  de  socie¬ 
dade  comercial.  Ora,  as  instituições  religiosas  obedeciam,  elas  próprias,  ao  modelo  da 
família  (ver  na  Parte  I  o  capítulo  19.b  e  na  Parte  II  o  capítulo  16,b).  e  esta  característica 
era  mais  pronunciada  ainda  nas  Ordens  monásticas.  Não  só  cada  convento  se  estrutu¬ 
rava  no  seu  interior  como  uma  unidade  doméstica,  mas  até  os  elos  que  ligavam  uma 
sede  aos  restantes  conventos  da  mesma  obediência  seguiam  explicitamente  o  padrão 
familiar.  Nestas  circunstâncias,  compreende-se  que  as  Ordens,  ramificadas  por  um 
grande  número  de  reinos  e  por  múltiplas  cidades,  gerassem  modalidades  de  dinheiro 
fiduciário  no  quadro  das  suas  relações  intentas  e  dos  seus  negócios  com  o  exterior. 

Encontram-se  referências  entre  os  especialistas  ao  uso  da  Forma  III  do  dinheiro 
pelos  Templários47  e,  acessoriamente,  pela  Ordem  do  Hospital  de  São  João  de  Jerusa¬ 
lém48,  ou  talvez  ainda  por  outras  Ordens  religiosas49.  No  final  do  século  XII  já  os  Tem- 


47  E.  Perroy  ( 1 949)  1 7 1  é  decerto  demasiado  entusiasta  ao  atribuir  aos  Templários  o  protótipo  dos 
bancos  de  depósito,  pretendendo  que  foram  depois  imitados  pelos  Italianos.  Parece-me  mais  sensato 
considerar  apenas,  com  A,  P.  Usher  (1932-1934)  409,  que  no  século  XIII  o  desenvolvimento  dos  ban¬ 
cos  de  depósito  foi  acelerado  pela  influência  da  Ordem  dos  Templários.  Esta  Ordem,  além  de  adiantar 
empréstimos  e  guardar  depósitos,  procedia  também  a  pagamentos,  transferências  e  câmbio  de  fundos, 
inclusivamente  por  métodos  contabilísticos  e  sem  movimentação  material  de  numerário,  conforme 
relatam  E.  Ferris  ( 1902-1903)  1 1-12  e  G.  Olsen  (1969-1970)  44. 

M.  Rey  (1963  a)  77  pretende  que  no  final  do  século  XIV  c  no  começo  do  século  seguinte  a  conta¬ 
bilidade  da  coroa  francesa  tinha  um  carácter  arcaico,  dando  continuidade  a  práticas  vigentes  até  à 
supressão  dos  Templários  em  1307.  Por  causa  destas  origens,  escreve  Maurice  Rey.  o  modelo  seguido 
intemamente  pelas  finanças  reais  continuava  a  ser  o  de  um  banco  cujo  principal  cliente  era  o 
monarca,  mas  onde  tinham  também  conta  os  funcionários  dos  vários  departamentos  da  administração 
financeira.  Todavia,  era  precisamente  esta  a  estrutura  das  grandes  companhias  toscanas  do  final  do 
período,  em  que  cada  uma  das  várias  filiais  abria  conta  corrente  junto  à  sede.  pelo  que  um  tal  sistema 
não  deve  ser  considerado  arcaico.  Quanto  a  este  aspecto  da  organização  interna  das  companhias  ver 
Y.  Renouard  ( 1949)  140.  Aliás,  R.  de  Roover  ( 1948)  31-35  e  39  informa  que  ao  modelo  centralizado 
das  companhias,  o  mais  comum  no  século  XIV,  sucedeu  no  século  seguinte  um  modelo  formalmente 
descentralizado,  em  que  as  filiais  dispunham  de  um  elevado  grau  de  autonomia  jurídica.  Consultar 
também  a  este  respeito  id.  (1974)  209  e  Y.  Renouard  (1949)  164-165.  Segundo  estes  especialistas, 
parece  que  a  forma  descentralizada  teria  sido  adoptada  para  permitir  que  a  globalidade  da  empresa 
resistisse  melhor  aos  eventuais  problemas  financeiros  sofridos  por  uma  ou  outra  filial,  mas  J.  Day 
( 1994)  200  considera  que  este  sistema  não  impediu  que  as  crises  sofridas  pelas  filiais  se  repercutissem 
sobre  a  sede.  Neste  contexto  interessa  salientar,  porém,  que  na  modalidade  descentralizada  de  funcio¬ 
namento,  que  foi  a  mais  tardia,  a  abertura  de  conta  pelas  filiais  tornava-se  decerto  mais  importante 
ainda,  o  que  vem  confirmar  que  os  métodos  herdados  dos  Templários  não  impuseram  um  funciona¬ 
mento  arcaico  às  finanças  da  coroa  francesa. 

4X  Parecendo  referir-se  à  segunda  metade  do  século  Xlil.  J  Mattoso  [1994  b[  253  menciona 
empréstimos  adiantados  pelos  Hospitalários  em  Portugal. 

Ao  ler  i.  E.  Madden  ( 1963)  345-346,  355  e  360,  fico  sem  compreender  se  a  importante  activi- 
dade  bancária  desempenhada  pelos  conventos  de  Cistcr  no  comércio  da  lã,  na  Inglaterra  do  século 
XIII,  se  resumia  ao  meio  rural  local  ou  se  os  monges  participavam,  junto  com  os  negociantes  italia¬ 
nos,  na  exportação  desta  matéria-prima,  empregando  eventualmente  leiras  de  câmbio. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


377 


plários  aplicavam  o  sistema  de  conta  corrente50,  e  sabe-se  também  que  permitiam  aos 
seus  depositantes  a  prática  do  saque  a  descoberto51.  Mas  na  maior  parte  dos  casos,  infe¬ 
lizmente,  não  parece  ter  havido  uma  análise  suficientemente  detalhada  da  documenta¬ 
ção  para  nos  permitir  conhecer  com  exactidão  quais  as  modalidades  pecuniárias  empre¬ 
gues.  e  não  podemos,  portanto,  compará-las  com  aquelas  que  eram  habituais  entre  os 
cambistas  e  entre  os  negociantes.  É  possível  que  Templários  e  Hospitalários  tivessem 
usado  letras  de  câmbio52,  mas  que  devemos  concluir  ao  ver  o  sucedido  com  as  ordens 
de  pagamento  emitidas  pelo  rei  de  França  na  sua  expedição  à  Síria,  à  Palestina  e  ao 
Egipto  nos  meados  do  século  XIII?  Os  mercadores,  ou  representantes  de  sociedades 
mercantis,  que  se  haviam  deslocado  a  esses  territórios  para  vender  géneros  alimentares 
e  outros  artigos  às  hostes  cristãs  ou  para  lhes  prestar  serviços  de  transporte,  em  vez  de 
repatriarem  para  as  suas  sedes  os  ganhos  na  forma  de  numerário  ou  de  metal  precioso, 
emprestavam-nos  com  frequência  ao  monarca;  ou,  noutra  modalidade,  procediam  à 
venda  a  crédito.  Em  troca  recebiam  da  tesouraria  real  ordens  de  pagamento,  sob  a 
forma  de  um  duplo  documento,  a  serem  apresentadas  por  eles,  ou  geralmente  por 
outros  negociantes  que  servissem  de  mandatários  seus,  na  sede  parisiense  dos  Templᬠ
rios.  onde  a  coroa  tinha  depositados  fundos  muito  consideráveis.  Em  seguida,  e  por 
vezes  através  de  cadeias  de  associados  ou  de  correspondentes,  o  montante  do  reem¬ 
bolso  chegava  finalmente  aos  credores,  na  praça  europeia  onde  eles,  ou  a  sociedade  a 
que  eles  pertenciam,  tinham  o  estabelecimento  principal55.  Pelo  menos  neste  caso,  sem 
a  intervenção  de  banqueiros  e  negociantes  profissionais  a  Ordem  dos  Templários  não 
teria  colaborado  no  desenvolvimento  da  letra  de  câmbio,  e  isto  apesar  de  ela  manter  já 
relações  financeiras  muito  estreitas  com  a  coroa  francesa.  Todavia,  mesmo  que  numa 
perspectiva  genética  a  acção  dos  negociantes  pudesse  ter  sido  determinante,  numa  pers¬ 
pectiva  estrutural  a  contribuição  das  instituições  monásticas,  malgrado  o  seu  carácter 
secundário,  esclarece  o  problema.  Não  devemos  restringir  a  Forma  III  do  dinheiro  aos 
meios  bancários  e  comerciais.  Pelo  mero  facto  de  haver  ocorrido,  a  participação  das 
Ordens  religiosas  nesta  modalidade  da  emissão  e  da  circulação  pecuniária  prova  que  o 


50  J.  Piquei  1 1939)  37;  A.  P.  Usher  (1932-1934)  404. 

51  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  405. 

52  Depois  de  recordar  que  no  século  XIII  os  peregrinos,  antes  de  partir  para  a  Palestina,  entrega¬ 
vam  numerário  aos  estabelecimentos  das  Ordens  Militares  nos  seus  países  de  origem.  J.  Richard 
tl953)  108  pretende  que  seriam  letras  de  câmbio  os  certificados  emanados  destes  estabelecimentos,  e 
graças  aos  quais  os  viajantes,  uma  vez  chegados  ao  ultramar,  levantavam  as  respectivas  somas.  Ainda 
a  respeito  do  uso  de  letras  de  câmbio  pelos  Templários  ver  id..  ibid.,  280.  Por  seu  turno,  E.  Ferris 
(1902-1903)  12  admite  como  verosímil  a  hipótese  de  já  antes  do  século  XIII  os  Templários  haverem 
usado  letras  de  câmbio  para  desenvolver  um  sistema  de  transferências  pecuniárias  entre  os  vários 
estabelecimentos  da  Ordem,  ao  qual  recorriam  não  só  soberanos  e  grandes  senhores,  mas  mesmo  mer¬ 
cadores  italianos. 

53  Estes  aspectos  do  mecanismo  das  ordens  de  pagamento  emitidas  por  Luís  IX  no  Levante  são 
descritos  por  A.-E.  Sayous  (1931 )  257.  262-264,  268,  271-272,  277-281  e  283-284  Ver  igualmentc  J. 
Piquet  (1939)  83  c  Y.  Renouard  (1949)  67-68.  Jules  Piquet.  em  op.  cit.,  88-89,  acrescenta  que, 
embora  não  se  pudessem  ainda  considerar  letras  de  câmbio,  estas  ordens  de  pagamento  realizaram 
várias  das  suas  funções.  Todavia,  depots  de  notar  que  tais  documentos  apresentavam  certas  semelhan¬ 
ças  com  a  letra  de  câmbio,  R.  de  Roover  ( 1953)  13  admite  que  pudesse  tratar-se  de  uma  mera  analo¬ 
gia,  sem  ter  ocorrido  uma  verdadeira  filiação. 


378 


Forma  III  do  dinheiro 


verdadeiro  carácter  da  Fonna  III  do  dinheiro  é  obrigatoriamente  parafamiliar,  e  não 
apenas  mercantil. 

Chegamos  à  mesma  conclusão  ao  recordar  aqueles  tipos  de  dinheiro  fiduciário  que 
analisei  já  (nos  capítulos  2.d  e  5.a)  a  propósito  da  Fonna  1  e  que  surgiram  sobretudo 
como  substitutos  da  moeda,  especialmente  da  pequena  cunhagem.  Na  medida  em  que 
eram  praticamente  desprovidas  de  valor  real  e  o  público  as  aceitava  ao  valor  nominal 
graças  apenas  à  autoridade  e  à  credibilidade  de  quem  as  mandava  fabricar,  essas  peças 
podem  comparar-se  à  Fonna  III  do  dinheiro.  E  verificamos,  então,  que  a  sua  circulação 
se  sustentava  em  circuitos  de  carácter  parafamiliar.  Em  certos  casos  elas  eram  emitidas 
por  instituições  de  caridade,  tanto  religiosas  como  laicas,  destinando-se  inicialmente  a 
um  meio  fechado,  já  que  os  mendigos  tinham  de  estar  inscritos  para  receber  as  dádivas. 
As  próprias  peças  podiam  até  funcionar  como  senhas  de  inscrição54.  Formava-se  assim 
um  círculo  de  inspiração  doméstica,  tanto  mais  que  o  mundium  (ver  na  Parte  I  o  capí¬ 
tulo  16.c)  tivera  na  sua  origem  uma  conotação  estritamente  intrafamiliar.  .Sabemos  tam¬ 
bém  (desde  o  capítulo  5. a  deste  volume)  que,  embora  continuasse  a  ser  frequente  a  con¬ 
cessão  individual  de  esmolas,  neste  período  parece  ter-se  revelado  uma  preferência  pela 
sua  distribuição  através  de  confrarias,  corporações  e  governos  urbanos,  além,  evidente¬ 
mente,  dos  estabelecimentos  religiosos,  o  que  reforçava  o  carácter  de  colectividade 
assumido  pelo  benfeitor  juntamente  com  os  seus  beneficiados.  Noutros  casos  a  função 
de  dinheiro  incorporava-se  em  símbolos  metálicos,  de  valor  praticamente  nulo,  usados 
na  administração  interna  de  instituições  eclesiásticas  ou  laicas,  enquanto  forma  de  con¬ 
trolar  o  efectivo  cumprimento  de  certas  funções-'''.  E  sucedia  com  frequência  que  rode¬ 
las  de  contagem,  fabricadas  para  auxiliar  os  cálculos,  obtivessem  o  carácter  de  dinheiro 
fiduciário  no  interior  das  administrações  financeiras  dos  soberanos  ou  de  outros  senho¬ 
res56.  Ora,  as  cortes  e  os  restantes  tipos  de  administração  devem  ser  considerados,  neste 
período,  como  domesticidades  artificiais.  Em  todos  os  casos,  portanto,  estas  várias  for¬ 
mas  pecuniárias  rodavam  no  interior  de  colectividades  formalmente  organizadas  e 
muito  bem  estruturadas.  Podiam  depois,  eventualmente,  atingir  meios  mais  amplos, 
mas  mesmo  quando  tal  sucedia  o  seu  valor  e,  portanto,  a  sua  aceitação  pública  só  se 
mantinham  enquanto  continuasse  a  existir  uma  teia  de  relações  parafamiliares  em  tomo 
da  entidade  emissora. 

Essas  modalidades  fiduciárias  que  corriam  no  lugar  de  moedas  de  baixo  valor  não 
se  desenvolveram  inter  pares,  como  sucedeu  com  a  Forma  III.  Foi  no  interior  das  admi¬ 
nistrações  que  as  rodelas  de  contagem  se  converteram  em  instrumentos  pecuniários  e. 
do  mesmo  modo,  a  emissão  de  símbolos  metálicos  deveu-se  quase  sem  excepção  a  ins¬ 
tituições  hierarquizadas  e  possuidoras  de  uma  capacidade  de  exercício  do  poder,  como 
eram  os  serviços  administrativos  de  reis,  de  senhores  laicos  e  de  dignitários  religiosos. 


54  Acerca  do  emprego  dos  símbolos  metálicos  na  administração  da  caridade  ver  as  nn.  220  e  231 
do  capítulo  2  e  a  n.  20  do  capítulo  5. 

55  Ver  no  capítulo  2  a  n.  228. 
y‘  Ver  a  n.  227  do  capítulo  2. 

W.  J.  Courtenav  (1972)  196  e  J.  Rouyer  et  ai.  (1858)  16  insistem  no  carácter  doméstico  do  uso 
ilas  rodelas  de  contagem. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheir . 


37  9 


bem  como  órgãos  municipais,  corporações  e  confrarias,  sendo  além  disso  estas  peças 
usadas  como  meio  de  controlo57.  As  emissões  de  dinheiro  de  couro  ou  de  símbolos 
metálicos  destinadas  à  remuneração  de  mercenários-8  denotam  também  uma  hierarquia 
estrita.  Mesmo  quando  festivais  carnavalescos  de  tradição  pagã  forneciam  o  pretexto 
para  a  cunhagem  de  moedas  praticamente  desprovidas  de  valor  intrínseco,  fabricadas 
com  chumbo,  mais  tarde  com  latão  ou  cobre,  era  o  rei  farsante  eleito  em  cerimónia  bur¬ 
lesca  quem  ordenava  estas  emissões  fiduciárias-'9,  pelo  que  o  tom  estritamente  plebeu 
da  festa  não  lhe  retirava  o  carácter  hierárquico.  Ao  mesmo  tempo,  porém,  o  facto  de 
estes  organismos  pressuporem  no  seu  interior  diferenças  de  estatuto  muito  acentuadas 
não  bastava  para  determinar  o  carácter  fiduciário  das  emissões,  e  era  necessário  que  na 
base  ocorresse  também  um  inter-relacionamento  muito  estreito  dos  seus  membros60. 
Esta  perspectiva  complementar  de  análise  confirma  o  que  comecei  por  afirmar  a  res¬ 
peito  das  condições  de  existência  do  dinheiro  fiduciário.  Todos  os  tipos  de  dinheiro 
fiduciário  circulavam  no  quadro  de  grupos  coesos,  os  únicos  a  estruturarem-se  em 
redes  suficientemente  sólidas  para  sustentarem  com  a  confiança  dos  participantes  uma 
modalidade  pecuniária  desprovida  de  valor  intrínseco.  Quando  estes  grupos,  todavia, 
obedeciam  a  uma  acentuada  hierarquização  interna,  o  dinheiro  fiduciário  substituía  as 
moedas  integradas  na  Forma  I.  E  quando  se  observava  dentro  dos  grupos  coesos  uma 
propensão  à  homogeneidade  social,  desenvolvia-se  a  Forma  III  do  dinheiro.  O  que  dis¬ 
tingue  a  Forma  III  das  outras  modalidades  fiduciárias  é  o  facto  de  tanto  o  emissor  do 
dinheiro  como  aqueles  que  o  recebiam  pertencerem,  na  esmagadora  maioria  dos  casos, 
à  mesma  camada  social  e,  de  qualquer  modo,  integrarem-se  todos  eles  na  classe  domi¬ 
nante.  Tanto  assim  que  emissor  e  utente  alternavam  com  frequência  os  seus  lugares  nas 
operações  da  Forma  III  do  dinheiro. 

Só  por  funcionarem  em  moldes  domésticos,  ou  pelo  menos  inspirados  na  família, 
puderam  as  redes  de  negociantes  e  as  associações  comerciais  originar  esta  modalidade 
fiduciária  e  dar-lhe  uma  tal  dimensão.  Embora  aparentemente  consubstanciasse  já  algu¬ 
mas  das  virtualidades  mais  importantes  do  dinheiro  no  sistema  capitalista,  a  Forma  III 
decorreu  afinal  de  um  aspecto  acentuadamente  arcaico  do  regime  senhorial,  o  quadro 
familiar  e  a  multiplicação  dos  elos  de  parentesco  artificial.  Uma  vez  mais  vemos  como 
é  improcedente  o  anacronismo  habitual  dos  historiadores,  que  aplicam  a  esta  época  cri¬ 
térios  e  modelos  de  actuação  que  apenas  têm  razão  de  ser  no  modo  de  produção  capita¬ 
lista.  Com  efeito,  se  a  Forma  111  do  dinheiro  parece  antecipar  a  economia  contempor⬠
nea,  a  tal  ponto  que  os  seus  instrumentos  estiveram  directamente  na  génese  de  alguns 
instrumentos  financeiros  dos  nossos  dias,  e  apesar  disso  as  suas  operações  não  ultrapas¬ 
saram  o  âmbito  estrito  do  regime  senhorial,  então  os  negociantes  e  banqueiros  que  tão 


57  M.  Pasioureau  (1984)  38-39  mostra  que  a  emissão  dos  símbolos  metálicos  se  deveu  a  institui¬ 
ções  de  carácter  eolectivo,  mas  esta  apresentação  fica  incompleta  se  não  se  insistir,  com  J.  Labrot 
( 1989)  39,  no  facto  de  tais  órgãos  disporem  de  poder 

58  Ver  no  capítulo  7  as  nn.  1 82  e  1 83. 

,9J.  Labrot  (1989)  51-35. 

Wl  O  emprego  pecuniário  dos  símbolos  metálicos,  observa  id..  ibid.,  30,  ocorreu  sempre  no  con¬ 
texto  de  um  relacionamento  muito  estreito  entre  as  camadas  mais  humildes. 


.■ISO 


Forma  UI  do  dinheiro 


extensivamente  recorreram  ao  dinheiro  fiduciário  prosseguiram  também  toda  a  sua  acti- 
vidade  em  termos  exclusivamente  senhoriais. 


b.  Operações  da  Forma  III  do  dinheiro 

Neste  período,  e  mesmo  depois,  a  Forma  III  do  dinheiro  surgiu  das  operações  leva¬ 
das  a  cabo  pelas  associações  de  mercadores  e  pelos  cambistas  e,  secundariamente, 
pelas  grandes  Ordens  monásticas  enquanto  sociedades  mercantis  e  financeiras. 

1 

Se  se  quiser  desenhar  a  teia  que  uniu  todos  os  aspectos  da  actividade  comercial  e 
bancária,  será  preferível  descrever  primeiro  as  duas  modalidades  de  associação  mais 
opostas,  a  commenda  e  a  companhia,  para  mostrar  em  seguida  que  a  oposição  era  ape¬ 
nas  aparente,  existindo  uma  multiplicidade  de  situações  intermédias  que  se  transforma¬ 
vam  gradualmente  umas  nas  outras. 

O  tipo  de  sociedade  usualmente  denominado  commenda.  e  a  que  os  Genoveses  cha¬ 
mavam  accomendatio 61  e  os  Venezianos  colleganza**2,  caracterizava-se.  na  sua  forma 
mais  elementar,  por  um  contrato  que  reunia  dois  sócios  para  uma  viagem  de  ida  e  volta, 
em  geral  por  mar,  e  para  um  negócio  único  e  bem  definido:  um  sócio  passivo  que,  sem 
se  deslocar,  fornecia  a  totalidade  das  mercadorias  ou  adiantava  a  totalidade  dos  fundos, 
quer  numerário  quer  metal  precioso,  os  quais  permaneciam  como  propriedade  sua  até 
ao  final  da  operação;  e  um  sócio  activo,  que  prosseguia  a  viagem,  acompanhando  as 
mercadorias  ou  transportando  os  fundos,  que  se  encarregava  de  vender  os  artigos  ou  de 
rentabilizar  os  fundos  no  local  de  destino  e  que  regressava  ao  ponto  de  partida  com  os 
ganhos  da  operação.  Ao  activo  cabia  1/4  dos  lucros,  recebendo  o  passivo  3/4.  Se  o 
negócio  tivesse  fracassado  e  houvesse  prejuízos,  a  responsabilidade  era  suportada  intei¬ 
ramente  pelo  sócio  passivo63.  Os  contratos  deste  tipo  difundiram-se  nas  praças  mediter- 
rânicas.  sobretudo  em  Génova  e  em  Veneza,  e  foram  igualmente  usados,  embora  sob 
formas  jurídicas  talvez  mais  rudimentares,  nos  portos  virados  para  o  tráfico  no  canal  da 


bl  M.  Ba!ard(  1978)  602. 

62  Quanto  à  correspondência  entre  a  commenda  e  a  colleganza  veneziana,  ver:  B.  Z.  Kedar  (1976) 
25;  F.  C.  Lane  (1973)  52:  G.  Luzzatto  (1937)  40:  id.  (1967)  240-242.  A  este  respeito  ver  ainda  a 
n.  101. 

63  Para  a  caracterização  da  commenda  ver:  M.  Balard  ( Iu78)  603;  G.  Cracco  ( 1967)  42:  J.  Day 
(1994)  197;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  271-272;  B.  Z.  Kedar  (1976)  25:  H.  C.  Krueger  (1957)  258- 
-259;  F.  C.  Lane  (1973)  52;  R.  Latouche  (1956  c)  305-307;  R.  S.  Lopez  (1965)  143:  G.  Luzzatto 
(1961  b)  24,  83-88;  id.  (1967)  240-242;  H.  E.  Mayer  (1972)  174;  M.  M.  Postan  (1957)  524;  J.  H. 
Pryor  (1977)  6-7;  Y.  Renouard  ( 1941 )  40-41 ,  id.  (1949)  44;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  10,  14-15,  33;  A  - 
-E.  Sayous  ( 1935)  472. 

Entre  os  Judeus  do  noroeste  do  continente,  no  começo  do  período,  os  lucros  eram  divididos  a 
meias  entre  o  sócio  passivo  e  o  sócio  activo,  mas  parece  que  a  maior  parte  das  despesas  do  empreen¬ 
dimento  estava  a  cargo  do  activo,  conto  observa  I.  A.  Agus  ( 1965)  8 1 . 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  Ju  dinheiro 


381 


Mancha,  no  Mar  do  Norte  e  no  Báltico61,  encontrando-se  mesmo  numa  região  monta¬ 
nhosa  do  interior,  como  o  Forez6\ 

No  pólo  oposto,  a  grande  companhia,  na  sua  forma  típica,  teve  raízes  quase  exclusi¬ 
vamente  em  meia  dúzia  de  cidades  da  Itália  centro-setentrional  e  em  alguns  lugares  do 
sul  da  Germánia66.  O  contrato  fundador  de  uma  companhia  associava,  durante  um 
prazo  determinado,  um  número  de  membros  relativamente  elevado67,  que  não  se  dife¬ 
renciavam  de  maneira  clara  em  passivos  e  activos.  Por  um  lado,  todos  eles  investiam 
fundos  na  empresa,  sob  a  forma  de  acções,  que  podiam  corresponder  a  montantes 
muito  diversos.  Quando  o  prazo  do  contrato  chegava  ao  seu  termo  e  a  companhia  se 
extinguia,  os  sócios  recebiam  uma  percentagem  dos  lucros  líquidos  ou  eram  onerados 
por  uma  percentagem  dos  prejuízos,  proporcionalmente  à  sua  participação  nos  fundos 
globais.  Além  disso,  os  sócios  eram  também  colectiva  e  ilimitadamente  responsáveis 
pelas  dívidas  contraídas  por  qualquer  deles  ou  pela  sociedade.  Este  conjunto  de  razões 
fazia  com  que  todos  os  membros  de  uma  companhia  estivessem  em  posição  equivalente 
à  do  sócio  passivo  da  commenda.  Mas.  por  outro  lado.  eles  possuíam  em  comum  a 
característica  do  sócio  activo,  já  que  normalmente  nenhum  dos  membros  da  companhia 
deixava  de  se  interessar  pela  gestão  dos  negócios68.  Faziam-no.  no  entanto,  de  maneira 


64  J.  Day  (1994»  198,  199;  J.  A.  Gade  ( 1951  >  57;  R.  S.  Lopez  ( 1965)  143. 

65  E.  Foumial  ( 1967)  666.  Neste  caso,  no  entanto,  os  lucros  eram  divididos  a  meias  entre  o  sócio 
passivo  e  o  activo. 

66  Ph.  Dollinger  ( 1964)  208;  E.  Ennen  (1979)  130-131,  178;  R.  S.  Lopez  (1965)  300. 

Os  mercadores  hanseáticos  não  se  associaram  em  grandes  companhias,  indicam  J.  Day  (1994) 
198-199  e  E.  Ennen  ( 1979)  131.  Também  em  Inglaterra,  segundo  M.  M.  Postan  ( 1978  a)  249-250,  não 
se  constituíram  durante  este  período  grandes  companhias,  embora  o  mesmo  historiador,  em  (1957) 
540  e  543,  considere  que  existiram  na  ilha  sociedades  deste  tipo.  Decerto  se  trata  de  um  problema  de 
dimensão.  Por  seu  turno.  E.  Foumial  ( 1967)  666  menciona  a  presença  de  companhias  no  Forez.  e  elas 
surgiram  igualmente  em  Montpellier,  a  crer  em  K.  L.  Reyerson  (1985)  9-10.  É  comum  a  afirmação  de 
que  as  companhias  não  vingaram  em  Génova  nem  em  Veneza.  No  território  genovês.  todavia,  parece- 
•me  possível  que  obedecessem  ao  modelo  da  companhia  as  sociedades  formadas  por  credores  da 
comuna,  de  que  a  mais  notável  foi  a  mahtme  de  Chio  e  das  duas  Phóceas.  Ver  a  este  respeito  M. 
Balard  (1978)  377,  404-405  e  417-418.  E,  em  Veneza,  leio  em  G.  Luzzatto  (1961  b)  90-93  que  desde 
o  começo  do  século  XII  se  encontravam  companhias,  isto  quando  R.  S.  Lopez  (1965)  300  e  P.  Spuf- 
ford  (1984)  375  asseguram  que,  em  geral,  só  nos  meados  do  século  seguinte  a  companhia  atingiu  a 
sua  forma  desenvolvida.  Ainda  quanto  à  existência  de  companhias  nestas  duas  cidades  rivais,  em 
negócios  envolvendo  um  menor  grau  de  risco  e  cujas  condições  de  mercado  eram  conhecidas,  ver  B. 
Z.  Kedarl  1976)  26-27. 

b?  Y.  Renouard  (1941)41;  id.  ( 1949)  63,  1 19 

Segundo  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360.  as  companhias  reuniriam,  em  gerai,  entre  cinco  e  vinte 
sócios. 

68  Acerca  da  posição  relativa  dos  vários  sócios  de  uma  companhia  e  da  forma  de  repartição  dos 
ganhos  e  perdas,  ver:  R.  de  Roover  (1948)  31;  id.  ( 1974)  60;  J.  K.  Hyde  (1973)  161;  R.  W.  Kaeuper 
(1973)  2,  7;  G.  Luzzatto  (1961  b)  90-93;  id.  (1967)  244-245;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360,  361;  M.  M. 
Postan  (1957)  526;  Y.  Renouard  (1941 )  41, 58;  id.  ( 1949)  1 19,  123;  K.  L.  Reyerson  (1985)  10. 

Era  excepcional,  afirma  Y.  Renouard  ( 1949)  120.  que  alguns  sócios  se  limitassem  a  um  papel  pas¬ 
sivo.  Com  efeito,  a  crer  em  M.  Beard  ( 1938)  144,  na  segunda  década  do  século  XIV  os  Peruzzi,  de 
Florença,  alteraram  o  seu  sistema  de  contabilidade,  de  maneira  a  afastar  do  negócio  os  membros 
menos  interessados.  Além  disso,  R.  de  Roover  (1974)  67  mostra  que.  a  partir  do  final  do  primeiro 
terço  do  século  XIV.  a  companhia  florentina  dos  Alberti  adoptou  um  sistema  mediante  o  qual 


382 


Forma  III  do  dinheiro 


sedentária,  sem  acompanharem  o  transporte  das  mercadorias  nem  a  transferência  de 
numerário  ou  de  metal  precioso,  pois  a  companhia  notabilizava-se  por  possuir  um  certo 
número  de  filiais.  O  transporte  ficava  na  maior  parte  dos  casos  a  cargo  de  profissionais, 
e  embora  pudesse  ser  necessário  que  alguns  representantes  da  firma  seguissem  de  perto 
a  deslocação  dos  bens.  o  método  sedentário  de  condução  dos  negócios  assentava  funda- 
mentalmente  na  manutenção  de  uma  correspondência  contínua  entre  a  cidade  de  ori¬ 
gem.  onde  estava  situada  a  sede,  e  as  praças  onde  se  estabeleciam  filiais69.  Este  tipo  de 
actuação  exigia  um  número  muito  considerável  de  colaboradores70. 

No  modelo  de  gestão  centralizado,  que  predominou  no  século  XIV  e  talvez  datasse 
já  do  século  anterior,  todos  os  sócios  residiam  junto  à  sede  e  as  filiais  estavam  sob  a 
responsabilidade  de  agentes.  Estes  agentes  eram  remunerados  com  um  salário,  comple¬ 
mentado  com  o  estímulo  de  promoções,  comissões  e  bónus,  e  podiam  ser  demitidos  em 
qualquer  momento.  No  século  XV,  todavia,  difundiu-se  um  modelo  descentralizado, 
partindo  alguns  sócios  menores  para  praças  estrangeiras,  onde  se  encarregavam  da 
direcção  das  filiais,  que  se  apresentavam  juridicamente  como  sociedades  próprias,  man¬ 
tidas  sob  o  controlo  da  sociedade  principal  através  de  participações  maioritárias71.  E 


somente  parte  dos  lucros  era  dividida  de  acordo  com  o  investimento  realizado  por  cada  sócio,  sendo  o 
restante  distribuído  consoante  os  serv  iços  prestados  por  eles  à  firma,  de  maneira  a  beneficiar  os  que 
desempenhavam  um  papel  mais  activo  na  gestão. 

Analisando  a  situação  inglesa,  M.  M.  Postan  (1957)  546-547  pretende  que  em  todos  os  tipos  de 
sociedade,  e  não  só  na  companhia,  cada  sócio  era  ilimitadamente  responsável  pelo  montante  global 
das  dívidas  contraídas  em  nome  da  associação.  Ver  a  este  respeito  a  n.  101  do  capítulo  9.  No  entanto. 
R.  S.  Lopez  (1974)  1)2-113  deixa  bem  claro  que  a  eommenda  era  um  contrato  de  responsabilidade 
limitada. 

69  R.-H.  Bautier  (1992)  66;  R.  de  Roover  (1953)  91;  R.  L.  Reynolds  (1952)  358;  A.  P.  Usher 
(1943)80-81. 

7(1  Y.  Renouard  (1941)  52  pretende  que  cada  uma  das  companhias  de  maior  destaque  empregava 
mais  de  quinhentas  pessoas.  Todavia,  no  início  do  século  XIV,  a  crer  em  R.  de  Roover  ( 1948)  39-40. 
a  terceira  maior  companhia  fiorentina  tinha  quarenta  e  um  agentes  em  praças  estrangeiras.  Em  Luca, 
em  1371,  segundo  o  mesmo  especialista,  de  89  companhias  e  mercadores  independentes,  só  cinco 
davam  trabalho  a  mais  de  oito  agentes  e  apenas  duas  a  mais  de  dez;  no  ano  seguinte,  a  maior  compa¬ 
nhia  comercial  desta  cidade  era  mantida  por  dezanove  pessoas,  incluindo  os  sete  sócios,  e  este 
número  baixou  para  dezasseis  em  1381,  com  a  mesma  quantidade  de  sócios.  Talvez  Raymond  de 
Roover  contabilize  apenas  os  agentes  detentores  de  cargos  de  gestão  e  Yves  Renouard  inclua  todo  o 
tipo  de  empregados. 

71  A  distinção  entre  os  modelos  de  gestão  centralizado  e  descentralizado  é  exposta  por  R.  de  Roo¬ 
ver  (1948)  31-35,  38-39  e  ( 1974)  209-210.  Acerca  da  remuneração  dos  agentes  encarregados  da  direc¬ 
ção  das  filiais  no  modelo  centralizado,  ver  igualmente;  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  8;  E.  Petroy  et  al. 
(1955)  360;  R.  L.  Reynolds  (1952)  359.  No  entanto,  P  S.  Leicht  1 1946)  123  considera  que  sabemos 
muito  pouco  acerca  da  maneira  como  eram  retribuídos  os  caixeiros  e  os  pequenos  empregados  das 
casas  comerciais  e  bancárias  italianas,  e  M.  Prestwich  (1979)  100  previne  também  que  é  pouco 
conhecido  o  sistema  de  organização  interna  das  filiais  inglesas  das  companhias  italianas  na  passagem 
do  século  XIII  para  o  XIV.  Y.  Renouard  (1941)  52,  53  e  (1949)  122  indica  que  a  estabilidade  do 
emprego  era  elevada  e  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  359  afirma  que.  embora  uma  pessoa  pudesse  ser  agente 
de  uma  companhia  apenas  durante  um  dado  empreendimento  ou  durante  um  prazo  limitado,  em  geral 
tratava-se  de  um  cargo  de  longa  duração.  Quanto  ao  modelo  descentralizado,  consultar  também;  Y. 
Renouard  (1949)  63-64,  120-121,  127,  164-165;  R  L.  Reynolds  (1952)  358.  Adverte  R.  de  Roover 
(1948)  38  que,  qualquer  que  fosse  o  modelo  adoptado.  na  prática  os  negócios  tinham  de  ser  orientados 


Operações  c  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


383 


em  praças  onde  não  possuíam  uma  filial,  as  grandes  companhias  eram  representadas 
por  um  correspondente72. 

Talvez  seja  exacto  que  este  tipo  de  sociedade  tivesse  tido  as  suas  origens  no  tráfico 
terrestre  de  longo  curso73,  mas  a  partir  do  momento  em  que  as  filiais  começaram  a 
estabelecer-se  não  só  nos  grandes  ciclos  de  feiras  e  nos  outros  centros  do  comércio 
continental,  mas  também  nos  portos  marítimos  mais  importantes,  parece-me  claro  que 
as  companhias  aboliram  a  distinção  entre  ambas  as  vias  de  tráfico74,  como  aliás  fundi¬ 
ram  numa  mesma  rede  de  operações  todos  os  percursos  mercantis  e  todos  os  tipos  de 
grande  negócio.  Tratava-se  de  sociedades  formadas  a  longo  prazo  e  com  um  leque  de 
interesses  muito  amplo  e  previamente  indeterminado,  abarcando  desde  o  comércio  e  as 
finanças  até  à  actividade  empresarial  na  manufactura  e  mesmo  a  exploração  agrícola75. 
Aliás,  ao  terminar  o  prazo  do  contrato,  que  durava  em  regra  entre  dois  e  doze  anos,  era 
prática  corrente  que  a  associação  se  reconstituísse,  embora  com  pequenas  variantes 
quanto  ao  número  de  sócios  e,  eventualmente,  quanto  ao  montante  de  capital  investido 
por  cada  um  dos  sócios  antigos76.  Permanecendo,  porém,  inalterado  o  nome  da  firma, 
continuando  os  produtos  a  ser  assinalados  com  a  mesma  marca  e  encarregando-se  a 
nova  sociedade  da  totalidade  dos  créditos  e  débitos  da  sua  antecessora,  a  renovação 
operada  no  plano  jurídico  em  nada  impedia  a  continuidade  económica  e  social  da  com¬ 
panhia77. 


de  maneira  descentralizada,  visto  que  a  lentidão  de  comunicações  prevalecente  naquela  época  confe¬ 
ria  às  filiais  um  elevado  grau  de  autonomia  nas  decisões.  Conferir  no  mesmo  sentido  íd.  (1974)  71. 
210  e  R.  W.  Kaeuper  (1973)  1 1.  A  posição  exactamente  oposta  é  defendida  por  J.  Day  (1994)  200,  ao 
pretender  que  o  modelo  descentralizado  em  nada  atenuou  o  controlo  exercido  pela  sede. 

72  R.  de  Roover  (1948)  30. 

73  É  clássica  entre  os  histonadores  a  afirmação  de  que  as  companhias,  com  o  seu  carácter  dura¬ 
douro  e  o  amplo  escopo  dos  seus  negócios,  nasceram  no  tráfico  continental,  onde  o  grau  de  risco  era 
muito  inferior  ao  do  comércio  marítimo.  Ver:  R.  Pemoud  (1948)  107;  Y.  Renouard  (1941)  41;  id. 
(1949)  63.  Apesar  disso,  R.  de  Roover  (1974)  71  pretende  que  a  diversificação  dos  ramos  de  activi¬ 
dade,  característica  das  companhias,  constituía  uma  protecção  contra  o  elevado  grau  de  risco. 

74  Segundo  Y.  Renouard  (1941)  64-65,  as  companhias  procediam  a  transportes  tanto  terrestres 
como  marítimos,  e  G.  Luzzatto  ( 1967)  244-245  observa  que,  embora  prevalecesse  no  tráfico  terrestre, 
a  companhia  podia  ampliar  as  suas  actividades  ao  comércio  por  mar. 

7?  A  companhia  era  uma  forma  de  sociedade  adequada  a  projectos  duradouros  e  de  envergadura, 
observa  R.  S.  Lopez  ( 1965  )  144.  Ainda  a  respeito  do  carácter  duradouro  das  companhias  e  ao  facto  de 
se  dedicarem  a  vários  tipos  de  negócios,  ver:  R.  W.  Kaeuper  (1973)  2;  G.  Luzzatto  (1967)  246;  R. 
Pemoud  ( 1948)  107;  E.  Perroy  et  al  ( 1955)  359;  Y.  Renouard  ( 1941 )  41,  63-64,  66,  1 17;  id.  (1949) 
63,  119,  131-132;  K  L.  Reyerson  ( 1985)  10;  R.  L.  Reynolds  (1952)  360;  P.  Spufford  ( 1984)  373-375. 
Embora  houvesse  excepçôes,  comenta  R.  de  Roover  ( 1948)  30,  os  negócios  das  grandes  companhias 
prosseguiam  mais  no  plano  financeiro  do  que  no  comercial,  e  o  mesmo  ponto  de  vista  é  adoptado  por 
E.  Perroy  et  al.  (1955)  360.  Também  Y.  Renouard  ( 1949)  142  considera  que  os  lucros  das  companhias 
eram  maiores  no  comércio  de  longo  curso  do  que  no  comércio  local,  e  eram  maiores  nos  empreendi¬ 
mentos  financeiros  do  que  no  comércio  de  mercadorias.  Por  sua  vez,  J.  Day  ( 1994)  200  pretende  que 
as  múltiplas  actividades  das  companhias  estavam  estreitamente  interligadas. 

76  J.  K.  Hyde  (1973)  161;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  6-7;  G.  Luzzatto  (1967)  244-245;  R.  Pemoud 
( 1948)  107;  Y.  Renouard  ( 1941 )  43-44. 

77  R.  Pemoud  ( 1948)  107;  Y.  Renouard  (1941)  45;  id.  ( 1949)  120. 

Não  compreendo  como  Y.  Renouard  (1941 ).  ao  mesmo  tempo  que  afirma  (p.  45)  que  a  compa¬ 
nhia  dissolvida  encarregava  a  sua  sucessora  de  representá-la  junto  a  credores  e  devedores,  pode  pre- 


384 


Forma  III  do  dinheiro 


Aparentemente  o  contraste  seria  completo  entre  a  commenda  e  a  companhia.  A  com- 
menda  juntava  dois  sócios,  numa  situação  de  enorme  desigualdade,  para  um  negócio 
estipulado  de  antemão  e  por  um  prazo  fixo  e  curto,  dependente  do  ritmo  das  viagens 
marítimas.  A  companhia,  pelo  contrário,  formava-se  para  prosseguir  uma  multiplicidade 
indeterminada  de  operações,  por  um  prazo  em  geral  bastante  longo  e,  na  realidade,  ilimi¬ 
tado,  pois  ela  prolongava-se  usualmente  nas  companhias  seguintes.  Além  disso,  reunia-se 
numa  companhia  um  número  de  membros  mais  ou  menos  considerável,  possuindo  todos 
eles  um  estatuto  do  mesmo  tipo.  embora  variasse  o  montante  dos  investimentos  de  cada 
um,  bem  como  o  seu  grau  de  participação  na  gestão.  Um  estudo  mais  atento  mostra,  no 
entanto,  a  impossibilidade  de  traçar  aqui  quaisquer  demarcações  claras. 

A  commenda  podia  confundir-se  com  o  assalariamento.  estando  o  sócio  activo  em 
situação  equivalente  à  de  um  mero  empregado  que  recebesse  uma  remuneração  pecuniᬠ
ria78.  Aliás,  de  acordo  com  a  doutrina  jurídica  da  época  a  commenda  seria  uma  societas 
entre  um  detentor  de  fundos  e  um  trabalhador79.  Se  em  muitos  casos  o  membro  activo 
dispunha  de  completa  liberdade  de  iniciativa80,  o  que  confirmava  o  seu  estatuto  de  sócio, 
por  vezes  acontecia  que  ele  tivesse  de  obedecer  a  instruções  precisas  e  detalhadas  do 
membro  passivo  acerca  da  maneira  de  conduzir  o  negócio81,  ficando  assim  claramente 
subalternizado  e  aproximando-se  da  condição  de  empregado.  Os  historiadores  apresen¬ 
tam  a  sendeve,  praticada  entre  os  Hanseáticos,  como  uma  forma  de  negócio  à  comissão, 
já  que  o  patrão,  permanecendo  na  cidade  onde  estava  estabelecido,  entregava  a  um 
empregado  mercadorias  para  serem  vendidas  noutra  praça,  ou  uma  soma  de  dinheiro  des¬ 
tinada  à  aquisição  de  mercadorias,  e  em  troca  o  empregado  recebia  geralmente  uma 
remuneração  fixa,  quase  nunca  uma  parte  dos  lucros82.  Mas  em  algumas  modalidades  de 
commenda  vigentes  em  Inglaterra  era  possível  que  o  membro  activo  obtivesse  um  paga¬ 
mento  fixo83,  e  em  Montpellier  tanto  podia  reproduzir-se  uma  situação  deste  género84 
como  sucedia  que,  além  de  1/4  do  lucro,  o  activo  recebesse  como  complemento  uma 
remuneração  pré-estabelecida85.  Mesmo  que  o  membro  activo  dispusesse  de  uma  per¬ 
centagem  dos  lucros,  porém,  isto  por  si  só  não  o  impediria  de  ser  considerado  um  empre¬ 
gado86,  pois  em  Inglaterra  parece  ter  sido  frequente  a  participação  dos  agentes  nos  bene- 


tender  (p.  43)  que  a  nova  companhia  não  assumia  qualquer  responsabilidade  pelas  acções  das  prece¬ 
dentes.  nem  a  sua  aetuação  pesava  sobre  as  eventuais  sucessoras. 

78  M.  M.  Postan  (1957)  524-525. 

79  J.  H.  Pryor  ( 1977)  19. 

8ÜK.  L.  Reyerson  (1985)  14. 

81  J.  H.  Pryor  ( 1977)  7;  A.-E.  Sayous  ( 1935)  483-484. 

Referindo-se  à  Itália,  Y.  Renouard  ( 1949)  51  afirma  que  de  início  a  commenda  restringira  muito  a 
liberdade  de  acção  do  sócio  activo,  mas  ao  longo  do  século  XIII  os  termos  contratuais  ter-se-iam  tor¬ 
nado  menos  rígidos.  O  mesmo  tipo  de  evolução  é  detectado  por  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  359  a  respeito 
das  commende  genovesas. 

82  Ph.  Dollinger  <  1964)  206-207;  E.  Ennen  ( 1979)  130:  M  M.  Postan  (1957)  526-527. 

83  M.  M.  Postan  (1957)  532. 

84  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  33. 

85Id„  ibid..  17. 

86  M  M.  Postan  ( 1957)  532  e  539  pretende  que  o  teste  para  definir  se  se  tratava  ou  não  de  uma 
sociedade  era  a  partilha  dos  lucros  e  das  perdas,  mas  não  creio  que  nesta  matéria  tal  critério,  como 
qualquer  outro,  fosse  definitivo. 


Operações  c  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


3X5 


fícios  do  empreendi  mento8  2  Também  um  tipo  de  sociedade  bastante  divulgado  na  Ger- 
mânia  meridional  podia  ser  usado  para  a  angariação  de  serviços,  e  neste  caso  o  empre¬ 
gado  recebia  os  lucros  de  uma  fracçâo  do  capital,  mantendo  o  patrão  a  propriedade  inte¬ 
gral  dessa  fracçâo88.  É  igualmente  esclarecedor  o  sucedido  em  certas  firmas  comerciais 
sediadas  nos  territórios  da  coroa  de  Aragão,  em  que  os  agentes  eram  ao  mesmo  tempo 
investidores  na  sociedade  e,  assim,  além  do  salário  recebiam  uma  parte  dos  lucros89.  Por 
outro  lado.  em  Veneza,  no  final  do  período,  podia  suceder  que  o  salário  entregue  por  um 
mercador  ao  seu  agente  numa  praça  estrangeira  obedecesse  a  critérios  tais  que  acabava 
por  ser  equivalente  à  fracçâo  dos  lucros  que  cabia  ao  sócio  activo  na  commenda 90.  Em 
casos  como  este,  o  sócio  activo  via  a  sua  remuneração  servir  de  padrão  para  a  fixação  do 
salário  de  profissionais  que  desempenhavam  funções  equivalentes,  o  que  sem  dúvida  o 
remetia  para  a  condição  de  empregado.  Era  comum  também  que  a  tripulação  de  um 
navio,  cujo  salário  variava  consoante  as  tarefas  executadas  a  bordo,  fosse  estipendiada 
pela  sociedade  dos  proprietários  da  embarcação  com  uma  parte  dos  lucros  da  viagem91. 
Mas  que  sentido  devemos  atribuir  a  esta  prática,  quando  sabemos  que  na  Hansa  os  mari¬ 
nheiros  podiam  levar  consigo,  para  vender  no  porto  de  destino,  uma  certa  quantidade  de 
mercadorias,  por  vezes  resultantes  da  sua  escolha,  mas  que  na  maior  parte  dos  casos  lhes 
eram  impostas92'?  Em  tal  situação  a  aparente  participação  nos  lucros  consistia  realmente 
numa  forma  de  assalariamento  em  géneros.  Tanto  assim  que  nos  portos  de  várias  regiões 
os  sistemas  em  que  a  tripulação  tinha  direito  a  uma  fracçâo  dos  benefícios  foram  substi¬ 
tuídos  por  outra  modalidade,  em  que  se  acrescentava  ao  salário  o  direito  a  levar  gratuita¬ 
mente  a  bordo  um  dado  volume  de  mercadorias92.  Por  fim,  ao  verificarmos  que  em 
Génova  era  frequente  a  concessão  aos  criados  da  família  de  uma  pequena  quota  num 
empreendimento  marítimo94,  somos  levados  a  concluir  que  assalariamento  e  participação 
nos  lucros  podiam  conjugar-se  de  maneira  muito  complexa. 

Numa  direcção  socialmente  oposta,  a  posição  passiva  nem  sempre  era  apanágio  da 
elite  e  podia  caber  a  gente  humilde,  que  aplicava  num  empreendimento  comercial  as 
suas  pequenas  poupanças,  como  sucedeu  muitas  vezes95.  Assim,  era  possível  que  o 
sócio  activo  dispusesse  de  uma  fortuna  maior  e  de  lucros  mais  consideráveis  do  que  um 


87  Id.,  ibid.,  533. 

88  ld..  ibid..  527. 

89  J.  N.  Hillgarth  ( 1976- I97X)  II  IX. 

90  O  agente  recebia  entre  3%  e  5%  do  volume  de  negócios  de  que  se  encarregava,  e  portanto, 
observa  F.  C.  Lane  (197,3)  139-140.  se  a  taxa  média  de  lucro  do  negociante  oscilasse  enire  12%  e 
20%,  a  remuneração  do  agente  seria  equivalente  a  1/4  dos  lucros,  tanto  quanto  cabia  ao  membro 
activo  de  uma  commenda. 

91  L.  A.  Boiteuxt  1968)  47-48. 

Nos  territórios  da  coroa  de  Aragão  era  frequente  que  os  tripulantes  fossem  proprietários  de  parte 
da  carga,  esclarece  J.  N.  Hillgarth  ( I976-I97X)  1  274.  o  que  me  parece  constituir  uma  forma  de  parti¬ 
cipação  nos  lucros. 

92  Ph.  Dollinger  ( 1964)  192. 

91  L.  A.  Boiteux  (1968)  49-50 

94  R.  L.  Reynolds  (1945)  18. 

95  E.  Bach  (1957)  381-382:  M.  Balard  (1978)  523,  530-531.  601,  602;  C.  M.  Cipoila  (1976)  184: 
G.  Cracco  (1967)  43.  64-65:  .1.  Day  (1994)  197:  .1.  K.  Hvde  (1973)  71;  Ph.  Jones  (1974)  1766;  B.  Z. 


Forma  III  do  dinheiro 


386 


investidor  passivo96.  Ao  mesmo  tempo,  nada  havia  de  fixo  nos  lugares  de  sócio  passivo 
e  de  sócio  activo,  e  aconteceu  com  grande  frequência  que  um  mercador  que  partia  em 
viagem,  aceitando  outros  investimentos  no  seu  negócio,  colaborasse  ele  também,  mas 
enquanto  sócio  passivo,  nas  viagens  de  colegas  seus97.  Entre  os  Hanseáticos  era 
comum  que  a  sendeve,  em  vez  de  colocar  um  empregado  às  ordens  de  um  patrão,  jun¬ 
tasse  dois  mercadores  em  plano  de  igualdade,  de  maneira  que  cada  um  participava  nos 
empreendimentos  do  outro  mediante  uma  comissão  ou  a  partilha  dos  lucros98;  podia 
suceder  ainda  que  aquele  profissional  que  num  dado  negócio  actuava  como  comissio¬ 
nista  não  recebesse,  aparentemente,  qualquer  remuneração,  porque  noutro  caso  era  o 
seu  parceiro  a  agir  como  comissionista,  gratuitamente  também99. 

A  commenda  abria-se,  deste  modo,  ao  que  os  Genoveses  chamavam  societas  maris, 
uma  associação  bilateral  em  que  era  menor  a  desigualdade  existente  entre  os  membros. 
Na  forma  mais  conhecida  desta  modalidade  o  membro  activo  participava  também  com 
fundos  próprios,  ou  com  mercadorias,  num  montante  equivalente  a  metade  dos  fundos 
ou  das  mercadorias  adiantados  pelo  passivo,  ou  seja,  1/3  do  investimento  total.  No 
termo  do  contrato,  que  dizia  respeito  a  um  único  empreendimento,  os  lucros  eram  divi¬ 
didos  a  meias  e  os  prejuízos  recaíam  em  2/3  sobre  o  sócio  passivo  e  em  1/3  sobre  o 
sócio  activo100.  Com  um  ou  outro  nome101,  a  societas  maris  era  praticada,  além  de 
Génova102,  em  lugares  tão  diversos  como  a  sua  grande  rival.  Veneza103,  em  praças  da 
França  mediterrànica104  e,  ao  norte,  entre  os  Hanseáticos10'’  e.  com  muita  frequência  no 
final  do  período,  na  Inglaterra106. 


Kedar  (1976)  60-61;  H.  C.  Krueger  (1957)  259-260.  264;  R.  S.  Lopez  (1965)  143;  id.  et  al.  (1955) 
176;  G.  Luzzatto  (1961  b>  83-88;  id.  (1967)  240-242;  Y.  Renouard  (1949)  50;  K.  L.  Reyerson  (1985) 
2.3;  R.L.  Reynolds  (1945)  18. 

94  G.  Luzzatto  (1961  b)  83-88. 

97  M.  Balard  1 1978)  603;  G.  Cracco  ( 1967)  4.3;  J.  Day  ( 1994)  197;  H.  C.  Knieger  (1957)  258-259, 
263;  R.  S.  Lopez  (1965)  143;  id.  et  al.  (1955)  176;  G.  Luzzatto  (1937  )  40;  id.  (1961  b)  83-88;  Y. 
Renouard  ( 1949)  50-51. 

WJ.  Day  (1994)  198. 

99  Ph.  Dollinger  ( 1964)  207. 

É  decerto  nestes  casos  que  M.  M.  Postan  ( 1957)  532-533  observa  a  aparente  ausência  de  remune¬ 
ração,  tanto  no  norte  da  Germânia  como  na  Inglaterra. 

100  Para  a  descrição  da  societas  maris  ver:  M.  Balard  (1978)  608:  G.  Cracco  1. 1967)  12;  J.  Day 
( 1994)  197;  H.  C.  Krueger  ( 1957)  258-259:  G.  Luzzatto  (1961  b)  24.  83-88;  id.  (1967)  240-242;  H.  E. 
Mayer  ( 1972)  174;  J.  H.  Pryor  ( 1977)  6,  7;  Y.  Renouard  1 1941)  41:  id.  ( 1949)  15-16. 

11,1  A  crer  em  Y.  Renouard  (1941 )  41,  107  e  ( 1949)  44,  bem  como  em  M.  M.  Postan  ( 1957)  524.  a 
societas  maris  genovesa  recebia  em  Veneza  o  nome  de  colleganza  ou  collegantia.  Prefiro,  no  entanto, 
seguir  a  este  respeito  os  autores  mencionados  na  n.  62  e  considerar  a  colleganza  como  sinónimo  da 
commenda.  Mas  a  oscilação  vocabular  que  se  verifica  entre  os  especialistas  é  uma  expressão  da 
ausência  de  demarcação  clara  entre  estas  formas  de  sociedade,  como  refiro  adiante  na  n.  217.  Na  Ger¬ 
mânia  setentrional  a  societas  maris  recebia  o  nome  de  Wederlegginge.  consoante  indica  Michael  M. 
Postan  em  op.  cit.,  540. 

102  M.  Balard  (1978)601. 609;  H.  C.  Krueger  ( 1957)  258-259. 

103  R.  Latouche  (1956  c)  305-307:  G.  Luzzatto  1 1961  b)  24:  Y.  Renouard  (1941)  41:  id.  (1949) 
15,59-60.  110-111. 

104  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  16,  25;  A.-E.  Sayous  ( 1935)  472. 

11)5  J,  A.  Gade  ( 1951)  59;  M.  M.  Postan  (1957)  527. 

106  M.  M.  Postan  <  1957)  540,  543-544. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


387 


Apesar  de  nesta  modalidade  ambos  os  sócios  contribuírem  com  fundos  para  o 
empreendimento,  sabe-se  que  em  várias  regiões,  nomeadamente  na  Germânia.  tanto  no 
norte  como  no  sul,  a  societas  maris  podia  ser  usada,  do  mesmo  modo  que  vimos  a  com- 
menda  sê-lo  algumas  vezes,  para  a  angariação  de  serviços107.  Isto  não  impediu  os  mer¬ 
cadores  hanseáticos  de  recorrerem  igualmente  a  uma  prática  de  conotações  sociais 
inversas,  criando  um  tipo  de  sociedade  intermédio  entre  a  commenda  e  a  societas 
maris,  em  que  os  lucros  eram  divididos  a  meias,  não  obstante  o  membro  activo  não  ter 
participado  nos  fundos,  e  em  que  os  prejuízos  ou  eram  também  partilhados  entre  ambos 
ou  cabiam  apenas  ao  sócio  passivo108. 

A  diversidade  de  alternativas  fez  com  que  se  gerasse  uma  multiplicidade  de  tipos  de 
associação  que,  ao  estilo  da  societas  maris,  promoviam  um  maior  grau  de  igualdade 
entre  os  participantes.  Os  Judeus  do  noroeste  do  continente,  nos  séculos  X  e  XI,  não 
recorreram  com  frequência  a  associações  do  género  da  commenda,  e  em  geral  ambos  os 
sócios  participavam  nos  fundos,  embora  com  montantes  eventualmente  diferentes,  e 
ambos  se  dedicavam  activamente  ao  empreendimento,  partilhando  a  meias  tanto  lucros 
como  prejuízos109.  Não  obstante  serem  muito  raras  as  referências  a  mercadores  cristãos 
nas  fontes  judaicas  daquela  época  e  daquela  região110,  em  que  medida  esta  prática 
judaica  teria  de  então  em  diante  influenciado  os  demais  negociantes  que  operavam  nos 
mesmos  circuitos?  No  tipo  de  sociedade  praticado  com  maior  frequência  na  liga  han- 
seática  todos  os  membros  colaboravam  no  investimento  e  um  ou  dois  desempenhavam, 
além  disso,  funções  de  gestão,  sendo  os  lucros  repartidos  proporcionalmente  aos  fun¬ 
dos  adiantados.  O  critério  de  divisão  dos  lucros  era  aqui  idêntico  ao  da  companhia, 
embora  na  forma  característica  da  companhia  os  vários  sócios  tomassem  parte  na  ges¬ 
tão,  ainda  que  em  graus  diferentes.  Outro  elemento  de  semelhança  resultava  do  facto  de 
esse  modelo  hanseático  de  sociedade  poder  prolongar-se  além  do  limite  fixado  no  con¬ 
trato.  mas  não  devemos  esquecer  um  novo  factor  de  diferenciação,  pois  entre  os  Han¬ 
seáticos  a  responsabilidade  de  cada  sócio  pelos  prejuízos  não  ia  além  da  soma  inves¬ 
tida,  enquanto  na  companhia,  como  vimos,  os  membros  respondiam  ilimitadamente 
pelas  dívidas111.  Apesar  de  tudo,  parece-me  incontestável  a  vizinhança  formal  entre 
estes  dois  tipos  de  associação  mercantil1 Também  em  Montpellier  podia  suceder  que 
tanto  os  lucros  como  os  prejuízos  fossem  distribuídos  proporcional  mente  pelos  vários 


107  ld„  ibid.,  526-527. 

lns  Ph.  Dollinger  (1964)  208:  E.  Ennen  (1979)  130. 

109  i.  A.  Agus  ( 1965)  285. 

110  ld..  ibid..  326. 

1 1 1  Para  a  descrição  deste  tipo  de  sociedade,  muito  difundido  na  liga  hanseática,  ver  Ph.  Dollinger 
(1964)  208.  E.  Ennen  (1979)  130  e  J.  A.  Gade  ( 1951 )  57.  Pode  parecer  estranho  que  os  sócios  encar¬ 
regados  da  gestão  recebessem,  lai  conto  os  outros,  apenas  uma  parte  dos  lucros  proporcional  ao  seu 
investimento,  sem  beneficiarem  de  qualquer  remuneração  suplementar.  Todavia,  e  também  entre  os 
Hanseáticos,  nas  sociedades  constituídas  pelos  proprietários  do  mesmo  navio  era  o  mais  importante 
dos  membros  a  desempenhar  as  funções  de  capitão,  sem  que  por  isso  lhe  fosse  conferido  um  paga¬ 
mento  especial,  como  indica  Phihppe  Dollinger  em  op  cii.,  190.  Mas  é  certo  que  nestes  casos  o  capi¬ 
tão  transportava  por  conta  própria  um  lote  importante  de  mercadorias,  o  que  lhe  permitia  bons  lucros. 

1 12  É  decerto  nesta  perspectiva  que  M.  M.  Postan  (1957)  527  admite  que  a  Wederlegginge  da  Germ⬠
nia  setentrional,  a  modalidade  autóctone  da  societas  maris.  pudesse  executar  as  funções  da  companhia. 


Fornia  III  do  dinheiro 


3X8 


sócios  que  investiam  num  dado  empreendimento1  e  conhece-se  outra  modalidade  em 
que  ambos  os  associados  se  encarregavam  ao  mesmo  tempo  de  funções  passivas  e  acti¬ 
vas114.  Uma  forma  de  associação,  difundida  em  muitos  portos  e  que  equiparava  o  esta¬ 
tuto  dos  membros,  dizia  respeito  à  propriedade  dos  navios.  Sobretudo  numa  época 
tardia,  quando  as  embarcações  se  dividiam  num  número  de  fracções  cada  vez  maior, 
embora  todos  os  sócios  colaborassem  no  investimento,  caracterizando-se  portanto 
como  passivos,  era  possível  que  nenhum  deles  assumisse  o  papel  activo  nem  exercesse 
verdadeiramente  a  profissão  mercantil1 1;>.  A  mesma  equivalência  de  estatutos  entre  os 
proprietários  de  quotas  de  um  navio  alcançava-se  quando  todos  eles  participavam  na 
viagem,  acompanhando  o  transporte  das  suas  próprias  mercadorias,  de  maneira  que 
eram  simultaneamente  membros  activos  e  passivos  de  um  dado  empreendimento116. 
Neste  caso  um  dos  sócios  era  nomeado  pelos  outros  para  comandar  a  nave,  mas  as  suas 
decisões  só  eram  válidas  se  houvesse  consultado  previamente  os  colegas117.  E  sucedia 
também  que  a  generalidade  dos  associados  permanecesse  em  terra,  enquanto  o  proprie¬ 
tário  da  maior  quota  seguia  viagem,  executando  as  funções  de  capitão11*.  No  entanto, 
como  distinguir  as  situações  em  que  um  dos  associados  era  nomeado  para  comandar  o 
barco  daquelas  em  que  o  capitão  era  remunerado  suplementarmente  com  uma  quota  no 
navio  que  chefiava119?  Uma  vez  mais,  não  existia  qualquer  linha  demarcatória  entre  a 
sociedade  e  o  assalariamento  ou  a  angariação  de  serviços. 

Tal  como  foi  muitas  vezes  possível,  sem  recorrer  ao  modelo  da  companhia,  equipa¬ 
rar  as  posições  recíprocas  de  ambos  os  tipos  de  sócio,  do  mesmo  modo  se  tomaram 
com  frequência  difusos  os  limites  de  cada  sociedade.  Por  um  lado.  o  perfil  da  com- 
menda  podia  diluir-se  no  tempo,  quando  a  relação  entre  o  membro  passivo  e  o  activo  se 
reproduzia  indefinidamente,  de  maneira  que  um  contrato  restrito  a  um  empreendimento 
único  dava  lugar  a  um  fluxo  contínuo  de  negócios  entre  ambos  os  intervenientes120.  Por 
outro  lado.  podia  anular-se  a  limitação  da  sociedade  a  um  par  de  pessoas.  Uma  situação 
ambígua  ocorria  nos  casos  em  que  a  associação  dos  proprietários  de  um  navio  se  apo¬ 
derava  de  1/2  ou  de  2/3  do  lucro  líquido,  sendo  o  restante  distribuído  entre  a  tripula¬ 
ção  consoante  proporções  definidas  no  contrato  de  angariação121.  Devemos  considerar 


1 11  K.  L,  Reyerson  ( 1985)  17.  25. 

114  ld.,  ibid.,  25. 

115  Ph.  Dollinger  í  1964)  188;  F.  C.  Lane  (1973)  51-52;  M.  M.  Postan  (1957)  544. 

1 16  L.  A.  Boiteux  (1968)  45-46. 

1,7  Id..  ibid..  46. 

118  Ph.  Dollinger  (1964)  190. 

114  A  maior  parte  dos  navios  hanseáúcos  era  propriedade  de  sociedades,  afirma  J.  A.  Gade  (1951) 
65,  e  na  maioria  destes  casos  o  capitão  era  um  dos  sócios.  Contudo,  M.  M.  Postan  ( 1957)  545  observa 
que  é  por  vezes  impossível  saber  se  o  comandante  dispunha  de  unia  quota  porque  os  sócios  lha 
haviam  concedido  a  título  de  remuneração  suplementar  ou  se  ele  era  um  dos  membros  principais  e. 
como  tal,  havia  assumido  as  funções  de  chefia.  Na  Veneza  do  século  XII.  e  mesmo  do  século  XIII.  os 
marinheiros  procediam  a  operações  comerciais,  o  que  dificultava  a  distinção  entre  sócio  activo  e 
marinheiro-mercador,  previne  F.  C.  Lane  (1973)  166.  acrescentando  que  a  sedentarização  da  activi- 
dade  mercantil  provocou  a  clivagem  entre  estas  duas  categorias. 

120  B.  Z.  Kedar  <  1976)  26. 

121  L.  A.  Boiteux  ( 1968)48. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


389 


uma  empresa  deste  género  como  uma  pluralidade  de  commende  ou  de  societatis  maris 
entre  pares  de  participantes,  ou  antes  como  uma  associação  única,  em  que  tanto  o  mem¬ 
bro  passivo  como  o  membro  activo  eram  constituídos  por  colectividades?  A  multiplica¬ 
ção  da  sociedade  tornava-se.  porém,  insofismável  noutras  circunstâncias.  Era  corrente 
que  o  mercador  activo  recebesse,  para  uma  dada  viagem,  fundos  de  diversos  investido¬ 
res  passivos1-2.  Aliás,  isto  sucedia  sempre  que  o  investimento  passivo  se  devia  a  pes¬ 
soas  de  condição  modesta121,  porque  cada  uma  das  pequenas  poupanças  era  insufi¬ 
ciente,  por  si  só,  para  sustentar  o  empreendimento.  Nestes  casos,  o  que  na  perspectiva 
de  um  passivo  representava  uma  sociedade  entre  duas  pessoas  constituía,  para  o  activo, 
uma  rede  única  de  associações,  englobando  uma  variedade  de  membros.  Além  disso,  o 
facto  de  um  mercador  poder  com  frequência  ocupar  numa  sociedade  a  posição  de 
membro  activo  ao  mesmo  tempo  que  participava  noutras  enquanto  investidor  passivo124 
fazia  com  que  estas  associações  se  ligassem  alternadamente  em  cadeias  sem  fim.  Nas 
cidades  hanseáticas,  por  exemplo,  todos  os  comerciantes  pertenciam  simultaneamente  a 
várias  sociedades,  de  tipos  diferentes125.  E  o  mesmo  sucedia  com  os  negociantes  geno- 
veses126  e  com  os  venezianos127.  que,  em  vez  de  se  reunirem  em  grandes  companhias, 
procediam  a  uma  multiplicidade  de  operações  e  de  investimentos  de  âmbito  limitado. 
Afinal,  a  commenda  e  a  soí  ie/as  maris,  definidas  como  uma  reunião  de  dois  sócios 
apenas,  e  para  um  único  empreendimento,  permitiam  na  realidade  a  formação  de  uma 
rede  interminável  de  sociedades,  com  um  vasto  escopo  de  operações,  em  que  o  prazo 
da  associação  se  tomava  longo  e  indeterminado,  e  podendo  nalguns  casos  juntar  fundos 
colossais128.  A  tal  ponto  que  Florença,  apesar  de  ser  a  sede  de  grandes  companhias, 
mobilizava  no  século  XIV  um  volume  de  comércio  externo  inferior  ao  que  transitava 
então  por  Génova  ou  por  Veneza,  onde  existiam  somente  -  ou  sobretudo  -  commende  e 
societatis  maris 1 2'7. 


122  M.  Balard  1 1978)  603,  609:  F.  C.  Lane  (1973)  52;  G.  Luzzatto  (1961  b)  83-88:  Y.  Renouard 
( 1941 )  40:  id.  ( 1949)  1 10;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  20. 

122  Vera  n.  95. 

1 24  Ver  a  n.  97. 

125  Pli.  Dollinger  ( 1964)  20K;  E.  Ennen  (1979)  130. 

126  D.  O.  Hughes  (1975)  16. 

E  com  ioda  a  razão  que  M.  Balard  ( 1978)  522  nega  que  os  negociantes  genoveses  actuassem  de 
fornia  individualista,  como  pretende  a  historiografia  tradicional. 

127  Y.  Renouard  ( 1941  j  108. 

I2s  O  facto  de  não  se  terem  formado  entre  os  Hanseáticos  grandes  companhias  permanentes  e  cen¬ 
tralizadas.  observa  justamente  Ph.  Dollinger  (1964)  208-209,  não  impedia  que  existissem  negociantes 
de  grande  envergadura,  mobilizando  vastos  capitais  c  efectuando  operações  comerciais  e  financeiras 
amplas  e  complexas  em  variadas  regiões.  E,  segundo  Y.  Renouard  (1949)  1 10,  em  Veneza  os  grandes 
negócios  resultavam  de  uma  acumulação  de  pequenas  sociedades  e  pequenos  lucros. 

124  Y.  Renouard  (1941)  107. 

Este  especialista  acrescenta,  em  op.  ar..  108.  que  muito  possivelmente  o  grande  comerciante 
veneziano  do  século  XIV  obtinha  lucros  sujieriores  aos  de  cada  um  dos  membros  das  grandes  compa¬ 
nhias  florentinas 


390 


Forma  III  do  dinheiro 


2 

Vemos  que  gradualmente  as  variantes  da  commenda  e  da  societas  niaris  nos  condu¬ 
ziram  a  situações  que  julgaríamos  apenas  características  da  companhia.  Do  mesmo 
modo.  não  havia  qualquer  distinção  real  entre  as  várias  formas  de  sociedade  e  as  várias 
formas  de  empréstimo130.  Não  só  as  modalidades  de  associação  comercial  mais  típicas 
estavam  intimamente  conjugadas  com  o  crédito131,  como  também  o  crédito  podia  inter¬ 
vir,  e  intervinha  com  muitíssima  frequência,  em  todas  as  fases  de  uma  operação  mer¬ 
cantil133.  Mesmo  o  câmbio  implicava,  pela  sua  própria  natureza,  um  empréstimo  a 
curto  prazo133.  Compreende-se,  assim,  que  até  numa  época  tardia  o  crédito  pecuniário 
não  constituísse  uma  actividade  especializada  e  se  confundisse  geralmente  com  as  ope¬ 
rações  comerciais  e  cambiais134. 

Convém  desde  já  distinguir  radicalmente  entre  o  crédito  suscitado  pela  actividade 
mercantil  neste  período  e  o  crédito  tal  como  viria  depois  a  desenvolver-se  no  capita¬ 
lismo.  As  formas  de  empréstimo  que  vou  analisar  diziam  apenas  respeito  à  venda  ou  à 
aquisição  de  bens  já  produzidos  e  colmatavam  a  insuficiência  dos  meios  de  pagamento 
metálicos.  O  crédito  servia  para  facilitar  as  operações  do  comércio,  e  não  para  propor¬ 
cionar  investimentos  na  produção  de  matérias-primas  ou  na  actividade  artesanal135.  Se 
os  homens  de  negócios  esperavam  então  obter  grandes  margens  de  lucro  sobre  um 
número  limitado  de  vendas,  em  vez  de  procederem  a  um  grande  número  de  vendas  com 
uma  taxa  de  lucro  baixa136,  isto  devia-se  ao  facto  de  o  crédito  proporcionar  oportunida¬ 
des  de  especulação  para  mercadorias  que  haviam  sido  produzidas  sem  beneficiarem  de 
uma  procura  sistematicamente  garantida.  Tratava-se  de  um  tráfico  altamente  especula¬ 
tivo,  em  que  os  negociantes  desejavam  aproveitar  as  oportunidades,  mas  sem  consegui¬ 
rem  eles  próprios  criar  tais  oportunidades,  como  veio  a  suceder  no  capitalismo,  quando 
o  fluxo  de  produção  começou  a  sustentar  os  contratos  antecipados  de  venda  dos  bens. 
No  capitalismo  desenvolvido  o  crédito  possibilita  que  um  fabrico  em  massa  dê  origem 
ao  seu  próprio  mercado  e  passe  a  controlá-lo,  de  maneira  que  hoje  a  actividade  comer¬ 
cial  é  um  mero  aspecto  da  actividade  produtiva,  e  as  vendas  têm  como  único  objectivo 
a  obtenção  de  fundos  que  permitam  manter  e  aumentar  os  ciclos  de  produção.  Ao  longo 
deste  período  a  situação  foi  a  inversa.  Nem  mesmo  a  sedentarização  dos  comerciantes 


1111  R.  de  Roover  (1948)  306.  312:  Ph.  Jones  ( 1974)  1703-1704. 

131  R.  S.  Lopez  (1979)  8. 

132  M.  M.  Postan  (1954)  64  e  segs..  72,  81-83 

133  Th.  W.  Blomquist  (1979)  71-72. 

134  R.  de  Roover  ( 1948)  10. 

135  Na  Flandres  do  século  XIII  e  do  início  do  século  XIV.  observa  D.  Nicholas  ( 197 1 )  219,  a  elite 
não  investia  no  aperfeiçoamento  técnico  da  manufactura  têxtil,  mas  na  melhoria  da  organização 
comercial. 

136  É  nestes  tennos  que  R.  S.  Lopez  ( 1974)  132  formula  o  problema.  Quando  V.  Renouard  1 1949) 
74-75  observa  que  os  grandes  homens  de  negócios  deste  período  não  se  especializavam  em  qualquer 
ramo  e  até  os  pequenos  lucros  lhes  interessavam,  ou  quando  A.  Sapori  (1951 )  694  recorda  que  os 
comerciantes  abastados  tanto  negociavam  por  grosso  corno  a  retalho,  isto  significa  que  os  lucros  de 
um  dado  empreendimento  podiam  ser  reduzidos  no  seu  montante  absoluto,  mas  não  o  eram  relativa¬ 
mente  aos  fundos  investidos. 


Operações  e  contendo  da  Forma  III  do  dinheiro 


391 


fez  com  que  os  negócios  perdessem  o  carácter  aventuroso,  tudo  se  resumindo,  afinal, 
em  enviar  à  consignação  artigos  para  outra  praça,  sem  que  eles  tivessem  ainda  compra¬ 
dor.  e  esperar  que  alcançassem  aí  um  bom  preço1'7.  A  arte  do  comerciante  consistia 
então  em  deter  informações  e  prever  acontecimentos,  sabendo  acompanhar  ou,  melhor 
ainda,  antecipar  os  movimentos  do  mercado.  Quando  os  negociantes  do  século  XIV 
aplicavam  o  crédito  à  manufactura,  ele  serv  ia  apenas  para  apressar  a  transformação  dos 
mestres  em  assalariados,  dentro  do  quadro  geral  do  sistema  empresarial  (ver  o  capítulo 
12,b  da  Parte  II).  Tais  empréstimos  contribuíam  para  remodelar  as  relações  sociais  de 
produção  e  agravar  a  exploração,  e  não  se  destinavam  a  permitir  que  as  oficinas,  man¬ 
tendo-se  independentes,  aumentassem  o  volume  do  seu  produto  e  a  amplitude  dos  seus 
negócios.  Só  no  capitalismo  o  crédito,  e  o  dinheiro  bancário  que  se  gera  nas  operações 
de  crédito,  passaram  a  constituir  antecipações  de  uma  produção  futura.  Hoje  o  crédito 
já  não  encontra  o  seu  fundamento  na  mera  transacção  de  bens  existentes,  mas  constitui 
um  estímulo  indispensável  à  produção  futura  de  novos  bens  e  serviços.  Bastaria  isto 
para  estabelecer  uma  diferença  absoluta  entre  os  modos  de  exploração  no  regime 
senhoria!  e  no  capitalismo. 

Parece  que  em  Bruges  os  cambistas  geralmente  não  constituíam  sociedades,  pelo 
menos  na  actividade  estritamente  cambial,  só  o  fazendo  quando  participavam  em 
empreendimentos  comerciais1-8.  Também  em  Metz  eram  raras  e  efémeras  as  socieda¬ 
des  estabelecidas  entre  cambistas,  mesmo  as  que  reuniam  a  elite  da  profissão1-9.  E  em 
Luca.  no  século  XIII.  as  associações  de  cambistas  não  juntavam  geralmente  mais  de 
duas  ou  três  pessoas,  que  podiam  aliás  dedicar-se  a  negócios  privados,  independente¬ 
mente  da  sociedade140.  Mas  não  era  neste  plano  que  se  formavam  as  principais  associa¬ 
ções.  No  interior  de  cada  praça,  a  partir  do  momento  em  que  os  cambistas  decidiram, 
por  um  lado.  fazer  frutificar  os  depósitos  em  seu  benefício  e,  por  outro,  adiantar  siste¬ 
maticamente  crédito  aos  depositantes,  a  relação  entre  o  depositante  e  o  cambista  passou 
a  obedecer  ao  modelo  da  relação  entre  o  membro  passivo  de  uma  sociedade  e  o  mem¬ 
bro  activo141.  Em  Bruges,  no  último  terço  do  século  XIV,  tal  como  havia  sucedido  em 
Génova  durante  o  século  XII,  tanto  numa  perspectiva  económica  como  muitas  vezes  na 
própria  letra  dos  contratos  era  impossível  distinguir  entre  uma  situação  em  que  o  ban¬ 
queiro  utilizava  os  depósitos  para  financiar  o  comércio  de  maneira  directa,  através  da 
formação  de  sociedades,  e  uma  situação  de  financiamento  indirecto,  mediante  emprés¬ 
timos142;  qualquer  que  fosse  a  forma  legal  adoptada  num  empréstimo,  o  banqueiro 
estava  na  prática  associado  ao  mutuário,  fomecendo-lhe  permanentemente  fundos143. 


1  ’7  Acerca  do  carácter  aventuroso  e  especulativo  do  comércio  neste  período  ver  R.  de  Roover 
( 1948)  65-66  e  td.  (1953)  63.  Consultar  igualmente  S.  Homer  ( 1963i  77. 

1,8  R.  de  Roover  (1948)  213. 

J.  Schneider  <  1950)  273. 

140  Th.  W.  Blomquist  (1979)  58-59. 

141  A  própria  jurisprudência  contundia  os  depósitos  em  conta  corrente  efectuados  junto  de  ban¬ 
queiros  com  a  relação  entre  um  sócio  passivo  e  um  sócio  activo,  como  indicam  J.  Martínez  Gijón 
( 1964)  83-84  e  A.  P.  Usher  ( 1932- 1934)  401. 

I4:  R.  de  Roover  (1948)  312.  328  n.  98 
143  ld..  ibid.,  304. 


392 


Forma  III  do  dinheiro 


Em  Veneza,  também  no  século  XIV.  muitos  empréstimos  eram  apresentados  como 
cornniende l44.  E  como  cada  um  dos  cambistas  começou  a  abrir  conta  nos  estabele¬ 
cimentos  dos  seus  colegas145,  o  mesmo  tipo  de  associação  que  os  ligava  aos  clientes 
passou  a  uni-los  entre  si. 

Mesmo  nas  companhias,  a  frequente  aceitação  de  investimentos  realizados  por  pes¬ 
soas  exteriores,  sob  a  forma  de  depósitos,  e  a  aceitação  das  somas  depositadas  pelos 
sócios  acima  do  montante  das  respectivas  quotas146  convertiam  o  conjunto  dos  sócios 
plenos  num  membro  activo,  aparecendo  como  passivo  cada  um  destes  investidores.  Em 
Piacenza.  sem  dúvida  um  dos  principais  centros  financeiros  da  Itália147,  e  portanto  de 
todo  o  regime  senhorial,  muita  gente  humilde  colocava  as  suas  módicas  poupanças 
nas  grandes  companhias  bancárias14*,  sucedendo  o  mesmo  em  Florença  no  termo  do 
período149. 

Também  o  tráfico  externo  forneceu  novas  oportunidades  para  a  extensão  dos 
empréstimos.  Até  ao  século  XIII,  durante  a  fase  em  que  os  negócios  exigiam  a  desloca¬ 
ção  permanente  dos  responsáveis,  um  profissional  do  longo  curso  exportava  as  suas 
mercadorias  para  outras  praças  e  vendia-as  aí  com  o  único  objectivo  de  aplicar  as  recei¬ 
tas  na  aquisição  de  artigos  que  pudessem  ser  importados  e  postos  à  venda  na  sua 
cidade150.  Ao  longo  do  século  XIII.  porém,  com  a  progressiva  sedentarização  da  activi- 
dade  mercantil  e  o  estabelecimento  de  correspondentes  ou  de  filiais  no  estrangeiro,  a 
exportação  e  a  importação  dissociaram-se  gradualmente151,  desenvolvendo-se  neste 
interstício  novas  modalidades  de  crédito.  A  letra  de  câmbio  era  um  tipo  de  empréstimo 
sustentado,  na  praça  originária,  por  uma  relação  semelhante  àquela  que  ligava  o  sócio 
passivo  e  o  activo,  mas  num  contexto  em  que  ambos  negociavam  com  correspondentes 
noutra  praça,  de  maneira  que  o  pagamento  da  dívida,  sendo  efectuado  por  correspon¬ 
dentes,  exigia  uma  operação  cambial.  E  como  o  reembolso  se  efectuava  num  lugar  dife¬ 
rente  daquele  em  que  se  havia  verificado  o  adiantamento  de  fundos,  o  que  requeria  um 


144  B.  Z.  Kedar  (1976)  62. 

I4!í  Ver  a  n.  26. 

146  R.-H.  Baulier  (1992)  65-66;  R.  de  Roover (1948)  40-42;  D.  Herlíhy  (1967)  167;  S.  Homer 
(1963)76;  J.  K.  Hyde  (1973)  161:  Y.  Renouard  (1941 )  57.  58,68;  id.  (1949)  64.  122  123;  P.  Spufford 
(1984)375. 

Era  muito  frequente  a  realização  de  depósitos  junto  das  companhias,  esclarece  Y.  Renouard 
(1941)  58  e  (1949)  123.  e  J.  K.  Hyde  (1973)  161  acrescenta  que  o  número  destes  depositantes  foi 
aumentando  consideravelmente  ao  longo  do  tempo.  A  tal  ponto  que  nas  cidades  italianas  do  interior, 
segundo  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360.  os  fundos  totais  de  que  as  companhias  dispunham  resultavam 
sobretudo  dos  depósitos  privados,  mais  do  que  das  quotas  dos  sócios.  Y.  Renouard  í  1949)  124-125 
sustenta  a  mesma  tese  no  caso  específico  das  companhias  florentinas.  Em  Inglaterra,  porém,  no  final 
do  século  XIII  e  no  começo  do  século  seguinte,  M.  Prestwich  1 1979)  95-96  adverte  que  não  sabemos 
em  que  medida  as  filiais  das  companhias  italianas  aceitavam  depósitos,  sendo  possível  que  recebes¬ 
sem  sobretudo  fundos  à  ordem,  destinados  a  pagamentos  por  transferência. 

147  J.  Day  ( 1994)  201;  J.  K.  Hyde  (1973)  158;  .1.  Piquet  í  1939)  83;  Y  Renouard  <  1949)  67;  A.-E. 
Sayous  (1931)  284. 

145  Ph.  Jones  (1974)  1766-1767 

149  G.  A.  Brucker  ( 1962  )  17. 

150  R.  de  Roover  (1953)26,  97;  Ph.  Dollinger  (1964)  203:  E.  Rõrig  <  1967)41. 

151  R.  de  Roover  (1948)  12:  id  ( 1953)  26:  A.-E.  Sayous  ( 1935)  473 


Operações  e  i  onteúdo  dn  Formei  lll  do  dinheiro 


393 


prazo  para  o  envio  e  a  recepção  da  letra,  nunca  muito  curto  em  virtude  da  morosidade 
dos  transportes  naquela  época,  a  aquisição  de  letras  de  câmbio  implicava  obrigatoria¬ 
mente  a  abertura  de  crédito15-.  As  companhias,  dispondo  de  filiais  e  de  agentes  fixos 
numa  multiplicidade  de  praças,  contribuíram  decisivamente  para  a  génese  e  o  desenvol¬ 
vimento  das  letras  de  câmbio,  convertendo-se  assim  os  seus  membros  em  mercadores- 
-banqueiros15'.  Mas  mesmo  comerciantes  independentes,  ou  membros  de  sociedades 
de  curta  duração,  desde  que  gozassem  de  um  crédito  sólido,  arranjavam  com  facilidade 
correspondentes  regulares  noutras  praças  e  podiam  também  dedicar-se  ao  negócio  de 
letras154. 


n2  J.  Day  (1984)  14:  id.  (1994)  200;  R  de  Roover  ( 1948)  49.  62;  kl.  (1953)  16;  id.  ( 1974)  185:  F. 
C.  Lane  ( 1973)  146.  R.  S.  Lopez  et  al.  1 1955)  162;  R.  C.  Mueller  (1984)  195.  199;  A.  P.  Usher  (1932- 
-1934)415. 

Criticando  a  tese  de  Raymond  de  Roover,  para  quem  a  letra  de  câmbio  implicava  sempre  uma 
operação  de  crédito.  P.  Spufford  (1986)  xxxvii-xl  e  lii  afirma  que  isto  só  sucedia  num  certo  tipo  de 
casos,  c  que  nas  demais  situações  um  negociante  comprava  uma  letra  unicamente  para  dispor  de 
dinheiro  noutra  praça,  servindo  então  a  letra  apenas  para  executar  a  transferência.  Ainda  segundo 
Peter  Spufford.  em  op.  rit.,  xliii,  haveria  dois  sistemas  de  taxas  de  câmbio  para  as  letras,  consoante 
elas  tinham  como  objeetivo  último  o  crédito  ou  as  transferências,  mas  o  autor  confessa  (p.  xlvi)  igno¬ 
rar  de  que  maneira  seria  estabelecida  a  relação  entre  os  dois  sistemas.  J.  H.  Munro  (1979)  172-173 
defendera  já  uma  posição  semelhante  a  propósito  da  Inglaterra,  sustentando  que  nas  operações  com 
letras  de  câmbio  a  concessão  ou  a  obtenção  de  crédito  era  frequentemente  menos  importante  do  que  a 
transmissão  de  fundos  para  uma  praça  estrangeira.  O  único  argumento  empírico  que  me  parece  ter  um 
certo  peso  em  abono  destas  críticas  fundamentar-se-ia  na  deslocação  maciça  de  fundos  que  as  compa¬ 
nhias  toscanas  operav  am  para  o  papado  através  do  emprego  de  letras  de  câmbio.  Ver  a  este  respeito  as 
nn.  289  e  290.  Aliás,  John  H.  Munro  em  op  cie.  200  admite  precisamente  a  possibilidade  de  que  a 
principal  função  desempenhada  pelas  letras  de  câmbio  nas  finanças  inglesas  do  século  XIV  fosse  o 
envio  dos  tributos  religiosos  para  o  continente.  Mas  mesmo  nestas  operações,  que  pareciam  resumir- 
-se  a  uma  expedição  de  verbas,  o  elemento  de  crédito  não  deixou  de  estar  presente,  já  que  as  compa¬ 
nhias  necessitavam  dos  fundos  eclesiásticos  para  os  seus  próprios  negócios  em  Londres  e  em  Bruges, 
e  as  letras  permitiam  que  estas  somas  fossem  depois  pagas  na  cúria.  Estudando  as  relações  financeiras 
entre  a  Inglaterra  e  o  papado,  W.  E.  Lunt  (1939-1962)  I  602  esclarece  que  as  companhias  italianas 
encarregadas  do  transporte  dos  fundos  eclesiásticos  podiam  adiantar  empréstimos  ao  pontífice,  contra 
a  garantia  dos  tributos  a  serem  cobrados,  sucedendo  mesmo  que  utilizassem  para  negócios  as  somas 
em  depósito,  no  caso  de  as  terem  em  seu  poder  durante  o  tempo  suficiente.  Ora,  não  se  tratava  tanto 
de  uma  questão  de  tempo  como  de  oportunidade,  e  a  arte  do  mercador  pressupunha,  entre  outros 
dotes,  a  habilidade  na  fixação  dos  prazos.  E.  Perroy  ( 1962-1963)  48  chega  mesmo  a  afirmar  que  os 
comerciantes  italianos  que  transferiam  a  receita  dos  tributos  religiosos  da  Inglaterra  para  a  cúria 
faziam  render  aquelas  verbas  na  ilha.  graças  a  acttv idades  de  comércio  e  de  crédito,  tendo-se  tornado 
asstm  os  principais  mutuantes  Sem  negar  que  os  mercadores  italianos  estabelecidos  na  Inglaterra 
usassem  os  fundos  eclesiásticos  para  os  seus  negócios,  enquanto  os  não  enviavam  para  a  corte  papal. 
T.  H.  Lloyd  (1982)  169  e  171  observa,  no  entanto,  que  não  se  tratava  geralmente  de  quantias  conside¬ 
ráveis,  pois  em  regra  o  papa  só  cobrava  somas  modestas  na  ilha.  Não  me  parece,  em  suma.  que  exis¬ 
tam  motivos  para  abandonar  a  tese  de  Raymond  de  Roover.  seguida  pela  generalidade  dos  especialis¬ 
tas.  Tanto  assim  que.  a  respeito  de  certas  modalidades  de  crédilo  praticadas  entre  Cristãos  na  Síria  e 
na  Palestina,  e  cujo  pagamento  se  efectuava  do  outro  lado  do  mar  mediante  uma  operação  cambial. 
A.-E  Sayous  (1931)  261  comenta  que  aquilo  que  para  o  mutuário  era  um  meio  de  obter  credito  podia 
ser  para  o  mutuante  uma  forma  de  transferir  dinheiro  para  outra  praça. 

LM  R.  de  Roover  ( 1948)  29-30,  48.  303.  348;  id.  (1953)  23.  25;  Y.  Renouard  <1941 )  91. 

1,4  R.  de  Roover  i .1948)  30. 


394 


Fonna  III  do  dinheiro 


No  meio  mercantil,  as  modalidades  de  crédito  reflectiarn  a  pluralidade  de  associa¬ 
ções  comerciais,  e  do  mesmo  modo  não  se  desenhava  qualquer  demarcação  rigorosa 
entre  os  diversos  tipos  de  empréstimo.  Decerto  devemos  levar  em  conta  o  peso  da  for¬ 
mação  ideológica  da  média  dos  historiadores,  mas  apesar  disso  é  bastante  espantosa  a 
insistência  com  que  todos  eles,  em  coro.  sustentam  que  as  formas  a  que  cambistas  e 
negociantes  recorriam  nesta  época  para  cobrar  o  juro  se  destinavam  a  iludir  a  censura 
eclesiástica.  Terei  mais  adiante  (no  capítulo  1 2,b)  oportunidade  para  rebater  este  género 
de  teses,  mas  desde  já  podemos  verificar  que  o  facto  de  o  crédito  e  o  comércio  estarem 
conjugados  de  maneira  muito  estreita  levava,  inevitavelmente,  a  que  o  juro  se  combi¬ 
nasse  com  alguns  aspectos  das  operações  mercantis,  nomeadamente  com  o  preço,  com 
o  lucro  ou  com  a  taxa  de  câmbio,  aparecendo  como  um  dos  seus  elementos,  indistinto 
dos  demais. 

A  assimilação  do  juro  ao  preço  realizava-se  de  maneira  simples  em  Montpellier.  por 
exemplo,  onde  a  forma  de  crédito  registada  com  mais  frequência  na  documentação  con¬ 
sistia  num  contrato  de  compra  acompanhado  por  um  reconhecimento  de  dívida,  na 
maioria  dos  casos  relativa  apenas  a  uma  parte  do  montante  da  aquisição155.  A  confusão 
entre  juro  e  preço  observa-se  igualmente  naquele  tipo  de  contratos  em  que  uma  merca¬ 
doria  teria  um  dado  preço  se  fosse  paga  a  pronto  e  um  preço  superior  se  o  pagamento 
se  efectuasse  mais  tarde,  podendo  então  a  soma  devida  ser  entregue  na  forma  de  outras 
mercadorias,  e  não  em  numerário156.  Uma  modalidade  semelhante  vigorou  nos  séculos 
X  e  XI  entre  os  mercadores  judeus  do  noroeste  do  continente,  que  com  frequência  ven¬ 
diam  artigos  a  crédito  uns  aos  outros,  especificando-se  nestes  casos  a  data  de  paga¬ 
mento  e  sendo  o  preço  tanto  mais  elevado  quanto  mais  longo  era  o  prazo157.  Outro  sis¬ 
tema  de  inclusão  do  juro  no  preço  encontra-se  entre  os  Judeus  das  mesmas  regiões, 
também  no  início  do  período,  quando  um  negociante,  numa  posição  correspondente  à 
do  sócio  passivo,  adiantava  mercadorias  a  um  colega,  que  ocupava  a  posição  do  sócio 
activo.  Este  aceitava  os  bens  a  um  preço  superior  ao  praticado  no  lugar  do  contrato, 
mas  que  corresponderia  certamente  ao  preço  habitual  na  praça  onde  eles  se  destinavam 
a  ser  negociados.  A  venda  efectuada  no  estrangeiro  permitia  reunir  a  soma  necessária 
para  pagar  a  dívida  ao  mutuante,  mas  entretanto  o  mutuário  beneficiava  pelo  facto  de 
dispor  durante  algum  tempo  daquele  dinheiro,  com  o  qual  lhe  era  possível  adquirir  arti¬ 
gos  que  alcançassem  um  preço  mais  elevado  na  sua  cidade  de  origem.  Uma  vez  de 
regresso,  o  mutuário  vendia  os  bens  importados  e  cancelava  a  dívida,  ficando  com  os 
lucros  desta  segunda  transacção,  enquanto  os  lucros  da  primeira  estavam  totalmente 
incluídos  na  quantia  entregue  ao  mutuante155.  Não  vejo  diferença  entre  este  tipo  de 
empréstimos  e  o  contrato  de  compra  a  prazo  e  a  crédito,  tal  como  veio  a  ser  praticado 
com  muita  frequência  no  tráfico  marítimo  genovês  durante  o  final  do  século  XIII  e  a 
primeira  metade  do  século  XÍV.  Ao  mesmo  tempo,  os  pequenos  negociantes  de  Génova 
recorriam  igualmente  ao  contrato  de  empréstimo  marítimo,  com  o  compromisso  de 


155  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  40. 

156  M.  Beard  (1938)  132. 

157  I.  A.  Agus  ( 1965)  366. 

158  ld„  ibid..  115. 


Operações  e  contendo  da  Forma  III  do  dinheiro 


395 


reembolsar  um  adiantamento  de  fundos  por  ocasião  do  regresso  de  viagem  do  mutuᬠ
rio,  ou  do  regresso  do  navio  onde  seguiam  as  suas  mercadorias156.  Na  mesma  cidade 
foi  também  usado  o  contrato  de  câmbio  marítimo,  mediante  o  qual  a  soma  emprestada 
devia  ser  paga  de  acordo  com  o  preço  de  venda  obtido  no  porto  de  destino  por  uma 
dada  carga,  que  servia  como  penhor  do  empréstimo160.  Em  todos  os  casos,  as  diferen¬ 
ças  entre  os  preços  praticados  em  Génova  e  no  Levante  sustentavam  o  juro. 

Nas  comunidades  comerciais  judaicas  dos  séculos  X  e  XI.  tanto  nas  regiões  medi- 
terrânicas  como  naquelas  que  se  ligavam  às  rotas  de  tráfico  para  o  leste  e  para  o  norte, 
fora  frequente  um  tipo  de  empréstimo  mediante  o  qual  um  mercador  vendia  a  outro 
artigos  a  crédito;  em  seguida,  o  montante  da  dívida  era  posto  à  disposição  do  mutuário 
para  que  comprasse  mais  mercadorias,  e  depois  de  elas  haverem  sido  vendidas  metade 
dos  lucros  era  entregue  ao  credor,  ficando  para  o  devedor  a  outra  metade161.  Esta  fusão 
de  lucro  e  juro  não  constituiu  um  traço  arcaico,  e  manteve-se  durante  séculos.  Nas 
companhias  lombardas  estabelecidas  em  França  nos  séculos  XIII  e  XIV,  as  somas 
depositadas  pelos  sócios  acima  do  montante  das  suas  quotas  davam  direito  a  um  ganho 
proporcional  aos  lucros  da  sociedade,  durante  o  prazo  em  que  se  mantivessem  em 
depósito162.  De  uma  maneira  mais  genérica,  na  Itália  do  século  XIII  sucedia  muitas 
vezes  que  os  depósitos  efectuados  junto  de  negociantes  fossem  retribuídos  a  uma  taxa 
de  juro  variável,  dependente  do  resultado  dos  empreendimentos  desse  negociante163.  E 
em  Bruges,  no  final  do  período,  era  muito  possível  que  nos  empréstimos  proporciona¬ 
dos  pelos  cambistas,  e  destinados  a  investimentos  comerciais,  o  juro  estivesse  implícito 
numa  participação  do  mutuante  nos  lucros  do  negócio164.  Reciprocamente,  na  docu¬ 
mentação  genovesa  do  final  do  século  XII  restaram  contratos  em  que  os  cambistas-ban¬ 
queiros  se  comprometiam  a  pagar  aos  depositantes  não  uma  taxa  de  juro  fixa,  mas  uma 
percentagem  dos  lucros  do  banco165,  e  o  mesmo  sucedia  no  século  XV  numa  grande 
casa  bancária  florentina166.  Também  os  empréstimos  marítimos  praticados  em  Marse¬ 
lha  nos  séculos  XIII  e  XIV  previam  que  a  remuneração  do  mutuante  ocorresse  sob  a 
forma  de  uma  participação  nos  lucros167.  Em  Veneza,  no  termo  do  período,  muitos  con¬ 
tratos  de  empréstimo  de  âmbito  local  adoptaram  uma  forma  peculiar  de  commenda,  em 
que  o  mutuário,  em  vez  de  entregar  ao  mutuante  uma  fracçào  fixa  do  lucro,  lhe  pagava 
uma  percentagem  do  lucro  idêntica  à  que  seria  paga  por  uma  dada  firma  bancária,  repu¬ 
tada  naquela  praça168.  E  quando  se  sabe  que  nas  regiões  vizinhas  do  Mar  do  Norte  a 


156  Acerca  dos  contratos  de  compra  e  de  empréstimo  marítimo,  ver  M.  Balard  1 1978)  611-61 2. 

160  íd„  ibkl.,  631-632. 

161  1.  A.  Agus  (1965)  80-81;  R.  Doehaerd  (1971)  338-339. 

Ih-  R.-H.  Bautien  1992)  65. 

Em  Itália,  no  entanto,  os  investimentos  originados  fora  da  sociedade  recebiam  uma  taxa  de  juro 
fixa,  a  crer  em:  R.  de  Roover  1 1948)  40-42;  J.  K.  Hyde  (1973)  161;  Y.  Renouard  ( 1949)  123;  P.  Spuf- 
lord(  1984)  375. 

IWS.  Homer  (1963)  76. 

154  R.  de  Roover  (1948)  305.  3 1 2. 

163  Id„  ibid.,  328  n.  98:  id.  1 1953)  24:  id.  ( 1974)  201 . 

Itóld.  (1974)  201. 

Ib7  A.  E.  Sayous  ( 1935)  479-480. 

168  F.  C.  Lane  í  1973)  146.  Ver  igualmente:  G.  Luzzatto  ( 1937)  39-40. 


396 


Forma  UI  do  dinheiro 


dívida  implicada  nas  letras  obrigatórias,  ou  letras  de  feira,  podia  ser  extinta  mediante  a 
prestação  de  serviços,  nomeadamente  a  execução  de  tarefas  referentes  à  manufactura 
têxtil169,  ou  quando  se  conhecem  dois  exemplos  de  empréstimos  contraídos  por  arte¬ 
sãos  de  Montpellier  no  segundo  quartel  do  século  XIV  e  liquidados  em  trabalho170  - 
uma  prática  de  que  a  antropologia  nos  fornece  inesgotáveis  exemplos  -  será  possível 
não  equiparar  esta  situação  à  do  membro  activo  de  uma  sociedade  que  remunerava  com 
o  seu  esforço  o  adiantamento  que  lhe  fizera  o  sócio  passivo?  Em  Itália,  nos  séculos  XII 
e  XIII.  fora  usada  no  artesanato  uma  modalidade  de  associação  em  que  o  membro  pas¬ 
sivo  emprestava  os  fundos  e  o  membro  activo  trabalhava  na  oficina,  sendo  os  lucros 
divididos  entre  ambos171.  Aqui,  como  em  Montpellier  e  no  norte  do  continente,  o  juro 
estava  presente,  claro,  mas  ele  compunha-se  exactamente  de  que  fracção  do  lucro? 

A  inclusão  do  juro  na  taxa  de  câmbio  verificou-se  mesmo  naquelas  formas  relativa¬ 
mente  elementares  em  que  um  empréstimo,  praticado  numa  dada  praça  e  numa  dada 
moeda,  devia  ser  pago  noutra  praça  e  em  moeda  diferente172.  Mas  foi  sobretudo  a  letra 
de  câmbio  que  mais  plenamente  fundiu  o  crédito  com  uma  operação  cambial,  em  que  o 
juro  estava  implícito  na  taxa  de  câmbio.  Apresentando-se  como  uma  ordem  de  paga¬ 
mento.  mas  não  como  uma  promessa  explícita  de  pagamento,  a  letra  não  mencionava  a 
existência  precedente  de  uma  dívida  e  não  fazia  também  referência  a  uma  taxa  de  juro; 
apenas  a  partir  da  segunda  metade  do  século  XIV'  a  ordem  de  pagamento  começou  a  ser 
assimilada  a  uma  promessa  informal  de  pagamento17  '.  Na  prática,  o  mutuante  só  podia 
saber  o  valor  exacto  da  sua  remuneração  quando  a  soma  paga  pela  letra  num  lugar  dis¬ 
tante  lhe  era  remetida,  quer  através  de  uma  nova  letra,  desta  vez  em  sentido  inverso, 
quer  mediante  a  aplicação  de  tal  soma  na  aquisição  de  mercadorias  estrangeiras,  que  o 
mutuante  depois  importava  e  vendia  no  lugar  onde  estava  estabelecido.  O  lucro  do 
mutuante,  ou  eventualmente  o  seu  prejuízo,  vinham  da  diferença  entre  as  taxas  de  câm¬ 
bio  nas  duas  praças.  Ora.  desde  que  os  mercados  monetários  estivessem  em  equilíbrio, 
o  que  sucedia  na  maior  parte  do  tempo,  e  com  a  condição  de  não  ocorrerem  flutuações 
violentas,  os  mecanismos  cambiais  asseguravam  o  ganho  do  mutuante,  devido  a  um 
diferencial  entre  a  primeira  letra  e  a  segunda174.  Neste  período  não  se  praticava  ainda  o 
desconto  das  letras,  mas  elas  podiam  circular  na  medida  em  que  eram  compradas  e 
vendidas  a  um  preço  determinado  pelas  taxas  cambiais,  de  tal  modo  que  nas  praças 
mais  importantes,  em  que  os  mercados  monetários  estavam  perfeitamente  organizados, 
as  taxas  de  câmbio  confundiam-se.  na  realidade,  com  os  preços  de  mercado  das  letras 
de  câmbio17''. 


IM  J.-A.  van  Houtte  ( 1053)  197- 198. 

17(1  K.  L.  Reyerson  (1985)  81-82.  103. 

171  L.  Zanoni  (1970)  187. 

1  2  Th.  W.  Blomquist  (1979)  73:  R.  de  Roover  ( 1953)  32-35.  52  e  see.s. 

177  A.  P.  Usher  ( 1943)  88. 

174  F.stes  complexos  mecanismos  cambiais  são  dilucidados  com  muita  clareza  por  R.  de  Rtxwer 
( 1948)  61-64,  74  n.  76  e  83.  Ver  ainda:  R.  C.  Mueller  1 1984)  2(X).  Acerca  da  inclusão  do  juro  na  taxa 
de  câmbio  no  caso  das  letras,  ver  também:  R.  de  Roover  1 1953  )  144;  kl.  ( 1974)  1.86  e  segs..  212-213: 
VV.  E.  Luni  ( 1939-1962)  II  205. 

177  R.  de  Roover  i  1948)  54-55. 


Operações  c  conteúdo  da  Fornia  III  do  dinheiro 


397 


3 

Enquanto  modalidade  intermédia  entre  o  crédito  e  a  sociedade  comercial,  a  prática 
do  seguro  foi  assumindo  ao  longo  deste  período  formas  muito  diversas,  e  algumas  delas 
relativamente  inovadoras.  Ora,  isto  não  teria  ocorrido  se  aquelas  duas  facetas  dos  negó¬ 
cios  não  estivessem  intimamente  combinadas,  o  que  demonstra,  uma  vez  mais,  a  ausên¬ 
cia  de  linhas  demarcatórias. 

O  seguro  consistia  inicialmente  numa  partilha  do  risco  entre  os  vários  membros  de 
um  grupo,  e  nesta  perspectiva  talvez  a  sua  origem  se  possa  remeter  às  confrarias  e 
outras  associações  de  auxílio  mútuo1  6.  No  começo  do  período,  quando  todos,  ou  quase 
todos,  os  mercadores  de  longo  curso  recorriam  à  velha  prática  do  tráfico  em  carava¬ 
nas17',  e  mesmo  bastante  mais  tarde,  nas  situações  em  que  o  sistema  se  manteve, 
nomeadamente  nas  travessias  marítimas,  constituíam-se  grupos  de  viajantes  que  pro¬ 
metiam  reciprocamente  ajuda  e  protecção178.  Noutros  casos  a  solidariedade  era  mais 
estreita,  e  a  partir  do  século  XJI  difundiram-se  contratos  em  que  grupos  de  armadores 
punham  em  comum,  durante  um  dado  prazo,  tanto  os  riscos  que  podiam  correr  como  os 
seus  lucros,  em  proporção  do  montante  que  tivessem  investido  no  empreendimento1 7g. 
No  final  do  século  Xlll  os  negociantes  portugueses  dedicados  ao  tráfego  com  a  Flan- 
dres  e  com  outras  praças  setentrionais  criaram  uma  bolsa,  que  seria  alimentada  por  uma 
contribuição,  variável  consoante  a  tonelagem  das  embarcações,  e  reservada  para  despe¬ 
sas  de  interesse  comum180.  E  cem  anos  mais  tarde  sabe-se  que  estava  desde  há  algum 
tempo  em  funcionamento  entre  os  mercadores  portugueses  no  porto  normando  de  Hon- 
fleur  uma  bolsa  destinada  a  custear  a  obtenção  de  privilégios  comerciais  no  reino  de 
França181.  Este  género  de  instituição,  servindo  de  quadro  a  uma  intervenção  conjunta 
de  um  amplo  grupo  de  homens  de  negócios,  aproxima-se  dos  casos  em  que  os  partici¬ 
pantes  numa  mesma  caravana  formavam  uma  sociedade,  transaccionando  colectiva- 
mente  e  repartindo  depois  entre  si  os  artigos  adquiridos  e  os  lucros  do  empreendi¬ 
mento.  É  talvez  possível  considerar  estas  colectividades  como  longínquas  predecesso¬ 
ras  das  companhias,  embora  a  sua  difusão  geográfica  tivesse  sido  superior.  Por  exem¬ 
plo,  encontramo-las  entre  os  mercadores  judeus  activos  nas  rotas  da  Rússia18’.  Mas 
este  tipo  de  associação  não  deixou  de  existir:  e  muito  mais  tarde,  na  área  colonial  geno- 
vesa,  a  nnihone  de  Chio  e  das  duas  Phóceas  adquiriu  a  partir  dos  meados  do  século 
XIV  o  direito  de  superintender  o  cultivo,  a  colheita  e  a  comercialização  de  certas  maté¬ 
rias-primas,  vendendo-as  em  bloco  e  sendo  os  lucros  distribuídos  entre  os  sócios. 


l7M..  A  Boitcux  <196X1  37. 

1,7  I  A.  Agus  (1965)  30  n.  a  mi  afirma  que  a  documentação  relativa  aos  mercadores  judeus  nos 
séculos  X  e  XI  não  revela  a  existência  de  qualquer  comércio  em  caravanas  no  noroeste  do  continente: 
mas  na  mesma  época,  no  tráfico  de  leste,  nas  rotas  da  Rússia,  os  negociantes  judeus  reuniam-se  em 
caravanas,  a  crer  em  .1.  Brut/kus  ( 1943)  39. 

|7*l„  A.  Boiteux  (1968)41-42. 

179  !d„  íbid..  42-43. 

1X11  H.  G.  Barros  (1945-  (954)  IX  357-35X. 

1X1  A.  Sousa  11994]  381. 

1X7  J.  Brutzkus  (1943)  39. 


Forma  ///  do  dinheiro 


398 


depois  de  deduzidas  as  despesas  originadas  pela  administração  e  a  defesa  militar 
daqueles  territórios.  Em  seguida,  a  formação  de  uma  nova  mahone  levou  a  que  ambas 
se  reservassem  uma  parte  da  produção  e  delimitassem  áreas  onde  cada  uma  teria  prati¬ 
camente  o  exclusivo  das  vendas  a  um  preço  determinado,  definindo-se  outras  áreas 
onde  as  receitas  das  vendas  seriam  divididas  pelas  duas  sociedades183.  Mais  curioso 
ainda,  como  exemplo  de  conjugação  de  novidade  e  tradição,  é  o  caso  de  Veneza. 

Em  Veneza,  onde  a  dite  mercantil  instaurou  e  manteve  uma  estrita  oligarquia,  a 
autoridade  pública  encarregou-se  de  uma  pane  considerável  dos  riscos  marítimos.  Com 
efeito,  no  século  XIV,  durante  os  anos  em  que  foi  mais  iminente  o  perigo  de  guerra  no 
Mediterrâneo,  o  Estado  veneziano  assumiu  a  propriedade  das  grandes  galeras  que 
transportavam  mercadorias  rumo  à  área  bizantina  e  ao  Levante,  organizou-as  em  via¬ 
gens  colectivas  segundo  o  modelo  das  frotas  de  guerra  e  pôs  funcionários  governamen¬ 
tais  a  comandá-las.  No  segundo  quartel  desse  século  as  galeras  estatais  passaram  a  ser 
alugadas  em  leilão  a  negociantes,  individualmente  ou  em  sociedade,  pelo  prazo  de  uma 
viagem  e  em  condições  rigorosamente  definidas,  continuando  no  entanto  a  caber  ao 
Senado  a  organização  e  o  comando  da  frota.  Apesar  de  só  uma  pequena  parte  dos  bar¬ 
cos  de  comércio  se  integrar  neste  sistema  e  de  a  maioria  das  galeras  obedecer  ao  regime 
de  propriedade  privada  e  navegar  fora  das  frotas  oficiais,  a  intervenção  estatal  foi 
duplamente  importante  porque  incidiu  nas  principais  rotas  de  tráfico  e  ocorreu  nos 
momentos  de  maior  perigo.  Além  disso,  a  partir  de  meados  do  século  praticamente 
todas  as  grandes  galeras  mercantis  foram  construídas  nos  estaleiros  do  Estado,  o  que 
representava  mais  uma  iniciativa  das  autoridades  ern  apoio  ao  tráfico  de  longo  curso184. 
Em  Veneza,  a  profunda  desigualdade  do  sistema  fiscal,  que  onerava  a  esmagadora 
maioria  da  população,  serviu  para  atenuar  a  insegurança  dos  negócios,  em  benefício  de 
quem  extraía  deles  os  lucros  mais  avultados.  Neste  contexo.  em  que  a  elite  mercantil  se 
apresentava  como  uma  colectividade  solidamente  estruturada,  não  espanta  que  subsis¬ 
tissem  os  velhos  métodos  que  vimos  já  terem  sido  praticados  em  épocas  anteriores 
pelos  negociantes  judeus  nos  mercados  eslavos,  e  sucedia  agora  que  todos  os  comer¬ 
ciantes  que  participavam  na  viagem  de  uma  frota  veneziana  se  reunissem  numa  asso¬ 
ciação  única,  para  venderem  em  bloco  as  suas  mercadorias  e  do  mesmo  modo  adquiri¬ 
rem  outros  artigos  nos  portos  de  destino18-'. 

Tratava-se  sem  dúvida  de  uma  prática  generalizada.  Na  colónia  formada  na  Flandres 
pelos  portugueses,  todos  eles  punham  em  comum  a  fruta  seca,  que  constituía  então  o 
seu  principal  artigo  de  exportação,  e  a  mercadoria  era  vendida  por  um  único  comer¬ 
ciante,  sendo  depois  os  ganhos  distribuídos  entre  todos,  consoante  o  lote  que  cada  um 
havia  trazido186.  Desta  maneira  os  comerciantes  evitavam  que  a  concorrência  os  divi¬ 
disse  e  apareciam  em  posição  favorável  nas  praças  estrangeiras,  impondo  preços  de 


IS4M.  Balardi  1978)  746. 

184  Acerca  da  intervenção  do  Estado  veneziano  na  organização  das  frotas  comerciais  e  na  constru¬ 
ção  das  galeras  consultar  sobretudo  F.  C.  Lane(1944)  178.  187-188,  193  e  (1973)  128-132.  Acesso¬ 
riamente,  ver  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  359. 

F.  C.  Lane  (1973)  51. 

186  A.  H.  O.  Marques  (1965)  237-238. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  UI  do  dinheiro 


d  99 


venda  altos  e  forçando  preços  baixos  na  compra187.  Mas  havia  ainda  outro  tipo  de  con¬ 
sequências.  que  decerto  não  foram  menos  importantes,  pois  o  facto  de  os  negócios  se 
efectuarem  colectivamente  diminuía  os  riscos  económicos  a  que  cada  um  dos  mercado¬ 
res  estava  exposto.  As  associações  de  carácter  global  não  se  circunscreveram,  aliás,  ao 
tráfico  em  caravana  e  às  colónias  no  exterior,  e  do  século  XIV  em  diante  difundiu-se 
em  muitas  cidades  a  promulgação  de  normas  que  garantiam  a  todos  os  compradores 
uma  fracção  igual  em  todas  as  mercadorias  postas  no  mercado188. 

Mas  não  foram  estas  as  modalidades  de  seguro  inovadoras,  e  outras  tiveram  de 
surgir  ao  longo  do  período.  Mesmo  na  fase  em  que  os  negócios  eram  conduzidos  de 
maneira  itinerante,  a  estrutura  das  associações  de  mercadores  alterou-se  e  tomou-se 
mais  sistemática  e  durável.  De  início  estas  associações  haviam  sido  estritamente  tem¬ 
porárias,  limitando-se  à  duração  da  viagem189,  mas  depois  a  regularidade  do  tráfico 
tomou-as  permanentes  e  elas  passaram  a  incluir  todos  os  comerciantes  de  uma  dada 
região,  ou  que  usavam  uma  mesma  rota,  ou  que  frequentavam  uma  mesma  praça190. 
Em  geral,  este  novo  quadro  era  demasiado  vasto  para  poder  funcionar,  como  no  sistema 
precedente,  enquanto  colectividade  de  negócios  única191,  e  no  seu  interior  desenvolveu- 
-se  aquela  multiplicidade  de  novos  tipos  de  associação  que  tenho  vindo  a  analisar.  Ora. 
todas  as  fornias  de  sociedade  implicavam  uma  divisão  dos  riscos  entre  os  membros192. 
O  facto  de  os  grandes  mercadores  procederem  a  uma  pluralidade  de  empreendimentos, 
e  em  vários  ramos  ao  mesmo  tempo,  ajudava,  por  si  só,  a  dispersar  as  possibilidades  de 
acidente193,  tal  como  contribuía  para  idêntico  fim  o  hábito  de  repartir  as  mercadorias 
por  diversos  barcos199,  e  quanto  mais  um  comerciante  multiplicasse  as  sociedades  a 
que  pertencia  e  dividisse  os  seus  investimentos  por  todas  elas.  tanto  mais  protegido 
estava.  Mas  o  que  transformou  profundamente  a  prática  seguradora  foi  o  uso  do  crédito 
e  a  versatilidade  das  sociedades  comerciais. 

Se  o  seguro  era  uma  divisão  do  risco,  qualquer  sociedade  em  que  as  responsabilida¬ 
des  fossem  partilhadas  continha  uma  forma  de  seguro.  Foi  assim  que  em  Génova  e 
Veneza  progrediram  os  negócios  e  se  acumularam  fortunas,  apesar  das  ameaças  e  aven¬ 
turas  do  tráfico  marítimo195.  Com  efeito,  parece  que  naquela  época  as  situações  de 


187  F.  C.  Lane  (1973  )  51. 

188 1.  A.  Agus  ( 1965)  221. 

189  R.  de  Roover  (1955)  26;  G.  Duby  (1975)  269-270;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  259-260:  Y. 
Renouard  (1949) 44. 

190  E.  Ennen  (1979)  129;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  259-260. 

191  E.  Ennen  (1979)  130. 

192  L.  A.  Boiteux  (1968  )  45;  Ph.  Dollinger  (1964)  207;  G.  Luzzatto  (1957)  40;  Y.  Renouard 
(1941)41. 

Sem  a  associação  de  capitais,  observa  G.  Luzzatto  <  1967)  240  e  segs.  a  propósito  da  expansão  do 
comércio  italiano  de  longo  curso,  teria  sido  impossível  enfrentar  os  riscos  do  tráfico.  Mas  depois  de 
comentar  que  a  intervenção  do  sócio  passivo  representava  como  que  um  seguro  marítimo  para  o  sócio 
activo,  J.  Piquet  ( 1939)  69  e  n.  1  acrescenta  que  tal  função  era  meramente  acessória. 

,9'  J.  Day  ( 1994)  197;  R.  de  Roover  ( 1974)71;  E.  Ennen  ( 1979)  130;  F.  C.  Lane  ( 1973)  51-52;  Y. 
Renouard  ( 1949)  43-44;  A.  Saporí  ( 1951 )  694. 

194  F.  C.  Lane  (1944)  191. 

195  E.  Perroy  et  a).  (1955  )  358-359. 


400 


Forma  III  do  dinheiro 


perigo  maior  e  mais  frequente  ocorreriam  nas  viagens  por  mar190.  Por  isso,  a  divisão 
dos  navios  num  número  crescente  de  quotas  não  se  destinou  apenas  a  aumentar  os  fun¬ 
dos  necessários  para  promover  construções  cujo  porte  se  ia  tomando  cada  vez  mais 
considerável,  mas  contribuiu  igualmente  para  dispersar  os  riscos,  tanto  mais  funestos 
quanto  mais  avultado  havia  sido  o  investimento197,  É  elucidativo  considerar  que  em 
Marselha,  por  exemplo,  durante  o  século  XIII,  quando  os  contratos  de  sociedade  eram 
ainda  raros  nas  relações  comerciais,  eles  constituíam  já  a  regra  no  fabrico  de  barcos  e 
na  navegação  marítima198.  Também  em  Marselha,  e  na  mesma  época,  os  contratos  de 
compra  a  crédito  destinados  ao  tráfico  no  Mediterrâneo  podiam  incluir  cláusulas  que 
anulavam  as  obrigações  do  mutuário  no  caso  de  a  viagem  ter  sido  funesta199,  o  que 
representava  uma  forma  explícita  de  divisão  dos  riscos  marítimos. 

Neste  contexto,  foi  um  passo  bastante  simples  o  que  permitiu  passar  do  seguro 
enquanto  forma  de  divisão  do  risco  entre  os  membros  de  uma  sociedade  comercial  para 
a  constituição  de  sociedades  exclusivamente  destinadas  a  assumir  funções  seguradoras. 
Não  se  tratou  de  uma  novidade  absoluta.  O  direito  romano  conhecera  já  o  fanus  muni¬ 
am.  um  contrato  mediante  o  qual  dinheiro  ou  bens  eram  emprestados  ao  proprietário 
de  um  barco,  assumindo  o  credor  o  ónus  do  risco  durante  a  viagem  marítima,  mas 
cabendo  ao  devedor  o  ónus  de  eventuais  prejuízos  comerciais  na  praça  de  chegada. 
Como  a  lei  permitia  que  durante  o  prazo  correspondente  à  viagem  marítima  o  mutuante 
cobrasse  uma  taxa  de  juro  dupla  da  usual,  enquanto  remuneração  do  risco-00,  podemos 
considerar  que  no  juro  estava  incluído  o  prémio  e  que  esta  modalidade  adicionava  um 
contrato  de  empréstimo  e  um  contrato  de  seguro.  Ora.  nos  portos  italianos,  parece  que 
especialmente  no  século  XII.  era  corrente  que  os  mercadores,  antes  de  iniciarem  uma 
viagem  marítima,  contraíssem  um  empréstimo,  com  juros  bastante  superiores  aos  habi¬ 
tuais,  mas  encarregando-se  o  mutuante  dos  riscos  da  viagem;  a  soma  adiantada,  acres¬ 
cida  dos  juros,  ou  devia  ser  reembolsada  no  lugar  de  partida  por  ocasião  do  regresso  do 
mutuário,  e  neste  caso  o  pagamento  efectuava-se  na  mesma  moeda  usada  para  o 
empréstimo,  ou,  com  menos  frequência,  a  dívida  era  cancelada  na  praça  de  destino, 
empregando-se  então  a  moeda  local,  o  que  implicava  que  juntamente  com  o  crédito  e  o 
seguro  ocorria  uma  operação  de  câmbio-01.  Pelo  menos  em  Veneza  o  juro  neste  tipo  de 


l9<>  G.  Luzzailo  (1967)  218;  R.  Pemoud  ( 1948)  107,  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  358-359;  V.  Renouard 
(1941)41,  107;  id.  ( 1949)  43-44,  63. 

No  entanto,  depois  de  afirmarem  que  o  transpone  marítimo  era  muito  mais  importante  do  que  o 
terrestre,  espeeialmentc  no  tráfico  de  longo  curso.  R.  S.  I.opez  et  al.  (1955)  239  especificam  que  ele 
era  mais  barato,  era  geralmcnte  mais  rápido  c  com  frequência  sc  revelava  mais  seguro. 

197  J.  Day  (1994)  198;  Ph.  Dollinger  (1964)  193;  G  Luzzatto  (1937)  42-43;  id.  (1967)  218;  R. 
Pemoud  ( 1949)  200-201;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  359;  Y.  Renouard  ( 1949)  52. 

M.  M.  Postan  (1957)  544  pretende  que  o  facto  de  várias  pessoas  se  associarem  para  deter  a  pro¬ 
priedade  de  um  navio  não  correspondia  a  uma  forma  de  seguro  e  limilava-.se  a  distribuir  o  ónus  do 
risco.  Mas  parece-me  que  a  génese  do  seguro  se  encontra  precisamente  na  partilha  do  risco. 

A. -E.  Sayoust  1935.1472. 

I9U  Id..  ibid..  472. 

-1*'  Acerca  do/ceims  nauticum  ver  J.  T.  Noonan  Jr  1 1957)  134. 

3,)1  M.  Balard  <  1978)  601.  613-614.  631-632;  G.  Craceo  1 1967)  12.  38.  42;  F.  C.  Lane  ( 1973)  52; 
G.  Luzzatto  (1961  b)  82;  id.  (1967)  240-242;  F.  Perroy  et  al.  (  1955)  359.  Y.  Renouard  ( 1940)  103. 


401 


Operações  c  contenda  da  Forma  III  do  dinheiro 


empréstimos,  além  de  espeeialmente  elevado,  era  proporcional  à  duração  da  viagem  e  à 
distancia  a  que  ficava  o  porto  de  destino20-,  o  que  acentua  a  função  seguradora,  e  não 
comercial,  do  contrato.  A  situação  não  era  diferente  em  Marselha  nos  séculos  XIII  e 
XIV,  quando  os  negociantes  que  pretendiam  enviar  as  suas  mercadorias  por  barco 
recorriam  a  uma  forma  de  empréstimo  espeeialmente  oneroso  no  caso  de  a  nave  chegar 
sem  percalços  a  bom  porto,  mas  que  não  deveria  ser  reembolsado  se  a  viagem  tivesse 
sido  catastrófica20’.  E  desde  os  meados  do  século  XIV  está  documentada  também  a 
existência  de  crédito  marítimo  em  Barcelona204.  A  partir  do  momento  em  que  o  risco 
do  transporte  viesse  a  ficar  clarainente  separado  do  risco  comercial  e  fosse  objecto  de 
estipulações  próprias,  estaria  identificado  o  contrato  de  seguro. 

A  nova  técnica  seguradora  apareceu  primeiro  em  Itália  no  final  do  século  XIII  ou 
no  começo  do  século  seguinte20-,  e  aplicou-se  sobretudo  ao  transporte  marítimo206. 
Mediante  uma  variedade  de  formas  de  contrato,  chegava-se  a  uma  situação  em  que  uma 
das  partes  se  encarregava  exclusivamente  do  risco,  sem  proceder  a  qualquer  adianta¬ 
mento  de  fundos  de  tipo  comercial,  e  em  troca  recebia  antecipadamente  um  prémio,  de 
montante  obviamente  inferior  ao  que  era  estipulado  nos  casos  em  que  o  membro  pas¬ 
sivo  de  uma  sociedade,  além  de  suportar  o  ónus  do  risco,  adiantava  também  mercado¬ 
rias  ou  fundos207.  Mas  esta  modalidade  de  transmissão  do  risco  só  se  viria  a  generalizar 
após  o  final  do  período,  e  por  enquanto  uma  área  de  tráfico  tão  vasta  como  era  a  liga 
hanseática  não  usou  o  seguro  remunerado  sob  forma  de  prémio208.  Mesmo  Marselha, 
apesar  de  muito  próxima  dos  centros  mercantis  italianos,  não  parece  ter  recorrido  a  este 
sistema  de  seguro  antes  do  século  XV2W,  embora  a  sua  prática  esteja  documentada  em 
Barcelona  desde  os  meados  do  século  XIV210.  Reduzida  à  expressão  mais  simples,  tra- 
lava-se  de  associar  um  passivo,  que  se  limitava  a  cobrir  os  riscos,  a  um  activo,  que  pres¬ 
cindia  de  uma  parte  dos  lucros,  em  benefício  do  passivo,  para  se  dedicar  com  maior 
tranquilidade  aos  seus  negócios.  Ora,  o  crédito  obedecia  precisamente  a  este  modelo.  O 
seguro  era  uma  modalidade  transformada  de  crédito,  em  que  o  adiantamento  de  fundos 
estava  implícito  no  facto  de  o  segurador  se  encarregar  dos  riscos,  tomando-se  efectivo 
apenas  se  estes  ocorressem,  e  em  que  o  juro  assumia  a  forma  do  prémio. 

Graças  a  este  novo  tipo  de  seguros,  os  mercadores  puderam  abandonar  práticas  de 
divisão  dos  riscos  a  que  até  então  haviam  recorrido,  e  fomentou-se  a  concentração  da 


202  G.  Luzzutto  ( 1  %  I  t>)  82. 

-0-1  A.-E.  Sayous  ( 1935)  472.  478-479.  Ver  ainda:  E.  Baratieret  al.  (1955)  I  83. 

2(M  J.  N.  Hillganh  ( 1976-1978)  fl  18 
2(J?  L.  A.  Boiteux  1 1968  )  9. 

A.-E.  Sayous  1 1935)  478-479  afirma  que  o  seguro  marítimo  remunerado  por  prémio  começou  a 
vigorar  em  Génova  no  século  XIV.  com  a  contribuição  de  financeiros  florentinos. 

206  R.  S.  Lopez  ct  al.  ( 1955)  256  advertem  que  os  seguros  de  vida  e  os  seguros  no  transporte  ter 
restre  não  alcançaram  a  importância  dos  seguros  destinados  ao  tráfico  por  mar. 

207  M.  Balatd  (1978)  632-633;  L.  A.  Boiteux  (1968)  77;  F.  C.  Lane  (1973)  141:  Y.  Renouard 
1 1949)  103. 

2ülS  J.  Dav  ( 1994)  198-199;  Ph.  Dollmger  1 1964)  193-194. 

209  A.-E.’ Sayous  ( 1935)  479. 

210  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  II  18. 


402 


Forma  UI  cio  dinheiro 


actividade  comercial  em  empreendimentos  de  maior  vulto’1 Por  seu  lado,  no  entanto, 
os  seguradores  continuaram  a  repartir  os  riscos  entre  si,  de  maneira  que  em  Génova,  no 
termo  do  período,  podia  acontecer  que  um  mesmo  comerciante,  para  uma  mesma  via¬ 
gem.  contratasse  com  duas  dezenas  de  seguradores212.  Sob  este  ponto  de  vista,  e  antes 
do  aparecimento  das  firmas  de  resseguros,  que  colocaram  os  seguradores,  perante  o 
risco,  numa  posição  equiparável  à  dos  segurados,  a  única  novidade  veio  dos  dois  prin¬ 
cipais  portos  portugueses.  Parece  que  nos  primeiros  anos  do  último  quartel  do  século 
XIV  foi  criada  por  determinação  régia,  no  Porto  e  em  Lisboa,  uma  vasta  associação 
colectiva  de  seguros  marítimos,  sustentada  por  uma  quotização  de  2%  sobre  o  valor  das 
cargas,  e  à  qual  competia  indemnizar  as  vítimas  de  sinistro,  tanto  proprietários  de 
navios  como  comerciantes  que  neles  tivessem  mercadorias21 ’.  Todavia,  ou  a  instituição 
declinou  ou  não  chegou  sequer  a  entrar  em  funcionamento214,  porque  nos  derradeiros 
anos  daquele  século  os  negociantes  do  Porto  pediram  ao  novo  monarca  a  sua  reactiva- 
ção215.  Uma  associação  deste  tipo  continuava,  por  um  lado,  a  tradição  das  velhas  colec- 
tividades  de  mercadores,  agrupados  consoante  as  rotas  de  tráfico  ou  a  praça  estrangeira 
que  frequentavam,  mas.  por  outro  lado,  assumia  agora  funções  seguradoras  e,  quanto  à 
cobertura  dos  riscos,  aparecia  como  um  colossal  membro  passivo  em  relação  a  cada  um 
dos  comerciantes  individualmente  considerados. 

4 

Depois  de  ter  procedido  à  tipologia  das  várias  sociedades  comerciais  e  das  várias 
modalidades  de  empréstimos  e  de  seguros,  verificamos  que  a  delimitação  de  cada  uma 
corresponde  a  necessidades  de  análise,  mas  que  na  época  era  possível  alguém  situar-se 
em  qualquer  lugar  da  teia216  e  umas  formas  convertiam-se  facilmente  noutras.  Em  caso 
nenhum  se  definiram  originariamente  fronteiras  claras,  e  as  próprias  concepções  jurídi¬ 
cas  reflectiam  esta  fluidez  e  recusavam-se  a  demarcar  instituições  que  muitos  historia¬ 
dores  hoje  apresentam  como  se  tivessem  sido  fixas.  Para  aquelas  mentalidades  e  para  as 
práticas  então  correntes  a  commenda  e  a  soei  elas  nutris  nunca  estiveram  perfeitamente 
distintas,  mesmo  a  nível  vocabular,  sendo  consideradas  mais  como  duas  aplicações  de 
um  mesmo  contrato  do  que  como  dois  tipos  de  contrato  diferentes21 Por  sua  vez.  em 
Inglaterra  nem  a  lei  nem  os  costumes  separavam  as  associações  mercantis  que  seguiam 
o  modelo  da  companhia  das  que  obedeciam  ao  padrão  da  societcis  nutris1'*. 


211  R.  de  Roover  ( 1942)  35:  id.  (1948)  12;  Y  Renouard  ( 1949)  105. 

2,2  M.  Balardl  1978)  634. 

21  2  H.  G.  Barros  (1945-1954)  IX  358;  L.  A.  Boiteux  (1968)  40. 

214  L.  A.  Boiteux  (1968)  41  admite  que  o  projecto  nunca  tivesse  sido  posto  em  prática,  mas  A. 
Sousa  [1994]  381  limita-se  a  mencionar  o  seu  declínio. 

215  A.  Sousa  |I994]  381. 

21,1  Ser  socius  era  pertencer,  em  qualquer  posição,  a  qualquer  tipo  de  sociedade,  adverte  M.  M. 
Postan  ( 1957)  546.  acrescentando  que  o  sentido  dessa  palavra  era  amplo  e  vago 

217  G.  Luzzatto  (1967)  242:  J.  H.  Pryor  ( 1977)  9-13;  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  16.  25-26. 

M.  Balard  <  1978)  602  e  R.  S.  Lopez  (1965)  144  observam  o  carácter  flexível  da  commenda. 

21S  M.  M.  Postan  ( 1957)  543,  545. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


403 


A  ausência  de  linhas  de  demarcação  claras  e  a  passagem  graduai  de  umas  fornias  de 
associação  e  de  crédito  para  outras  chegavam  a  tal  ponto  que  vários  tipos  de  sociedade 
difundidos  no  meio  mercantil  parecem  inspirados  por  modelos  de  associação,  ou  de 
exploração,  existentes  desde  muito  cedo  noutros  âmbitos  de  actividade,  alguns  caracte- 
rizadamente  rurais219.  No  movimento  dos  desbravamentos,  que  imprimiu  a  este  período 
toda  a  dinâmica  (ver  na  Parte  II  os  capítulos  14,  15  e  16),  foi  bastante  comum  que  os 
senhores  laicos,  detentores  de  áreas  que  gostariam  de  ver  arroteadas  e  povoadas,  recor¬ 
ressem  à  colaboração  de  estabelecimentos  religiosos,  cujos  contactos  a  longa  distância 
e  numa  multiplicidade  de  regiões  facilitavam  o  recrutamento  de  colonizadores  e  cujos 
tesouros  permitiam  obter  rapidamente  liquidez  e  créditos.  Como  os  lucros  eram  parti¬ 
lhados  a  meias220,  afigura-se-me  incontestável  a  similitude  da  parte  laica  com  o  mem¬ 
bro  passivo  e  da  parte  eclesiástica  com  o  membro  activo  da  societas  maris.  Uma 
variante  do  mesmo  sistema  ocorreu  na  Gasconha  inglesa.  Quando  o  duque-rei  implan¬ 
tava  cidades  em  terras  que  não  se  integravam  no  seu  conjunto  senhorial,  ele  constituía 
uma  sociedade  com  o  senhor  local,  em  que  este  fornecia  o  lugar  da  futura  povoação  e  o 
soberano  assegurava  aos  habitantes  a  sua  protecção  superior  e  lhes  concedia  vários 
benefícios,  sendo  divididos  entre  ambos  os  senhores,  e  geralmente  em  partes  iguais,  os 
rendimentos  originados  com  a  cidade.  Cerca  de  metade  das  fundações  urbanas  na  Gas¬ 
conha  inglesa  obedeceu  a  este  modelo,  e  a  prática  difundiu-se  muito  noutras  regiões  do 
sul  da  França22 1 . 

Do  mesmo  modo,  embora  num  âmbito  bem  mais  modesto,  já  antes  do  início  do 
período  que  a  viticultura  na  França  meridional  e  na  Catalunha  foi  ampliada  graças  a 
contratos  entre  um  dono  de  terras  e  um  agricultor,  estipulando-se  que  passados  cinco 
ou  sete  anos,  quando  as  plantas  começassem  a  render,  o  campo  seria  dividido  entre 
ambos  os  participantes  em  duas  partes  iguais222.  Se  considerarmos  que  nesta  forma 
peculiar  de  associação  o  membro  activo  não  se  limitava  a  entrar  com  a  sua  força  de  tra¬ 
balho,  mas  também  com  instrumentos  e  outros  meios  de  produção,  vemos  que,  uma  vez 
mais,  não  se  estava  longe  do  modelo  da  societas  maris.  Com  uma  amplitude  mais  gené¬ 
rica,  os  contratos  de  arrendamento  de  terras  a  curto  prazo  eram  considerados  em  Itália 
como  um  tipo  de  societas2-'',  apresentando-se  o  senhor  como  sócio  passivo  e  o  campo- 


Note-se  que  para  este  autor  tp.  524)  a  eolleyaniia.  a  que  ele  se  refere,  é  sinónimo  da  societas 
maris. 

219  Consultar  em  geral  G.  Duby  ( 1062)  633-634.  É  estranho  que  este  historiador,  em  (1073)  290  e 
segs.,  possa  considerar  como  manifestação  de  uma  mentalidade  capitalista  a  constituição  de  associa¬ 
ções  em  que  o  dono  da  terra  adiantava  os  fundos  e  o  camponês  participava  com  o  trabalho,  sendo  os 
ganhos  divididos  a  meias,  e  é  mais  curioso  ainda  que  ele  restrinja  o  fenómeno  ao  território  rural  das 
cidades  italianas.  O  próprio  Georges  Duby,  como  veremos  já  em  seguida,  indicou  a  existência  de  rela¬ 
ções  semelhantes  noutras  regiões,  comereialmeme  menos  evoluídas,  e  entre  personagens  aos  quais 
nada  permite  atribuir  um  comportamento  capitalista. 

220  Acerca  destas  associações  entre  um  senhor  laico  e  um  senhor  eclesiástico  ver  id.  (1973)  231- 
-234. 

221  Quanto  ao  sistema  usado  para  a  fundação  de  cidades  na  Gasconha  inglesa  e  à  sua  repercussão 
noutras  regiões,  ver  M  Beresford  ( 1 967 )  99- 101  e  132. 

222  P.  Bonnassie  (1975- 1976)  230-231;  G.  Duby  ( 1962)  238-239. 

222  J.  K.  Hyde  ( 1973)  181;  Ph.  Jones  1 1966  b)  414. 


404 


Forma  lll  do  dinheiro 


nês  como  sócio  activo,  o  que  não  impedia  estes  contratos,  tal  como  os  contratos  comer¬ 
ciais  propriamente  ditos,  de  servirem  de  quadro  ao  assalariamento-24. 

E  em  numerosíssimas  regiões  a  pecuária  parece  ter  sido  especialmente  propensa  à 
constituição  de  associações  semelhantes  à  societas  moris.  reunindo  um  passivo,  que 
fornecia  os  animais,  sem  contudo  perder  os  seus  direitos  de  proprietário,  e  um  activo, 
que  cuidava  do  gado,  se  encarregava  dos  custos  da  exploração  e,  além  disso,  participava 
com  os  pastos  que  possuía  ou  sobre  os  quais  tinha  direitos  de  uso.  No  termo  do  prazo 
os  produtos  e  ganhos  obtidos  directamente  ou  graças  à  aplicação  da  força  dos  animais 
podiam  repartir-se  consoante  critérios  muito  variados,  que  incluíam  a  divisão  em  duas 
metades,  numa  verdadeira  forma  de  sociedade,  sendo  os  riscos  também  suportados  a 
meias,  quando  não  cabiam  todos  ao  activo;  ou  podia  suceder  que  a  associação  corres¬ 
pondesse  de  facto  a  uma  angariação  de  serviços  com  remuneração  em  géneros225. 

Finalmente,  em  Inglaterra  recorria-se  com  tanta  frequência  a  um  tipo  de  encargo 
pelo  qual  uma  pessoa,  sem  adquirir  quaisquer  direitos  de  propriedade,  se  comprometia 
a  fazer  render  continuamente  fundos  alheios  durante  um  dado  prazo,  que  muitas  vezes 
as  associações  comerciais  com  o  carácter  de  commenda  puderam  usar  esse  quadro,  sem 
necessitarem  de  firmar  formalmeme  contratos226. 

É  impossível  que  uma  semelhança  tão  flagrante  entre  os  contratos  efectuados  no 
comércio,  os  efectuados  na  agropecuária  e  mesmo  outros,  realizados  em  qualquer  nível 
da  vida  social,  não  revelasse  a  existência  de  padrões  de  relacionamento  muito  mais 
amplos  e  enraizados  do  que  os  estritamente  mercantis.  Aliás,  o  facto  de  alguns  destes 
modelos  de  associação  terem  surgido  no  meio  rural  antes  -  por  vezes  muito  antes  -  de 
se  difundirem  no  tráfico  de  longo  curso  mostra  que  não  se  tratava  de  uma  influência 
das  práticas  comerciais  sobre  as  outras  esferas  de  activ idade,  mas  do  desenvolvimento 
de  formas  de  associação  que  se  repercutiam  em  todos  os  meios22  .  Para  prosseguir 
nesta  perspectiva  seria  necessário,  porém,  abandonar  a  matéria  que  comummente  se 
atribui  à  história  e  entrar  na  antropologia.  Basta,  por  exemplo,  recordar  que  no  Uganda, 
onde  as  reses  podiam  ser  usadas  como  meio  de  pagamento  de  somas  recebidas  previa¬ 
mente.  acontecia  com  frequência  que  os  chefes  entregassem  as  suas  cabras  para  serem 
criadas  pelos  súbditos,  obtendo  em  troca  um  terço  das  crias228. 


-;4  Ph.  Jones  ( 1  %6  b>  414. 

Acerca  das  associações  na  exploração  pecuária  ver:  F.  Foumial  (19671  682-683:  E.  Perrov 
(1962-1963)  18-19. 

M.  M.  Postai)  ( 1957)  534-535.  539-54Ü. 

-:7  E.  Perroy  et  al.  (1955)  364  pretendem  que  os  contratos  cm  que  o  proprietário  dos  animais  os 
confiava  a  um  criador,  com  panilha  final  do  produto  indicavam  que  o  espirito  mercantil  começara  a 
animar  a  vida  rural.  Mas  com  o  mesmo  direito  se  poderia  atirmar  que  os  modelos  de  sociedade 
comercial  denotavam  a  persistência  de  um  espirito  rural  no  meio  mercantil.  Creio  que  importa  aqui 
considerar  a  simbiose  entre  as  várias  esferas  de  activ  idade. 

--*1  P.  F.in/ie  1 1948;  13.3. 


Operações  e  conte  fulo  da  Fornia  III  do  dinheiro 


405 


5 

A  Forma  III  do  dinheiro,  em  qualquer  das  suas  modalidades,  surgiu  e  desenvolveu- 
-se,  sobretudo  na  segunda  metade  do  período,  no  interior  da  vasta  teia  que  ligava  todos 
estes  tipos  de  sociedades  e  de  operações  mercantis.  E  se  as  grandes  fortunas  da  época 
não  se  fizeram  cunhando  dinheiro,  mas  negociando  dinheiro*1-9,  isto  pôde  suceder  por¬ 
que  assentou  no  crédito  a  expansão  do  tráfico  de  longo  curso2’0  e  porque  o  crédito  era 
ao  mesmo  tempo  gerador  de  instrumentos  pecuniários.  Nos  termos  de  uma  economia 
de  troca  de  presentes,  da  qual  o  regime  senhorial  nunca  se  afastou,  o  crédito  convertia 
uma  transacção  num  escambo  em  que  a  acção  recíproca  era  diferida.  Se  recordarmos  o 
lugar  de  grande  destaque  que  os  empréstimos  desempenharam  na  actividade  comercial, 
e  se  reflectirmos  que  o  desenvolvimento  da  Forma  Hl  do  dinheiro  ocorreu  no  âmbito 
das  relações  de  crédito,  concluímos  que  instrumentos  aparentemente  modernos  permiti¬ 
ram  renovar  um  quadro  arcaico. 

Nas  relações  económicas  restritas  ao  interior  de  cada  praça  foram  os  estabelecimen¬ 
tos  cambiais  a  criar  dinheiro  fiduciário,  a  partir  do  momento  em  que  começaram  a  acei¬ 
tar  depósitos  dos  seus  clientes.  Talvez  o  facto  de  os  cambistas  profissionais  se  verem 
obrigados  a  dispor  permanentemente  de  montantes  elevados  de  numerário,  de  modo  a 
poderem  executar  as  operações  de  câmbio,  os  tivesse  levado  a  receberem  depósitos  e  a 
converterem-se  em  banqueiros231.  Não  desenvolveriam  a  actividade  bancária,  porém,  se 
se  limitassem,  por  um  lado,  a  guardar  nos  cofres  as  somas  que  lhes  eram  confiadas232  e, 
por  outro,  a  proceder  a  empréstimos  contra  penhores,  tal  como  vulgares  usurários,  por¬ 
que  nestes  casos  mais  não  fariam  do  que  transferir  poder  de  compra  de  uma  para  outra 
pessoa,  sem  dar  origem  a  meios  de  pagamento  novos233.  Os  cambistas  surgiram  como 
banqueiros  quando  passaram  a  adiantar  empréstimos  através  de  operações  de  crédito 
bancário234  e  quando  permitiram  a  transferência  contabilística  dos  depósitos  e  a  sua 
utilização  enquanto  meio  de  pagamento2315.  Foi  desde  então  que  os  cambistas-banquei- 


224  A  frase  deve-se  a  R.  S.  I.opez  ( 1965)  146. 

-í0  Icl.  (1974)  105-106:  R.  Perroy  ( l%2- 19631  138. 

A.  P.  Usher  ( 1943)  177-178  observa  que  a  actividade  bancária  se  limitava  em  grande  medida  às 
cidades  comerciais. 

231  É  esta  a  explicação  proposta  por  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  162. 

232  No  tipo  mais  primitivo  de  depósito,  afirma  A  P.  Usher  (1932-19341  412-414.  o  depositante 
estipulava  que  a  soma  devia  ser  paga  a  uma  dada  pessoa  ou  a  uma  dada  firma,  numa  certa  data  ou 
após  a  execução  de  um  certo  aeto.  Nestes  casos  o  crédito  não  intervinha  e  os  lundos  não  faziam  parte 
da  conta  corrente  do  depositante,  que  não  podia  empregá-los  para  outros  fins,  nem  da  pessoa  que  os 
iria  receber,  que  não  poderia  entrar  na  sua  posse  antes  do  momento  estipulado. 

233  R.  de  Roover  ( 1948)  118.348. 

234  A.  P.  Usher  (1932-1934)  399. 

É  difícil  saber  em  que  medida  os  cambistas,  depois  de  terem  assumido  as  funções  de  banco  de 
depósitos,  continuavam  a  exercer  as  antigas  funções  de  meros  depositários  de  valores,  previne  R.  de 
Roover  1 1948)  249,  que  apesar  disso  considera  como  muito  possível  que  prosseguissem  tal  actividade. 

235  ld..  ibid..  311. 

Na  mesma  perspectiva  da  observação  mencionada  na  nota  anterior,  id.  (1974)  213  afirma  que  já 
depois  de  os  estabelecimentos  cambiais  se  haverem  convertido  em  bancos  de  transferência  eles  conti¬ 
nuaram  a  servir  de  intermediários  entre  as  oficinas  de  cunhagem  e  o  público. 


406 


Forma  III  do  dinheiro 


ros  criaram  dinheiro  fiduciário.  O  processo  podia  seguir  duas  vias  diferentes,  mas  em 
ambos  os  casos  se  chegava  ao  mesmo  resultado. 

Numa  destas  modalidades,  que  ocorria  em  sistema  de  conta  corrente,  e  de  que  res¬ 
tam  traços  documentais  nas  praças  financeiras  da  Itália,  em  Bruges  e  em  Barcelona,  os 
cambistas-banqueiros  podiam  creditar  aos  clientes  somas  efectivamente  superiores  às 
depositadas,  expandindo  uma  circulação  pecuniária  a  descoberto236.  Na  prática,  o 
cliente  depositava  uma  dada  quantia,  que  permanecia  indefinidamente  no  banco, 
enquanto  o  saldo  variava  consoante  as  verbas  que  eram  pagas  ou  recebidas  através  de 
transferências  contabilísticas237.  Desta  maneira  o  banqueiro  mantinha  com  o  cliente 
uma  relação  de  fornecedor  de  fundos  a  médio  prazo23\  como  sucedia  com  o  membro 
passivo  de  uma  sociedade,  e  o  saque  a  descoberto  constituía  uma  operação  financeira 
bastante  comum.  Como  os  créditos  resultantes  deste  tipo  de  operações  tinham  o 
mesmo  estatuto  dos  créditos  decorrentes  de  depósitos  de  moeda  cunhada,  e  como  o 
banqueiro  assumia  a  responsabilidade  de  converter,  em  qualquer  momento,  os  créditos 
em  numerário239,  sob  o  ponto  de  vista  pecuniário  isto  significava  que  o  cambista-ban¬ 
queiro  punha  à  disposição  dos  mercadores  um  montante  de  meios  de  pagamento  supe¬ 
rior  àquele  que  tinha  nos  seus  cofres,  e  tal  diferença  representava  o  dinheiro  gerado 
naquela  operação. 

Na  outra  modalidade,  o  banqueiro  usava  para  os  seus  próprios  investimentos  comer¬ 
ciais  uma  parte  dos  fundos  que  lhe  haviam  sido  entregues240,  só  guardando  uma  frac- 
ção  do  volume  global  dos  depósitos.  Com  eleito,  em  condições  normais  de  mercado  os 
clientes  não  se  precipitavam  todos  ao  mesmo  tempo  para  retirar  a  totalidade  das  quan¬ 
tias  confiadas,  e  a  experiência  indicava  aos  banqueiros  qual  o  nível  em  que  deviam  ser 
conservadas  as  reservas241.  Como.  enquanto  o  banqueiro  investia  uma  parte  dos  fundos 
depositados,  os  clientes  continuavam  a  usar  plenamente  os  seus  depósitos  para  efectua- 
rem  transferências  recíprocas  mediante  a  promessa  de  pagamento  do  banqueiro,  e  como 
de  qualquer  modo  os  clientes  contabilizavam  sempre  os  depósitos  como  haveres  seus,  o 
banqueiro  estava  a  gerar  também  uma  soma  de  meios  de  pagamento  para  a  qual  não 


236  Quanto  ao  overdraft  ver:  Th.  W.  Blomquisi  (1979)  68:  R.  de  Roover  (1948)  204.  284  n.  I, 
294;  id.  (1953)  24,  135;  id.  (1974)  202;  F.  C.  Lane  (1973)  147;  R.  S  Lopez  (1979)  11.  15:  R.  C. 
Mueller  ( 1982i  85;  Y.  Renouard  (1949)  112;  K.  L.  Reyerson  (1985)  105-106:  P.  Spufford  (1984)  379; 
id.  (1986)  xxviii;  A.  P.  Usher  (1932-1934)  414. 

237  F.  C.  Lane  ( 1973)  147. 

238  R.  de  Roover  ( 1948)  304. 

239  R.  C.  Mueller  ( 1982)  81, 95-96:  A.  P.  Usher  (1943)  1112. 

240  J.  Day  (1994)  200;  R.  de  Roover  (1948)  215,  293,  307-308,  310;  D.  Herlihy  ( 1967)  161-162: 
F.  C.  Lane  (Í973)  147;  T.  H.  Lloyd  (1982)  170,  196-197:  R.  S.  Lopez  (1979)  1 1:  W.  E.  Lunt  (1939- 
-1962)  I  333.  602:  G.  Luzzatto  (1961  b)  102-103;  R.  C.  Mueller  (1982)  79,  104;  E.  Perroy  (1962- 
-1963)48;  Y.  Renouard  (1949)  52;  K.  L.  Reyerson  <  1985)  88:  M.  Riu  (1979)  138;  A.  P.  Usher  (1932- 
-1934)403. 

A  partir  do  final  do  século  XIII  os  detentores  de  pequenas  somas  depositavam-nas  em  bancos,  e 
eram  os  banqueiros  quem  investia  os  fundos  assim  reunidos,  afirma  P.  Spufford  ( 1984)  381 . 

241  R.  de  Roover  (1948)  204,  247-248;  id.  ( 1953)  135;  R.  C.  Mueller  1 1982)  79. 

Segundo  R.  de  Roover  ( 1948)  311.  uma  das  condições  para  o  exercício  de  funções  bancárias  é  a 
manutenção  das  reserv  as  num  volume  correspondente  a  uma  fracção  dos  depósitos  totais. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


407 


existia  correspondência  nos  seus  cofres24-.  Tal  como  no  processo  anterior,  tratava-se  de 
uma  criação  de  dinheiro,  sustentada  em  ambos  os  casos  por  comportamentos  estrita¬ 
mente  fiduciários243.  Mas  aqui  era  o  cambista-banqueiro  a  tomar  a  posição  de  sócio 
activo  relativamente  aos  depositantes,  que  involuntariamente  ficavam,  naquelas  cir¬ 
cunstâncias,  remetidos  à  posição  passiva244. 

Se  considerarmos  a  dinâmica  da  vida  comercial,  verificamos  que  o  desenvolvimento 
dos  negócios  pelos  mercadores  activos  supunha  o  aumento  do  crédito  e,  por  conse¬ 
guinte,  o  acréscimo  das  operações  de  saque  a  descoberto.  Ao  mesmo  tempo,  quanto 
mais  os  cambistas-banqueiros  interviessem  directamente  em  empreendimentos  mercan¬ 
tis  tanto  maior  era  a  pressão  para  que  reduzissem  os  fundos  mantidos  em  reserva.  Em 
ambos  os  casos  o  crescimento  do  comércio,  pela  própria  forma  como  ocorria,  impli¬ 
cava  a  expansão  da  Forma  III  do  dinheiro. 

Mas  o  estreitamento  das  relações  entre  os  vários  estabelecimentos  bancários  fez 
com  que  a  criação  fiduciária  de  dinheiro  fosse  ainda  mais  considerável.  Em  primeiro 
lugar,  quando  o  cliente  de  um  cambista  beneficiava  de  um  saque  a  descoberto,  os  meios 
de  pagamento  assim  gerados  entravam  no  circuito  comercial,  e  aí  podiam  ser  depois 
objecto  de  novos  depósitos.  Em  segundo  lugar,  quando  os  cambistas  investiam  no 
comércio  uma  fracção  das  verbas  colocadas  à  sua  guarda,  este  acréscimo  dos  meios  de 
pagamento  podia  igualmente  regressar  mais  tarde  aos  bancos,  enquanto  depósito.  Em 
terceiro  lugar,  e  pelo  menos  nas  praças  importantes,  cada  cambista  abria  geralmente 
conta  junto  dos  colegas245,  o  que  facilitava  a  circulação  dos  depósitos.  A  lei  pôde  proi¬ 
bir  esta  prática,  mas  os  cambistas  passaram  então  a  depositar  quantias  em  nome  indivi¬ 
dual.  e  o  resultado  era  exactamente  o  mesmo246.  Aliás,  creio  que  bastava  o  estabeleci¬ 
mento  de  acordos  de  compensação  entre  cambistas247  para  que  as  transferências  se 
generalizassem  sem  que  fosse  necessária  a  abertura  de  contas  recíprocas.  E  por  vezes, 
quando  um  cliente  se  apresentava  para  levantar  um  depósito  à  ordem,  ou  um  credor 
para  cobrar  uma  dívida,  o  banqueiro  levava-os  a  outro  banco  e  retirava  a  soma  da  conta 
que  tinha  aí248.  Através  destes  três  processos  conjugados,  as  relações  generalizavam -se 
e  criava-se  um  verdadeiro  sistema  bancário  integrado. 


242  Id„  ibid.,  247-248;  id.  (1953)  135;  id.  ( 1974)  215:  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  400. 

245  Na  perspectiva  do  economista,  observa  R.  de  Roover  ( 1948)  312,  os  efeitos  eram  os  mesmos 
quer  as  disponibilidades  bancárias,  excluindo  a  reserva  de  numerário,  fossem  usadas  para  o  financia¬ 
mento  directo  do  comércio,  mediante  sociedades,  quer  servissem  para  o  seu  financiamento  indirecto, 
através  de  empréstimos.  Em  ambos  os  casos,  acrescenta  este  especialista,  estava  a  criar-se  poder  de 
compra  adicional. 

244  Numa  sociedade  que  reunia  um  membro  passivo  e  um  activo,  os  fundos  fornecidos  pelo  pas¬ 
sivo  eram,  em  certa  medida,  depositados  junto  do  activo,  observa  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  401 .  acres¬ 
centando  que  as  leis  da  época  não  distinguiam  claramente  entre  esta  modalidade  e  os  depósitos  em 
conta  corrente  efectuados  nos  cofres  dos  banqueiros.  Com  efeito,  em  Espanha,  segundo  J.  Martmez 
Gíjón  ( 1964)  83-84,  um  documento  jurídico  do  último  ano  do  século  XIII  qualifica  como  «depósito 
ou  commenda >■  a  relação  entre  o  cambista  e  o  cliente  que  entregava  fundos  á  sua  guarda 

24 '  Ver  a  n.  26 

24f>  A.  P.  Usher  (.1943)  185. 

247  R.  de  Roover  ( 1948)  203-204. 

-4»  R.  C.  Muellert  1982)93-94;  A.  P.  Usher  <  1932-1934)416;  id.  (1943)  20. 

A  propósito  da  situação  em  Veneza,  R.  C.  Muelier  ( 1982)  93  observa  que,  num  sistema  de  reser- 


408 


Forma  III  do  dinheiro 


Neste  vaivém  ocorria  o  mecanismo  da  expansão  múltipla  dos  depósitos  bancários, 
que  de  cada  vez  repetia  a  geração  de  dinheiro  fiduciário.  Se,  mediante  o  saque  a  desco¬ 
berto  ou  o  investimento  de  uma  fracção  do  numerário  em  caixa,  saísse  de  um  dado  esta¬ 
belecimento  bancário  um  volume  v  de  meios  de  pagamento,  superior  em  y-.v  ao  volume 
.V  das  somas  totais  que  lhe  haviam  sido  confiadas,  quando  este  montante  fosse  de  novo 
entregue  num  banco  e  voltasse  a  sair  o  processo  reproduzir-se-ia,  de  maneira  que  no 
final,  se  não  ocorressem  fugas  e  todos  estes  meios  de  pagamento  continuassem  a  circu¬ 
lar  no  sistema  bancário,  o  volume  inicial  de  dinheiro  expandir-se-ia  n  vezes,  sendo  de 
l/n  a  fracção  do  numerário  depositado  que  os  cambistas  mantinham  em  reserv  a  nos  seus 
bancos249.  E  como  todos  os  cambistas-banqueiros  estavam  ao  mesmo  tempo  na  origem 
de  sequências  de  expansão  dos  depósitos,  o  multiplicador  atingia  de  imediato  o  seu 
efeito  final,  sem  que  se  tivesse  de  aguardar  o  encerramento  de  cada  um  dos  processos. 

A  dimensão  do  multiplicador  é  uma  função  da  relação  entre  os  meios  de  pagamento 
saídos  dos  bancos  e  o  numerário  conservado  nos  cofres,  e  não  podemos  determiná-la 
com  exactidão  para  este  período,  pois,  em  primeiro  lugar,  não  conhecemos  a  percenta¬ 
gem  média  em  que  os  saques  a  descoberto  ultrapassavam  o  volume  dos  depósitos.  Em 
segundo  lugar,  também  não  sabemos  qual  era  a  fracção  dos  depósitos  que  em  norma  os 
cambistas-banqueiros  guardavam  como  reserva.  A  única  menção  de  ordem  geral  que 
encontrei  a  este  respeito  indica,  de  maneira  vaga,  que  ao  longo  do  século  XIII  o  mon¬ 
tante  das  reservas  bancárias  foi  diminuindo  relativamente2''",  e  os  registos  de  contabili¬ 
dade  de  um  cambista-banqueiro  de  Bruges,  datando  dos  anos  iniciais  do  último  terço 
do  século  XIV,  revelam  que  29,3%  dos  fundos  eram  mantidos  em  reserva221.  Também 
em  Barcelona,  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XV,  eram  de  29%  as  reservas  do 
banco  de  depósitos  público,  sendo  menores  as  dos  estabelecimentos  privados252,  e  a 
mesma  ordem  de  grandezas  talvez  tivesse  prevalecido  nas  cidades  italianas,  onde  o  coe¬ 
ficiente  de  cobertura  bancária  mais  comum  se  situava  possivelmente  entre  os  20%  e  os 
30 %253.  Ignoramos  ainda,  em  terceiro  lugar,  qual  era  a  percentagem  dos  fundos  que 
abandonava  o  sistema  bancário,  e  por  isso  desconhecemos  o  grau  em  que  o  multiplica¬ 
dor  exercia  os  seus  efeitos,  embora  pareça  verosímil  que  os  negociantes  só  retirariam 
somas  consideráveis  quando  desejavam  adquirir  senhorias. 

Mas  no  tipo  de  análise  que  aqui  prossigo  a  descrição  das  tendências  é  muito  mais 
importante  do  que  as  tentativas  de  estabelecimento  de  quantidades  exactas.  e  para  defi¬ 
nirmos  até  que  ponto  o  multiplicador  funcionava  basta  averiguar  em  que  medida  ocor¬ 
ria  a  transmissibilidade  dos  créditos  entre  os  cambistas-banqueiros.  É  este  o  critério 


vas  parciais,  o  saldo  da  conta  do  depósito  que  um  banqueiro  tinha  no  estabelecimento  de  outro  consti¬ 
tuía  parte  das  reservas  do  banco  do  depositante,  permitindo  portanto  reduzir  a  quantidade  de  numerᬠ
rio  que  era  necessário  manter  em  cofre. 

24“  Se,  por  exemplo,  o  sistema  bancário  mantiver  reservas  de  20%.  ou  seja.  de  i/5  dos  depósitos,  e 
se  não  ocorrerem  fugas,  o  montante  de  cada  depósito  é  multiplicado  cinco  vezes  pelo  sistema.  Neste 
caso,  por  cada  cem  unidades  monetárias  depositadas,  a  equação  é  a  seguinte:  100  [1/(1-  4/5 >1  =  100 
x  5  =  500. 

250  R.  S.  Lopez  1. 19791  1 2. 

251  R.  de  Rooverí  1948)  307. 

252  A.  P.  Uxher  (1943)  181. 

253  J.  Day  <19941  126 


Operações  e  contendo  da  Forma  III  do  dinheiro 


409 


que  permite  aferir  a  constituição  de  um  sistema  bancário,  e  a  expansão  múltipla  dos 
depósitos  verificava-se  em  tanto  maior  escala  quanto  mais  apertadas  fossem  as  malhas 
da  rede  que  inter-relacionava  os  bancos,  impedindo  que  os  meios  de  pagamento  fugis¬ 
sem  do  conjunto  das  instituições  bancárias.  Ora.  não  deve  haver  dúvidas  de  que  neste 
período  os  cambistas  edificaram  um  verdadeiro  sistema  bancário.  Sempre  que  possível, 
os  mercadores  procuravam  que  os  seus  pagamentos  fossem  eíectuados  através  da  trans¬ 
ferencia  contabilística  de  créditos  da  sua  conta  bancária  para  as  contas  dos  colegas,  tal 
como  preferiam  receber  do  mesmo  modo  as  somas  que  lhes  eram  devidas234.  Aliás, 
como  não  parece  que  os  depósitos  à  ordem  dessem  direito  a  juros253,  deduz-se  que  o 
seu  principal  interesse  consistia  em  facilitar  a  realização  de  pagamentos,  mediante 
transferências  nos  livros  de  registo256.  Além  disso,  e  pelo  menos  nas  praças  principais, 
cada  cambista,  como  vimos,  tinha  geralmente  conta  aberta  nos  estabelecimentos  dos 
demais  cambistas  e  firmavam-se  também  entre  eles  acordos  de  compensação,  o  que 
permitia  a  um  negociante  passar  créditos  para  a  conta  de  outro,  mesmo  sem  ter  aberto 
conta  no  mesmo  banco257.  No  século  XIV  a  própria  lei  e  a  quase  unanimidade  dos 
juristas  reconheciam  a  transmissão  de  obrigações  nos  livros  de  contabilidade  como  um 
meio  de  pagamento  válido25*.  As  operações  de  compensação  foram,  em  suma,  um  dos 
factores  mais  importantes  para  o  desenvolvimento  da  actividade  bancária259. 

A  integração  bancária  realizava-se  igualtnente  num  plano  muito  mais  geral,  pois  os 
créditos  não  passavam  só  de  uns  bancos  para  outros  no  interior  de  cada  praça,  e  as  feiras 
serviam  de  quadro  a  vastíssimos  mecanismos  de  compensação.  Durante  este  período,  foi 
na  Champagne  que  se  desenvolveu  e  aperfeiçoou  o  mais  importante  ciclo  de  feiras.  Na 
sua  forma  acabada,  tal  como  vigorava  desde  a  última  década  do  século  XII  e  ao  longo 
do  século  seguinte260,  o  ciclo  era  anual  e  incluía  seis  feiras  sucessivas,  cada  uma 


254  R.  de  R oover  ( 1948)  261. 271.  314;  id.  ( 1974)  215:  F.  C.  Lane  ( 1973)  147;  R.  S.  Lopez  (1979) 
1 1:  G.  Luzzatto  ( 1937)  57;  R.  C.  Mueller  ( 1982)  77:  P.  Spufford  (1984)  378;  id.  ( 1986)  xxviii. 

-5S  R.  de  Roo  ver  (1948)  118,  249-250.  305:  P.  Spufford  1 1984)  379;  id.  (1986)  xxviii. 

Também  os  depósitos  a  curto  prazo  aceites  pelas  companhias  não  davam  direito  a  juros,  a  crer  em 
V.  Renouard  (1941 )  68.  No  entanto,  este  mesmo  especialista,  em  ( 1949)  52.  escreve  que  em  Génova 
os  banqueiros  recebiam  fundos  em  depósito,  que  restituíam  com  um  pré-aviso  de  alguns  dias,  e  que 
rendiam  aos  clientes  105)  de  juro.  Th.  W.  Blomquist  (1979)  66  considera  que  em  Luca,  no  século 
XIII,  os  cambistas  pagavam  juros  às  pessoas  que  procediam  a  depósitos  nos  seus  estabelecimentos, 
mas  este  autor  afirma  igualmeme  ( pp  63-64)  que  os  cambistas  preferiam  os  depósitos  a  prazo  e  se 
mostravam  relutantes  em  aceitar  depósitos  à  ordem. 

25(1  R,  de  Roover  (1948)  249-250.  Ver  igualmente;  Y.  Renouard  (1949)  1 12. 

257  R.  de  Roover  ( 1948)  262.  267.  284  n.  1:  id.  1 1953)  24;  id.  ( 1974)  202,  214;  J.  Martínez  Gijón 
( 1964)  82;  R.  C,  Mueller  ( 1982)  93:  Y.  Renouard  (1949)  52:  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  87;  P.  Spufford 
(1984)  378:  A.  P.  Ushert  1943)  184-185. 

Quando  se  sabe,  graças  a  J.  Piquet  (1939)  50-51.  que  os  Templários  procediam  a  transferências 
não  só  entre  contas  de  depositantes  no  mesmo  estabelecimento  da  Ordem,  mas  até  entre  clientes  de 
estabelecimentos  diferentes,  ocorre-me  perguntar  se  bastaria  para  isto  a  centralização  eclesiástica,  ou 
se  seria  necessária  a  existência  de  contas  cruzadas  entre  os  vários  estabelecimentos. 

25SA.  P.  Ushei  (1943)4. 

259  14  .  ihicl..  4. 

260  1.  A.  Agus  (1965)  178  afirma  que  a  feira  de  Troyes.  capital  tradicional  dos  condes  da  Cham¬ 
pagne.  já  estava  bastante  desenvolvida  e  atraía  muita  gente  no  começo  do  século  XI,  e  R.  D.  Face 
<  1957-1958)  437-438  considera  possível  que  o  sistema  de  pagamento  mediante  compensação  entre  con- 


410 


Forma  ///  do  dinheiro 


durando  entre  seis  e  dez  semanas261.  O  período  de  uma  feira  era.  por  sua  vez,  subdivi¬ 
dido  em  períodos  menores,  dedicados  a  transacções  com  tipos  específicos  de  mercado¬ 
rias262.  As  feiras  deste  ciclo,  mais  do  que  qualquer  outro  lugar,  mobilizaram  as  trocas 
entre  o  norte  e  o  sul  do  regime  senhorial,  ou  seja.  entre  os  principais  centros  urbanos  da 
Flandres,  onde  convergia  todo  o  tráfico  do  Mar  do  Norte  e  que.  através  dos  negociantes 
hanseáticos,  se  ligavam  às  rotas  bálticas  e  eslavas,  e  as  grandes  cidades  da  Itália  centro- 
-setentrional,  que  polarizavam  o  comércio  mediterrânico263.  Assim,  as  feiras  da  Cham- 
pagne,  além  de  acolherem  um  contingente  esmagador  de  Flamengos,  Italianos,  Proven- 
çais  e  Languedocianos,  foram  igualmente  frequentadas  por  mercadores  vindos  da  Ger- 
mânia264  e  da  península  hispânica265.  Só  os  Ingleses  se  mantiveram  ausentes266. 


tas  estivesse  já  em  vigor  nas  feiras  da  Champagne  antes  da  última  década  do  século  XI.  Todavia,  depois 
de  observar  que  não  se  conhece  ao  certo  a  data  inicial  destas  feiras,  E.  Perroy  (1962-1963)  149  garante 
que  o  ciclo  não  se  encontrava  ainda  definitivamente  fixado  na  abertura  do  segundo  terço  do  século  XII. 
Os  meados  do  século  XII  teriam  sido  uma  data  crucial  para  o  desenvolvimento  das  feiras  da  Champagne. 
a  crer  em  R.-H.  Bautier  ( 1953)  1 1 1-112.  Porém,  R  W.  Kaeuper  (1973)  I  pretende  que  até  ao  termo  do 
século  XII  estas  feiras  não  haviam  ultrapassado  o  âmbito  local  ou,  quando  muito,  regional.  A  mesma  cro¬ 
nologia  é  confirmada  por  Y.  Renouard  (1949)  40  e  R.  L.  Reynolds  (1952)  363.  ao  escreverem  que  a  par¬ 
tir  do  fim  do  século  XII  aquelas  feiras  ocupavam  a  posição  central  no  tráfico  de  longo  curso.  Foi  precisa¬ 
mente  a  partir  da  última  década  do  século  XII  que  ficou  estabelecido  o  ciclo  anual  das  feiras,  segundo 
Robert-Henri  Bautier  em  op.  dl..  1 15  e  M.  Cmbellier  (org.  1975)  170.  Por  seu  turno,  R.  D.  Face  em  op. 
cit..  428  situa  nas  duas  últimas  décadas  desse  século  o  pleno  desenvolvimento  do  ciclo  anual  das  feiras. 

Não  entendo  com  que  fundamento  A.  Sapori  (1946)  673  pode  presumir  que  as  feiras  da  Cham¬ 
pagne  tivessem  sido  uma  consequência  directa  das  peregrinações  armadas  para  a  Palestina. 

261  Para  a  descrição  do  ciclo  das  feiras  da  Champagne,  consultar:  R.  H.  Bautier  (1953)  103.  1 13; 
M.  Crubellier  (org.  1975)  170;  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  361:  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  363. 

Y.  Renouard  (1949)  40  menciona  a  existência  de  apenas  quatro  feiras.  Com  efeito,  as  feiras  reali¬ 
zavam-se  em  quatro  centros  urbanos,  dois  dos  quais  animavam  duas  feiras. 

262  E.  Ennen  (1979)  127;  R.  L.  Reynolds  (1952)  363. 

263  R.-H.  Bautier  (1953)  97,  133;  E.  Coomaen  (1957)  359;  R.  de  Roover  (1942)  34:  E.  Ennen 
(1979)  127;  R.  D.  Face  (1957-1958)  428;  J.  K.  Hyde  (1973)  69,  161:  J.  Lcstocquoy  (1947)  13: 
D.  Nicholas  (1971)  53;  R.  Pemoud  (1949)  234;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  353,  361:  Y.  Renouard  (1949) 
40;  F.  Rõrig  ( 1 967)  8 1 ;  A.  Sapori  ( 1 946)  674. 

264  M.  Beard  (1938)  74;  R.  de  Roover(1942)  34:  E.  Perroy  et  al.  <  1955)  361. 

O  papel  desempenhado  pelos  mercadores  germanos  nestas  feiras  tomou-se  crescente  ao  longo  da 
segunda  metade  do  século  XIII,  afirmam  R.-H.  Bautier  (1953)  135,  M.  Crubellier  (org.  1975)  171  e 
Ph.  Dollinger  (1964)  60. 

2!’5  D.  Nicholas  (1971)  53:  E.  Perroy  et  al  í  1955)  361 . 

A  crer  em  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  415  416.  pelo  menos  entre  os  meados  do  século  X  e  os  mea¬ 
dos  do  século  seguinte  é  atestada  a  presença  de  comerciantes  catalães  na  feira  de  Saint-Denis,  onde 
adquiriam  tecidos,  muito  certamente  vindos  da  Flandres.  Ora,  Saint-Denis,  na  periferia  de  Paris,  situa- 
-se  numa  região  vizinha  da  Champagne,  e  a  sua  feira,  após  um  hiato  na  primeira  metade  do  século  X, 
era  a  mais  activa  da  época,  informa  J.  Lestocquoy  (1947)  11-12.  Quanto  à  eventual  participação  por¬ 
tuguesa  nas  feiras  da  Champagne.  convém  recordar  que.  segundo  H.  G.  Barros  (1945-1954)  V  119- 
- 120.  estão  documentadas  as  relações  comerciais  entre  o  Porto  e  a  França  nos  meados  do  século  XIII, 
desenvolvendo-se  o  tráfico  no  século  seguinte  e  passando  a  incluir  a  Flandres  dentro  do  seu  âmbito 
(IX.  p.  360).  Além  disso,  ainda  no  século  XIV  se  encontravam  negociantes  portugueses,  juntamente 
com  outros  oriundos  também  da  península  hispânica,  nas  feiras  de  Beaucaire,  na  margem  direita  do 
Ródano,  em  face  de  Tarascon,  para  onde  se  havia  desviado  parte  do  comércio  que  antes  cruzara  a 
Champagne  (IX.  p.  361 ).  Mas  nenhum  destes  dados  prova  a  participação  dos  mercadores  portugueses 
no  ciclo  de  feiras  da  Champagne,  indicando  apenas  que  tal  presença  era  possível. 

266  M.  Crubellier  (org.  1975)  171. 


■III 


Operações  e  contendo  da  Forma  III  do  dinheiro 


No  que  dizia  respeito  aos  pagamentos,  cada  uma  das  feiras  do  ciclo  constituía  uma 
unidade  temporal,  e  as  compras  que  se  realizassem  durante  o  seu  período  de  funciona¬ 
mento  teriam  o  preço  satisfeito  apenas  por  ocasião  do  encerramento  dessa  feira,  o  que 
permitia  aos  negociantes  a  economia  de  fundos  de  reserva,  já  que  efectuavam  as  aquisi¬ 
ções  pensando  pagá-las  com  os  proventos  que  tencionavam  retirar  da  venda  dos  seus 
artigos.  Aliás,  é  muito  possível  que  as  mercadorias  fossem  transaccionadas  por  amos¬ 
tra,  pois  os  tecidos  garantidos  por  seios  de  cidades  famosas  tinham  dimensões  e  quali¬ 
dade  padronizadas  e  as  especiarias  podiam  também  ser  avaliadas  através  da  observação 
de  pequenas  quantidades.  Esta  técnica  comercial  contribuiu  para  reduzir  o  empate  de 
fundos,  pelo  menos  nos  casos  em  que  o  grosso  dos  bens  não  estava  guardado  nos  arma¬ 
zéns  da  feira  e  havia  ficado  na  cidade  de  origem.  No  momento  da  transacção  o  compra¬ 
dor  apresentava-se  com  o  vendedor  perante  um  cambista-banqueiro,  junto  a  quem  tinha 
créditos,  e  declarava  o  negócio  efectuado.  para  que  o  cambista  escrevesse  nos  seus 
livros  uma  transferência  de  crédito  do  comprador  para  o  vendedor,  que  devia  ser  com¬ 
pletada  no  termo  da  feira.  Imediatamente  a  seguir  o  comprador  ficava  com  o  direito  de 
reexpedir  os  bens  que  se  havia  comprometido  a  pagar.  Nesta  primeira  fase  das  opera¬ 
ções  a  função  do  cambista,  que  tanto  podia  ser  um  profissional  estabelecido  localmente 
como  um  dos  ambulantes  que  seguiam  de  feira  em  feira,  consistia  meramente  em  exe¬ 
cutar  o  registo  e  garantir  o  pagamento  futuro,  não  sendo  necessário  que  ele  procedesse 
a  qualquer  adiantamento  de  crédito,  visto  que  os  pagamentos  só  se  tomavam  obrigató¬ 
rios  nos  dias  do  encerramento  da  feira.  Chegada  esta  ocasião,  todos  os  comerciantes,  ou 
os  seus  agentes  e  procuradores,  procediam  à  compensação  recíproca  das  somas  devidas 
e  creditadas,  apenas  mediante  um  jogo  de  transferências  que  os  cambistas  inscreviam 
nos  seus  livros,  e  só  os  saldos  podiam  eventualmente  ser  pagos  em  numerário.  As  tran- 
sacções  efectuadas  em  cada  feira  inseriam-se,  portanto,  num  sistema  de  créditos  conta- 
bilísticos  inter-relacionados,  que  eram  liquidados  nos  próprios  livros  de  contabilidade. 
Tratava-se  de  passar  de  uns  mercadores  para  outros  os  créditos  de  que  cada  um  deles 
dispunha  perante  os  cambistas-banqueiros,  mas  durante  esta  segunda  fase  do  processo, 
que  já  vigorava  com  bastante  regularidade  no  princípio  do  século  XIII,  os  cambistas 
também  não  abriam  ainda  créditos  aos  seus  clientes.  Ao  encarregarem -se  dos  mecanis¬ 
mos  de  compensação,  porém,  os  cambistas  das  feiras  deram,  por  um  lado,  um  contri¬ 
buto  decisivo  para  a  formação  de  um  sistema  bancário  integrado,  tomando  possível  a 
transmissibilidade  dos  créditos  no  âmbito  de  todo  o  regime  senhorial.  E.  por  outro  lado, 
a  rede  de  relações  de  confiança  que  se  estabelecia  entre  os  frequentadores  habituais  das 
feiras,  num  ambiente  muito  vasto,  mas  ao  mesmo  tempo  muito  fechado,  permitiu  que 
os  meios  de  pagamento  contabilísticos  sustentassem  a  criação  de  dinheiro  fiduciário. 
Os  cambistas  só  começaram  a  abrir  créditos  no  ciclo  das  feiras  numa  terceira  fase  das 
operações,  que  deixou  traços  na  documentação  desde  o  começo  do  século  XIII  e  se  tor- 


No  século  XHl  desenvolveu-se  em  Inglaterra  um  ciclo  anual  de  feiras  especializadas  no  comércio 
da  lã.  que  alcançou  uma  grande  prosperidade,  embora  o  seu  estudo  não  esteja  ainda  feito,  consoante 
observa  E.  Perroy  (1962-1963)  37-38.  Acerca  desta  questão  ver  igualmente  T.  H.  Lloyd  (1982)  12. 
Talvez  essas  feiras,  atraindo  negociantes  estrangeiros,  tivessem  poupado  aos  mercadores  ingleses  as 
viagens  regulares  até  à  Champagne. 


412 


Forma  lll  do  dinheiro 


nou  sistemática  a  partir  do  final  desse  século,  convertendo-se  num  elemento  caracterís¬ 
tico  da  actividade  mercantil.  Consoante  esta  nova  prática,  os  cambistas  adiantavam  cré¬ 
ditos  no  encerramento  de  uma  feira  para  serem  pagos  no  encerramento  da  feira 
seguinte,  o  que  permitia  a  transmissão  de  saldos  negativos  ao  longo  de  todo  o  ciclo. 
Todavia,  apenas  no  século  XV  começaram  a  ser  empregues  letras  de  câmbio  nos  ciclos 
de  feiras.  Até  ao  termo  deste  período,  os  cambistas-banqueiros  ou  procederam  aos 
empréstimos  mediante  simples  inscrições  nos  seus  livros  de  registo  ou  recorreram  às 
letras  obrigatórias,  ditas  letras  de  feira,  que  constituíam  reconhecimentos  de  dívida 
perante  as  autoridades  da  feira.  É  certo  que  foram  usados  reconhecimentos  de  dívida 
onde  o  câmbio  se  conjugava  já  com  o  crédito,  pois  consistiam  em  instrumentos  à 
ordem,  pagáveis  sobre  uma  dada  praça  e  numa  moeda  previamente  designada,  mas  fal¬ 
tavam-lhes  outros  elementos  para  poderem  assimilar-se  às  letras  de  câmbio-6  '. 

A  intromissão  de  operações  cambiais  nos  empréstimos  pecuniários  inaugurou-se. 
portanto,  ainda  na  fase  do  tráfico  itinerante,  talvez  desde  o  início  do  período,  ou  mesmo 
antes-68.  Recordem-se,  por  exemplo,  os  casos  em  que  dois  mercadores,  originários 
ambos  de  uma  dada  praça,  mas  encontrando-se  numa  praça  estrangeira,  entravam  em 
relações  de  mutuante  e  mutuário,  sendo  a  dívida  contraída  na  moeda  estrangeira,  mas 
comprometendo-se  o  devedor  a  cancelar  a  obrigação  em  moeda  do  seu  lugar  de  origem, 
logo  que  regressasse  à  terra  natal269.  Não  era  muito  diferente  o  que  sucedia  na  Síria  e 
na  Palestina,  quando  monarcas,  príncipes  e  outros  senhores  contraíam  dívidas  junto  a 
negociantes,  as  quais  eram  depois  liquidadas  noutra  moeda,  e  do  outro  lado  do  mar-70. 
Em  sentido  inverso,  podia  suceder  que  alguém  encarregasse  um  banco,  ou  um  merca¬ 
dor,  de  disponibilizar  moeda  estrangeira  numa  praça  estrangeira,  sendo  o  pagamento  da 
dívida  efectuado  na  praça  de  origem  e  em  moeda  local271.  Noutros  casos  o  mutuário  de 


-67  Acerca  do  sistema  de  pagamentos  usado  nas  feiras  da  Champagne.  ver:  R.  dc  Roover  <  1948) 
51;  id.  (1953)  135;  id.  ( 1974)  204;  E.  Ennen  (1979)  127;  R.  D.  Face  (1957-1958)429-432,  437;  R.  S. 
Lopez  (1965)  305:  E.  Perroy  et  al.  (1955)  361;  Y.  Renouard  (1949)  65;  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  363;  A. 
P.  Usher(  1932- 1934)  407;  id.  (1943)  1 13-1 14.  120.  ISO;  J.-A.  van  Houtte  (1953*)  197. 

R.  L.  Reynolds  (1952)  363  escreve  que,  sem  haver  provas  absolutas,  existem  presunções  muito 
seguras  de  que  os  bens  eram  vendidos  por  amostra,  e  esta  ideia  é  retomada  por  R.  S.  Lopez  ( 1965)  305. 

E.  Perroy  et  al.  (1955)  361  asseguram  que  a  transferência  de  créditos  de  uma  feira  para  outra 
constituía  uma  prática  já  bem  estabelecida  no  começo  do  século  XIII.  Todavia.  A.  P.  Usher  (1932- 
-1934)  407  considera  que  o  pagamento  numa  feira  de  empréstimos  contraídos  na  feira  anterior  só  se 
tomou  regular  no  final  daquele  século.  E  id.  (1943)  1 14  acrescenta  que  no  século  XIII  não  existem 
provas  documentais  explícitas  de  operações  sistemáticas  de  crédito  que  permitissem  transferir  saldos 
negativos  entre  feiras  do  mesmo  ciclo.  Mesmo  nas  suas  formas  mais  desenvolvidas,  afirma  id..  ibid., 
1 12.  as  feiras  limitaram-se  a  levar  ao  máximo  as  possibilidades  de  compensação  nos  registos  contabi- 
lísticos;  mas  este  historiador  inverte  em  seguida  (p.  187)  a  formulação  e  observa  que  neste  período  os 
maiores  desenvolvimentos  da  técnica  de  compensação  dos  depósitos  ocorreram  no  sistema  de  feiras. 

Tomando  como  certo  que  antes  do  final  do  século  XI  as  feiras  fossem  frequentadas  praricainente 
apenas  por  mercadores  judeus,  sendo  portanto  organizadas  graças  à  iniciativa  judaica,  1.  A.  Agus 
(1965)  179  afirma  que.  muito  possivelmente,  a  complexa  estrutura  interna  das  feiras  e  os  sistemas  de 
protecção  de  que  beneficiavam  os  seus  frequentadores  teriam  tido  origem  judaica. 

$.  Homer  ( 1963)77;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  175. 

Th.  W.  Blomquíst  ( 1 979)  69-70:  R.  S.  Lopez  ( 1957)  240-24 1 . 

-70  J.  Piquet  (1939)  83;  Y.  Renouard  ( 1949)  67-68;  A.-E.  Sayous  ( 1931)  257,  261-262. 

-71  R.  S.  Lopez  (1979)  15. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


413 


um  empréstimo  estabelecido  em  moeda  local  obrigava-se,  mediante  uma  cláusula  con¬ 
tratual,  a  satisfazei  a  sua  dívida  num  lugar  diferente  e  em  moeda  estrangeira272.  Com  a 
evolução  do  sistema  de  caravanas  para  o  sistema  sedentário  no  tráfico  de  longo  curso  e 
com  o  declínio  da  actividade  comercial  nos  ciclos  de  feiras,  os  profissionais  passaram  a 
conduzir  os  negócios  com  praças  distantes  sem  terem  necessidade  de  estar  presentes 
pessoalmente,  e  sem  que  as  transacções  e  o  crédito  devessem  obedecer  ao  ritmo  dos 
ciclos  de  feiras  e  aos  prazos  de  cada  uma.  Neste  contexto  difundiram-se  novas  modali¬ 
dades  de  empréstimo  combinadas  com  operações  cambiais,  pois  frequentemente  a 
soma  adiantada  encontrava-se  disponível  para  ser  reembolsada  noutra  praça  e  noutra 
moeda,  colocando-se  o  problema  do  seu  repatriamento27’.  Nos  séculos  XIV  e  XV,  ou 
mesmo  antes,  foi  muito  corrente  que  um  mercador,  ao  contrair  um  empréstimo  numa 
dada  praça,  assumisse  o  compromisso  de  pagá-lo  dentro  de  um  certo  prazo,  numa  praça 
estrangeira,  noutra  moeda  e  a  uma  dada  taxa  de  câmbio:  o  representante  do  mutuário 
nessa  praça  estrangeira  remetia  ao  mutuante  uma  soma  em  numerário  que,  uma  vez 
convertida  na  moeda  da  praça  originária,  servia  para  cancelar  a  dívida2  4. 

A  conjugação  do  crédito  com  o  câmbio  assumiu  uma  expressão  clássica  nas  letras 
de  câmbio,  muito  difundidas  desde  a  segunda  metade  do  século  XIV.  se  não  antes27-’,  e 
que  constituíram  mais  uma  oportunidade  para  a  geração  de  dinheiro  fiduciário.  De 
novo.  as  cidades  italianas  tiveram  o  papel  precursor276,  o  que  também  neste  caso  não 
custa  a  explicar.  Se  os  centros  urbanos  mais  activos  constituíam  como  que  uma  feira 
ininterrupta27',  os  mercadores  italianos  haviam  criado  desde  cedo  um  meio  de  paga¬ 
mento  adequado  a  negócios  de  carácter  permanente,  e  quando  a  evolução  económica  do 
regime  senhorial  levou  grande  parte  do  tráfico  de  longo  curso  a  deixar  de  se  pautar 


272  M.  Balard  (1978)  617:  J.  K.  Hyde  (197?)  162:  H.  C.  Krueger  (1957)  259;  G.  Luzzatio  (1961  b) 
82;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  175;  Y.  Renouard  (1949)51.  56. 

I.  Piquei  ( 1939)  70. 

274  R.  de  Roover  (1953)  31-32.  43-44;  id.  (1974)  203;  M.  M.  Poxtan  1 1954)  72-73;  K.  L.  Reyerson 
(1985)  107-108. 

275  P.  Spufford  ( 1986)  xxxi  considera  que  a  letra  de  câmbio  alcançou  a  forma  definitiva  possivel¬ 
mente  no  final  do  século  XIII.  e  em  (1984)  377  e  (1986)  xxxvi  afirma  que  já  no  início  do  século  XIV 
uma  grande  parte  das  transferências  entre  diferentes  áreas  monetárias  se  realizava  mediante  letras  de 
câmbio.  Mas  J.  Piquet  (1939)  64  nào  admite  que  se  possa  referir  a  existência  de  letras  de  câmbio 
durante  o  século  XIII.  Para  E.  Perroy  ( 1949)  171  o  desenvolvimento  da  letra  de  câmbio  ter-se-ia  con¬ 
cluído  no  primeiro  terço  do  século  XIV  e  R.  de  Roover  ( 1953)  17-18  retarda  mais  o  processo,  não 
situando  o  pleno  aparecimento  da  letra  de  câmbio,  na  sua  forma  clássica,  antes  dos  meados  do  século 
XIV.  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  415  e  1 1943)  6  indica  que  o  emprego  das  letras  de  câmbio  se  divulgou 
muito  na  segunda  metade  do  século  XIV,  e  o  exemplo  genovês,  estudado  por  M.  Balard  (1978)  617 
-618.  parece  confirmar  esta  cronologia,  jã  que  as  letras  de  câmbio  começaram  a  difundir-se  na  cidade 
na  segunda  metade  do  século  XIV  e  só  a  partir  da  penúltima  década  daquele  século  se  instaurou  um 
verdadeiro  comércio  de  leiras  entre  a  metrópole  e  as  suas  colónias  da  área  bizantina.  Do  mesmo 
modo,  em  Veneza  a  primeira  emissão  de  uma  letra  de  câmbio  ocorreu  em  1 360.  a  crer  em  R.  C.  Muel- 
ler  (1982)  83.  A  versão  mais  tardia  encontra-se  em  Y.  Renouard  (1941)  73.  ao  escrever  que  a  letra  de 
câmbio,  na  acepção  que  hoje  se  dá  a  este  instrumento,  surgiu  apenas  no  final  do  século  XIV. 

276  R.  de  Roover  ( 1953)  41  escreve  que  foram  as  cidades  toscarias  a  introduzir  a  leira  de  câmbio. 
Por  seu  lado.  J.  Day  1 1994)  201  atribui  a  precedência  aos  mercadores-banqueiros  de  Siena.  que  é  com 
efeito  uma  cidade  toscana.  mas  também  aos  de  Piacenza.  situada  na  Lombardia. 

277  yer  a  n  2] 


414 


Forma  111  do  dinheiro 


pelos  ciclos  de  feiras,  os  Ilalianos  tinham  já  pronta  unia  modalidade  financeira  corres¬ 
pondente  à  nova  situação  e,  portanto,  capaz  de  se  generalizar. 

Na  sua  forma  típica,  a  letra  era  um  instrumento  que  reunia  quatro  intervenientes 
para  a  execução  de  duas  operações,  em  dois  lugares  distintos.  Numa  dada  praça,  um 
mutuante,  que  era  um  mercador-banqueiro,  adiantava  uma  certa  soma  em  moeda  local  a 
outro  mercador,  que  emitia  uma  letra,  a  sacar  sobre  uma  pessoa  ou  uma  firma  numa 
praça  estrangeira,  em  benefício  de  outra  pessoa,  ou  firma,  designada  pelo  mutuante  e 
estabelecida  também  naquela  mesma  praça  estrangeira.  Na  maior  parte  dos  casos  o 
sacado,  futuro  aceitante  da  letra,  era  um  correspondente  do  sacador,  ou  seja,  do  mutuᬠ
rio,  enquanto  o  beneficiário,  ou  tomador  da  letra,  estava  em  igual  tipo  de  relação  para 
com  o  mutuante  inicial;  mas  podia  suceder  que  o  tomador  fosse  agente  ou  sócio  do 
mutuante  ou  que  o  sacador  e  o  sacado  pertencessem  também  a  uma  mesma  firma.  O 
fundamental,  em  qualquer  circunstância,  era  o  relacionamento  durável  que  reunia  os 
dois  pares  de  intervenientes,  malgrado  o  facto  de  estarem  situados  em  praças  distintas. 
A  operação  apresentava-se  como  uma  aquisição  da  letra,  comprada  pelo  mutuante  ao 
mutuário  a  troco  da  verba  adiantada.  A  letra  recebida  pelo  mutuante  era  por  ele  enviada 
ao  sacado,  e  ao  aceitar  a  letra  o  sacado  comprometia-se  a  pagá-la  ao  tomador,  no  termo 
do  prazo  estipulado,  e  na  moeda  corrente  na  praça  estrangeira278.  A  relação  entre  o 
sacado  e  o  tomador  constituía  a  imagem  invertida,  como  num  espelho,  da  relação  origi¬ 
nária  entre  o  mutuante  e  o  sacador,  e  a  operação  de  câmbio  reflectia  do  mesmo  modo  a 
primeira  operação  de  crédito.  Assim,  para  que  o  processo  se  completasse  seria  necessᬠ
ria  a  expedição  de  uma  letra  em  sentido  inverso;  ou,  noutros  casos,  o  tomador  usava  a 
soma  recebida  para  adquirir  mercadorias  e  enviá-las  ao  mutuante  originário,  que  as 
vendia  na  praça  onde  estava  estabelecido279.  À  medida  que  se  foram  tomando  regulares 
os  contactos  comerciais  entre  as  principais  praças  verificou-se  com  frequência  uma 
forma  peculiar  de  reciprocidade,  em  que  um  mercador  que  tivesse  uma  dívida  a  liqui¬ 
dar  e  um  crédito  a  receber  sobre  uma  mesma  praça  estrangeira  procurava  pagar  ao 
mutuante  através  de  uma  letra  de  câmbio  sacada  sobre  o  seu  devedor  nessa  mesma 
praça280. 

Durante  este  período,  e  mesmo  bastante  depois,  até  ao  começo  do  século  XVI,  as 
letras  não  eram  ainda  instrumentos  formalmente  negociáveis,  não  podendo  ser  endossa¬ 
das  e  convertidas  em  numerário  ou  noutras  formas  de  dinheiro  antes  do  vencimento  do 
prazo281.  Por  isso  os  juristas  consideravam  que.  enquanto  uma  transferência  bancária 


278  Para  a  descrição  das  operações  implícitas  numa  letra  de  câmbio  ver:  R.  de  Roover  (19481  52- 
-53;  id.  (1974)  185;  F.  C.  Lane(1973)  141,  146-147;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  176;  A.  P.  Usher(1932- 
-1934)421;  id.  (1943)87. 

-7y  R.  de  Roover  ( 1 948 )  6 1 . 

28"  ld.  (1953)44. 

781  Id.  (1948)49;  id.  (1953)  16,  18,  119;  id.  (1974)  185.  194;  S.  Homer(1963)  77;  J.  T.  Noonan 
Jr.  (1957)  176;  A.  P.  Usher  ( 1943)  8. 

M.  Mollat  et  al.  (1955)  764  afirmam  que  se  atribuíra  ao  século  XVIII  o  começo  da  prática  do 
endosso  até  que.  em  1953.  foi  divulgada  a  descoberta  de  uma  letra  de  câmbio  datada  de  1519.  e 
sacada  de  Nápoles  sobre  Florença,  relativamente  à  qual  o  endosso  havia  sido  praticado;  estes  especia¬ 
listas  acrescentam  que  não  se  trataria  decerto  do  primeiro  caso.  Todavia,  )á  A.  P.  Usher  ( 1932-1934) 
422  admitia  que  a  negociabil idade  começara  verdadeiramente  a  desenvolver-se  no  segundo  quartel  do 


Operações  e  conteúdo  da  turma  III  do  dinheiro 


415 


liquidava  completamente  a  obrigação  do  devedor  originário,  o  mesmo  não  sucedia  em 
relação  ao  sacador  quando  uma  letra  era  aceite;  embora  dando  ao  tomador  direitos 
sobre  o  sacado,  a  aceitação  não  cancelava  o  compromisso  do  sacador  relativamente  ao 
mutuante  originário28-.  Mas  isto  não  impedia  a  emissão  de  letras  de  constituir, 
mediante  os  mecanismos  do  crédito,  uma  criação  de  meios  de  pagamento28*.  Sucedeu 
por  vezes  que  previamente  à  difusão  da  prática  do  endosso  o  beneficiário  de  uma  letra 
escrevesse  uma  carta  ao  sacado,  dando-lhe  indicação  para  pagar  a  uma  terceira  pessoa, 
e  uma  missiva  deste  teor  só  se  diferenciava  do  endosso  pelo  detalhe  técnico  de  não 
estar  escrita  no  próprio  título284.  Além  disso,  as  letras  de  câmbio  circulavam  antes  de  se 
instaurar  a  sua  negociabilidade,  na  medida  em  que  eram  frequentemente  objecto  de 
compra  e  venda,  a  preços  determinados  pelas  taxas  cambiais285.  O  negócio  das  letras 
de  câmbio  interessava  pouco  os  cambistas,  cuja  actividade  se  concentrava  no  âmbito 
local  e  que  em  regra  não  dispunham  noutras  praças  de  extensas  redes  de  agentes  ou  de 
correspondentes286.  Quem  fez  circular  as  letras  foram  sobretudo  as  companhias  comer¬ 
ciais  e  bancárias,  presentes  numa  multiplicidade  de  lugares287,  e  mesmo  mercadores 
actuando  individualmente  ou  em  sociedades  formadas  a  curto  prazo,  e  que  contavam 
com  correspondentes  no  estrangeiro288.  Ficou  assim  facilitada  a  articulação  das  com¬ 
pensações  locais  com  as  compensações  inter-regionais  e  deu-se  um  contributo  decisivo 
para  a  unificação  das  várias  modalidades  da  Fornia  III  do  dinheiro. 

Na  verdade,  a  geografia  do  tráfico  de  longo  curso  levou  a  utilização  das  letras  de 
câmbio  a  ampliar-se  ainda  mais.  As  grandes  companhias  toscanas  procediam  à  maior 
parte  das  suas  despesas  na  orla  do  regime  senhorial,  onde  adquiriam  matérias-primas  e 
outros  produtos,  enquanto  cobravam  as  suas  receitas  sobretudo  no  centro  do  continente; 
e  já  que  os  negócios  dos  seus  clientes  corriam  no  mesmo  sentido,  as  companhias  esta- 


século  XVI.  Por  seu  lado,  R.  de  Roover  ( 1948)  54  aniecipa  também  relativamente  à  cronologia  clás¬ 
sica  referida  por  Mictiel  Mollat  et  al„  indicando  que  os  primeiros  exemplos  conhecidos  de  endosso  de 
letras  datariam  de  1610  e  1611.  R.  de  Roover  ( 1953)  16  repete  que  só  a  partir  do  princípio  do  século 
XVII  a  letra  de  câmbio  se  tomou  negociável,  acrescentando  (p.  18)  que  tal  resultado  foi  plenamente 
atingido  apenas  no  termo  do  século  XVIII.  mas  nas  pp.  83  e  100  e  segs.  situa  já  no  começo  do  século 
XVI  o  possível  início  do  endosso  das  letras.  Do  mesmo  tnodo,  id.  (1974)  220  atribui  ao  princípio  do 
século  XVI  a  inauguração  da  prática  do  endosso.  P.  Spufford  í 1986)  xxxi  é  mais  radical  na  antecipa¬ 
ção  da  cronologia  e.  apesar  de  reconhecer  que  os  exemplos  de  mudança  de  beneficiários  das  letras  são 
raros  antes  do  termo  do  século  XVI,  garante  que  cerca  de  1410  já  se  havia  desenvolvido  o  endosso. 
Pelo  contrário  -  e  muito  mais  céptico.  como  sabemos  desde  a  n.  23,  na  sua  apreciação  do  desenvolvi¬ 
mento  do  dinheiro  fiduciário  -  J.  Day  (1994)  88  atribui  a  difusão  da  prática  do  endosso  aos  meados 
do  século  XVII. 

2X2  A.  P.  Usherl  1943)  87-88. 

282  R.  de  Roover  ( 1953)  1 1 7:  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  178;  E.  Perroy  ( 1949)  171 . 

2X4  R.  de  Roover  ( 1974)  220. 

Todavia,  observa  P.  Spufford  (1986)  xxxi,  os  exemplos  de  mudança  de  beneficiários  das  letras 
são  raros  antes  do  final  do  século  XVI. 

285  R.  de  Roover  (1948)  54;  id.  (1953)  50,  63.  146;  id.  ( 1974)  185,  210;  A.  P.  Usher  ( 1932-1934) 
415. 

2X6  R.  de  Roover  ( 1948)  178;  id.  ( 1953)  16.  23-24,  135;  id.  ( 1974)  184.  214. 

287  yer  a  n 

288  Ver  a  n.  154. 


41 6 


h  ortnu  III  do  dinheiro 


vam  impossibilitadas  de  responder  de  imediato  às  dividas  que  contraíam  nas  praças 
periféricas  mediante  as  quantias  que  recebiam  em  nome  dos  clientes.  Em  sentido  con¬ 
trário  a  este  fluxo  pecuniário,  porém,  a  partir  do  século  XIII  a  corte  pontifícia  passou  a 
recolher  tributos  eclesiásticos  em  todas  as  regiões  do  regime  senhorial,  incluindo  as 
mais  excêntricas.  Como  os  fundos  apostólicos  constituíam  as  únicas  somas  importantes 
disponíveis  de  maneira  regular  na  periferia,  nomeadamente  em  Bruges  e  em  Londres, 
onde  as  companhias  mais  necessitavam  de  verbas,  e  como  o  papado  não  dispunha  de 
um  aparelho  financeiro  próprio  que  efectuasse  o  transporte  daqueles  fundos,  estava 
criada  uma  perfeita  complementaridade  de  interesses,  podendo  montar-se  um  sistema 
de  transferências  comum.  As  letras  de  câmbio,  bem  como  outras  modalidades  precur¬ 
soras  deste  tipo  de  instrumentos  financeiros,  permitiram  às  companhias  dispor  de  fun¬ 
dos  na  periferia  e  ao  mesmo  tempo  enviá-los  para  Roma,  ou  para  Avignon.  sem  terem 
para  isso  de  deslocar  numerário.  Os  pontífices  passaram  a  recorrer  de  maneira  cada  vez 
mais  sistemática  aos  serviços  das  grandes  companhias  toscanas,  e  as  cidades  onde  elas 
tinham  a  sede  prezavam  a  tal  ponto  a  relação  com  a  cúria  que  de  então  em  diante  se 
incluíram  na  aliança  guelfa-*9.  Se  tivermos  em  conta  que  durante  o  século  XIV  mais  de 
metade  das  receitas  ordinárias  anuais  da  corte  pontifícia  de  Avignon  era  recebida  a  par¬ 
tir  das  outras  regiões  da  Cristandade  romana,  assim  como  mais  de  metade  das  suas  des¬ 
pesas  era  realizada  fora  de  Avignon,  apercebemo-nos  do  papel  de  destaque  do  papado, 
e  portanto  das  companhias,  nos  grandes  fluxos  pecuniários^'. 

Através  do  câmbio  e  do  multiplicador  bancário  a  Forma  III  do  dinheiro  relacionava- 
-se  estreitamente  com  os  dois  tipos  de  numerário.  Assim,  a  Forma  III  do  dinheiro  sur¬ 
giu  no  interior  da  circulação  da  Forma  II  e.  indirectamente,  até  da  Forma  I.  Vimos  (nos 
capítulos  5.b  e  7.e)  que  nas  suas  Formas  1  e  II  o  dinheiro  se  podia  associar  ao  crédito, 
enquanto  uma  das  modalidades  de  exercício  do  mumiium.  Mas  neste  caso  o  elo  é  muito 
mais  íntimo,  já  que  a  Forma  III  do  dinheiro  nunca  teria  surgido  nem  se  desenvolveria 
independentemente  das  operações  de  crédito.  Fntre  o  comércio  de  longo  curso,  o  câm¬ 
bio,  o  crédito  e  a  emissão  do  dinheiro  fiduciário  não  existiam  quaisquer  linhas  demar- 
catórias  claras.  E  é  precisamente  neste  ponto,  quando  tantos  historiadores  pretendem 
que  a  economia  deste  período  antecipava  a  modernidade,  que  ela  desvenda  o  seu 
arcaísmo.  A  rivalidade  no  interior  do  sistema  de  troca  de  presentes,  originando  as  for¬ 
mas  extremas  do  potlatch,  fazia  com  que,  em  cada  momento,  o  volume  total  de  presen¬ 
tes  legitimamente  devido  a  todos  os  membros  de  um  dado  povo  ultrapassasse  muito  o 
volume  efectivamente  disponível  dos  meios  materiais  que  podiam  ser  usados  para  esse 


-R9  A  conjugação  enire  o  fluxo  pecuniário  das  companhias  toscanas  e  o  fluxo  pecuniário  do 
papado  foi  estabelecida  por  Y.  Renouard  (1941)  73,  86-87,  89-92,  367  e  (1940)  1 33.  139-140.  Con¬ 
sultar  acessoriamente:  R.  S.  Lopez  (1965)  306;  W  E.  Lunt  (1939-1962)  í  598-602.  II  204:  G.  Olsen 
(1969-1970)  43-45.  56;  E.  Perroy  <  1962-1963)  48:  G.  Salvemini  ( 1957)  471. 

Foi  a  partir  do  segundo  terço  do  século  XIII,  escreve  Y.  Renouard  ( 1941 )  89-90,  que  o  papado 
passou  a  recorrer  com  frequência  crescente  aos  serviços  financeiros  das  grandes  companhias.  Toda¬ 
via.  G.  Olsen  ( 1969- 1970)  43  e  56  assegura  que  já  numa  data  anterior  o  pontífice  usava  os  negocian¬ 
tes  italianos  para  proceder  ao  transporte  de  fundos. 

290  Y.  Renouard  ( 1941 )  38. 


Operações  e  conteúdo  da  forniu  III  do  dinheiro 


■417 


fim.  O  crédilo  sustentava  os  mecanismos  do  sistema  de  presentes  e,  inevitavelmente, 
gerava  meios  de  pagamento  fiduciários291. 

Quando  nos  damos  conta  da  frequência  com  que  tanto  nos  pagamentos  e  transferên¬ 
cias  cíectuados  no  interior  de  uma  rede  de  cambistas-banqueiros  como  nos  contratos  de 
câmbio  e  nas  letras  de  câmbio  aceites  pelos  comerciantes-banqueiros  e  outros  nego¬ 
ciantes  no  tráfico  de  longo  curso  se  recorria  a  operações  fictícias  apenas  para  originar  a 
formação  de  dinheiro  fiduciário,  concluímos  uma  vez  mais  que  neste  período  o  desen¬ 
volvimento  das  transacções  foi  um  mero  corolário  do  desenvolvimento  do  dinheiro,  e 
não  o  inverso.  Já  no  início  do  século  XIII  se  realizavam  em  Siena  e  em  Bolonha  contra¬ 
tos  de  câmbio  externo  sem  a  inclusão  de  praças  estrangeiras,  em  que  o  mutuário  reco¬ 
nhecia  ter  recebido  uma  dada  soma  em  moeda  estrangeira  e  prometia  pagá-la,  passado 
um  certo  prazo,  em  moeda  local-2.  E  apesar  de  as  letras  de  câmbio  terem  sido  acima 
de  tudo  empregues  para  financiai  mediante  créditos  o  comércio  de  longo  curso293,  com 
certa  frequência  elas  vieram  a  servir  de  quadro  a  empréstimos  contraídos  e  pagos  no 
interior  da  mesma  praça,  em  que  as  taxas  cambiais  praticadas  noutros  lugares  não  repre¬ 
sentavam  mais  do  que  uma  maneira  de  estabelecer  o  juro294.  Em  todas  estas  modalida¬ 
des,  as  operações  fictícias  serviam  de  quadro  a  um  dinheiro  fiduciário  bem  real. 

Explica-se  do  mesmo  modo  a  evolução  do  grande  ciclo  das  feiras  da  Champagne. 
De  início  elas  haviam  constituído  apenas,  como  todas  as  feiras,  uma  oportunidade  para 
a  realização  do  comércio  de  longo  curso.  Mas  depois,  à  medida  que  o  tráfico  se  proces¬ 
sou  cada  vez  mais  regulamente  através  de  operações  de  compensação,  e  mais  tarde 
também  de  crédito,  os  cambistas-banqueiros  que  acompanhavam  as  feiras  passaram  a 


291  Depois  de  observar  que  os  mercadores  das  regiões  setentrionais  do  regime  senhorial,  que 
mesmo  após  o  final  deste  período  continuaram  a  prática  do  tráfico  itinerante,  levavam  para  as  feiras 
de  Antuérpia  e  de  Bergen  op  Zoom  mercadorias  em  vez  de  numerário,  tendo,  por  isso,  de  fazer  circu¬ 
lar  os  créditos  sob  a  forma  de  cédulas  pagáveis  ao  portador,  R.  de  Roover  ( 1953)  97  comenta  que  se 
tratava  de  uma  forma  aperfeiçoada  de  escambo.  Parece-me  que  é  a  perspectiva  de  análise  justa  e  que  o 
seu  escopo  deve  ser  ampliado.  A  este  respeito  .são  muito  esclarecedores  os  comentários  de  M.  Mauss 
( 1923-1924)  91  -92  n.  4  a  um  texto  de  Franz  Boas.  Enquanto  o  antropólogo  norte-americano  descreve 
os  mecanismos  do  potlatch  em  temios  de  dívidas,  de  pagamentos  e  de  capital,  o  francês  propõe  que 
tais  temios  sejam  substituídos  pelas  noções  de  presente  e  de  troca  de  presentes.  Esta  pequena  polé¬ 
mica  permite-nos  verificar  que  o  crédito  fornece  unt  modelo  comum  a  uma  variedade  de  sistemas 
económicos,  o  que  revela  o  seu  carácter  arcaico  e  apresenta  a  outra  luz  o  dinheiro  fiduciário.  P.  Einzig 
( 1948)  59-61  informa  que  nas  Novas  Hébridas,  hoje  Vanuatu,  um  arquipélago  do  Pacífico  situado  a 
leste  da  Nova  Caledónia,  os  empréstimos  contraíam-se  e  eram  pagos  num  dado  tipo  de  porcos,  que 
servia  de  dinheiro;  ora.  estas  redes  de  crédito  desenvolveram-se  a  um  ponto  tal  que  o  número  total  de 
animais  em  dívida  era  sempre  superior  á  quantidade  efectivamente  existente. 

292  R.  de  Roover  (1953)  35.  37. 

293  Id..  ibid..  62-63. 

Id..  ibid..  143  considera  mesmo  que  as  letras  de  câmbio  eram  o  principal  instrumento  de  crédito  e 
J.  Day  (1994 )  200  especifica  que  elas  constituíam  a  forma  mais  corrente  de  empréstimo  a  curto  prazo, 
embora  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  178  advirta  que  talvez  os  historiadores  exagerem  a  importância  adqui¬ 
rida  pelas  letras  de  câmbio  neste  período. 

294  Acerca  deste  tipo  de  operações,  a  que  na  época  se  chamava  «eurnbium  sieeum ».  o  câmbio 
seco.  ver:  M.  Balard  ( 1978)  617;  R.  de  Roover  ( 1953)  145;  id.  (1974)  194-198,  241  e  segs.:  S.  Homer 
(1963)  78:  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  108;  R.  C.  Mueller  ( 1984)  199;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  177-178:  P. 
Spufford  (1986)  xliv. 


418 


Forma  111  do  dinheiro 


executar  a  compensação  não  só  dos  saldos  comerciais,  mas  de  qualquer  tipo  de  paga¬ 
mento  inter-regional.  As  feiras  da  Champagne  foram  escolhidas  como  lugar  de  liquida¬ 
ção  de  um  grande  número  de  dívidas  sem  qualquer  relação  com  as  transacções  que 
nelas  se  operavam  e  tomaram-se  o  centro  de  um  vastíssimo  sistema  de  compensa¬ 
ções-95.  Pelo  ritmo  da  sua  actividade  financeira  regulavam-se  todas  as  outras  praças  do 
regime  senhorial,  e  os  cursos  do  câmbio  praticados  na  Champagne  tomaram-se  um  dos 
elementos  decisivos  das  especulações  a  longa  distância-96.  As  técnicas  dos  banqueiros 
das  feiras  haviam  atingido  suficiente  complexidade  e  as  suas  capacidades  eram  já  sufi¬ 
cientemente  amplas  para  permitirem  também  as  transferências  de  rendimentos  eclesiás¬ 
ticos.  as  transferências  de  fundos  por  parte  de  funcionários  governamentais  e  as  transfe¬ 
rências  destinadas  a  sustentar  despesas  militares297.  Na  Champagne  os  mecanismos 
financeiros  foram  aprimorados  a  um  ponto  tal  que  puderam  influenciar  decisivamente 
as  práticas  posteriores,  e  isto  ajuda  a  perceber  que  no  século  XIV,  quando  estas  feiras 
tinham  já  caído  num  irreversível  declínio,  a  remessa  das  receitas  pontifícias  de  Cracó- 
via  para  Bruges  demorasse  vários  meses  a  ser  executada  pelos  mercadores  hanseáticos, 
enquanto  os  negociantes  italianos,  que  haviam  recolhido  toda  a  experiência  bancária 
das  feiras,  transmitiam  aqueles  fundos  de  Bruges  para  Avignon  em  poucos  dias298. 
Aliás,  a  história  da  decadência  das  feiras  da  Champagne,  iniciada  nos  derradeiros  anos 
do  século  XIII  e  precipitada  no  começo  do  século  seguinte299,  é  pelo  menos  tão  eluci¬ 
dativa  como  a  crónica  dos  seus  tempos  áureos,  porque,  quando  o  sistema  de  caravanas 
perdeu  a  hegemonia  em  benefício  da  condução  sedentária  dos  negócios,  as  feiras  da 
Champagne  desempenhavam  já  uma  função  financeira  demasiadamente  importante 
para  poderem  desaparecer  de  imediato3üu.  A  partir  da  segunda  década  do  século  XIV 


295  Ph.  Jones  (1974)  1704;  E.  Perrov  et  al.  (1955 1  361;  A.  P.  Usher  { 1932-1934)  406. 

296  R.-H.  Baulier  ( 1953)  135. 

297  A.  P.  Usher  (1943)  21. 

298  J.  Day  (1994)  199. 

299  Para  i.  Gilchrist  (1969)  26-27  os  sintomas  do  declínio  das  feiras  da  Champagne  são  observᬠ
veis  desde  o  final  do  segundo  terço  do  século  XIII,  enquanto  R.  de  Roover  ( 1953)  38  e  E.  Perrov  et  al. 
(1955)  361-362  situam  tais  indícios  nos  últimos  anos  daquele  século,  precisamente  quando,  na  opi¬ 
nião  de  R.-H.  Bautier  (1945)  91 ,  elas  teriam  atingido  o  apogeu.  Apesar  de  as  feiras  terem  decaído  um 
pouco  no  fim  do  século  XIII.  previne  id.  (1953)  137,  elas  mantiveram  um  elevado  grau  de  actividade 
até  à  segunda  década  do  século  seguinte,  precipitando-se  então  uma  queda  bnisca.  Outros  autores 
localizam  a  sua  decadência  no  princípio  do  século  .XIV:  M  Crubellier  (org.  1975)  171;  E.  Ennen 
(1979)  128;  L.  K.  Little  ( 1978)  12;  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  363.  No  final  do  primeiro  quartel  do  século 
XIV  o  declínio  das  feiras  já  era  irreversível,  declara  Raymond  de  Roover  em  op.  cit.,  38  e  em  (1974) 
205,  enquanto  Maurice  Crubellier  em  op.  cit..  171  e  Y.  Renouard  (1949)  93  escrevem  que  estas  feiras 
perderam  completamente  a  importância  a  partir  de  meados  do  século  XIV. 

Ml°  As  causas  do  declínio  das  feiras  da  Champagne  são  muito  discutidas  entre  os  historiadores,  e 
apesar  disso  M.  Crubellier  (org.  1975)  171  considera  que  elas  não  foram  ainda  suficientemente  anali¬ 
sadas.  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  79-80  pretendem  que  as  feiras  destinadas  ao  comércio  de  longo  curso 
entraram  em  decadência  quando  o  tráfico  atingiu  um  volume  tal  que  deixou  de  poder  processar-se 
inteiramente  no  curto  período  que  cada  feira  durava,  inaugurando-se  então  as  formas  sedentárias  de 
negócio,  conduzidas  através  de  correspondentes,  de  agentes  e  de  filiais  estabelecidos  em  praças 
estrangeiras.  Não  é  muito  diferente  a  opinião  de  E.  Ennen  ( 1979)  128  acerca  da  sedentarização  dos 
comerciantes,  admitindo  que  ela  havia  sido  em  parte  gerada  pelas  próprias  feiras  e  que  contribuiu 
depois  para  o  seu  declínio.  Esta  autora,  em  op.  cit..  ibid..  atribui  ainda  à  condução  sedentária  dos 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  111  do  dinheiro 


419 


elas  deixaram  de  servir  de  grandes  centros  de  transacçâo  de  mercadorias301,  mas  conti¬ 
nuaram  durante  algum  tempo  a  ser  usadas  para  ampliar  a  escala  da  circulação  dos 


negócios  um  desvio  nas  rotas  de  tráfico,  com  o  aumento  da  importância  dos  transportes  marítimos.  A 
sedentarização  da  actividade  mercantil  transforma-se  de  efeito  em  causa  na  versão  de  R.  de  Roover 
(1942)  34,  (1948)  11-12,  (1953)  26  e  (1974)  204-205,  que  responsabiliza  pelo  declínio  das  feiras  da 
Champagne  o  facto  de  os  Italianos  haverem  abandonado  o  tráfico  itinerante  e  terem  estabelecido 
sucursais  permanentes  em  Bruges,  junto  aos  cenuos  da  manufactura  têxtil.  A  mesma  opinião  é  defen¬ 
dida  por  J.  Gilchrist  ( 1969)  26-27  e  F.  C.  Lane  ( 1973)  137-138.  Convém  recordar  aqui  a  observação 
de  E.  Perroy  (1962-1963)  149-150.  para  quem  as  provas  da  existência  de  contactos  directos  entre  Fla¬ 
mengos  e  Italianos  não  indicam,  por  si  só,  a  decadência  das  feiras  da  Champagne,  já  que  elas  nunca 
detiveram  o  exclusivo  absoluto  do  tráfico  entre  o  norte  e  o  sul  do  continente:  o  facto  de  o  ciclo  anual 
de  feiras  da  Flandres  continuar  mal  conhecido,  previne  este  especialista  (pp.  142-146),  faz  com  que  se 
atribuam  às  feiras  da  Champagne  algumas  funções  comerciais  que  elas  não  desempenharam.  Acerca 
do  ciclo  de  feiras  da  Flandres  ver  J.-A.  van  Houtte  (1953)  183.  No  entanto,  E.  Perroy  ( 1949)  170-171 
responsabilizara  a  sedentarização  da  actividade  mercantil  e  a  abertura  de  novas  vias  de  comunicação 
pela  crise  das  feiras  da  Champagne.  Na  mesma  perspectiva,  além  de  apontarem  como  causa  da  deca 
dência  daquelas  feiras  a  sedentarização  dos  negócios,  id.  et  al.  (1955)  361-362  acrescentam  dois 
outros  motivos:  o  facto  de  certos  centros  urbanos  se  terem  apropriado  da  função  das  feiras:  e  o  estabe¬ 
lecimento  de  comunicações  marítimas  regulares  entre  Génova,  e  depois  Veneza,  por  um  lado,  e,  por 
outro,  o  Mar  do  Norte.  Estes  dois  factores  são  invocados  ainda  por  Y,  Renouard  (1949)  82-85.  ao  afir¬ 
mar  que  cidades  importantes,  nomeadamente  Paris,  se  substituíram  às  feiras  e  que  o  desenvolvimento 
de  novas  rotas  de  tráfico,  tanto  marítimas  como  terrestres,  desviou  os  negociantes  da  Champagne. 
Defendem  também  a  tese  da  concorrência  exercida  pelas  cidades:  R.-H.  Bautier  ( 1953)  144;  M.  Cni- 
bellier  (org.  1975)  171.  E  alegam  igualmente  a  alteração  dos  percursos  do  tráfico:  M.  Beard  (1938) 
74;  J.  K.  Hyde  ( 1973)  162:  D.  Nicholas  ( 1971 )  76-77;  R.  Pemoud  { 1 948 1  30,  75:  F.  Rõrig  (1967)  81. 
No  entanto,  alguns  importantes  centros  urbanos  meridionais  puderam  funcionar  desde  o  início  do 
período  enquanto  verdadeiras  feiras  permanentes,  como  vímos  na  n.  21,  sem  que  isto  tivesse  prejudi¬ 
cado  as  feiras  da  Champagne  ou  sequer  afastado  delas  os  negociantes  italianos.  Por  outro  lado.  R.-H. 
Bautier  (1953)  141-142  e  G.  Luzzatto  (1967)  137  sustentam  que  naquela  época  a  navegação  directa 
entre  as  duas  grandes  cidades  marítimas  italianas  e  os  portos  da  Flandres  e  da  Inglaterra  não  venceu  a 
concorrência  exercida  pela  rota  terrestre  e,  portanto,  não  contribuiu  para  comprometer  o  papel  das  fei¬ 
ras  da  Champagne.  O  que  quer  que  se  pense  deste  argumento,  parece-me  que  o  tráfico  não  teria  seguido 
novos  rumos  se  as  feiras  continuassem  a  exercer  uma  atracção  suficiente  sobre  os  mercadores  e,  por 
isso,  a  deslocação  das  rotas  deve  considerar-se  como  um  efeito,  ao  mesmo  nível  que  o  declínio  da 
Champagne,  e  não  como  uma  causa  deste  declínio.  Além  da  concorrência  exercida  por  Paris,  as  duas 
outras  razões  principais  que  suscitaram  a  perda  da  importância  daquelas  feiras,  a  crer  em  Robert- 
-Henri  Bautier  em  op.  cit.,  142-144,  foram,  em  primeiro  lugar,  o  desenvolvimento  da  manufactura 
têxtil  em  certas  regiões  da  Itália  a  partir  do  termo  do  século  XIII  e  do  início  do  século  XIV  e  a  crise 
do  fabrico  de  tecidos  na  França  setentrional,  impedindo  que  a  Champagne  continuasse  a  servir  de  cen¬ 
tro  de  vendas  dos  tecidos  flamengos  e  franceses  aos  mercadores  vindos  de  além-Alpes;  em  segundo 
lugar,  o  aumento  do  papel  do  ouro  na  vida  financeira  desde  o  final  do  século  XIII,  que  provocou 
variações  bruscas  na  relação  entre  os  dois  metais  amoedáveis,  levando  a  uma  crise  nas  firmas  cuja 
actividade  assentava  fundamentalmente  no  câmbio  e  agravando  o  declínio  das  feiras.  Quanto  ao  pri¬ 
meiro  dos  factores  mencionados,  id.  ( 1945)  95-97  recorrera  já  a  uma  explicação  do  mesmo  tipo.  refe¬ 
rindo  o  facto  de  o  mercado  italiano  ter  deixado  de  se  interessar  pelos  têxteis  flamengos  e  acrescen¬ 
tando  que  a  manufactura  de  tecidos  do  Brabante,  cada  vez  mais  importante,  não  recorria  às  feiras  da 
Champagne  e  escoava  a  sua  produção  através  de  Paris,  de  Bruges  e  de  Antuérpia.  Esta  afirmação, 
aliás,  está  em  franca  contradição  com  R.  Pemoud  (1948)  136.  para  quem  os  negociantes  do  Brabante 
teriam  continuado  a  frequentar  a  Champagne  muito  depois  de  haver  cessado  o  prestígio  destas  feiras 
no  tráfico  de  longo  curso.  R.  de  Roover  ( 1974)  204-205,  para  explicar  a  crise  das  feiras,  invoca  tam¬ 
bém  o  desenvolvimento  da  manufactura  têxtil  florentina.  que  levou  o  tecido  flamengo  a  perder  o  mer¬ 
cado  italiano  e  a  ser  canalizado  pelo  tráfego  báltico.  Por  seu  lado.  D.  Nicholas  (1971)  76-77  estabe- 


420 


Forniu  III  do  dinheiro 


meios  de  pagamento  e  para  gerar  em  volumes  crescentes  a  Forma  III  do  dinheiro3112.  E. 
assim,  uma  das  principais  instituições  do  tráfico  de  longo  curso  do  regime  senhorial 
manteve  em  vigor  os  mecanismos  do  comércio  apenas  para  sustentar  com  eles  o 
dinheiro  fiduciário. 


leee  igualmente  uma  relação  entre  o  declínio  da  produção  de  tecidos  flamenga  e  a  perda  de  importân¬ 
cia  das  feiras  da  Chain pagne.  Ver  ainda:  E.  Coomaert  (1957)  363.  O  segundo  factor,  resultante  da  cir¬ 
culação  pecuniária  do  ouro.  é  repetido  por  R.-H.  Bautier  ( 1992 1  79. 

A  maior  objecção,  porém,  que  se  pode  invocar  para  a  atribuição  da  decadência  das  feiras  da 
Champagne  a  causas  exclusivamente  gerais  consiste  no  facto  de  não  muito  longe,  na  Flandres,  o  ciclo 
anual  de  feiras  ter  declinado  mais  lentamente,  continuando  a  existir  c  a  atrair  negociantes  em  pleno 
século  XIV.  como  revela  E.  Perroy  (1962-1963)  142-146.  E  certo  que  J.-A.  van  Houtte  (1953)  198 
menciona  também  o  estabelecimento  de  relações  marítimas  regulares  entre  a  Itália  c  a  Flandres  para 
justificar  o  empobrecimento  das  feiras  flamengas,  que  ele  situa  no  fina)  do  século  XIII.  Mesmo  que 
admitamos  esta  versão,  porém,  não  devemos  esquecer  que  ao  mesmo  tempo  que  as  feiras  da  Cham¬ 
pagne,  e  depois  as  da  Flandres,  perdiam  a  importância  no  comércio  de  longo  curso,  outras  foram  sur¬ 
gindo  -  nomeadamente  em  Frankfurt  am  Main.  em  Boxen,  em  Lm/,  em  Genebra,  em  Chalon-sur- 
-Saône  e  em  Montbnson  -  para  onde  se  desviou  parte  do  tráfego  que  antes  procurara  a  Champagne. 
Mais  tarde  ainda,  nos  meados  do  século  XV.  atingiu  o  auge  o  ciclo  anual  das  cinco  feiras  de  Deven- 
ter,  nos  Países  Baixos  setentrionais,  e  na  segunda  metade  desse  século  e  mesmo  depois  as  feiras  de 
Lyon  alcançaram  um  relevo  considerável.  Ver  a  este  respeito:  E.  Coomaert  (1957)  363  e  segs.;  R.  de 
Roover  1 1 974)  205,  221;  E.  Ennen  (1979)  128-129;  R.  Feenstra  ( 1953)  222-224,  E.  Foumial  (1967) 
170-172;  L.  K.  Little  (1978)  12.  É  certo  que  as  novas  feiras  nunca  conseguiram  atingir  a  importância 
das  antigas,  como  sublinha  E.  Coomaert  (1957)  363,  mas  o  seu  aparecimento  e  o  seu  relativo  sucesso 
bastam  para  indicar  que  havia  ainda  oportunidade  para  o  sistema  de  feiras  na  actividade  comercial. 
Assim,  o  declínio  da  Champagne  deve  explicar-se  também  por  motivos  específicos.  Émile  Coomaert, 
em  op.  cit..  ibid.,  escreve  a  este  respeito  que  diversos  factores  de  ordem  política  desviaram  as  rotas  de 
tráfico  e  perturbaram  a  actividade  comercial  na  Champagne  Convém  recordar  que  os  condes  da 
Champagne  haviam  tido  um  papel  relevante  no  estabelecimento  das  feiras  e  na  fixação  do  seu  ciclo, 
continuando  de  então  em  diante  a  assegurar-lhes  a  protecção,  bem  como  a  beneficiar  dos  rendimentos 
fiscais  que  elas  proporcionavam.  Ver:  R.-H.  Bautier  ( 1 953)  1 1 5  e  segs.;  E.  Coomaert  ( 1 957 )  36 1  -362; 
P.  Desportes  (1979)  104,  1 10;  Y.  Renouard  1 1949)  40.  Ora,  segundo  P.  Desportes  1 1979)  104  e  1 10. 
esta  iniciativa  da  casa  condal  inseriu-se  numa  política  de  resistência  âs  tentativas  de  ampliação  do  ter¬ 
ritório  directamente  decorrente  da  coroa.  Se  assim  fosse,  qualquer  alteração  no  equilíbrio  de  poder  em 
benefício  do  monarca  francês  prejudicaria  as  feiras.  E.  com  efeito,  embora  sem  abandonar  algumas 
das  explicações  que  propusera  em  artigos  anteriores,  R.-H.  Bautier  (1992)  77  e  79-80  admite  que  con¬ 
tribuíram  para  a  decadência  das  feiras  da  Champagne  as  perseguições  e  as  espoliações  desencadeadas 
pela  coroa  francesa  contra  os  financeiros  italianos,  em  quem  assentava  a  actividade  cambial  e  bancᬠ
ria  nestas  feiras. 

301  No  entanto,  no  início  do  século  XIV  a  família  floremina  dos  Alberti,  que  se  dedicava  ainda 
então  ao  comércio  como  actividade  principal,  comprava  tecido  flamengo  nas  feiras  da  Champagne  e 
vendia-o  na  Itália,  depois  de  ter  mandado  executar  em  Florença  os  acabamentos  e  a  tinturaria.  Ver  a 
este  respeito  R.  de  Roover  (1974)  45. 

302  A  função  das  feiras  enquanto  lugar  de  pagamento  de  contas,  escreve  E.  Ennen  ( 1979)  128, 
desenvolveu-se  a  partir  da  sua  função  enquanto  mercado  de  bens.  R.-H.  Bautier  ( 1953)  133-134,  136- 
-137  e  M.  Crubellier  (org.  1975)  171  consideram  que  desde  os  meados  do  século  XIII  a  actividade 
cambial  e  financeira  havia  passado  a  prevalecer  sobre  as  transaeções  comerciais.  Ainda  acerca  do 
facto  de  as  feiras  terem  subsistido  como  quadro  de  operações  cambiais  e  financeiras,  mesmo  quando 
haviam  já  deixado  de  servir  para  a  troca  de  mercadorias,  ver:  R.-H.  Bautier  (1992)  79:  E.  Coomaert 
(1957)  362:  M.  Crubellier  (org.  1975)  171;  R.  D.  Face  ( 1957-1958)  437;  J.  Gilchrist  (1969)  27;  J.  K. 
Hyde  (1973)  69,  162;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  3,  23:  R  Si.  Lopez  et  al.  (1955)  80:  R.  L.  Reynolds 
( 1952)  363. 


421 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  IU  do  dinheiro 


c.  Esfera  social  da  Forma  111  do  dinheiro 


Recordar  que  a  ampliação  do  tráfico  comercial  se  apoiou  na  expansão  do  crédito303 
c  satisfazermo-nos  com  meia  verdade,  e  não  foi  menos  decisivo  que  nos  adiantamentos 
de  fundos  praticados  por  cambistas  e  negociantes  se  gerasse  a  Forma  III  do  dinheiro. 
Sob  o  ponto  de  vista  da  emissão  pecuniária,  teve  uma  importância  fundamental  a  asso¬ 
ciação  do  dinheiro  fiduciário  às  operações  creditícias,  porque  permitiu  ampliar  ilimita¬ 
damente  o  volume  de  dinheiro  em  circulação.  Vimos  (nos  capítulos  2.d  e  4.a)  que  na 
Forma  I  o  numerário,  perante  a  relativa  escassez  da  prata,  só  conseguiu  alargar  a  sua 
área  de  difusão  graças  às  sucessivas  depreciações  do  conteúdo  metálico-’"4.  Como  este 
processo  era  insustentável  nas  peças  componentes  da  Forma  II  do  dinheiro,  devido  às 
funções  de  prestígio  que  nunca  deixaram  de  acompanhar  o  seu  uso.  a  circulação  pecu¬ 
niária  no  seio  da  classe  dominante  deparava  com  severas  restrições.  Nestes  termos  teria 
sido  impossível  monetarizar  as  relações  sociais  no  interior  da  aristocracia,  e  portanto 
desenvolver  aí  o  poder  impessoal,  pois  a  ampliação  da  oferta  condenaria  a  Fornia  II  do 
dinheiro  a  uma  depreciação  lai  que  ela  se  tomaria  incapaz  de  veicular  o  bannum.  O 
dilema  foi  ultrapassado  através  do  aparecimento  da  Forma  III  do  dinheiro,  que  circu¬ 
lava  preferencial  mente  no  mesmo  âmbito  social  da  Forma  II.  Foi  graças  à  emissão  de 
uma  quantidade  crescente,  e  muito  variada,  de  meios  de  pagamento  fiduciários  que  se 
conseguiu  manter  estável  o  conteúdo  metálico  das  moedas  de  boa  prata  e  de  ouro  e  evi¬ 
tar  a  sua  depreciação305.  Não  me  parece  credível  a  tese  que  pretende  pôr  em  causa  a 


m  ^  revolução  comercial,  observa  R.  S  Lopez  (1974)  106,  não  foi  alimentada  por  qualquer  oferta 
maciça  de  metal  precioso,  mas  pela  estreita  colaboração  entre  negociantes  que  recorriam  ao  credito. 

304  Os  vários  motivos  que  levavam  à  quebra  da  moeda  resumem-se  a  um  só.  afirma  M.  Bloch 
(1953)  455.  ao  facto  de  uma  economia  de  trocas  cada  vez  mais  desenvolvida  não  dispor  do  numerário 
suficiente.  É  intrigante  que  o  grande  historiador  jamais  refira  neste  contexto,  nem  sequer  de  passa¬ 
gem,  a  criação  de  dinheiro  fiduciário. 

305  C.  M.  Cipolla  (1948)  138-14(1  mostra  que.  numa  situação  caracterizada  pela  falta  de  elastici¬ 
dade  da  oferta  de  metais  preciosos  e  por  um  desenvolvimento  económico  que  determinava  o  aumento 
da  procura  de  instrumentos  pecuniários,  a  quebra  regular  da  moeda  atingiu  o  numerário  de  baixa 
denominação,  porque  no  comércio  local  a  expansão  do  crédilo  foi  muito  inferior  à  verificada  na  acii- 
vidade  de  longo  curso:  assim,  como  o  crédito  forneceu  um  acréscimo  suficiente  da  massa  de  meios  de 
pagamento  no  âmbito  do  grande  comércio,  a  moeda  de  ouro  pôde  ser  poupada  à  depreciação  sistemᬠ
tica.  É  curioso  verificar  que  id.  ( 1962-1963)  417-418  e  (1965)  232  já  não  revela  a  mesma  argúcia  na 
discriminação  das  componentes  sociais  deste  problema  nem  na  elucidação  dos  diferentes  mecanismos 
em  jogo.  Por  seu  lado.  E.  Perroy  ( 1949)  170  afirma  que  o  insuficiente  acréscimo  da  massa  monetária 
foi  compensado  pelo  aumento  da  velocidade  de  circulação  da  moeda  e  pela  emissão  de  dinheiro  fidu¬ 
ciário.  Consultar  acerca  do  mesmo  problema:  C.  M.  Cipolla  ( 1962-1963)  417-418;  id.  (1965)  232:  R. 
de  Roover  1 1948)  54.  226,  249-250,  349;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  3:  R.  S.  Lopez  1 1953  b)  173-174;  id. 
et  al.  ( 1955)  15.  145:  G.  Luzzatto  (1961  b)  99-100;  E.  Perroy  (1949)  171;  id.  ( 1962-1963)  138;  id.  e( 
al.  (1955)  362-363:  J.  Piquei  (1939)  71;  P.  Spulford  (1986)  xxxiii-xxxív:  A.  P.  Usher  (1943)  183. 
Mesmo  J.  Day  1 1994).  que  exprime  o  mais  profundo  ceptieismo  quanto  à  difusão  do  dinheiro  fiduciᬠ
rio  neste  período  e  quanto  à  sua  repercussão  prática,  tal  como  referi  na  n.  23.  reconhece  (p.  88)  que 
uma  acentuada  redução  do  volume  disponível  de  metais  preciosos  levava  ao  acréscimo  dos  meios  de 
pagamento  supletivos  usados  entre  os  comerciantes.  Duvidando  igualmente  da  capacidade  dos  meca¬ 
nismos  bancários  para  sustentarem  dinheiro  fiduciário  neste  período.  H.  A.  Miskimin  (1963)  13.  toda¬ 
via,  considera  que  o  principal  efeito  do  crédito  consistiu  no  aumento  da  velocidade  de  circulação  da 
moeda,  e  não  na  ampliação  da  oferta  pecuniária.  Ph.  Wolff  (1982)  800  também  se  limita  a  indicar  que 


422 


Fornia  III  da  dinheiro 


correlação  entre  estas  duas  formas  pecuniárias  com  o  argumento  de  que  a  criação  ban¬ 
cária  de  dinheiro,  bem  como  a  intervenção  dos  outros  tipos  de  dinheiro  supletivo,  não 
se  verificaram  onde  o  numerário  era  raro,  mas,  pelo  contrário,  onde  ele  era  mais  abun¬ 
dante306.  É  fácil  reconhecer  que  nos  lugares  em  que  escasseava  a  iniciativa  comercial  a 
moeda  podia  circular  com  menos  frequência  e  em  menor  quantidade  sem  que  se  fizes¬ 
sem  sentir  pressões  para  o  aparecimento  de  modalidades  fiduciárias,  e  apenas  onde  os 
negócios  se  expandiam  havia  razões  para  que  o  numerário  fosse  copioso  e  mais  veloz  a 
sua  circulação.  Precisamente  por  este  motivo,  nos  grandes  centros  do  tráfico  de  longo 
curso,  apesar  de  a  quantidade  de  moedas  ser  elevada  em  termos  absolutos,  ela  era  insu¬ 
ficiente  em  termos  relativos,  já  que  o  crescimento  económico  tendia  a  superar  o 
aumento  da  oferta  metálica,  bem  como  tendia  a  ser  superior  ao  acréscimo  da  veloci¬ 
dade  de  circulação  da  moeda.  Em  suma.  onde  o  numerário  parecia  materialmente  raro 
ele  era  economicamente  abundante,  e  onde  proliferava  materialmente  não  bastava  para 
satisfazer  a  procura  de  dinheiro.  Deste  modo,  a  própria  difusão  da  Forma  II  arrastava 
consigo  o  aparecimento  e  o  desenvolvimento  da  Forma  III.  O  carácter  fiduciário  da 
Forma  III  fazia  com  que  os  instrumentos  pecuniários  que  a  integravam  pudessem  multi- 
plicar-se,  muito  para  além  da  base  de  riqueza  material  que  era  a  sua  referência  última, 
sem  que  por  isso  diminuísse  o  valor  que  lhes  era  conferido.  A  depreciação  podia  atingir 
as  modalidades  metálicas  do  dinheiro  porque  o  valor  destas  peças  decorria  do  valor  que 
era  atribuído  ao  seu  conteúdo,  mas  o  conteúdo  em  nada  interferia  no  valor  das  modali¬ 
dades  fiduciárias,  que  resultava  exclusivamente  da  confiança  mútua  vigente  em  círculos 
fechados107.  A  desvalorização  dos  instrumentos  da  Forma  III  do  dinheiro  não  podia  ser 
precipitada  pelo  aumento  da  quantidade  em  curso,  mas  apenas  por  crises  de  credibili¬ 
dade  que  atingissem  a  sua  emissão,  como  veremos  mais  adiante  neste  capítulo. 

E  muito  elucidativo  considerar  que  nem  todo  o  tipo  de  comércio  se  baseou  na 
expansão  do  crédito  e  nem  todo  o  tipo  de  crédito  gerou  dinheiro  fiduciário.  O  crédito 
alcançou  no  tráfico  de  longo  curso  um  desenvolvimento  muito  superior  ao  obtido  na 
actividade  mercantil  de  carácter  meramente  local.  E  embora  se  possa  admitir  que  o  cré¬ 
dito  a  curto  prazo  fosse  praticado  com  frequência  no  comércio  retalhista108,  tanto  mais 


as  letras  de  câmbio  facilitaram  a  circulação  do  dinheiro.  Por  seu  lado.  C  M.  Cipolla  ( 1962-1963)  417- 
-418  e  (1965)  232  e  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  145  recordam  o  uso  de  certos  géneros  valiosos,  nomea¬ 
damente  a  pimenta  e  outras  especiarias,  além  do  dinheiro  fiduciário,  para  suprir  a  insuficiência  dos 
metais  preciosos.  Acerca  do  emprego  da  pimenta  para  funções  pecuniárias  ver  no  capítulo  3  a  n.  33. 
Parece-me  bastante  ingénua  a  posição  de  A  M.  Watson  (1967)  31,  ao  defender  que,  no  final  do 
período,  a  difusão  de  instrumentos  de  crédito  tomava  a  oferta  de  numerário  perfeitamente  capaz  de 
preencher  as  necessidades  e  que,  por  conseguinte,  não  era  a  escassez  de  metal  precioso  que  levava  os 
governantes  a  recorrer  à  quebra  da  moeda.  O  raciocínio  deve  seguir  o  percurso  inverso,  mostrando 
que  as  operações  de  depreciação  monetária  prevaleceram  nas  esferas  em  que  não  foi  suficiente  a  difu¬ 
são  do  dinheiro  fiduciário. 

1u6  P.  Spufford  ( 1984)  380. 

107  A  transferência  contabilística  de  fundos  realizada  pelos  cambistas-banqueiros,  observa  J.  Day 
( 1994)  1 24- 1 25.  dispensava  o  estabelecimento  do  valor  intrínseco  de  cada  peça  de  moeda.  E.  a  propó¬ 
sito  de  Veneza.  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  101  comenta  que  a  realização  das  transferências  através  de  ope¬ 
rações  contabilísticas  preservava  a  maneia  di  banca  da  flutuação  brusca  do  valor  dos  metais  precio¬ 
sos.  que  atingia  o  numerário. 

308  P.  Spufford  (1988)  336. 


Operações  í’  comendo  da  Forma  III  do  dinheiro 


423 


que  se  fazia  sentir  a  falta  de  moeda  divisionária-’0''1,  a  ausência  de  documentação  nada 
nos  permite  saber  acerca  da  maneira  como  tais  operações  eram  conduzidas,  pelo  que 
ignoramos  se  neste  âmbito  foram  geradas  algumas  formas  fiduciárias310.  O  terreno  da 
análise  só  começa  a  tomar-se  firme  a  respeito  dos  empréstimos  contra  penhores.  Esta 
modalidade  limitava-se  a  transferir  poder  aquisitivo,  sem  criar  poder  aquisitivo  novo 
mediante  a  emissão  de  dinheiro  bancário311,  e  certamente  por  este  motivo  o  estatuto 
dos  lombardos,  dos  cahorsins  e  dos  usurários  judeus  era  o  mais  baixo  de  todos  os  pro¬ 
fissionais  do  crédito313.  É  verdade  que  nenhuma  camada  social  deixava  de  recorrer  aos 
penhoristas,  desde  os  mais  poderosos  magnates  até  à  gente  ínfima313,  mas  eram  os 
humildes  a  predominar,  e  eles  só  tinham  acesso  a  este  tipo  de  crédito314,  enquanto  os 
cidadãos  mais  abonados  e  a  aristocracia  rural  envolvida  nos  negócios  podiam  também 
fazer  apelo  aos  bancos313.  Assim,  a  usura  introduziu  uma  dupla  discriminação.  Do  lado 


309  A  respeito  da  moeda  divisionária  ver  no  capítulo  2  as  nn.  91  a  95.  O  próprio  facto  de  os  sobe¬ 
ranos  se  preocuparem  por  vezes  em  estimular  a  cunhagem  deste  tipo  de  peças  revela  a  insuficiência 
da  sua  circulação. 

310  P.  Spufford  (1988)  336  admite,  porém,  que  os  símbolos  metálicos  que  circulavam  no  meio 
urbano  pudessem  estar  relacionados  com  este  tipo  de  crédito,  sem  que  saibamos  exactamente  como. 

311  R.  de  Roover  ( 1 948)  118.  348:  A.  P.  Usher  (1932-1934)  399. 

312  R.  de  Roover  (1948)  107-108,  313,  347;  P.  Desportes  (1979)  125:  D.  Herlihy  (1967)  161;  R. 
S.Lopezi 1979)  6-8. 

Em  Bruges,  indica  R.  de  Roover  (1948)  106,  os  lombardos  não  eram  sequer  autorizados  a  exercer 
a  actividade  de  cambista,  embora  na  Borgonha  e  na  Franche-Comté  (p.  347)  combinassem  por  vezes 
os  penhores  e  as  operações  cambiais.  Segundo  R.-H.  Bautier  (1992)  64-65,  em  França  a  designação 
de  «lombardos»  abrangia  inicialmente  todos  os  negociantes  e  financeiros  provenientes  da  Itália 
centro-setentrional,  tanto  os  que  se  dedicavam  à  banca  e  ao  grande  comércio  como  os  penhoristas; 
embora  na  prática  eles  tivessem  sido  sempre  divididos  por  uma  estratificação  social,  progressiva- 
mente  o  termo  «lombardos»  foi-se  restringindo  aos  profissionais  da  pequena  usura,  que  ocupavam  o 
lugar  mais  baixo  da  escala.  A  crer  em  K.  L.  Reyerson  (1985)  64  e  72.  a  situação  foi  diferente  em 
Montpellier,  onde  os  empréstimos  contra  penhores  eram  praticados  tanto  por  grandes  negociantes, 
financeiros  e  cambistas  como  por  pequenos  retalhistas  e  usurários. 

313  Todas  as  categorias  sociais  estavam  representadas  entre  a  clientela  dos  lombardos  na  Flandres 
desde  o  quartel  final  do  século  XIII,  escreve  R.  de  Roover  (1948)  1 18-120.  O  mesmo,  a  crer  em  G. 
Nahon  ( 1 969)  1 1 26,  sucedia  relati vamente  aos  usurários  judeus  na  França  do  século  XIII. 

314  Os  lombardos,  chegados  no  último  quartel  do  século  XIII  à  Flandres,  onde  procediam  sobre¬ 
tudo  a  empréstimos  contra  penhores,  consoante  indica  R.  de  Roover  (1948)  99  e  1 13.  realizaram  a 
ntaior  parte  das  suas  operações  com  pessoas  de  estatuto  social  inferior  (pp.  120-122).  Na  mesma 
época  os  lombardos  fixaram-se  em  Huy,  onde  encontraram  também  os  clientes  nas  camadas  mais 
baixas,  a  crer  em  A.  Joris  (1959)  326.  Todavia,  D.  Nicholas  (1971)  309  considera  provável  que  os 
camponeses  flamengos  contraíssem  empréstimos  sobretudo  junto  dos  seus  vizinhos  abastados.  Quanto 
ao  predomínio  dos  servos  e  dos  artesãos  entre  os  devedores  dos  usurários  judeus  na  França  do  século 
XIII,  ver  G.  Nahon  (1969)  1 126.  Igualmente  em  Itália  parece  terem  sido  as  pessoas  menos  abonadas  a 
procurar  os  lombardos,  escreve  Raymond  de  Roover  em  op.  cil.,  120-122.  Por  seu  lado.  P.  Spufford 
(1988)  336  menciona  apenas  a  frequência  humilde  dos  estabelecimentos  dos  penhoristas.  Em  Luca, 
todavia.  Th.  W.  Blomquist  ( 1979)  65  pretende  que  no  século  XIII  a  população  que  pedia  dinheiro 
emprestado  aos  cambistas  pertenceria  às  camadas  sociais  inferiores. 

3,5  Averiguando  em  que  medida  se  usavam  na  sociedade  rural  outros  meios  de  pagamento  além 
da  moeda.  A.  De  Maddalena  (1982)  507-508  conclui  que  os  reconhecimentos  e  certificados  de 
dívida  podiam  ser  transferidos,  com  ou  sem  a  intervenção  de  intermediários,  ainda  que  isto  fosse 
pouco  frequente  e  apenas  sucedesse  em  circunstâncias  especiais.  Mas  o  autor  não  deixa  claro  se  esta 
circulação  ocorria  na  classe  servil,  ou  só  entre  os  senhores.  Por  seu  tumo.  Ph.  Wolff  (1982)  801 


424 


Forniu  III  do  dinheiro 


da  oferta,  afastou  os  seus  profissionais  dos  mecanismos  de  geração  da  Fornia  III  do 
dinheiro.  Portanto  -  como  regra  gerai  e  nas  situações  comuns  -  as  camadas  sociais  que 
estavam  restritas  à  manipulação  da  Forma  I  do  dinheiro  não  intervinham  na  Forma  III, 
a  qual  era  sistematicamente  utilizada  pelos  ricos  e  os  poderosos,  ligados  à  exportação 
de  grandes  volumes  de  géneros  agrícolas  ou  de  lã  e  à  importação  de  artigos  preciosos 
vindos  de  regiões  distantes316.  A  estratificação  operada  através  do  crédito  mantinha  a 
Forma  III  do  dinheiro  num  âmbito  social  próprio.  Do  lado  da  procura  a  discriminação 
não  foi  menor,  e  os  penhoristas  oneravam  com  condições  especialmente  gravosas  os 
seus  clientes,  que  na  maior  pane  estavam  excluídos  das  outras  modalidades  de  crédito. 
Com  efeito,  este  tipo  de  usurários  não  exercia  regularmente  a  função  de  banco  de  depó¬ 
sitos317,  não  podendo,  portanto,  mobilizar  fundos  alheios  para  os  seus  empréstimos,  e 
era  obrigado  a  empatar  montantes  de  capital  proporcionalmente  muito  superiores  àque¬ 
les  de  que  necessitavam  os  cambistas-banqueiros318.  F  esta  a  razão  do  elevado  nível 
das  taxas  de  juro  aplicadas  no  crédito  contra  penhores311'. 

A  desigualdade  social  inerente  à  Forma  III  do  dinheiro  reproduziu-se  noutros  níveis. 
O  uso  dos  depósitos  bancários  em  substituição  do  numerário  metálico,  que  se  verifi¬ 
cava  nos  pagamentos  locais,  dependia  de  transferências  contábil ísticas  e  de  acordos  de 
compensação,  que  só  podiam  ser  efectuados  pelos  cambistas-banqueiros,  e  também 


afirma  que  no  campo  eram  as  vendas  a  crédito  que  permitiam  ultrapassar  a  necessidade  de  numerᬠ
rio. 

318  As  moedas  de  ouro  e  o  dinheiro  fiduciário  rnais  qualificado,  observa  A.  De  Maddalena  ( 1982) 
515,  tendiam  a  concentrar-se  entre  as  pessoas  que  operavam  no  tráfico  de  longo  curso,  assim  como  as 
moedas  de  boa  praia  e  o  dinheiro  fiduciário  de  acesso  mais  fácil  tendiam  a  concentrar-se  entre  quem 
se  dedicava  aos  negócios  no  interior  de  cada  área  de  soberania. 

317  Depois  de  aíinnar  que  os  estabelecimentos  dos  lombardos  não  cumpriam  as  funções  de  banco 
de  depósitos,  R.  de  Roover  (1948)  1 17  admite  que  em  alguns  casos  eles  aceitassem  depósitos,  para 
acrescer  os  seus  fundos  operacionais.  No  entanto  (p.  118).  não  se  trataria  de  depósitos  à  ordem. 

318  ld„  ibid..  117. 

’19  Quanto  ao  motivo  que  levava  os  penhoristas  a  exigir  taxas  de  juro  mais  elevadas  do  que  as 
impostas  pelos  banqueiros,  ver  id„  ibid..  1 17  e  128-129.  Aliás,  este  historiador  admite  (pp.  1 17-1 18) 
que  os  lombardos  pagassem  taxas  de  juro  muito  altas  pelos  depósitos  que  aceitavam,  o  que  mais  ainda 
encareceria  as  taxas  de  juro  que  eles  próprios  requeriam  enquanto  mutuantes.  Segundo  P.  Spufford 
(1988)  336.  os  juros  aplicados  nos  empréstimos  contra  penhores  situar-se-iam  entre  20%  e  40%' .  Na 
Flandres.  a  partir  do  liltimo  quartel  do  século  XÍIT.  indica  Raytnond  de  Roover  em  op.  cie,  125.  a  taxa 
de  juro  cobrada  pelos  penhoristas  lombardos  era  geralmente  de  43  1/3  %  ao  ano,  e  só  os  mutuários  de 
grandes  somas  (p.  127)  podiam  beneficiar  de  taxas  mais  baixas,  embora  raramente  inferiores  a  20%. 
Na  Fiança  do  século  XIII,  o  juro  anual  praticado  pelos  usurários  judeus  elevar-se-ia  em  média  a  45%  , 
a  crer  em  O.  Nahon  (1969)  1137.  que  considera  este  montante  normal  na  época  para  os  empréstimos 
referentes  a  pequenas  quantias.  Comparem-se  estas  taxas  com  as  vigentes  entre  os  financeiros  de 
Arras,  que,  segundo  G.  Bigwood  (1924-1925)  III  501.  cobravam  no  geral  12%  ao  ano.  Este  autor  e 
Raymond  de  Roover  em  op.  cit..  10  pretendem  que  estes  financeiros  não  aceitavam  depósitos  pecu¬ 
niários  e  emprestavam  apenas  os  seus  próprios  fundos,  mas  J.  Lestocquoy  ( 1954)  76.  reputado  espe¬ 
cialista  desta  região,  afirma  que  o  dinheiro  adiantado  pelos  financeiros  de  Arras  provinha  em  parte  de 
fundos  alheios,  que  lhes  haviam  sido  confiados  para  eles  procederem  a  negócios.  Dadas  as  taxas  de 
juro  relativameme  baixas  que  oneravam  os  seus  empréstimos,  esta  última  versão  parece-me  a  mais 
verosímil.  Com  efeito,  K.  L.  Reyerson  (1985)  89  considera  plausível  que  os  cambistas-banqueiros  e 
os  negociantes-banqueiros  de  Montpellier  exigissem  no  século  XI V  juros  entre  5%  e  10%.  como  seria 
então  corrente  nos  bancos  de  depósito  e  nos  investimentos  comerciais. 


Operações  e  comendo  da  l-orma  ill  do  dinheiro 


425 


aqui  ocorreu  em  várias  cidades  uma  divisão,  definindo-se  uma  categoria  inferior  de 
profissionais,  restrita  às  operações  de  câmbio  directo  e  ao  negócio  de  metal  amoedável, 
e  uma  categoria  de  estatuto  superior,  que  desempenhava  igualmente  as  funções  bancᬠ
rias  e.  como  tal,  criava  dinheiro  fiduciário-'20.  As  próprias  autoridades  de  alguns  centros 
urbanos  começaram,  a  partir  de  certa  altura,  a  reforçar  esta  estratificação,  promulgando 
regulamentações  que  proibiam  a  aceitação  de  depósitos  a  todos  os  cambistas  que  não 
fossem  capazes  de  prestar  uma  caução  pecuniária  considerável221  ou  de  apresentar  fia¬ 
dores  que  se  responsabilizassem  por  um  dado  montante  de  dívidas222.  Assim,  a  emis¬ 
são  da  Forma  Ill  do  dinheiro  ficava  circunscrita  à  elite  urbana,  que  era  uma  compo¬ 
nente  da  classe  senhorial.  Podia  ainda  suceder,  embora  com  muitíssimo  menos  frequên¬ 
cia,  que  os  pagamentos  entre  camponeses  se  realizassem  mediante  transferências  conta- 
bilísticas  de  créditos  e  débitos,  inscritas  nos  livros  de  registo  do  senhor  ou  do  seu 
agente'22.  Neste  caso  a  aristocracia  rural  participava  também  da  geração  do  dinheiro 
fiduciário.  O  exclusivo  detido  pela  classe  dominante  na  oferta  deste  tipo  de  instrumen¬ 
tos  pecuniários  tomava-se  tanto  mais  notório  quanto  neste  período,  e  mesmo  depois,  a 
letra  supunha  invariavelmente,  um  contrato  de  câmbio,  só  podendo,  portanto,  ter  origem 
nos  contactos  entre  diferentes  áreas  monetárias.  Ora,  os  negociantes  mais  humildes  não 
exerciam  funções  decisivas  no  tráfico  de  longo  curso  e.  por  isso,  estavam  afastados  da 
possibilidade  de  emitir  este  tipo  de  dinheiro224.  Só  a  actividade  relacionada  com  o  câm¬ 
bio  e  com  os  negócios  de  longo  curso  criava  dinheiro  através  da  criação  de  crédito,  o 
que  situa  estes  mecanismos  fiduciários  no  plano  exclusivo  da  classe  dominante. 

As  implicações  sociais  da  emissão  de  dinheiro  fiduciário  foram  muito  significativas. 
Num  período  em  que  os  monarcas,  os  maiores  príncipes  e  as  cidades  mais  importantes 
obtiveram  o  absoluto  exclusivo  da  cunhagem  de  moeda,  a  Forma  III  do  dinheiro  permi¬ 
tiu  que  a  generalidade  dos  membros  da  classe  senhorial  não  perdesse  a  capacidade  de 
emissão  pecuniária,  na  medida  em  que  participava  enquanto  mutuante  nas  operações  de 
crédito.  Embora  na  sua  esmagadora  maioria  os  aristocratas  não  procedessem  pessoal¬ 
mente  a  negócios  financeiros,  eles  estavam  suficientemente  implicados  na  rede  bancᬠ
ria  para  devermos  considerá-los  todos  como  fazendo  parte  integrante  do  sistema  global 
de  produção  do  dinheiro  fiduciário.  Explica-se  assim  a  hostilidade  que  soberanos  e 
governos  de  cidades  manifestaram  pelos  aspectos  mais  avançados  da  criação  fiduciária 
de  meios  de  pagamento.  Desde  a  penúltima  década  do  século  XIII.  os  reis  de  Inglaterra 
dedicaram-se  com  notável  persistência  a  aplicar  às  letras  de  câmbio,  nos  contactos 


,2<l  A  divisão  dos  cambistas  em  duas  categorias  ocorreu  em  algumas  cidades  italianas  e  em  Barce¬ 
lona,  a  crer  em  R.  de  Roover  <  1948*  205  e  348.  Mas  também  J.  Schneider  (1950)  273  mostra  que 
entre  o  grande  número  de  cambistas  existente  em  Metz  se  destacava,  em  cada  geração,  uma  dezena, 
que  executava  funções  bancárias.  E  se  for  exacto,  consoante  afirma  Y.  Renouard  ( 1941 )  367-368.  que 
nas  grandes  praças  mercantis  o  câmbio  directo  era  efectuado  na  prática  por  qualquer  comerciante,  este 
parece-me  ser  mais  um  motivo  para  realçar  a  importância  da  estratificação  operada  entre  os  cambis¬ 
tas. 

'2I  Segundo  R.  de  Roover  1 1948)  205.  foi  o  que  sucedeu  em  Veneza  e  em  Barcelona.  Acerca 
deste  lipo  de  requisitos  ver  também  P.  Spulíord  ( 1986)  xxix. 

3--  A  exigência  de  fiadores  ocorria  em  Génova,  como  indica  R.  S.  l.opez  (1979)  1 1. 

;'2-'  A.  De  Maddalena  (1982)  508. 

■,24  R.  de  Roover  <  1953)  23-24:  Ph.  Wolff  1 1982)  801 . 


426 


Forma  III  do  dinheiro 


efectuados  com  o  continente,  o  mesmo  exclusivo  que  detinham  relativamente  à  expor¬ 
tação  e  à  importação  de  numerário,  determinando  que  tanto  para  a  emissão  como  para  a 
aceitação  de  letras  fosse  necessária  a  obtenção  prévia  de  uma  licença"21.  Estes  monar¬ 
cas  temiam  que  o  uso  de  letras  obtidas  no  estrangeiro  reduzisse  a  entrada  de  metal  pre¬ 
cioso  no  reino126;  contraditoriamente,  receavam  também  que  as  letras  estimulassem  a 
exportação  ilegal  de  ouro  e  prata,  por  isso  uma  lei  datando  do  final  do  século  XIV,  e 
que  durante  muito  tempo  se  manteve  em  vigor,  obrigava  os  negociantes  italianos  a 
comprarem  mercadorias  inglesas  de  valor  equivalente  ao  das  letras  que  tivessem 
enviado  para  fora  das  fronteiras327.  A  coroa  da  Inglaterra  sabia  ainda  que  a  circulação 
de  letras  infringia  a  sua  prerrogativa  de  fixar  as  taxas  cambiais  e,  portanto,  comprome¬ 
tia  a  capacidade  das  oficinas  de  cunhagem  para  atraírem  metal  amoedável328.  Neste 
contexto,  é  muito  verosímil  que  os  conselheiros  para  assuntos  financeiros  dos  duques 
da  Borgonha  suspeitassem,  ou  tivessem  mesmo  a  certeza,  que  nas  suas  operações  pro¬ 
fissionais  os  cambistas-banqueiros  de  Bruges  estavam  a  criar  dinheiro  e,  portanto,  a 
usurpar  funções  tidas  como  privilégio  do  príncipe,  e  isto  explica  que  no  século  XV  os 
duques  promulgassem  leis  destinadas  a  limitar  a  actividade  bancária  dos  cambistas324. 
Bruges  era.  no  termo  do  período,  a  principal  praça  financeira  a  norte  do  continente,  e 
no  sul  ocupavam  o  primeiro  plano  várias  cidades  italianas,  que  não  estavam  sujeitas  a 
qualquer  monarca  ou  príncipe  e  se  governavam  a  si  próprias.  Mesmo  assim,  e  não  obs¬ 
tante  representarem  directamente  a  elite  mercantil,  os  governos  destes  centros  urbanos 
ensaiaram  igualmente  medidas  restritivas.  De  uma  maneira  geral,  a  sul  dos  Alpes  a  lei 
obrigava  os  bancos  a  manterem  nos  seus  cofres  a  totalidade  das  somas  depositadas  e 
proibia  os  clientes  de  beneficiarem  de  saques  a  descoberto3311,  numa  tentativa  de  evitar 
a  geração  de  dinheiro  bancário.  Em  especial,  as  autoridades  não  viam  com  bons  olhos  a 
abertura  de  conta  por  uns  cambistas  nos  estabelecimentos  dos  outros,  e  para  dificultar 
as  operações  de  transferência  e  de  compensação,  com  a  consequente  expansão  da 
Forma  III  do  dinheiro,  procuraram  por  vezes  impedir  o  sistema  de  contas  cruzadas3’1. 
O  Grande  Conselho  de  Veneza,  por  exemplo,  promulgou  no  final  do  primeiro  quartel 
do  século  XIV  uma  disposição  que  proibia  os  banqueiros  de  mandarem  um  cliente 
levantar  uma  soma  a  outro  banco  onde  esse  banqueiro  tivesse  coma  aberta-'-’2. 

Mas  que  resultados  se  podiam  obter  com  tais  normas  e  restrições?  Sabemos  já, 
pelas  operações  fiduciárias  que  estudámos  neste  capítulo,  que  os  banqueiros  encontra- 


325  R.  de  Roover  ( 1 948)  245  n.  100;  T.  H.  Lloyd  (1982)  1 09.  W.  E.  Lunt  ( 1939-1962)  II  204. 

-,26T.  H.  Lloyd  (1982)  199;  J.  H.  Munro  1 1979)  198-109. 

327  J.  Day  (1984)  15;  W.  E.  Lunt  (1939-1962)  II  204-205. 

A  este  respeilo.  note-se  que  em  Veneza,  uma  das  principais  praças  exportadoras  de  metal  pre¬ 
cioso.  era  muito  activo  o  negócio  de  letras  de  câmbio,  consoante  indica  R  C  Mueller  (1984)  198- 
-199,  201  e  214. 

328  J.  H.  Munro  1 1979)  199-200. 

-’29  R.  de  Roover  (1948)  321, 339  e  segs 

Acerca  destas  normas  em  geral  ver  J.  Day  ( 1994)  1 25.  A  proibição  do  overdrafi  em  Veneza  é 
mencionada  por  F.  C.  Lane  (1973)  147.  e  F.  Thiriet  ( 1959)  308  afirma  que  o  Estado  veneziano  preten¬ 
deu  impedir  os  banqueiros  de  aceitarem  depósitos  de  carácter  especulativo. 

331  A.  P.  Usher(  1932-1934)  416:  id.  (1943)  185 

332  R.  C.  Mueller  ( 1982)93-94. 


Operações  e  cometido  da  Forma  III  do  dinheiro 


427 


ram  sempre  maneira  de  iludir  os  obstáculos,  e  com  efeito  esta  série  de  leis  corresponde 
a  um  catálogo  de  intenções  frustradas311.  As  autoridades  políticas  deparavam  aqui  com 
uma  contradição  insolúvel.  For  um  lado,  a  Forma  111  do  dinheiro  comprometia  o  exclu¬ 
sivo  que.  através  da  cunhagem  de  moeda,  elas  pretendiam  afirmar  em  toda  a  esfera 
pecuniária.  Mas.  por  outro  lado,  seria  impossível  sustentar  a  actividade  económica  e 
social  e  ao  mesmo  tempo  manter  o  valor  das  peças  decorrentes  da  Forma  II  do  dinheiro 
sem  expandir  a  Forma  III.  Aliás,  as  administrações  financeiras  dos  soberanos  acabaram 
por  reproduzir  no  seu  funcionamento  o  modelo  gerado  e  divulgado  pela  banca  particu¬ 
lar334,  quando  não  eram  mesmo  os  próprios  governantes  a  recorrer  de  modo  cada  vez 
mais  regular  ao  sistema  bancário.  As  autoridades  de  Génova,  por  exemplo,  ordenaram 
que  as  pessoas  encarregadas  da  tutela  de  menores  depositassem  o  dinheiro  dos  pupilos 
nos  cofres  de  cambistas-banqueiros33-',  o  que  correspondia  a  atribuir  um  privilégio 
legal  a  tais  estabelecimentos.  Mais  drasticamente  ainda,  sucedia  por  vezes  que  o  Estado 
veneziano  aceitasse  pagamentos  em  dinheiro  bancário:  e  quando  eram  os  próprios 
órgãos  governamentais  a  abrir  conta  em  bancos  e  a  admitir  o  pagamento  por  transferên¬ 
cia  entre  contas,  como  aconteceu  com  a  aduana  a  partir  da  terceira  década  do  século 
XIV,  o  dinheiro  bancário  adquiria  na  prática  um  curso  legal336.  No  último  quartel  desse 
século  a  relação  entre  os  bancos  privados  e  o  governo  da  cidade  havia-se  tomado  per¬ 
manente,  procedendo  os  bancos  ao  pagamento  dos  fornecedores  do  Estado  e  garantindo 
o  Estado  o  pagamento  aos  bancos,  de  maneira  que  esta  circulação  fiduciária  passara  a 
contar  com  o  apoio  da  autoridade  pública3-  '.  E  como  monarcas,  príncipes  e  cidades 
estavam  cada  vez  mais  dependentes  dos  empréstimos  concedidos  pelas  grandes  compa¬ 
nhias  italianas,  que  nas  suas  operações  de  crédito  usavam  correntemente  letras  de  câm¬ 
bio338.  também  este  instrumento  pecuniário  foi  oficialmente  reconhecido,  e  em  Ingla¬ 
terra  ficaram  sem  efeito  as  múltiplas  leis  que  haviam  pretendido  limitar  o  seu  escopo  e 
submetê-lo  ao  exclusivo  da  coroa339.  Quando  sabemos  que  pelo  menos  durante  o  rei¬ 
nado  que  ocupou  o  último  quartel  do  século  XIII  e  a  primeira  década  do  século  XIV  a 


333  Referindo-se  à  Itália,  J.  Day  ( 1994)  125  indica  que  desde  o  começo  da  banca  de  depósitos  se 
mantiveram,  na  prática,  apenas  reservas  parciais  Em  Veneza,  apesar  de  proibidos,  os  saques  a  desco¬ 
berto  eram  correntemente  efectuados,  a  crer  em  F.  C.  Lane  <  1973)  147.  Por  seu  lado,  A.  P.  Usher 
(1943)  185  esclarece  que  nos  casos  em  que  os  bancos  estavam  impedidos  de  proceder  a  depósitos 
recíprocos,  a  lei  era  iludida  mediante  a  abertura  de  contas  em  nome  pessoal,  e  R.  C.  Mueller  ( 1982) 
93-94  acrescenta  que  ficou  sem  efeito  e  foi  rapidamente  revogada  a  medida  promulgada  pelo  Grande 
Conselho  em  1322  para  proibir  os  banqueiros  de  pagarem  aos  seus  clientes  através  de  contas  abertas 
nos  estabelecimentos  de  colegas. 

334  Na  administração  real  inglesa,  pelo  menos  no  final  do  século  XIII  e  nos  primeiros  anos  do 
século  seguinte,  o  nardrohe  conseguiu  iludir  as  medidas  que  pretendiam  submeter  a  obtenção  de  fun¬ 
dos  à  autorização  do  exchequer.  através  do  pagamento  aos  seus  credores  com  instrumentos  fiduciᬠ
rios.  que  podiam  depois  ser  trocados  por  numerário  junto  dos  agentes  lixais  da  coroa.  Consultar  a  este 
respeito  M.  Prestvvich  (1972)  219,  que  observa  ainda  que  em  tais  circunstâncias  se  tornava  impossível 
instituir  um  orçamento  de  Estado  fixo. 

335  R.  S.  Lopez  (1979)  II. 

336  R.  C.  Mueller  (1982)  88-90. 

337  ld„  ibid..  97. 

338  J.  T.  NoonanJr.  (1957)  176. 

334  R.  de  Roover  ( 1948)  245  n.  100. 


42F 


Forma  III  do  dinheiro 


coroa  inglesa  procedia  a  pagamentos  no  exterior,  ou  a  pagamentos  com  moeda  estran¬ 
geira,  através  da  emissão  de  letras  de  câmbio  por  negociantes-banqueiros  italianos340, 
podemos  duvidar  que  estas  mesmas  autoridades  fossem  capazes  de  restringir  ou  contro¬ 
lar  a  circulação  de  letras  entre  particulares.  Através  deste  conjunto  de  práticas,  os  Esta¬ 
dos  legitimaram  afinal  a  criação  particular  de  dinheiro  fiduciário,  dando-lhe  por  vez.es 
uma  garantia  quase  oficial. 

Graças  às  operações  de  crédito,  a  classe  dominante  conseguiu  unificar-se  à  escala  de 
todo  o  regime  senhorial.  Enquanto  os  servos  não  iam  além  do  âmbito  restrito  das  comu¬ 
nidades  de  aldeia  ou  das  solidariedades  entre  vizinhos  -  a  não  ser  nas  grandes  lutas 
sociais  que,  precisamente  por  isso.  marcaram  o  final  deste  período  -  e  a  arraia-miúda 
só  ultrapassava  os  muros  de  uma  cidade  para  se  fechar  dentro  de  outra,  os  senhores,  ao 
mesmo  tempo  que  se  digladiavam  nas  suas  inúmeras  rivalidades  e  guerras,  integravam- 
-se  numa  rede  financeira  comum.  A  Forma  111  do  dinheiro  reforçou  o  bannum  senhorial 
não  só  ao  oferecer  um  quadro  de  emissão  monetária,  mas  igualmente  ao  dar  à  aristocra¬ 
cia  uma  oportunidade  de  consolidação  enquanto  classe,  num  plano  que  escapava  intei¬ 
ramente  à  gente  humilde. 


d.  Entre  a  oralidade  e  a  escrituração 

O  desenvolvimento  da  Forma  III  do  dinheiro  relaciona-se  de  perto  com  a  modifica¬ 
ção  dos  métodos  comerciais.  Em  primeiro  lugar,  a  activação  dos  negócios  tomou  impe¬ 
rioso  proceder  aos  pagamentos  locais  através  de  transferências  bancárias,  registadas 
nos  livros  de  contabilidade.  Depois,  durante  a  segunda  metade  do  período,  quando  em 
todo  o  regime  senhorial  os  mercadores  de  longo  curso  deixaram  de  ser  itinerantes  e  se 
sedentarizaram341  e  os  grandes  ciclos  de  feiras  perderam  o  papel  central  na  organização 
do  tráfico'4-,  a  reunião  periódica  dos  maiores  comerciantes  foi  substituída  por  um  sis- 


M.  Prcstwich  (1972)217. 

341  No  século  XII,  escreve  G.  Duby  (1073)  269-270.  o  comércio  obedecia  ao  ritmo  das  expedi¬ 
ções  sazonais;  e  no  começo  do  século  seguinte  os  mercadores  acompanhavam  ainda  as  mercadorias, 
em  sistema  de  caravana,  consoante  indica  R.  de  Roover  (1953)  30  A  sedentarização  da  actividade 
mercantil  de  longo  curso  teria  ocorrido,  para  F.  Rõrig  (1967)  42.  no  século  XIII,  ou  na  segunda 
metade  desse  século,  a  crer  em  R.  W.  Kaeuper  (1973)  2.  ou  ainda  no  seu  último  quartel,  se  aceitarmos 
a  cronologia  proposta  por  J.  K.  Hyde  (1973)  16!  Mas  F  C.  l  ane  ( 1973)  137  e  Y.  Renouard  (1949) 
174  situam  este  processo  na  transição  entre  o  século  XIII  e  o  XIV.  e  R.  Pemoud  (1948)  26-27  retarda- 
-o  mais,  remetendo-o  plenamente  para  o  século  XIV 

Não  há  qualquer  razão  para  excluir  do  processo  de  sedentarização  o  comércio  das  cidades  hanseá- 
ticas.  como  fazem  M.  Beard  1 1938)  83  e  R.  de  Roover  (1948)  260  Os  negoeios  à  comissão  permiti¬ 
ram  ao  mercador  hanseatico  permanecer  no  seu  lugar  de  origem  e  set  representado  pelos  associados 
nas  praças  estrangeiras,  mostra  F.  Ròrig  0  967)  44-45:  e  Ph.  Dollinger  ( 1964)  203-204  afirma  que  a 
progressiva  sedentarização  do  tráfico  hanseatico  se  iniciou  na  segunda  metade  do  século  XIII,  para  sc 
encerrar  nos  séculos  XIV  e  XV  no  que  dizia  respeito  aos  grandes  e  médios  negociantes.  J.  Day  ( 1994) 
199  considera  que  os  mercadores  ingleses  activos  no  tráfico  atraves  da  Mancha  nos  séculos  XIV  e  XV 
recorriam  na  maior  parte  dos  casos  ao  sistema  itinerante,  e  o  autor  pretende  que  esta  continuava  ainda 
a  ser  a  prática  hanseátiea. 

-w-  Numerosos  historiadores  relacionam  o  declínio  comercial  das  feiras  da  Champagne  com  a 


Operaçõe\  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


429 


tema  baseado  na  correspondência  entre  sedes  e  agentes  fixos543.  Em  ambos  os  casos 
tomou-se  necessário  remodelar  os  sistemas  de  registo,  a  contabilidade,  o  controlo  dos 
empregados  e  agentes  e  a  gestão  das  empresas344.  Por  isso  as  inovações  se  deveram 
então  aos  grandes  negociantes,  enquanto  os  pequenos  retalhistas  continuaram  apegados 
aos  procedimentos  tradicionais34"’.  E  como  a  escrita  foi  o  denominador  comum  das 
novas  técnicas,  os  profissionais  do  tráfico  de  longo  curso  revelaram-se  desde  esta  época 
adeptos  da  cultura  letrada,  não  só  hábeis  em  ler  e  escrever,  mas  formando  o  público 
necessário  para  o  aparecimento  de  uma  literatura  de  ficção  animada  por  temas  laicos  e 
urbanos.  Um  pouco  mais  tarde  as  famílias  dedicadas  aos  negócios  haveriam  mesmo  de 
gerar  numerosos  eruditos346. 


sedentarizaçao  dos  negócios:  E.  Coomaen  1 1957)  369-371;  R  de  Roover  (1942)  34;  id.  (1948)  1 1;  kl. 
(1953)  26.  91;  id.  (1974)  49.  204;  E  Ennen  (1979)  128;  J.  Gilchrist  (1969)  26-27;  R.  W.  Kaeuper 
(1973)  2-3;  F  C.  Lane  (1973)  137-138;  E.  Perroy  (1949)  170-171;  id.  et  ai.  (1955)  361-362.  Acerca 
desta  questão,  recordo  a  n.  300. 

343  Quanto  à  importância  da  correspondência  escrita  nos  contactos  entre  a  sede  e  as  filiais  ou  os 
representantes,  ver:  .1.  Day  (1994)  200;  R.  de  Roover  (1953)  91:  E.  Ennen  (1979)  128,  J.  K.  Hyde 
(1973)  161;  F.  Róngt  1967)  42. 

,44  Verem  geral:  R.  de  Roover  (1948)  12-13;  R.  Pernoud  (1948)  27-28;  P.  Spufford  ( 1984)  375. 

A  maior  contribuição  da  cultura  muçulmana  para  a  vida  económica  deste  período,  afirma  A.  E. 
Liebcr  (1968)  231-232,  consistiu  no  desenvolvimento  dos  métodos  comerciais  baseados  na  escrita  c 
na  conservação  dos  registos,  que  possibilitou  a  scdentarizaçào  da  actividade  mercantil. 

335  G.  Luzzatto  (1967)  209;  A.  Sapori  (1 95 1 )  694-695. 

Pelo  menos  a  sul  dos  Alpes,  também  alguns  retalhistas  sediados  nas  praças  mais  importantes  pro¬ 
cediam  a  uma  contabilidade  escrita,  conforme  indica  R.  L.  Reynolds  (1952)  353.  Em  sentido  contrário 
aos  demais  especialistas.  B.  Z.  Kedar  (1976)  118-122  e  125-127  pretende  que  a  sedentarização  da 
actividade  comercial  suscitou  um  espírito  de  rotina,  tomando  os  mercadores  avessos  à  inovação. 

346  A,  Sapori  (1946)  285  c  segs.  defende,  contra  a  opinião  de  Wemer  Sombart,  que  o  comerciante 
italiano  desta  época  possuía  uma  cultura  muito  elevada:  e  R.  S.  Lopez  <  1969-1970)  35-36  acrescenta 
que  o  alto  nível  cultural  não  se  verificava  só  entre  os  negociantes  italianos,  mas  igualmente  entre  os 
naturais  dos  outros  grandes  centros  de  tráfico.  Aliás,  como  observa  F.  Rórig  (1967)  134  a  propósito 
das  cidades  germânicas,  os  avanços  da  instrução  não  beneficiaram  toda  a  população  urbana,  mas  ape¬ 
nas  a  elite  mercantil.  E  assim,  no  final  do  período,  ao  homem  de  negócios  aventureiro  havia  sucedido 
o  de  gabinete,  de  acordo  com  a  formulação  de  Y.  Renouard  (1949)  107-108.  A  este  respeito  é  interes¬ 
sante  saber  que  o  mais  antigo  manual  de  negócios  italiano  hoje  conhecido,  compilado  em  Pisa  no 
começo  do  último  quartel  do  século  XIII,  além  de  indicações  de  carácter  histórico  c  comercial  fornece 
abundantes  preceitos  de  astrologia,  que  se  destinavam  a  prever  o  volume  da  oferta  de  cereais  nas 
várias  ocasiões,  bem  como  a  indicar  as  alturas  propícias  para  as  viagens.  Ora,  depois  de  registar  este 
facto,  Roberto  Sabatino  Lopez  em  op  cir..  37-41  pretende  que  os  restantes  manuais  de  negócios  não 
versaram  temas  astrológicos  e  que  a  correspondência  prosseguida  entre  as  sedes  das  companhias  e  os 
seus  agentes  ou  representantes  praticamente  nunca  incluíram  referências  a  horóscopos.  Sena  sedutor, 
então,  deduzir  que  no  velho  manual  pisano  haviam  ficado  marcados  os  traços  dc  um  processo  de  alte¬ 
ração  das  mentalidades,  quando  a  crença  em  mecanismos  mágicos  dava  progressivamente  lugar  a  uma 
apreciação  fria  das  oportunidades  comerciais.  Porém,  leio  em  Fritz  Rórig,  op.  cit.,  145  que  foi  dura¬ 
douro  o  interesse  dos  negociantes  pela  astrologia  e  que  ainda  nos  meados  do  século  XVI  um  comer¬ 
ciante  de  Nuremberga,  estabelecido  em  Antuérpia,  julgava-se  detentor  de  um  sistema  astrológico  que 
lhe  permitia  prever  antecipadamente  as  oscilações  no  preço  das  especiarias,  o  que  o  levara  a  rechear 
de  indicações  de  astrologia  os  relatórios  que  enviava  a  uma  companhia  comercial  com  a  qual  manti¬ 
nha  relações.  Como  sempre,  não  se  pode  aferir  pelos  critérios  do  capitalismo  o  que  seria  a  moderni¬ 
dade  de  pensamento  no  regime  senhorial. 


430 


Forma  III  do  dinheiro 


No  âmbito  da  escrita,  uma  descoberta  com  consideráveis  repercussões,  originada 
em  Itália  no  termo  do  século  XIII  e  no  começo  do  século  XIV,  foram  as  contas  corren¬ 
tes  com  duas  colunas  verticais,  uma  para  o  débito  e  outra  para  o  crédito-'47.  Esta  conta¬ 
bilidade  de  partidas  dobradas  permitia  que  em  qualquer  momento  um  comerciante  com 
negócios  em  várias  praças  tivesse  a  representação  exacta  das  suas  obrigações,  o  deve,  e 
do  volume  e  da  natureza  dos  seus  bens,  o  haver !4S.  de  maneira  a  nunca  se  perder  de 
vista  a  ligação  íntima  entre  comércio,  crédito  e  criação  fiduciária,  que  caracterizou  o 
tráfico  de  longo  curso  no  final  do  período.  Mas  é  bem  possível  que  o  sistema  de  dupla 
partida  não  tivesse  beneficiado  de  uma  tão  rápida  e  vasta  aceitação  se  não  possibili¬ 
tasse,  ao  mesmo  tempo,  o  exercício  de  uma  fiscalização  rigorosa  sobre  todos  os  mem¬ 
bros  da  empresa349.  Na  medida  em  que  cada  transacção  era  imediatamente  registada 
em  dois  lugares,  e  todos  os  movimentos  de  valores  davam  origem  a  séries  interligadas 
de  contas,  cada  uma  permitindo  conferir  e  verificar  as  restantes,  uma  falsificação  ope¬ 
rada  num  único  ponto  bastava  para  localizar  o  delinquente;  e  para  proceder  a  falsifica¬ 
ções  múltiplas  e  continuadas,  que  mantivessem  as  contas  em  equilíbrio,  era  geralmente 
necessária  a  cumplicidade  de  um  número  maior  ou  menor  de  colegas,  não  só  mais  difí¬ 
cil  de  conseguir,  mas  acarretando  os  inevitáveis  riscos  de  denúncia  e  traição350. 

A  circulação  de  informações,  e  em  boa  medida  de  informações  escritas,  foi  uma  das 
condições  fundamentais  tanto  dos  mecanismos  de  compensação  no  interior  de  uma 
praça351  como  das  operações  do  comércio  sedentário  de  longo  curso3-'3.  No  primeiro 
caso,  os  banqueiros  tinham  de  estar  ao  corrente  da  reputação  e  da  solvabilidade  de  cada 
qual,  a  tal  ponto  que  impedir  um  deles  de  frequentar  os  lugares  de  reunião  comuns  era 
o  mesmo  que  vedar-lhe  o  exercício  da  profissão.  Em  Veneza,  quando  um  tribunal  pre¬ 
tendia  punir  gravemente  um  cambista-banqueiro,  proibia-o  de  ir  ao  Rialto,  o  largo  onde 
os  seus  colegas  estavam  instalados  e  onde  trocavam  notícias  todos  os  mercadores  de 
longo  curso353.  A  densidade  da  sua  rede  de  informações  promovera  o  Rialto  a  espaço 
físico  do  sistema  bancário  veneziano,  assim  como  nas  outras  cidades  os  estabelecimen¬ 
tos  de  câmbio  se  aglomeravam  também  nos  mesmos  lugares354. 


U7  R.  de  Roover  (1942)  35;  id.  ( 1948)  12-13 

Segundo  a  tradição,  a  contabilidade  de  partidas  dobradas  teria  sido  inventada  em  Veneza,  mas  a 
documentação  revela  a  existência  de  casos  anteriores  em  Génova  e  na  Toscana.  consoante  observa  F. 
C.  Lane  (1973)  140-141. 

343  ld„  ibid.,  141. 

34u  Id.,  ibid.,  140. 

35(1  H.  Braverman  (1981  >  257  elucida  a  função  da  contabilidade  de  partidas  dobradas  nos  mecanis¬ 
mos  de  fiscalização  intenta  das  empresas. 

351  O  sucesso  de  um  cambista,  afirma  R.  C.  Mueller  ( 1 984)  197.  dependia  da  sua  capacidade  de  pre¬ 
visão  das  flutuações  sazonais  e  do  seu  talento  para  se  manter  informado  acerca  das  variações  irregulares. 

352  Y.  Renouard  (1949)  177-178  estabelece  o  nexo  entre  o  processo  de  sedentarizaçüo  da  activi- 
dade  mercantil,  as  necessidades  acrescidas  de  informação  e  a  difusão  da  escrita. 

353  F.  C.  Lane  ( 1973)  143. 

'M  R.  de  Roover  (1948)  199- 200  atribui  o  facto  de,  em  cada  cidade,  os  cambistas-banqueiros  se 
agmparem  nos  mesmos  locais  ao  carácter  oral  das  ordens  de  pagamento  e  de  transferência  dadas 
pelos  seus  clientes.  A  este  respeito  ver  a  n.  367.  Parece-me,  todavia,  que  a  necessidade  de  proceder  a 
uma  troca  permanente  de  informações  constituiu  uma  determinante  de  ordem  mais  geral  para  a  con¬ 
centração  urbanística  destes  profissionais. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  lll  do  dinheiro 


431 


No  segundo  caso,  para  que  os  dirigentes  de  uma  companhia  pudessem,  a  partir  da 
sede,  orientar  os  negócios  em  praças  distantes  sem  se  deslocarem  pessoalmente  era 
necessário  que  se  mantivessem  informados  não  só  dos  movimentos  mercantis  e  cam¬ 
biais’55,  como  também  da  situação  política  em  geral.  Passavam  de  mão  em  mão  livros, 
verdadeiros  manuais  de  instruções  práticas,  onde  se  ordenavam  e  resumiam  os  resulta¬ 
dos  de  muitos  anos  de  experiência  mercantil,  de  maneira  que  o  profissional  pudesse 
conhecer  as  condições  que  prevaleciam  nos  vários  centros  de  actividade356.  Mas  estes 
guias  não  continham,  evidentemente,  as  últimas  novidades,  e  eram  omissos  quanto  aos 
acontecimentos  secretos,  de  que  podiam  depender  tantas  fortunas.  Por  isso  os  maiores 
negociantes  tinham  de  estar  ao  corrente  de  todas  as  mudanças  económicas  e  de  procu¬ 
rar  saber  o  que  se  passava  nos  meios  fechados  da  política.  Embora  fosse  habitual  que 
os  mercadores  terminassem  as  cartas  para  os  correspondentes  estrangeiros  inserindo  a 
lista  do  curso  dos  câmbios  com  as  diversas  praças357,  isto  não  bastava,  e  os  principais 
homens  de  negócios  tinham  necessidade  de  procurar  activamente  as  informações  e  de 
assegurar  a  sua  comunicação  pontual.  Entre  os  mecanismos  internos  das  companhias 
contava-se  um  serviço  de  correios  regular  e  rápido,  que  transmitia  à  sede  as  informa¬ 
ções  das  Filiais  e  dos  demais  agentes  e  correspondentes,  e  que  entregava  a  estes  as 
ordens  e  indicações  emanadas  da  sede35-.  Tratava-se  de  uma  actividade  tão  nevrálgica 
que  as  companhias  se  encarregaram  sempre  de  a  executar  elas  próprias,  apesar  de  não 
lhes  ser  tecnicamente  difícil  recorrer  a  terceiros.  Com  efeito,  deixando  de  acompanhar 
as  mercadorias  e  estabelecendo-se  sedentariamente.  os  negociantes  haviam  fornecido  a 
ocasião  para  o  desenvolvimento  de  empresas  especializadas  no  transporte  de  volumes, 
proprietárias  de  carros  e  cavalos  no  caso  do  tráfico  terrestre,  e  que  mediante  contrato 
colocavam  as  mercadorias  na  praça  de  destino3’4.  Seria  fácil  que  estas  empresas  se 
incumbissem  também  de  comunicar  informações,  e  o  facto  de  não  o  terem  feito  con¬ 
firma  a  existência  de  uma  vontade  deliberada  de  reservar  tais  funções  para  as  compa¬ 
nhias.  Na  segunda  metade  do  século  XIV  várias  companhias  italianas  associaram-se 
para  constituir  um  serviço  de  correios  comum360,  mas  decerto  encarregavam  agentes 
próprios  de  transmitir  as  informações  mais  confidenciais,  que  garantiam  o  êxito  de  uma 
companhia  na  concorrência  com  as  restantes.  A  importância  e  a  sistematicidade  desses 
correios  avalia-se  ao  sabermos  que  os  seus  serviços  passaram  a  ser  fornecidos  ao  exte¬ 
rior361.  Assim,  os  sócios  das  grandes  companhias  italianas  tomaram-se  rapidamente  as 


F.  C.  Lane  (1973)  140. 

36(1  Ph.  Jones  (1974)  1517. 

157  R.  de  Roovert  19741  198. 

’S1<  Y.  Renouard  í  1941 )  384;  id.  ( 1949)  1 36-137. 

A  sede  de  uma  grande  companhia  de  Siena,  informa  R.  S.  Lopez  (1965)  305,  recebia  todas  as 
semanas  dos  seus  correspondentes  na  Champagne  uma  lista  dos  preços  praticados  nas  feiras  e  um 
sumário  de  informações  comerciais  e  políticas,  além  de  um  relatório  acerca  das  transacções  efectua- 
das  pela  própria  firma. 

-w  E.  Ennen  ( 1979»  128;  Y.  Renouard  (1941)  64-65;  id.  (1949)  1 1 1;  R.  L.  Reynolds  (1952)  358; 
F.  Rõrig  (1967)  44;  P.  Spufford  (1984)  373-375. 

m  Y.  Renouard  (1949)  137-138, 

361  ld.  (1941)384. 


432 


Forma  III  do  dinheiro 


pessoas  mais  bem  informadas  de  toda  a  Cristandade  ocidental-162,  e  puderam  vender  ou 
ceder  os  seus  conhecimentos  a  monarcas  e  príncipes,  juntando  afinal  aos  outros  negó¬ 
cios  a  espionagem  económica,  política  e  militar'63.  Durante  o  interminável  conflito  que 
opôs  as  coroas  francesa  e  inglesa,  os  mercadores  italianos,  presentes  em  ambos  os  rei¬ 
nos.  parece  terem  desempenhado  o  papel  de  agentes  secretos  de  cada  um  dos  sobe¬ 
ranos364.  E  apesar  de  a  Igreja  ser  a  instituição  mais  ramificada,  dispondo  de  repre¬ 
sentantes  em  todos  os  lugares,  mesmo  os  mais  íntimos,  o  sumo  pontífice  recorria  no 
século  XIV  às  grandes  companhias  não  só  como  correio,  mas  igualmente  enquanto 
fonte  de  informações365. 

Ao  mesmo  tempo,  foi  a  circulação  de  informações  a  veicular  a  Forma  III  do 
dinheiro  e  a  dar-lhe  corpo,  na  medida  em  que  as  informações  no  interior  dos  bancos  se 
transformaram  em  registos  de  ordens  de  transferência  e  de  pagamento,  e  as  informa¬ 
ções  exteriores  aos  bancos  converteram-se  em  letras  de  câmbio.  Tecnicamente,  nada  de 
fundamental  distinguia  as  cartas  seladas  que  um  mercador  remetia  a  um  seu  agente  e  os 
contratos  de  câmbio  ou  as  letras  de  câmbio  que  ele  enviava366,  pois  ambas  eram  missi¬ 
vas  escritas,  transportadas  do  mesmo  modo.  Assim,  há  uma  estreita  conexão  entre,  por 
um  lado,  o  desenvolvimento  das  relações  entre  mercadores  e  o  aparecimento  de  socie¬ 
dades  de  novo  tipo  e,  por  outro,  a  Forma  III  do  dinheiro.  Esta  modalidade  fiduciária 
surgiu  como  urna  das  maneiras  de  praticar  o  comércio. 

Mas  a  difusão  da  informação  não  implicou  que  no  final  do  período  a  Forma  III  do 
dinheiro  tivesse  passado  a  consistir  exclusivamente  em  documentos  escritos.  As  ordens 
de  transferência  e  de  pagamento  bancárias,  se  do  lado  do  cambista  se  materializavam 
numa  inscrição  nos  livros  de  contabilidade,  do  lado  do  cliente  deviam  obrigatoriamente 
resultar  de  uma  declaração  oral,  e  quando  a  declaração  não  podia  efectuar-se  eram 
consideradas  válidas  as  instruções  dadas  de  viva  voz  pelo  representante  do  cliente367. 


,fl2  Id.  (1949)  137-139. 

Devido  à  sua  rede  de  relações,  escreve  R  de  Roover  ( 1948)  303.  os  mercadores-banqueiros  italia¬ 
nos  detinham  uma  posição  estratégica  no  mercado  monetário. 

363  V.  Renouard  1 1941 )  393  e  segs.;  id.  ()949i  137. 

364  Id.  (1941)394. 

363  ld..  ibid.,  1 17.  384  e  segs.,  393  e  segs.:  id.  ( 1949)  137,  139. 

*w>  R,  de  Roover  (1953)  41:  J.  Piquei  (1939)  64:  F.  Rõrig  ( 1967)  43:  A.  P.  Usher  1 1943)  79. 

As  ordens  de  pagamento  emitidas  por  Luís  IX  da  França  em  benefício  dos  seus  mutuantes, 
durante  a  expedição  contra  a  Palestina  nos  meados  do  século  XIII.  constavam  de  duas  missivas,  uma 
«aperta»,  ou  aberta,  onde  se  detalhavam  as  condições  do  contrato,  tal  como  se  se  tratasse  de  um 
documento  notarial,  com  a  diferença  de  que  era  redigida  por  um  funcionário  da  coroa,  e  outra 
«clausa»,  ou  fechada,  em  que  era  dada  uma  ordem  de  pagamento  ao  tesouro  régio.  Segundo  A. -II. 
Suyoux  (1931)  279-280,  a  carta  fechada  encontra-se  na  origem  dos  títulos  negociáveis,  enquanto  a 
carta  aberta  mantinha  o  principio  do  carácter  pessoal  do  crédito  e  da  necessidade  de  um  acto  especial 
para  a  sua  transferência. 

307  R.  de  Roover  <  1948)  199.  262-263.  269;  id.  (1953)  14,  144:  id.  i  1974)  202;  F.  C.  Lane  ( 1973) 
147:  G.  Luzzatto  (1961  b)  100-101;  R.  C.  Mueller  (1982)  97;  V.  Renouard  (1949)  52.  1 12:  P.  Spuf- 
ford  ( 1984)  378;  id.  (1986)  xxviii;  A.  P.  Usher  ( 1932- 1934)  412;  id.  (1943)  5-7,  90. 

Em  Inglaterra,  porém,  no  século  XIII,  sucedia  que  o  rei  endereçasse  uma  cana  aos  Templários 
autorizando  que  uma  dada  soma  constante  do  seu  tesouro  depositado  junto  da  Ordem  tosse  paga  a  uma 
certa  pessoa  ou  a  uni  seu  representante.  Ver  a  este  respeito  F..  Ferris  (1902-1903)  1 1.  Ora,  segundo 


Operações  <  eonteúdo  ttu  1'Hnria  III  do  dinheiro 


433 


Do  mesmo  modo.  os  saques  a  descoberto  exigiam  a  presença  física  do  cliente  e  do  ban¬ 
queiro36*.  E  esta  mesma  oral  idade  presidiu  a  numerosos  contratos,  o  que  deveria  ser 
tomado  em  conta  pelos  historiadores  quando  pretendem  avaliar  a  extensão  do  crédito 
neste  período  apenas  a  partir  dos  seus  vestígios  documentais.  É  certo  que  os  notários 
estavam  associados  de  muito  perto  à  criação  de  instrumentos  fiduciários,  pois  os  con¬ 
tratos  verbais  podiam  ser  feitos  perante  um  notário  e  uma  testemunha,  e  a  transacçào 
ficava  registada  nos  livros  notariais,  que  tinham  valor  público369.  Mas  convém  não 
esquecer  que  pelo  menos  até  meados  do  século  XII  o  acto  notarial  fora  só  um  dos  ele¬ 
mentos  de  uma  cerimónia  mais  ampla,  na  qual  se  incluíam  também  o  juramento  oral 
das  testemunhas  e  a  presença  física  das  partes  envolvidas3,0.  E  parece-me  que  de  então 
em  diante  a  importância  atribuída  às  declarações  verbais  nas  transferências  contabilísti- 
cas  mostra  que  a  voz  e  os  gestos  ainda  prevaleciam3'1.  O  documento  lavrado  pelo  notᬠ
rio  não  constituía  o  contrato,  mas  apenas  a  prova  do  contrato372. 

Todavia,  analisada  numa  certa  perspectiva  a  Forma  III  do  dinheiro  parece  ter  efecti- 
vamente  enveredado  pelo  recurso  ao  documento  escrito.  A  letra  de  câmbio,  uma  sim¬ 
ples  carta  emitida  por  um  negociante,  substituiu  o  contrato  notarial  de  câmbio373  e 
assumiu,  por  conseguinte,  valor  probatório3  '4.  Por  outro  lado,  foi  oficialmenie  atribuído 
um  verdadeiro  carácter  notarial  aos  livros  de  contabilidade  dos  estabelecimentos  de 
câmbio  convertidos  em  bancos  de  depósito,  pelo  que  as  suas  inscrições  serviam  de 
prova  legal  das  transacções37\  Mostrei  (no  capítulo  7,f)  que  o  aparecimento  do  novo 
tipo  de  agentes  senhoriais  se  deveu  à  necessidade  de  administrar  um  sistema  de  explo- 


esereve  J.  Piquet  ( 1939)  46-47,  esla  seria  unia  prática  habitual  com  os  Templários,  que  exigiam  aos 
clientes  uma  caria  de  instruções,  em  geral  de  padrão  uniforme,  sempre  que  deviam  efectuar  um  paga¬ 
mento  medianie  débito  de  uma  conta. 

’hS  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  414-415. 

w  ld..  ibid.,410. 

’70  ld.  <  1947)  57. 

’71  G.  Barni  et  al.  (1971)  506-507  são  demasiado  apressados  quando  presumem  que  neste  período 
os  contratos  prescindiram  do  formalismo  ritual  e  os  gestos  foram  substituídos  pelo  documento  escrito. 

-,7:  A.  P.  Usher  ( 1972-1934)  410. 

m  M.  Balard  (1978)  615:  R.  de  Roover  (1948)  12.  51;  id.  (1953)  17-18,  31-32,  38,41;  id.  (1974) 
203;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  176;  V.  Rcnouard  (1949)  51,  67-68;  K.  L.  Reyerson  (1985)  109-1 11:  P. 
Spufford  ( 1986)  xxxi;  A.  P.  Usher  ( 1943)  81. 

374  A  letra  de  câmbio  conservou  o  carácter  legal  do  contrato  de  câmbio,  afirma  R.  de  Roover 
(1953)  18,  acrescentando  (p.  41)  que  as  assinaturas  de  agentes  de  sociedades  bancárias  com  crédito 
em  todas  as  praças  não  eram  menos  confiáveis  do  que  as  firmas  de  notários. 

375  R.  de  Roover  ( I94X)  250.  265.  288  n  59:  F.  C.  Lane  (1973)  147:  R.  S.  Lopez  1 1979)  1 1;  R.  C. 
Mueller  (1982)  84;  A.  P.  Usher  (1932-1934)  415:  id.  1 1943)4. 

R.  de  Roover  (1948)  265  afirma  que  os  livros  bancários  em  que  ficavam  registadas  as  ordens  de 
transferência  foram  investidos  de  valor  notarial  na  maior  parte  das  cidades  italianas;  e,  segundo  Ph. 
Dollinger  (1964)  253,  sucedia  algo  de  semelhante  nas  cidades  hanseálicas.  ontle  no  final  do  século 
XIII  foram  instituídos  registos  de  credito,  assegurando  ás  operações  uma  garantia  oficial.  No  entanto, 
em  Luca,  também  no  século  XIII.  era  ainda  necessário  o  recurso  ao  notário,  não  bastando  o  simples 
registo  de  entrada  nos  livros  de  contabilidade  dos  bancos,  consoante  esclarece  Th.  W.  Blomquist 
( 1 979 )  67.  Referindo-se  a  Génova,  M.  Balard  1 1 978  j  6 1 2  pretende  que  após  os  meados  do  século  XIV 
os  mercadores  dispunham  correntemente  de  livros  de  contabilidade  e  por  isso  podiam  prescindir  dos 
notários  para  registar  as  suas  compras  e  vendas.  Mas  não  será  que  a  secundarização  dos  notários  se 
deveu  antes  ao  facto  de  os  registos  bancários  terem  assumido  o  estatuto  de  documentos  oficiais? 


434 


Forma  III  do  dinheiro 


ração  veiculado  pela  Forma  I  do  dinheiro,  e  que  a  retribuição  destes  agentes  se  reali¬ 
zava  no  âmbito  da  Forma  II.  Vemos  agora  que  os  notários,  que  se  contavam  entre  os 
principais  agentes  senhoriais  no  meio  urbano,  estiveram  intimamente  relacionados  com 
a  Forma  III  do  dinheiro.  E  se  em  certas  modalidades  os  notários  já  não  apareciam  pes¬ 
soalmente,  isto  mostra  apenas  que  a  sua  actividade  se  havia  difundido  e,  dentro  de  limi¬ 
tes  rigorosos  e  com  objectivos  bem  determinados,  podia  ser  exercida  por  outras  institui¬ 
ções.  Mas  as  linhas  aparentemente  claras  desta  perspectiva  perdem  muita  da  sua  nitidez 
se  observarmos  que  a  Forma  III  do  dinheiro  atravessou  uma  longa  fase  em  que  ambos 
os  processos,  o  registo  escrito  e  a  declaração  oral,  vigoraram  concorrentemente  nalgu¬ 
mas  operações’71’. 

Esta  situação  reflecte,  por  um  lado,  o  facto  de  não  ter  havido  quaisquer  demarca¬ 
ções  bem  definidas  entre  o  comércio  itinerante  e  o  comércio  sedentário.  Mesmo  no  iní¬ 
cio  do  período,  os  profissionais  do  tráfico  itinerante  não  viajavam  obrigatoriamente  em 
caravanas’77.  E  a  sedentarização  da  actividade  mercantil  só  deu  origem  a  associações 
de  tipo  novo  e  só  gerou  outras  modalidades  de  crédito  em  obediência  a  um  processo 
evolutivo,  operado  no  interior  do  quadro  do  comércio  itinerante.  Em  Reims,  por  exem¬ 
plo,  nos  meados  do  século  XIII,  embora  os  grandes  negociantes  tivessem  deixado  de 
acompanhar  o  transporte  das  suas  mercadorias,  eles  continuavam  a  frequentar  as  feiras 
mais  importantes-*78.  E  durante  uma  fase  intermédia,  quando  as  feiras  da  Champagne 
não  haviam  ainda  perdido  o  papel  de  encruzilhada  do  tráfico,  mas  os  principais  merca¬ 
dores  geriam  já  os  negócios  a  partir  de  uma  sede  fixa,  os  seus  agentes  deixaram  de  ser 
itinerantes  e  estabeleceram-se  junto  às  feiras  de  maneira  permanente37''.  Assim,  este 
ciclo  de  feiras,  que  na  sua  origem  e  no  seu  desenvolvimento  estivera  estreitamente  rela¬ 
cionado  com  a  movimentação  sazonal  dos  comerciantes,  pôde  durante  algum  tempo 
adaptar-se  à  sedentarização.  De  qualquer  modo,  se  o  novo  sistema  levou  os  negociantes 
a  desistirem  de  escoltar  as  mercadorias,  não  fez.  pelo  menos  numa  fase  inicial,  com  que 
renunciassem  a  viajar  com  frequência380.  Nas  grandes  companhias,  apesar  de  os  repre¬ 
sentantes  estarem  estabelecidos  em  praças  distantes  e  aí  residirem,  eles  deviam  visitar 
episodicamente  a  sede381,  tal  como  podia  suceder  que  outros  representantes  tivessem 
de  seguir  o  trânsito  dos  bens38-,  e  os  sócios  mais  jovens  deslocavam-se  para  inspeccio- 
nar  os  negócios383,  de  maneira  que  até  um  modelo  de  organização  muito  ligado  à  acti¬ 
vidade  sedentária  incluía  ainda  elementos  de  itinerância.  Os  múltiplos  elos  de  continui¬ 
dade  estabelecidos  entre  ambos  os  sistemas  de  tráfico  talvez  contribuam  para  explicar  o 
apego  tardio  à  oralidade  nas  transacções. 


17<>  R.  de  Rcxiver  (1974)  216;  G.  Luzzatto  (1961  bi  101;  Y.  Renouard  (1949)  167;  P.  Spufford 
( 1984)  378-379;  id.  (1986)  xxix;  A.  P.  Usher  (1932-1934)416;  id.(1943l  29. 

377  A  documentação  relativa  aos  mercadores  judeus  nos  séculos  X  e  XI.  indica  I.  A.  Agus  <  1965) 
30  n.  eont..  não  revela  a  existência  de  qualquer  tráfico  em  caravanas  no  noroeste  do  continente. 

<7S  P.  Desportes  (1979)  1 16. 

f^R.-H.  Bautier  ( 1953)  134;  R.  de  Roo  ver  <  1974)  49;  R.  D  Face  (1957-1958)429-432. 

380  Y.  Renouard  (1949)  173. 

Id..  ibid..  74. 

38-A.  P.  Usher<  1943)  80-81. 

385  R.  L.  Reynolds  (1952)  358. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  ///  do  dinheiro 


435 


Por  outro  lado,  a  importância  duradoura  da  palavra  falada  justifica-se  também  pelo 
facto  de  as  transacções  comerciais  correntes  não  estarem,  como  vimos  já,  claramente 
demarcadas  das  operações  de  crédito.  Os  mercadores  que  cada  vez  mais  efectuavam  os 
seus  pagamentos  por  transferência  entre  contas  bancárias  continuavam  em  boa  medida 
a  organizar  os  negócios  consoante  as  formas  tradicionais  de  sociedade  e  podiam,  por 
isso,  recorrer  a  modalidades  arcaicas  de  relacionamento. 

A  questão,  porém,  afigura-se  mais  complexa  e  não  se  explica  apenas  pelas  dificul¬ 
dades  inerentes  a  um  longo  processo  de  evolução  gradual,  porque  tanto  os  juristas 
como  os  homens  de  negócios  se  mostraram  muito  relutantes  em  admitir  o  uso  do  docu¬ 
mento  escrito  no  sistema  bancário.  No  século  XIV  e  ao  longo  do  século  XV  a  lei 
comercial  favoreceu  sistematicamente  o  contrato  oral.  e  os  próprios  negociantes  privile¬ 
giaram,  sempre  que  possível,  as  indicações  dadas  de  viva  voz384.  Se  alguma  tendência 
consciente  houve  por  parte  dos  personagens  que  estavam  precisamente  na  primeira 
linha  destas  transformações,  ela  consistiu  em  retardar,  e  não  em  acelerar,  o  recurso  à 
escrita  na  emissão  do  dinheiro  fiduciário. 

Ora,  à  primeira  vista  isso  parece  contraditório  com  a  tendência  geral  deste  período, 
em  que  o  direito  consuetudinário  cedeu  o  lugar  ao  direito  escrito.  Aliás,  em  múltiplos 
aspectos  da  vida  social  se  iniciou  então  o  abandono  das  formas  faladas  de  relaciona¬ 
mento  para  se  difundirem  progressivamente  as  formas  escritas.  Embora  só  se  comple¬ 
tasse  muito  mais  tarde,  foi  um  processo  que  começou  neste  período,  e  que  certamente 
resultou,  em  primeiro  lugar,  da  extinção  da  sociedade  tradicional,  devida  ao  completo 
desaparecimento  do  campesinato  independente;  e,  em  segundo  lugar,  do  reforço  das 
hierarquias,  ocasionado  pelo  prevalecimento  da  senhoria  de  tipo  impessoal.  Perante  as 
prepotências  da  aristocracia  e  o  desejo  de  cobrar  cada  vez  mais  exacções  e  invadir 
novos  espaços,  a  invocação  do  testemunho  oral  era  o  único  recurso  das  comunidades 
camponesas  para  demonstrarem  os  seus  direitos  imemoriais.  Só  as  famílias  senhoriais, 
e  especialmente  os  estabelecimentos  eclesiásticos,  dispunham  de  livros  de  registos  e  os 
guardavam  e,  quando  lhes  faltavam  provas,  podiam  mandar  adulterar  os  documentos  ou 
forjá-los.  A  partir  do  momento  em  que  se  atribuiu  à  página  escrita  um  valor  probatório 
maior  do  que  ao  depoimento  verbal,  a  situação  judiciária  da  classe  servil  ficou  mais 
inferiorizada  ainda  (ver  o  capítulo  9. d  da  Parte  II).  Por  outro  lado.  ao  longo  deste 
período  verificou-se  também  a  progressiva  sedentarização  dos  soberanos38-’,  que  os 
obrigou  a  desenvolver  redes  cada  vez  mais  complexas  de  recolha  de  informações  e  de 
emanação  de  directrizes,  com  a  consequente  utilização  dos  instrumentos  escritos. 
Reduziu-se  drasticamente  a  função  atribuída  à  voz  do  rei  e  aumentou  na  mesma  propor¬ 
ção  a  importância  das  chancelarias.  Tanto  por  parte  dos  senhores  relativamente  aos 
camponeses  como  por  parte  dos  soberanos  relativamente  à  generalidade  dos  súbditos,  a 
escrita  foi  uma  técnica  indispensável  à  consolidação  do  batmurn  e  ao  reforço  das  hie¬ 
rarquias. 


3X4  R.  de  Ruover  ( 1948)  264;  kl.  (19741  216;  A.  P  Usher  ( 1932-1934)  416;  id.  (1943)7-8. 

3X5  J  Boussard  (1958)  479-480;  W.  M  Newman  (1929)  56-57;  Y.  Renuuard  (1941)  96-97;  P. 
Spuffordt  1984)  370-371. 


43  6 


Forma  III  do  dinheiro 


E  podemos  agora  explicar  o  que  parecia  um  paradoxo.  As  formas  escritas  serviram 
antes  de  mais  aos  sistemas  hierárquicos  para  reforçar  a  autoridade  dos  poderosos.  Mas 
nas  relações  entre  homens  de  negócios,  que  se  processavam  num  meio  fechado  e  em 
termos  de  relativa  igualdade,  foram  os  velhos  instrumentos  orais  que  prevaleceram 
tanto  quanto  possível.  As  distâncias  impediam,  claro,  que  os  comerciantes  contactas¬ 
sem  sempre  pessoalmente  com  os  seus  associados  ou  agentes  nas  praças  longínquas,  e 
nestes  casos  não  havia  outro  recurso  além  da  correspondência.  Mesmo  assim,  as  letras 
de  câmbio  eram  simples  missivas  informais,  redigidas  em  termos  lacunares  relativa¬ 
mente  ao  contrato  que  pressupunham,  e  evitando  a  intervenção  dos  notários  e  de  quais¬ 
quer  órgãos  jurídicos  exteriores.  A  atribuição  de  valor  notarial  aos  livros  de  registo  ban¬ 
cários  pode.  agora,  ser  interpretada  a  outra  luz.  não  como  um  alargamento  do  âmbito  de 
acção  notarial,  mas  como  uma  resistência  a  esse  tipo  de  actividade. 

As  atribulações  da  Forma  III  do  dinheiro  entre  o  contrato  oral  e  o  documento  escrito 
não  podem  compreender-se  no  mero  quadro  das  operações  financeiras,  ou  mesmo 
comerciais,  e  reflectem  a  evolução  contraditória  da  sociedade  em  geral.  A  oralidade 
indicava  aqui  o  vigor  de  uma  relação  inter  purês  que  sustentava  o  próprio  carácter  fidu¬ 
ciário  deste  tipo  de  dinheiro. 


e.  Saque 

Para  compreendermos  todos  os  percursos  seguidos  pela  Forma  III  do  dinheiro  na 
sua  circulação  é  indispensável  não  esquecer  o  saque. 

O  saque  é  uma  componente  obrigatória  do  sistema  de  troca  de  presentes,  e  por  isso 
jamais  deixou  de  ser  praticado  no  regime  senhorial.  No  interior  de  uma  área  de  poder,  o 
bannum  pressupunha  a  pilhagem  dos  súbditos  pelo  soberano,  dos  servos  pelo  senhor  e 
de  cada  senhor  por  todos  os  outros.  Se  a  violência  estava  sempre  presente  na  cobrança 
dos  tributos,  pelo  menos  enquanto  ameaça,  então  ela  fazia  estruturalmente  parte  do  pro¬ 
cesso  de  exploração-’86,  e  o  saque,  que  não  é  mais  do  que  a  aplicação  da  violência  à 
esfera  da  economia,  não  se  distinguia  do  mecanismo  central  destas  sociedades.  A  pró¬ 
pria  teoria  política  coeva  não  concebia  que  existissem  grandes  diferenças  entre  as  exac- 
ções  e  o  roubo-58'.  Também  as  rivalidades  entre  aristocratas  continuaram  a  dar  lugar, 
com  certa  frequência,  a  acções  de  pilhagem,  e  nos  casos  em  que  as  vítimas  eram  servos 
de  outro  senhor388  as  contradições  no  seio  da  classe  dominante  conjugavam-se  com  o 
reforço  da  exploração.  Do  mesmo  modo,  os  soberanos  oneravam  correntemente  os  súb¬ 
ditos  com  confiscos  e  medidas  similares-58'',  e  quando,  por  exemplo,  eles  aproveitaram 
o  ódio  que  a  plebe,  por  motivos  estritamente  ideológicos  (ver  na  Parte  II  o  capítulo 
17.b).  começara  a  manifestar  contra  os  Judeus  e  os  sobrecarregaram  com  tributos 


5W>  I.  A.  Agus  (1965)  99-102:  M.  Bloch  (1939-1940)  II  199:  P.  Bonnassie  (1975-1976)  590:  R. 
Caggese  (1922-1930)  I  66. 

M.  Cipolla  ( 1976)  24 

m  R.  Caggese  (1922-1930)  I  252  e  ségs.:  R.  II.  Hilton  l  1949-1950)  133:  R  Pastor  ( 1980  ai  77. 
wl  II.  A.  Miskimin  (1963)  7-10 


Operações  c  conteúdo  dtt  iorma  III  do  dinheiro 


437 


colectivos  cada  vez  mais.  pesados,  estavam  a  proceder  a  outra  forma  de  saque,  que  cul¬ 
minou  na  expulsão  final  das  comunidades  judaicas.  Nada  de  diferente  se  passava  com  a 
guerra,  que  era  a  expressão  mais  eloquente  do  hanmtm  virada  para  o  exterior  de  cada 
área  de  soberania,  constituindo  um  conjunto  de  operações  de  pilhagem390,  regulares  e 
perfeitamente  ordenadas.  Uma  vez  mais,  os  teóricos  da  política  não  separavam  clara- 
mente  o  saque  e  a  guerra391,  e  com  tanta  mais  razão  quanto  no  final  do  período  as  tro¬ 
pas  de  mercenários  desempregados  deambulavam,  aterrorizando  as  populações  e  rapi¬ 
nando  por  conta  própria,  até  arranjarem  novo  contrato,  que  lhes  permitisse  pilhar  ofi¬ 
cialmente3''3.  E  o  resgate  dos  prisioneiros  -  dos  prisioneiros  com  recursos,  entenda- 
-se.  já  que  os  guerreiros  pobres  eram  para  matar  ou  deixar  morrer  no  campo  de  batalha  - 
constituía  um  negócio  tão  importante393  que  mesmo  nos  torneios,  uma  forma  rituali- 
zada  de  guerra,  a  libertação  dos  combatentes  aprisionados  era  feita  a  troco  de 
dinheiro394.  Aliás,  os  cavaleiros  da  aristocracia  começaram  a  apresentar-se  equipados 
com  armamento  pesado,  o  que  contribuía  para  lhes  proteger  a  vida  e.  portanto,  aumen¬ 
tava  as  suas  possibilidades  de  caírem  prisioneiros,  tomando-se  mais  frequentes  os  res¬ 
gates39-''.  Mas  se  o  objectivo  das  campanhas  militares  era  saquear  povos  estrangeiros, 
elas  davam  igualmente  oportunidade  de  pilhar  a  população  do  país,  e  este  era  um 
método  corrente  para  abastecer  as  hostes396.  A  tal  ponto  que  nas  regiões  setentrionais, 
no  final  do  período,  a  denominação  dos  corpos  de  exército  encarregados  de  encontrar 
os  géneros  necessários  para  o  sustento  de  tropas  e  cavalos  inspirou  o  termo  com  que 
passaram  a  ser  designados  os  piratas397.  Talvez  para  esta  confusão  semântica,  afinal  tão 
esclarecedora  do  sentido  profundo  das  palavras,  tivesse  contribuído  o  facto  de  no 
último  quartel  do  século  XI V  a  dinastia  reinante  da  Suécia  usar  a  pirataria  como  último 
recurso,  tentando  vãmente  evitar  a  destituição;  cavaleiros,  cidadãos,  camponeses  e 
gente  errante  alistaram-se  então  às  ordens  de  grandes  senhores  para  iniciarem  no  Bál¬ 
tico  uma  guerra  de  corso  contra  a  navegação  hanseática,  até  serem  destroçados  e  ruma¬ 
rem  ao  Mar  do  Norte,  onde  as  suas  malfeitorias  contaram  com  o  apoio  da  pequena 


w  H.  G.  Barros  (1945-1954)  I  303-305.  307:  P.  Bonnassie  (1975-1976)  665-668;  M.  Detour- 
neaux  ( 1949)  195;  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)  48.  63-64.  id,  ( 1991)  165-168;  H.  Grassou!  (1964)  51-52, 
62  e  segs.,  68  e  seg.s..  79  e  seus..  I  10.  I  18-132;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  321:  J.  M.  lacarra 
(1963)  211,  K.  l.eyser  ( 1968)  31:  K,  B.  McFarlane  ( 1973)  33,  35:  J.  Mattoso  [1994  bj  237. 

3'M  C.  M.  Cipvílla  ( 1976)  24. 

■w“  G.  A.  tímcker  (1962)  85. 

m  C.  M.  Ci polia  (1976)26;  K.  B.  McFarlane  (1973)  19-21,  23,  27-28:  A.  Varagnac  (1946)  212. 
Nas  guerras  que  opuseram  a  coroa  inglesa  e  a  coroa  francesa  durante  o  final  do  período  e  a  pri¬ 
meira  metade  do  século  XV.  K.  B.  McFarlane  ( 197.7)  27  considera  que  a  obtenção  de  resgates  seria 
para  os  mercenários  bastante  mais  lucrativa  do  que  o  soldo  e  os  saques.  No  entanto,  observa  este 
autor,  não  parece  lerem-se  praticado  tardas  <Je  resgate  aceites  generalizadamente. 

Talvez  o  aprisionamento  de  guerreiros  pobres  tivesse  também  uma  importância  económica,  se  for 
certo  que  eles  eram  convertidos  em  escravos.  Ver  a  este  respeito  as  nn.  450  a  452 
!‘l4  J.  Mattoso  (1981 )  363;  A.  Varagnac  (1946)  212 
w-"’  E.  Perroy  et  al.  (1955)  266. 
m  M.  Prestvvich  <  1972)  1 15.  1 17-119. 

3,17  A  crer  em  Ph.  Dollinger  (1964)  104-105,  os  nhiilleins  da  Guerra  dos  Cem  Anos.  militares 
encarregados  do  abastecimento  das  hostes,  deram  origem  à  palavra  « Vitulienbriider» .  com  que  come- 
çaram  a  ser  designados  os  piratas  do  Báltico 


438 


Forma  III  do  dinheiro 


nobreza  da  Frísia  oriental  e  mesmo  de  um  príncipe  local-98.  Finalmente,  se,  por  um 
lado,  devemos  recordar  que  as  instituições  eclesiásticas  ocuparam  um  lugar  de  primeiro 
plano  no  processo  de  exploração  e,  portanto,  nas  operações  de  saque,  sabemos  já 
(desde  os  capítulos  3,a  e  17,c  da  Parte  II)  que,  por  outro  lado,  a  rapina  e  o  roubo  eram  o 
complemento  da  esmola  e  faziam  parte  do  quotidiano  dos  grupos  vocacionados  para  a 
apologia  da  pobreza  e  para  a  contestação  do  sistema  dominante. 

Em  todos  os  planos  o  saque  permeou  o  regime  senhorial,  e  permaneceu  sempre 
também  intimamente  associado  à  actividade  mercantil.  Foi  na  década  terminal  do 
século  X,  no  começo  do  movimento  de  Paz,  que  pela  primeira  vez  os  senhores  recebe¬ 
ram  a  intimação  formal  de  deixarem  de  pilhar  os  mercadores199.  Nos  alvores  do  poder 
impessoal,  a  moeda  começava  a  aparecer  como  o  veículo  de  cobrança  das  exacções,  e  o 
papel  desempenhado  pelos  comerciantes  na  circulação  pecuniária  transformou-os,  aos 
olhos  da  aristocracia,  de  meros  fornecedores  de  artigos  de  luxo,  ou  simples  objeeto  de 
cobiça,  em  elementos  cada  vez  mais  necessários  ao  funcionamento  do  processo  de 
exploração.  A  conversão,  porém,  não  foi  brusca,  nem  total.  Conhecem-se  casos  relati¬ 
vamente  tardios  de  autoridades  confiscando,  sem  qualquer  motivo  legal,  os  bens  de 
mercadores400.  Ainda  nos  dois  últimos  séculos  deste  período  era  comum  que.  nos  paí¬ 
ses  em  guerra,  tanto  os  altos  funcionários  governamentais  como  outros  de  menor  esta¬ 
tuto  se  apropriassem  dos  haveres  de  estrangeiros  originários  de  territórios  neutrais,  o 
que  vitimava  sobretudo,  se  não  exclusivameme,  os  comerciantes.  Empréstimos  força¬ 
dos  e  apreensões  de  mercadorias,  que  apenas  por  ser  legais  se  distinguiam  do  roubo, 
faziam  parte  destas  medidas  de  guerra401.  Mesmo  em  tempo  de  paz  a  pilhagem  oficial 
podia  ser  juridicamente  justificada  e  em  Marselha,  por  exemplo,  quando  se  manifestava 
uma  escassez  alimentar  persistente,  as  autoridades  costumavam  requisitar  os  víveres 
carregados  em  meios  de  transporte  estrangeiros,  pagando-os  de  acordo  com  o  preço 
comum  nas  épocas  de  abundância,  sem  ter  em  conta  a  conjuntura  de  carestia40-.  E  certo 
que  este  tipo  de  atribulações  se  tomou  para  os  negociantes  mais  a  excepção  do  que  a 
regra,  e  em  geral  eles  passaram  a  ser  poupados,  ou  mesmo  protegidos,  pela  classe 
senhorial.  Mas  a  nova  situação  não  atenuou  a  relação  do  saque  com  o  comércio,  só  que 
os  mercadores  se  encontravam  agora  entre  os  principais  beneficiários  das  pilhagens.  O 
desenvolvimento  do  comércio,  além  de  não  pôr  em  causa  o  sistema  de  presentes,  conju- 
gou-se  intimamente  com  todos  os  seus  aspectos401. 

Por  um  lado,  os  homens  de  negócios  beneficiaram  das  grandes  opções  estratégicas 
dos  soberanos  e  dos  magnates,  e  é  muito  possível  que  os  empreendimentos  bélicos 
mais  consideráveis  tivessem  delimitado  os  quadros  geopolíticos  dentro  dos  quais  se  tra¬ 
çaram  as  principais  rotas  de  longo  curso,  se  não  sucedeu  mesmo  que  fossem  os  interes¬ 
ses  do  tráfico  a  orientar  a  progressão  dos  exércitos  senhoriais.  As  campanhas  contra  a 


w*Id..  ibid..  103-104.  106. 

w  Foi  no  sínodo  de  Le  Puv,  em  99(1,  escreve  M.  Bloch  ( 1939-1940)  It  203,  que  pela  primeira  vez 
se  estipulou  a  interdição  de  pilhar  os  mercadores 
4,10  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  304,  323  e  seg.s. 

401  T.  H.  Lloyd  ( 1982)  6. 

4IC  R.  Pemoud  ( 1949)  245-246. 

411  ’  L.  K.  Little  (1978)  K. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


439 


África  do  Norte  e  o  Levante,  desde  Marrocos  até  ao  Império  Bizantino,  fornecem  um 
triplo  exemplo,  pois  ao  mesmo  tempo  que  serviram  globalmente  os  desígnios  da  elite 
mercantil404,  deram  a  algumas  cidades  italianas  a  oportunidade  para  se  digladiarem  no 
campo  de  batalha,  tentando  resolver  militarmente  as  suas  rivalidades  comerciais405, 
enquanto  as  pilhagens  permitiram  a  muita  gente  humilde  acumular  fundos  e  dedicar-se 
ao  negócio406.  Sem  estas  sucessivas  expedições,  centradas  ideologicamente  no  tema  da 
Terra  Santa,  nunca  as  grandes  praças  comerciais  italianas  teriam  conseguido  atingir  a 
dimensão  económica  que  as  caracterizou407.  No  extremo  geográfico  oposto,  e  erguendo 
igualmente  a  bandeira  da  evangelização,  a  associação  de  mercadores  de  Gotland.  pre¬ 
cursora  da  liga  hanseática,  contribuiu  com  combatentes  e  navios  para  a  conquista  da 
Livónia.  beneficiando  de  uma  porção  muito  substancial  dos  saques  e  juntando-se  à  alta 
nobreza  para  governar  o  território  subjugado.  Mas  uma  insurreição  dos  nativos  deixou 
os  ocupantes  em  posição  tão  crítica  que  tiveram  de  apelar  para  o  auxílio  da  Ordem  Teu- 
tónica  e,  uma  vez  restabelecida  a  hegemonia  cristã  e  senhorial,  os  vitoriosos  recém- 
-chegados  assumiram  todo  o  poder  e  retiraram  os  privilégios  aos  mercadores  de 
Gotland40*.  Outro  exemplo  flagrante  de  conjugação  entre  a  violência  política  e  os  negó¬ 
cios  ocorreu  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV  e  a  primeira  metade  do  século 
XV,  na  longa  guerra  que  travaram  os  reis  de  Inglaterra  e  de  França.  Obrigando  as 
manufacturas  têxteis  da  Flandres  a  pagar  um  tributo  extraordinário,  a  coroa  inglesa 
colocou  os  panos  do  seu  país  em  situação  concorrencial  no  tráfico  de  longo  curso,  de 
maneira  que  foi  a  conjuntura  militar  favorável  a  levar  ao  desenvolvimento  da  produção 
têxtil  na  ilha409. 

Por  outro  lado,  os  próprios  comerciantes  tomavam  a  iniciativa  de  proceder  a  pilha¬ 
gens  ou  até  de  se  lançar  em  verdadeiras  campanhas  de  saque.  Durante  a  época  de  crise 
que  precedeu  este  segundo  período,  nem  todos  os  imigrantes  escandinavos  se  haviam 
dedicado  preferencialmente  à  pirataria410,  e  parece  certo  que  o  fruto  das  rapinas  se  des¬ 
tinara  em  boa  medida  a  custear  as  despesas  de  instalação  na  área  do  regime  senhorial, 
permitindo  o  começo  de  uma  actividade  agrícola  e  comercial  regular411.  Aliás,  mesmo 
durante  a  fase  mais  aguerrida  das  operações  os  Escandinavos  tiveram  o  cuidado  de  pre¬ 
servar  a  continuidade  do  tráfico  mercantil,  e  talvez  as  suas  bases  fortificadas  servissem 
igualmente  de  entrepostos  comerciais412.  Eles  não  eram  mais  piratas  do  que  negocian- 


404  J.  Day  (19941  205;  J.  K.  Hytle  (1973)  31-32:  R.  Lopez  ( 1953- 1954)  617-619;  id.  ( 1955  b)  588; 
G.  Luzzatto  (1967)  123-124. 

405  G.  Luzzatto  ( 1 967)  1 24,  128-131. 

406  R.  Lopez  ( 1953-1954)  61 1:  id.  et  al.  ( 1955)  88-89. 

467  J.  K.  Hyde  ( 1973)  66;  F.  Rdrig  (1967)  1 5  e  segs.:  J.  W.  Thompson  (19.35)  439. 

Ver  ainda,  no  capítulo  1 5  da  Pane  II,  a  n.  107. 

408  Ph.  Dollinger  (1964)  44-46. 

4(19  K.  B.  McFarlane  ( 1973  )  40. 

Observa  J.  Day  (1994)  206  que  a  multiplicação  das  medidas  proteecionistas  em  Inglaterra  reflec- 
liu  a  influência  crescente  exercida  pelos  mercadores  sobre  os  centros  de  decisão  política. 

410  P.  H.  Sawyer  i  0)62  >  4.  3 1 -32 

41 1  id..  ibid..  97-99,  165.  190.  202  Ver  ígualmeme:  J.  VV.  Thompson  ( 1935)  275-276. 

Também  L.  Musset  (1965)  127-128  considera  que,  na  estratégia  dos  Escandinavos,  às  fases  da 

pilhagem  e  do  tributo  de  guerra  sucedera  a  fase  da  colonização. 

4':  A.  R.  Lewis  11958  bi  282-284,  288  e  segs.;  J.  W  Thompson  1 1935)  274-275.  277. 


440 


Forma  III  do  dinheiro 


tesJL\  Do  mesmo  modo,  as  incursões  islâmicas  na  Itália  dos  séculos  IX  e  X  haviam 
obedecido  tanto  ao  desejo  de  saque  como  ao  interesse  pelo  negócio414,  e  no  começo  do 
período  as  operações  sistemáticas  de  pilhagem  constituíram  uma  das  bases  de  acumula¬ 
ção  das  fortunas  mercantis  em  praças  tão  importantes  como  Génova  e  Pisa415.  Nos 
séculos  seguintes,  quando  aos  olhos  de  hoje  pareceria  que  o  comércio  havia  adquirido 
uma  dinâmica  própria  e  que  as  modalidades  arcaicas  de  troca  deveriam  ter-se  extin¬ 
guido,  pelo  contrário,  continuamos  a  encontrar  o  roubo  conjugado  com  as  técnicas  mais 
inovadoras  dos  negócios416.  Até  os  tradicionais  piratas  e  os  clássicos  salteadores  de 
caminhos,  pelo  mero  facto  de  venderem  os  bens  de  que  se  apoderavam  ou  a  gente  que 
capturavam,  reintroduzindo-os  portanto  no  circuito  económico,  apresentavam  na  sua 
actividade  uma  faceta  comercial41',  quando  não  eram  mesmo  alternadamente  rapinan- 
tes  e  mercadores41  s.  E  onde  traçar  a  linha  de  demarcação  entre  ladrões  que  vendiam  o 
produto  do  roubo  e  mercadores  que  compravam  artigos  roubados  para  os  venderem  em 
seguida419?  A  ausência  de  qualquer  limite  entre  negócio  e  roubo  é  flagrante  no  caso  de 


A.  R.  Lewis  <  1958  b)  282.  284. 

Todavia,  L.  Musset  (1965)  230-251  afirma  que  os  imigrantes  escandinavos  não  tinham  capaci¬ 
dade  para  se  entregar  a  qualquer  tráfico  comercial  significativo.  Por  seu  lado,  E.  Lõnnroth  ( 1969)  1 10 
pretende  que  aqueles  escandinavos  que  se  dedicavam  à  actividade  mercantil  nada  tinham  de  comum 
com  quem  se  ocupava  de  pilhagens,  e  justifica-se  com  o  argumento  de  que  a  pirataria  era  uma  inimiga 
mortal  do  comércio  regular.  Porém,  e  como  veremos  em  seguida,  não  faltam  provas  da  estreita  articu¬ 
lação  em  que  se  conjugava  o  saque  e  o  comércio. 

414  N.Cilentot  1959)  119. 

415  J.  Heersí  198 1)37. 

Consultar  também  a  n.  107  do  capítulo  15  da  Parte  11 

416  A  guerra  e  a  pirataria,  observa  M.  Beard  1 1938)  57  e  segs.,  eram  um  elemento  da  concorrência 
entre  comerciantes.  No  começo  do  período,  o  tráfico  de  longo  curso  de  produtos  de  luxo  assumia  prati¬ 
camente  a  forma  de  expedições  armadas,  afirma  J.  Heers  (1981 )  37:  e.  referindo-se  pelo  menos  à  mesma 
época,  G.  Duby  (1953)  403  e  segs.  chama  a  atenção  para  o  carácter  guerreiro  dos  comerciantes.  No  Mar 
Báltico  era  frequente  uma  actividade  mista  de  pirataria  e  de  comércio,  a  crer  em  P.  H.  Sawyer  ( 1962) 
183-184.  E  no  final  do  período,  informa  Jacques  Heers  em  np.  ar..  37.  a  pirataria  continuava  a  ser  para 
muitos  marinheiros  uma  fonte  de  acumulação  de  fundos  mercantis.  R  S  Lopez  ei  al.  (1955)  222  recor¬ 
dam  a  presença  de  piratas  genoveses  nos  meados  do  século  XIII,  sucedendo  o  mesmo  no  segundo  quar¬ 
tel  do  século  XIV.  consoante  indica  N.  Gugliclmi  (1986)  13.  e  ainda  no  termo  desse  século,  de  acordo 
com  M.  Balard  ( 1978)  597.  No  final  do  período,  Y.  Renouard  ( 1949)  97  e  segs.  mostra  como  nas  opera¬ 
ções  dos  maiores  negociantes  de  Génova  estavam  indissociavelmente  conjugados  os  aspectos  directa - 
mente  económicos  e  a  participação  nos  conflitos  militares,  servindo  as  pilhagens,  os  resgates  e  as  con¬ 
quistas  para  ampliar  o  escopo  da  actividade  mercantil.  Não  foi  diferente  a  situação  no  Mediterrâneo 
oriental,  e  F.  C.  Lane  (1973)  35  esclarece  que  a  pirataria  era  aí  bastante  comum  no  final  do  século  XII. 

417  M.  Balard  (1978)  597;  J.  N.  Hillgarth  <  1976-1978)  I  43;  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  221. 

A.  Murray  (1978)  64-66  pretende  que  seria  difícil  para  um  ladrão  vender  artigos  especializados 
sem  que  estes  fossem  reconhecidos,  mas  acrescenta  que  um  tal  tipo  de  operações  ficou  facilitado  a 
partir  do  século  XII,  com  o  desenvolvimento  dos  mercados.  Mais  realista  me  parece  ser  a  apreciação 
de  M.  Balard  (1978)  597-598.  ao  escrever,  a  propósito  do  tráfico  entre  Génova  e  o  Levante,  que  o 
pirata  era  outro  intermediário  no  circuito  das  trocas  e  que  os  custos  resultantes  da  sua  intervenção 
eram  levados  em  consideração  no  estabelecimento  tios  preços,  de  tal  modo  que  as  consequências  eco¬ 
nómicas  da  pirataria  foram  menores  do  que  durante  muito  tempo  se  imaginou. 

4IS  M.  Balard  (1978)  597:  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  II  63;  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  221:  Ch. 
Verlindcn  (1955-1977)  I  167.  174,  403  e  segs.,  796.  II  132-133.  713.  914. 

4IU1.  A.  Agus  ( 1965)  99-102 


Operações  c  conteúdo  da  Forma  UI  do  dinheiro 


441 


um  contrato  firmado  em  Génova  nos  meados  do  século  XIII.  registando  um  emprés¬ 
timo  feito  legalmente  a  um  barco  de  piratas,  e  que  devia  ser  retribuído  com  os  ganhos 
resultantes  da  pilhagem420.  Aliás,  convém  não  esquecer  que  o  fruto  do  roubo  era  repar¬ 
tido  entre  os  ladrões,  tal  como  o  fruto  do  saque  era  distribuído  entre  os  militares,  e  esta 
partilha  constituía  igualmente  uma  operação  económica,  a  tal  ponto  que  as  associações 
formadas  pelos  piratas  ou  pelos  rapinantes  da  terra  firme,  fossem  eles  guerreiros  ou 
meros  salteadores,  podiam  obedecer  ao  mesmo  modelo  das  sociedades  comerciais421.  E 
talvez  não  seja  exagerado  afirmar  que  nos  torneios,  onde  os  guerreiros  aprisionados 
tinham  de  pagar  resgate  para  serem  postos  em  liberdade,  os  vencedores  saíam  converti¬ 
dos  em  credores  e  os  vencidos  em  devedores422. 

Entre  todas  as  formas  de  associação  da  violência  à  actividade  mercantil,  talvez  a 
mais  notória  tivesse  sido  o  aprisionamento  e  a  escravização  de  seres  humanos.  Durante 
a  crise  que  separou  o  primeiro  período  do  segundo,  as  incursões  muçulmanas  na  Itália 
destinaram-se  tanto  a  comerciar  com  os  nativos  como  a  capturá-los  e  vendê-los  como 
escravos422’.  Na  Espanha,  o  objectivo  das  razias  cristãs  em  território  muçulmano  foi 
cada  vez  mais,  além  da  pilhagem  de  riquezas  materiais,  a  apreensão  de  pessoas  e  a  sua 
posterior  comercialização,  diminuindo  a  percentagem  de  inimigos  chacinados  e  aumen¬ 
tando  a  dos  prisioneiros424.  Aliás,  desde  o  século  XII  estas  expedições  interessaram 
sobremaneira  as  colectividades  urbanas424,  precisamente  onde  estavam  radicados  os 
principais  mercadores.  O  acréscimo  do  número  de  comerciantes  e  o  desenvolvimento 
da  sua  actividade  suscitaram,  portanto,  a  multiplicação  da  rapina,  bem  como  o  incre¬ 
mento  do  tráfico  de  escravos426.  Castela  e  Portugal,  afastados  das  grandes  correntes  do 
comércio  mediterrânico,  continuaram  até  ao  final  do  período  a  recorrer  à  guerra  e  às 
razias  para  se  abastecerem  de  escravos427,  e  muitos  navios  portugueses  lançaram-se 
com  o  mesmo  fim  em  acções  de  corsário  no  Atlântico,  praticando  incursões  na  costa 
africana  e  nas  ilhas  Canárias4214,  seguidos  mais  tarde  pelos  barcos  castelhanos426.  Os 
rendimentos  deviam  ser  tão  notáveis  que  o  rei  de  Portugal,  ao  confiar,  na  segunda 
década  do  século  XIV,  a  organização  e  o  comando  da  frota  de  guerra  a  um  mercador 
genovês,  concedeu-lhe,  entre  outros  benefícios.  1/5  do  valor  dos  escravos  capturados  na 
costa  africana4’".  Os  territórios  cristãos  da  Espanha  mediterrânica.  todavia,  passaram  a 
partir  dos  meados  do  século  XII,  e  sobretudo  a  partir  do  século  seguinte,  a  obter  os 


R.  S.  Lopez  et  al.  ( 1955)  222. 

421  M.  Beard  (1938)  58:  B.  Geremek  (1976)  186;  K.  B.  McFarlane  <  1973)  20-21.  28. 

422  É  esta  a  tese  defendida  por  A.  Varagnac  ( 1946)  212. 

425  N.  Cilento  ( 1959)  1 19. 

424  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  I  1 16-1 17. 

424  J.  Mattoso  1 1994  b]  237:  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  1  104-105,  117,  146-147,  151. 

426  Ch.  Verlinden  <  1955-1977)  I  167. 

4:7  id„  ibid..  1  546-547,  552  e  segs. 

No  entanto,  id.,  ibid..  I  794-795  menciona  casos  de  portugueses  comprando  escravos  em  Veneza 
nos  séculos  XIV  e  XV. 

425  Id..  ibid.,  I  547.  550. 

42<4  Id  .  ibid  .  1  551.561 
4,(1  Id..  ibid..  1  550. 


442 


Forma  III  do  dinheiro 


escravos  já  não  através  de  razias4'1,  mas  graças  ao  comércio  marítimo432  e,  acessoria¬ 
mente.  à  guerra  de  corso  e  à  pirataria433.  Em  caso  algum  este  tipo  de  comércio  se 
difundia  sem  aumentar  ao  mesmo  tempo  a  captura  violenta  de  homens,  mulheres  e 
crianças.  Foi  Génova,  a  maior  praça  mercantil  do  Mediterrâneo  ocidental,  que  hegemo¬ 
nizou  então  o  tráfico  humano  neste  lado  do  mar4 34  Mas  também  as  colónias  venezia¬ 
nas.  sobretudo  Creta,  exportaram  escravos  para  a  Espanha  mediterrânica,  por  intermé¬ 
dio  de  negociantes  originários  dos  territórios  da  coroa  de  Aragão435.  Do  século  XIII  em 
diante  este  tráfico  animou-se  consideravelmente  em  todo  o  Mediterrâneo,  envolvendo, 
além  dos  Italianos,  mercadores  do  Roussillon,  do  Languedoc  e  da  Provença,  activos  em 
Génova  e  na  Creta  veneziana436.  E  simultaneamente  ampliou-se  o  âmbito  da  pirataria, 
da  guerra  de  corso  e  de  toda  a  forma  de  ataques  pessoais,  em  estreita  ligação  com  o 
comércio,  porque  os  cativos  eram  vendidos  e  não  havia  possibilidade  aqui  de  distinguir 
mercadores  e  piratas437.  Os  Venezianos.  que  já  no  tlnal  do  período  anterior  se  haviam 
notabilizado  na  captura  de  Dálmatas43*,  foram  ao  longo  deste  período  alargando  a  sua 
área  de  actuação  e  o  seu  papel  no  tráfico439,  apoiando-se  para  isso  nos  seus  espaços 
coloniais440,  de  modo  que  no  século  XIV  rivalizavam  com  os  Genoveses  na  importação 
e  exportação  de  escravos441.  E  as  cidades  comerciais  do  interior  da  península  itálica 
compravam  o  gado  humano  às  praças  marítimas442.  O  tráfico  incidia  maioritariamente 
sobre  gente  que  havia  sido  aprisionada  em  razias,  na  Córsega44’,  na  Sardenha444,  nas 
costas  muçulmanas445,  entre  os  Eslavos  da  Dalmácia446,  na  Grécia447,  mais  longe 
depois,  nos  Balcãs  e  nos  confins  do  Mar  Negro448,  ou  no  lado  oposto,  na  África  atlân¬ 
tica449,  e  mesmo  no  coração  do  regime  senhorial,  porque  ainda  no  século  XIV  as  guer¬ 
ras  civis  em  Itália  provocaram  muitas  vezes  o  cativeiro  e  a  escravização  dos  venci¬ 
dos450,  sucedendo  o  mesmo,  também  no  século  XIV,  no  conflito  entre  Génova  e  o  reino 


431  Id„  ibid..  1  261,320. 

432  Id„  ibid..  F  104.  174,  249-251, 263  e  segs..  320. 

O  comércio  de  escravos  e  o  comércio  de  ouro  estiveram  na  base  do  desenvolvimento  mercantil  de 
Barcelona,  afirma  J.  Vicens  Vives  ( 1959)  139-140. 

4,3  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  I  261 . 320. 

434  ld..  ibid..  1  270.  II  43)  e  segs.,  455  e  segs..  953. 

435  Id..  ibid..  I  403. 

436  Id.,  ibid.,  1  733,  792-795,  797,  II  952-953. 

437  J.  Heers  (1981)  48  e  segs.:  F.  C.  Lane  (1973)  35;  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  1  403  e  segs., 
414,  796.  II  132-133,  141,  343-344,  713. 

438  Ch.  Verlinden  ( 1955-1977)  II  132,  713, 914. 

434  Id.,  ibid.,  II  132. 

440  Id„  ibid.,  I  403,  795.  II  8 1 3. 925. 

441  Id.,  ibid.,  II 426,  662  e  segs. 

442  Id..  ibid..  II  365-366,  388. 

443  J.  Heers  (198 1)47-49,  52. 

444  Id..  ibid.,  48  e  segs.;  Ch.  Verlinden  (1955-1977)  II  343. 

445  Ch.  Verlinden  ( 1955-1977)  II  343-344. 

446  Id.,  ibid.,  II  132,713,  800. 

447  F.  C.  Lane  (1973)  35. 

448  J.  Heers  (1981  >  49.  65,  69  e  segs.;  Ch.  Verlinden  ( 1955- 1977)  II  358,  459,  899. 

444  Ch.  Verlinden  ( 1 955-1977)  I  550-55 1 . 

450  J.  Heers  (198 1)45-46. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


443 


de  Aragão471,  e  quem  sabe  se  noutros  lugares  ainda45-.  E  como  foram  precisamente  os 
dois  principais  portos  mercantis  italianos45'  a  demonstrar  o  maior  empenho  no  controlo 
dos  fluxos  de  escravos,  devemos  concluir  que  a  violência  e  o  comércio  continuavam 
inseparáveis. 

O  emprego  da  violência  não  se  deveu  apenas  a  comerciantes  isolados  ou  a  pequenos 
grupos  itinerantes,  e  constituiu  igualmente  um  recurso  sistemático  das  maiores  associa¬ 
ções  mercantis.  A  partir  do  último  quartel  do  século  XIII.  e  até  ao  final  do  período,  a 
liga  hanseática  passou  a  aplicar  o  bloqueio,  ou  seja,  a  interrupção  militar  do  tráfico,  não 
só  enquanto  táctica  defensiva,  como  fizera  até  então,  mas  também  para  pressionar  países 
estrangeiros  e  outras  cidades  a  concederem  aos  seus  mercadores  direitos  e  privilégios.  A 
Hansa  era  uma  instituição  comercial,  evidentemente,  mas  o  seu  triunfo  não  foi  conse¬ 
guido  só  pelos  métodos  do  comércio.  Sem  as  suas  armadas  e  exércitos,  sem  as  guerras 
que  conduziu,  sem  a  diplomacia,  que  pressupunha  o  uso  iminente  da  força,  a  liga  han¬ 
seática  não  teria  conquistado  e  garantido  de  maneira  duradoura  um  espaço  mercantil 
próprio.  Reciprocamente,  ao  recorrer  à  violência  a  Hansa  pretendia  apenas  desenvolver 
as  suas  oportunidades  cie  negócio454.  O  mesmo  sucedeu  a  sul  dos  Alpes.  Tanto  Génova, 
o  mais  notável  porto  da  Ligiíria,  como  a  principal  cidade  marítima  toscana.  Pisa,  cons¬ 
truíram  originariamente  as  suas  frotas  para  se  lançarem  na  guerra  de  corso  e  na  pirataria, 
e  só  na  passagem  do  século  XI  para  o  século  seguinte,  com  as  riquezas  entretanto  acu¬ 
muladas  pelo  saque  e  as  rotas  abertas  pelas  armas,  a  elite  de  ambas  as  cidades  começou 
gradualmente  a  converter  as  expedições  de  pilhagem  em  viagens  comerciais455.  O  outro 
grande  porto  italiano,  Veneza,  que  dominava  o  Adriático,  era  desde  há  mais  tempo  uma 
potência  comercial,  mas  também  ali  o  tráfico  mercantil  se  conjugara  de  início  com  a 
pirataria456,  e  ao  longo  do  período  a  elite  veneziana  jamais  deixou  de  empregar  os  seus 
barcos  de  guerra  e  os  seus  exércitos  para  assegurar  o  êxito  dos  negócios457.  Na  longa 


451  Id..  ibid.,  51  e  segs 

452  Id.,  ibid..  51  sugere  a  necessidade  de  um  estudo  comparativo  da  proporção  entre  os  mortos  em 
batalha  e  os  prisioneiros  nas  regiões  do  norte  do  regime  senhorial  e  nas  regiões  meridionais,  para 
determinar  se  também  ali  tena  ocorrido  a  escravização  corrente  no  sul.  Um  indício  interessante 
encontra-se  em  S.  L.  Thrupp  (1948)  12,  ao  referir  casos  de  mercadores  que,  em  Londres,  compravam 
e  vendiam  prisioneiros  de  guerra,  capturados  para  resgate. 

453  Ch.  Verlinden  1 1955-1977)  I  270.  II  426,  43 f  e  segs.,  455  e  segs..  462-463,  662  e  segs..  678, 
951,953,  959. 

454  Acerca  do  uso  sistemático  da  violência  pela  Hansa  consultar  Ph.  Dollinger  (1964)  68-72.  91- 
-95,  97  e  segs.  e  1 39-140. 

455  G.  Duby  (1973)  167-168:  A.  R.  Lewis(1951)  198-199,  220.  222. 

456  F.  C.  Lane  (1973)  23-24. 

A.  R.  Lewis  (1951)  199  pretende  que  desde  o  início  a  frota  veneziana  estivera  interessada  pelo 
comércio,  e  não  pela  pirataria. 

457  F.C.  Lane  (1973)  31  e  segs. 

Com  o  argumento  de  que  a  nobreza  também  saqueava  e  apesar  disso  não  passara  a  dedicar-se  aos 
negócios.  G.  Luzzatto  (1961  b)  16-18  nega  que  as  campanhas  na  Palestina  tivessem  impulsionado  a 
actividade  comercial  de  Veneza  através  das  pilhagens  e  afirma  que  o  estímulo  resultou  do  aluguer  dos 
navios  para  o  transporte  dos  expedicionários  e  da  obtenção  de  privilégios  nas  cidades  conquistadas. 
Não  entendo  como  é  possível  estabelecer  uma  separação  tão  absoluta  entre  os  fundos  resultantes  do 
saque  e  os  derivados  do  aluguer  de  navios,  mas  o  que  em  qualquer  caso  importa  sublinhar  é  a  conexão 
entre  o  negócio  e  a  violência. 


444 


Forma  UI  cio  dinheiro 


disputa  em  que  Venezianos  e  Genoveses  quase  sc  destruíram  reciprocamente  é  impossí¬ 
vel  distinguir  a  concorrência  comercial  e  os  confrontos  militares45*.  Esta  necessidade  de 
apoiar  o  comércio  na  violência  caracterizou  sem  excepçào  os  mais  importantes  centros 
urbanos  da  península  itálica,  e  foi  o  desejo  de  ampliação  do  tráfico  que  lhes  orientou  a 
política  de  conquista  territorial459. 

Quando  leio  tantas  referências  aos  perigos  corridos  pelos  mercadores  nas  suas  des¬ 
locações  ou  nas  viagens  dos  barcos  de  que  eram  proprietários,  e  ao  mesmo  tempo  vejo 
que  eles  eram  com  frequência  piratas  ou  caçadores  de  escravos  ou  ladrões  de  caminhos 
e  que  nos  seus  empreendimentos  colectivos  se  apresentavam  muitas  vezes  como  tropas 
armadas,  concluo  que  alguma  coisa  não  está  ceita  nas  afirmações  dos  historiadores. 
Não  será  que  os  riscos  atingiam  menos  os  comerciantes  do  que  as  populações  com 
quem  eles  transaccionavam?  As  caravanas  de  mercadores  estavam  longe  de  ser  grupos 
indefesos4**0,  expostos  à  cobiça  de  rapmantes.  e  o  tráfico  de  longo  curso  de  artigos  de 
luxo  assumia  a  forma  de  verdadeiras  expedições  armadas401.  E  curioso  verificar  que  só 
muito  raramente  os  historiadores  deixam  de  separar  a  violência  e  o  comércio,  e  apenas 
uma  minoria  refere  a  amplitude  das  operações  de  saque  praticadas  ainda  no  final  do 
período  pelos  mercadores,  ou  a  componente  mercantil  da  activ idade  dos  grupos  de 
ladrões,  não  vá  isso  denegrir  a  imagem  que  o  capitalismo  gosta  de  ter  dos  seus  presu¬ 
midos  antecessores.  Não  devemos  esquecer  que  as  mesmas  sociedades  e  as  mesmas 
pessoas  que  usavam  o  dinheiro  nos  negócios  empunhavam  também  as  armas  para  con¬ 
quistar  ou,  mais  modestamente,  para  pilhar  e  escravizar.  O  saque  começou  neste 
período  a  estar  estreitamente  associado  à  esfera  pecuniária. 

Antes  de  mais.  não  foi  pelo  facto  de  as  operações  de  quebra  da  moeda  constituírem 
um  elemento  indispensável  à  função  social  da  Fonna  1  do  dinheiro  que  elas  deixaram 
de  representar,  para  os  soberanos,  uma  modalidade  de  pilhagem.  Por  outro  lado,  se  as 
expedições  bélicas  abriam  novos  rumos  ao  comércio  ou  consolidavam  uma  dada  hege¬ 
monia  sobre  vias  de  tráfico  já  existentes,  estimulando  por  este  lado  a  circulação  pecu¬ 
niária,  é  igualmente  exacto  que  sem  numerário  não  eram  recrutadas  as  tropas  nem  reu¬ 
nidos  os  meios  militares  necessários  para  prosseguir  tais  campanhas.  Foi  quando  os 
exércitos  dos  monarcas  e  príncipes  passaram  a  ser  compostos  por  mercenários  que  o 
dinheiro  se  tomou,  efectivamente,  o  nervo  da  guerra,  o  que  constituiu  uma  nova 
maneira  de  articular  intimamente  o  saque  e  a  esfera  pecuniária462. 


JS*  Cl.  Cracco  (.1967)  214  e  segs.;  G.  Luzzatto  í  1967  )  144-145. 

4WM.  B.  Becker  ( 1 970)  179;  G.  Luzzatto  1 1961  b)  155-161. 

4011  R.  Penioud  ( 1948)  220  pretende  que  -  han.sa ■■  significava  originanamente  um  conjunto  de  pes¬ 
soas  armadas  c  só  depois  passou  a  designar  os  grupos  de  mercadores  itinerantes.  Porém.  F.  Rdrig 
(1967)  41  atribui  à  palavra  o  sentido  originário  de  caravana  e  E.  Coomaert  (1948)  225  considera  que 
o  primeiro  significado  de  ■luinse-  teria  sido  idêntico  ao  de  «ghiide*.  implicando  companhia  e  bebida 
em  comum.  Qualquer  que  seja  a  etimologia  da  palavra,  o  certo  é  que  os  mercadores  hanseátieos  se 
deslocavam  quase  sempre  ent  grupo  e  iam  armados,  consoante  indica  Ph.  Dollinger  ( 1964)  203. 

4MJ.  Heers(  198 1)  37. 

As  grandes  companhias  italianas  financiaram  a  peregrinação  armada  de  L.uis  IX  da  França 
para  a  Palestina  e  a  conquista  do  reino  de  Nápoles  por  Carlos  de  Anjou,  assim  como  sustentaram  um 
século  de  guerras  franco-inglesas,  escreve  J.  Day  <  1994)  199. 


Operações  c  amicudu  da  hor/iui  III  do  dinheiro 


445 


O  dinheiro  podia  ser  roubado  da  maneira  tradicional,  evidentemente,  como  qualquer 
outro  artigo46’,  e  nem  os  soberanos  desprezaram  este  método  clássico  de  comprovada 
eficácia,  por  exemplo  quando  o  herdeiro  da  coroa  inglesa,  no  final  do  segundo  terço  do 
século  XIII.  peneirou  na  tesouraria  dos  Templários,  em  Londres,  e  forçou  vários  cofres, 
apoderando-se  de  uma  soma  muito  considerável,  pertencente  a  mercadores  e  a  mem¬ 
bros  da  boa  nobreza464.  Mas  no  final  do  período,  num  contexto  em  que  parte  substan¬ 
cial  da  riqueza  circulava  sob  forma  fiduciária,  apareceram  novas  modalidades  de  apro¬ 
priação  do  dinheiro  alheio.  Ao  antigo  recurso  daqueles  senhores  que.  apesar  das  difi¬ 
culdades  económicas,  dispunham  de  hostes  suficienteniente  bem  armadas  para  impo¬ 
rem  com  elas  a  sua  vontade  aos  mais  fracos  e  os  despojarem  de  bens  e  servos  adicio- 
nou-se  a  mobilização  indevida  de  fundos  estranhos,  o  deliberado  não  pagamento  das 
dívidas  e  o  aprisionamento  dos  credores.  Se  for  exacto  que  o  rei  de  França,  cativo  no 
Egipto  nos  meados  do  século  XIII,  reuniu  uma  parte  substancial  da  soma  exigida  para  o 
seu  resgate  através  da  requisição  de  fundos  que  haviam  sido  confiados  aos  Templários 
com  a  condição  expressa  de  serem  movimentados  apenas  em  benefício  dos  depositan¬ 
tes464,  então  conclui-se  que  neste  caso  a  pilhagem  estimulou  a  Ordem  a  executar  fun¬ 
ções  verdadeiramente  bancárias.  Mais  tarde,  na  primeira  década  do  século  XIV,  quando 
o  rei  de  França  suprimiu  a  Ordem  dos  Templários  e  os  outros  soberanos  lhe  seguiram  o 
exemplo,  eles  realizaram  uma  colossal  operação  de  saque,  não  só  apoderando-se  dos 
bens  da  Ordem,  ou  distribuindo-os  a  instituições  eclesiásticas  de  menores  dimensões  e 
que  podiam  ser  controladas  mais  facilmente,  mas  também  cancelando  as  dívidas  que 
tivessem  para  com  aqueles  monges  guerreiros466.  Urna  situação  estritamente  pecuniária 
fora  resolvida  de  maneira  puramente  violenta,  e  os  monarcas  recorreram  a  este  método 
repetidas  vezes  nos  séculos  XIII  e  XIV  para  solucionar  problemas  do  mesmo  tipo  sur¬ 
gidos  com  as  grandes  companhias  italianas.  Não  espanta  que  isto  sucedesse,  dado  o 
volume  das  fortunas  acumuladas  nas  grandes  praças  mercantis  de  além-Alpes.  Basta 
sabermos  que  em  Julho  de  1318,  quando  a  companhia  dos  Bardi.  a  maior  de  Florença, 
fechou  o  seu  balanço,  o  activo  total  era  superior  a  875.000  florins46'  ,  mais  de  dez  vezes 
o  que,  trinta  anos  depois,  o  papa  pagaria  por  Avignon46*.  Para  uma  concepção  de  polí- 


4o-<  A.  Murras  ( 1978)  57,  67  e  segs.  e  89-90  pretende  que  a  difusão  do  numerário,  dando  à  riqueza 
uma  forma  móvel,  estimulava  os  roubos.  Numa  perspectiva  tanto  estritamente  económica  como  mais 
amplamente  social,  todavia,  parece-me  muito  mais  importante  analisar  a  relação  entre  o  roubo  e  o 
dinheiro  do  lado  dos  próprios  agentes  da  oferta  pecuniária. 

4t4  L.  Delisle  (1889)  6  indica  que  o  futuro  Eduardo  I  se  apoderou  assim  de  cerca  de  10.000  libras. 
Ora,  segundo  a  equivalência  fornecida  por  M.  Prestwich  (1972)  210.  aquela  soma  representaria  cerca 
de  67.000  florins,  praticamente  tanto  quanto  fora  exigido  pela  venda  de  Pamia.  vinte  anos  antes,  a 
crer  em  Y.  Renouard  ( 1941 )  60  e  (1949)  1 24.  Com  que  tranquilidade  se  praticou  um  roubo  que  valeu 
um  feito  de  armas! 

465  A.-E,  Sayoust  1931)  270. 

466  Consultar  a  n.  241  do  capítulo  7.  Ver  ainda:  J.  R.  Strayer  (1969-1970)  1 15  e  segs. 

Afigura-se-me  que  só  uma  estranha  ironia  pode  levar  J.  Piquet  ( 1959)  76-77  a  escrever  que  os 

Templários,  em  virtude  dos  privilégios  de  que  gozavam  e  da  protecção  que  lhes  era  dispensada  pelos 
soberanos,  podiam  obrigar  os  devedores  a  pagar- lhes  as  dívidas  mais  facilmente  do  que  o  conseguiam 
os  banqueiros  italianos.  Afinal,  uns  e  outros  foram  arrastados  na  voragem  das  cobiças  reais. 

467  R.  S.  Lopez  ( 1965)  301;  Y.  Renouard  (1941 1  60;  id.  (1949)  124. 

4<,íl  Vera  n.  472. 


446 


Forma  lll  do  dinheiro 


tica  que  se  regia  pelo  desejo  insaciável  de  tomar  as  riquezas  alheias,  os  lucros  das 
sociedades  toscanas  não  podiam  deixar  de  suscitar  a  cobiça.  Os  monarcas,  que  acumu¬ 
laram  dívidas  em  proporções  colossais,  recorreram  frequentemente  à  bancarrota,  recu¬ 
sando-se  a  pagar  as  somas  devidas  e  colocando  os  seus  credores  no  cárcere,  ou  expul¬ 
sando-os  do  reino  e  apropriando-se  dos  seus  haveres464.  É  certo  que  foram  invocados 
algumas  vezes  argumentos  de  carácter  político,  acusando-se  as  vítimas  de  espionagem 
em  benefício  do  inimigo470,  mas  como  evitar  que  tal  sucedesse,  se  as  grandes  compa¬ 
nhias  mercantis  serviam  de  agentes  de  informação  dos  soberanos  e  tinham  filiais  espa¬ 
lhadas  por  vários  reinos?  Também  os  governos  das  cidades  se  esforçaram  por  defraudar 
os  seus  credores  e  proclamaram  muitas  vezes  moratórias  da  dívida  pública,  quando  não 
anularam  mesmo  todos  os  compromissos  com  os  mutuantes471.  Ao  contrário,  portanto, 
do  que  viria  a  suceder  no  capitalismo,  não  triunfaram  aqueles  mecanismos  que  hoje 
consideramos  estritamente  económicos,  mas  o  recurso  à  força,  ou  seja.  um  aspecto 
francamente  arcaico.  Uma  política  de  reequilíbrio  das  finanças  públicas  passara  a 
incluir  o  roubo  praticado  em  grande  escala. 

E  que  escala!  Quando  a  companhia  dos  Bardi  e  a  dos  Peruzzi  faliram,  a  coroa  inglesa 
devia  cerca  de  900.000  florins  a  uma  e  600.000  florins  à  outra,  enquanto  as  dívidas  do 
rei  da  Sicília  montavam  a  mais  de  100.000  florins  a  cada  uma  delas.  Ora,  nos  meados  do 
século  XIV  Parma  foi  vendida  por  70.000  florins.  Avignon  por  80.000  florins,  com¬ 
prando  o  rei  de  França  a  totalidade  de  Montpellier  por  133.000  florins:  e  no  final  do 
segundo  terço  desse  mesmo  século,  para  pagar  o  resgate  do  monarca  capturado  pelos 
Ingleses,  a  coroa  francesa  só  conseguiu  levantar  o  equivalente  a  450.000  florins,  nunca 
chegando  a  entregar  a  soma  completa  que  lhe  fora  exigida472.  Sem  se  travarem  quais- 


469  Ph.  Jones  (1974)  1749  e  segs.;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  41,  209-225,  249;  T.  H.  Lloyd  (1982) 
178;  A.-G.  Manry  (org.  1974)  187;  H.  A.  Miskimin  1 1963)  8;  M.  Prestwich  ( 1972)  208,  210-212;  Y. 
Renouard  ( 1 949 )  144;  J.  R.  Strayer  (1969-19701  116;  id.  ( 1977)  275. 

470  Quando  começou  a  guerra  entre  Eduardo  1  da  Inglaterra  e  Filipe  IV  da  França,  na  última 
década  do  século  XIII,  Filipe  mandou  prender  todos  os  membros  da  companhia  dos  Riccardi  estabele¬ 
cidos  em  França  e  confiscou-lhes  os  haveres,  invocando  o  argumento  de  que  a  companhia  servia  de 
banqueiro  à  coroa  inimiga,  afirmam  R.  W.  Kaeuper  (1973)  209-210  c  M.  Prestwich  (1972)  208,  225- 
-226.  Com  efeito,  no  longo  conflito  em  que  a  Inglaterra  e  a  França  se  digladiaram  durante  a  segunda 
metade  do  século  XIV  e  a  primeira  metade  do  século  seguinte.  Y  Renouard  (1941)  394  admite  que  os 
mercadores  italianos,  presentes  em  ambos  os  países,  tivessem  desempenhado  o  papel  de  agentes 
secretos  de  cada  um  dos  soberanos. 

471  R.  de  Roover  (1948)  84  considera  que  os  empréstimos  aos  municípios  eram  menos  arriscados 
do  que  os  adiantados  aos  monarcas,  porque  os  governos  das  cidades  podiam  ser  pressionados  a  cumprir 
as  suas  obrigações.  Todavia,  id.  (1964)  91  n.  24  admite  como  muito  provável  a  tese  de  Hans  van  Wer- 
veke,  segundo  o  qual  os  negociantes-banqueiros  italianos  se  mostravam  relutantes  em  proceder  a 
empréstimos  às  comunas  flamengas  em  virtude  de  elas  terem  repudiado  as  suas  dívidas  para  com  os 
financeiros  de  Arras.  Sabe-se  também  que  em  1 342  o  governo  de  Florença  decretou  uma  moratória  de 
todas  as  dívidas  públicas,  o  que,  segundo  VI.  B.  Becker  (1967-1968)  1  130,  levou  os  depositantes 
estrangeiros  a  requererem  a  devolução  das  somas  confiadas  aos  bancos  da  cidade,  arrastando  uma  ine¬ 
vitável  cadeia  de  falências.  A  este  respeito  ver  ainda  V.  Rutenburg  ( 1974)  93.  E  nos  meados  do  século 
XTV.  escreve  M.  Riu  ( 1979)  143.  o  governo  de  Barcelona  pediu  adiantamentos  tais  aos  cambistas-ban¬ 
queiros  interessados  no  negócio  de  fundos  públicos  que  alguns  deles  foram  precipitados  na  bancarrota. 

472  Para  o  conjunto  destas  somas  ver:  R.  S.  Lopez  ( 1965  )  301 ;  Y.  Renouard  ( 1941 )  60:  id.  (1949) 


124. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


447 


quer  batalhas,  sem  mortos  nem  feridos,  a  espoliação  de  uma  sociedade  financeira  podia 
render  o  equivalente  a  um  bom  número  de  cidades  muito  prósperas,  ou  ao  dobro  da  tri¬ 
butação  extraordinária  que  um  dos  maiores  soberanos  era  capaz  de  extorquir  aos  seus 
súbditos.  Embora  adaptado  aos  circuitos  do  dinheiro,  o  inevitável  recíproco  do  sistema 
da  troca  de  presentes,  a  troca  de  agravos,  continuava  a  prevalecer  e  a  ditar  as  soluções. 

As  somas  verdadeiramente  colossais  que  as  grandes  companhias  mercantis  e  bancᬠ
rias  adiantavam  aos  monarcas  provinham  na  sua  maior  parte  de  depósitos  à  ordem,  que 
podiam  ser  levantados  em  qualquer  momento473.  E  como  os  principais  credores  das 
cidades  e  dos  monarcas  eram  estas  companhias,  possuidoras  de  ramificações  em  vários 
reinos  e  nos  principais  centros  urbanos,  ao  divulgar-se  a  notícia  de  que  um  soberano  ou 
um  governo  municipal  se  recusavam  a  pagar  as  dívidas  logo  os  depositantes  se  precipi¬ 
tavam  nos  mais  diversos  lugares  para  retirar  os  seus  haveres,  ocasionando  geralmente  a 
falência  de  toda  a  sociedade474.  Bastava,  aliás,  a  derrota  de  um  rei  numa  batalha  para 
suscitar  uma  reacção  de  pânico,  já  que  em  todas  as  praças  os  homens  de  negócios 
admitiam  a  possibilidade  de  uma  crise  das  finanças  do  monarca  e  perdiam  a  confiança 
nos  banqueiros  que  o  serviam475.  Sucedia  mesmo  que,  ao  ser  conhecida  a  ligação  de 
uma  companhia  com  um  soberano,  muitos  clientes  acorressem  a  retirar  os  fundos  depo¬ 
sitados,  na  previsão  de  que  viesse  a  acontecer  o  pior476.  Os  mecanismos  de  que  resul¬ 
tava  a  emissão  da  Forma  III  do  dinheiro  assentavam  na  confiança  existente  no  interior 
do  meio  mercantil  e  ficavam  comprometidos  por  tudo  o  que  prejudicasse  esta  con¬ 
fiança.  O  nexo  entre  a  violência  política  e  a  esfera  pecuniária  não  podia  ser  mais 


475  J.  Lestocquoy  (1952)  98:  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360-361;  Y.  Renouard  (1941)  60;  kl.  (1949) 
124,  145. 

474  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  130;  J.  N  Hillgarth  (1976-1978)  II  19;  R.  W.  Kaeuper  ( 1973) 
210,  227  e  segs.;  M.  Prestwich  (1972)  208;  M.  Riu  (1979)  143;  V.  Rutenburg  (1974)  93.  Ver  igual¬ 
mente:  A.-E.  Sayous  (1931)  270-271, 

A  propósito  dos  cambistas- banqueiros  de  Bruges.  R.  de  Roover  ( 1948)  258  afirma  que  a  solvência 
dos  seus  estabelecimentos  dependia  de  um  pequeno  número  de  grandes  depositantes,  e  que  a  situação 
só  se  tomava  perigosa  se  estes  clientes  retirassem  bmscamente  os  seus  depósitos.  Parece-me  contro¬ 
verso  o  sucedido  com  a  falência  da  importantíssima  companhia  dos  Buonsignori.  de  Siena.  ocorrida 
no  final  do  século  XIII,  pois  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  299-300  atribuem  uma  parte  da  responsabili¬ 
dade  às  dívidas  de  soberanos  e  magnates,  enquanto  J.  Lestoequoy  (1952)  93  sustenta,  pelo  contrário, 
que  o  rei  de  França  era  credor  dos-  Buonsignori  por  uma  soma  considerável,  ficando  defraudado 
quando  a  companhia  quebrou.  Raymond  de  Roover  em  <>p.  <  it.,  31-35  e  39  pretende  que  o  modelo  de 
gestão  centralizado  contribuiu  para  agravar  a  repercussão  da  cri.se  de  uma  filial  sobre  a  sede  e,  assim, 
facilitou  as  falências,  o  que  teria  levado  a  generalidade  das  companhias  a  adoptar  no  século  XV  um 
sistema  descentralizado.  Ver  na  mesma  perspectiva  Y.  Renouard  (1949)  164-165.  Todavia,  embora  a 
companhia  dos  Riccardi  obedecesse  á  forma  centralizada.  R.  W.  Kaeuper  (1973)  1 1  afirma  que  possi¬ 
velmente  a  sua  filial  londrina  funcionava  de  maneira  mais  descentralizada,  e  sabemos  que  este  facto 
não  evitou  a  bancarrota  de  toda  a  sociedade  quando  aquela  filial  quebrou.  Assim,  J.  Day  (1994)  200 
parece  ter  razão  ao  escrever  que.  apesar  da  descentralização,  as  crises  das  sucursais  estrangeiras  conti¬ 
nuaram  a  exercer  efeitos  sobre  as  sedes. 

475  G.  A.  Brucker  (1962)  6-7;  Y.  Renouard  (1941 )  84;  id.  (1949)  145. 

Ameaçadas  de  bancarrota  devido  à  insolvência  do  rei  de  Inglaterra,  cujos  planos  de  invasão  da 
França  haviam  fracassado  em  1340.  as  grandes  companhias  florentinas  chamaram  tiaulier  VI  de 
Brienne,  em  1342,  para  exercer  as  funções  de  podestà  e  tentar  evitar  a  precipitação  da  crise.  Ver  a 
este  respeito  G.  A.  Brucker  (1962)  7. 

47hM.  Prestwich  (1972)  210. 


44X 


Forma  III  do  dinheiro 


estreito.  E  numa  época  em  que  o  sistema  bancário  já  estava  integrado,  graças  sobretudo 
às  somas  que  cada  profissional  depositava  nos  estabelecimentos  dos  outros,  as  reacções 
de  pânico  não  permaneciam  localizadas  nem  socialmente  nem  geograficamente.  Nas 
principais  cidades  mercantis,  onde  o  ritmo  da  economia  era  ditado  pelas  maiores  fir¬ 
mas.  a  falência  de  uma  delas  atingia  todos  os  ramos  profissionais  e  todos  os  estratos 
sociais4'',  repercutindo-se  também  nas  demais  praças,  de  modo  que  a  quebra  de 
uma  companhia  podia  ocasionar  falências  em  cadeia  e  comprometer  gravemente  os 
negócios4'8.  Assim,  as  crises  e  bancarrotas  da  coroa  e  das  administrações  urbanas 
tinham  consequências  muitíssimo  amplas,  à  escala  de  todo  o  regime  senhorial,  e  os 
governantes  não  se  limitavam  a  apropriar-se  dos  bens  de  uma  dada  sociedade  mercantil 
e  bancária  no  interior  da  sua  esfera  de  poder,  mas  causavam  ainda  a  ruína  de  muita 
gente  de  fora.  Tal  como  a  proliferação  das  vias  de  circulação  do  dinheiro  permitiu  que 
o  bannum  permeasse  todos  os  aspectos  da  vida  social,  mesmo  aqueles  que  julgaríamos 
tnais  longe  da  sua  alçada,  também  a  adaptação  do  saque  às  novas  formas  pecuniárias 
lhe  desdobrou  os  efeitos  e  aumentou  o  alcance474.  E  não  devemos  espantar-nos  pelo 
facto  de  os  banqueiros  aparentemente  não  aproveitarem  a  experiência  destas  espolia¬ 
ções  e  caírem  quase  sempre  na  mesma  armadilha480,  porque  os  monarcas  expulsá-los- 
-iam  se  eles  se  recusassem  a  proceder  a  empréstimos481. 

Depois  de  analisar  como  as  operações  de  saque  multiplicaram  as  vias  de  difusão  da 
Forma  111  do  dinheiro,  é  conveniente  estudar  a  ampliação  da  esfera  social  onde  circu¬ 
lava  esta  modalidade  fiduciária. 


f.  Amplitude  social  dos  investimentos  comerciais  no  meio  urbano 

Vimos  neste  capítulo  que  os  servos  e  a  arraia-miúda,  e  em  geral  as  camadas  sociais 
humildes,  estavam  normalmente  excluídos  do  acesso  à  Forma  III  do  dinheiro.  Mas  esta 
regra  sofria  algumas  excepções  claramente  definidas,  e  um  bom  número  de  habitantes 
das  principais  cidades  associou-se  às  operações  mercantis  de  longo  curso.  Em  Bruges, 
o  que  se  conhece  a  respeito  dos  negócios  de  dois  cambistas-banqueiros  no  começo  do 
último  terço  do  século  XIV  revela  que  a  grande  maioria  dos  depósitos  consistia  em 
pequenas  quantias48-,  sucedendo  o  mesmo  com  a  maior  parte  dos  empréstimos  facilita¬ 
dos  através  de  saques  a  descoberto484.  Uma  tal  situação  não  implicava,  porém,  que 


477  G.  Luzzatto  ( 1%7)  250:  V.  Rutenburg  1 1974)  93. 

478  J.  Richard  (ore.  1978)  168-169. 

47“'  Enquanto  o  poder  político  e  o  poder  económico  não  estivessem  reunidos  numa  mesma  família 
no  interior  de  uma  cidade,  observa  Y.  Renouard  (.1941 t  85,  e  enquanto  essa  nova  soberania  não  fosse 
sustentada  por  um  território  rico  e  vasto,  como  viria  a  ser  o  caso  de  Florença  durante  a  época  de  pre¬ 
domínio  dos  Mediei,  as  companhias  podiam  ser  levadas  à  ruína  pelos  movimentos  de  pânico. 

480  A  companhia  florentína  dos  Alberti  nunca  adiantou  empréstimos  a  soberanos,  e  talvez  fosse 
este  o  motivo,  admite  R.  de  Roover  (1974)  7 1 .  por  que  não  foi  levada  à  falência. 

4HI  Y.  Renouard  1 1941 )  84:  id.  1 1949)  144 

4S2  R.  de  Roover  1 1948)  257. 

4SÍ  Id..  ibid..  304. 


Operações  e  cometido  da  Forma  III  do  dinheiro 


449 


essas  somas  modestas  viessem  de  fora  do  meio  comercial  nem  se  destinassem  a  subsi¬ 
diar  actividades  extramercantis.  porque  na  mesma  época  só  2,5%  dos  habitantes  pos¬ 
suíam  conta  bancária  própria4*54,  restringindo-se  estes  movimentos  pecuniários  à  elite. 
Mais  elucidativo  é  o  que  sabemos  acerca  de  Génova,  de  Veneza  e  de  outras  praças 
marítimas  italianas,  e  ainda  sobre  os  portos  da  coroa  de  Aragão,  onde  era  bastante  ele¬ 
vada  a  percentagem  dos  investimentos  comerciais  que  se  devia  à  iniciativa  de  pessoas 
de  poucos  recursos,  cada  uma  adiantando  quantias  muito  reduzidas483.  E  tanto  nos  por¬ 
tos  mediterrânicos  como  nas  cidades  hanseáticas.  as  quotas  das  sociedades  proprietᬠ
rias  de  navios  puderam  subdividir-se  até  atingir  fracções  mínimas,  por  vezes  correspon¬ 
dentes  a  1/64  do  barco,  o  que  permitia  a  participação  de  gente  de  meios  modestos486. 
Numa  modalidade  equivalente,  de  que  restam  traços  documentais  em  Génova,  por 
exemplo,  várias  pessoas  humildes  associavam-se  para  adquirir  em  conjunto  uma  parte 
de  navio48'.  É  curioso  verificar  que  esta  democratização  da  propriedade  das  embarca¬ 
ções  foi  acompanhada  por  um  movimento  em  sentido  contrário.  Nas  cidades  da 
Hansa488,  bem  como  em  Veneza489,  acentuou-se  no  final  do  período,  e  durante  o  século 
XV.  a  diversificação  social  da  equipagem  de  bordo,  tomando-se  cada  vez  mais  difícil  a 


484  R.  S.  Lopez  (1965)  301. 

488  A  respeito  de  Génova,  Veneza  e  outras  cidades  marítimas  italianas,  ver  Ph.  Jones  ( 1974)  1766- 
-1767.  Acerca  da  situação  em  Génov  a  consultar  ainda:  M.  Balard  (1978)  505,  612;  J.  K.  Hyde  (1973) 
71;  H.  E.  Mayer  (1972)  174-175;  Y  Renouard  (1949)  50;  R.  L.  Reynolds  (1945)  18.  Segundo  os 
livros  de  uni  certo  notário  genovês,  nos  meados  do  século  XII,  cerca  de  72%  dos  clientes  que  inves¬ 
tiam  no  comércio  exclusivamente  enquanto  sócios  passivos  não  eram  mercadores  profissionais,  con¬ 
soante  indica  H.  C.  Krueger  (1957)  257  e  259-260;  e  a  mesma  percentagem  de  investidores  contri¬ 
buíra  apenas  com  16%  das  somas  totais  investidas  (p.  260).  enquanto  2,3%  do  número  total  de  inves¬ 
tidores,  correspondente  á  categoria  mais  abastada,  fora  responsável  por  cerca  de  40%  dos  investimen¬ 
tos  (p.  264).  Quanto  a  estes  dados,  ver  também  Ph.  Jones  ( 1974)  1766  n.  4.  Todavia.  Hilmar  C.  Krue¬ 
ger  em  op.  cit..  260  n.  9  observa  o  perigo  de  se  retirarem  ilações  a  partir  dos  livros  de  um  único  notᬠ
rio,  já  que  alguns  deles  tinham  uma  clientela  especial,  que  não  correspondia  à  situação  média.  Com 
efeito,  E.  Bach  ( 1957)  381  mostra  como  nos  registos  de  dois  notários  de  Génova,  um  relativo  a  1 186  e 
o  outro  a  1191.  prevalecem  os  grandes  investimentos  comerciais,  enquanto  na  documentação  de  outro 
notário  da  mesma  cidade,  referente  a  1210,  1 2 16  e  1225.  os  pequenos  investimentos  representam  mais 
de  metade  das  somas  totais.  É  a  diferença  de  clientelas  a  explicar  estas  discrepâncias.  Erik  Bach  em 
op.  eit. ,  389  e  M.  Balard  (1978)  506.  5 1 9.  52 1 ,  523  afirmam  que  os  grandes  investimentos  predomina¬ 
vam  no  comércio  de  Génova  com  o  Oriente  bizantino,  enquanto  nas  relações  de  Génova  com  o  Norte 
de  África,  segundo  Erik  Bach  em  op.  < ir..  íbid..  era  muito  significativa  a  percentagem  de  investidores 
modestos.  Quanto  à  situação  em  Veneza  ver  igualmente:  G.  Cracco  (1967)  43.  64-65;  F.  C.  Lane 
( 1973)  52;  G.  Luzzatto  (1961  b)  80.  82-88.  No  entanto,  G.  Luzzatto  (1937)  35  pretende  que  só  muito 
raramente  as  camadas  sociais  humildes  participavam  em  Veneza  no  armamento  de  navios  e  no  comér¬ 
cio  externo.  Também  nas  cidades  da  Campânia  o  comércio  marítimo  suscitava  o  interesse  de  pessoas 
de  poucos  recursos,  pelo  menos  no  século  XII.  a  crer  em  G.  Galasso  ( 1958-1959)  XXXIX  39-40.  Para 
os  portos  decorrentes  da  coroa  de  Aragão,  consultar  .1.  N,  Hillgarth  (1976-1978)  II  18.  É  elucidativo 
saber  que  em  Barcelona,  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XV.  1/4  de  todas  as  famílias  tinha  conta 
no  banco  de  depósitos  público,  e  relacionavam-se  com  os  bancos  privados  3/10  ou  4/10  das  famílias, 
a  crer  em  A.  P.  Usher  (1943)  1 80- 181. 

488  Ph.  Dollinger  (1964)  189;  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  I  274;  M.  M.  Postan  (1957)  544. 

487  Y.  Renouard  (1949)  53. 

488  Ph.  Dollingen  1964)  191-192 

489  F.  C.  Lane  (1973)  166-170. 


450 


Forma  III  do  dinheiro 


promoção  profissional  dos  vulgares  marinheiros  ou  dos  remadores  de  galeras,  e  na  liga 
hanseática  as  medidas  legislativas  interv  ieram  onde  parecia  que  a  mera  evolução  eco¬ 
nómica  era  insuficiente  para  condenar  os  marinheiros  a  uma  situação  definitiva  de  infe¬ 
rioridade490.  Os  marinheiros,  que  noutra  época  haviam  aparecido  como  colaboradores 
menores  num  empreendimento  comercial  comum,  viam-se  agora  confinados  à  situação 
de  mera  mão-de-obra.  Assim,  a  ampliação  do  espectro  social  dos  investidores  nas  asso¬ 
ciações  de  proprietários  de  navios  abriu  possibilidades  de  participação  nos  negócios  de 
longo  curso  precisamente  ao  mesmo  tempo  que  outras  oportunidades  se  encerravam. 

O  facto  de  muitos  grandes  negócios  conjugarem  as  famílias  da  elite  com  famílias 
das  camadas  populares,  e  até  com  gente  da  arraia-miúda  que  tivesse  conseguido  amea¬ 
lhar  algumas  míseras  moedas,  constituiu  utn  fortíssimo  elemento  agregativo.  permi¬ 
tindo  que  a  cidade  ultrapassasse  muitas  das  suas  divisões  e  se  consolidasse  numa  colec- 
tividade  coesa.  Entre  a  massa  indiferenciada  dos  habitantes,  quaisquer  que  fossem  o 
seu  estrato  social,  as  suas  famílias,  os  bairros  onde  residiam,  as  facções  em  que  se 
mobilizavam,  teceu-se  uma  multiplicidade,  sempre  variada  e  mutável,  de  relações  de 
crédito  no  quadro  das  associações  comerciais.  E  como  esta  solidariedade  se  obtinha 
pela  participação  de  todas  as  camadas  sociais  e  de  todas  as  categoriais  profissionais  nos 
benefícios  da  actividade  mercantil,  foi  à  elite  dos  homens  de  negócios,  os  mesmos  que 
orientavam  as  estratégias  do  tráfico  de  longo  curso,  que  passou  a  ser  entregue  a  condu¬ 
ção  política  da  cidade491. 

Quando  vemos  que  as  modalidades  mais  propícias  para  a  mobilização  dos  pequenos 
investimentos  da  gente  humilde  eram  a  commenda  e  a  societas  maris492,  empregues  no 
tráfico  marítimo,  e  que  as  companhias  formadas  para  o  comércio  terrestre,  apesar  de 
aceitarem  numerosos  investidores  externos493,  eram  muitíssimo  selectivas  na  escolha 
dos  associados,  podemos  perguntar  se  isto  não  teria  contribuído  para  a  instabilidade 
política  de  Florença  e  para  os  surtos  de  intervenção  da  plebe  no  governo  da  cidade, 
enquanto  Génova,  e  sobretudo  Veneza,  apesar  de  terem  sido  mantidas  muito  mais  fir¬ 
memente  sob  o  controlo  de  uma  pequena  elite,  registaram  um  nível  bastante  inferior  de 
lutas  sociais.  Do  mesmo  modo,  deve  notar-se  que  nos  portos  hanseáticos.  onde  a  elite 
tradicional  zelava  pela  sua  hegemonia,  gente  relativamente  modesta  participava  nas 
sociedades  de  armadores  e  proprietários  de  navios494.  Aliás,  no  século  XV  a  proprie¬ 
dade  das  embarcações  hanseáticas  fraccionou-se  mais  ainda,  ampliando-se  o  leque 


490  Ph.  Dollinger  (1964)  192. 

441  H.  C.  Krueger(1957)  262-263. 

J9;:  M.  Balarei  ( 1978)  601-602;  C.  M.  Cipolla  ( 1976)  184;  J.  Day  (1994)  197;  B.  Z.  Kedar  (1976) 
60-61;  R.  S.  Lopez  (1965)  143;  id.  et  al.  (1955)  176;  G.  Luzzatto  (1961  b)  83-88;  id,  (1967)  240-242; 
Y.  Renouard  (1949)  50;  K.  L.  Reyerson  (1985)  23. 

Note-se  que  para  Y.  Renouard  ( 1949)  50  e  59-60  a  societas  rnaris  privilegiaria  a  participação  da 
elite,  e  só  a  difusão  das  commende  teria  multiplicado  as  oportunidades  dos  pequenos  investidores.  M. 
Balard  ( 1978)  608-609  afirma  o  mesmo  a  respeito  das  formas  estntas  da  societas  maris,  mas  mostra 
que  a  introdução  de  pequenas  alterações  tomou  esta  instituição  susceptível  de  mobilizar  poupanças 
mais  modestas. 

w  G.  A.  Brucker  ( 1962)  17  indica  que  no  terceiro  quartel  do  século  XIV  a  lista  dos  credores  de 
uma  dada  companhia  florentina  incluía  pessoas  de  todas  as  condições  sociais. 

494  M.M.Postani  1957)  544. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  II!  do  dinheiro 


451 


social  dos  sócios445.  Se  esta  análise  estiver  correcta,  então,  e  um  tanto  paradoxalmente, 
a  democratização  política  destinar-se-ia  a  compensar  a  oligarquização  dos  negócios, 
enquanto  uma  participação  mais  democrática  no  grande  tráfico  teria  permitido  a  uma 
pequena  elite  reforçar-se  como  oligarquia  no  plano  político. 

Esta  hipótese,  contudo,  se  se  afigura  sustentável  até  ao  século  XIII.  parece  ser 
embaraçada  por  alguns  factos  ocorridos  no  final  do  período.  Em  geral,  e  mesmo  nas 
praças  marítimas,  a  progressiva  sedentarização  da  actividade  mercantil,  baseada  no 
emprego  de  agentes  assalariados,  fez  com  que  se  tomassem  menos  frequentes  as  socie¬ 
dades  entre  um  elemento  passivo  e  um  activo  e.  portanto,  reduziu  as  oportunidades  de 
participação  da  gente  humilde  nos  negócios  de  longo  curso496.  Foi  o  que  sucedeu  em 
Génova  na  passagem  do  século  XIII  para  o  seguinte497,  e  talvez  também  em  Veneza498. 
Mas  aqui  o  processo  foi  precipitado  por  uma  intervenção  de  outro  tipo,  já  que  no  final 
do  primeiro  quartel  do  século  XIV  o  Senado  veneziano  promulgou  legislação  proibindo 
que  cada  cidadão  investisse  no  comércio  marítimo  um  montante  superior  à  soma  em 
função  da  qual  pagava  empréstimos  obrigatórios  ao  governo  da  cidade;  as  pessoas 
cujos  bens  não  atingiam  o  mínimo  necessário  para  serem  onerados  pelos  empréstimos 
forçados  ficavam,  portanto,  excluídas  do  tráfico  de  longo  curso,  e  nesta  situação  esta¬ 
vam  pelo  menos  5/6  da  população  veneziana  no  último  quartel  do  século  XIV.  Embora 
essa  política  restritiva  só  tivesse  vigorado  durante  períodos  relativamente  breves,  parece 
que  não  se  devem  descurar  os  efeitos  negativos  exercidos  sobre  a  mobilização  das  pou¬ 
panças  mais  modestas499. 

Mas  em  que  medida  surgiram  outras  vias  de  participação  nos  negócios,  permitindo 
manter  a  relativa  democratização  económica  das  cidades  onde  imperava  a  oligarquia 
política?  Seria  possível  que  os  empréstimos  forçados  das  comunas  aparecessem  como 
uma  alternativa  para  a  captação  das  pequenas  economias500? 


g.  Dívida  pública  e  lutas  contra  o  sistema  fiscal 

A  dívida  pública  constituiu  outro  factor  de  coesão  social  no  meio  urbano.  Progressi¬ 
vamente.  à  medida  que  as  despesas  militares  crescentes501  tomaram  os  orçamentos 


495  Ph.  Dollinger  (1964)  189. 

496  B.  Z.  Kedar  ( 1976)  47.  50-53,  61;  F.  C.  Lane  ( 1973)  166. 

497  B.Z.  Kedar  <1976)61. 

Todavia,  M.  Balard  ( 1978)  505,  531.  608  e  698  atribui  ao  Fim  da  expansão  comercial  e  à  contrac- 
ção  dos  lucros  na  segunda  metade  do  século  XIV  o  declínio  gradual  da  participação  da  gente  humilde 
no  tráfico  dc  longo  curso,  acrescentando  (pp.  529-530)  que  os  agentes  mercantis  surgidos  com  a 
sedentarização  do  comércio  aceitavam  fundos  de  pessoas  modestas  para  os  aplicarem  em  negócios 
nas  várias  praças  por  onde  se  deslocavam. 

498  B.  Z.  Kedar  (1976)  49. 

499  Acerca  da  legislação  veneziana  de  1324  e  dos  seus  efeitos,  ver  id..  ibid.,  27-28  e  47-48.  No 
entanto,  F.  C.  Lane  ( 1973)  140  considera  duvidosas  as  consequências  práticas  desta  lei. 

soo  gsta  tese  defendida  por  M.  Balard  <  1978)  608  a  respeito  de  Génova  e.  a  respeito  de  Veneza, 
por  B.  Z.  Kedar  (1976)  62  Num  sentido  convergente,  ver  Y.  Renouard  ( 1949)  106. 

501  Quando  as  cidades,  mesmo  que  gozassem  de  um  certo  grau  de  autonomia,  se  integravam  em 


452 


Forma  III  do  dinheiro 


cada  vez  mais  pesados,  os  impostos  tradicionais  revelaram-se  insuficientes  e  a  Forma 
III  do  dinheiro  foi-se  introduzindo  na  administração  das  cidades50-.  Assim  como  os 
negociantes  de  longo  curso  podiam  oferecer  participação  a  todo  o  tipo  de  pessoas,  por 
menor  que  fosse  a  contribuição  de  cada  uma,  também  os  governos  urbanos  apelaram 
para  o  crédito  dos  habitantes. 

Antes  de  mais  contribuíram  as  famílias  da  elite,  que  viam  nos  juros  do  empréstimo 
um  incentivo  a  este  tipo  de  investimentos501.  Mas  não  nos  devemos  espantar  quando. 


esferas  de  soberania  mais  vastas,  como  sucedia  por  exemplo  no  noroeste  do  continente,  elas  não 
tinham  de  suportar  sozinhas  o  peso  das  despesas  militares,  observa  A.  P.  Usher  ( 1943)  1 55- 1 56;  pelo 
contrário,  nos  grandes  centros  urbanos  a  sul  dos  Alpes,  que  formavam  Estados  próprios,  os  custos  da 
guerra  exerceram  consideráveis  pressões  sobre  o  erário.  Com  efeito,  numerosos  autores  mostram  que 
a  sustentação  dos  exércitos  e  das  campanhas  bélicas  constituiu  um  dos  principais  problemas  fiscais 
das  cidades  italianas:  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  I  79.  102-104.  11  151-152.  162.  168,  176-177,  179, 
188-189;  id.  (1968)  124;  id.  (1970)  183  e  segs.;  S.  Bertelli  (1978)  117-118;  W.  M.  Bowsky  (1970)  43- 
-45;  G.  Cracco  (1967)  60,  215-216;  J.  Day  (1994)  129;  D.  Herlihy  et  al.  (1985)  3;  F.  C.  Lane  (1973) 
150,  196;  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  32-34.  136  e  segs.;  id.  ( 1963)  31,  84.  88  c  segs..  96  e  segs.;  A.  Molho 
(1971)  67;  V.  Rutenburg  (1974)  163.  Em  tempo  de  guerra,  resume  J.  Day  (  1994)  202,  os  orçamentos 
das  cidades  italianas  rivalizavam  com  os  das  grandes  monarquias. 

5ú:  Acerca  dos  títulos  da  dívida  pública  enquanto  modalidades  da  Forma  Itl  do  dinheiro  ver  J. 
Day  ( 1994)  42  e  P.  Spufford  ( 1984)  380. 

5(11  G.  Luzzatto  ( 1963)  27-28.  58-59.  153-154.  158  e  181  e  segs.  indica  que  em  Veneza,  pelo  menos 
a  partir  da  consolidação  da  dívida  pública  no  final  do  segundo  terço  do  século  XIII,  e  até  à  grande  crise 
militar  e  fiscal  de  1379-1382.  os  empréstimos  obrigatórios  proporcionaram  regularmente  um  juro  anual 
de  557.  que  foi  depois  reduzido  para  4 %  e  menos  ainda.  Ver  igualmente:  G.  Cracco  ( 1967)  199;  F.  C. 
Lane  (1973)  150,  197;  G.  Luzzatto  (1961  b)  112  A  taxa  de  juro  dos  empréstimos  voluntários  era  supe¬ 
rior  à  que  remunerava  o  crédito  forçado,  chegando  em  Veneza  a  1 2%.  consoante  informa  G.  Cracco 
( 1967)  323.  E  os  empréstimos  destinados  ao  financiamento  das  guerras,  a  crer  em  F.  C.  Lane  (1973) 
150,  podiam  render  entre  12%  e  20%  de  juros.  Em  Pisa,  na  primeira  metade  do  século  XIV,  C.  Violante 
( 1966)  65  menciona  taxas  de  juro  de  10%,  1 2V<  e  1 5%  para  o  crédito  público,  mas  cm  1 348,  quando  as 
várias  dívidas  públicas  foram  consolidadas  num  conjunto  único,  a  taxa  ficou  estabelecida  nos  10%  (p. 
71 ),  descendo  para  5%  em  1370  (p.  72).  Em  Florença,  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  25  e  78  esclarece 
que  até  à  década  de  1 340  os  juros  do  crédito  publico  variaram  entre  10%  e  15%  ao  ano,  embora  noutro 
lugar  (I,  p.  66)  atribua  estas  taxas  só  aos  empréstimos  voluntários.  De  1345  em  diante,  porém,  ao  con¬ 
solidarem-se  todas  as  dívidas  num  só  Monte,  o  juro  baixou  geralmente  para  5%  .  Ver:  M.  B.  Becker 
(1967-1968)  I  192,  II  156-157;  G.  A.  Brucker  ( 1962)  19:  D.  Herlihy  et  a!.  (1985)  3;  A.  Molho  (1971) 
64.  Todavia,  e  tal  como  sucedia  em  Veneza,  também  em  Florença,  segundo  M.  B.  Becker  (1960)  44,  as 
taxas  de  juro  tomavam-se  mais  elevadas  nos  empréstimos  voluntários,  atingindo  neste  caso  os  15%, 
consoante  leio  em  G.  A.  Brucker  ( 1962)  95.  Por  outro  lado.  o  juro  da  própria  dívida  obrigatória  consoli¬ 
dada  aumentou  no  final  da  década  de  1350,  sendo  de  10%  para  os  empréstimos  praticados  entre  1353  e 
Junho  de  1358  e  de  15%  para  os  posteriores  a  esta  data,  apesar  de  se  manter  no  nível  de  5%  relativa¬ 
mente  à  dívida  consolidada  instituída  em  1345.  As  taxas  de  juro  da  dívida  públiea  florentina  não  deixa¬ 
ram  de  subir  de  1358  até  1364.  mas  por  fim,  em  1 380,  consolidou-se  outra  vez  a  totalidade  das  dívidas, 
que  passaram  a  partir  de  então  a  render  de  novo  apenas  5%  ao  ano.  Os  juros  de  alguns  empréstimos 
especiais,  no  entanto,  podiam  atingir  uma  faixa  entre  os  8%  c  os  10%  .  e  em  breve  alguns  chegavam  a 
1 2%,  o  que  revela  os  gémiens  de  um  descalabro  fiscal  idêntico  ao  anterior.  Acerca  da  evolução  das 
taxas  de  juro  da  dívida  consolidada  em  Florença  ver:  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  161.  174-175.  197; 
id.  (1968)  123,  134;  A.  Molho  (1971)  64-67,  69-70:  V.  Rutenburg  (1974)  344.  Em  Siena,  na  última 
década  do  século  XIII  e  no  começo  do  século  XIV.  W.  M.  Bowsky  (1981 )  188  refere  que  as  taxas  de 
juro  anuais  dos  empréstimos  forçados  rondavam  os  15%.  e  se  mantiveram  em  10%  desde  o  segundo 
quartel  desse  século  até  à  queda  do  regime  oligárquico  em  1355.  Consultar  ainda  id.  (1970)  180.  onde 
se  vê  (p.  190)  que  os  empréstimos  voluntários  obtinham  facilmente  um  juro  anual  de  1 5%. 


Operações  e  t  onteudo  da  Forma  III  do  dinheiro 


453 


por  vezes,  a  administração  das  cidades,  composta  exactamente  pelas  mesmas  pessoas 
que  detinham  o  maior  número  de  títulos  da  dívida  pública,  se  decidi?  por  uma  política 
de  grandes  despesas  que,  depois  de  levar  ao  cancelamento  do  reembolso  das  somas 
adiantadas,  punha  em  risco  o  próprio  serviço  da  dívida.  O  mecanismo  era  o  inverso  do 
que  tantas  vezes  se  presume,  e  o  aumento  dos  gastos  constituía  a  condição  para  que  no 
futuro  se  lançassem  novos  empréstimos.  Mesmo  tendo  em  conta  que  os  títulos  da 
dívida  pública,  graças  a  especulações  feitas  na  sua  aquisição,  podiam  proporcionar 
juros  reais  mais  consideráveis  do  que  à  primeira  vista  nos  pareceria,  e  sem  esquecer 
que  a  participação  neste  tipo  de  empréstimos  permitia  às  grandes  fortunas  a  diversifica¬ 
ção  dos  riscos  e,  por  conseguinte,  dava  maior  segurança  e  estabilidade  ao  patrimó¬ 
nio504,  o  principal  proveito  de  todo  este  processo  não  consistia  no  montante  do  juro 


5(14  Segundo  A.  P.  Usher  ( 1943 1  155.  deve  comparar-se  a  taxa  real  de  juro  dos  empréstimos  públi¬ 
cos  com  a  taxa  de  juro,  ou  de  lucro,  que  renderia  a  aplicação  de  somas  equivalentes  em  negócios.  R. 
L.  Reynolds  (1952)  362  considera  que  a  participação  nos  empréstimos  públicos  das  cidades  italianas 
constituía  um  bom  investimento.  Também  a  propósito  da  Itália,  e  citando  Anthony  Molho.  S.  Bertelli 
(1978)  124  chama  a  atenção  para  o  facto  de  o  investimento  na  dívida  pública  ser  menos  arriscado  do 
que  a  intervenção  no  tráfico  de  longo  curso,  e  suscitar  por  isso  o  interesse  não  só  das  famílias  que 
tinham  o  grosso  da  fortuna  na  forma  de  senhorias,  mas  ainda  de  homens  de  negócios  desejosos  de 
diversificar  os  seus  campos  de  actividade  económica.  Em  Génova,  a  crer  em  B.  Z.  Kedar  (1976)  62- 
-63,  a  taxa  de  juro  dos  empréstimos  obrigatórios,  que  era  bastante  baixa  no  começo  do  século  XIII, 
aumentou  depois,  dando  a  este  tipo  de  investimentos  um  carácter  atraetivo.  Uma  situação  mais  para¬ 
doxal  é  detectada  em  Veneza,  onde,  depois  de  proceder  a  uma  análise  de  dados  documentais,  Benja- 
min  Z.  Kedar.  em  op.  cit.,  63-65.  conclui  que  os  investimentos  comerciais  estavam  a  dar  lugar  a 
investimentos  em  títulos,  apesar  de  os  lucros  do  comércio  de  longo  curso  serem  superiores  aos  resul¬ 
tantes  dos  empréstimos  privados  ou  da  dívida  pública.  Este  historiador  pretende  (pp.  66  e  segs.)  que 
se  tratava  de  uma  diminuição  do  interesse  pela  actividade  mercantil,  o  que  não  explica  rigorosamente 
nada.  Na  mesma  contradição  se  emaranha  J.  Day  (1994)  1 30.  ao  afirmar  que  em  Veneza  os  rendimen¬ 
tos  das  obrigações  públicas  teriam  sido  claramente  inferiores  aos  lucros  comerciais,  apenas  para 
observar,  na  página  seguinte,  que  a  cada  empréstimo  forçado  os  novos  ricos  rivalizavam  na  aquisição 
dos  títulos  detidos  pela  elite  tradicional.  Mas  G.  Luzzatto  (1963)  62  permite  outro  entendimento  do 
problema  quando,  depois  de  recordar  a  dificuldade  de  adquirir  terras  numa  cidade  marítima  como 
Veneza,  mostra  que  era  demasiado  arriscado  aplicar  toda  a  fortuna  no  comércio  e  nas  manufacturas,  o 
que  justificava  a  importância  da  participação  no  crédito  público.  Deve  ter-se  ainda  em  conta  que, 
como  indica  este  historiador  em  op.  cit .  140-141.  as  somas  dedicadas  ao  crédito  público  estavam 
legalmente  excluídas  de  qualquer  avaliação  fiscal  do  património,  o  que  tomava  ainda  mais  atraetivo 
este  tipo  de  investimento,  e  só  a  difícil  situação  militar  atravessada  no  último  quartel  do  século  XIV 
levou  à  suspensão  parcial  daquele  privilégio.  Também  em  Florença  temos  de  acreditar  que  os  emprés¬ 
timos  ao  Estado  fornecessem  lucros  muito  atraentes,  porque  D.  Herlihy  et  al.  ( 1985)  103  calculam  que 
os  2%  a  3%  de  cidadãos  mais  ricos  tinham  menos  de  1/3  da  fortuna  na  forma  de  senhorias,  dedicavam 
1/3  aos  negócios  e  à  manufactura  e  adiantavam  o  restante  à  comuna.  Para  entender  esta  divisão  do 
património  convém  saber,  com  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  25  n.  30  e  78,  que  os  rendimentos  deriva¬ 
dos  dos  investimentos  comerciais  ou  da  exploração  de  senhorias  eram  inferiores  às  taxas  de  juro  do 
crédito  público.  Aliás,  ainda  segundo  este  autor,  em  op.  cit.,  I  102,  na  Florença  da  primeira  metade  do 
século  XIV  os  elementos  em  ascensão,  os  novos  ricos,  consideravam  que  o  juro  do  crédito  público  a 
curto  prazo  era  demasiado  elevado,  e  quando  eles  estavam  no  auge  da  sua  influência  política,  entre 
1343  e  1348.  fizeram  com  que  fosse  reduzido  para  5%.  Embora  a  finalidade  desta  medida  fosse  o 
enfraquecimento  económico  das  famílias  da  velha  elite,  não  creio  que  os  novos  ricos  chegassem  ao 
extremo  de  anular  os  benefícios  que  eles  próprios  podiam  obter,  até  porque,  como  indica  Marvin  B. 
Becker.  além  de  os  novos  ricos  participarem  então  aetivamente  nos  empréstimos  do  Estado  ao  lado  da 
elite  tradicional  (I,  pp.  190,  218).  a  partir  da  década  de  1340  foi  entre  eles,  e  já  não  entre  as  antigas 


454 


Forma  lll  do  dinheiro 


recebido,  e  muito  menos  na  restituição  üa  soma  adiantada,  mas  no  facto  de  a  cadeia 
interminável  da  dívida  prender  cada  vez  mais  fortemente  as  instituições  governativas  da 
cidade  aos  interesses  exclusivos  das  grandes  famílias505. 

Também  as  monarquias  recorreram  ao  crédito.  Mas  como  os  homens  de  negócios 
não  detinham  nos  governos  régios,  e  muito  menos  nas  cortes,  a  supremacia  que  os 
caracterizava  nas  cidades,  os  reinos  nunca  foram  geridos  por  grupos  de  credores  do 
Estado.  Pelo  contrário,  o  monarca  e  a  alta  nobreza,  que  ditavam  a  orientação  do 
governo,  eram  os  principais  devedores.  Isto  explica  que  as  técnicas  da  dívida  pública  e 
da  sua  regularização  tivessem  sido  levadas  nas  principais  cidades  comerciais  a  um  grau 
de  aperfeiçoamento  que  só  muito  tardiamente,  já  passado  o  final  do  período,  alcança¬ 
ram  nas  administrações  dos  grandes  reinos506. 

Os  centros  urbanos  mais  importantes  atingiram  uma  tal  dimensão  que  a  elite  não  os 
podia  já  administrar  como  um  mero  assunto  doméstico,  do  mesmo  modo  que  geria  os 
negócios,  empregando  apenas  os  parentes  e  um  ou  outro  colaborador  assalariado,  e  tor¬ 
nou-se  necessário  angariar  um  número  crescente  de  profissionais.  Mesmo  que  não  levás¬ 
semos  em  consideração  as  despesas  militares  cada  vez  mais  pesadas,  bastava  a  remune¬ 
ração  daquela  burocracia  para  que  inevitavelmente  aumentassem  os  gastos  governamen¬ 
tais,  que  só  podiam  ser  sustentados  graças  ao  agravamento  da  dívida  pública.  Nesta 
situação  foram  insuficientes  as  fortunas  das  famílias  da  elite  e  tomou-se  imperioso 
recorrer  a  um  avultado  número  de  credores,  lançando-se  com  esse  fim  empréstimos 
obrigatórios,  que  incidiram  até  sobre  gente  de  recursos  bastante  modestos507. 

Mas  a  ampliação  incessante  das  administrações  centrais  não  colocou  apenas  proble¬ 
mas  de  custos  e  trouxe  problemas  de  estrutura  também.  Quanto  mais  numerosos  eram 


grandes  famílias,  que  se  contaram  os  principais  credores  da  comuna  (I,  pp.  219-221 ).  Ao  estudar  a 
situação  em  Siena  durante  o  regime  oligárquico  vigente  desde  a  penúltima  década  do  século  XIII  até 
aos  meados  do  século  seguinte.  W.  M,  Bowsky  ( 1981 )  188-189  observa  que  os  participantes  no  cré¬ 
dito  público  adiantavam  geralmente  florins  de  ouro  e  recebiam  o  juro  na  mesma  moeda,  beneficiando 
assim  suplementarmente  com  a  desvalorização  das  emissões  de  prata  de  Siena  relativamente  às  peças 
áureas  de  Florença,  Afinal.  John  Day,  em  op.  cit.,  202-203,  resume  a  situação  nas  grandes  cidades  ita¬ 
lianas  afirmando  que  os  investimentos  na  dívida  pública  eram  muito  atractivos,  embora  os  maiores 
lucros  continuassem  a  vir  da  actividade  financeira  e  do  comércio  de  longo  curso.  Pelo  que  leio  em  J. 
N.  Hillgarth  (1976-1978)  II  14.  o  interesse  suscitado  pelo  crédito  público  não  parece  ter  sido  menor 
nos  grandes  centros  mercantis  da  coroa  de  Aragão,  onde.  no  final  do  período,  uma  forma  de  ascensão 
social  consistia  em  trocar  os  lucros  do  comércio  pela  aquisição  de  títulos  da  dívida  pública. 

sus  No  fma|  j0  período,  e  mesmo  nas  épocas  de  prosperidade,  comenta  R.  Pemoud  ( 1948)  185- 
- 1 86.  as  cidades  nunca  deixavam  de  estar  em  situação  financeira  precária,  o  que  as  obrigava  a  recorre¬ 
rem  continuamente  a  empréstimos,  com  o  consequente  reforço  da  posição  social  dos  banqueiros.  Nos 
grandes  centros  urbanos  italianos  dos  séculos  Xill  e  XIV.  contar-se  entre  os  credores  do  Estado  era  o 
meio  mais  seguro  de  conseguir  influência  política,  escreve  M.  B.  Becker  (1970)  184.  E,  com  efeito, 
este  historiador  indica,  em  (1967-1968)  I  79,  92-99,  121.  219  e  II  31.  158,  173,  que  a  partir  do  final 
do  primeiro  quartel  do  século  XIV  a  elite  florentina  e  o  grupo  dos  credores  da  comuna  eram  compos¬ 
tos  praticamente  pelas  mesmas  pessoas,  de  maneira  que  o  poder  político  tendia  a  ser  exercido  por 
aqueles  que  mais  dinheiro  haviam  emprestado  ao  Estado. 

506  Este  desfasamento  é  referido  por  Ch.  M  La  Roncière  ( 1968)  140,  M.  Rey  ( 1965  b)  13.  17-18  e 
A.  P.  Usher  ( 1943  )  135.  156,  embora  sem  lhe  apontarem  as  causas. 

507  M.  B.  Becker  (1967-1968)  I  66,  II  159.  173.  233:  S  Bertelh  ( 1978)  1 17  e  segs.;  G.  Luzzatto 
( 1937)  35:  id.  < 1963)  22-23:  V.  Rutenburg  (1974)  163 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


455 


os  agentes  empregados  por  um  governo  urbano  tanto  mais  se  extremava  o  carácter  de 
família  artificial  da  cidade  e  mais  necessário  se  tomava  o  desenvolvimento  de  elos  que 
substituíssem,  ou  reforçassem,  as  relações  de  parentesco  tradicionais.  A  negociabili- 
dade  dos  títulos  da  dívida  pública  cumpriu  esta  função,  dando  ao  meio  urbano  uma 
coesão  suplementar.  Nas  cidades  italianas,  desde  cedo  que  os  títulos  da  dívida  pública 
foram  transferíveis508,  e  mesmo  no  reino  de  França,  apesar  da  forma  incipiente  que  as 
finanças  da  coroa  ainda  aí  assumiam  no  final  do  período,  os  reconhecimentos  da  dívida 
pública,  constituídos  por  ordens  de  pagamento  destinadas  a  dadas  caixas  do  tesouro  ou 
do  fisco,  eram  comerciáveis  no  mercado509.  Aliás,  sabe-se  que  os  soberanos  e  as  cida¬ 
des  procuravam  também  obter  financiamentos  através  de  uma  modalidade  de  crédito  já 
nossa  conhecida  (desde  os  capítulos  5.b  e  7,e),  e  que  consistia  em  receber  uma  quantia 
em  dinheiro,  cujo  reembolso  definitivo  não  podia  ser  exigido  pelo  mutuante,  mas  a 
troco  da  qual  o  mutuário  ficava  obrigado  a  entregar  anual  ou  semestralmente,  enquanto 
juros,  os  rendimentos,  em  geral  fixos,  decorrentes  de  uma  dada  terra  ou  de  dados  direi¬ 
tos510.  O  facto  de  as  dívidas  deste  tipo  nunca  ficarem  canceladas  e  sustentarem  uma 
relação  de  crédito  perpétua  constitui  um  forte  elemento  de  semelhança  com  a  dívida 
pública  consolidada.  Ora,  também  nestes  casos  sucedia  que  os  títulos  justificativos  da 
recepção  de  tais  juros  pudessem  ser  transaccionados,  consoante  cotações  estabelecidas 
pelo  mercado511.  Graças  à  negociabilidade  dos  títulos,  a  Forma  III  do  dinheiro  substi- 


508  M.  B.  Becker  ( 1967- 1968)  I  192,  II  152,  158;  G.  A.  Brucker  (1962)  19;  G.  Cracco  1 1967)  200; 
D.  Herlihy  (1964)  402;  B.  Z.  Kedar  (1976)  62,  63;  F.  C.  Lane  ( 1973)  150;  A.  Molho  ( 1971)  64;  Y. 
Renouard  (1949)  107;  R.  L.  Reynolds  (1952)  362;  P.  Spufford  ( 1984)  380;  A.  P.  Usher  ( 1943)  155. 

Em  Génova,  segundo  J.  Day  (1994)  131,  o  mercado  de  títulos  da  dívida  pública  era  muito  activo, 
mas.  embora  os  créditos  governamentais  a  curto  pra/.o  circulassem  mediante  transferência  nos  regis¬ 
tos  dos  bancos  de  depósito,  os  títulos  da  dívida  consolidada  não  serviriam  habitualmente  de  meio  de 
troca  (p.  132).  Apesar  disso,  prossegue  este  especialista,  os  juros  sobre  os  títulos  pertencentes  a  pes¬ 
soas  que  faziam  negócios  com  o  governo,  por  exemplo  os  arrendatários  de  impostos,  podiam  ser 
empregues  em  operações  de  compensação.  Inicialmente,  em  Veneza,  os  contribuintes  para  os  emprés¬ 
timos  forçados  não  recebiam  qualquer  documento  comprovativo  da  sua  participação,  o  que  não  impe¬ 
dia  a  alienação  a  terceiros  da  posição  de  credor  do  Estado,  afirma  G.  Luzzatto  (1963)  29,  ficando  o 
novo  titular  com  lodos  os  direitos  do  mutuante  originário;  e  este  historiador  acrescenta  que  as  leis 
mais  antigas  relativas  ao  assunto  confirmam  a  difusão  de  tal  tipo  de  transacções.  Posteriormente  pas¬ 
saram  a  ser  entregues  recibos  aos  contribuintes,  mas  não  se  tratava  de  verdadeiros  títulos  de  débito 
público,  livremente  comerciáveis,  e  os  requisitos  exigidos  em  caso  de  alienação  eram  demasiado 
morosos  para  que  a  transmissão  da  situação  de  credor  da  dívida  pública  pudesse  ser  usada  como  meio 
de  pagamento  corrente  nos  negócios,  limitando-se  decerto  às  compras  de  imóveis.  Apesar  disso,  e 
pelo  menos  desde  o  final  do  século  XIII.  essas  transacções  foram  efectuadas  com  tal  frequência  que 
começaram  a  ser  objecto  de  especulação.  Nos  meados  do  século  XIV.  e  violando  a  norma  que  até 
então  havia  regido  a  dívida  pública,  criou-se  uma  categoria  de  empréstimos  não  só  irredimíveis  como 
inalienáveis.  Mais  tarde,  a  partir  da  penúltima  década  desse  século,  as  pessoas  que  tivessem  adqui¬ 
rido,  por  compra  ou  herança,  a  posição  de  credor  do  Estado  recebiam  juros  bastante  inferiores  aos 
atribuídos  aos  contribuintes  originários.  Acerca  da  evolução  da  situação  em  Veneza  consultar  Gino 
Luzzatto,  op.  cit .  63-65,  70  e  105-106. 

5INM.  Rey(  1965  b)  17. 

510  Quanto  a  este  sistema  de  crédito,  denominado  rente  constituée  em  francês  e  census  em  inglês, 
ver  no  capítulo  5  a  n.  44.  Acerca  do  seu  uso  para  o  financiamento  das  administrações  urbanas  ver  S. 
Homer  (1963)  76  e  H.  Kraus  <  1979)  51. 

51 1  S.  Homer  ( 1963)  76. 


45  6 


Forma  ///  do  dinheiro 


tuiu  a  família  enquanto  sistema  de  relações,  ou  talvez  seja  mais  exacto  escrever  que 
esta  modalidade  pecuniária  ofereceu  à  família  novas  possibilidades  de  relacionamento 
artificial.  No  final  do  período  os  maiores  centros  urbanos  estavam  convertidos  em  ver¬ 
dadeiras  sociedades,  onde  cada  cidadão  era  sócio31-. 

Foi  assim  que  a  Forma  111  do  dinheiro  conferiu  à  variedade  de  interesses  e  de  grupos 
opostos  em  que  se  repartiam  as  cidades  um  efectivo  princípio  unificador.  Mas  se  a  arti¬ 
culação  entre  classes  sociais  não  subsiste  sem  elementos  de  coesão,  ela  não  deixa 
nunca  de  reproduzir  também  os  factores  de  clivagem,  e  esta  dialéctica  presidiu  igual¬ 
mente  aos  critérios  fiscais  e  aos  mecanismos  da  dívida  pública  urbana. 

Os  juros  da  dívida  pública  eram  pagos,  antes  de  mais,  mobilizando-se  as  receitas 
governamentais,  que  na  sua  maioria  tinham  origem  em  novos  impostos  lançados  sobre 
o  consumo513.  E  quando  o  governo  de  uma  cidade  arrendava  a  cobrança  do  novo 
imposto,  enquanto  garantia  de  um  empréstimo,  estava  a  entregar  a  homens  de  negócios 
interessados  na  dívida  pública  o  imediato  controlo  sobre  as  somas  destinadas  precisa¬ 
mente  a  pagar  os  juros  desta  dívida514.  O  fisco  alimentava  então  directamente  a  bolsa 


512  M.  B.  Becker  <1967-1968)  1  190  escreve  que  «o  Estado  florentino  pode  comparar-se  a  uma 
gigantesca  sociedade,  em  que  os  principais  aceionistas  eram  as  oito  mil  pessoas  mais  ricas»  Encon¬ 
tram-se  formulações  semelhantes  em  id.,  ibid..  1  23 !  e  11  162.  E,  referindo-se  a  Florença  após  os  mea¬ 
dos  do  século  XIV,  o  mesmo  historiador,  em  (1970)  191,  repete  que  as  famílias  mais  importantes  da 
elite  «eram  praticamente  aceionistas  da  grande  sociedade  constituída  pelo  Estado».  No  mesmo  sen¬ 
tido,  mas  a  propósito  de  Veneza,  ver  id..  ibid.,  186.  Na  medida,  porém,  em  que  os  empréstimos  força¬ 
dos  abarcaram  um  número  muito  vasto  de  habitantes,  posso  ampliar  o  escopo  da  observação  de  Mar- 
vin  B.  Becker  e  considerar  que  nos  centros  urbanos  onde  a  dívida  pública  obrigatória  atingiu  grandes 
dimensões  todos  os  cidadãos  foram  transformados  em  sócios  do  Estado.  Ainda  em  tomo  da  conversão 
da  coiectividade  urbana  numa  associação  de  carácter  financeiro  ver  S.  Bertelli  (1978)  1 17  e  segs. 
Compreende-se,  nestes  termos,  que  no  final  do  período  o  governo  florentino  tivesse  promulgado  uma 
lei  proibindo  de  alienar  a  estrangeiros  os  títulos  do  crédito  público  consolidado,  tal  como  leio  em  M. 
B.  Becker  (1968)  117.  Com  efeito,  se  estas  transacçòes  fossem  autorizadas  elas  converteriam  os 
estrangeiros  em  sócios  da  coiectividade  urbana. 

J.  Dhondt  <  1964)  35 1  -352  e  355-356  defende  que  a  contabilidade  escrita  se  desenvolveu  nas  cida¬ 
des  ao  longo  do  século  XTV  em  resultado  da  intervenção  das  camadas  populares,  que  desejavam,  atra¬ 
vés  dos  registos  documentais,  fiscalizar  a  actividade  governativa  da  elite.  No  entanto,  este  autor,  em 
op.  cit.,  356,  reconhece  que  em  vários  meios  urbanos  a  contabilidade  escrita  progrediu  sem  que 
tivesse  ocorrido  qualquer  democratização  das  instituições,  e  admite  que  para  se  chegar  a  tal  resultado 
bastassem  talvez  meras  pressões  por  parte  dos  populares,  não  se  devendo  também  esquecer  o  desejo 
dos  soberanas  de  exercerem  um  controlo  financeiro.  Analisando  o  sucedido  a  partir  dos  últimos  anos 
do  século  XIII  nas  três  grandes  cidades  da  Flandres,  e  parece  que  um  pouco  depois  nos  demais  cen¬ 
tros  urbanos  do  condado,  também  W.  Prevenier  (1964)  118-122  afirma  que  as  finanças  públicas  esta¬ 
vam  cada  vez  mais  submetidas  à  vigilância,  por  um  lado,  do  conde  e,  por  outro  lado,  das  camadas 
populares.  Decerto  estes  factores  devem  ser  tomados  em  consideração,  mas  creio  que  a  explicação 
mais  simples  para  o  desenvolvimento  da  contabilidade  escrita  na  administração  urbana  consiste  no 
aumento  da  dívida  pública.  Se  a  cidade  se  convertera  numa  sociedade,  então  era  indispensável  que 
existissem  registos,  como  em  todas  as  associações  de  carácter  comercial. 

513  M.  Balard  (1978)  419;  M.  B.  Becker  (1967-1968)  I  25,  II  73-74,  198;  id.  (1968)  129;  W.  M. 
Bowsky  (1970)  177-178;  G.  Cracco(1967)  200;  J.  Dav  (1994)  129;  F.  C.  Lane  (1973)  150;  Ch.  M.  La 
Roncière  (1968)  143-145;  G.  Luzzatto  ( 1963)  6:  R.  C.  Mueller  ( 1982)  97;  Y.  Renouard  (1949)  106; 
R.  L.  Reynolds  ( 1952)  362;  C  Violante  ( 1966)  65. 

514  Acerca  destes  arrendamentos  em  Bruges  ver  R.  de  Roover  (1948)  281-282  e  ( 1964)  94-95.  No 
final  do  período  a  coroa  francesa  empregava  este  sistema  de  uma  forma  ainda  embrionária,  consoante 


Operações  c  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


457 


dos  grandes  Financeiros.  Por  vezes  este  sistema  atingia  uma  insuspeitada  perversidade. 
Em  Metz.  por  exemplo,  no  final  do  século  XIV,  a  cidade  conduzia  expedições  militares 
contra  famílias  da  nobreza  rural  que  hostilizavam  senhorias  pertencentes  à  elite  urbana. 
Estas  pequenas  guerras  encerravam- se  geralmente  mediante  a  entrega  de  quantias  avul¬ 
tadas  aos  senhores  que  haviam  praticado  os  assaltos,  e  como,  para  reunir  tais  somas,  se 
lançavam  novos  impostos,  a  maior  parte  dos  habitantes  estava  a  sustentar  financeira¬ 
mente  empreendimentos  que  eram  do  interesse  exclusivo  dos  mais  ricos.  Podia  suceder 
até  que  essas  quantias  fossem  directamente  concedidas  a  certos  financeiros,  credores 
daqueles  senhores  rurais,  que  se  viam  assim  reembolsados  de  dívidas  difíceis515. 

Mas  o  principal  mecanismo  da  exploração  fiscal  jazia  num  nível  mais  profundo.  Em 
princípio,  não  é  incorrecto  afirmar  que  o  fisco  obedecia  a  dois  critérios  básicos.  A  elite, 
por  um  lado,  dava  a  preferência  aos  impostos  indirectos,  que  incidiam  sobre  os  bens  de 
consumo  corrente,  e,  por  outro  lado.  evitava  tanto  quanto  possível  os  impostos  directos, 
que  atingiam  as  fortunas.  Com  efeito,  a  tributação  indirecta  sobrecarregava  a  gente 
mais  modesta,  pois  a  diferença  entre  o  consumo  dos  ricos  e  o  dos  pobres,  apesar  de 
muito  grande,  era  bastante  menor  do  que  a  diferença  entre  os  montantes  totais  dos  seus 
haveres.  Nas  cidades  manufactureiras.  aliás,  onde  existia  um  número  abundante  de 
assalariados,  o  sistema  indirecto  era  duplamente  oneroso,  já  que  as  remunerações  não 
aumentavam  na  mesma  proporção  deste  tipo  de  impostos.  Assim,  os  impostos  directos, 
que  recaíam  sobre  a  globalidade  da  fortuna,  ameaçavam  os  ricos  e  eram  sempre  preferi¬ 
dos  pelas  camadas  mais  humildes.  Além  disso,  uma  grande  parte  dos  géneros  consumi¬ 
dos  pelas  famílias  abastadas  provinha  das  suas  próprias  terras,  não  passando  pelo  mer¬ 
cado  e.  portanto,  não  dando  lugar  ao  pagamento  de  impostos  indirectos516.  Conhecem- 
-se  até  alguns  exemplos  extremos,  como  o  de  Amiens.  em  que  as  famílias  abastadas. 


se  lê  em  M.  Rey  (1965  b)  13.  A  frequência  com  que  se  procedia  ao  arrendamento  dos  impostos  em 
Tarascon  é  mencionada  por  M.  Hebert  ( 1979)  198.  Em  Génova,  J.  Day  ( 1994)  132  refere  os  arrenda¬ 
mentos  de  impostos  e  Y.  Renouard  (1949)  107  acrescenta  que  os  detentores  de  títulos  da  dívida 
pública  formavam  sociedades  destinadas  a  este  tipo  de  operações,  acontecendo  o  mesmo  nos  territó¬ 
rios  ultramarinos  genoveses.  a  crer  em  M.  Balard  (1978)  404  e  417-419.  Os  arrendamentos  de  receitas 
fiscais  em  Veneza  são  lembrados  por  G.  Luzzatto  (1961  b)  1 16.  Aliás,  leio  em  id.  (1937)  28  que  nessa 
cidade,  no  final  do  segundo  terço  do  século  XII,  algumas  pessoas  da  elite  adiantaram  ao  governo  um 
empréstimo  voluntário,  em  troca  do  qual  receberam  por  onze  anos  a  cobrança  de  todos  os  rendimen¬ 
tos  da  praça  do  Rialto.  Para  se  avaliar  a  importância  do  Rialto  recorde-se  neste  capítulo  a  n.  353. 
Segundo  D.  Herlíhy  (1964)  399-401.  nas  cidades  toscanas  a  cobrança  dos  impostos  indirectos  foi-se 
centralizando  â  medida  que  se  aproximava  o  final  do  período,  e  mesmo  nos  casos  de  arrendamento  o 
governo  mantinha  o  controlo  sobre  as  operações.  Com  efeito,  os  impostos  indirectos,  cujo  arrenda¬ 
mento  se  praticou  sistematicamente  em  Florença  desde  o  termo  do  século  XIII,  passaram  a  partir  de 
meados  do  século  seguinte  a  ser  cobrados  pela  comuna  de  maneira  centralizada.  Acerca  desta  evolu¬ 
ção  ver:  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  70.  11  161;  id.  ( 1968)  1 19-120;  Ch.  M.  La  Roneière  (1968)  177- 
-183.  Em  Pisa,  D.  Herlihy  (1958  b)  82-84  dá  noticia  do  arrendamento  dos  impostos  indirectos  desde  o 
final  do  século  XII,  e  também  em  Siena  se  praticou  o  mesmo  tipo  de  operações,  consoante  indica  W. 
M.  Bowsky  (1970)  54-55,  1 20  e  segs.e(l9KI)  185.  210. 

515  Para  o  sucedido  em  Metz  ver  J.  Schneider  1 1950)  491. 

Sln  M.  B.  Becker  (1967-1968)  1  25.  81.  83.  140.  II  155,  170-172;  G.  A.  Brucker  ( 1962)  92-93; 
id.  (1972)  160-161;  R.  de  Roover  (1964)  94-95;  R  Fossier  (org.  1974)  205;  D.  Herlihy  (1964  )  402; 
M.  Mollat  et  al.  (1970)  282;  Y.  Renouard  (1949)  156;  Ph.  Wolfí  (1947)  446.  Ver  igualmentc:  M.  B. 
Becker  (1960)  44;  M.  Hebert  (1979)  198;  D.  Herlihy  ( 1964)  393;  J.  K.  Hyde(1973)  116. 


458 


Forma  III  do  dinheiro 


para  ficarem  isentas  do  imposto  indirecto  sobre  o  consumo  do  vinho,  convertiam  em 
tabernas  as  suas  grandes  adegas517.  Neste  contexto  podia  suceder,  como  era  o  caso  cor¬ 
rentemente  com  o  sal,  que  as  autoridades  prescrevessem  à  população  um  dado  volume 
de  consumo  mínimo  obrigatório,  a  um  preço  fixo.  de  maneira  a  assegurar  o  montante 
do  imposto.  O  sal  foi  uma  das  principais  matérias  colectáveis,  sustentando  uma  boa 
parte  dos  proventos  fiscais518.  Mas  ainda  nos  casos  de  aquisição  obrigatória  a  desigual¬ 
dade  era  flagrante,  porque  uma  despesa  que  representava  uma  percentagem  diminuta 
dos  rendimentos  das  famílias  ricas  constituía  uma  fracção  considerável  dos  rendimen¬ 
tos  dos  pobres.  Assim,  a  sustentação  dos  juros  da  dívida  pública  através  dos  impostos 
convertia-se  num  factor  de  desigualdade  mais  grave  ainda  quando  se  tratava  de  taxas 
indirectas,  pois  eram  então  quase  exclusivamente  os  pobres  a  assegurar  o  lucro  dos 
grandes  financeiros.  Foi  o  que  aconteceu  muitas  vezes  com  o  imposto  sobre  o  consumo 
do  sal.  empregue  como  garantia  da  remuneração  da  dívida  pública5115.  Não  faltam 
exemplos,  aliás,  de  arrendamento  de  outros  tipos  de  imposto  indirecto  para  sustentar  o 
serviço  da  dívida. 

Depois  desta  análise,  pareceria  talvez  indubitável  que  a  composição  dos  diferentes 
sistemas  fiscais,  consoante  o  lugar  relativo  ocupado  pelos  impostos  directos  e  pelos 
indirectos,  devesse  servir  de  indicador  do  equilíbrio  social,  revelando  a  maior  ou  menor 
intervenção  dos  populares  nos  órgãos  do  governo  e  refiectindo  também  a  capacidade 
reivindicativa  da  arraia-miúda520.  Na  prática,  porém,  o  contraste  entre  ambos  os  siste- 


517  H.  Kraus  (1979)  58. 

518  W.  M  Bowsky  ( 1970)  56-60;  J.  Heers  ( 1968)  240;  J.  Le  Goff  (1968  b>  235,  237;  G.  Luzzauo 
(1961  b)  113-115. 

W.  M.  Bcnvsky  (1970)  59;  J.  Le  Goff  ( 196S  b)  236. 

520  Fora  esta  a  perspectiva  de  Gioacchino  Volpe  e  de  Caetano  Salveminij  como  recorda  D.  Her- 
lihy  (1964)  393,  e  L.  Mirot  (1905)  75  afirma  que  nas  cortes  gerais  das  províncias  francesas  de  língua 
de  oil,  convocadas  em  1380,  enquanio  a  plebe  pretendia  o  estabelecimento  de  um  imposto  directo,  as 
camadas  sociais  mais  elevadas  preferiam  que  fossem  cobrados  impostos  indirectos.  Mais  recente¬ 
mente,  depois  de  observar  que  nas  cidades  do  sudoeste  da  França  prevaleciam  os  impostos  directos, 
enquanto  em  Bruges  eram  os  impostos  indirectos  os  mais  importantes.  J.  Dhondt  (1964)  364  consi¬ 
dera  que  a  diferença  correspondia  aos  interesses  de  grupos  sociais  distintos.  Também  P.  Desportes 
( 1979)  196  confere  a  primazia  ao  sistema  fiscal  directo  nos  centros  urbanos  da  França  meridional.  No 
entanto.  M.  Hebert  ( 1979)  198  previne  que  o  exemplo  de  Tarascon  põe  em  causa  a  tese  que  atribui  às 
cidades  do  sul  da  França  um  predomínio  dos  impostos  directos.  E.  em  Toulouse,  Ph.  Wolff  (1947) 
453  indica  que  no  final  do  período  os  rendimentos  fiscais  tinham  sobretudo  origem  nos  impostos  indi¬ 
rectos.  Quanto  aos  centros  urbanos  da  Flandres.  todavia,  várias  obras  confirmam  o  prevalecimento 
crescente  das  contribuições  indirectas:  R.  de  Roover  (1948)  281:  id.  (1964)  94,  P.  Desportes  ( 1979) 
196.  Em  Pisa.  segundo  M.  B.  Becker  ( 1970)  188,  os  poderás  tentaram,  mas  sem  éxitn,  introduzir  um 
sistema  de  impostos  directos  e,  consoante  escreve  o  mesmo  autor  em  ( 1967-1968)  I  25  e  ( 1970)  190, 
também  em  Florença,  onde  os  impostos  directos  haviam  sido  abandonados  na  segunda  década  do 
século  XIV,  só  os  regimes  despóticos  procuraram  restabelecê-los.  As  tentativas  malogradas  de  dois 
podestàs  de  Florença  para  porem  de  novo  em  vigor  o  sistema  directo,  no  segundo  quartel  do  século 
XIV,  são  igualmente  mencionadas  por:  G.  A.  Bruckei  (1962)  93  n  150:  D.  Herlihy  et  al.  1 1985)  2;  A. 
Molho  (197 1  >  63-64.  E  no  termo  do  segundo  terço  desse  século  o  governo  da  cidade  ordenou  o  lança¬ 
mento  de  um  imposto  directo,  mas  a  decisão  foi  suspensa  à  ultima  hora.  informa  M.  B.  Becker  (1967- 
-1968)  11  176-177.  tal  como  o  imposto  directo  instaurado  dezassete  anos  depois  (II,  pp  19.3-194) 
depressa  se  transformou  em  algo  muito  diferente  Mais  genericamente,  kl.,  ibid.,  I  67,  69-72  e  75  pre¬ 
tende  que  em  Florença,  até  aos  meados  do  século  XIV.  as  crises  fiscais  mais  agudas  levaram  à 


Operações  c  conteúdo  da  Forma  Hl  do  dinheiro 


459 


mas  estava  muito  longe  de  ser  tão  vincado  como  o  era  nos  princípios  teóricos,  e  o 
imposto  directo  não  garantia,  por  si  só,  qualquer  equidade.  Nas  cidades  integradas  em 
áreas  de  soberania  coerentes,  onde  o  poder  central  se  exercia  com  relativa  eficácia  -  tal 
como  sucedia  no  reino  de  Castela  e  começou  a  verificar-se  em  França,  por  exemplo,  ou 
como  encontramos  no  reino  de  Nápoles  pelo  menos  durante  a  primeira  metade  do 
século  XIV,  ou  ainda,  a  partir  do  começo  do  segundo  terço  desse  século,  nos  territórios 
sujeitos  à  coroa  inglesa  -  era  o  monarca  a  estipular  para  cada  colectividade  urbana  o 
montante  global  de  imposto  directo  que  devia  ser  pago,  e  os  governos  locais  repartiam 
o  encargo  entre  os  habitantes521.  Ao  fazê-lo,  beneficiavam  muito  naturalmente  as  famí¬ 
lias  mais  ricas  e  sobrecarregavam  as  camadas  de  rendimentos  inferiores522.  Se  souber¬ 
mos  que  até  meados  do  século  XIV  não  existia  ainda  nas  cidades  da  região  do  Loire 
nenhum  órgão  governativo  de  carácter  permanente,  é  muito  elucidativo  observar  que  as 
primeiras  instituições  deste  tipo  se  formaram  para  administrar  os  novos  impostos  indi¬ 
rectos  destinados  à  reconstrução  e  manutenção  das  muralhas,  uma  medida  indispensᬠ
vel  na  guerra  sem  fim  que  opunha  as  coroas  francesa  e  inglesa.  Assim,  as  famílias  da 
elite  hegemonizaram  as  mais  recentes  instâncias  do  poder  nestes  centros  urbanos  preci¬ 
samente  a  partir  dos  mecanismos  fiscais  indirectos,  e  de  então  em  diante  os  novos 


implantação,  durante  curtos  períodos,  de  governos  democráticos,  que  cobravam  com  maior  severidade 
os  impostos  sobre  as  grandes  fortunas.  Também  em  Perugia,  enquanto  o  partido  popular  deteve  a 
hegemonia  o  fisco  onerou  pesudamente  a  propriedade  fundiária,  prejudicando  os  interesses  da  elite 
tradicional,  que  pretendeu  escapar-se  com  subterfúgios  jurídicos,  como  salienta  A.  Grohmann  (19811 
793-794. 

521  M.  Beresford  ( 1967)  91:  R.  Caggese  ( 1922-1930)  I  58-59;  F.  Rdrig  (.1967)  50. 

522  Nas  cidades  francesas  dotadas  de  governo  municipal,  J.  Lestocquoy  (1952)  191  observa  a 
existência  de  numerosas  reclamações  contra  a  forma  como  era  repartida  a  taille.  um  imposto  directo 
cobrado  pela  coroa,  já  que  a  elite  recenseava  a  sua  fortuna  com  um  valor  muito  inferior  ao  real,  dei¬ 
xando  o  fisco  sobrecarregar  as  camadas  mais  modestas.  Por  isso  o  abade  Jean  Lestocquoy,  em  op.  cit., 
140-141,  pode  considerar  a  taille  como  especialmente  propícia  à  injustiça  fiscal.  Senão,  como  enten¬ 
der  a  grande  agitação  provocada  em  Douai,  em  1 280,  pelo  lançamento  de  um  novo  imposto  directo? 
Ver  a  este  respeito  icl.,  ibtd.,  138.  Note-se  que  outros  autores,  como,  por  exemplo.  Ph.  Wolff  (1947) 
446,  partindo  do  princípio  de  que  a  taille  era  etectivamente  proporcionai  ao  patrimônio  de  cada  famí¬ 
lia.  consideram  na  o  sistema  preferido  pelos  pobres.  Mas  a  gente  humilde  de  Amiens  reclamava  con¬ 
tra  a  forma  como  a  elite  repartia  os  impostos  directos  devidos  à  coroa,  segundo  narra  H.  Kraus  (1979) 
58.  Por  sua  vez,  E.  Foumial  1 1967 1 121  mostra  como  em  Mombrison,  no  Forez.  as  famílias  da  elite  se 
esforçavam  por  ocupar  os  cargos  governativos,  de  maneira  a  distribuírem  os  impostos  em  seu  benefí¬ 
cio.  Também  em  Toulouse.  pelo  menos  na  primeira  metade  do  século  XII.  leio  em  J.  H.  Mundy 
(1954)  31  que  o  conde  não  impunha  novas  contribuições  á  cidade  sem  consultar  primeiro  a  elite,  o 
que  me  deixa  presumir  que,  se  ela  participava  de  maneira  determinante  no  lançamento  dos  impostos, 
a  sua  influência  não  seria  decerto  menor  quando  se  tratava  de  dividi-los  pelos  habitantes.  No  reino  de 
Nápoles,  conforme  explica  R.  Caggese  (1922-1930)  1  372-377.  a  soma  global  de  imposto  devida  por 
uma  cidade  era  repartida  entre  dois  grupos  populacionais,  um  constituído  por  nobres  e  o  outro  por 
plebeus,  que  efecluavam  o  pagamento  através  de  mecanismos  institucionais  distintos,  tentando  prejti- 
dicar-se  reciprocamente.  E,  nas  cidades  castelhanas  dos  séculos  XIV  e  XV.  J.  Valdeón  Baruque 
<  1976)  30  indica  que  o  controlo  exercido  sobre  o  governo  municipal  permitia  à  elite  orientar  a  atribui¬ 
ção  interna  das  somas  globais  do  imposto  Referindo-se  â  Normandia.  M.  Bouard  (org.  1970)  209 
afirma  que  a  elite  não  podia  cscusar-se  ao  pagamento  da  carga  tributária  que  os  reis  lançavam  sobre 
as  cidades.  Em  matéria  fiscal,  todavia,  o  problema  não  consiste  em  pagar  ou  não  impostos,  mas  na 
forma  como  eles  são  distribuídos  entre  as  várias  camadas  sociais. 


460 


Forma  III  do  dinheiro 


órgãos  governamentais  passaram  também  a  distribuir  entre  a  população  as  contribui¬ 
ções  para  o  montante  de  imposto  directo  estabelecido  pelo  soberano523.  É  impossível 
mostrar  mais  claramente  como  a  desigualdade  social  podia  operar  com  os  mesmos 
objectivos  e  através  das  mesmas  instituições  no  sistema  indirecto  e  no  directo.  Também 
na  Polónia,  nos  séculos  XIII  e  XIV,  se  sabe  que  a  aplicação  dos  impostos  directos  foi 
proveitosa  para  a  elite  mercantil524.  Por  vezes  o  carácter  regressivo  do  sistema  directo 
estava  garantido  desde  início,  por  exemplo  em  Tarascon.  onde  as  taxas  deste  tipo  se 
compunham  de  duas  partes,  uma  proporcional  às  fortunas  e  a  outra  fixa.  o  que  motivava 
uma  incidência  relativamente  maior  sobre  os  pobres  do  que  sobre  os  ricos525.  Por  outro 
lado,  quando  vemos  que  na  generalidade  das  cidades  italianas  o  erário  se  baseou  nos 
impostos  directos  até  meados  do  século  XIII.  e  que  a  partir  do  final  desse  século  e  ao 
longo  do  século  seguinte  se  desenvolveu  gradualmente  a  forma  indirecta  de 
cobrança526,  constatamos  que  a  modalidade  aparentemente  mais  progressiva  coincidira 


325  F.  Lebrun  (org.  1972)  192  descreve  a  evolução  do  fisco  nos  centros  urbanos  da  região  do 
Loire. 

Parece-me  difícil  interpretar  o  sucedido  no  século  XIV  em  Remis,  segundo  P.  Desportes  ( 1979) 
196  e  204.  Na  primeira  metade  do  século  o  erário  assentava  nos  impostos  directos,  e  aqueles  que  atin¬ 
giam  as  fortunas  elevadas  proporcionavam  mais  de  metade  do  rendimento  total,  dando  ao  sistema  um 
carácter  progressivo,  como  sublinha  este  historiador  em  op.  cit ,  204.  A  partir  de  meados  do  século, 
porém,  a  política  fiscal  da  cidade  passou  a  ter  como  eixo  os  impostos  indirectos.  Não  entendo  como 
as  pessoas  ricas  puderam  vitimar-se  antes  dos  meados  do  século  XIV.  precisamente  durante  a  fase  em 
que  os  grupos  familiares  da  elite  tradicional  mantinham  a  coesão,  e  na  segunda  metade  desse  século, 
quando  ocorreu  a  desagregação  da  amiga  elite  e  a  cidade  passou  a  ser  administrada  por  uma  elite 
nova,  constituída  por  burocratas  profissionais  e  por  juristas,  é  que  o  sistema  fiscal  se  teria  tomado 
francamente  regressivo.  Acerca  destes  aspectos  da  evolução  da  estrutura  social  e  política  da  cidade 
ver  id.,  ibid..  280.  282-289  e  642.  Talvez  um  estudo  mais  detalhado  mostre  que  a  repartição  do 
imposto  directo  havia  obedecido  a  outras  condicionantes  e  fora  menos  progressiva  do  que  aparentava. 

524  A.  Gieyszton  1964)  160. 

525  Vt  Heben  (1979)  199-200. 

326  M.  B.  Becker  (1967-1968)  I  123  n.  1;  G.  A.  Brucker  (1972)  160-161:  Ch.  M.  La  Roncière 
(1968)  140-141,  143-146;  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  73. 

Em  Génova,  no  século  XIV,  além  de  uma  multiplicidade  de  impostos  indirectos,  havia  ainda  os 
directos.  Mas  nas  colónias  genovesas  o  sistema  directo  era  excepcional,  encontrando-se  ocasional¬ 
mente  em  Pêra,  onde  apenas  onerava  a  população  autóctone,  e  as  quantias  que  rendia  eram  tão  dimi¬ 
nutas  que  ele  assumia  um  carácter  meramente  simbólico.  Ver  a  este  respeito  M.  Balard  ( 1978)  402- 
-404.  Uma  situação  idêntica  verificava-se  nas  colónias  venezianas  da  área  bizantina,  onde,  segundo  F. 
Thiriet  (1959)  224  e  segs.,  os  impostos  directos  tiveram  um  papel  secundário  e  só  incidiram  sobre  os 
nativos,  estando  aliás  isentos  os  mais  ricos. 

Referindo-se  genericamente  às  cidades  da  Toscana,  D.  Herlihy  (1958  h)  76-78  admite  que  a  partir 
de  meados  do  século  XIII  tivessem  ocorrido  reformas  que  tomaram  mais  equitativo  o  sistema  fiscal  e. 
através  do  imposto  directo,  visaram  as  propriedades  fundiárias.  Estudando  o  caso  de  Pisa.  em  op.  cit.. 
69.  este  historiador  considera  que  no  final  do  século  XIII  o  governo  democrático  favoreceu  os  impos¬ 
tos  directos.  No  entanto,  em  ( 1964)  393-399  e  401,  David  Herlihy  mostra  a  progressão  das  contribui¬ 
ções  indirectas  nas  cidades  toscanas  desde  os  meados  do  século  XIII  e  a  correspondente  diminuição 
da  importância  dos  impostos  directos,  embora  considere  que  entretanto  se  aperfeiçoaram  os  métodos 
da  cobrança  directa.  Aliás,  já  no  seu  estudo  sobre  Pisa  (p.  88)  ele  indicara  que  as  receitas  fiscais 
haviam  aumentado  muito  no  final  do  século  XIII  graças  ao  recurso  às  taxas  indirectas.  Em  suma.  os 
efeitos  económicos  do  declínio  do  sistema  directo  teriam  sido  atenuados  graças  à  introdução  de 
melhorias  técnicas.  Com  efeito,  ao  analisarem  a  situação  de  Florença,  id  et  al  (1985  )  2  afirmam  que 


Operações  e  conteúdo  da  torma  III  do  dinheiro 


461 


com  a  hegemonia  da  elite  tradicional  e  que  a  ascensão  política  das  camadas  populares 
teve  como  resultado  instaurar  taxas  que  os  historiadores  são  unânimes  em  considerar 
como  francamente  regressivas327.  Nos  centros  urbanos  a  sul  dos  Alpes  a  cronologia  do 
fisco  apresenta-se.  portanto,  inversa  ao  que  seria  de  esperar  tendo  em  conta  os  movi¬ 
mentos  sociais,  o  que  mais  uma  vez  confirma  que  a  diferença  entre  ambos  os  tipos  de 
imposto  não  era  -  ou  pelo  menos  nem  sempre  era  -  tão  acentuada  como  numa  primeira 
abordagem  se  poderia  presumir.  Com  efeito,  nas  cidades  toscanas  alguns  impostos  que 
julgaríamos  indirectos  eram  pagos  com  base  no  valor  recenseado  do  património  do 
contribuinte,  o  que  de  facto  lhes  conferia  um  carácter  directo328.  A  demarcação  entre  os 
dois  grandes  sistemas  não  só  é  difícil  de  efectuar  ao  longo  da  história,  mas  até  numa 
mesma  época  a  situação  podia  aparecer  pouco  clara.  E  para  além  de  todos  estes  facto- 
res  que  ajudavam  a  confundir  a  repercussão  social  dos  impostos  directos  e  a  dos  indi¬ 
rectos.  convém  não  esquecer  que  a  elite,  profunda  conhecedora  das  engrenagens  da 
administração,  praticava  regularmente  a  fraude  fiscal,  em  detrimento  das  camadas  mais 
humildes329. 

Qualquer  que  fosse  o  sistema  seguido  pelo  fisco,  prevaleciam  a  desproporcionali- 
dude  e  um  notório  carácter  regressivo530.  Muito  simplesmente,  tratava-se  de  um  pro- 


no  século  XIII  as  receitas  fiscais  provinham  essencialmente  do  imposto  directo,  mas  que  a  partir  do 
termo  desse  século,  e  mais  ainda  ao  longo  do  século  seguinte,  se  recorreu  cada  vez  mais  à  cobrança 
indirecta;  o  imposto  directo  foi  suspenso  na  segunda  década  do  século  XIV,  e  no  início  do  segundo 
terço  desse  século  os  impostos  indirectos  eram  já  responsáveis  por  3/4  das  receitas  totais  da  comuna. 
Por  seu  lado.  W.  M.  BowsKy  ( I970Í,  apesar  de  insistir  (pp.  98-99,  282)  no  facto  de  se  terem  cobrado 
impostos  directos  em  Siena  até  meados  do  século  XIV,  não  deixa  de  evidenciar  (pp.  100,  1 19-120) 
que  desde  o  final  do  século  XIII  c  ao  longo  do  século  seguinte  foram  os  impostos  indirectos  a  aumen¬ 
tar  progressivamente  de  importância.  A  este  respeito  ver  ainda  id.  (1981)  187. 

5:7  Sem  parecer  aperceber-se  da  contradição.  M.  B.  Becker  ( 1960)  44  observa  que,  em  Florença,  o 
triunfo  político  das  corporações  implicou  o  estabelecimento  de  um  sistema  fiscal  assente  nos  impos¬ 
tos  indirectos,  o  que  seria  especial  mente  vantajoso  para  os  detentores  de  grandes  propriedades  fundiᬠ
rias  urbanas.  E  em  ( 1967-1968)  I  77  este  historiador  conclui  que.  em  matéria  fiscal,  os  novos  ricos  se 
comportavam  de  maneira  idêntica  à  antiga  elite,  revelando-se  hostis  ao  recenseamento  das  fortunas 
que  serviria  para  repartir  os  impostos  directos  e  defendendo,  em  vez  disso,  as  contribuições  indirectas. 
Com  efeito,  mesmo  o  governo  democrático  moderado  que  se  instalou  após  a  derrota  da  arraia-miúda 
na  revolução  de  1 378  continuou  a  opor-se  ao  lançamento  de  um  imposto  directo,  consoante  indica  id.. 
íbid..  II  192-193. 

528  D.  Herlihy  (1964)  393. 

Em  Siena.  W.  M.  Bowsky  1 1 970)  100  e  114-116  insiste  no  facto  de  algumas  gabelles  constituírem 
impostos  directos.  Em  suma.  como  observa  D.  Herlihy  (1964)  393-394.  é  muito  difícil  avaliar  a 
importância  efectiva  do  sistema  fiscal  directo. 

529  G.  Bigwood  ( 1924- 1925)  III  502-503;  J.  Lestocquoy  (1952)  80  e  segs.:  Ph.  Wolfí  1 1947)  446- 
-447. 

Para  o  que  se  passava  na  Boémia  e  na  Morávia  ver  J.  Kejf  ( 1966)  220.  Acerca  desta  situação 
na  Flandres  consultar  F.  Rõrig  (1967)  89,  G,  Cracco  (1967)  200-201  e  F  C.  Lane  (1973)  150  suhli- 
nham  o  carácter  regressivo  do  sistema  fiscal  veneziano,  e  D.  Herlihy  ( 1964 1  402  faz  o  mesmo  a  res¬ 
peito  das  cidades  toscanas. 

Quando,  a  propósito  da  Itália,  P.  S.  Leicht  1 1946)  1 14  defende  que  o  governo  das  cidades  cabia 
aos  mais  ricos  porque  seriam  eles  quem.  através  dos  impostos,  sustentava  a  maior  parte  das  despesas 
públicas,  tratar-se-á  de  ingenuidade,  de  descaramento  ou  de  distracção?  E  como  qualificar  a  afirma¬ 
ção  de  A  Molho  (1971 )  67-68,  ao  pretender  que  não  existem  provas  de  que  o  sistema  fiscal  ílorentino 
tivesse  favorecido  os  ricos  em  detrimento  dos  pobres Aliás,  é  curioso  que  para  certos  autores  a  temá- 


462 


Forma  III  do  dinheiro 


cesso  mediante  o  qual  as  camadas  urbanas  mais  pobres  pagavam  às  camadas  mais 
ricas.  Mas  como  os  estratos  inferiores  da  população  não  constituíam,  claro,  uma  base 
fiscal  suficiente,  o  défice  das  administrações  só  podia  aumentar.  E,  assim,  recorria-se  a 
novos  empréstimos,  tanto  voluntários  como  forçados,  cujos  juros  eram  sustentados 
igualmente  pelas  receitas  dos  impostos  indirectos,  renovando-se  o  problema,  em 
dimensões  cada  vez  maiores531.  No  começo  da  década  de  1370,  9/10  do  rendimento 
dos  impostos  cobrados  pela  cidade  de  Maiorca  destinavam-se  a  pagar  os  juros  da  dívida 
pública53-.  Em  Florença  a  situação  era  ainda  mais  grave,  pois  nas  décadas  de  1 370  e 
1 380  o  sen,' iço  da  dívida  aumentou  a  um  tal  ponto  que  passou  a  ser  equivalente  à  totali¬ 
dade  do  rendimento  ordinário  anual  da  comuna533,  e  no  começo  do  século  XV  o  total 
da  dívida  pública  florentina  era  mais  de  sete  vezes  superior  ao  total  das  fortunas  comer¬ 
ciais  da  cidade5-’4,  para  atingir,  vinte  e  cinco  anos  depois,  um  montante  idêntico  ao 
património  total  dos  cidadãos,  incluindo  tanto  a  riqueza  móvel  como  os  bens  fixos535. 
Entretanto,  em  Génova,  nos  primeiros  anos  do  século  XV  o  volume  da  dívida  pública 
correspondia  ao  quádruplo  do  valor  total  do  comércio  marítimo536.  Estes  seriam  casos 
extremos,  mas  decerto  não  eram  únicos. 

A  repetição  destes  mecanismos  e  o  agravamento  tia  situação  não  deixaram  outra 
alternativa  senão  a  consolidação  da  dívida  pública,  que  nas  cidades  italianas  se  iniciou 
durante  o  século  XIII  e  beneficiou  no  século  XIV  de  aperfeiçoamentos  técnicos,  difun¬ 
dindo-se  então  também  pelos  centros  urbanos  da  Catalunha  e  da  Germãnia,  mas  só 
entrando  nos  hábitos  fiscais  das  coroas  de  Castela  e  de  França  passado  o  final  do 
período537.  A  consolidação  da  dívida  tomava-a,  por  um  lado.  perpétua,  mas,  por  outro 


tica  colocada  pelos  conflitos  sociais  não  constitua  uma  demonstração  histórica.  Por  seu  tumo.  W.  M 
Bowsky  ( 1970)  70-71,  98-99,  104,  109,  111-113.  120  e  ( 198 J  >  191-192  não  poupa  palavras  para  elo¬ 
giar  a  equanimidade  fiscal  que,  no  seu  entender,  prevaleceria  em  Siena  durante  o  regime  oligárquico 
da  última  década  do  século  XIII  e  da  primeira  metade  do  século  XIV,  e  considera  que  a  elite  desta 
cidade  não  procurou  beneficiar-se  à  custa  das  outras  camadas  sociais.  A  mesma  visão  idílica  leva  Wil- 
liam  M.  Bowsky  a  afirmar  que  a  cidade  não  explorara  a  população  rural  do  seu  tenitório,  como  pode¬ 
mos  ver  na  n.  98  do  capítulo  13  da  Parte  II.  Este  historiador  deixa-nos.  porém,  num  estado  de  grande 
perplexidade  ao  escrever,  em  (1981)  187,  que  os  impostos  directos  oneravam  sobretudo  as  camadas 
de  rendimentos  médios  e  baixos,  enquanto  os  indirectos  sacrificavam  antes  de  mais  a  arraia-miúda. 
Não  é  esta  mesma  a  caracterização  de  um  sistema  regressivo? 

5,1  Acerca  do  crescimento  ineontrolável  da  divida  pública  nas  cidades  italianas  ver:  M.  B.  Becker 
(1967-1968)1  78,  186-187,  II  69  e  segs..  151  e  segs..  180  e. segs.,  198:  td.  ( 1968*  I20esegs.,  129  e 
segs.:  id.  (1970)  188:  S.  Bertelli  (1978)  117-1 18.  W.  M  Bowsky  (1970)  176-177;  F.  C.  Lane  (1973) 
150;  Ch.  M.  La  Roncière  (1968)  142;  G.  Luzzatto  (1963)  60,  135  e  segs..  151-152,  203;  A.  Molho 
(1971)  71;  L.  Zanonit  1970)  204. 

532  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  11  14. 

533  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  II  30. 

533  ld..  ibid.,  II  70. 

535  ld.,  ibid.,  11  71,  153. 

336  J.  Day  ( 1994)  131-132. 

537  Para  a  cronologia  geral  da  consolidação  da  dívida  pública  ver  A.  P.  Usher  ( 1943»  136.  Em 
Veneza,  segundo  F.  C.  Lane  (1973)  150,  a  consolidação  da  dívida  pública  data  de  1262.  D.  Herlihy 
( 1964)  401  afirma  que  a  consolidação  da  dívida  assumiu  uma  grande  importância  nas  cidades  tosca- 
nas  a  partir  de  meados  do  século  XIV.  Com  efeito,  a  consolidação  global  de  todas  as  antigas  dívidas  e 
a  sua  administração  conjunta  através  de  uma  instituição  única,  o  Monte,  ocorreu  cm  Florença  graças  a 


Operações  e  c  ometido  da  Forma  III  do  dinheiro 


463 


lado,  os  credores  ficavam  com  direito  apenas  ao  juro,  não  sendo  mais  reembolsados  do 
montante  que  haviam  adiantado  inicialmente538.  Esta  última  característica  fazia  com 
que  a  dívida  consolidada  se  assemelhasse  ao  imposto  directo539,  tanto  assim  que  nas 
cidades  flamengas  e  italianas  a  repartição  dos  empréstimos  forçados  obedecia  ao  recen¬ 
seamento  dos  bens  imóveis540:  aliás,  sucedeu  que  um  imposto  directo  decretado  extem¬ 
poraneamente  pelo  governo  tlorentino  no  começo  do  último  quartel  do  século  XIV 
fosse,  durante  a  própria  cobrança,  convertido  em  empréstimo  obrigatório,  rendendo 
juros541.  Acentuava-se  deste  modo  uma  desigualdade  no  seio  da  elite,  já  que  a  aristo¬ 
cracia  tradicional  tinha  grande  parte  da  sua  fortuna  na  forma  de  senhorias  e  ficava,  por¬ 
tanto.  exposta  às  contribuições  obrigatórias,  enquanto  os  novos  ricos  possuíam  sobre¬ 
tudo  somas  de  dinheiro  e  interesses  nos  negócios,  mais  fáceis  de  dissimular  aos  funcio¬ 
nários  encarregados  de  estabelecer  os  cadastros54*.  A  analogia  entre  os  dois  métodos 
fiscais  não  deixava  ignorar,  porém,  uma  distinção  substancial,  pois  os  empréstimos  ren¬ 
diam  juro  e  o  imposto  não.  Assim,  eram  os  ricos,  não  os  pobres,  quem  saía  beneficiado 
com  esta  forma  de  tributação.  Os  populares  mais  modestos  e  a  arraia-miúda  de  Flo¬ 
rença.  ao  reivindicarem  a  substituição  dos  empréstimos  forçados  por  impostos  direc¬ 
tos543,  viram  claramente  onde  residiam  as  semelhanças  e  as  diferenças  entre  os  dois 
métodos  fiscais. 

Para  os  principais  mutuantes  o  atractivo  consistia  no  carácter  permanente  da  relação 
de  crédito,  que  lhes  conferia  um  ascendente  sobre  o  governo  urbano,  e  por  isso  o  que 
verdadeiramente  os  preocupava  não  era  a  restituição  da  soma  adiantada,  mas  a  regulari¬ 
dade  com  que  recebiam  os  juros.  Enquanto  a  dívida  se  mantivera  flutuante,  os  bancos, 
que  serviam  de  agentes  fiscais  dos  governos,  haviam  estado  expostos  a  grandes  tensões 
e  riscos,  já  que  os  empréstimos  públicos  a  curto  prazo  quase  nunca  eram  reembolsados 
nas  datas  previstas544.  As  operações  de  consolidação  foram,  portanto,  muito  benéficas 
para  os  banqueiros,  ao  mesmo  tempo  que  facilitaram  a  administração  das  cidades,  na 
medida  em  que  tomaram  regular  o  serviço  da  dívida.  Mas  para  alcançar  este  objectivo 
era  necessária  também  a  regularidade  das  receitas  fiscais545.  A  consolidação  da  dívida 


uma  série  de  medidas  tomadas  entre  o  final  de  1343  e  os  começos  de  1345.  Ver  a  este  respeito:  M.  B. 
Becker  (1967-1968)  I  192.  II  156-157;  id.  (1968)  121;  G.  A.  Brucker  (1962)  19:  D.  Herliliy  et  al. 
(1985)  3;  A.  Molho  (1971)64.  E  dando-se  azo  depois  a  uma  multiplicidade  de  novas  dív  idas  públicas, 
iodas  elas  foram  consolidadas  em  1380.  como  indicam  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  II  197  e  A  Molho 
(1971)  66-67  Em  Pisa,  foi  em  1348  que  as  várias  dívidas  públicas  ficaram  reunidas  numa  dívida 
única,  com  juros  uniformes,  consoante  escreve  C.  Violante  (1966)  71.  Em  Siena,  a  crer  em  W.  M 
Bowsky  (1970)  294,  a  oligarquia  que  governou  a  cidade  até  1355  tentou  várias  vezes  consolidar  a 
dívida  pública,  mas  nunca  conseguiu  chegar  a  uma  solução  global. 

?3X  R.  de  Roo  ver  (1964)  91:  A.  P.  Ushert  1943)  155. 

534  R.  de  Roover  ( 1964)  91 :  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  111:  C.  Violante  ( 1966)  71 . 

540  J.  Dav(l994)  129,  202:  R.  de  Roover  ( 1964)  95;  G.  Luzzatto  ( 1961  b)  111. 

341  M.  B'  Becker  (1967- 1968)  11  193-194. 

342  J.  Day  (1994)  131.  202 

34 3  Ver  as  nn.  582  a  585. 

544  A.  P.  Usher  (1943)  135. 

543  Para  que  a  consolidação  da  dívida  pública  progredisse  rapidamente,  observa  id.,  ibid..  135.  era 
necessário  que  o  sistema  fiscal  originasse  receitas  regulares 


464 


Forma  III  do  dinheiro 


pública  assinalava  uma  situação  em  que  o  fisco  atingira  um  verdadeiro  carácter  circu¬ 
lar,  ficando  a  esmagadora  maioria  da  população  destes  centros  urbanos  presa  na  siste- 
maticidade  dos  impostos  e  conferindo-se  a  um  punhado  de  famílias  o  direito  a  receber 
juros  de  maneira  permanente  e  mais  ou  menos  pontual.  O  lançamento  de  empréstimos 
e  a  cobrança  de  impostos  acabaram  aqui,  afinal,  confundidos  nas  mesmas  operações546. 

A  proximidade  entre  os  critérios  de  repartição  dos  empréstimos  forçados  e  dos 
impostos  directos  ajuda  a  compreender  que  os  empréstimos  forçados  não  só  supuses¬ 
sem  uma  profunda  desigualdade  fiscal,  como  contribuíssem  para  agravá-la.  Entre  os 
participantes  nos  empréstimos  forçados  havia  enormes  diferenças,  porque  a  gente 
pobre  só  arranjava  dinheiro  para  a  nova  contribuição  se  vendesse  os  títulos  da  contri¬ 
buição  anterior,  e  muitas  vezes  tinha  de  pôr  os  títulos  à  venda  pouco  depois  de  os  ter 
obtido,  para  fazer  face  a  transtornos  inesperados547.  Aliás,  a  pressão  para  a  venda  era 
sentida  também  pelas  famílias  da  elite  tradicional,  que  tinham  imobilizada  em  senho¬ 
rias  a  maior  parte  da  sua  fortuna  e  que,  portanto,  só  com  dificuldade  podiam  reunir 
rapidamente  as  somas  exigidas  pelo  novo  empréstimo;  nestas  circunstâncias,  a  venda 
dos  títulos  dos  empréstimos  precedentes  aparecia  como  o  melhor  recurso54'5.  E  como 
todos  estes  vendedores  potenciais  procuravam  ao  mesmo  tempo  encontrar  adquiren¬ 
tes  para  os  seus  títulos,  as  cotações  no  mercado  baixavam  muito  em  tais  ocasiões,  de 
maneira  que  tanto  os  contribuintes  mais  humildes  como  os  pertencentes  às  famílias  de 
fortuna  fundiária  recebiam  um  preço  bastante  inferior  à  quantia  com  que  haviam  parti¬ 
cipado  naqueles  empréstimos549.  Além  disso,  os  vendedores  perdiam  defínitivamente 
qualquer  possibilidade  de  beneficiar  do  juro,  que  cabia  agora  aos  novos  proprietários 
dos  títulos;  e  se  bem  que  estes  os  tivessem  pago  a  um  preço  inferior  ao  seu  valor 
nominal,  era  ao  valor  nominal  que  o  juro  se  referia,  o  que  tomava  a  especulação  mais 
rentável  ainda550.  Assim,  através  da  repetição  destas  operações,  os  títulos  da  dívida 


5Jí>  ld..  ihid.,  155-156. 

597  0.  A.  Brucker  (1962)  20:  G.  Cracco  (196?)  200.  323;  G.  Luzzatto  (1961  b)  112-113:  id. 
(1963)71:  A.  Molho  ( 1971)  69. 

Ms  J.  Dav  (1994)  131. 

M9  ld.,  ibid.,  131:  C.  Violante  ( 1966)  72. 

Em  Veneza,  no  decénio  compreendido  entre  1363  e  1372.  as  velhas  famílias  da  elile  tradicional 
foram  obrigadas  a  subscrever  títulos  da  dívida  consolidada  num  montante  equivalente  a  24%  da  sua 
fortuna  recenseada.  Todavia,  observa  E.  C.  Lane  (1973)  184-1  «5.  como  aquelas  propriedades  haviam 
sido  registadas  a  cerca  de  um  terço  do  seu  valor  real.  a  referida  obrigação  montava  na  verdade  a  8%. 
da  fortuna.  Ora.  durante  aqueles  dez  anos  a  cotação  dos  títulos  raramente  desceu  abaixo  dos  80%. 
mantendo-se  com  frequência  acima  dos  90%,  o  que  significa  que,  se  as  famílias  da  elite  tradicional 
vendessem  os  seus  títulos,  perderiam  apenas  entre  10%  e  20%  de  8%  da  sua  fortuna.  F.m  resumo,  Fre- 
deric  C.  Lane  calcula  que.  sem  impostos  directos,  aquelas  famílias  pagaram  aproximadamente  1%>  da 
sua  fortuna  real  durante  um  decénio.  Mas  a  situação  da  velha  elite  veneziana  piorou  muito  no  último 
quartel  do  século  XIV.  por  ocasião  da  quarta  guerra  contra  Génova.  G.  Luzzatto  ( 1963)  170-172  e 
195  mostra  como  a  crise  militar  e  fiscal  sofrida  então  pela  cidade  vitimou  as  famílias  da  elite  tradicio¬ 
nal.  obrigando-as.  numa  conjuntura  de  queda  das  cotações,  a  vender  ao  desbarato  as  posições  que 
detinham  no  crédito  público,  e  auxiliou  a  ascensão  dos  novos  ricos,  que  compraram  maciçamente 
essas  posições.  O  mesmo  processo  de  dupla  mobilidade  social  é  analisado  por  Frederic  C.  Lane  em 
op.  cil .  196-197.  Note-se  que  em  Florença,  no  terceiro  quartel  do  século  XIV.  a  cotação  de  mercado 
dos  títulos  da  dívida  pública  consolidada  oscilava  entre  1/3  e  1/4  do  seu  valor  original,  consoante 
indica  G.  A.  Brucker  (1962)  19. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  ///  da  dinheiro 


405 


pública  tendiam  a  concentrar-se  num  reduzido  número  de  famílias  de  homens  de 
negócios55 1 . 

Mas  não  se  imagine  que  os  ricos,  ou  aqueles  que  queriam  verdadeiramente  enrique¬ 
cer.  confiavam  apenas  nos  mecanismos  do  mercado.  O  recurso  à  promulgação  de  leis  e 
a  todo  o  tipo  de  medidas  oficiais  foi  pelo  menos  tão  importante,  e  os  grandes  credores 
do  Estado,  como  se  contavam  entre  os  membros  mais  regulares  dos  órgãos  governati¬ 
vos,  podiam  impor  a  política  fiscal  do  seu  agrado.  A  coesão  que  caracterizou  a  oligar¬ 
quia  veneziana  atenuava  a  expressão  das  rivalidades  intentas,  por  isso  o  Senado  defen¬ 
deu.  sempre  que  pôde.  a  continuidade  do  pagamento  da  dívida  pública  e  a  intangibili- 
dade  dos  fundos  destinados  a  sustentar  os  juros,  e  só  alterou  esta  conduta  perante  situa¬ 
ções  catastróficas,  retomando-a  logo  que  a  iminência  do  perigo  havia  passado55’.  Mas 
em  Bruges,  no  final  do  período,  se  as  receitas  fiscais  não  eram  suficientes  para  assegu¬ 
rar  o  pagamento  de  juros  a  todos  os  credores  do  Estado,  o  jogo  de  influências  determi¬ 
nava  quem  saía  contemplado5"'3.  Disputas  deste  tipo  receberam  em  Pistoia  uma  institu¬ 
cionalização  flagrante  quando  o  governo  da  cidade,  no  começo  do  século  XIII,  decidiu 
dividir  a  sua  dívida  em  duas  partes,  recaindo  uma  sobre  a  coleetividade  da  plebe  e  a 
outra  sobre  a  coleetividade  dos  cavaleiros,  que,  como  não  espanta,  ficava  favorecida554. 
E  sucedeu  várias  vezes  em  Siena.  pelo  menos  na  primeira  metade  do  século  XIV.  que 
os  mutuantes  obtivessem  da  comuna  reconhecimentos  de  dívida  equivalentes  ao  dobro 
da  soma  adiantada.  Também  em  Florença,  em  duas  ocasiões  durante  o  terceiro  quartel 
do  século  XIV,  os  participantes  em  novos  empréstimos  públicos  foram  inscritos  nos 
registos  da  dív  ida  consolidada  por  quantias  duas  e  três  vezes  superiores  às  suas  contri¬ 
buições  efectivas.  Este  tipo  de  práticas  aumentava  muito,  evidentemente,  a  taxa  real  de 
juro555.  Aliás,  parece  ter-se  chegado  em  Florença  a  um  elevado  grau  de  sofisticação  no 
aproveitamento  dos  artifícios  do  crédito  público.  Se  recordarmos  que  um  imposto 
directo  decretado  pelo  governo  florentino  no  último  quartel  do  século  XIV  foi  rapida¬ 
mente  convertido  num  empréstimo  obrigatório,  dando  direito  a  juros556,  podemos  apre¬ 
ciar  na  totalidade  das  suas  implicações  uma  medida  simétrica,  quando  passou  a  ser  per¬ 
mitido  que  um  cidadão  pagasse  apenas  entre  1/3  e  1/4  do  montante  que  lhe  cabia  do 
empréstimo  forçado,  com  a  condição,  porém,  de  perder  qualquer  direito  aos  juros557. 
Enquanto  para  os  mais  ricos  os  impostos  directos  se  transformavam  em  títulos  da 
dívida  pública,  a  gente  modesta  deparava  com  a  metamorfose  inversa  e  os  empréstimos 


55,1  B.  Z.  Kedar  í  19761  63  faz  esta  observação  a  propósito  de  Veneza. 

551  Em  Génova,  a  fundação  da  Casa  di  San  Giorgio.  que  analisarei  adiante,  representou  uma 
fornia  extrema  de  concentração  dos  títulos  da  dívida  pública.  Para  o  ocorrido  em  Veneza  ver:  G. 
Cracco  (1967)  200,  201 , 32 V  G.  Luzzatto  ( 1937)  39;  id.  (1961  b)  1 13;  id.  ( 1963)  71. 

G.  Cracco  ( 1967)  379;  F.  C.  Lane  (1973)  197;  G.  Luzzatto  (1937)  39:  id.  (1961  b)  1 13;  id. 
(1963)71  e  segs.,  84-85, 95-96.  106,  190  e  segs. 

55  3  R,  de  Roo  ver  ( 1964)91-92. 

554  D.  Herlihy  t  1958  b)  74,  76. 

Recorde-se  a  este  propósito  a  referência  à  situação  no  reino  de  Nápoles  na  n.  522. 

555  Para  o  sucedido  em  Siena  ver  W.  M.  Bowsky  (1970)  190-192  e  id.  (1981)  189.  Os  exemplos 
de  Florença  encontram-se  em  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  II  174  e  J.  Day  ( 1994)  130. 

5V>  Ver  a  n.  54 1 . 

557  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  199-200;  id.  1 1968)  123-124;  A.  Molho  1 1971 )  68. 


466 


Forma  UI  do  dinheiro 


obrigatórios  passavam  a  ser  verdadeiros  impostos  directos.  Neste  quadro,  nem  espanta 
que  o  governo  florentino  tivesse  começado  a  permitir  que  as  pessoas  ricas  pagassem  os 
impostos  devidos  por  pessoas  em  situação  precária,  sendo  tais  pagamentos  convertidos 
em  empréstimos,  com  direito  a  juros;  a  compra  das  obrigações  fiscais  dos  pobres  pelos 
ricos  deu  então  origem  a  um  tráfico  muito  lucrativo55*.  Através  deste  conjunto  de  pro¬ 
cessos,  o  sistema  dos  empréstimos  obrigatórios  conduziu,  a  prazo,  a  uma  situação  em 
que  todos  pagavam,  mas  apenas  os  ricos  recebiam559.  Mesmo  que  todos  os  cidadãos 
tossem  sócios  da  cidade,  os  mecanismos  da  dívida  reproduziam  entre  os  sócios  as  cli¬ 
vagens  que  separavam  os  cidadãos.  A  conjugação  do  imposto  indirecto  com  a  dívida 
pública  consolidada  converteu-se,  no  interior  das  cidades,  no  mais  importante  instru¬ 
mento  de  exploração  fiscal. 

Por  isso  era  endémica  a  insatisfação  e  foram  frequentes  e  repetidas  as  revoltas 
contra  o  fisco,  não  deixando  imune  praticamente  nenhuma  região560.  E  como  a  cólera 
da  plebe  mais  pobre  podia  encontrar  eco  entre  os  novos  ricos,  que  pretendiam  introdu¬ 
zir  modificações  no  erário  de  maneira  a  melhorar  a  sua  posição  na  disputa  com  as  famí¬ 
lias  da  elite  tradicional,  estes  conflitos  adquiriam  muitas  vezes  uma  dimensão  pluriclas- 
sista.  contribuindo  para  agregar  clientelas  e  mobilizar  partidos  (ver  na  Parte  II  os  capí¬ 
tulos  1 1  e  12)561. 

A  questão  fiscal  esteve  em  lugar  de  destaque  nas  lutas  violentas  que  agitaram  as 
cidades  hanseáticas  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV56-.  Especialmente  notᬠ
vel  é  o  caso  de  Brunswick,  onde  o  agravamento  dos  impostos  ocasionou  uma  insurrei¬ 
ção  dos  artesãos  em  1374.  Vários  membros  do  governo  foram  assassinados,  outros 
viram-se  condenados  ao  exílio,  e  os  revoltosos  tomaram  o  poder,  até  que  no  ano 
seguinte  o  conselho  da  Hansa  decidiu  excluir  a  cidade,  porque  o  seu  exemplo  animara 
entretanto  sublevações  em  centros  muito  importantes  da  liga,  como  Hamburgo  e 
Liibeck.  e  igualmente  em  Nordhausen565.  Mais  a  leste,  na  Silésia  e  na  Pequena  Polónia, 
ao  deflagrar  a  primeira  grande  vaga  de  lutas  urbanas,  na  sétima  década  do  século  XIV, 
a  administração  do  erário  contou-se  entre  os  principais  motivos  de  indignação564.  E 
também  nas  cidades  da  parte  ocidental  da  Germânia.  como  em  Metz  em  1326.  por 
exemplo,  as  injustiças  do  sistema  fiscal  contribuíram  para  levantar  os  habitantes565.  O 
mesmo  sucedeu  na  totalidade  dos  centros  urbanos  da  Flandres  ao  longo  do  último  quar¬ 
tel  do  século  XIII  e  nos  primeiros  anos  do  século  seguinte,  quando  os  ínsurrectos,  além 
de  outras  reivindicações,  pretendiam  a  reorganização  dos  impostos  e  reclamavam  o 


M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  I  140.  II  173-174.  199.  G  A  Brucker  ( 1962)  92  n.  148. 

WJ.  Dav  (1994)  131. 202:  F.  C.  Lane  f  197?)  184. 

Swl  M.  Mollai  ei  al.  1 1970)  30  e  segs.  afirmam  que  no  final  do  período  o  aumento  das  despesas  dos 
governos  municipais  e  das  monarquias  levou  à  cobrança  de  impostos  cada  vez  mais  pesados  c  susci¬ 
tou,  por  isso.  um  recrudescimento  dos  conflitos  sociais.  Não  creio  que  a  insatisfação  se  devesse  ape¬ 
nas  ao  volume  da  carga  fiscal,  e  parece-me  que  a  profunda  desigualdade  na  sua  repartição  foi  o  princi¬ 
pal  motivo  de  agravo. 

V’1  .1.  Lestocquoy  1 1952)  141.  189. 

v,z  Ph.  Dollinger  ( 1964)  172:  G.  Fourquin  ( 1972)  21)8. 

s*-'  A  insurreição  de  Brunswick  encontra-se  descrita  em  M.  Mollai  et  al  ( 1970)  210. 

5is4  A.  Gieys/ior  ( 1971  b)  171. 

^  J.  Schneider  ( 1950)  466  e  segs. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


4ò7 


direito  de  participar  no  controlo  da  gestão  financeira  dos  magistrados566.  O  desassos¬ 
sego  regressaria  mais  tarde  a  esta  região,  e  por  exemplo  em  Arras,  em  1355,  a  cobrança 
de  um  novo  imposto  provocou  distúrbios  que  deixaram  mortas  várias  figuras  da 
elite56'. 

Fazendo  fronteira  a  norte  com  a  Flandres.  a  França  setentrional  foi  igualmente  per¬ 
corrida  por  uma  vaga  de  resistência  ao  sistema  fiscal  no  último  quartel  do  século  XIV. 
que  sublevou  as  cidades  da  Picardia,  da  Normandia,  da  Champagne,  além  de  Paris, 
Orléans  e  até,  mais  a  sul,  Lyon568.  Não  era  a  primeira  vez  que  ocorriam  revoltas  contra 
a  desigualdade  na  fixação  dos  impostos  em  centros  urbanos  do  norte  da  França.  Rouen, 
a  principal  cidade  normanda,  teve  esta  experiência  repetidamente  ao  longo  do  último 
quartel  do  século  XIII  e  de  novo  nos  meados  do  século  seguinte569.  E,  na  Champagne, 
a  plebe  de  Provins  insurgiu-se  em  1 279  contra  o  estabelecimento  de  novos  impostos, 
matando  o  chefe  da  administração  e  pilhando  algumas  casas  de  famílias  ricas570.  Tam¬ 
bém  a  sul  do  Loire  a  questão  fiscal  teve  a  primazia  na  agitação  urbana,  parece  que 
sobretudo  na  primeira  metade  do  século  XIII.  novamente  na  passagem  do  primeiro  para 
o  segundo  terço  do  século  XIV,  outra  vez  nos  meados  desse  século  e,  depois,  no  seu 
final,  quando  os  Tuchins  (ver  o  capítulo  13.c  da  Parte  II)  agitaram  de  maneira  muito 
durável  e  eficaz  as  cidades  da  França  meridional571.  Na  origem  deste  movimento  esti¬ 
vera  a  política  seguida  pelos  governos  municipais,  que  preferiam  conceder  avultadas 
somas  aos  bandos  de  mercenários  errantes  para  evitar  as  suas  pilhagens  do  que  afasta¬ 
dos  mediante  acções  militares.  Como  essas  somas  só  podiam  ser  recolhidas  através  do 
lançamento  de  novos  impostos,  e  como  o  sistema  era  acentuadamente  regressivo,  os 
pobres  estavam,  afinal,  a  pagar  a  estratégia  seguida  pelos  ricos.  Assim,  a  posição 
tomada  pelos  Tuchins,  ao  defenderem  -  e  executarem  -  uma  política  de  resistência 
activa  contra  os  bandos  de  mercenários,  constituía  uma  modalidade  de  luta  contra  o  sis¬ 
tema  fiscal  vigente572.  E  a  fuga  de  muitas  pessoas  pobres  para  as  áreas  incultas,  de 
maneira  a  escaparem  à  rude  vigilância  dos  cobradores  de  impostos,  deu  aos  Tuchins 
uma  ampla  base  de  recrutamento577.  A  enorme  difusão  conseguida  por  estes  focos  de 
luta  e  a  solidez,  com  que  os  insurrectos  se  organizaram  permitiu-lhes  obter  considerᬠ
veis  vitórias,  e  os  representantes  dos  Tuchins  começaram  a  participar  na  repartição  das 
contribuições  directas  e  a  fiscalizar  o  emprego  que  os  governos  urbanos  davam  aos  ren¬ 
dimentos  fiscais574. 


566  Acerca  tias  revoltas  na  Flandres  ver:  J.  Lestocquoy  (1952)  127  e  scgs.;  E.  Perroy  (1962-1963) 
129-130;  F.  Rõrig  (1967)  X9. 

567  J.  Lestocquoy  ( 1952)  145;  iil  (1954)  67. 

5ofi  Q,lanto  a  esta  onda  de  revoltas  ver:  M.  Botiard  forg.  1970)  224-226;  N.  Cohn  (1957)  95; 
R.  Fossierforg.  1974)  204-205;  G.  Fourqum  ( 1972)  196.  203-206. 

,c'4  M.  Bouard  (org.  1970)210.  220. 

570  J.  Lestocquoy  (1952)  140. 

571  Para  esta  cronologia  ver  Ph.  Wolff  1 1947  )  446-449. 

<’77  P.  Charbonnier  (1990)  241  e  244  mostra  que  a  orientação  defendida  pelos  Tuchins  relativa- 
mente  aos  bandos  de  mercenários  decoma  do  carácter  regressivo  do  sistema  fiscal. 

577  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  181. 

574  Ph.  Wolff  (1947)449. 


Operações  e  conteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


469 


vários  lugares  do  sui  da  península  a  elite  urbana,  no  termo  do  século  XIII  e  no  princípio 
do  século  seguinte,  não  conseguiu  evitar  os  movimentos  de  revolta  contra  a  desigual¬ 
dade  na  repartição  dos  impostos586. 

Em  região  alguma  o  sistema  fiscal  deixou  de  suscitar  a  angústia  e  a  indignação  da 
gente  humilde.  Em  Londres,  na  última  década  do  século  XII,  o  exercício  cruel  da 
repressão  destroçou  uma  revolta  contra  a  elite  e  contra  os  impostos587.  E  preeisamente 
dois  séculos  mais  tarde,  em  Barcelona,  uma  insurreição,  momentaneamente  vitoriosa, 
tentou  instaurar  um  sistema  mais  progressivo,  reduzindo  as  contribuições  que  recaíam 
sobre  os  géneros  alimentícios588. 

Em  suma.  o  funcionamento  dos  mecanismos  da  dívida  pública  jamais  deixou  de  ser 
acompanhado  por  convulsões  sociais,  por  vezes  muito  profundas.  Em  resposta  a  esta 
insatisfação,  as  autoridades  urbanas  procediam  a  sucessivas  remodelações  da  dívida, 
que  a  breve  trecho  levavam  a  uma  situação  igual  à  anterior,  se  não  pior.  Só  que  aquelas 
hierarquias  que  no  plano  social  se  apresentavam  como  diferenças  qualitativas  alteravam 
a  sua  aparência  ao  transmutarem-se  para  o  plano  do  dinheiro,  onde  todas  as  clivagens 
são  reduzidas  a  uma  expressão  numérica  e  se  limitam  a  meras  distinções  de  quantidade. 
Assim,  a  cidade  podia  aparecer  povoada  de  camadas  sociais  muito  variadas  e,  ao 
mesmo  tempo,  elas  inseriam-se  todas  num  sistema  de  avaliação  único,  que  apagava  as 
radicais  diferenças  de  qualidade.  Graças  a  este  processo  o  meio  urbano,  apesar  da  sua 
dilaceração  interna,  notabilizou-se  por  uma  coesão  social  muito  sólida,  e  a  cidade  assu¬ 
miu  plenamente  as  características  de  senhor  colectivo. 

No  extremo  final  deste  período  surgiram  situações  em  que  os  mecanismos  do  cré¬ 
dito  público  atingiram  as  suas  consequências  últimas  e  as  entidades  administradoras  da 
dívida  converteram-se  em  bancos  centrais589,  públicos  ou  quase  públicos,  que  conti¬ 
nuaram  naturalmente  a  gerir  o  erário  urbano,  ou  assumiram  até  o  governo  da  cidade.  O 
primeiro  banco  público  municipal  data  de  1401.  em  Barcelona,  seguindo-se  Valência 
em  1407,  Génova  em  1407  ou  1408,  e  mais  tarde  outros  foram  fundados  em  cidades 
germânicas  como  Estrasburgo  e  Frankfurt  am  Main590.  As  pressões  eram  generaliza¬ 
das,  porque  em  alguns  lugares,  como  Veneza591,  registaram-se  ensaios  no  mesmo  sen- 


586  R.  Caggcsc  1 1922-1930)  I  59-62. 

587  G.  A.  Williams  (1963)  4. 

íss  C.  Batlle  ( 1969)  78;  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978)  II  70. 

,K''  R.  L.  Reynolds  ( 1952)  362. 

590  para  esta  cronologia  ver  R.  de  Roover  (1948)  210  e  A.  P.  Usher  (1932-1934)  40,8.  Encontro 
cm  M.  Riu  ( 1979)  149  a  referência  à  fundação  dc  um  banco  municipal  em  Palma  de  Maiorca.  também 
no  começo  do  século  XV.  mas  sem  indicação  da  data  exacta.  Note-se  que  Raymond  de  Roover  é  o 
único  a  situar  em  1408  a  fundação  do  banco  público  de  Génova,  já  que  os  outros  autores  consultados, 
e  que  refiro  a  seguir  na  n.  596.  indicam  a  data  de  1407. 

591  Depois  de  relatar  que  os  cambistas-banqueiros  venezianos  emprestavam  ao  Estado  somas  con¬ 
sideráveis  e  que  o  Estado  pagava  por  ve/es  aos  seus  credores  abrindo-lhes  crédito  nos  livros  de  um 
banqueiro,  V.  Renouard  (1949)  1 13  observa  que  nasceu  assim  a  ideia  de  fundar  um  banco  público,  de 
maneira  a  que  o  Estado  pagasse  as  suas  dividas  através  da  inscrição  de  créditos  a  favor  dos  mutuantes 
nos  registos  do  banco  público.  Este  historiador  informa  ainda  que  tal  projecto  foi  proposto  duas  vezes 
durante  o  terceiro  quartel  do  século  XIV.  mas  sem  êxito.  Geralmeme  explica-se  tudo  o  que  sucedia  de 
estranho  ern  Veneza  invocando  o  carácter  peculiar  daquela  oligarquia,  onde  a  elite,  os  negócios  e  o 
Estado  atingiram  um  grau  de  fusão  nunca  alcançado  nas  outras  cidades.  Talvez  neste  caso  a  justifica- 


468 


Forma  Hl  do  dinheiro 


A  lula  contra  o  sistema  de  impostos  não  teve  menos  importância  a  sul  dos  Alpes,  e 
na  segunda  metade  do  século  Xlll  ocorreram  movimentos  de  protesto  visando  uma 
repartição  mais  equitativa  das  contribuições1'75.  Numa  multiplicidade  de  lugares  do 
norte  e  do  centro  da  península  conseguiu-se  então  a  aprovação  de  leis  que  fizeram  o 
fisco  incidir  sobre  os  rendimentos  e  lhe  atenuaram,  portanto,  o  carácter  regressivo576,  e 
é  interessante  saber  que  noutros  casos,  assinalados  no  segundo  terço  do  século  XIV, 
foram  queimados  os  livros  onde  constava  o  cadastro  dos  impostos  directos  ou  o  registo 
da  dívida  pública577.  Por  vezes  a  agitação  contra  o  sistema  fiscal  conjugou-se  com 
surtos  contestatários  mais  amplos  e  profundos.  Em  Florença,  no  final  do  terceiro  quar¬ 
tel  do  século  XIV  e  nos  primeiros  anos  do  quartel  seguinte,  o  pagamento  dos  impostos 
sofreu  atrasos  cada  vez  maiores  e  a  evasão  fiscal  atingiu  níveis  crescentes578,  o  que 
levou  à  prisão  um  bom  número  de  insolventes574.  A  situação  de  crise  das  finanças 
públicas  deu  oportunidade  a  que  se  tomassem  comuns  os  protestos  contra  o  carácter 
regressivo  do  sistema580,  até  que  a  questão  foi  colocada  em  primeiro  plano  na  grande 
explosão  de  descontentamento  social  de  1378581.  Os  insurrectos  de  Julho  reivindica¬ 
ram.  num  dos  pontos  do  seu  programa,  a  proibição  de  lançar  empréstimos  obrigatórios 
durante  os  seis  meses  seguintes582  e.  noutro  pomo,  exigiram  a  suspensão  definitiva  do 
pagamento  de  juros  aos  detentores  de  títulos  da  dívida  pública  consolidada,  bem  como 
a  constituição  de  um  fundo  que,  no  prazo  de  doze  anos,  restituísse  aos  mutuantes  as 
somas  adiantadas,  de  maneira  a  poder  liquidar-se  gradualmente  o  endividamento  da 
comuna583.  Uma  remodelação  deste  tipo  não  podia  deixar  de  ser  acompanhada  por  uma 
mudança  do  sistema  fiscal,  e  os  revoltosos  reclamaram  ainda  a  instauração  de  impostos 
directos  progressivos,  que  isentassem  as  categorias  mais  pobres  e  incidissem  não  ape¬ 
nas  na  propriedade  fundiária,  mas  igualmente  sobre  a  riqueza  móvel584.  No  mês 
seguinte,  o  Povo  de  Deus,  quando  conseguiu  organizar-se  autonomamente  e  apareceu 
no  processo  revolucionário  como  força  política  independente  (ver  na  Parte  II  o  capítulo 
12.e),  retomou  por  sua  conta  este  projecto  de  reorganização  fiscal585.  Também  em 

575  J.  Lestocquoy  (1952)  131,  133. 

570  UI.,  ibitl.,  147. 

577  W.  M.  Bowsky  (1970)  70:  J.  Day  (1994)  131. 

S7S  Ch.  M.  La  Roncière  (1968)  187.  190. 

,7<J  Id..  íbid..  190:  V.  Rutenburg  ( 1974)  163. 

*G.  A.  Brucker  (1962)  94-95;  Ch.  M.  La  Roncière  (1968)  187. 

5,51  Na  década  de  1380.  escreve  M.  B.  Becher  (1968)  120.  o  problema  político  principal  em  Flo¬ 
rença  era  a  questão  fiscal.  Todavia.  Ch.  M.  La  Roncière  (196.8)  190-191  considera  surpreendente  que 
não  tivesse  ocorrido  nesta  cidade  um  maior  numero  de  revoltas  contra  o  imposto  e  que  a  questão  fis¬ 
cal  ocupasse  uma  parte  tão  reduzida  das  reivindicações  durante  a  sublevação  de  1378.  Este  historiador 
adianta  a  hipótese  de  que  a  população  estivesse  já.  na  realidade,  habituada  ao  peso  do  fisco. 

582  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  II  191;  G.  A,  Brucker  ( 1962)  383. 

583  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  191;  G.  A.  Brucker  ( 1962)  383-385:  id.  (1968)  348:  id.  (1972) 
ISO;  J  Day  (1994)  131;  R.  de  Rnover  ( 1968)  311 

584  M.  B.  Becker  (1967-1968)  II  191:  ti  A.  Brucker  (1968)  353;  id.  (1972)  180;  J.  Day  (1994) 
131;  R.  de  Roover  (1968)  311:  V.  Rutenburg  (. 1974)  344  345. 

Não  entendo  como  Ch.  M.  La  Roncière  1 1968)  191-192  pode  pretender  que.  no  plano  fiscal,  as 
preocupações  dos  insurrectos  se  teriam  concentrado  no  problema  da  dívida  pública,  sem  se  interessa¬ 
rem  pela  questão  dos  impostos  indirectos. 

?S5ti.  A.  Brucker  (1968)  348. 


470 


Forma  III  do  dinheiro 


tido,  mas  sem  efeito.  Tratou-se  de  um  processo  gradual.  Quando  sabemos  que  em  Pisa 
os  membros  dos  órgãos  executivos  do  governo  eram  os  primeiros  participantes  nos 
empréstimos  públicos  e  formavam  companhias  para  reunir  e  adiantar  fundos592,  e  que 
algo  de  semelhante  se  passava  em  Siena,  onde  os  magistrados  que  dirigiam  o  principal 
órgão  financeiro  da  comuna  emprestavam  à  cidade  somas  muito  avultadas591.  estamos 
a  observar  uma  transformação  das  instituições  governativas  em  associações  financeiras, 
prévia  à  eventual  assunção  de  funções  de  governo  por  essas  associações,  depois  de  elas 
se  terem  estruturado  de  maneira  mais  consistente. 

Desde  meados  do  século  XIV  que  os  cambistas-banqueiros  de  Barcelona  guarda¬ 
vam  em  depósito  quantias  que  o  governo  urbano  não  pretendia  gastar  de  imediato,  e 
serviam  além  disso  de  agentes  do  fisco,  não  só  na  cidade,  mas  até  em  toda  a  Catalunha. 
Como,  ao  mesmo  tempo,  procediam  de  maneira  regular  e  sistemática  a  empréstimos  ao 
governo,  coordenando  entre  eles  as  operações,  depressa  ficaram  convertidos  colectiva- 
mente  num  tesouro  municipal.  Mas  o  agravamento  da  situação  do  erário  levou  o 
governo  a  pedir  adiantamentos  tais  aos  cambistas-banqueiros  que  alguns  foram  precipi¬ 
tados  na  bancarrota,  o  que  deu  ênfase  à  ideia  de  criar  um  banco  público.  Fundada  pela 
cidade  de  Barcelona  na  abertura  do  século  XV,  a  Taula  de  Cambi  era  um  banco  munici¬ 
pal  que  servia  de  agente  fiscal  tanto  do  governo  da  cidade  como  do  governo  provincial 
da  Catalunha,  e  cujo  crédito  ficava  reservado  ao  governo  urbano,  se  bem  que  pessoas 
privadas  também  pudessem  ser  depositantes.  Onze  anos  após  a  sua  fundação,  a  Taula 
recebia  o  controlo  do  orçamento  da  cidade-94,  confirmando  a  hegemonia  dos  credores 
sobre  o  poder  político. 

Mas  de  todas  estas  experiências,  a  que  sem  dúvida  prosseguiu  mais  longe  e  alcan¬ 
çou  a  dimensão  mais  considerável  foi  a  Casa  di  San  Giorgio.  em  Génova.  Muito  mais 
do  que  o  maior  banco  da  cidade,  ou  talvez  mesmo  o  maior  banco  de  todo  o  Ocidente,  e 
algo  diferente  de  um  governo,  San  Giorgio  foi  uma  instituição  de  origem  financeira, 
dirigida  por  uma  reduzidíssima  oligarquia  de  homens  de  negócios,  e  perante  a  qual  o 
governo  urbano  abdicou  dos  seus  principais  poderes.  O  processo  de  constituição  deste 
grande  banco  público  acelerou-se  nos  meados  do  século  XTV.  Em  1346  uma  expedição 
organizada  por  armadores  privados  apoderara-se  da  ilha  de  Chio  e.  como  o  governo  da 
metrópole  era  incapaz  de  os  reembolsar  da  despesa,  os  aguerridos  negociantes  ficaram 
transformados  em  credores  do  Estado.  No  ano  seguinte,  e  associados  numa  rnahone, 
que  obedecia  muito  possivelmente  ao  modelo  da  companhia,  eles  receberam  do 
governo  genovês  o  direito  de  se  apropriarem  dos  rendimentos  de  Chio  e  das  duas  Phó- 
ceas,  para  serem  compensados  pela  soma  adiantada.  De  certo  modo,  o  sistema  corres¬ 
pondia  ao  arrendamento  de  impostos  pelos  credores  do  governo,  que  vimos  ser  tão  fre¬ 
quente595.  só  que  neste  caso,  além  de  as  implicações  económicas  serem  muito  mais 


ção  seja  a  mesma,  e  não  fosse  necessário  criar  um  banco  de  Estado  porque  os  grandes  detentores  de 
títulos  da  dívida  pública  se  confundiam  já  plenamente  com  as  instâncias  supremas  do  governo. 

592  M.  B.  Becker  í  167(1)  1 89. 
swW.  M.  Bowsky  (1970)  6. 

v'-*  Quanto  ao  banco  municipal  de  Barcelona  ver:  R.  de  Roover  ( 1948)  348:  J.  N.  Hillgarth  ( 1976- 
-1978)  11  19;  M.  Rtu  (1979)  143-149:  A.  P.  Usher  1. 1932- 1934)  408-409. 

51,5  Vera  n.  514. 


Operações  e  mnteúdo  da  Forma  III  do  dinheiro 


471 


vastas,  a  detenção  de  títulos  do  crédito  público  conferia  directamente  direitos  políticos. 
Com  efeito,  embora  a  metrópole  mantivesse  teoricamente  a  soberania,  a  mahone  não  só 
gozava  da  propriedade  e  dos  direitos  de  exploração  daqueles  territórios  coloniais,  como 
era  ela  a  assegurar  o  governo  da  ilha  de  Chio  e  a  garantir  a  sua  defesa  militar.  Por  outro 
lado.  o  crédito  público  detido  pela  mahone  estava  repartido  em  quotas,  possíveis  de 
transaccionar  no  mercado,  e  portanto  a  soberania  efectiva  era  exercida  por  uma  colecti- 
vidade  abstracta.  uma  instituição  independente  das  pessoas  que  num  momento  ou  outro 
a  integravam  e  assente  apenas  numa  modalidade  fiduciária.  Este  sistema  difundiu-se  na 
área  colonial  genovesa.  Incapaz  de  liquidar  as  enormes  despesas  militares  requeridas 
pela  protecção  dos  territórios  ultramarinos,  o  governo  metropolitano  emitia  letras  de 
câmbio  reembolsáveis  sobre  os  rendimentos  das  colónias  e  aumentava  os  impostos 
indirectos  que  oneravam  o  tráfico  com  aquelas  regiões.  Progressivamente,  a  dívida 
pública  estava  a  ser  transferida  para  o  ultramar,  formando-se  então  outras  mahones. 
vastas  associações  de  credores  do  Estado,  às  quais  era  concedida  a  exploração  de  terri¬ 
tórios  ou  de  rendimentos  coloniais.  No  final  do  século  XIV  a  situação  tomara-se  insus¬ 
tentável.  A  maior  parte  das  associações  formadas  pelos  detentores  do  crédito  público 
reuniu-se  e  fundou,  em  1407.  a  Casa  di  San  Giorgio,  e  nas  décadas  seguintes  as  asso¬ 
ciações  de  credores  que  inicialmente  se  haviam  mantido  exteriores  acabaram  por  ser 
integradas.  Desta  maneira,  a  totalidade  dos  possuidores  de  títulos  do  crédito  público 
passou  a  constituir  uma  entidade  única  que,  além  de  desempenhar  funções  bancárias  e 
financeiras  e  de  administrar  a  dívida  pública,  arrendou  igualmente  os  impostos  indirec¬ 
tos  e  assumiu  o  governo  e  a  exploração  das  colónias.  Os  credores  do  Estado  haviam-se, 
enfim,  apropriado  do  próprio  Estado,  a  tal  ponto  que.  nas  lutas  pelo  poder,  o  partido 
triunfante  tinha  de  jurar  lealdade  à  Casa  di  San  Giorgio.  Nunca  até  então  se  havia  reve¬ 
lado  tão  claramente  o  viés  financeiro  do  hannum.  Depois,  sempre  que  o  governo  da 
cidade  necessitava  de  fundos  era  junto  a  San  Giorgio  que  contraía  os  novos  emprésti¬ 
mos.  reproduzindo  assim  e  agravando  os  ciclos  da  sua  sujeição  financeira.  E  como  San 
Giorgio  estava  dividido  em  quotas  transmissíveis  e  transaccionáveis.  esta  instituição 
exercia  a  soberania  de  modo  inteiramente  impessoal  e  abstracto596. 

Nestes  casos  pode  dizer-se  que,  na  acepção  mais  literal,  a  Forma  III  do  dinheiro 
passara  a  estruturar  toda  a  vida  urbana,  sendo  o  cimento  que  lhe  dava  coerência  e,  ao 
mesmo  tempo,  lhe  definia  os  planos  de  clivagem.  Estes  exemplos  extremos  não  foram 
excepções.  Limitaram-se  a  evidenciar  mecanismos  que  funcionavam  de  maneira  menos 
explícita  nas  outras  situações. 


Acerca  da  mahone  de  Chio  c-  das  duas  Phóceas  ver:  M.  Balard  (1978)  377.  384:  UI.  <  1988)  75. 
Quanto  à  hipótese  de  a  mahone  corresponder  ao  modelo  da  companhia,  consultar  neste  capítulo  a  n. 
66.  M.  Balard  (1988)  75  mostra  com  detalhe  o  papel  decisivo  desempenhado  pelas  associações  de 
credores  coloniais  na  fundação  da  Casa  di  San  Giorgio.  Acerca  da  Casa  di  San  Giorgio  ver:  M.  Beard 
(1938)  146:  S.  Berrei  1 1  ( 1978)  126-127;  J.  Day  ( 1994i  130:  J.  Lestocquoy  ( 1952)  190;  Y  Renouard 
( 1949)  107.  239-24 1 .  As  mahwes  ...  depois,  a  Casa  di  San  Giorgio,  observa  Y.  Renouard  ( 1 949)  214, 
foram  o  instrumento  da  exploração  do  Estado  pelos  seus  credores.  Note-se  que.  segundo  A.  P.  Usher 
( 1932-1934)  409.  apesar  de  a  aeiivídadc  bancária  de  San  Giorgio  ler  ficado  legislada  numa  abundante 
documentação,  ela  não  toi  estudada  com  detalhe.  Será  que  algum  especialista  colmatou  entretanto  a 
lacuna’ 


472 


Forma  III  do  dinheiro 


As  atribuições  principais  do  dinheiro  no  regime  senhorial  foram  de  ordem  social  e 
política,  enquanto  veículo  do  relacionamento  social  e  dos  sistemas  de  poder,  e  não  de 
ordem  imediatamente  económica,  como  veio  a  suceder  no  capitalismo.  Mas  precisamos 
de  estudar  a  conjugação  das  três  formas  pecuniárias  para  compreender  cabalmente 
como  as  transacções  neste  período  não  devem  ser  interpretadas  em  termos  capitalistas  e 
como  a  actividade  comercial  decorreu  em  condições  que  reforçaram  o  bannum.  porque 
complementaram  as  modalidades  impessoais  do  seu  exercício.  Só  após  essa  análise 
poderei  reformular  a  lei  do  regime  senhorial,  adaptando-a  a  um  período  em  que  os  cri¬ 
térios  fundamentais  do  sistema  de  presentes  haviam  passado  a  operar  através  do 
dinheiro. 


SECÇÃO  IV 

ARTICULAÇÃO  ENTRE  AS  FORMAS  I,  II  E  III  DO  DINHEIRO 


Numa  perspectiva  sincrónica,  o  período  compreendido  entre  os  séculos  XI  e  XIV 
assistiu  à  articulação  das  três  formas  pecuniárias.  Mas  no  estudo  destas  questões  é 
geralmente  tão  pesada  a  carga  de  anacronismo  que  me  vejo  obrigado  a  mostrar  sob  os 
mais  diversos  ângulos  que  essa  conjugação  não  pós  em  causa  o  funcionamento  do 
regime  senhorial  nem  sequer  permitiu  a  antecipação  de  qualquer  sociedade  nova.  mas. 
pelo  contrário,  levou  a  um  grau  superior  de  desenvolvimento  as  potencialidades  gera¬ 
das  no  período  anterior.  O  próprio  vértice  das  hierarquias,  o  soberano,  em  quem  resi¬ 
diam.  de  uma  maneira  condensada,  todas  as  virtualidades  do  regime  -  e  essas  apenas  - 
ocupou  o  lugar  centrai  na  orquestração  das  várias  modalidades  pecuniárias.  Neste 
período,  a  monarquia  caracterizou-se  pela  capacidade  de  articular  superiormente  as 
Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro,  e  o  desenvolvimento  do  dinheiro  e  a  sua  difusão  em  todas 
as  esferas  sociais  foram  o  instrumento  que  serviu  a  política  absolutista  da  coroa.  Na  sua 
versão  reformulada,  a  lei  deste  sistema  económico  correspondeu  ao  fundamento  da 
nova  organização  política. 


CAPÍTULO  1 1 


MECANISMOS  DE  ARTICULAÇÃO 
DAS  TRÊS  FORMAS  DO  DINHEIRO 


Vimos  (no  capítulo  4.b)  que  os  senhores  procuravam  de  maneiras  variadas,  mas 
especialmente  através  da  cobrança  dos  tributos  em  géneros,  fazer  com  que  o  montante 
das  exacções  não  padecesse  pela  depreciação  da  moeda.  Mas  estes  processos  manti¬ 
nham-se  no  quadro  estrito  da  Forma  I  do  dinheiro,  que  continuava  a  prevalecer, 
enquanto  dinheiro  contabilístico  (  ver  o  capítulo  4.c),  mesmo  no  caso  das  exacções  em 
géneros.  Podemos  agora  verificar  que  também  a  conjugação  das  Formas  1  e  11  do  nume¬ 
rário  contribuiu  para  evitar  que  a  depreciação  da  Forma  1  acarretasse  qualquer  redução 
da  taxa  de  exploração. 

A  articulação  entre  as  Formas  I  e  II  do  dinheiro  não  se  deve  analisar  estaticamente, 
já  que  uma  delas  estava  submetida  a  sucessivas  depreciações,  enquanto  a  outra  gozava 
de  bastante  estabilidade.  Sendo  dada  a  insuficiência  da  oferta  de  metais  preciosos 
perante  a  ampliação  crescente  da  circulação  monetária,  as  autoridades  quebravam  a 
pequena  moeda  para  poderem  sustentar  a  moeda  forte1.  E  a  partir  do  momento  em  que 
foi  retomada  a  cunhagem  do  ouro  e  em  que  a  variação  relativa  dos  preços  de  mercado 
do  ouro  e  da  prata  impedia  quaisquer  relações  fixas  entre  os  vários  tipos  de  numerário, 
a  protegida  era  geralmente  a  moeda  mais  valiosa2.  Nestas  circunstâncias,  as  posições 
relativas  daquelas  duas  modalidades  monetárias  tenderam  sempre  a  divergir,  e  os  efei¬ 
tos  da  discrepância  constituíram  uma  engrenagem  suplementar  do  processo  de  explora¬ 
ção.  Os  grandes  negócios  praticavam-se  em  numerário  estável,  e  assim  como  os  comer¬ 
ciantes  de  longo  curso  eram  pagos  em  moedas  de  considerável  valor  intrínseco  também 
os  empresários  vendiam  por  grosso  os  produtos  manufacturados  contra  peças  de  boa 
prata,  ou  de  ouro.  quando  este  metal  recomeçou  a  ser  cunhado3.  Pelo  contrário,  os 
pequenos  pagamentos  locais,  tanto  as  compras  e  vendas  a  retalho  como  o  pagamento  de 
salários,  eram  feitos  em  peças  de  escasso  valor  metálico  e  sujeitas  à  depreciação,  de  má 
liga,  com  pouca  ou  nenhuma  prata4.  Isto  significa  que  as  mesmas  pessoas  que  transac- 


1  Ph.  Grierson  ( 1976  a)  155.  Ver  ainda:  J.  Belaubre  (1986)  75;  C.  M.  Cipolla  (1956)  33-34;  G. 
Cracco  (1967)  220,  252. 

:J.  Day  (1984)  20. 

'  M.  Bloch  (1953)  435;  id.  (1954)  39.  55.  C.  M.  Cipolla  ( 1948)  35;  id.  (1956)  34;  J.  Day  (1984) 
20:  V.  Rutenburg  ( 1974)  58;  A.  Sapori  ( 1946)  xvii.  C.  Violante  ( 1954)  155. 

4  M.  Bloch  (1953)  435;  id.  (1954)  39.  55;  C.  M.  Cipolla  ( 1948)  35,  147;  id.  (1956)  34;  F.  Graus 


478 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


cionavam  entre  si  através  de  moeda  forte  e  estável  recorriam  a  moeda  fraca  e  de  valor 
declinante  quando  remuneravam  os  assalariados’’  e,  genericamente,  era  esta  pequena 
moeda  a  empregue  pelos  estratos  sociais  de  condição  modesta.  Sucedia  até  que  os 
governantes  não  depositassem  uma  confiança  absoluta  nos  mecanismos  económicos  e 
promulgassem  leis  proibindo  o  uso  de  boa  moeda  no  comércio  a  retalho^,  para  dificul¬ 
tar  à  gente  pobre  a  fuga  ao  dilema  em  que  se  encontrava  aprisionada.  O  sistema  pecu¬ 
niário  deste  período  conjugava,  portanto,  uma  esfera  de  estabilidade  dos  preços,  refe¬ 
rente  à  classe  dominante  e  correspondente  à  Forma  II  do  dinheiro,  e  uma  esfera  de 
inflação,  em  que  se  processavam  as  relações  entre  exploradores  e  explorados  e  que  cor¬ 
respondia  à  Forma  I  do  dinheiro7.  A  cisão  pôde  chegar  a  um  ponto  tal  que  condicionou 
as  próprias  infra-estruturas,  como  sucedeu  em  Veneza  no  começo  do  último  terço  do 
século  XIII.  quando  a  oficina  de  cunhagem  foi  desdobrada,  passando  a  moeda  grande  e 
a  pequena  a  depender  de  departamentos  distintos8.  Aliás,  cada  uma  dessas  esferas 
podia  ser  preenchida  ao  mesmo  tempo  e  nos  mesmos  lugares  por  vários  tipos  de 
moeda,  e  em  Florença,  por  exemplo,  no  final  do  período,  além  das  peças  de  ouro  era 
cunhada  também  boa  prata,  enquanto  no  âmbito  da  pequena  moeda  se  incluía  o  nume¬ 
rário  com  menor  conteúdo  argênteo,  outro  fabricado  com  pior  liga  e.  finalmente,  a 
moeda  divisionária9. 

Desta  situação  resultou  um  declínio  do  nível  de  vida  dos  assalariados  e  considerᬠ
veis  ganhos  suplementares  para  os  empresários  e  para  quem  empregasse  mão-de-obra 
paga  à  jornada.  Com  efeito,  entre  as  operações  de  deterioração  do  conteúdo  metálico  da 


(1951)  451;  F.  C.  Lane  (1973)  148;  G.  Luzzatto  ( 1951)  681;  J.  Macek  (1968)  245;  M.  Mollat  et  al. 
(1970)  145;  V.  Rutenburg  (1974)  58;  A.  Saporí  (1946)  xvi;  P.  Spufford  (1988)  333;  C.  Violante 
(1954)155. 

Acerca  do  tipo  de  moeda  usado  para  o  pagamento  de  salários,  ver  também  no  capítulo  2  a  n.  220. 

5  M.  B.  Becker  (1960)44;  id.  (1967-1968)  I  195,  II  191;  W.  M.  Bovvsky  (1981)  226-227;  G.  A. 
Brucker  (1962)  384  n.  142;  .1.  Day  (1984)  20;  R.  de  Roover  (1968)  305;  Y.  Renouard  (1941)  535  n. 
100;  P.  Spufford  ( 1988)333. 

Depois  do  recomeço  da  cunhagem  do  ouro  nos  meados  do  século  XIII,  C.  M.  Cipolla  (1962-1963) 
419  informa  que  os  mercadores  italianos  se  esforçaram  sempre  por  que  os  seus  créditos  lhes  fossem 
pagos  em  moeda  estável  de  ouro,  ao  mesmo  tempo  que  pretendiam  pagar  os  seus  débitos,  especial- 
mente  os  salários  e  os  impostos,  em  moeda  de  prata  cada  vez  mais  depreciada. 

8  G.  Cracco  (1967)  246  narra  que  no  começo  do  último  terço  do  século  X 1 11,  ao  mesmo  tempo  que 
tomava  disposições  cambiais  destinadas  a  desvalorizar  a  pequena  moeda,  o  governo  veneziano  decre¬ 
tou  que  ela  fosse  de  uso  obrigatório  em  todos  os  negócios  inferiores  a  um  dado  montante.  E  a  lei  de 
Florença  estabelecia  que  só  os  banqueiros  e  os  mestres  das  principais  corporações  estavam  autoriza¬ 
dos  a  usar  a  moeda  de  ouro  como  meio  de  pagamento  ou  mesmo  padrão  de  valor  nas  suas  transac- 
ções,  conforme  se  lê  em  M.  B.  Becker  (1960)  44  e  R.  de  Roover  ( 1968)  305 

7  Acerca  do  desfasamento  crescente  entre  as  duas  esferas  monetárias  ver  sobretudo:  C.  M.  Cipolla 
1 1956)  34;  C.  Violante  ( 1954)  154-155.  Consultar  ainda:  M.  B.  Becker  ( 1960)  44;  id.  (1967-1968)  I 
195;  M.  Bernocchi  ( 1982)  15-16;  R.  R.  Betts  ( 1952)  28;  G.  Cracco  ( 1967)  220;  R.  de  Roover  ( 1968) 
305:  F.  Graus  (1951)  451;  J.  M.  Klassen  (1978)  15;  F.  C.  Lane  (1973)  148.  Esta  situação  leva  Marc 
Bloch,  seguido  por  outros  historiadores,  a  observar  que  não  houve  no  final  deste  período  um  verda¬ 
deiro  bimetalismo,  já  que  as  funções  do  numerário  de  ouro  e  do  de  prata  eram  muito  diferentes.  Ver  a 
este  respeito  a  n.  61  do  capítulo  8. 

8  G.  Cracco  ( 1967)  246. 

9  Além  do  florim  de  ouro.  as  autoridades  florentinas  mandavam  cunhar  os  grossi  de  boa  prata,  os 
soídini.  com  menos  prata,  os  quattrmi.  de  má  liga.  e  os  piccioli.  valendo  cada  um  1/4  de  quattrino. 


'■/t  i  anismos  de  arlii  ulação  das  três  formas  do  dinheiro 


479 


pequena  moeda  e  a  correspondente  subida  dos  salários  nominais  mediava  sempre  um 
prazo,  durante  o  qual  piorava  a  posição  dos  operários  e  jornaleiros.  Aliás,  neste  lapso 
de  tempo  a  queda  do  nível  de  vida  era  maior  do  que  se  poderia  julgar,  porque  a  revalo¬ 
rização  da  moeda  forte,  em  termos  de  moeda  fraca,  levava  a  uma  subida  dos  preços  dos 
bens  de  consumo  essenciais.  A  depreciação  da  cunhagem  fazia  o  preço  nominal  dos 
géneros  aumentar  em  proporções  correspondentes,  e  mesmo  que  isto  não  implicasse 
qualquer  alteração  dos  preços  reais,  medidos  em  metal  precioso,  o  facto  de  os  salários 
ae  manterem  no  mesmo  valor  nominal  anterior  à  depreciação  representava  uma  redução 
da  remuneração  real.  Este  duplo  movimento  de  baixa  dos  salários  reais  e  de  aumento 
dos  preços  medidos  em  pequena  moeda  provocava  um  acréscimo  dos  lucros,  ainda  que 
os  preços  de  venda  dos  artigos  produzidos  não  tivessem  aumentado  em  termos  de 
moeda  forte.  Do  mesmo  modo.  a  subida  dos  salários  nominais  registada  pela  pequena 
moeda  podia  significar  uma  estabilidade  das  remunerações  para  os  patrões  que  avalia¬ 
vam  em  moeda  forte10.  Por  isso  a  questão  monetária  oferecia  um  campo  aos  antagonis¬ 
mos  de  classe1  ’.  e  assim  como  os  mercadores  de  longo  curso  e  os  grandes  empresários 


10  Estes  mecanismos  são  analisados  tom  muita  clareza  por  C.  M.  Cipolla  ( 1956)  35  e  L.  Einaudi 
(1936)  17- lá.  Ver  iguaimente:  J.  Favier  (1982)  180;  J.  M.  Kiassen  (1978)  21-22;  J.  Macek  (1968) 
245;  H.  van  Werveke  referido  por  V.  Janssens  em  Istituto  lntemazionale  di  Storia  Economica  «F. 
Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  283-284 

Referindo-se  a  Paris.  B.  Geremek  ( 1968  )  125  considera  que  não  se  sabe  se  por  ocasião  das  depre¬ 
ciações  monetárias  os  salários  nominais  eram  aumentados  de  maneira  correspondente.  A  propósito  do 
Forez,  porém,  e  embora  as  suas  conclusões  se  baseiem  em  pouquíssimos  exemplos,  E.  Foumial 
(1967)  286-287  pretende  que  a  quebra  da  moeda  levava  os  preços  dos  géneros  a  aumentar  proporcio¬ 
nalmente,  mas  que  apesar  disso  os  salários  se  mantinham  no  mesmo  nível  nominal.  Não  entendo 
como  M.  Bloch  ( 1953)  435  e  (1954)  55-56  pode  afirmar  que  os  soberanos,  tendo  de  pagar  as  remune¬ 
rações  de  um  grande  número  de  mercenários,  funcionários  administrativos  e  operários  da  construção, 
estavam  em  geral  interessados  na  revalorização  do  numerário  de  prata  relativamente  ao  ouro.  O  meca¬ 
nismo  era  precisamente  o  inverso.  Aliás,  acerca  da  perspectiva  adoptada  a  este  respeito  pelo  grande 
historiador  ver  a  n.  14 

Apesar  de  todos  estes  elementos  de  análise,  e  desprezando  tanto  as  indicações  fornecidas  pelos 
conflitos  sociais,  que  refiro  nas  nn.  15  a  20.  como  a  possibilidade  de  proceder  a  raciocínios  dedutivos 
dentro  dos  mecanismos  económicos  da  época,  R.  Cazelles  em  Istituto  lntemazionale  di  Storia  Econo¬ 
mica  «F.  Datini»,  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  639,  considera  que  não  existem  estudos  suficientes 
para  afirmar  de  maneira  taxativa  em  que  medida  os  salários  sofreram  ou  não  com  as  consequências 
das  mutações  monetárias.  Mas  Raymond  Cazelles  é  um  optimista  e  em  (1966)  255,  266.  276-277  e 
(1982)  531-533  escreve  que  as  depreciações  operadas  em  França  nos  últimos  anos  do  século  XIII  e 
nos  dois  primeiros  terços  do  século  seguinte  não  levaram  obrigatoriamente  a  uma  subida  dos  preços, 
porque  os  agentes  da  coroa  fiscalizavam  o  comércio  a  retalho  e  a  inflação  só  se  pronunciava  em  épo¬ 
cas  de  escassez.  E  como  então,  sustenta  este  autor,  os  salários  se  elevavam  também,  a  gente  pobre 
pouco  sofria  com  a  depreciação  monetária.  É  curioso  que  a  confiança  no  funcionamento  do  deficiente 
aparelho  burocrático  da  monarquia  possa  substituir  a  análise  dos  procedimentos  económicos  e  finan¬ 
ceiros.  Este  autor  vai  mais  longe,  pretendendo  que.  nos  casos  de  revalorização  monetária,  a  coroa  pro¬ 
mulgava  medidas  destinadas  a  impedir  o  aumento  dos  aluguéis,  para  que  as  pessoas  de  condição 
modesta  não  se  revoltassem  nas  cidades,  e  pelo  mesmo  motivo  autorizava  a  subida  real  dos  salários; 
nos  casos  de  depreciação  da  moeda,  as  remunerações  nominais  dos  trabalhadores  subiriam  também.  E 
Raymond  Cazelles  conclui  afirmando  que.  qualquer  que  fosse  o  sentido  das  mutações  monetárias,  os 
reis  evitavam  deliberadamente  ferir  os  interesses  dos  trabalhadores  e  eram  sempre  os  ricos  a  sair  pre¬ 
judicados. 

"CM.  Cipolla  (1956»  35. 


480 


Articulação  cure  as  Formas  I.  1!  e  III  do  dinheiro 


tinham  todo  o  interesse  em  ditar  uma  política  que  agravasse  o  desfasamento  entre  os 
dois  tipos  de  moeda12,  as  camadas  populares  mais  humildes,  apoiadas  pela  arraia-miúda, 
sustentavam  consistentemente  uma  orientação  oposta  e  procuravam  que  a  pequena 
moeda  se  reforçasse,  em  termos  da  grande  moeda13.  Algumas  revoltas  foram  fomenta¬ 
das  por  alterações  monetárias  que  comprometiam  os  salários  reais  dos  trabalhadores14. 


12  Na  penúltima  década  do  século  XIV  as  autoridades  hanseáticas.  ao  mesmo  tempo  que,  para  evi¬ 
tar  a  penetração  dos  negociantes  mediterrânicos,  tomaram  medidas  contra  a  circulação  das  moedas  de 
ouro.  criaram  também  uma  união  monetária  destinada  a  estabilizar  os  câmbios  e  a  proteger  o  bom 
numerário  de  prata,  consoante  escreve  J.  Day  (1994)  208.  Em  Veneza,  perante  a  subida  do  valor  da 
prata,  o  Senado  recusara-se  a  reduzir  o  conteúdo  metálico  do  grosso  ou  a  aumentar-lhe  o  valor  nomi¬ 
nal.  já  que  se  tratava  do  instrumento  do  comércio  de  longo  curso,  até  que,  sendo  impossível  permane¬ 
cer  nesta  atitude,  a  prata  acabou  por  ser  definitivamente  substituída  pelo  ouro  enquanto  padrão  mone¬ 
tário  da  cidade,  nos  meados  do  século  XIV.  Ver  a  este  respeito:  id.  (1984)  20:  id.  (1994)  208:  F.  C. 
Lane  (1973)  148-150.  Esta  política  de  estabilidade  exigia  inevitavelmente  um  recíproco,  e  a  guerra 
contra  Génova  levou  o  governo  veneziano  a  depreciar  a  pequena  moeda  para  sustentar  o  valor  da 
grande,  como  se  lê  em  G.  Cracco  (1967)  220.  que  refere  ainda  <p.  246)  as  medidas  governamentais 
destinadas  a  acrescer  o  volume  de  pequena  moeda  em  circulação.  Em  Pisa.  C.  Violante  ( 1954)  155 
explica  que  os  homens  de  negócios  estavam  interessados  em  depreciar  a  moeda  mais  fraca  e  revalori¬ 
zar  a  mais  forte,  e  por  issso,  no  final  da  segunda  década  do  século  XIV,  as  conveniências  da  elite  dita¬ 
ram  a  redução  do  peso  da  pequena  moeda  ip.  153).  Também  em  Florença  os  grandes  comerciantes  se 
esforçavam  por  fixar  numa  taxa  muito  baixa  a  relação  entre  o  ouro  e  a  prata,  como  indicam:  M.  B. 
Becker  ( 1960)  44:  R.  de  Roover  (1968)  305;  Y.  Renouard  ( 194 1 )  535  n.  100;  id.  (1949)  1 56.  Segundo 
J.  Day  ( 1984)  20  e  ( 1994)  208,  os  mesmos  movimentos  do  mercado  que  exerceram  a  sua  influência 
em  Veneza  levaram  as  autoridades  florentinas.  em  1345-1347,  a  depreciar  repetidamente  o  numerário 
de  prata  e  de  má  liga,  de  maneira  a  satisfazer  os  negociantes  de  tecidos,  para  quem  era  vantajosa  uma 
moeda  de  ouro  forte.  Acerca  desta  depreciação  consultar  também  M.  B.  Becker  (1967-1968)  I  195. 
Em  Siena,  a  determinação  da  taxa  legal  de  câmbio  entre  o  florim  de  ouro  e  as  emissões  monetárias 
sienesas  de  prata  e  de  má  liga  cabia  aos  dirigentes  da  corporação  dos  negociantes,  a  principal  da 
cidade,  e  eles  esforçavam-se  por  depreciar  o  numerário  local,  como  mostra  W.  M.  Bowsky  1 1981) 
226-227;  este  especialista  acrescenta  (p.  227)  que  a  partir  do  final  do  primeiro  terço  do  século  XIV  a 
taxa  de  câmbio  era  definida  diariamente. 

12  Acerca  da  insatisfação  social  provocada  entre  a  gente  modesta  pela  deterioração  da  pequena 
moeda  ver.  em  geral:  R.  R.  Betts  (1952)  28;  C.  M.  CipoIIa  (1948)  145:  G.  Cracco  (1967)  395;  F. 
Graus  ( 195 1 )  45 1 :  J.  Macek  (1968)  245. 

Todavia,  depois  de  afirmar  que  a  depreciação  da  pequena  moeda,  na  qual  eram  pagos  os  salários, 
prejudicava  os  trabalhadores,  C.  M.  Cipolla  (1948)  147  observa  que,  a  longo  prazo,  a  situação 
inversa  poderia  provocar  uma  depressão  e  reduzir  a  oferta  de  emprego,  em  detrimento  da  mão-de- 
-obra.  Mas  este  choque  eventual  entre  interesses  a  curto  e  a  longo  prazo,  condicionado  pela  relação 
do  emprego  com  o  investimento,  decorre  de  uma  análise  de  tipo  keynesiano,  anacrónica  para  este 
período. 

14  Os  historiadores  nem  sempre  apresentam  claramente  este  problema  e  referem-se  com  frequên¬ 
cia  a  revalorizações  e  depreciações  monetárias  sem  especificar  se  se  tratava  da  Forma  I  ou  da  Forma 
II  do  dinheiro.  Até  com  um  grande  mestre  como  Marc  Bloch  isto  sucede,  por  exemplo  em  (1953) 
452-453,  quando  afirma  que  o  reforço  da  moeda  foi  sempre  impopular  junto  da  arraia-miúda  e  das 
camadas  médias  das  cidades.  Na  verdade,  a  insatisfação  era  causada  pela  revalorização  da  boa  moeda, 
com  a  consequente  perda  de  valor  da  pequena  moeda.  Também  em  ( 1954)  73  o  notável  historiador 
não  deixa  o  problema  tão  claro  como  seria  possível,  ao  considerar  que  o  reforço  do  numerário  preju¬ 
dicava  a  arraia-miúda  e  que  era  o  regresso  à  moeda  torte  a  provocar  motins,  porque  os  operários 
temiam  a  descida  dos  seus  salários.  Não  se  deve  aqui  mencionar  uma  esfera  monetária,  mas  duas,  e  os 
trabalhadores  indignavam-se  quando  uma  nova  emissão  da  Forma  II  tinha  um  conteúdo  de  metal  pre¬ 
cioso  superior  ao  da  emissão  anterior,  porque  daí  resultava  a  depreciação  relativa  da  Forma  I.  Deve- 


Mecanismos  de  art  indução  das  três  formas  do  dinheiro 


481 


como  as  que  ocorreram  na  Flandres  no  começo  do  século  XIV15  e  novamente  no  final 
desse  século16.  E.  em  Florença,  a  arraia-miúda  e  os  populares  de  condição  modesta  que 
se  amotinaram  em  1378  exigiram  a  revalorização  e  a  estabilidade  da  pequena  moeda 
relativamente  à  moeda  de  ouro17.  Com  efeito,  o  governo  democrático  que  então  se  ins¬ 
taurou,  e  se  manteve  no  poder  durante  alguns  anos,  decretou  que  fosse  retirada  de  cir¬ 
culação  uma  quantidade  muito  considerável  de  numerário  de  má  liga,  de  maneira  a 
aumentar  o  valor  das  peças  que  permaneciam  em  uso18.  Mas  o  estabelecimento  de  um 
novo  governo  impediu  aquelas  medidas  de  obterem  resultado19.  Conhecida  esta  situa¬ 
ção  geral,  ao  saber  que  em  Londres  os  principais  conflitos  diziam  respeito  aos  salários 
e  ao  custo  da  alimentação20,  posso  deduzir  que  também  nesta  cidade  os  mecanismos 
monetários  tiveram  consequências  nocivas  para  os  trabalhadores. 

Os  efeitos  destes  mecanismos  foram  tanto  mais  graves  quanto  o  equilíbrio  econó¬ 
mico  só  tendeu  a  acentuá-los.  já  que  a  presença  nos  grandes  centros  manufactureiros  de 
uma  mão-de-obra  abundante  implicava  uma  elevada  oferta  de  trabalho,  com  a  conse¬ 
quente  pressão  para  a  baixa  dos  salários,  e  uma  elevada  procura  de  alimentos,  pressio¬ 
nando  para  a  alta  os  preços  dos  géneros  correntes21.  A  disparidade  cambial  existente 
entre  as  Formas  1  e  II  do  dinheiro  era.  portanto,  agravada  pela  discrepância  que 
se  manifestava  entre  o  movimento  do  preço  da  força  de  trabalho  e  o  movimento  dos 
preços  dos  bens  de  consumo  essenciais. 

As  raízes  daquele  desfasamento  monetário  eram  muitas  profundas,  e  uma  situação 
similar  foi  detectada  noutras  épocas.  No  Império  Romano,  a  nova  cunhagem  introdu¬ 
zida  por  Constantino  combinava  um  padrão  ouro,  a  ser  usado  pelo  Estado  e  pelas  pes¬ 
soas  ricas,  e  um  numerário  de  cobre,  destinado  a  circular  entre  gente  pobre  e  que  sofria 
uma  depreciação  permanente22.  O  sistema  manteve-se  no  Império  do  Oriente,  agra¬ 
vando  as  condições  miseráveis  em  que  vivia  grande  parte  da  população,  e  em  533 
houve  uma  revolta  em  Constantinopla  contra  a  modificação  do  curso  das  pequenas 
moedas  de  bronze23.  Até  em  sociedades  modernas  a  delimitação  de  diversas  áreas  de 
circulação  monetária  e  o  aumento  progressivo  da  taxa  de  câmbio  entre  elas  constituiu 
um  dos  instrumentos  do  processo  de  exploração.  As  metrópoles  capitalistas  europeias. 


mos  ter  sempre  presente  a  con  jugação  entre  as  duas  modalidades  de  numerário  se  pretendermos  anali¬ 
sar  na  sua  diversidade  as  reacções  sociais. 

15  H.  van  Werveke  retendo  por  V.  Janssens  em  istituio  Imemazionaie  di  Storia  Economica  «F. 
Datini».  V.  Barbagli  Bagnoli  (org.  1982)  283-284. 

16  J.  Day  ( 1984)  22. 

17  Os  Ciompi  reivindicavam  que  o  valor  do  florim  não  ultrapassasse  os  68  soldi.  como  indicam: 
M.  B.  Becker  (1967- 1968)  II  191:  G.  A.  Brucker(l962)  384  n.  12;  V.  Rutenburg  ( 1974)  345. 

Is  Em  Florença,  em  1382,  o  preço  de  mercado  do  ouro  estava  em  ascensão  relativamente  ao  da 
prata  e,  para  impedir  um  surto  de  depreciação  da  pequena  moeda.  J.  Day  (1984)  20  e  (1994  )  208 
indica  que  o  regime  democrático  então  vigente  decidiu  que.  ao  longo  dos  oito  anos  seguintes,  seria 
retirada  de  circulação  uma  quantidade  considerável  de  quaurini  e  de  piccioli.  Consultar  igualmente  P. 
Spufford  ( 1988)  333. 

19  V.  Rutenburg  ( 1974)  345. 

2,1  R.  Hilton  ( 1973  a)  190. 

21  G.  Duby  (1962)535-536. 

22  P.  Anderson  ( 1974)  93. 

22  M.  Mollat  ( 1978)  29. 


482 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


por  exemplo,  impuseram  geralmente  a  sua  própria  moeda  nas  regiões  colonizadas,  e 
quando  as  formas  de  dinheiro  indígenas  não  eram  liquidadas  elas  ficavam  relegadas 
para  as  pequenas  transacções  entre  os  nativos,  que,  na  sua  maioria,  não  tinham  capaci¬ 
dade  económica  para  poderem  empregar  na  vida  corrente  o  numerário  emitido  pelo 
colonizador.  Como  a  taxa  cambial  era  muito  desfavorável  aos  sistemas  pecuniários 
autóctones,  a  situação  da  população  pobre  deteriorava-se  mais  ainda2,4.  Se  este  tipo  de 
mecanismos  operou  em  contextos  tão  variados,  compreende-se  que  pudesse  ser  empre¬ 
gue  pelo  regime  senhorial  nos  seus  contactos  com  outras  sociedades,  e  no  princípio 
deste  período  é  provável  que  tivesse  contribuído  para  a  superioridade  dos  mercadores 
italianos  o  facto  de  eles  comprarem  bens  e  serviços  no  Ocidente  com  moeda  de  prata 
depreciada  e  venderem  os  seus  artigos  no  Oriente  por  boa  moeda  bizantina  de  ouro25. 

Em  suma,  a  articulação  sistemática  entre  a  estabilidade  e  a  depreciação  no  interior 
dos  mesmos  conjuntos  monetários  decorria  da  inevitável  articulação  entre  as  Formas  II 
e  I  do  dinheiro.  Esta  foi  uma  das  condicionantes  das  alterações  introduzidas  pelos  sobe¬ 
ranos  na  cunhagem.  A  quebra  da  moeda  só  pode  ser  entendida  na  amplitude  dos  seus 
efeitos  depois  de  verificarmos  que  era  apenas  atingido  o  numerário  destinado  a  veicular 
as  relações  de  dependência  servis,  bem  como  a  exploração  dos  assalariados.  Por  con¬ 
traste,  os  tipos  de  cunhagem  em  circulação  no  interior  da  classe  senhorial  ou  eram 
mantidos  no  seu  valor  ou  eram  substituídos  por  outros  igualmente  valiosos. 

A  divergência  crescente  que  se  manifestava  entre  as  Formas  I  e  II  do  dinheiro,  ten¬ 
dendo  esta  a  conservar  o  seu  conteúdo  metálico  e  tendendo  a  outra  a  depreciar-se  até 
atingir  características  praticamente  fiduciárias,  exigia  que  para  manter  um  sistema 
monetário  unificado  se  recorresse  ao  dinheiro  contabilístico26.  Por  outro  lado.  a  conju- 


24  A.  K.  Bagchi  ( 1 984)  116. 

25  Esta  hipótese  é  sustentada  por  R.  S.  Lopez  (1951)  229.  Mais  tarde,  segundo  Y.  Renouard 
(1941)  535  n.  100  e  (1949)  156,  os  grandes  comerciantes  florentinos  impunham  na  sua  cidade  uma 
relação  entre  o  ouro  e  a  prata  muito  inferior  à  vigente  nas  outras  áreas  monetárias,  podendo  assim 
exportar  lingotes  de  prata  para  adquirir  no  estrangeiro  quantidades  de  ouro  maiores  do  que  aquelas 
que  obteriam  em  Florença  com  o  mesmo  peso  de  prata, 

'h  M.  Bloeh  (1939)  14  considera  que  o  desenvolvimento  do  dinheiro  contabilístico  decorria  do 
facto  de  serem  cunhados  ouro.  prata  e  má  liga  Trata-se  de  uma  visão  demasiado  estática  do  pro¬ 
blema,  que  id.  (1953)  149  e  152  ultrapassa  ao  afirmar  que  o  dinheiro  contabilístico  assumia  a  sua 
forma  plena  numa  situação  em  que  não  só  se  alterava  o  conteúdo  metálico  das  moedas,  mas  também  a 
relação  de  valor  estabelecida  entre  elas.  No  mesmo  sentido  ver  id.  ( 1954)  39.  Em  Veneza,  segundo  F. 
C.  Lane  (1973)  148  e  n.  1,  havia  dois  tipos  de  dinheiro  contabilístico  baseados  no  grosso,  a  moeda 
grande  de  prata,  e  que  eram  a  lira  di  grossi.  equivalente  a  240  grossi,  e  a  lira  a  grossi.  de  tal  modo 
que  uma  lira  do  primeiro  tipo  valia  26  lire  do  segundo  tipo:  existia  ainda  outro  dinheiro  contabilís¬ 
tico,  assente  na  pequena  moeda,  a  lira  di  piccioli.  que  equivalia  a  240  pircioli.  A  crescente  divergên¬ 
cia  de  valor  entre  a  moeda  estável  e  as  peças  sujeitas  à  depreciação  fazia  com  que  aumentasse  a  rela¬ 
ção  entre  os  dois  primeiros  tipos  de  dinheiro  contabilístico  e  o  terceiro.  Em  Florença  adquiriu  grande 
importância  o  sistema  contabilístico  que  ligava  os  vários  tipos  de  cunhagem,  observa  M.  Bemocehi 
( 1982)  15.  acrescentando  (pp.  17-18)  que  no  último  quartel  do  século  XIV  a  corporação  dos  grandes 
negociantes  instituiu  um  novo  dinheiro  contabilístico,  que  tomava  o  florim  de  ouro  como  padrão  inva¬ 
riável.  Mas,  a  crer  em  M.  B.  Becker  ( 1960  )  44,  só  os  mestres  das  principais  corporações  estavam 
autorizados  a  usar  o  florim  enquanto  padrão  de  valor  nas  suas  transacções  e  a  manter  em  termos  de 
florim  os  livros  de  contabilidade. 


Mecanismos  de  articulação  das  três  formas  do  dinheiro 


4S3 


gação  da  Forma  III  do  dinheiro  com  o  sistema  constituído  pelo  relacionamento  diver¬ 
gente  entre  as  Fonnas  I  e  11  tinha  também  como  eixo  o  dinheiro  contabilístico. 

A  criação  de  dinheiro  bancário,  as  operações  de  compensação  e  a  emissão  de  letras 
de  câmbio  estabeleciam  a  relação  entre  as  Formas  I  e  II  do  dinheiro  e  a  Forma  III.  Com 
efeito,  os  depósitos  eram  originariamente  realizados  em  numerário,  e  tanto  na  Forma  I 
como  na  Forma  II27,  mas  a  manutenção  das  reservas  bancárias  num  volume  correspon¬ 
dente  a  uma  fracção  dos  depósitos  totais  convertia  a  moeda  em  dinheiro  fiduciário. 
Mesmo  aqueles  depósitos  resultantes  de  transferências  contabilísticas  de  créditos  de 
uma  conta  para  outra  haviam  tido  na  sua  génese  um  depósito  de  moedas.  Além  disso, 
na  origem  -  directa  ou  remota  -  da  emissão  de  uma  letra  de  câmbio  estava  uma  soma 
de  prata  ou  de  ourtr*.  e  a  operação  cambial  dava  lugar  a  dinheiro  fiduciário.  Variações 
no  volume  disponível  das  Formas  I  e  II  numa  ou  noutra  praça,  variações  no  conteúdo 
metálico  e  variações  na  velocidade  de  circulação  exerciam  efeitos  sobre  os  três  proces¬ 
sos  de  criação  da  Forma  111.  Definia-se  assim  uma  relação  muito  estreita  entre  o 
dinheiro-moeda  e  o  dinheiro  fiduciário,  e  esta  relação  era  preenchida  pelo  dinheiro 
contabilístico.  Ora,  como  o  termo  de  referência  do  dinheiro  contabilístico  empregue 
nas  operações  bancárias  era  constituído  pelas  melhores  moedas  de  prata  ou  de  ouro, 
a  Forma  111  do  dinheiro  beneficiava  da  mesma  estabilidade  da  Forma  II29.  Assim,  os 
bancos  serviam  de  quadro  a  contradições  pecuniárias  muito  complexas,  tanto  mais  que 
os  mecanismos  do  crédito  operavam  clivagens  sociais  no  interior  da  Forma  III  do 
dinheiro. 


Parece-me  estranho  que.  embora  tenha  exposto  com  toda  u  clareza  o  mecanismo  de  articulação 
das  Fonnas  I  e  II  do  dinheiro.  C.  M.  Cipolla  f  1956)  50  possa  pretender  que  uni  sistema  contabilístico 
baseado  nas  grandes  moedas  estáveis  seria  favorável  aos  credores  e  aos  rentistas,  enquanto  um  sis¬ 
tema  assente  nas  peças  ent  depreciação  progressiva  beneficiaria  os  devedores  e  os  empresários.  Nas 
situações  que  analisei,  os  grandes  comerciantes  e  os  empresários  tinham  todo  o  interesse  em  empregar 
um  dinheiro  contabilístico  decorrente  da  moeda  forte,  já  que  podiam,  deste  modo,  agravar  o  processo 
de  exploração.  Aliás,  Cario  M.  Cipolla,  ao  indicar  que  os  mercadores  florentinos  usavam  um  sistema 
contabilístico  fundado  numa  das  moedas  mais  valiosas  da  época,  está  implicitamente  a  confirmar  que 
este  sistema  era  também  do  interesse  dos  empresários. 

-7  A.  De  Maddalena  (1982)  522  sublinha  que  os  banqueiros  recebiam  depósitos  em  moedas  de 
todo  o  tipo,  muitas  das  quais  eram  de  má  liga,  além  de  fornecerem  também  pequena  moeda  aos 
empresários,  para  eles  pagarem  os  salários  dos  seus  trabalhadores,  tal  como  adiantavam  boa  moeda 
para  os  grandes  negócios  c  o  tráfico  de  longo  curso.  Também  R.  C.  Mueller  (1982)  77  esclarece  que 
os  depositantes  levavam  para  o  banco  todo  o  género  de  numerário,  tanto  de  metal  precioso  conto  de 
má  liga. 

-*  Acerca  dos  efeitos  exercidos  pelo  uso  de  letras  de  câmbio  sobre  as  transferências  de  metal  pre¬ 
cioso  entre  praças  comerciais  ver  a  n.  54  do  capítulo  10. 

:o  G.  Luzzatto  (1961  b)  101  estabelece  uma  relação  entre  o  emprego  pelos  banqueiros  de  um 
dinheiro  contabilístico  próprio  e  a  estabilidade  de  que  beneficiavam  as  transacções  bancárias.  Em 
Veneza.  F.  C.  Lane  (1973)  148  esclarece  que  os  créditos  nos  livros  de  registo  dos  bancos  eram  estipu¬ 
lados  em  dinheiro  contabilístico  baseado  na  melhor  moeda.  A.  De  Maddalena  ( 1982)  52.3  menciona  o 
recurso  dos  banqueiros  ao  dinheiro  contabilístico,  mas  como  este  autor  não  dedica  uma  só  palavra  ao 
problema  da  relação  entre  empresários  e  trabalhadores  enquanto  relação  entre  esferas  monetárias  dis¬ 
tintas,  as  análises  a  que  procede  sobre  os  interesses  sociais  em  jogo  estão  forçosamente  erradas.  Ainda 
acerca  do  uso  de  dinheiro  contabilístico  pelos  banqueiros  para  efecluar  o  relacionamento  entre  a 
moeda  e  o  dinheiro  fiduciário  ver  R  C.  Mueller  1 1982)  77.  Neste  contexto,  pode  consultar-se  igual¬ 
mente  J.  Favier  ( 1982)  183. 


484 


Articulação  entre  as.  Formas  I.  //  e  III  do  dinheiro 


O  dinheiro  contabilístico,  que  vimos  (no  capítulo  4.c)  desempenhar  um  papel  tão 
importante  no  quadro  da  Forma  I  do  dinheiro,  e  que  de  um  modo  não  menos  decisivo  a 
conjugou  com  a  Forma  II,  revelou  uma  vez  mais  a  sua  função  essencial,  ao  encontrar-se 
no  fulcro  da  articulação  entre  as  três  grandes  esferas  pecuniárias.  Procurei  repetida¬ 
mente  mostrar  que  é  um  grave  anacronismo,  nas  condições  vigentes  neste  período, 
supor  que  existisse  um  mercado  financeiro  ou  que  se  caminhasse  em  tal  sentido.  As 
funções  que  tantos  historiadores  erradamente  atribuem  a  um  qualquer  mercado  finan¬ 
ceiro  foram  desempenhadas  pelo  dinheiro  contabilístico.  É  nesta  perspectiva  que  devem 
ser  analisadas  as  medidas  bancárias  relativas  á  conjugação  das  três  formas  do  dinheiro. 

A  posição  central  ocupada  pelo  dinheiro  contabilístico  reflectia  a  organização  de 
toda  a  sociedade  segundo  o  modelo  das  relações  impessoais.  O  triunfo  da  abstracção 
nas  esferas  pecuniárias  foi  o  instrumento  ideológico  que  possibilitou  o  triunfo  da  abs¬ 
tracção  na  esfera  política.  Foi  necessário  que  a  redução  de  todas  as  diferenças  a  dife¬ 
renças  de  quantidade  se  difundisse,  graças  às  três  fornias  de  dinheiro,  de  cima  a  baixo 
das  hierarquias  sociais,  e  se  unificasse,  através  do  dinheiro  contabilístico,  numa  só 
escala  de  valores,  para  que  pudesse  aparecer  uma  nova  teoria  da  governação  que  conce¬ 
bia  o  reino  como  um  conjunto  populacional  único,  preenchido  por  pessoas  de  impor¬ 
tância  social  muito  variada,  mas  enquanto  súbditos,  no  plano  político,  essencialmente 
comparáveis.  As  operações  do  dinheiro  e  do  crédito  não  anteciparam  de  modo  algum  o 
sistema  capitalista.  Pelo  contrário,  constituíram,  no  nível  económico  como  no  ideoló¬ 
gico,  mecanismos  indispensáveis  ao  pleno  funcionamento  do  regime  senhorial. 


CAPÍTULO  12 


AS  RELAÇÕES  PECUNIÁRIAS  E  COMERCIAIS 
COMO  ELEMENTO  DO  REGIME  SENHORIAL 


No  plano  social,  tanto  o  desenvolvimento  da  circulação  monetária  como  a  grande 
expansão  alcançada  pelo  dinheiro  fiduciário  e  a  multiplicação  das  operações  de  crédito 
foram  indispensáveis  ao  prevalecimento  da  senhoria  impessoal  e  constituíram,  por¬ 
tanto,  elementos  decisivos  para  o  reforço  do  bannum.  Não  se  verificou  qualquer  contra¬ 
dição  entre  as  trés  formas  do  dinheiro.  Se  uma  se  difundiu  como  veículo  das  relações 
de  dependência,  outra  enquanto  veículo  das  relações  no  interior  da  classe  dominante 
em  gerab  e,  finalmente,  outra  permitiu  que  as  cidades  existissem  de  maneira  coesa 
como  senhores  colectivos,  estas  trés  formas  articularam-se  na  sustentação  do  regime 
senhorial.  O  desenvolvimento  de  qualquer  das  modalidades  pecuniárias  não  só  não 
levantou  obstáculos  à  hegemonia  da  classe  senhorial,  mas  explica-se  pelo  próprio 
desenvolvimento  deste  regime. 


a.  As  relações  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 

Vários  historiadores,  embora  admitam  a  capacidade  deste  regime  para  comportar 
um  certo  grau  de  actividade  comercial  e  financeira,  defendem  no  entanto  que  o  prosse¬ 
guimento  de  tal  actividade  era  inconciliável  com  o  sistema  económico  senhorial  e  com 
os  valores  ideológicos  da  nobreza.  O  que  se  passou  com  os  negociantes  fornece  um 
desmentido  cabal  dessas  teses. 

Adquirindo  terras  e  direitos  rurais,  os  cidadãos  que  se  dedicavam  sobretudo  ao 
comércio  ou  aos  ofícios  multiplicaram  os  elos  de  dependência  dos  camponeses  relativa- 
mente  ao  meio  urbano.  E  estes  vínculos  ficaram  consolidados  a  partir  do  momento  em 
que  a  elite  das  cidades  sistematizou  as  suas  aquisições  fundiárias  e  formou  patrimónios 
compactos.  Sabemos  (desde  o  capítulo  13.b  da  Parte  II)  que  este  comportamento  dos 
grandes  negociantes  e  financeiros  constituiu  uma  faceta  indispensável  à  afirmação  da 
cidade  enquanto  senhor  colectivo.  E  do  mesmo  modo  que  a  sociedade  urbana  não  per¬ 
dia  a  especificidade  pelo  facto  de  a  sua  camada  dominante  beneficiar  em  conjunto  da 
exploração  dos  camponeses  dos  arredores,  também  os  membros  desse  estrato  superior 
das  cidades  não  tinham  de  renegar  as  profissões  de  origem  para  adquirir  terras  e  servos. 


486 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  ilo  dinheiro 


Os  investimentos  fundiários  nâo  implicavam  um  abandono  da  actividade  mercantil  por 
parte  das  famílias  que  ascendiam  socialmente1. 

Encontro  mencionada  a  situação  de  famílias  senhoriais  que.  tendo  obtido  no  comér¬ 
cio  e  na  banca  a  sua  fortuna  inicial,  descuraram  em  gerações  seguintes  a  profissão  dos 
avós  e  limitaram-se  a  superintender  a  exploração  dos  campos  e  a  levar  uma  vida  de 
nobres-,  Mas  não  creio  que  destes  casos  se  possam  extrair  quaisquer  ilações  significati¬ 
vas,  pois  conhecem-se  numerosos  outros  exemplos  de  famílias  de  comerciantes,  cam¬ 
bistas  e  banqueiros  que,  apesar  de  adquirirem  vastos  conjuntos  senhoriais  e  se  promo¬ 
verem  socialmente,  continuaram  a  zelar  pelos  seus  interesses  originários1.  Por  vezes 


1  Na  n.  65  cio  capítulo  1 1  da  Parte  II  mostrei  que  a  elite  urbana  não  adquiriu  novas  características 
sociais  pelo  facto  de  se  ter  ampliado  aos  mercadores,  já  que  não  existia  qualquer  contradição  entre  a 
actividade  nos  negócios  e  o  regime  senhorial.  Aos  autores  mencionados  naquela  nota  devo  acrescen¬ 
tar  E.  A.  Kosminsky  (1955  a)  63,  para  quem  o  desenvolvimento  da  produção  mercantil  não  levou 
directamente  ao  declínio  do  regime  senhorial,  pois  deu  novas  oportunidades  à  economia  e  contribuiu 
para  intensificar  a  exploração.  Mas  este  historiador  acrescenta,  seguindo  a  ortodoxia  marxista,  que  o 
crescimento  das  forças  produtivas  ocasionado  pelo  progresso  da  produção  mercantil  entrou  em  con¬ 
tradição  com  as  relações  de  produção  senhoriais. 

:  G.  Bigwood  (1924-1925)  111  499-500  refere  o  caso  de  uma  família  de  banqueiros  e  comerciantes 
de  Arras  que  abandonou  os  negócios  depois  de  ter  adquirido  um  importante  conjunto  senhorial  e  ter 
passado  a  usar  um  título  de  nobreza.  Em  várias  cidades  da  Inglaterra,  incluindo  Londres,  C.  Platt 
(1976)  102  indica  que  muitos  membros  da  elite  se  retiraram  dos  negócios  para  sc  dedicarem  exclusi¬ 
vamente  à  exploração  rural.  M.  Beard  (1938)  93  formula  até  urna  lei  geral,  considerando  que  a  partir 
do  momento  em  que  um  grande  comerciante  obtinha  senhorias  e  castelos  ele  e  os  seus  descendentes 
abandonavam  os  negócios,  de  maneira  que  a  actividade  mercantil  sofreria  de  uma  fuga  permanente  de 
pessoas  e  capitais.  Neste  sentido  é  interessante  conhecer  um  episódio  da  vida  de  Valdo.  o  rico  merca¬ 
dor  de  Lyon  que  iniciou  um  dos  mais  significativos  movimentos  heterodoxos  empenhados  na  restau¬ 
ração  da  pobreza  evangélica  (ver  na  Parte  II  o  capitulo  17).  Quando,  na  passagem  do  terceiro  para  o 
quarto  quartel  do  século  XII.  Valdo  decidiu  dedicar-se  à  pregação  e  despojar-se  dos  bens,  confiden¬ 
ciou  as  suas  intenções  à  mulher  e,  para  lhe  assegurar  condições  de  sobrevivência,  deu-lhe  a  escolher 
entre  a  sua  posição  nos  negócios  e  as  numerosas  terras  de  cultura  que  possuía.  Foi  o  património  fun¬ 
diário  o  preferido,  mas  neste  caso  talvez  uma  mulher  sozinha  pudesse  mais  facilmente  gerir  a 
cobrança  de  rendimentos  rurais  do  que  ler  uma  intervenção  activa  na  vida  comercial  e  financeira  de 
uma  grande  cidade.  Acerca  deste  episódio  ver  L.  K.  Little  ( 1978)  121. 

’’  Os  mercadores  das  cidades  hanseáticas.  que  normalmeme  investiam  uma  parte  considerável  da 
sua  fortuna  na  exploração  de  terras,  não  abandonavam  por  isso  os  negócios,  observa  J.  Day  (1994) 
193.  Na  cidade  de  Colónia.  P.  Strait  ( 1974)  111,  1 22  e  126  fornece  exemplos  de  membros  da  elite  que 
adquiriram  senhorias  rurais  sem  deixarem  de  se  interessar  pelos  empreendimentos  urbanos.  Os  nego¬ 
ciantes  ricos  que  obtinham  terras  e  rendas  fundiárias  na  Provença  do  século  XII  continuavam  a  parti¬ 
cipar  nas  actividades  mercantis  e  financeiras,  escreve  E.  Baratier  (org.  1969)  147.  acrescentando  que 
escolhiam  as  operações  mais  remuneradoras.  Aliás,  em  Marselha,  pela  mesma  época,  R.  Pernoud 
( 1949)  298  narra  o  caso  de  uma  família  de  grandes  comerciantes  que  era  possuidora  de  uma  conside¬ 
rável  fortuna  em  terras  e  servos.  No  século  XIV.  as  famílias  da  elite  genovesa  que  adquiriam  terras, 
informa  B.  Z.  Kedar  ( 1976)  66-67.  continuavam  a  praticar  o  comércio.  Tanto  assim  que,  como  mostra 
M.  Balard  (1978)  338-339.  as  feitorias  implantadas  por  Génova  no  Oriente  bizantino  destínaram-se 
exclusivamente  a  servir  de  pontos  de  apoio  para  as  grandes  redes  de  negócios,  e  o  lacto  de  os  merca¬ 
dores  aí  estabelecidos  adquirirem  terras  não  os  impedia  de  se  dedicarem  como  antes  ao  tráfico  e  às 
especulações  financeiras.  Em  Pisa,  a  crer  em  E.  Cristiani  í  1962)  64  e  segs.,  todas  as  famílias  da  elite 
detinham  senhorias  e  eram  ao  mesmo  tempo  activas  nos  negócios.  Referindo-se  a  Florença  no  século 
XIII,  C.  Lansing  ( 1991 )  155  considera  que  o  facto  de  terem  senhorias  rurais  não  afastava  os  membros 
da  elite  das  ocupações  comerciais  e  bancárias.  A  situação  nesta  cidade  parece  ter  sido  mais  diversifi- 


As  relações  pecuniárias  e  eomert  iais  cama  eleme/iio  do  regime  senhorial 


487 


sucedia  mesmo  que  os  negociantes  transferissem  para  a  exploração  rural  as  suas  preo¬ 
cupações  predominantemente  mercantis  e  financeiras,  de  maneira  que  a  aplicação  da 
fortuna  na  terra  ou  no  comércio  de  longo  curso  e  na  prestação  de  crédito,  em  vez  de 
constituírem  vias  opostas,  ficavam  estreitamente  conjugadas4.  Assim  corno  a  acumula¬ 
ção  de  riqueza  através  dos  negócios  permitia  aos  novos  ricos  das  cidades  a  obtenção  de 
campos  e  de  direitos  fundiários,  também  a  detenção  de  vastos  conjuntos  senhoriais 
conferia,  por  si  só,  um  prestigio  tal  que  ajudava  os  seus  possuidores  a  encontrarem 
melhores  oportunidades  para  executar  operações  comerciais  e  bancárias  e  a  realizarem 
negócios  ainda  mais  vantajosos5. 


cada  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV,  pois  G.  A.  Brucker  (I962t  24-27  e  204  indica  que, 
embora  para  a  maior  parte  das  famílias  da  elite  mercantil  tradicional  a  acumulação  de  senhorias  não 
tivesse  ocasionado  o  abandono  dos  negócios,  as  restantes  famílias  deste  meio,  ligadas  sobretudo  ao 
partido  dos  magnates,  passaram  a  reduzir  os  seus  interesses  à  esfera  agrária;  além  disto,  sucedeu  com 
frequência  que  só  um  ou  dois  membros  da  família  continuassem  a  dedicar-se  activarnente  ao  comér¬ 
cio,  às  especulações  financeiras  ou  à  manufactura,  aplicando-se  os  outros  apenas  à  exploração  tias 
terras.  Finalmente,  em  Londres.  G.  A.  Williams  1 1963)  59  esclarece  que,  por  mais  vastas  que  fossem 
as  senhonas  adquiridas  pelos  elementos  da  elite,  eles  dedicavam-se  sobretudo  ao  comércio  urbano. 

4  No  século  XIV,  indica  J.  Schneider  (1950)  451,  as  senhorias  rurais  formavam  já  a  parte  mais 
importante  da  fortuna  das  principais  famílias  de  Metz,  de  maneira  que  as  suas  operações  comerciais 
haviam  passado  sobretudo  a  incidir  nos  produtos  agrícolas  e  a  sua  actividade  financeira  concentrara- 
-se  nos  empréstimos  contra  penhores  fundiários.  Na  mesma  época,  nas  cidades  italianas,  os  membros 
da  elite  que  adquiriam  terras  interessavam-se  pela  exploração  comercial  das  culturas,  consoante  se  lê 
em  J.  Lestocquoy  (1952)  184.  Um  exemplo  elucidativo  é  fornecido  por  Y.  Renouard  (1949)  96  e 
segs.,  ao  narrar  que  na  segunda  metade  do  século  XilI  e  no  começo  do  século  seguinte  uma  das  pri¬ 
meiras  famílias  de  Génova  explorava  e  comercializava  o  alúmen  de  um  território  detido  sob  a  forma 
de  senhoria  vassálica.  Um  caso  do  mesmo  tipo  ocorreu  no  último  quartel  do  século  XIV  com  o  mais 
rico  cidadão  de  Veneza,  segundo  G.  Luzzatto  (1937)  33.  Em  Perugia.  também  no  final  do  período,  o 
aumento  do  interesse  dos  cidadãos  pela  aquisição  de  terras  foi  acompanhado  pelo  desenvolvimento 
das  culturas  comercializáveis,  a  crer  em  A.  Grohmann  ( 1981 )  162.  E  mesmo  C.  Cuadrada  (1991 )  288, 
apesar  de  admitir  que  a  aquisição  de  senhorias  afastasse  da  actividade  mercantil  os  membros  da  elite, 
observ  a  que  eles  reorganizavam  os  sistemas  agranos  com  o  objeclivo  de  aumentarem  a  produtividade. 

Neste  contexto,  parecem-me  completamente  infundamentadas  as  conclusões  de  G.  Miani  (1964) 
575-578  ao  afirmar  que  na  Lombardia  do  final  do  período  só  os  negociantes-empresários  procuravam 
alcançar  lucros  rápidos  com  os  seus  investimentos  fundiários,  enquanto  os  grandes  mercadores  tradi¬ 
cionais  teriam  obtido  senhorias  apenas  enquanto  fonte  de  poder  político  e  meio  de  inserção  na 
nobreza.  Seguindo  uma  perspectiva  oposta,  que  julgo  ser  a  exacta,  R.  S.  Lopez  ( 1965)  129  pretende 
que  ao  adquirirem  senhorias  e  ascenderem  nas  hierarquias  aristocráticas  os  mercadores  puderam 
aumentar  os  seus  rendimentos  e  desenvolver  com  isto  os  negócios,  ao  mesmo  tempo  que  outros  tipos 
de  sociedade,  marginalizando  os  comerciantes,  padeceram  de  severas  restrições  ao  crescimento  eco¬ 
nómico.  Num  ponto  de  vista  semelhante,  e  referindo-se  à  Itália,  Ph.  Jones  (1974)  1685-1686  consi¬ 
dera  que  neste  período  os  investimentos  se  deslocaram  predominantemente  da  exploração  rural  para  o 
comércio.  G.  Cracco  ( 1967)  186-187  dá  razão  a  estas  teses,  ao  indicar  que  os  lucros  comerciais  inves¬ 
tidos  na  terra  pelos  negociantes  venezianos  eram  depois  aplicados  novamente  no  tráfico. 

?  Depois  de  escrever  (pp.  360-361)  que  alguns  investimentos  realizados  pelos  negociantes  italia¬ 
nos  não  tinham  em  vista  o  ganho  comercial,  mas  a  ascensão  social  até  à  nobreza,  o  que  era  outra 
forma  de  promover  os  interesses  da  família,  R.  L.  Reynolds  (1952)  364  acrescenta  que  a  actividade 
política  constituía  um  negócio,  assim  como  o  negócio  era  uma  actividade  política.  Uma  posição  idên¬ 
tica  é  adoptada  por  Y.  Renouard  ( 1949)  97  e  segs.,  quando  observa  que  muitos  dos  grandes  negocian¬ 
tes  italianos  do  final  do  período  conjugavam  nas  suas  operações  a  participação  nas  expedições  guer¬ 
reiras  e  a  actividade  comercial,  de  tal  modo  que  uma  facilitava  a  outra.  O  mesmo  autor  explica 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


4XX 


É  certo  que,  por  um  lado.  existem  provas  abundantes  de  que  os  mercadores  ricos 
transformados  em  grandes  senhores  não  só  adquiriram  hábitos  e  comportamentos  em 
tudo  semelhantes  aos  dos  nobres6,  mas  se  inseriram  nas  próprias  hierarquias  formais  da 
classe  dominante,  na  medida  em  que  entraram  com  frequência  na  vassalagem  de  mag¬ 
nates  ou  mesmo  de  soberanos7,  chegando  ocasionalmente  a  converter-se  em  senhores 
superiores8.  Na  segunda  metade  do  período  muitos  membros  da  elite  urbana  consegui¬ 
ram  até  alcançar  os  privilégios  jurídicos  da  nobreza  e  puderam  ter  acesso  a  títulos  nobi¬ 
liárquicos9.  Ao  vermos,  todavia,  que  um  mercador  de  Colónia  administrava,  enquanto 


(p.  143)  certos  aspectos  deste  mecanismo,  mostrando  que  ao  adquirirem  vastos  conjuntos  senhoriais 
os  membros  das  companhias  florentinas  procediam  a  uma  exibição  de  poder  e  aumentavam  assim  a 
confiança  do  público  nas  operações  bancárias  realizadas  por  essas  companhias. 

6  G.  Bigwood  (1924-1925)  111  501-502;  R.  de  Roover  (1948)  190;  P.  Desportes  (1979)  290-291. 
499,  635;  E.  Foumial  (1967)  226;  L.  Genicot  (1943-1995)  11  294;  id.  (1968)  133;  M.  Hebert  (1979) 
61-63;  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  28;  J.  H.  Mtindy  (1954)  44;  M.  Parisse  (prg.  1977)  168;  C.  Platt  ( 1976) 
102;  Y.  Renouard  (1949)  152;  R.  Sánchez  Saus  ( 1989)  49;  J.  Sehneider  (1950)  451. 453;  S.  L.  Thrupp 
( 1948)  18.  140.  144  147,  249-257.  269-270,  272.  280.  282;  J.  Valdeón  Baruque  (1991 )  139. 

7  Em  Colónia,  nos  séculos  XII  e  XIII,  encontro  em  P.  Strait  ( 1974)  103.  111,  123  e  126  a  menção 
a  vários  casos  de  membros  da  elite  que  eram  vassalos  de  príncipes  e  de  outros  magnates.  J.  Sehneider 
(1950)  367-368  mostra  que  o  mesmo  acontecia  em  Metz  nos  séculos  XIII  e  XIV.  Note-se  que.  depois 
de  referir  (pp.  147-148)  que  no  século  XIII  os  membros  da  elite  de  várias  cidades  alsacíanas  conse¬ 
guiram  do  monarca  o  direito  de  obter  senhorias  vassálicas.  H.  Dubled  (1960  b)  148  acrescenta  que 
eles  podiam  recebê-las.  mas  não  concedê-las.  Na  Flandres  do  final  do  período,  observa  D.  Nicholas 
( 1971 )  280-281,  embora  tivessem  sido  promulgadas  leis  que  proibiam  os  cidadãos  de  deter  senhorias 
vassálicas,  foram  os  próprios  condes  a  atribuí-las  a  membros  da  elite  urbana.  Em  França  grandes  ban¬ 
queiros  florentinos  ascenderam  na  hierarquia  da  vassalidade,  sem  aliás  deixarem  de  prosseguir  as  suas 
especulações,  como  recorda  M.  Beard  (1938)  138.  Em  Reims,  no  século  XIII,  P.  Desportes  (1979) 
133  e  segs.  indica  a  existência  de  cidadãos  ricos  que  se  tomaram  vassalos  de  grandes  senhores.  Em 
Paris,  também  no  século  XIII,  e  mais  ainda  durante  o  século  seguinte,  foram  numerosos  os  membros 
da  elite  a  adquirir  senhorias  vassálicas.  consoante  afirma  G.  Fourquin  (1964)  125.  Consultar  igual¬ 
mente  H.  Kraus  (1979)  27.  Em  Taraseon,  na  Provença.  leio  em  M.  Hebert  (1979)  89  n.  28  referência  à 
aquisição  de  senhorias  vassálicas  por  membros  da  elite.  No  século  XIV.  em  Toulouse.  Henry  Kraus 
em  op.  cii..  78  escreve  que  entre  as  vastas  extensões  de  tenra  acumuladas  frequentemente  por  famílias 
de  cidadãos  se  contavam  senhorias  vassálicas.  Também  nas  cidades  italianas,  segundo  J.  Plesner 
(1979)  24,  sucedia  que  os  comerciantes  possuíssem  senhorias  vassálicas.  Y.  Renouard  (1949)  96  e 
segs.  lembra  que  uma  das  principais  famílias  da  elite  genovesa  detinha  um  território  enquanto  senho¬ 
ria  vassálica  concedida  pelo  imperador  bizantino.  E.  após  a  conquista  do  império,  foram  muito  nume¬ 
rosos  os  cidadãos  de  Veneza  que  receberam  senhorias  vassálicas  no  Oriente,  a  crer  em  G.  Luzzatto 
(1937)  33  e  35-36.  No  mesmo  sentido,  ainda  a  respeito  de  Veneza,  ver  Yves  Renouard  em  op.  cit.. 
1 1 1;  e  D.  Jacoby  (1973)  901  mostra  que  ocorreu  uma  situação  idêntica  a  partir  da  segunda  metade  do 
século  XIII  com  famílias  da  elite  urbana  italiana  no  Peloponeso  bizantino.  Também  no  reino  de  Nápo¬ 
les,  na  primeira  metade  do  século  XIV,  era  frequente  que  grandes  mercadores  e  banqueiros  estrangei¬ 
ros  tivessem  senhorias  vassálicas,  consoante  indica  R.  Caggese  ( 1922-1930)  I  576. 

*  No  Màconnais.  no  último  terço  do  século  XII  e  no  primeiro  terço  do  século  seguinte,  G.  Duby 
(1953)  563  refere  que  filhos  de  cavaleiros  empobrecidos  vendiam  a  sua  homenagem  a  cidadãos  e 
entregavam-lhes  uma  parte  da  herança,  que  recebiam  de  volta  nos  moldes  da  senhoria  vassálica. 

9  Na  Boémia,  J.  M.  Klassen  (1978)  38  e  157  n.  11  pretende  que.  para  serem  incluídos  entre  os 
nobres,  os  cidadãos  detentores  de  senhorias  deviam  abandonar  os  negócios.  Sabemos,  contudo,  graças 
a  G.  Székely  ( 1964)  55,  que  no  século  XIV  alguns  dos  comerciantes  e  banqueiros  italianos  activos  na 
vida  económica  da  Boémia  obtiveram  dignidades  na  hierarquia  senhorial.  E  mesmo  que  a  regra  pro¬ 
posta  por  John  Martin  Klassen  se  tivesse  efectivamente  verificado  na  prática  no  reino  da  Boémia,  não 
seria  decerto  observada  nas  demais  regiões,  pois  E.  Perroy  et  al.  (1955)  366-367  afirmam  que  desde 


■\s  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhoria I 


489 


serviço  vassálico,  os  negócios  do  seu  senhor  superior,  o  arcebispo  da  cidade10,  ou  ao 
sabermos  que  a  profissão  de  cambista  num  meio  urbano  economicamente  tão  evoluído 
como  Bruges  estava  organizada  consoante  os  moldes  estritos  da  vassalidade11  e  que  o 
mesmo  sucedia  com  o  câmbio  nas  feiras  da  Champagne  durante  o  período  em  que  elas 
constituíram  o  centro  das  operações  bancárias  em  todo  o  continente12,  compreendemos 
até  que  ponto  ficavam  intimamente  fundidas  a  hierarquia  senhorial  e  a  actividade  mer¬ 
cantil.  Não  podem,  porém,  encontrar-se  melhores  exemplos  da  necessária  conjugação 
destes  aspectos  do  que  os  casos  em  que  os  monarcas  beneficiaram  com  diplomas  de 
nobreza  alguns  riquíssimos  homens  de  negócios,  sobretudo  italianos,  junto  dos  quais  se 
endividavam  sistematicamente1'.  Os  títulos  serviram  aqui  não  só  como  recompensa. 


os  meados  do  século  XII  a  elite  urbana  passou  a  fundir-se  frequentemente  com  a  nobreza  tradicional. 
Os  mercadores  hanseáticos  adquiriam  títulos  de  nobreza,  tal  como  mostra  M.  Beard  ( 1938)  93-97.  e  o 
mesmo,  a  crer  em  M.  Parisse  (org.  1977)  168  e  170,  sucedia  na  Lorena.  A  partir  da  segunda  metade 
do  século  XIII  só  uma  parte  da  elite  das  cidades  alsacianas  se  mostrou  interessada  em  entrar  na 
nobreza,  indica  Ph.  Dollinger  (org.  1970)  1 19,  explicando  que  por  vezes  se  encontravam  nobres  e  ple¬ 
beus  entre  os  descendentes  das  mesmas  famílias.  Uma  divisão  do  mesmo  tipo  parece  ter  constituído  a 
regra  em  Reims  até  aos  meados  do  século  XIV.  só  a  partir  de  então  sendo  possível  pertencer  simulta¬ 
neamente  à  elite  da  cidade  e  à  nobreza,  se  é  que  interpreto  sem  erros  P.  Desportes  (1979)  150,  290  e 
631-633.  Aliás,  depois  de  lembrar  alguns  casos  de  membros  da  elite  de  cidades  francesas  que  deti¬ 
nham  títulos  ou  eram  parentes  próximos  de  magnates,  M  Moilat  (org.  1971)  1 12  nega  que  existisse 
qualquer  oposição  entre  a  nobreza  e  a  cavalaria,  por  um  lado,  e,  por  outro,  o  estatuto  de  cidadão.  Para 
exemplos  na  Champagne  ver  J.  Lestocquoy  ( 1952)  121  e  123.  No  Forez  E.  Foumial  (1967)  261-262  e 
E.  Perroy  ( 1962)  35-36  observam  que,  apesar  de  a  nobreza  da  região  ser  bastante  permeável,  tomava- 
-se  mais  fácil  a  ascensão  social  de  pessoas  de  proveniência  camponesa  do  que  de  homens  de  negócios, 
mas  é  necessário  recordar  que  nesta  região  a  vida  urbana  não  ultrapassava  dimensões  modestas.  Situa¬ 
ções  deste  tipo  confirmam  que  era  o  carácter  especificamente  urbano  de  uma  cidade  a  permitir  a 
inserção  da  sua  elite  nos  quadros  da  nobreza,  e  não  o  peso  de  quaisquer  tradições  ainda  herdadas  do 
meio  rural.  Perante  tudo  isto,  é  impossível  estar  de  acordo  com  Ph.  Jones  ( 1974)  1790  e  segs.  quando 
considera  como  uma  particularidade  da  Itália  a  frequência  com  que  as  famílias  de  mercadores  entra¬ 
ram  na  nobreza.  G.  Luzzatto  ( 1937)  37  adverte  que  em  Veneza  a  concessão  de  títulos  senhoriais  a 
membros  da  elite  não  os  distinguia  juridicamente  dos  restantes  elementos  da  camada  dominante. 
Vários  autores  referem  a  obtenção  de  títulos  de  nobreza  por  grandes  negociantes  florentinos:  M. 
Beard  (1938)  129:  C.  Lansing  (1991)  8.  155;  Y.  Renouard  (1949i  151-152.  Nas  cidades  inglesas  as 
aquisições  fundiárias  permitiam  aos  membros  da  elite  inserir-se  na  pequena  nobreza,  segundo  C.  Platt 
í  1976)  103;  e  N.  J.  G.  Pounds  (1990)  105  refere  o  caso  de  um  próspero  comerciante  de  lã  que.  além 
de  comprar  um  castelo,  lhe  fez  obras  e  o  reforçou.  Todavia.  S.  L.  Thrupp  (1948)  309  previne  que  em 
Londres,  no  final  do  período,  se  era  possível  a  um  mercador  entrar  na  categoria  inferior  da  nobreza, 
ele  tinha  muita  dificuldade  em  ascender  aos  graus  mais  elevados  da  hierarquia.  Em  Barcelona,  a  partir 
do  século  XIII.  C.  Cuadrada  ( 1991 )  287  observa  que  ao  obter  terras  e  fortalezas  a  elite  alcançava  pri¬ 
vilégios  e  poderes  senhoriais.  E  mesmo  famílias  de  mercadores  do  estrato  popular  podiam  chegar  ao 
estatuto  de  cavaleiros,  consoante  leio  em  J.  N.  Hiligarth  (1976-1978)  II  68. 

111 P.  Strait  ( 1 974 )  111. 

1 1  R.  de  Roover  ( 1948)  174. 

12  P.  Desportes  <  1979)  113.  * 

13  Em  praticamente  todos  os  reinos  e  principados,  escreve  Ph.  Jones  (1974)  1745,  mercadores  e 
banqueiros  italianos  desempenharam  altas  funções  na  administração  e  nas  finanças  públicas,  rece¬ 
bendo  em  troca  elevadas  dignidades  senhoriais.  Foi  o  que  aconteceu  na  Hungria  com  a  família  floren- 
tina  dos  Bardi,  como  relata  G.  Székely  ( 1964)  47-48.  Mas  os  italianos  não  tiveram  o  exclusivo  destes 
privilégios.  Já  antes  do  final  do  século  XIII.  a  crer  em  G.  Bigwood  ( 1924- 1925)  III  500,  membros  da 
elite  de  .Arras  ocuparam  cargos  honoríficos  na  corte  do  rei  de  França.  Segundo  M.  Beard  (1938)  171, 


490 


Articulação  entre  a\  Formas  I.  II  e  UI  do  dinheiro 


mas  também  como  garantia  de  que  o  dinheiro  de  novos  empréstimos  continuaria  a  fluir 
para  o  tesouro  da  coroa,  e  esta  elite  de  comerciantes  e  banqueiros  considerava  a  sua 
promoção  à  nobreza  e  a  acumulação  de  vastos  conjuntos  senhoriais  como  uma  condi¬ 
ção  indispensável  ao  prosseguimento  eficaz  das  operações  de  crédito  e  a  uma  participa¬ 
ção  privilegiada  no  tráfico  de  longo  curso. 

Todavia,  numerosos  historiadores,  no  afã  de  assimilar  comércio  e  capitalismo,  e 
portanto  de  inventar  um  antagonismo  entre  a  actividade  comercial  e  o  regime  senhorial, 
seguem  uma  ordem  de  argumentação  inversa  e  insistem  no  facto  de  os  senhores  não 
terem  procedido  pessoalmente  a  operações  de  compra  e  venda  no  mercado14.  Sem 
dúvida  que  um  nobre,  qualquer  que  fosse  a  sua  proveniência  social,  não  se  imiscuía  em 
público  nos  detalhes  das  transacçòes 1 tal  como  não  se  dedicava  directamente  a  nada  a 
não  ser  as  únicas  actividades  tidas  como  honrosas,  o  exercício  do  governo  e  o  manusea¬ 
mento  das  armas,  na  guerra  contra  as  hostes  de  outros  senhores  ou  contra  sociedades 
vizinhas  e  na  pilhagem  da  gente  humilde.  Pelo  mesmo  critério  se  deveria  afirmar  a 
incompatibilidade  entre  o  regime  senhorial  e  a  agricultura,  já  que  não  eram  os  próprios 
senhores  quem  superintendia  o  amanho  dos  campos.  No  entanto,  não  parece  que  os 
aristocratas,  mesmo  os  membros  da  nobreza,  se  tivessem  alheado  da  gestão  dos  negó¬ 
cios.  e  há  indícios  de  que  escutavam  de  maneira  regular  os  relatórios  dos  seus  agentes  e 
tomavam  pessoalmente  as  decisões  mais  importantes'6. 


uni  banqueiro  toscano  que  exercia  a  actividade  em  Roma  emprestou  uma  avultada  soma  ao  papa,  que 
em  troca  o  adoptou  na  sua  família,  autorizando-o  até  a  usar  as  suas  insígnias.  No  reino  de  Nápoles,  na 
primeira  metade  do  século  XIV,  muitos  dos  grandes  mercadores  e  banqueiros  estrangeiros  distingui¬ 
dos  pelo  soberano  beneficiavam  de  privilégios  idênticos  aos  da  nobreza,  consoante  indica  R.  Caggese 
(1922-1930)  I  576.  E  J.  Day  (1994)  193  refere  que  no  mesmo  século,  em  Inglaterra,  os  de  Ia  Pole, 
financeiros  da  coroa,  tomaram-se  condes  no  intervalo  de  duas  gerações.  Até  no  Peloponeso  bizantino, 
leio  em  D.  Jacoby  (1973)  901  que  a  partir  da  segunda  metade  do  século  Xlll  famílias  da  elite  urbana 
italiana  foram  nobilitadas  pelo  príncipe  a  troco  de  lhe  prestarem  ajuda  financeira. 

14  No  final  do  período,  afirma  L.  Genicot  (1979)  22,  entre  as  várias  características  que  definiam  a 
nobreza  contava-se  o  facto  de  os  seus  membros  não  trabalharem  nem  se  dedicarem  ao  comércio.  Mas 
na  Champagnc  J.  Lestocquoy  ( 1952)  120  observa  que  não  era  por  interv  ir  na  actividade  comercial  que 
um  nobre  punha  em  perigo  o  seu  estatuto.  É  sugestivo  considerar  que.  embora  na  Itália  centro-seten¬ 
trional  tanto  a  nobreza  urbana  como  a  rural  se  ocupassem  alegremente  de  negócios,  numa  cidade 
como  Pádua.  cujo  desenvolvimento  económico  era  muito  reduzido,  J.  K.  Hyde  ( 1966)  193-194  indica 
que  as  famílias  nobres  consideravam  desonroso  o  interesse  directo  pelas  operações  mercantis.  Em 
suma,  os  pruridos  talvez  surgissem  apenas  onde  o  tráfico  era  escasso,  e  não  parece  que  os  nobres  se 
aviltassem  ao  participar  em  negócios  prósperos. 

15  No  final  do  segundo  terço  do  século  XVI í  1  contava  um  tal  Samuel  Sharp,  médico  que  parece 
ter  sido  importante  na  sua  época,  que.  ao  ouvirem  as  manifestações  de  espanto  dos  viajantes  britâni¬ 
cos  que  deparavam  com  garrafas  vazias  penduradas  à  porta  dos  palácios  florentinos  para  anunciarem 
a  venda  de  vinho  a  retalho,  os  habitantes  da  cidade  faziam  notar  que  na  Grã-Bretanha  um  duque 
recorria  a  um  dos  seus  agentes  para  vender  uma  árvore  e  do  mesmo  modo  uma  família  nobre  dc  Flo¬ 
rença  recorria  ao  seu  porteiro  para  vender  a  bebida,  sem  que  em  qualquer  dos  casos  os  nobres  apare¬ 
cessem  pessoalmente  na  transacção.  Este  extracto  da  correspondência  de  Samuel  Sharp  encontra-se 
em  R.  lludson  (1993)  147- 148. 

!t>  Referindo-se  à  Inglaterra  dos  séculos  XIV  e  XV,  K.  B  McFarlane  ( 1973)  47  observa  que  os 
grandes  senhores,  apesar  de  disporem  de  um  aparelho  administrativo  considerável  e  de  numerosos 
agentes,  escutavam  os  relatórios  dos  funcionários  e  davam-lhes  ordens  especificas.  E  este  autor  acres¬ 
centa  < pp.  52-53)  que  a  maioria  dos  senhores  seguia  dc  perto  a  gestão  dos  seus  bens.  pois  só  mediante 


As  relações  pecuniários  e  comert  iais  como  elemento  do  regime  senhorial 


491 


A  nobreza,  toda  ela,  sem  exeepção  (segundo  vimos  nos  capítulos  2,b  e  4.b),  não 
podia  deixar  de  intervir  nas  operações  comerciais.  Como  os  servos,  na  sua  esmagadora 
maioria,  apenas  precisavam  de  moedas  para  pagar  o  tributo  e  o  imposto,  ao  colocarem 
no  mercado  parte  da  sua  produção  ou  ao  alugarem  a  sua  força  de  trabalho  eles  estavam 
unicamente  a  cumprir  um  dos  passos  do  processo  de  exploração,  o  que  levava  os  senho¬ 
res  a  manifestarem  um  interesse  directo  pelos  mercados  rurais.  A  mesma  classe  domi¬ 
nante  que  detinha  o  exclusivo  da  cunhagem  e  para  quem  tendia  a  confluir  todo  o  nume¬ 
rário  exercia  também  o  controlo  sobre  a  circulação  das  moedas  e  as  redes  da  sua  difu¬ 
são.  Além  disso,  sabemos  que  o  ciclo  da  exploração  determinava  as  flutuações  de  pre¬ 
ços  nos  mercados  rurais,  concentrando-se  a  oferta  na  época  em  que  era  indispensável 
pagar  os  tributos,  o  que  levava  então  a  uma  baixa  acentuada  dos  preços  agrícolas.  Mas 
os  senhores  armazenavam,  em  geral,  excedentes  mais  ou  menos  consideráveis  e  nem  as 
necessidades  alimentares  nem  qualquer  compromisso  de  proceder  a  pagamentos  regu¬ 
lares  os  obrigavam  a  abordar  o  mercado  nas  conjunturas  desfavoráveis.  Por  isso  eles 
conseguiam  beneficiar  das  fases  de  escassez  da  oferta  e  de  preços  elevados  para  porem 
à  venda  os  produtos  dos  seus  domínios,  bem  como  os  géneros  cobrados  enquanto  tribu¬ 
tos,  e  podiam  apresentar-se  como  compradores  nas  ocasiões  em  que  a  abundância  da 
oferta  suscitava  a  baixa  dos  preços.  Assim,  a  aristocracia  beneficiava  duplamente  dos 
pequenos  mercados  rurais  não  só  ao  recolher  os  frutos  da  exploração,  mas  ainda  ao 
proceder  a  especulações  comerciais,  e  era  de  maneira  perfeitamente  consciente  e  deli¬ 
berada  que  os  senhores  aproveitavam  para  fins  mercantis  os  ciclos  de  preços  determina¬ 
dos  pela  exploração. 

Além  disso,  foram  muitos  os  senhores  que  não  se  limitaram  a  intervir  nas  transac- 
ções  necessariamente  decorrentes  dos  ciclos  de  cobrança  das  prestações  servis  e  que  se 
empenharam  em  desenvolver  nos  domínios  mecanismos  de  produção  exclusivamente 
vocacionados  para  o  mercado.  Mandaram  cultivar  os  cereais  mais  facilmente  iransac- 
cionáveis  e  ampliaram  a  vinicultura,  fizeram  plantar  ou  extrair  dos  incultos  as  matérias- 
-primas  indispensáveis  às  manufacturas  e  deram  início  à  criação  pecuária  em  grande 
escala,  sustentando  importantes  tráficos  de  carne,  couro  e  lã17.  Aliás,  como  pelo  menos 


uma  estreita  fiscalização  eles  podiam  controlar  a  activjdadc  dos  agentes,  de  maneira  a  evitar  as  frau¬ 
des.  Parece-me  que,  se  isto  sucedia  com  uma  camada  social  que  empregava  uma  burocracia  relativa- 
mente  abundante,  e  numa  época  em  que  os  sistemas  de  organização  haviam  já  começado  a  aperfei¬ 
çoar  se,  o  interesse  da  aristocracia  pela  gestão  do  seu  património  seria  decerto  maior  nos  séculos  ante¬ 
riores,  quando  os  agentes  eram  menos  comuns,  e  seria  maior  também  entre  as  camadas  inferiores, 
que,  apesar  de  não  disporem  de  agentes  com  tanta  facilidade,  não  deixavam  por  isso  de  participar  no 
comércio. 

17  Enquanto  para  Henn  Pirenne  os  bufarinheiros  enriquecidos  estariam  na  origem  do  capital 
comercial,  para  o  seu  contemporâneo  Wemer  Sombart.  como  recordam  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955  >  92,  o 
capital  comercial  ler-se-ia  formado  através  da  acumulação  de  rendas  agrárias,  estando  os  senhores  na 
origem  da  classe  capitalista.  E  embora  considerem  a  lese  de  Sombart  demasiado  simplista.  Roberto 
Sabatino  Lopez  e  Frving  W  Raymond  acrescentam,  em  op.  cit.,  ibid.,  que  sem  dúvida  foram  muitos  os 
nobres  a  investir  fundos  no  comércio.  Já  no  princípio  do  período,  indica  R.  S.  Lopez  (1955  a)  554.  os 
rendimentos  acumulados  pelos  senhores  na  exploração  rural  eram  aplicados  em  negócios.  Alias, 
mesmo  sem  intervirem  directamente  no  tráfico  à  distância,  os  grandes  senhores  podiam  estimular  o 
comércio  e  sustentar  a  aetividade  dos  negociantes  profissionais  mediante  a  venda  dos  excedentes  dos 
seus  domínios,  como  G.  Duby  ( 1962)  1 13  observa  para  os  alvores  deste  período.  Com  efeito,  afirma 


492 


Articulação  entre  as  Formas  I.  //  e  ///  do  dinheiro 


durante  o  século  XIII  os  produtos  da  cintura  de  cultura  intensiva,  bem  como  outros  pro¬ 
venientes  dos  espaços  incultos,  beneficiaram  de  preços  muito  mais  estáveis  do  que  o 
trigo,  foram  eles  que  encheram  com  maior  regularidade  os  cofres  senhoriais1  s.  Assim, 
apesar  de  no  começo  do  século  XIV  se  ter  atingido  o  auge  do  comércio  de  cereais19, 
nessa  época,  bem  como  ao  longo  do  século  anterior,  a  venda  de  gado  e  dos  seus  deriva¬ 
dos,  como  o  couro  e  a  lã,  proporcionou  à  aristocracia  somas  superiores  às  obtidas  com 
a  venda  de  trigo20.  Por  isso  foram  numerosos  os  magnates  que  procuraram  aumentar  os 
pastos  em  detrimento  das  áreas  de  cultura  extensiva,  e  a  lã  revelou-se  muito  mais  rentᬠ
vel  do  que  o  pão21.  Quando  sabemos  que  até  numa  região  economicamente  pouco  evo¬ 
luída  como  era  o  Latium  os  senhores,  ao  mesmo  tempo  que  ampliavam  o  cultivo  domi- 
nial  de  cânhamo,  uma  matéria-prima  destinada  ao  artesanato,  fixavam  limites  máximos 
às  áreas  em  que  os  caseiros  podiam  proceder  a  este  tipo  de  plantação22,  verificamos 
que  a  exploração  servil  e  a  produção  mercantil  se  conjugavam  num  processo  único.  Na 
verdade  a  articulação  era  mais  estreita  ainda,  pois  o  exemplo  do  Latium  mostra  também 
que  os  próprios  mecanismos  normais  da  exploração  criavam  condições  favoráveis  para 
que  os  senhores  orientassem  a  produção  dominial  em  direcção  ao  mercado.  Com  efeito, 
o  elevado  volume  das  exacções  deixava  aos  caseiros  uma  margem  de  excedentes  muito 
reduzida,  obrigando-os,  por  razões  de  segurança,  a  diversificar  os  cereais  que  semeavam 
e  a  dar  a  preferência  a  espécies  robustas,  embora  pobres,  enquanto  os  senhores,  benefi¬ 
ciando  de  excedentes  volumosos,  podiam  dedicar  a  cultura  extensiva  dos  seus  domínios 
a  tipos  de  trigo  que,  apesar  de  mais  frágeis,  eram  facilmente  comercializáveis23. 

Através  dos  seus  agentes  ou  da  cobrança  de  serviços  especializados,  os  senhores 


M.  Bloch  (1960- 1%1)  II  147-148.  um  dos  principais  problemas  com  que  deparavam  as  grandes 
senhorias  era  o  escoamento  dos  excedentes,  o  que  contribuía  para  que  a  economia  senhorial  não  fosse 
fechada  nem  se  cingisse  ao  autoconsumo.  C  Violante  em  P.  Francastel  (org.  1960)  279  pretende 
mesmo  que  o  desenvolvimento  de  grandes  mercados  nas  cidades  teria  facilitado  aos  senhores  a  comer¬ 
cialização  dos  seus  produtos.  Nesta  perspectiva.  E.  Le  Roy  Ladurie  ( 1975  )  44  escreve  que  nas  regiões 
afastadas  dos  grandes  mercados  urbanos  eram  menos  pronunciadas  as  manifestações  de  antagonismo 
entre  os  camponeses  e  a  aristocracia,  mas  que  os  conflitos  se  agudizavam  nas  regiões  onde  os  senho¬ 
res  conseguiam  vender  com  facilidade  os  seus  produtos  nas  cidades,  uma  vez  que  os  servos  gostariam 
também  de  aproveitar  de  algum  modo  as  oportunidades  de  especulação  comercial.  Ainda  acerca  do 
interesse  dos  senhores  peia  comercialização  dos  seus  excedentes  agrícolas,  pelo  cultivo  de  matérias- 
-primas  necessárias  ao  artesanato  e  pela  pecuária  destinada  à  venda  da  carne,  do  couro  e  da  lã  ver.  em 
geral:  G.  Duby  (1962)  167-168.  229-231.  234  e  segs.:  id.  (1973)  I  12-113:  L.  Vemest  ( 1946)  147-148. 
Quanto  à  exploração  dos  incultos  pelos  senhores  para  fins  comerciais  ver.  cm  geral:  G.  Duby  ( 1962) 
236.  246.  Em  suma,  depois  de  lembrarem  a  tese  de  Wemer  Sombart,  para  quem  o  capital  comercial  e 
o  capitalismo  teriam  tido  origem  sobretudo  no  investimento  comercial  dos  rendimentos  decorrentes  da 
agricultura.  Roberto  Sabatino  Lopez  et  al.,  em  o/>.  r/t.,  38-39.  comentam  que  tanto  os  proprietários 
fundiários  se  convertiam  em  mercadores,  mediante  a  aplicação  no  comércio  dos  lucros  gerados  na 
agricultura,  como  os  mercadores  se  tomavam  proprietários  fundiários,  destinando  à  compra  de  terras 
os  lucros  comerciais.  A  mesma  intersecção  de  tendências  é  exposta  por  F  Rõrig  ( 1967)  21. 

18  G.  Duby  (1962)236. 

19  ld..  ibid..  234. 

20  Id.,  ibid.,  517-518. 

21  Ver.  em  geral.  J.  Chapelot  et  al.  ( 1980)  165. 

32  P.  Toubert  ( 1973  b)  21 8-220. 

33  Id.,  ibid..  254-255. 


As  relações  pecuniárias  e  comen  iais  como  elemento  do  regime  senhorial 


493 


procediam  sistematicamente  a  operações  comerciais,  e  isto  não  sucedia  apenas  nas 
grandes  cidades  da  França  meridional24  e.  na  Itália,  na  generalidade  dos  centros  urba¬ 
nos  situados  entre  os  Alpes  e  o  território  papal25,  onde  se  poderia  argumentar  que  muita 
da  velha  nobreza  se  havia  fundido  com  os  negociantes  mais  ricos  numa  nova  elite  de 
carácter  mercantil.  É  certo  que  no  princípio  do  período,  em  Génova,  em  Milão,  em 
Veneza,  foi  a  nobreza  de  origem  rural  quem  primeiro  começou  a  dedicar-se  aos  negó¬ 
cios26,  e  talvez  uma  situação  idêntica  se  pudesse  encontrar  mais  tarde  em  cidades  da 
Toscana2  '.  De  igual  modo.  em  Gaeta2S  e  em  Amalíi29,  situadas  na  parte  meridional  da 
península,  de  tradição  bizantina,  a  hegemonia  coube  inicialmente  aos  proprietários  fun¬ 
diários,  que  obtinham  através  da  exploração  das  suas  terras  as  somas  de  que  necessita¬ 
vam  para  o  comércio.  Uma  análise  detalhada  mostra,  todavia,  que  o  interesse  pelos 
negócios  não  se  restringiu  àquelas  famílias  da  aristocracia  italiana  que  estavam  fundi¬ 
das  com  a  elite  mercantil,  pois  mesmo  a  nobreza  rural  do  centro  e  do  norte  da  península 
participava  no  tráfico,  e  até  no  comércio  de  longo  curso,  apesar  de  se  manter  exterior 
aos  centros  urbanos-0.  Mas  mais  importante  ainda  é  constatamos,  nas  outras  regiões,  o 
papel  activo  desempenhado  por  todos  os  sectores  da  nobreza  rural  não  só  no  mercado 
de  âmbito  local  e  regional,  mas  igualmente  nas  exportações. 

Um  dos  exemplos  mais  notáveis  é  fornecido  pela  Ordem  Teutónica,  de  recruta¬ 
mento  exclusivamente  aristocrático,  e  que  na  sua  área  de  soberania  na  Prússia  se  con- 


24  R.  Aubenas  ( 1936)  537:  J.  Heers  ( 1974)  1 23:  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  367. 

25  Em  Itália,  afirma  R.  S.  Lopez  ( 1955  a)  559,  era  regra  que  os  cavaleiros  participassem  no  comér¬ 
cio.  Quanto  à  actividade  mercantil  das  famílias  nobres  nas  cidades  da  Itália  centro-setentrional  ver: 
M  Beard  (1938)  131;  M.  B.  Becker  (1967-1968)  J  13  n.  6:  G.  Cracco  (1967)  11-13;  E.  Cristiani 
(1962)  64  e  segs..  158:  J.  Heers  (1974)  123;  J.  K.  Hyde  (1973)  6-7,  71:  Ph.  Jones  (1966  b)  351:  id. 
(1974)  1767-1770:  J.  Lestocquoy  (1952)  50.  58,  103;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  367;  J.  Plesner  (1979) 
120;  P.  Racine  (1977)  277-278;  Y.  Renouard  (1949)  62;  A.-E.  Sayous  (1937)  370;  R.  Schumann 
(1973)  172:  C.  Violante  (1953)  52.  Mas  J.  Lestocquoy  (1966)  55  previne  que  mesmo  nos  centros 
urbanos  do  norte  do  continente  havia  famílias  da  elite  comercial  que  descendiam  da  nobreza,  embora 
isto  fosse  muito  mais  frequente  em  Itália.  Em  sentido  contrário,  em  Pádua,  onde  o  desenvolvimento 
dos  negócios  era  muito  escasso.  J.  K.  Hyde  ( 1966)  193-194  indica  que  a  nobreza  se  manteve  inteira¬ 
mente  afastada  de  qualquer  intervenção  directa  nas  operações  mercantis. 

Ainda  a  propósito  da  Itália.  Ph.  Jones  (1966  b)  351-352  esclarece  que,  segundo  alguns  autores,  do 
século  X  até  ao  início  do  século  XIV  o  principal  movimento  da  riqueza  teria  partido  da  terra  em  direc¬ 
ção  ao  comércio,  que  era  então  mais  rentável  do  que  a  agricultura,  e  que  a  recessão  da  segunda 
metade  do  século  XIV,  diminuindo  a  rentabilidade  dos  negócios,  teria  feito  com  que  o  movimento  se 
invertesse  c  a  riqueza  se  dirigisse  preferencialmente  do  comércio  para  a  terra.  Mas  Philip  Jones  pre¬ 
vine  que  é  difícil  provar  esta  tese. 

26  M.  Balard  ( 1978)  505-506;  E.  Ennen  ( 1979)  72;  W.  Üoetz  ( 1965)  64-65:  D.  O.  Hughes  (1975) 
5:  A.  R.  Lewist  1951)218:  Y.  Renouard  ( 1949)  47.  59;  G.  Tabacco  ( 1979)  185-187. 

Y.  Renouard  (1949)  49  esclarece  que.  em  Génova,  nem  todas  as  famílias  da  alta  nobreza  começa¬ 
ram  a  dedicar-se  aos  negócios;  e  aquelas  que  não  o  fizeram,  mantendo  a  sua  fortuna  integralmente  em 
moldes  fundiários,  enriqueceram  menos  rapidamente  e  acabaram  relegadas  para  segundo  plano. 

27  Em  Pisa.  no  século  XII,  J.  Heers  (1974)  48  afirma  que  a  actividade  comercial  e  manufactureira 
era  dominada  por  grandes  famílias  nobres,  de  origem  rural,  embora  já  estabelecidas  na  cidade. 

2S  G.  Tabacco  (1979)181-1 83. 

29  G.  Galasso  <  1958- 1959)  XXXTX  38-39. 

10  Quanto  ao  lacto  de  a  aristocracia  rural  italiana  se  interessar  pela  actividade  comercial  ver:  Ph. 
Jones  (1966  b)  387;  id.  ( 1974)  1767:  P.  Toubeit  (1973  b)  218-220,  254-255. 


494 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


veneu  numa  grande  potência  manufactureira  e  mercantil31,  talvez  a  principal  em  todo  o 
Báltico3-,  exportando  enormes  volumes  de  cereal33,  0  grão-mestre  manteve  sob  um 
estreito  controlo  as  cidades  prussianas,  impedindo  que  a  sua  actividade  económica 
prosseguisse  fora  do  âmbito  da  Ordem,  e  deste  modo  um  príncipe  eclesiástico  pôde 
tomar-se  membro  de  uma  liga  tão  acentuadamente  mercantil  como  era  a  Hansa34. 
Parece  mesmo  que  já  antes  de  se  ter  estabelecido  na  Prússia  a  Ordem  incitava  os  seus 
cavaleiros  a  dedicarem-se  ao  comércio,  em  proveito  colectivo33. 

Não  menos  relevante  foi  a  actuação  dos  monarcas  na  Itália  meridional.  No  final  do 
primeiro  terço  do  século  XIII  o  rei  da  Sicília  aumentou  as  taxas  cobradas  sobre  o  trᬠ
fico  de  cereais  e  tomou  medidas  para  limitar  os  privilégios  de  que  até  então  haviam 
gozado  as  grandes  cidades  mercantis  do  norte  da  península,  graças  aos  quais  procediam 
em  condições  especialmente  favoráveis  à  aquisição  de  cereais.  Isto  fez  com  que  caísse 
a  procura  externa  e  diminuíssem  os  preços,  e  o  monarca  aproveitou  de  maneira  especu¬ 
lativa  a  situação  por  ele  próprio  criada,  comprando  cereais  no  interior  do  reino  a  baixo 
custo  e  enviando-os  para  o  estrangeiro,  onde  os  vendia  por  somas  elevadas.  E  como, 
além  da  sua  considerável  produção  dominial.  o  soberano  recebia  uma  porção  fixa  de 
todo  o  cereal  cultivado  pelos  seus  súbditos,  os  lucros  que  obtinha  no  tráfico  de  exporta¬ 
ção  eram  enormes  e  nenhum  mercador  privado  conseguia  batê-lo  na  concorrência36.  A 
casa  de  Anjou  apoderou-se  do  reino  de  Nápoles  e  da  Sicília  no  começo  do  último  terço 
do  século  XIII  e,  depois  de  perdida  a  Sicília  em  1282  para  a  coroa  de  Aragão.  o  reino 
ficou  resumido  à  parte  meridional  da  península  italiana.  A  dinastia  de  Anjou  conseguiu 
exercer  sobre  o  comércio  de  longo  curso  uma  hegemonia  ainda  mais  notória  do  que  os 
seus  predecessores  e.  aliás,  já  no  seu  condado  da  Provença  o  novo  soberano  havia  ins¬ 
taurado  um  sistema  que  lhe  assegurava  o  completo  domínio  do  tráfico  de  sal.  inclusiva¬ 
mente  da  exportação  deste  produto37.  Durante  o  período  encerrado  em  1282,  além  de 
adquirir  cereais  para  consumo  próprio,  apenas  para  colmatar  eventuais  deficiências  de 
produção  do  seu  conjunto  senhorial,  comprando  pequenas  quantidades  ao  preço  cor¬ 
rente  de  mercado,  o  rei  de  Nápoles  e  da  Sicília  dedicou-se  acima  de  tudo  à  exportação 
regular  de  cereal.  Confundindo  diplomacia  e  negócios,  do  mesmo  modo  que  as  grandes 
companhias  o  faziam38,  o  soberano  dispunha  de  informadores  secretos  nos  mercados 


31  K.  Gorski  (1966)  284  sublinha  o  facto  de  a  Ordem  Teutónica  ter  prosseguido  simultaneamente 
actividades  manufactureiras  e  mercantis. 

Até  ao  começo  do  século  XV,  afirma  M.  Malowist  ( 1966)  25.  a  Ordem  Teutónica  era  a  maior 
potência  comercial  na  região  do  Báltico,  mais  poderosa  do  que  as  cidades  mercantis  da  Hansa.  com  a 
possível  excepção  de  Liibeck. 

33  F.  L.  Carsten  1 1954)  59:  Ph.  Dollinger  ( 1964)  288:  Ch.  Higounet  1 1989)  529. 

34  Ph.  Dollinger  ( 1964)  50-51, 209. 

3i  J  Piquei  (1939)  245  pretende  que  só  com  a  conquista  e  a  colonização  da  Prússia  é  que  a  Ordem 
Teutónica  passou  a  exercer  uma  verdadeira  actividade  económica,  mas  E.  Christiansen  (1980)  84 
explica  que  já  anteriormente  à  fase  prussiana  os  cavaleiros  leutónicos.  apesar  de  não  deterem  proprie¬ 
dades  em  nome  privado,  eram  estimulados  a  comerciar  em  benefício  da  Ordem. 

,n  A  actividade  comercial  de  Frederico  11  é  analisada  por  J  M.  Powcll  ( 1962)  5 1 8  e  52 1 . 

’  J.  Romefoit  ( 1958)  176-178. 

Quanto  à  captação  e  transmissão  de  informações  pelas  grandes  companhias  ver  no  capítulo  10 
as  nn.  355  a  365. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  demento  do  regime  senhorial 


495 


estrangeiros,  que  lhe  comunicavam  as  variações  cios  preços,  e  logo  que  chegava  uma 
notícia  favorável  ele  enviava  navios  carregados  de  cereal  para  os  portos  onde  o  curso 
era  mais  elevado.  Como  se  esta  concorrência  económica  não  bastasse,  o  rei  cobrava 
taxas  sobre  a  circulação  interna  dos  cereais  e  obrigava  ainda  os  mercadores  privados  a 
adquirir  licenças  de  exportação,  a  altos  custos.  Não  espanta  que,  em  tais  condições,  não 
se  salientasse  nenhuma  grande  fortuna  entre  os  comerciantes  profissionais  do  reino. 
Além  disso,  este  primeiro  monarca  da  dinastia  de  Anjou  procedia  a  colossais  operações 
especulativas  no  interior  das  fronteiras,  e  nas  épocas  de  escassez  vendia  aos  seus  súbdi¬ 
tos  famintos,  a  preços  muito  elevados,  os  cereais  que  tinha  em  armazém-’9,  praticando 
exactamente  o  contrário  do  que  a  ideologia  oficial  estipulava  como  um  dos  primeiros 
deveres  do  bom  soberano.  Não  me  recordo  de  qualquer  outro  caso  em  que  as  relações 
pecuniárias  desvendassem  de  maneira  tão  flagrante  os  mecanismos  subreptícios  do 
mundium.  Os  sucessores  não  abandonaram  estas  práticas  rentáveis,  e  na  primeira 
metade  do  século  XIV,  ou  mais  tarde  ainda,  o  monarca  continuava  a  ser  o  principal 
comerciante  no  reino  de  Nápoles,  especulando  com  a  carestia,  quando  não  a  estimulava 
até  mediante  açambarcamentos.  E  encontramos  estes  soberanos  a  participar,  ao  lado  de 
mercadores  privados,  em  sociedades  destinadas  a  alugar  barcos  para  a  exportação  de 
cereais,  ou  mesmo  em  sociedades  que  se  dedicavam  à  guerra  de  corso40.  Malgrado  o 
facto  de  os  historiadores  se  ocuparem  sobretudo  com  as  cidades  do  norte  e  do  centro  da 
península  quando  se  trata  de  analisar  a  prática  mercantil  das  famílias  de  origem  nobre, 
o  reino  da  Itália  meridional  constitui  um  dos  exemplos  mais  notáveis  de  actividade 
comercial  prosseguida  no  próprio  vértice  do  regime  senhorial,  de  maneira  que  a  sobera¬ 
nia  se  converteu  ali,  a  bem  di/er,  num  colossal  negócio. 

Aliás,  por  todo  o  lado  reis  e  príncipes  se  interessaram  pelo  tráfico  e  promoveram  os 
seus  próprios  interesses  comerciais.  No  século  XIV.  por  exemplo,  quando  a  escassez  de 
moeda  ou.  pelo  contrário,  a  inflação  levavam  o  fisco  a  cobrar  em  géneros  os  impostos, 
estes  géneros  eram  usados  para  alimentar  os  exércitos  ou  eram  postos  à  venda  no  mer¬ 
cado,  e  neste  último  caso  tomou-se  frequente  que  os  soberanos,  com  o  intuito  de 
aumentarem  os  seus  lucros,  limitassem,  ou  mesmo  proibissem,  a  venda  por  parte  dos 
concorrentes41.  Podemos  analisar  nesta  perspectiva  a  utilização  que  monarcas  e  prínci¬ 
pes  deram  ao  sal.  Além  de  constituir,  como  vimos  já  (no  capítulo  lO.g),  uma  das  princi¬ 
pais  matérias  colectáveis,  o  sal  era  também  objecto  de  acesas  disputas.  Os  soberanos 
procuravam  apoderar-se  do  maior  número  de  salinas,  de  maneira  a  ganharem  dupla- 
mente,  enquanto  beneficiários  dos  impostos  indirectos  lançados  sobre  a  aquisição  de 
um  produto  para  o  qual  estabeleciam  um  consumo  mínimo  obrigatório  e  enquanto  ven- 


•’v  M.  Boüard  (  038)  485-487,  490-491  e  495  estuda  com  detalhe  as  operações  mercantis  levadas 
a  cabo  por  Carlos  1.  Várias  vezes  este  monarca  autorizou  Roma  a  abastecer-se  de  cereais  na  Sicília  e 
na  Provença,  informa  F  Dupré  Theseider  (1952)  252,  o  que  não  custa  a  entender  quando  sabemos 
que  era  ele  quem  os  vendia. 

4,1  Quanto  aos  negócios  prosseguidos  pela  coma  de  Nápoles  no  final  do  período  ver  R.  Caggese 
(1922- 1930)  I  539-540  e  Pli.  Jones  ( 1966  b)  388. 

41  E.  Perroy  (1949)  174-175.  Este  autor  considera  apenas  as  situações  de  escassez  de  numerário 
para  explicar  que  o  lisco  procedesse  ü  cobrança  em  géneros,  mas  o  mesmo  sucedia  em  alturas  de 
inflação,  como  mostrei  no  capítulo  4  b. 


4<46 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


dedores  desse  produto42.  O  exemplo  da  Provença  é  especialmente  interessante,  pois 
durante  o  período  em  que  a  soberania  coube  aos  condes  de  Barcelona  eles  encetaram 
medidas  destinadas  a  assegurar-lhes  a  hegemonia  na  distribuição  do  sal,  comprando-o 
aos  mercadores  para  o  revenderem  depois,  ou  cobrando  uma  taxa  aos  mercadores  no 
caso  de  serem  estes  a  vender  o  sal  aos  consumidores.  Em  seguida,  quando  a  soberania 
passou  para  a  casa  de  Anjou.  o  conde,  através  dos  seus  agentes,  começou  a  comprar 
todo  o  sal  da  região  directamente  aos  produtores,  impondo  assim  um  verdadeiro  exclu¬ 
sivo  na  sua  distribuição.  De  então  em  diante  os  salineiros  ficaram  proibidos  de  transac- 
cionar  com  os  mercadores  privados,  e  era  o  conde  quem.  depois  de  adquirir  a  totalidade 
da  produção,  ou  a  revendia  aos  negociantes  particulares  por  mais  do  quíntuplo  do  preço 
por  que  a  havia  pago  ou  a  exportava  directamente  para  fora  da  região.  Dada  a  importân¬ 
cia  destes  negócios,  compreende-se  que  tivessem  surgido  conflitos  entre  o  conde  e  a 
coroa  francesa,  e  logo  na  abertura  do  século  XIV  ambos  os  soberanos  resolveram  o 
problema  graças  à  constituição  de  uma  sociedade,  dividindo  em  duas  partes  iguais  o 
lucro  do  tráfico  de  sal  operado  através  do  Ródano4’.  Bastaria  o  facto  de  uma  rivalidade 
entre  um  rei  e  um  príncipe  poder  transferir-se  para  o  plano  das  disputas  comerciais  e  de 
ser  possível  que  a  sua  solução  obedecesse  aos  termos  de  uma  sociedade  mercantil  para 
comprovarmos  que  as  relações  de  negócio  eram  um  elemento  integrante  do  regime 
senhorial. 

Mesmo  num  centro  urbano  com  a  importância  de  Toulouse.  e  no  primeiro  terço  do 
século  XIII.  quando  já  eram  numerosos  e  influentes  os  negociantes  profissionais,  o 
conde  conseguira  manter  o  exclusivo  da  comercialização  de  um  certo  número  de  produ¬ 
tos  alimentares,  opondo-se  ao  natural  desejo  dos  mercadores  da  cidade  de  se  aproveita¬ 
rem  também  de  um  tráfico  tão  rendoso44.  Não  muito  longe,  na  Catalunha,  na  segunda 
metade  do  século  XI  e  no  começo  do  século  seguinte,  quando  se  iniciou  na  região  o 
desenvolvimento  comercial,  os  condes  de  Barcelona  lançavam  no  mercado  os  seus  ren¬ 
dimentos  em  cereal  e  em  vinho45.  Além  disso,  no  último  terço  do  século  XI  o  conde 
mandou  construir  uma  frota  de  galeras  mercantis  que  depois  da  sua  morte  os  filhos 
mantiveram  indivisa,  partilhando  apenas  os  lucros46.  Assim,  no  começo  do  século  XII  o 
conde  de  Barcelona  havia-se  tornado  um  verdadeiro  empresário  de  navegação,  concor¬ 
rendo  com  os  proprietários  privados  de  navios47.  O  carácter  aristocrático  da  actividade 
comercial  continuou  muito  vincado  na  Catalunha,  e  a  partir  do  último  quartel  do  século 
XIII  praticamente  todo  o  tráfico  de  exportação  do  trigo  originário  do  reino  de  Valência 
e  das  províncias  de  Saragoça  e  Lérida  estava  nas  mãos  da  nobreza  de  corte  catalã  e  dos 


42  Acerca  da  rivalidade  pela  posse  de  salinas  que  opunha  os  duques  da  Lorena  e  alguns  estabeleci¬ 
mentos  eclesiásticos  da  sua  área  de  soberania,  ver  F.  Dainville  (1968)  35.  Disputas  do  mesmo  tipo 
verificaram-se.  segundo  G.  Duby  (1953)  349,  entre  os  condes  de  Mãeon  e  duas  grandes  instituições 
monásticas  da  região. 

42  J.  Romeíori  1 1958)  174-180  estudou  detalhadamente  a  evolução  das  relações  entre  os  príncipes 
da  Provença  e  o  comércio  de  sal. 

44  J.  H.  Mundy  (1954)30.  110. 

45  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  832-833. 

40  ld..  ibid..  841. 

47  ld..  ibid..  842. 


,-Vv  relações  pecuniárias  e  umien  lais  como  elemento  do  regime  senhorial 


497 


altos  funcionários  da  coroa48.  E  na  Inglaterra  do  final  do  século  XIII  os  grandes  con¬ 
juntos  senhoriais  da  alta  nobreza  e  do  alto  clero,  como  o  do  duque  de  Lancaster  e  o  do 
bispo  de  Winchester,  enviavam  para  o  mercado  grande  parte  da  sua  produção49.  Até  os 
reis  de  Chipre,  tão  adeptos  de  títulos  fictícios  e  sonhando  sempre,  e  sempre  em  vão, 
com  a  possibilidade  de  recomeçar  as  peregrinações  armadas  contra  as  terras  islâmicas, 
tinham  os  pés  suficientemente  na  terra  para  obterem  benefícios  tangíveis  com  a  expor¬ 
tação  de  cereais  e  outros  géneros  agrícolas50. 

Em  Portugal,  pelo  menos  no  final  do  período,  o  rei  procedia  como  os  restantes 
senhores,  vendendo  os  géneros  que  havia  recebido  enquanto  tributo’’1  e  especulando 
com  as  medidas  de  tabelamento  dos  preços,  de  maneira  a  comprar  barato  para  vender 
muito  mais  caro52.  Os  interesses  mercantis  da  coroa  portuguesa  não  se  cingiram  ao 
interior  das  fronteiras  e.  apesar  do  descontentamento  dos  súbditos,  os  reis  participaram 
com  frequência  na  exportação  de  cereais  para  o  estrangeiro5’:  um  dos  monarcas  que 
ocupou  o  trono  no  último  terço  do  século  XIV  possuía  mesmo  uma  frota  de  doze 
navios,  destinados  ao  comércio54.  No  reino  de  Castela  não  só  a  maior  aristocracia  laica 
e  também  a  eclesiástica,  nomeadamente  igrejas,  mosteiros  e  Ordens  Militares,  se  tor¬ 
nou  proprietária  de  inumeráveis  rebanhos  de  ovinos  para  fomentar  uma  exportação  de 
lã  em  grande  escala,  como  a  própria  coroa  se  dedicou  activamente  a  este  tráfico55.  Na 
verdade,  o  comércio  da  lã  suscitou,  sempre  que  as  ocasiões  foram  propícias,  a  ganância 
senhorial.  Na  Flandres,  pelo  menos  no  início  do  período,  o  conde  possuía  imensos 
rebanhos  de  ovelhas  e,  por  isso,  convinha-lhe  estimular  o  desenvolvimento  da  manufac¬ 
tura  têxtil,  de  modo  a  ampliar  o  mercado  para  a  sua  lã56.  Em  Inglaterra,  a  riquíssima 
Ordem  de  Cister  aplicou-se  com  um  interesse  crescente  à  criação  de  ovinos  e  à  venda 
de  lã  por  grosso,  negociando  directamente  com  os  grandes  exportadores5';  e  até  ao 
termo  do  século  XIII,  antes  de  se  difundir  uma  camada  de  mercadores  profissionais 
ambulantes  que  estabeleciam  a  relação  dos  produtores  com  os  exportadores,  essas  aba¬ 
dias  serviram  também  de  intermediário  entre  os  pequenos  camponeses  que  tinham 
alguma  lã  para  vender  e  os  comerciantes  grossistas  que  procediam  à  exportação58. 
Aliás,  a  actividade  mercantil  dos  monges  de  Cister  generalizou-se  a  todas  as  regiões  e 
abrangeu  um  vasto  leque  de  excedentes  agrícolas59. 


4S  J.-P.  Cuvillier  ( 1970)  113.  120-121.  125-127. 

49  M.  Postan  (1938-1939)  162. 

511 J.  Riehard  (1977)  349. 

;’1  A.  H.  O.  Marques  <  1968  »  125  e  segs. 

52  H.  G.  Bários  (1945-1954)  111  144. 

-s1  A.  H.  O.  Marques  ( 1968)  168  e  segs. 

54  H.  G.  Barros  ( 1945-1954)  IX  358;  A.  Castro  <  1964-1979)  1  202. 

-  J.  Chapelot  et  al.  í 1980)  165;  R.  Pastor  de  Togneri  ( 1970)  69;  J.  Valdeón  Baruque  ( 1976)  99. 

59  J.  Dhondt  (1944)  65-66. 

57  J.  Chapelot  et  al.  (1980)  165;  R.  A.  Donkm  ( 1958)  2-8;  P.  D.  A.  Harvey  (1973)  27-28:  J.  E. 
Madden  (1963)  342;  E.  Perroy  ( 1962-1963)  37;  M.  M.  Postan  < 1978  a)  234;  J.  W.  Thompson  ( 1959) 
309-310. 

58  J.  E.  Madden  <  1963»  343-344:  E.  Perroy  (1962-1963)  37:  M.  M.  Postan  (1978  a)  233-234. 
Acerca  dos  mercadores  intermediários  do  comércio  de  lã  na  Inglaterra  ver  E.  Perroy  ( 1962-1963)  37. 

59  G.  Duby  (1973)  246-248;  K  L.  Ganshoí  et  al.  (1966)  298;  J.  Mattoso  |I994  h]  253;  Ch.-E. 
Perrin  (1951-1955)  327:  J.  W.  Thompson  í  1959)  621 


498 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  do  dinheiro 


Mas  além  destes  casos,  que  envolviam  negócios  muitíssimo  volumosos  e  as  persona¬ 
lidades  e  instituições  de  mais  alto  relevo  social,  ocorria  uma  multiplicidade  de  operações 
de  menor  envergadura.  Parece  que  na  Boémia,  no  final  do  período,  só  uma  minoria  de 
grandes  senhores  havia  reconvertido  a  sua  exploração  dominial  de  modo  a  produzir 
especialmente  para  o  mercado60.  Mas  na  Polónia,  desde  a  segunda  metade  do  século  XI. 
e  sobretudo  a  partir  do  século  XII,  a  alta  aristocracia  passou  a  interessar-se  pela  comer¬ 
cialização  de  todo  o  tipo  de  produção  camponesa,  inclusivamente  a  artesanal61.  E  nas 
regiões  de  colonização  germânica  a  leste  do  Elba  não  eram  poucos  os  senhores  que  pro¬ 
curavam  manter  uma  vasta  exploração  dominial  directa,  de  maneira  a  exportarem  os 
excedentes  cerealíferos6’.  Sabe-se  também  que  na  Flandres  os  senhores  rurais  enviavam 
os  seus  produtos  para  os  mercados  das  grandes  cidades63.  Em  França,  tanto  a  sul  como  a 
norte  do  Loire,  não  só  a  nobreza  urbana64  mas  mesmo  a  nobreza  rural65  e  estabeleci¬ 
mentos  eclesiásticos66  participavam  vigorosamente  no  tráfico  de  géneros  agrícolas.  E  na 
Itália  meridional  e  na  Sicília  não  era  menor  o  interesse  que  os  grandes  senhores  demons¬ 
travam  pelo  comércio  de  longo  curso  dos  cereais  e  do  azeite67,  ou  o  que  a  pequena 
nobreza  vassálica  manifestava  por  operações  mais  modestas68.  O  mesmo  sucedeu  desde 
cedo  na  Espanha,  onde  a  preocupação  dos  senhores  com  o  escoamento  mercantil  dos 
produtos  do  domínio  se  confirma  ao  sabermos  que  pelo  menos  desde  o  século  XI  eles 
haviam  imposto  o  privilégio  de  vender  as  suas  colheitas  antes  dos  caseiros66.  Nas  cida- 

60  J.  M.  Klassen  ( 1978)  6. 

M  A.  Gieysztori  19571  141;  id.  (1960  a)  24. 

62  R.  Granel  ei  al.  (1950)  110. 

^  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975)  44. 

Todavia,  D.  Nicholas  11971)  257-258  escreve  que  as  famílias  nobres  residentes  em  Gand  tendiam 
a  viver  principalmente  dos  rendimentos  das  suas  senhorias  rurais,  e  não  da  actividade  comercial  nem 
de  propriedades  urbanas. 

(a  R.  S.  Lopez  (1955  a)  559  pretende  que  a  participação  dos  cavaleiros  no  comércio  era  excepcio¬ 
nal  em  França.  Mas  em  Paris,  segundo  J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  380,  os  cavaleiros  régios  dedicavam-sc 
ao  negócio  e.  na  vizinha  Champagne,  J.  Lestocquoy  (1952)  23  e  (1966)  55  indica  que  os  cidadãos 
nobres  intervinham  na  actividade  mercantil,  sendo  corrente  que  os  cavaleiros  praticassem  o  comércio 
nas  grandes  feiras  da  região.  Também  em  Aries  os  cavaleiros  se  ocupavam  com  o  tráfico,  a  crer  em 
Jean-Pierre  Poly  e  Éric  Boumazel,  em  <>/>.  cit..  380. 

65  E.  Le  Roy  Ladurie  (1975)  44  menciona  o  Beauvaisis  meridional  e  a  região  parisiense.  Para  o 
sucedido  na  Champagne  ver  J.  Lestocquoy  (1952)  120.  Acerca  da  Borgonha.  nos  meados  do  século 
XIV,  consultar  J.  Richard  (org.  1978)  168.  Na  Provença,  G.  Dubv  (1962)  232  refere  a  participação 
dos  senhores  rurais  no  tráfico  de  longo  curso  dos  géneros  agrícolas.  Na  mesma  região.  Th.  Selafert 
1 1959)  36-37  relata  os  negócios  de  madeira  do  conde  de  Beuil  e  recorda  (p.  52 1  o  interesse  de  nume¬ 
rosos  senhores  pela  criação  de  gado.  destinada  a  abastecer  de  carne  a  corte  pontifícia  de  Avignon. 
Ainda  na  Provença.  segundo  J.-P.  Poly  (1976)  362.  os  senhores  procuraram  aumentar  o  montante  dos 
tributos  em  géneros,  para  beneficiarem  com  a  comercialização  desses  produtos. 

00  G.  Duby  ( 1953)  32  menciona  os  interesses  comerciais  da  abadia  de  Cluny  no  começo  do  século 
XI.  Do  mesmo  modo.  a  abadia  de  Boscaudon.  localizada  no  nordeste  da  Provença.  além  de  ter  sido 
uma  grande  criadora  de  gado  negociou  enormes  volumes  de  madeira,  como  mostra  Th.  Selafert  ( 1959) 
13-14.  No  Saintonge,  no  começo  do  período,  C.  van  de  Kieft  (1967)  172-173  indica  que  a  abadia  de 
Saint-Jcan  d’Angély  se  mostrava  especialmeme  interessada  pela  comercialização  dos  seus  produtos. 

”7  Ph.  Jonesí  1966  b)  387-388. 

m  R.  Caggese  (1922- 1930)  I  320  e  segs. 

w  ,1.  A.  Garcia  de  Cortázar  ( 1 990)  1 14  n.  6 1 

Quanto  aos  privilégios  de  venda  do  vinho  na  região  entre  Douro  e  Tejo  ver  R,  Durand  (1982)  464. 


A.s  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  ei  eme  mo  do  regime  senhorial 


499 


des  da  Catalunha  foram  as  famílias  de  origem  nobre  quem  deteve  inicialmente  a  hege¬ 
monia  sobre  a  actividade  comercial70,  e  no  termo  do  período  a  aristocracia  maiorquina 
ocupava-se  com  o  tráfico  naval71.  A  preponderância  da  nobreza  no  mercado  foi  mais 
duradoura  ainda  em  Castela,  e  mesnio  após  o  final  do  período  eram  os  grandes  senhores 
rurais  a  controlar  a  criação  comercial  de  gado  e  os  empreendimentos  marítimos,  margi¬ 
nalizando  a  elite  urbana72.  Também  em  Portugal  restam  numerosíssimos  indícios  da 
intervenção  dos  dignitários  eclesiásticos  e  da  nobreza  rural  no  tráfico  de  géneros  agríco¬ 
las  e  de  gado73,  dedicando-se  até  a  proceder  a  açambarcamentos  e  a  especular  com  a 
carestia74.  E  na  Inglaterra  sabe-se  que  já  no  princípio  do  período  havia  senhores  de  áreas 
rurais  a  participar  na  actividade  das  corporações  mercantis  das  cidades  vizinhas7'1.  De 
então  em  diante  não  deixou  de  crescer  o  interesse  que  todas  as  camadas  da  aristocracia 
inglesa  manifestavam  pelo  comércio,  vendendo  produtos  agrícolas  numa  escala  muito 
considerável76.  Finalmente,  em  Chipre,  onde  a  exploração  dominial  directa  assumiu  uma 
notável  importância,  os  senhores  dedicavam-se  tanto  ao  escoamento  de  géneros  agríco¬ 
las  no  mercado  local  como  à  sua  exportação77. 

Por  outro  lado,  e  para  além  de  poderem  eventualmente  reorientar  a  exploração  das 
suas  senhorias  tendo  em  vista  a  venda  de  produtos  da  agricultura  e  da  pecuária  em  mer¬ 
cados  próximos  ou  distantes,  numerosos  senhores  experimentaram  outros  tipos  de  ope¬ 
rações  e  ocuparam-se  de  variadíssimos  negócios78.  Os  navios  dos  Templários  e  dos 
Hospitalários.  por  exemplo,  colaboravam  no  transporte  de  mercadorias  no  Mediterr⬠
neo74,  e  no  século  XV  havia  entre  a  nobreza  napolitana  quem  possuísse  barcos  destina¬ 
dos  ao  tráfico80.  Em  Castela,  para  além  da  criação  comercial  de  ovinos,  que  constituía 
o  seu  grande  interesse,  os  nobres  lançaram-se  também  em  empreendimentos  comerciais 
no  norte  do  continente  e  no  Atlântico81,  e  o  mesmo  fez  a  nobreza  portuguesa82.  Vimos 
ainda  (nos  capítulos  5.b  e  7.e)  que  muitos  senhores  procediam  sistematicamente  a  ope- 


70  J.  Heers  í  1974)  123. 

71  J.  N.  HitlgartM  1976- 1978)  II  63. 

77  Id..  ibid..  II  73. 

73  H.  G.  Barros  (1945-1954)  II  413.  IX  330.  427:  A.  H.  O.  Marques  (1968)  125  e  segs.:  J.  Mattoso 
[1994  bl  253-254;  A  Sousa  j  I994|  414. 

74  H.  G.  Barros  (1945-1954)  I)  413.  III  144. 

77  E.  Ennen  ( 1956)  405. 

76  Quanto  à  actividade  mercantil  dos  senhores  ingleses  consultar:  G.  Duby  ( 1962)  502.  507:  R.  H. 
Hilton  (1949-1950)  123-124;  id.  (1951)  27-28.  1.  Kershaw  ( 1973)  6-9,  15;  É.  A.  Kosminsky  (1956) 
325;  E.  Miller  (1964)  26;  id.  (1971)  2;  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  367;  M.  M.  Poslan  ( 1978  a)  101,  175. 
Ver  ainda  as  numerosas  menções  a  situação  da  Inglaterra  na  n.  99  deste  capitulo.  G.  Duby  (1962)  234 
indica  que  desde  o  século  XIII  eram  comercializados  8(1%  do  produto  cerealífero  líquido  dos  grandes 
domínios  ingleses,  feita  a  dedução  do  trigo  reservado  para  semente. 

F.  Rõrig  ( 1967)  67  pretende  que  o  interesse  da  nobreza  pelo  comércio  foi  uma  especificidade  da 
Inglaterra  e  não  se  manifestou  no  continente.  Todavia,  vimos  que  o  fenómeno  se  verificou  em  todas 
as  regiões  do  regime  senhorial. 

77  J.  Richard  (1977)  334-335.  349. 

78  A.  B.  Hibbert  ( 1953)  17. 

74  J.  Piquet  i  1939)  30-31. 

80  Ph.  Jones  ( 1966  b)  388. 

81  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  II  63-64. 

s-  Id..  ibid.,  II  73. 


soo 


Articularão  entre  as  Formas  /,  II  e  III  do  dinheiro 


rações  de  crédito,  tanto  relativamente  aos  senos  como  aos  seus  vassalos  e  até  a  quais¬ 
quer  outros  senhores,  pois  os  empréstimos  pecuniários  constituíam  a  própria  forma  de 
exercício  do  mundium  em  condições  de  poder  impessoal. 

Aliás,  o  domínio  da  aristocracia  sobre  a  actividade  comercial  atingia  as  infra-estru¬ 
turas  materiais.  Quando  uma  família  nobre  ou  da  elite  urbana  detinha  um  conjunto  de 
habitações  e  de  edifícios  que  lhe  assegurava  o  controlo  sobre  um  bairro  da  cidade 
(como  vimos  no  capítulo  9.a.5  e  9.c).  ela  dava  de  aluguer  lojas  e  instalações  artesanais 
e  aceitava  que  se  estabelecessem  lugares  de  venda  sob  os  pórticos  e  as  passagens  das 
casas83,  de  maneira  que  os  centros  de  poder  urbanísticos  se  convertiam  também  em 
centros  de  transacções.  Mas  a  situação  foi  muitíssimo  mais  generalizada  e,  qualquer 
que  fosse  o  modo  como  se  implantavam  as  grandes  famílias  urbanas,  a  elite,  directa- 
mente  ou  através  dos  governos  das  cidades,  podia  ser  proprietária  dos  terrenos  e  insta¬ 
lações  dos  mercados84,  ou  circundá-los  com  as  suas  residências85,  dispondo  ainda  de 
numerosíssimas  lojas  e  tendas  dispersas86,  bem  como  de  lugares  para  erguer  mesas  de 
câmbio87.  O  mesmo  sucedia  com  instituições  eclesiásticas  e  com  soberanos,  e  até  com 
a  nobreza  de  raízes  rurais.  Por  vezes  a  catedral,  ou  um  mosteiro,  ou  alguns  dignitários 
eclesiásticos  possuíam  o  terreno  e  as  instalações  do  mercado,  que  alugavam  aos  comer¬ 
ciantes88,  e  em  Inglaterra  foi  frequente  que  mercados  locais  e  feiras  se  realizassem  no 
cemitério  das  igrejas,  armando-se  por  vezes  as  bancas  dos  vendedores  dentro  do  pró¬ 
prio  edifício  sagrado89,  o  que  representava  um  grau  extremo  de  controlo  sobre  as  tran¬ 
sacções.  Em  Rouen  arrastou-se  durante  meio  século  um  conflito  entre  os  cónegos  da 
catedral  e  o  governo  da  cidade  acerca  das  pretensões  do  clero  de  instalar  lojas  para 
mercadores  e  artesãos  num  terreno  adjacente  à  igreja181.  E  nas  cidades  de  criação 
recente  localizadas  nos  territórios  sujeitos  à  soberania  do  rei  de  Inglaterra,  o  senhor  a 


83  J.  Heers  <  1990)  258. 

84  M.  Beard  (1938)  61:  J.  Heers  (1974)  229;  D.  O.  Hughes  (1975)  6;  id.  (1977)  98;  J.  K.  Hyde 
(1966)  53;  A.  Jorís  (1959)  367:  J.  Lestocquoy  (1947)  6-7.  1 1;  J.  H.  Mundy  (1954)  45;  R.  Pemoud 
( 1948)  234:  F.  Rõrig  (1967)  24.  149;  P.  Strail  (1974)  34-35,  91.  127,  129. 

85  P.  Desportes  ( 1979)  58-59,  241;  M.  Heberl  (1979)  66:  J.  Heers  ( 1990)  258-259;  D.  O.  Hughes 
1 1975)  7:  id.  ( 1977)  98:  G.  Luzzaito  ( 1937)  29. 

K6  R.  de  Roover  ( 1948)  199;  M.  Mollai  et  al.  (1970)  21 1;  F  Rorig  (1967)  20-21. 

1(7  R.  de  Roover  (1948)  175,  199. 

**  A  coroa  francesa  cobrava  uma  taxa  sobre  todas  as  transacções  efectuadax  num  dado  mercado  de 
Paris,  concedendo  ao  bispo  um  terço  desta  receita,  que  devia  ser  tanto  mais  avultada,  observa  H. 
Kraus  ( 1979)  216  n.  35,  quanto  todos  os  retalhistas  e  artesãos  estavam  obrigados  a  fechar  as  suas  lojas 
três  dias  por  semana  para  irem  vender  a  esse  mercado.  No  princípio  do  período,  em  Vicnne,  junto  ao 
Ródano,  a  catedral  controlava  os  mercados,  conforme  indica  B  Bligny  (org.  1973)  1 10.  Em  Portugal, 
nas  cidades  de  Braga  e  do  Porto.  A.  H.  O.  Marques  (1965)  42  assegura  que  dignitários  eclesiásticos 
eram  proprietários  de  instalações  mercantis,  que  arrendavam  aos  comerciantes.  Em  Milão.  R.  S. 
Lopez  ( 1953  a)  27  escreve  que  o  mosteiro  de  Santo  Ambrósio  havia  recebido  do  soberano  parte  do 
terreno  do  principal  mercado  da  cidade  e  C.  Violante  (1953)  64-65  fornece  uma  versão  diferente, 
embora  não  contraditória,  afirmando  que  senhores  eclesiásticos  detinham  propriedades  em  tomo  do 
mercado  urbano  e  arrendavam-nas  a  comerciantes.  Todavia,  referindo-se  a  esta  cidade  no  final  do 
século  X,  J.  Lestocquoy  (1947)  6-7  e  II  pretende  que  os  negociantes  ocupavam  um  lugar  preponde¬ 
rante  e  que  eram  eles  os  proprietários  dos  terrenos  do  mercado. 

C.  Platt  (1976)  157. 

1)0  H.  Kraus  (1979)  181-182. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


501 


quem  se  devia  a  fundação  detinha  os  postos  de  venda  no  mercado  e  alugava-os  aos 
lojistas91.  O  mesmo  sucedeu  em  Portugal,  mas  num  nível  social  muitíssimo  superior,  já 
que  pelo  menos  durante  a  segunda  metade  do  século  XIII  e  no  primeiro  quartel  do 
século  seguinte  os  reis  eram  proprietários  de  numerosas  tendas,  que  alugavam  aos  mer¬ 
cadores  de  Lisboa92.  Os  senhores  e  os  monarcas  podiam  assim  intervir  mesmo  sobre  as 
transacções  miúdas  efectuadas  entre  gente  humilde,  e  esta  forma  de  integração  do 
comércio  nas  estruturas  íntimas  do  regime  senhorial  evidencia-se  de  maneira  talvez 
ainda  mais  flagrante  ao  sabermos  que  no  final  do  primeiro  quartel  do  século  XIII  o 
conde  de  Toulouse  concedeu  a  um  grupo  de  magarefes,  enquanto  senhoria  vassálica, 
lugares  de  venda  no  mercado92. 

Para  resumir  este  acervo  de  detalhes  convém  adoptar  uma  perspectiva  a  longo  prazo 
e  recordar  que  no  sistema  de  presentes,  a  cujos  termos  gerais  continuava  a  obedecer  a 
economia  deste  período,  a  pilhagem  e  a  transacçào  nunca  estiveram  muito  distantes. 
Assim  como  mostrei  já  (no  capítulo  lO.e)  a  dificuldade  de  delimitar  claramente  as 
expedições  mercantis  e  as  campanhas  de  saque,  também  a  guerra,  de  que  os  nobres  se 
pretendiam  os  únicos  especialistas,  não  se  separava  do  comércio  por  qualquer  barreira 
social  ou  ideológica94.  A  actividade  dos  nobres  e  a  dos  mercadores  inseriam-se  na 
mesma  estrutura  mental  e  obedeciam  a  modelos  de  comportamento  comuns,  podendo  a 
relação  vassálica  servir  de  quadro  conceptual  e  terminológico  às  relações  internas  das 
sociedades  comerciais95.  Chegou-se  ao  extremo  de  nalguns  lugares  o  vocabulário  jurí¬ 
dico  denominar  o  sócio  passivo  da  commenda  como  sendo  o  «dominas >■  ou  o  «sire» 
dos  fundos  da  sociedade96. 

Em  tudo  isto  a  conclusão  fundamental  é  que  nenhuma  exploração  senhorial  podia 
prosseguir  em  alheamento  do  mercado  e  do  crédito,  bem  como  não  era  possível  que 
qualquer  actividade  estritamente  mercantil  ou  bancária  prosperasse  sem,  ao  mesmo 
tempo,  adquirir  uma  base  fundiária.  E  se  sabemos  já  que  o  êxito  dos  negociantes  profis¬ 
sionais  os  levava  a  confundirem-se  com  a  classe  senhorial,  verificamos  agora  que  os 
senhores  teriam  sido  incapazes  de  manter  a  hegemonia  social  sem  participarem  nos  trᬠ
ficos  comerciais  e  mesmo  sem  adoptarem  os  procedimentos  mercantis97.  A  tal  ponto 


91  M.  Bereslord  (1967)  63. 

92  A.  H.  O.  Marques  (1965  )  42. 

1,5  J.  H.  Mundy  (1954)  110. 

94  B.  Z.  Kedar  (1976)  70  pretende  que  em  Génova  e  em  Veneza  era  possível  que  os  mercenários 
se  tivessem  também  dedicado  ocasionalmente  ao  comércio,  e  que  talvez  algumas  pessoas  alternassem 
entre  ambas  as  aetividades. 

95  Em  Veneza,  na  segunda  metade  do  século  XII,  a  propósito  da  relação  regular  e  habitual  entre 
um  sócio  passivo  pertencente  ao  estrato  superior  da  elite,  que  ocupara  aliás  o  cargo  de  doge,  e  um 
sócio  activo  que  era  um  mercador  importante,  G.  Cracco  (1967)  43-44  comenta  que  esta  situação 
obedecia  ao  modelo  do  vínculo  entre  um  senhor  superior  e  um  vassalo,  pois  o  sócio  passivo  não 
adiantava  apenas  fundos,  mas  assegurava  também  a  protecção  política  e  diplomática  do  seu  parceiro 
activo. 

96  Segundo  J.  H.  Pryor  ( 1977)  33-34.  era  o  que  sucedia  nos  estatutos  da  cidade  de  Toulouse  e  nos 
do  reino  de  Jerusalém,  e  igualmente  em  Ragusa.  a  Dubrovnik  dos  Eslavos,  na  área  de  influência  vene¬ 
ziana  da  Dalmácia. 

97  A  nobreza,  afirma  M.-A.  Ladero  Quesada  cm  R.  Sánchez  Saus  1 1989)  8,  manteve  a  sua  hege¬ 
monia  porque  foi  capaz  de  se  adaptar  ao  mundo  das  cidades. 


502 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


que  os  livros  de  contabilidade  das  grandes  senhorias  florenlinas  do  século  XV  revelam 
um  sistema  de  gestão  idêntico  ao  usado  pelos  homens  de  negócios,  com  a  produção 
organizada  tanto  para  o  autoconsumo  como  para  a  comercialização  e  com  o  estabeleci¬ 
mento  anual  de  saldos'*8.  Em  vez  de  ser  um  factor  de  desagregação  do  regime  senhorial, 
o  comércio  facilitou  o  desenvolvimento  interno  deste  regime  e,  portanto,  contribuiu 
para  a  sua  consolidação". 


,|!t  P.J.Jonesf  1968)  240. 

gg  M.-A.  Ladero  Quesada  em  R.  Sánchez  Saus  (1989)  8  resume  o  problema  quando  invoca  a 
necessidade  de  superar  os  velhos  conceitos,  herdados  da  historiografia  burguesa  liberal  do  século 
XIX,  que  contrapõem  o  mundo  da  nobreza  e  o  mundo  urbano.  Por  seu  lado,  A.  B  Hibbert  (1953)  17 
insiste  no  facto  de  o  comércio,  pelo  menos  neste  período,  em  vez  de  promover  a  dissolução  do  regime 
senhorial,  ter  contribuído  para  o  seu  desenvolvimento.  A  este  respeito  M.  Bloch  (1960-1961)  II  86-87 
revelou,  como  sempre,  uma  notável  acuidade  ao  observar  que  a  conversão  dos  serviços  de  trabalho 
em  tributos  e  a  redução  da  exploração  dominial  directa  tanto  se  podem  justificar  graças  ao  desenvol¬ 
vimento  de  uma  economia  mercantil  como,  pelo  contrário,  invocando  uma  redução  acentuada  do  mer¬ 
cado,  que  dificultava  a  venda  de  excedentes.  E  o  grande  historiador  acrescenta  (II,  p.  87)  que  quase 
todas  as  explicações  de  carácter  econômico  têm  um  sentido  duplo,  esclarecido  apenas  ao  estabelecer¬ 
mos  os  detalhes  cronológicos.  Só  a  cronologia,  escreve  Marc  Bloch,  pode  conferir  o  devido  peso  a 
cada  um  dos  múltiplos  factores.  Considerando  o  sucedido  em  Inglaterra.  E.  Miller  (1966)  133-134 
afirma  que  o  regime  senhorial  se  adaptou  às  necessidades  crescentes  de  comercialização  dos  produtos 
agrícolas  e  intensificou  a  produção  para  o  mercado.  A  exposição  mais  cabal  deste  ponto  de  vista 
deve-se  a  M.  Postan  (1937)  170-171  e  192-193,  quando  escreve,  ainda  a  respeito  da  Inglaterra,  que  o 
aumento  da  procura  comercial  de  géneros  agrícolas,  em  vez  de  ocasionar  a  dissolução  do  regime 
senhorial,  estimulou  a  exploração  directa  do  domínio,  levando  inclusivamente  os  senhores  a  aumentar 
a  requisição  de  serviços  de  trabalho.  Reciprocamente.  id.  (1938-1939)  162-163  pretende  que  o 
aumento  da  exploração  dominial  directa  leria  levado  ao  acréscimo  da  comercialização  de  produtos 
agrícolas,  enquanto  que  a  fragmentação  do  domínio  e  a  sua  atribuição  cm  parcelas  aos  camponeses 
teria  incentivado  o  autoconsumo  e  proporcionado,  portanto,  um  declínio  da  comercialização.  Assim, 
conclui  Michael  M.  Postan,  foram  os  grandes  senhores  quem  mais  directamentc  contribuiu  para  o 
crescimento  do  mercado  de  géneros  agrícolas.  Na  mesma  perspectiva.  G.  O.  Sayles  <  1948)  435  indica 
que  na  Inglaterra  do  século  XIII  a  monetarizaçào  das  prestações  foi  mais  frequente  nas  regiões  econo¬ 
micamente  retrógradas  do  que  naquelas  onde  o  comércio  era  próspero,  porque  os  detentores  de  gran¬ 
des  senhorias,  interessados  em  colocar  os  seus  produtos  no  mercado,  ampliaram  a  exploração  domi¬ 
nial  directa  através  da  exigência  de  serviços  de  trabalho.  Criticando  parcialmente  a  tese  defendida  por 
Postan.  E.  Kosminsky  (1955  bi  15-16  e  (1963)  72-75  argumenta  que  sc  deve  distinguir  entre  o 
começo  do  período,  quando  o  predomínio  dos  serviços  de  trabalho  e  dos  tributos  em  géneros  se  devia 
à  situação  inteiramente  marginal  ocupada  pelo  comércio,  e  uma  época  posterior,  quando  aparecera  já 
um  extenso  mercado  para  os  produtos  agrícolas,  em  especial  os  cereais.  Abordando  outra  faceta  da 
crítica,  id.  ( 1956)  276-277  sublinhou  que  o  mercado  era  menos  necessário  às  grandes  senhorias  do 
que  às  pequenas,  já  que  estas  não  podiam  organizar  a  divisão  do  trabalho  em  grande  escala  e  tinham 
de  dedicar  uma  maior  percentagem  do  seu  rendimento  monetário  total  à  reprodução  da  economia 
dominial,  sendo-lhes  para  isso  indispensável  recorrer  ao  mercado.  Pelo  contrário,  para  M.  M.  Postan 
( 1978  a)  178-179  quanto  menor  fosse  uma  propriedade  menos  beneficiava  das  relações  com  o  mer¬ 
cado.  Em  suma.  Evguéni  A.  Kosminsky  conclui,  em  ( 1963)  76,  que,  embora  a  grande  exploração 
dominial  baseada  na  requisição  de  serviços  de  trabalho  e  lançando  no  comércio  a  maior  parte  da  sua 
produção  tivesse  desempenhado  um  papel  importante  na  Inglaterra  do  século  XIII,  este  papel  não 
deve.  ser  exagerado  e  os  tributos  monetários  dos  caseiros  predominaram  sobre  a  venda  dos  produtos 
dominiais.  sendo  o  mercado  abastecido  sobretudo  pelas  parcelas  camponesas  Note-se  que  Kosminsky 
antecipou  a  análise  de  Postan,  pois  em  í 1934-1935)  40  e  42-44  o  reputado  historiador  soviético  obser¬ 
vara  que  no  século  XIII.  em  Inglaterra,  a  difusão  dos  serviços  de  trabalho  ocorria  preferencialmonte 
nas  regiões  onde  era  mais  considerável  a  produção  destinada  ao  mercado,  e  pusera  em  relevo  o  facto 


As  relações  pecuniários  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


503 


b.  A  Igreja  perante  o  crédito 

Numerosíssimos  historiadores  invocam  argumentos  de  carácter  ideológico  para 
fazer  crer  que  existiria  um  antagonismo  entre  os  critérios  imperantes  nos  negócios  e 
os  comportamentos  e  valores  culturais  preconizados  pela  sociedade  senhorial.  Preten¬ 
dem  estes  autores  que  a  doutrina  da  Igreja  se  oporia  à  cobrança  de  juros  e  que.  por¬ 
tanto,  não  só  tornaria  ilegítimas  as  operações  bancárias  mais  frutuosas,  como  ergueria 
severas  limitações  ao  desenvolvimento  da  actividade  mercantil,  o  qual  era  impossível 
sem  a  prática  do  crédito.  Daí  que  eles  expliquem  muitas  das  formas  assumidas  pelo 
crédito  neste  período,  sem  dúvida  estranhas  para  quem  as  analise  consoante  uma  pers¬ 
pectiva  capitalista,  como  tentativas  de  esconder  o  juro  e  escapar  à  condenação  ecle¬ 
siástica100.  Alguns  destes  historiadores,  não  hesitando  perante  o  mais  flagrante  para- 


de  as  exacções  em  trabalho  se  terem  adaptado  à  comercialização  da  produção  dominial.  Outro  histo¬ 
riador  soviético  considerou  também  o  comércio  como  um  factor  de  desenvolvimento  do  regime 
senhorial.  S.  Skazkine  (1963),  além  de  situar  (pp.  191  e  segs.)  a  passagem  do  feudalismo  -  para 
empregar  a  terminologia  do  marxismo  ortodoxo  -  ao  capitalismo  numa  data  muito  mais  tardia  do  que 
a  proposta  pela  generalidade  dos  autores,  aconselha  (pp.  201-202)  a  analisar  com  mais  atenção  do  que 
tem  sido  habitual  a  fase  em  que  as  relações  de  produção  feudais  se  adaptaram  às  relações  pecuniárias 
e  comerciais  e  favoreceram  a  sua  evolução,  sem  que  no  entanto  se  tivesse  atingido  o  estádio  do  assa- 
lariamemo  generalizado.  Seguindo  uma  perspectiva  contrária,  A.  Cunhal  (1963)  108-109,  depois  de 
admitir  que  a  nobreza  niral  portuguesa  praticava  o  comércio,  chega  à  inesperada  conclusão  de  que  ela 
agudizava  assim  as  suas  pretensas  contradições  com  os  comerciantes,  em  vez  de  reconhecer  que  se 
operava  um  processo  de  fusão  entre  a  aristocracia  dos  campos  e  a  elite  mercantil  das  cidades. 

100  Em  termos  gerais.  S.  Homer  ( 1963)  71  pretende  que  certas  modalidades  de  crédito  se  desen¬ 
volveram  com  o  objeetivo  de  contornar  a  proibição  eclesiástica  da  usura  e  R.  S.  Lopez  (1963)  307 
assegura  que  os  negociantes  recorriam  a  múltiplas  formas  de  dissimular  o  juro.  A  mesma  tese  é 
defendida  em  id.  et  al.  ( 1953)  162- 163  e  212.  Decerto  Roberto  Sabatino  Lopez  mudou  depois  de  opi¬ 
nião.  pois  em  1 1979)  22  considera  que  as  consequências  psicológicas  e  práticas  da  condenação  reli¬ 
giosa  da  usura  nunca  opuseram  obstáculos  apreciáveis  ao  crescimento  das  instituições  de  crédito.  A. 
Joris  (1959)  326  escreve  que  os  cambistas  de  Huy  emprestavam  dinheiro  a  juros  mas  camuflavam 
estas  operações  sob  a  aparência  de  contratos  fictícios  e,  referindo-se  à  Itália.  Y.  Renouard  (1949)  75 
explica  certos  tipos  de  contrato  através  da  necessidade  de  esconder  o  juro.  Um  dos  especialistas  a 
sustentar  de  maneira  sistemática  que  a  perseguição  da  usura  pela  Igreja  levara  à  necessidade  de  ocul¬ 
tar  a  prática  do  credito  é  R.  de  Roover,  com  a  tese  de  que  sem  isto  a  letra  de  câmbio  não  teria  benefi¬ 
ciado  de  uma  tão  vasta  difusão:  (1948)  53-54;  (1953)  1 1,  19-21,37,44-45.  55,  145:  (1974)  185,  187. 
210-211.  236-237.  E  para  id.  (1948)  305-306  e  ( 1974)  137-138,  198,  201-202,  240-241, 250  e  segs.  a 
condenação  da  usura  teria  suscitado  o  recurso  a  outras  práticas  bancárias  e  comerciais,  igual  mente 
destinadas  a  dissimular  o  juro.  Aliás,  já  A.  P.  Usher  ( 1932-1934)  415  defendera  que  a  grande  divul¬ 
gação  das  letras  de  câmbio  se  devia  ao  facto  de  elas  permitirem  escapar  à  proibição  canónica  da 
cobrança  de  juros.  Ver  no  mesmo  sentido  Roberto  Sabatino  Lopez  e  irving  W.  Kaymond  em  op.  cit., 
162-163  e  Yves  Renouard  em  op.  <  167  Embora  aceitando  como  certo  que  a  proibição  da  usura 

fosse  aplicada  universalmente  e  tivesse  influenciado  a  prática  bancária.  J.  H.  Munro  ( 1979)  169  e  171 
critica  a  tese  defendida  por  Raymond  dc  Roover  com  o  argumento  de  que,  para  contornar  as  exigên¬ 
cias  doutrinárias,  existiam  então  meios  mais  simples  e  mais  eficazes  do  que  as  letras  de  câmbio.  E  J. 
Day  (1994)  119  garante  que  os  negociamos  dc  longo  curso  usaram  com  regularidade  as  letras  de 
câmbio  porque  necessitavam  dc  moeda  estrangeira,  e  não  por  sofrerem  quaisquer  escrúpulos  de 
ordem  religiosa.  Por  ouiro  lado,  que  devemos  pensar  ao  vermos  B.  Blumenkranz  1 1960)  346  n.  255 
admitir  que  os  Judeus  -  e  logo  eles!  se  sentiam  muitas  vezes  obrigados  a  dissimular  as  ttansacções 
sob  a  forma  de  um  empréstimo  contra  penhores  ’  Para  uns  autores,  os  empréstimos  assumiam  a  más¬ 
cara  de  uma  compra  c  venda,  para  outros  eram  as  compras  e  vendas  a  esconder  se  por  detrás  dc 


504 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


doxo,  afirmam  mesmo  que  membros  do  clero,  estabelecimentos  religiosos  e  Ordens 
Militares101,  até  o  próprio  papado102,  dissimulavam  as  suas  operações  de  crédito  para 
não  incorrerem  nas  sanções  da  Igreja,  um  pouco  como  se  estivessem  a  esconder-se  da 


empréstimos,  quando  o  que  na  realidade  ocorria  era  a  profunda  relação  entre  iodos  estes  tipos  de  ope¬ 
ração  económica. 

É  sem  dúvida  irónico  que  Raymond  de  Roovere  outros  historiadores  expliquem  a  difusão  da  letra 
de  câmbio  com  o  argumento  de  que  os  negociantes  conseguiam  assim  ultrapassar  a  proibição  eclesiás¬ 
tica  da  usura,  e  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  180-181  mostre  que,  na  época  em  que  as  letras  surgiram,  os 
comentadores  eram  unânimes  em  reconhecer  que  a  lei  canónica  condenava  todas  as  transacções  a  cré¬ 
dito  que  envolvessem  lucro,  mesmo  quando  assumiam  a  forma  cambial.  Além  disso,  segundo  leio  em 
A.  Vauchez  (1992)  217.  Roberto  de  Courçon,  um  dos  pioneiros  na  distinção  entre  usura  e  juro  legi¬ 
timo.  tentara  evitar  que  as  suas  subtilezas  doutrinárias  servissem  de  pretexto  a  práticas  ilícitas.  As 
modalidades  de  crédito  em  que  não  se  fazia  menção  do  juro,  apesar  de  ele  ser  cobrado,  não  se  destina¬ 
vam  a  iludir  a  proibição  da  usura,  pondera  muito  sensatamente  M.  Beard  (1938)  1 32,  porque  a  Igreja 
conhecia  bem  estes  tipos  de  empréstimo.  Na  realidade,  e  como  afirma  J.  Le  Goff  ( 1979)  25,  os  méto¬ 
dos  de  negócio  modernos  não  tiveram  na  sua  origem  qualquer  necessidade  de  contornar  os  ditames 
eclesiásticos.  Note-se  que  a  tese  dos  historiadores  que  atribuem  a  difusão  de  certos  tipos  de  crédito  ao 
desejo  de  dissimular  a  cobrança  de  juros  fica  inteiramente  desprovida  de  validade  se  aceitarmos  a  opi¬ 
nião  de  John  T.  Noonan  Jr.  em  op.  cit.,  32  e  100,  para  quem  os  teólogos,  ao  introduzirem  a  intenção 
subjectiva  na  definição  da  usura,  bastando  o  desejo  de  obter  um  ganho  com  o  empréstimo  para  conde¬ 
nar  o  mutuante,  estariam  precisamente  a  impedir  que  a  usura  se  camuflasse  sob  a  aparência  de  outros 
contratos,  Este  especialista  acrescenta  (pp.  95-98)  que  os  empréstimos  apresentados  como  transacções 
eram  considerados  usura  pelos  escolásticos.  Todavia,  não  me  parece  que  a  posição  defendida  por  John 
Noonan  a  este  respeito  esteja  correcta,  como  explico  na  n.  174.  Aliás,  e  muito  paradoxalmente,  este 
historiador  admite  (p.  155)  que  a  difusão  da  rente  eonstituée  se  pudesse  ter  devido  aos  obstáculos 
erguidos  pela  Igreja  perante  os  empréstimos  a  juros. 

""  Seria  para  contornar  as  prescrições  eclesiásticas  que  a  Ordem  Teutónica  apresentaria  a  sua 
actividade  mutuante  sob  a  forma  de  rendas,  garante  J.  Piquet  ( 1939)  246.  Também  R.  Génestal  ( 1901 ) 
80-81  assegura  que  em  algumas  regiões,  das  quais  exclui  a  Normandia  (pp.  81.  84-85),  as  abadias 
recorreram  a  subterfúgios  legais  para  iludir  as  disposições  canónicas  que  proibiam  o  mort-gage.  Na 
mesma  perspectiva,  A.  Bouton  (1975-1976)  II  619  considera  que  no  Maine,  durante  o  século  XIII,  os 
estabelecimentos  eclesiásticos  e  as  Ordens  Militares  evitavam  a  interdição  da  usura  quando  adianta¬ 
vam  empréstimos  aos  senhores  que  se  dispunham  a  partir  para  a  Terra  Santa;  e  C.  B.  Bouchard  ( 1987 ) 
223  sustenta  que  também  no  ducado  da  Borgonha  os  mosteiros  de  Cister  recorriam  a  formas  disfarça¬ 
das  de  crédito  contra  penhores  fundiários,  de  maneira  a  não  incorrerem  na  proibição  religiosa  da 
usura.  Na  Itália.  Y.  Renouard  ( 1949  )  70  pretende  que  os  banqueiros  dissimulavam  o  juro  nos  emprés¬ 
timos  que  adiantavam  à  Igreja.  Em  sentido  idêntico,  L.  Zanoni  (1970)  170.  187  e  189-190  apresenta 
os  Umiliati  dedicando-se  sistematicamente  a  ocultar  o  juro  nos  muitos  empréstimos  a  que  procediam, 
malgrado  os  membros  desta  Ordem  terem  desempenhado  um  papel  significativo  na  reforma  religiosa. 
E  nada  pode  revelar  melhor  o  absurdo  de  tais  teses  do  que  o  raciocínio  de  C.  Violante  1 1962)  147-148 
e  437  e  segs.,  para  quem  o  facto  de  em  Milão,  no  século  XI.  o  crédito  concedido  contra  penhores  imó¬ 
veis  se  dever  sobretudo  a  estabelecimentos  eclesiásticos  e  ser  efecluado  por  meio  de  clérigos  consti¬ 
tuiria  um  motivo  suplementar  para  esconder  a  usura  Em  Inglaterra,  onde  os  clérigos  que  ascendiam  a 
lugares  de  relevo  na  administração  financeira  do  rei,  especialmente  os  bispos,  aproveitavam  todas  as 
oportunidades  para  adiantar  empréstimos,  R.  H.  Bowers  ( 1983)  65-67  considera-os  mestres  em  artifí¬ 
cios  para  dissimular  a  usura.  Também  em  Inglaterra,  M.  Prestwich  ( 1979)  92  admite  que  as  compras 
antecipadas  de  lã  efectuadas  pelos  negociantes  italianos  aos  mosteiros  no  final  do  século  XIII  e  no 
começo  do  século  seguinte  fossem  na  realidade  empréstimos  dissimulados,  para  evitar  o  estigma  da 
usura, 

1,12  Com  toda  a  seriedade,  G.  Olsen  (1969-1970)  46  e  Y.  Renouard  (1941)  536  pretendem  que, 
para  não  violar  as  normas  religiosas,  a  tesouraria  papal  se  esforçava  por  disfarçar  a  existência  de  juros 
nas  suas  relações  financeiras  com  os  negociantes  italianos,  e  isto  apesar  de  serem  cies  os  credores. 


,4a  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


503 


própria  sombra.  Na  verdade,  são  precisamente  casos  como  estes  a  provar  de  maneira 
indubitável  que  neste  período  os  mecanismos  do  crédito  se  explicam  enquanto  modali¬ 
dades  do  mundium,  tal  como  procurei  mostrar  (nos  capítulos  5.b  e  7.e).  Os  emprésti¬ 
mos  e  os  seus  efeitos  sociais  estavam  ainda  muito  próximos  das  relações  de  clientela 
decorrentes  da  esmola  ou  da  troca  desigual  de  presentes.  E  vimos  também  (no  capítulo 
lO.b)  que  aquilo  que  hoje  pode  parecer  uma  dissimulação  do  juro  no  meio  mercantil 
resultava  apenas  do  facto  de  o  crédito  não  constituir  então  uma  actividade  específica  e 
estar  estreitamente  associado  a  outras  operações  comerciais10'1.  Na  Lituânia  do  século 
XVI,  por  exemplo,  sabemos  que  perdurava  uma  grande  confusão  prática  entre  a  doa¬ 
ção.  a  troca  e  o  empréstimo104,  mas  muitos  autores,  ao  depararem  com  uma  situação  do 
mesmo  tipo  no  regime  senhorial,  em  vez  de  a  interpretarem  como  um  indício  da  estru¬ 
tura  económica,  preferem  explicações  fortuitas. 

A  crítica  às  teses  defendidas  por  aqueles  historiadores  não  deve  processar-se.  toda¬ 
via,  apenas  de  maneira  indirecta  ou  no  plano  geral,  já  que  se  podem  invocar  vários 
argumentos  de  carácter  tanto  teórico  como  prático  relativos  à  própria  Igreja.  Antes  de 
mais,  convém  observar  que  a  proibição  de  cobrar  juros  nos  empréstimos  estava  prevista 
pelas  três  grandes  religiões  mediterrânicas105,  pelo  menos  no  que  dizia  respeito  às  rela¬ 
ções  entre  fiéis  da  mesma  crença100.  Uma  abordagem  global  do  assunto  deveria,  por¬ 
tanto,  ir  muito  além  do  regime  senhorial.  Mas  não  posso  ter  aqui  esta  ambição  e  vou 
cingir-me  a  objectivos  mais  limitados. 

A  tradição  bíblica  limitava-se  a  condenar  a  usura  nas  relações  entre  irmãos  e  admitia 
que  ela  se  aplicasse  a  estranhos107.  Fora  esta  a  posição  adoptada  na  época  carolíngia, 
quando  se  renovara  a  proibição  do  crédito  usurário  entre  Cristãos,  tanto  eclesiásticos 


1(0  As  formas  comuns  de  transacção  neste  período,  observa  B.  N.  Nelson  (1947)  104-105.  surgi¬ 
ram  por  necessidades  próprias,  e  não  como  usura  dissimulada.  É  particulannente  interessante  o  suce¬ 
dido  em  Toulouse,  onde  M.  Castaing  (1953-1954)  275  informa  que  em  certos  casos  estava  previsto 
um  juro  em  géneros  para  um  empréstimo  realizado  em  dinheiro,  podendo  aliás  ocorrer  também  o 
inverso;  ora,  aquela  modalidade,  que  alguns  autores  consideram  como  um  meio  de  iludir  a  proibição 
eclesiástica  da  usura,  registou-se  em  Toulouse  durante  a  fase  em  que  os  empréstimos  a  juros  eram 
livremente  praticados  e  beneficiavam  mesmo  da  protecção  legal,  como  esclarece  id.,  ibid.,  273-274  e 
276.  Embora  admita  que  o  crédito  a  curto  prazo  tivesse  muitas  vezes  adoptado  formas  destinadas  a 
esconder  o  juro,  recorrendo  por  exemplo  às  vendas  a  crédito,  M.  M  Postan  (1954)  71-72  e  74  escreve 
que  noutros  casos,  também  frequentes,  estas  modalidades  se  deviam  ao  facto  de  os  comerciantes  dis¬ 
porem  mais  facilmente  de  bens,  em  especial  propriedades  fundiárias,  do  que  de  dinheiro.  Por  outro 
lado.  como  aponta  A.  Chedeville  í  1974)  3 1 7.  no  mort-gage  o  juro  nunca  era  indicado,  visto  que  cor¬ 
respondia  ao  rendimento  do  penhor.  Finalmente.  R.  W.  Kaeuper  (1973)  119  explica  que  o  facto  de 
ignorarmos  se  Eduardo  I  da  Inglaterra  pagava  juros  à  companhia  dos  Riccardi  não  se  deve  apenas  à 
proibição  eclesiástica  da  usura,  mas  igualmente  às  técnicas  de  contabilidade  então  usadas. 

104  J.  Bardach  (197 1)714. 

105  R.  S.  Lopez  (1974)  108. 

lt)A  1.  A.  Agus  (1965)  310  e  segs..  445;  S.  Homer  (1963)  71:  G.  Nahon  1 1969)  1 125  e  n.  1:  B.  N. 
Nelson  ( 1949)  xvi-xvii. 

G.  Nahon  ( 1969)  1 125  esclarece  que  na  documentação  por  ele  consultada,  relativa  aos  emprésti¬ 
mos  realizados  por  judeus  em  França  durante  o  século  XIII,  os  mutuários  eram  sistematicamente  cris¬ 
tãos,  e  acrescenta  que,  embora  a  proibição  rabínica  do  crédito  a  juros  entre  Judeus  nem  sempre  tivesse 
sido  respeitada  neste  período,  os  documentos  não  revelam  qualquer  transgressão. 

107  B.  N.  Nelson  ( 1949)  xvi-xvii. 


506 


Articularão  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  do  dinheiro 


corno  laicos108,  talvez  numa  vã  tentativa  de  impedir  que  os  derradeiros  camponeses 
independentes  ficassem  definitivamente  arruinados  pela  interesseira  generosidade  dos 
senhores109.  No  período  que  estou  agora  a  considerar,  é  possível  que  as  ambições  uni- 
versalistas  da  Igreja  não  se  revelassem  já  compatíveis  com  uma  divisão  deste  tipo  e  por 
isso  se  pretendesse  impor  ao  relacionamento  com  os  infiéis  as  mesmas  normas  de  con¬ 
duta  que  vigoravam  no  interior  da  Cristandade1 10  Mas  parece-me  que  as  condições  prᬠ
ticas  teriam  pesado  com  mais  força  do  que  as  meras  considerações  ideológicas.  Quando 
sabemos  que  na  passagem  do  século  XII  para  o  século  seguinte  os  negociantes  da  Itália, 
da  França  meridional  e  da  Catalunha,  ao  mesmo  tempo  que  obtinham  bons  lucros  colabo¬ 
rando  na  organização  de  uma  nova  peregrinação  armada  -  convocada  contra  o  Egipto  e 
que  acabou  por  tomar  e  saquear  Constantinopla  -  invocavam  a  Bíblia  para  fornecer 
empréstimos  a  juros  precisamente  aos  presumidos  inimigos  muçulmanos111,  verificamos 
que  o  âmbito  tradicionalmente  admitido  para  a  usura  não  podia  já  ter  o  aval  de  um  regime 
que,  extemamente,  estava  em  expansão  e  que,  intemamente,  integrara  as  antigas  comuni¬ 
dades  mercantis  estrangeiras  graças  ao  enorme  desenvolvimento  da  actividade  comercia! 
autóctone.  Num  contexto  tão  contraditório,  a  Igreja  via-se  na  necessidade  de  reformular  a 
proibição  da  usura.  Desde  o  século  XI  que  alguns  comentadores  canónicos  começaram  a 
prestar  atenção  ao  problema  e  o  importante  teólogo  e  escolástico  Anselmo  de  Cantuária. 
Santo  Anselmo,  italiano  de  origem,  que  viveu  no  segundo  e  no  terceiro  terços  desse 
século,  foi  o  primeiro  a  assimilar  a  usura  ao  roubo1 12.  inaugurando  uma  posição  adoptada 
nos  séculos  XII  e  XIII  por  outros  autores  muito  influentes1  nomeadamente  Pedro 
Lombardo114.  A  hierarquia  religiosa  começou  a  seguir  o  mesmo  ponto  de  vista,  e  em 
1 139  o  segundo  concílio  de  Latrâo  procedeu  a  uma  condenação  geral  da  usura1  L\  dando 
início  a  uma  longa  série  de  exortações  e  proibições1  lf>.  Mas  o  que  era  a  usura? 

São  frequentes  os  mal-entendidos  a  respeito  das  doutrinas  defendidas  pelas  autorida¬ 
des  religiosas.  A  sua  concepção  de  usura  era  muito  mais  restrita  do  que  normalmente  se 
julga  e.  na  sequência  do  que  o  direito  romano  fizera  já,  os  teólogos  e  os  juristas  da  Igreja 
vieram  progressivamente  a  considerar  usurário,  e  portanto  ilegítimo,  apenas  o  lucro 
resultante  de  contratos  formais  de  empréstimo,  admitindo  como  legítimo  o  lucro  decor¬ 
rente  de  uma  sociedade  em  que  eram  partilhados  o  risco  ou  os  fundos' 1 '.  Isto  correspon¬ 
dia  a  legitimar  até  a  commenda,  pois  o  facto  de  o  sócio  passivo  entrar  com  a  totalidade 
dos  fundos  expunha-o  a  um  risco  comercial  e,  se  a  operação  não  resultasse  e  houvesse 
prejuízos,  era  ele  quem  suportava  inteiramente  a  responsabilidade118.  Neste  período. 


108  Id.,  ibkl,  7;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  15-16. 

109  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  13. 

110  É  esta  a  perspectiva  adoptada  por  B.  N.  Nelson  (1949)  xvii-xviii. 

1)1  ld„  ibid..  7. 

1 12  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  17. 

B.  N.  Nelson  (1949)  10-16;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  17. 

114  B.  N.  Nelson  (1949)  9;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1 957 )  17. 

115  S.  Homer  (1963)  70;  B.  N.  Nelson  (1949)  9;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  18. 

118  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  18-20.  41  e  segs.;  Y.  Renouard  ( 1949)  70. 

117  S.  Homer  ( 1963)  75;  B.  N.  Nelson  (1947)  104,  i.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  1 33  e  segs..  151;  K.  L. 
Reyerson  (1985)  10;  A.  Vaucliez  (1992)  215. 

1,8  K.  L.  Reyerson  (1985)  10-1 1.  A  este  respeito  ver  ainda  a  n.  63  do  capítulo  10. 


,4í  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


507 


através  de  sucessivas  aproximações  e  na  sequência  das  interpretações  pioneiras  do 
legado  papal  Roberto  de  Courçon,  a  Igreja  começou  a  estabelecer  uma  diferença  entre  a 
usura,  que  continuava  a  ser  considerada  ilícita,  e  o  juro,  que  era  legitimado  enquanto 
indemnização  de  uma  despesa  praticada  pelo  mutuante  ou  de  um  prejuízo  por  ele 
sofrido,  incluindo  prejuízos  resultantes  de  qualquer  atraso  no  reembolso  de  um  emprés¬ 
timo119.  E  quando  esta  concepção  passou  a  abarcar  o  lucro  que  o  credor  poderia  ter 
obtido  se  a  soma  que  adiantara  tivesse  sido  aplicada  de  outra  maneira,  por  exemplo  no 
comércio120,  o  caminho  ficou  aberto  para  admitir  a  validade  dos  negócios  baseados  em 
investimentos.  Houve  mesmo  comentadores  eclesiásticos  a  aceitar  que,  em  certas  cir¬ 
cunstâncias,  o  juro,  considerado  enquanto  indemnização,  devesse  ser  autorizado  desde  o 
começo  do  empréstimo,  como  compensação  pelo  tempo  e  o  esforço  despendidos  a  reunir 
os  fundos  e  a  proceder  à  operação121.  Com  tal  perspectiva,  não  espanta  que  os  contratos 
de  seguro  fossem  permitidos  pelas  autoridades  canónicas,  que  os  apresentavam  como 
uma  prestação  de  serviços  mediante  um  dado  preço122,  quando  na  realidade,  e  como  tive 
já  ocasião  de  expor  (no  capítulo  I0.b.3),  se  tratava  de  uma  modalidade  de  crédito,  em  que 
o  adiantamento  de  fundos  estava  implícito  no  facto  de  o  segurador  se  encarregar  dos 
riscos  e  em  que  o  juro  assumia  a  forma  do  prémio. 

Estas  formulações  correspondiam,  afinal,  a  autorizar  os  tipos  de  empréstimo  a  longo 
prazo  efectuados  comummente  pelos  estabelecimentos  eclesiásticos  e  os  tipos  de  crédito 
incluídos  na  actividade  normal  dos  negociantes,  distinguindo  entre  o  que  os  especialis¬ 
tas  hoje  denominam  crédito  ao  investimento  e  crédito  ao  consumo12 -.  É  muito  elucida¬ 
tiva  a  argumentação  inovadora  que  Inocêncio  IV,  canonista  prestigiado  e  pontífice  nos 
meados  do  século  Xlll,  empregou  para  condenar  a  usura,  afirmando  que,  se  ela  fosse 
permitida,  todos  os  ricos  prefeririam  aplicar  o  seu  dinheiro  de  maneira  segura  em 
empréstimos  usurários  e  abandonariam  os  investimentos  na  agricultura  e  na  pecuária,  o 
que  provocaria  uma  miséria  geral124.  Assim,  este  papa  atacou  a  actividade  usurária 
recorrendo  a  uma  perspectiva  estritamente  empresarial  e  desenvolvimentista.  No 
decurso  do  período,  a  Igreja  foi  gradualmente  dando  o  seu  acordo  aos  empréstimos 
necessários  ao  prosseguimento  dos  negócios,  e  como  os  escolásticos  não  se  ocuparam 


119  N.  Guglielmi  (1986)  51.  52;  S.  Homer  (1963)  73,  74;  A.  Vauchez  (1992)  217. 

1:0  S.  Homer  ( 1963)  73.  74;  P.  Spufford  (1986)  xlv. 

S.  Homer  (1963)  74.  Ver  ainda:  N.  Guglielmi  ( 1986)  51. 

'"S.  Homer  (1963)  75. 

No  entanto,  segundo  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957  )  136  e  segs..  os  escolásticos  e  os  canonistas  levanta¬ 
vam  objecções  ao  farmts  nauticum.  c  M.  Balard  (1978)  613  e  H.  E.  Mayer  (1972)  174  indicam  que  o 
empréstimo  marítimo  era  denunciado  como  usura  pela  Igreja. 

I’-  Para  uma  crítica  ao  emprego  destas  duas  categorias  de  crédito  na  análise  do  regime  senhorial 
ver  a  n.  47  do  capítulo  5.  S.  Homer  (1963)  70-71  mostra  que  os  empréstimos  censurados  pela  Igreja 
obedeciam  ao  modelo  do  crédito  ao  consumo;  de  inicio,  acrescenta  (p.  74)  este  autor,  os  empréstimos 
eram  considerados  como  gestos  de  caridade.  Também  N.  Guglielmi  (1986)  51  afirma  que  o  juro  era 
tido  como  ilícito  nos  empréstimos  ao  consumo,  mas  permitido  no  crédito  ao  investimento.  Nesta  pers¬ 
pectiva,  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  13  considera  a  hipótese  de  que  a  oposição  eclesiástica  à  usura  nos 
séculos  XII  c  Xlll  se  tivesse  destinado  a  impedir  o  estrangulamento  do  comércio  pelo  pequeno 
número  de  detentores  de  fundos  líquidos.  Note-se  que.  segundo  R.  S.  Lopez  (1979)  22.  a  moral  cor¬ 
rente  admitia  a  existência  de  uma  diferença  entre  o  crédito  ao  consumo  e  o  crédito  nos  negócios. 

124  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)49. 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


508 


com  depósitos  bancários,  com  saques  a  descoberto  e  com  alguns  outros  tipos  de  criação 
pecuniária  inseridos  na  Forma  III  do  dinheiro,  nesta  esfera  ficou  implicitamente  admi¬ 
tida  toda  a  latitude  de  utilização125.  Finalmente,  e  embora  gerando  alguma  controvérsia, 
houve  no  século  XIII  moralistas  que  começaram  a  justificar  certos  aspectos  da  activi- 
dade  dos  cambistas126,  até  que,  a  partir  do  século  XV,  as  próprias  letras  de  câmbio 
foram  autorizadas  pela  Igreja.  Não  assumindo  a  forma  exterior  de  um  empréstimo,  as 
letras  de  câmbio  podiam  não  se  tomar  alvo  da  condenação  da  usura,  e  como  o  lucro  que 
rendiam  era  variável  e  incerto,  definido  por  uma  taxa  cambial  futura,  era  possível  não  o 
classificar  como  juro127.  A  nova  doutrina  supunha  uma  remodelação  interna  das  concep¬ 
ções  relativas  ao  sistema  de  troca  de  presentes,  de  modo  a  adequá-lo  ao  contexto  econó¬ 
mico  surgido  com  o  poder  impessoal.  A  oposição  inicial  ao  dinheiro  enquanto  instru¬ 
mento  de  negócios,  que  caracterizara  a  mentalidade  religiosa  no  período  anterior,  aca¬ 
bou  por  se  transformar  numa  ideologia  desenvolvimentista,  que  atacava  o  crédito  a  curto 
prazo  por  considerá-lo  prejudicial  para  a  difusão  do  crédito  destinado  a  investimentos  a 
mais  longo  prazo128. 

Os  escolásticos  e  os  canonistas  não  levantavam  qualquer  objecção  ao  lucro,  en¬ 
quanto  ganho  devido  à  actividade  empresarial  dos  negociantes129,  e  pelo  menos  desde  o 
início  do  século  XII  ele  era  regido  pela  doutrina  do  justo  preço130.  O  justo  preço  defi¬ 
nia-se,  afinal,  como  o  preço  de  mercado,  sendo  fixado  pela  relação  entre  a  oferta  de  um 
dado  bem  e  a  sua  procura,  entendida  de  maneira  subjectiva,  enquanto  necessidade  que 


125  S.  Homer  (1963)  76;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  173. 

1:6  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  1 82  e  segs. 

A.  Vauchez  ( 1992)  215  afirma  que  o  câmbio  era  considerado  lícito  desde  que  se  respeitassem  cer¬ 
tas  normas.  Mais  detalhadamente.  G.  Olsen  ( 1969-1970)  59  n.  18  cont.  indica  que  foi  Godofredo  de 
Trani,  activo  na  primeira  metade  do  século  XIII.  quem  inaugurou  a  tese  de  que  o  camhium  se  distin¬ 
guia  do  miituum.  ou  seja,  do  empréstimo  caracterizado,  e  que  por  isso  ele  constituía  um  contrato  legí¬ 
timo.  Nas  questões  cambiais,  segundo  R.  de  Roover  1 1 948)  71  n.  40.  a  Igreja  defendia  que  o  justo 
preço,  enquanto  preço  de  mercado,  era  a  taxa  de  câmbio.  E  K.  L.  Reyerson  (1985)  108  explica  que  as 
flutuações  do  curso  das  moedas  implicavam  suficientes  riscos  para  que  os  ganhos  resultantes  do  con¬ 
trato  de  câmbio  clássico  não  fossem  considerados  usura  pelos  escolásticos. 

127  R.  de  Roover  (1948)  53-54;  S.  Homer  (1963)  77-78;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  180,  185  e  segs. 

Recorde-se  que,  segundo  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  180-181,  na  época  em  que  as  letras  de  câmbio 

surgiram  os  comentadores  eram  unânimes  em  reconhecer  que  a  lei  canónica  condenava  todas  as  tran- 
sacções  a  crédito  que  envolvessem  lucro,  mesmo  se  assumissem  a  forma  cambial.  Aliás,  P.  Spufford 
( 1986)  xlv  afirma  que  ainda  no  final  do  século  XIV  alguns  escolásticos  encaravam  com  suspeita  todas 
as  operações  com  letras  de  câmbio,  e  não  apenas  o  câmbio  seco.  A  respeito  desta  última  modalidade 
cambial  ver  a  n.  294  do  capítulo  10. 

128  A.  Sapori  ( 1946)  196  chama  a  atenção  para  o  facto  de  a  doutrina  de  Tomás  de  Aquino  diferir 
das  anteriores  apologias  da  pobreza  e  constituir  uma  justificação  do  lucro,  desde  que  ele  fosse  man¬ 
tido  dentro  de  certos  limites. 

129  J.  Gilchrist  <  1969)  61-62:  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  31-32:  A.  Vauchez  (1992)  215-216. 

1,0  Enquanto  conceito  canónico,  o  justo  preço  data  do  início  do  século  XII,  não  tendo  sido 
empregue  pelos  primeiros  canonistas,  afirma  J.  Gilchrist  (1969)  59:  e  este  especialista  acrescenta 
que  o  conceito  de  justo  preço  teve  origem  no  renascimento  do  direito  romano  operado  nesse  século. 
Todavia.  R.  S.  Lopez  em  Centro  Italiano  di  Studi  sulfAlto  Medioevo  (1961)  339  esclarece  que 
aquele  conceito  aparece  formulado  pela  primeira  vez  num  texto  de  879.  Mas  pode  talvez  admitir-se 
que,  enquanto  princípio  teórico  de  carácter  geral,  só  a  partir  do  século  XII  o  justo  preço  começou  a 
ser  desenvolvido. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


509 


as  pessoas  sentiam  desse  bem  l31.  Por  isso  o  justo  preço  era  muito  variável,  depen¬ 
dendo  das  épocas  e  dos  lugares,  e  os  escolásticos  consideravam  inteiramente  lícito 
comprar  barato  e  vender  caro  se  isto  se  devesse  ao  jogo  do  mercado132.  A  doutrina  do 
justo  preço  só  tinha  validade,  evidentemente,  para  artigos  de  consumo  corrente,  os  úni¬ 
cos  transaccionados  com  suficiente  frequência  para  permitir  a  formação  de  preços  de 
mercado.  Quanto  aos  artigos  de  luxo  e  outros  bens  raros  os  teólogos  jamais  chegaram  a 
acordo  e  alguns  canonistas  propunham  que  o  seu  preço  fosse  fixado  por  peritos, 
enquanto  outros  defendiam  que  quem  se  dispunha  a  adquirir  este  tipo  de  artigos  devia 
estar  preparado  para  pagar  o  montante  que  o  vendedor  pedisse133,  o  que  deixava  novas 
oportunidades  abertas  para  grandes  negócios.  No  segundo  terço  do  século  XIII,  Duns 
Scotus  e.  no  final  do  período,  Jean  de  Gerson  introduziram  uma  abordagem  de  outro 
tipo  e  definiram  como  justo  preço  aquele  que  remunerava  a  actividade  do  vendedor  e  as 
suas  despesas,  além  de  cobrir  os  riscos  em  que  ele  houvesse  incorrido134.  Enquanto  a 


1,1  Para  a  definição  do  justo  preço  enquanto  preço  de  mercado  ver  R.  de  Roover  (1958)  421  e 
segs.,  J.  Gilchrist  ( 1969)  59  e  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  83-86.  Observa  A.  Sapori  ( 1946)  195  e  202  que 
o  justo  preço  não  era  mais  do  que  a  aplicação  à  esfera  económica  do  princípio  geral  da  justa  medida, 
da  virtude  que  evita  os  extremos. 

132  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)86. 

Se  o  preço  do  trigo  estivesse  alto  porque  a  oferta  era  escassa  e  um  vendedor  soubesse  que  ia  che¬ 
gar  em  breve  uma  remessa  de  cereal,  que  levaria  os  preços  a  baixarem,  Tomás  de  Aquino,  e  com  ele  a 
maioria  dos  teólogos,  não  considerava  que  o  comerciante  ficasse  obrigado  a  anunciar  tal  facto  aos 
compradores  e  admitia  que  a  mercadoria  fosse  transaccionada  legitimamente  pelo  preço  elevado.  Ver 
aeste  respeito  J.  Gilchrist  ( 1969)  60  e  A.  Sapori  ( 1946)  203. 

133  R.  de  Roover  ( 1958)  427;  J.  Gilchrist  ( 1969)  61. 

134  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  86-87. 

Vários  autores  consideram  que  para  os  escolásticos  o  valor  dos  bens  tinha  origem  no  trabalho. 
Ver  neste  sentido,  por  exemplo.  A  Sapori  1 1946)  198  e  200-201 .  Todavia,  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  86 
demonstra  de  maneira  incontroversa  que  na  doutrina  do  justo  preço  não  existia  qualquer  antecipação 
da  teoria  do  valor  enquanto  custo  do  trabalho  ou  enquanto  tempo  de  trabalho.  No  mesmo  sentido  con¬ 
sultar  igualmente  R.  de  Roover  ( 1958)  421  e  segs.  e  M.  Mollat  et  al.  ( 1955)  775.  Acerca  das  concep¬ 
ções  defendidas  por  Raymond  de  Roover  ver,  no  entanto,  a  n.  136.  Com  efeito,  as  teorias  do  valor-tra¬ 
balho  só  puderam  surgir  no  modo  de  produção  capitalista,  quando  os  trabalhadores  atingiram  um  tal 
grau  de  homogeneidade  social  e  os  uctos  de  trabalho  foram  a  tal  ponto  padronizados  que  se  desenvol¬ 
veu  a  concepção  de  um  trabalho  abstracto  No  contexto  da  doutrina  escolástica,  trabalho  significava 
esforço  e  incómodo,  ou  seja,  um  misto  de  dispêndio  de  energia  e  de  risco.  Por  isso  Duns  Scotus  e  Jean 
de  Gerson  introduziram  na  definição  do  justo  preço  a  actividade  do  negociante,  mas  nunca  se  referi¬ 
ram  ao  labor  dos  servos,  que  formavam  precisamente  a  classe  trabalhadora.  A  crer  em  A.  Vauchez 
( 1992)  215.  encontra-se  na  obra  de  Rufino  o  argumento  de  que  o  trabalho  dos  artesãos  e  os  custos  por 
eles  incorridos  justificavam  o  lucro,  tal  como  os  mercadores  tinham  o  direito  de  vender  os  seus  arti¬ 
gos  por  um  preço  superior  ao  da  compra  para  pagar  o  seu  trabalho  e  assegurar  o  sustento  das  suas 
famílias.  Do  mesmo  modo,  e  embora  me  pareça  pouco  clara  a  exposição  de.  J.  Gilchrist  (1969)  58.  tal¬ 
vez  Henrique  de  Langenstein  tivesse  incluído  a  actividade  artesanal  neste  modelo  do  justo  preço.  Mas 
convém  não  esquecer  que  nos  grandes  centros  económicos  os  principais  ramos  manufactureiros  esta¬ 
vam  dominados  por  negociantes-empresáno.x  e  que  para  esta  elite  era  impossível  distinguir  o  comér¬ 
cio  do  artesanato.  A  questão  decisiva  consiste  em  verificar  que  nenhum  dos  promotores  da  doutrina 
do  justo  preço  se  referiu  ao  trabalho  dos  servos,  e  eram  estes  quem  constituía  a  esmagadora  maioria 
da  população  e  quem  produzia  os  bens  essenciais.  Só  incluindo  a  actividade  rural  na  esfera  do  traba¬ 
lho  seria  possível  desenvolver  um  modelo  geral  de  custos  de  produção  baseado  no  valor  trabalho.  A 
ortodoxia  marxista,  na  tentativa  de  eternizar  a  lei  do  valor,  procurou  ampliar  a  sua  vigência  aos  siste¬ 
mas  económicos  pré-capitalistas  e  contribuiu  assim  para  difundir  ideias  erradas  acerca  da  doutrina 


510 


Articulação  entre  as  Formas  I,  //  e  III  do  dinheiro 


definição  clássica  do  justo  preço  se  referia  sobretudo  às  variações  da  oferta  e  da  pro¬ 
cura  no  interior  de  um  mesmo  mercado,  a  nova  perspectiva  tomava  especialmente  em 
conta  a  relação  entre  diferentes  mercados  no  tráfico  de  longo  curso,  e  as  dificuldades 
que  o  comerciante  tinha  de  enfrentar  neste  género  de  negócios135.  Por  outro  lado,  todos 
os  escolásticos  incluíam  também  entre  os  elementos  determinantes  do  justo  preço  a 
necessidade  de  assegurar  o  sustento  da  família  do  mercador130,  apelando  assim  para  um 
critério  de  conservação  das  hierarquias  sociais,  porque  manter  uma  família  não  era  ape¬ 
nas  impedir  que  os  seus  membros  morressem  de  fome,  mas  consistia  em  lhe  gaTantir 
o  estatuto  a  que  ela  estava  habituada137.  Nestes  termos,  o  que  seria  o  justo  preço  para 
um  mercador  poderia  não  o  ser  para  outro,  cuja  família  tivesse  exigências  sociais  dife¬ 
rentes138.  Em  resumo,  os  escolásticos  admitiam  que  na  actividade  comercial  a  regra 
fosse  o  lucro,  e  só  as  manipulações  do  mercado,  nomeadamente  através  do  açambarca- 
mento  e  de  práticas  de  exclusivo139,  ou  o  desejo  de  beneficiar  de  uma  margem  de  lucro 
que  ultrapassasse  o  cruzamento  da  procura  e  da  oferta  e  fosse  além  das  necessidades 
económicas  e  sociais  do  mercador140  violavam  o  justo  preço  e,  por  esta  razão,  eram 
condenáveis.  O  espaço  deixado  para  lucros  suplementares,  todavia,  era  muito  grande,  e 
o  vendedor  só  podia  conseguir  a  anulação  da  transacção  em  tribunal  se  o  preço  obtido 
correspondesse  a  menos  de  metade  do  justo  preço141.  Na  esfera  económica,  era  para  os 
empréstimos  que  os  escolásticos  reservavam  a  sua  ira,  reputando  em  princípio  imoral 
qualquer  ganho  que  aí  fosse  realizado,  e  faziam-no  precisamente  porque  consideravam 
que  o  modelo  do  justo  preço  não  se  aplicava  ao  crédito142. 


escolástica  do  justo  preço,  confundindo-a  com  a  teoria  do  valor-trabalho.  Ver  a  este  respeito  o  capí¬ 
tulo  IX  do  meu  Marx  Critico  de  Man.  Ainda  neste  contexto,  julgo  ter  mostrado  de  modo  irrespondí¬ 
vel  nas  pp.  54-59  de  Economia  dos  Conflitos  Sociais  que  a  noção  marxista  de  tempo  de  trabalho 
enquanto  substância  do  valor  de  modo  algum  se  deve  confundir  com  as  posições  adoptadas  sobre  o 
problema  por  Adam  Smith  e  por  Ricardo. 

1,5  A  constituição  de  um  mercado  intercontinental  e  o  consequente  aumento  da  concorrência  leva¬ 
ram  à  formação  de  preços  de  mercado  na  área  do  comércio  de  longo  curso,  que  influíam  nos  merca¬ 
dos  locais,  observa  A.  Sapori  (1946)  194-195,  acrescentando  que  se  opunha  a  esta  tendência  a  menta¬ 
lidade  tradicional,  da  qual  fazia  parte  a  concepção  do  justo  preço. 

136  J.  T.  Noonan  Jr.  1 1957)  87. 

Com  o  argumento  de  que  o  justo  preço  não  correspondia  a  um  custo  de  produção.  R.  de  Roo  ver 
(1958)  418-421  nega  que  os  escolásticos  incluíssem  entre  os  elementos  determinantes  do  justo  preço  a 
necessidade  de  assegurar  o  sustento  do  negociante  e  da  sua  família.  Este  autor  tem  toda  a  razão  ao 
negar  que  os  escolásticos  tivessem  professado  uma  doutrina  do  valor-trabalho,  como  expus  na  n.  134, 
mas  engana-se  ao  considerar  que  o  sustento  da  família  do  comerciante  tivesse  alguma  relação  com  o 
trabalho,  quando  na  verdade  se  tratava  estritamente  de  uma  questão  de  estatuto  social. 

137  A.  Sapori  (1946)  198-199. 

138  Id„  ibid.,  199-200. 

1  ,y  R.  de  Roover  <  1958)  426:  J.  Gilchrist  ( 1969)  61 ;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  88:  A.  Sapori  (1946) 
204.  224. 

140  A.  Sapori  (1946)  202. 

Um  manual  de  confessores  do  século  XIII.  muito  usado  na  época,  denunciava  como  usura  a  venda 
de  bens  acima  do  justo  preço,  indica  id.,  ibid..  19?  n.  4. 

141  Acerca  da  possibilidade  de  recurso  à  cláusula  jurídica  da  Lesio  enormis  ver:  J.  Gilchrist  (1969) 
59;  A.  Vauchez  ( 1992)  216. 

143  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  82  e  segs.  mostra  que  as  teses  escolásticas  sobre  a  usura  não  derivaram 
da  concepção  do  justo  preço. 


Av  relações  pecuniárias  e  comer  ciais  corno  elemento  do  regime  senhorial 


511 


Para  entendermos  este  quadro  ideológico  convém  saber  que  até  ao  final  do  período 
continuou  a  ser  defendida  com  vigor  por  muitos  teóricos  do  poder  político  uma  concep¬ 
ção  formulada  primeiro  no  século  XI 1  e  desenvolvida  por  Alberto  Magno,  Tomás  de 
Aquino  e  outros  escolásticos.  Segundo  esta  tese,  a  moeda  limitava-se  a  ser  um  instru¬ 
mento  de  medida  tal  como  os  demais,  desprovido  de  valor  próprio  e  destinado  apenas  a 
avaliar  valores,  do  mesmo  modo  que  outros  instrumentos  marcavam  o  peso,  o  volume 
ou  a  extensão.  Ora.  todos  os  instrumentos  de  medida  decorriam  do  supremo  hannum,  e 
monarcas  e  príncipes  não  se  limitavam  a  superintender  o  uso  desses  instrumentos,  mas 
eram  os  verdadeiros  proprietários  das  medidas  nas  suas  áreas  de  soberania.  Nestes  ter¬ 
mos,  a  moeda  pertencia  inteiramente  ao  soberano,  podendo  ele  alterar-lhe  a  seu  bel- 
-prazer  a  denominação,  o  curso  legal,  o  peso,  o  conteúdo  metálico14-'.  Assim,  a  noção 
de  justo  preço  não  tinha  qualquer  aplicabilidade  às  questões  pecuniárias,  já  que  a 
moeda  não  era  entendida  como  uma  mercadoria  provida  de  valor.  Para  os  escolásticos, 
se  a  moeda  tinha  um  justo  preço,  ele  era  determinado  pela  lei  do  soberano,  correspon¬ 
dendo  portanto  ao  seu  valor  nominal144,  o  que  constituía  mais  uma  teoria  dos  direitos 
políticos  do  que  uma  teoria  económica.  Argumentava  Tomás  de  Aquino  que  se  o 
mutuante  recebesse  um  juro  além  da  soma  adiantada,  ele  estaria  a  vender  separada¬ 
mente  o  uso  do  dinheiro  e  a  substância  do  dinheiro;  ora,  como  para  Tomás  o  dinheiro 
tinha  apenas  uma  função  de  medida  e  o  uso  da  moeda  se  confundia  com  a  própria 
moeda,  a  prática  da  usura  corresponderia  a  vender  a  mesma  coisa  duas  vezes145. 

No  entanto,  ao  prosseguir  o  raciocínio  no  estrito  plano  pecuniário,  contrariamente 
aos  seus  contemporâneos,  que  se  referiam  aos  próprios  bens,  Tomás  de  Aquino  parecia 
condenar  a  usura  apenas  no  caso  em  que  os  bens  eram  consumíveis  no  uso,  admitindo 
então  a  legitimidade  de  uma  vasta  gama  de  empréstimos146.  A  troca  de  bens  na  transac- 
ção  prática  alterava  substancialmente  os  dados  do  problema.  Enquanto  na  análise  do 
crédito  os  escolásticos  definiam  o  dinheiro  como  uma  medida  e,  portanto,  o  considera¬ 
vam  estéril  e  incapaz  de  ocasionar  naturalmente  qualquer  ganho,  ao  abordarem  as 
sociedades  comerciais  eles  identificavam  implicitamente  o  dinheiro  com  os  bens  que  o 
dinheiro  adquiria,  aceitando  assim  a  ocorrência  de  lucro147.  Estaria  o  mestre  da  esco¬ 
lástica  a  adaptar  a  doutrina  ao  mundo  dos  negócios,  ou  ter-se-ia  enredado  nas  contradi¬ 
ções  da  argumentação?  A  este  respeito  é  interessante  observar  que  a  noção  do  justo 
preço  enquanto  preço  de  mercado,  aprovando  como  lícito,  e  não  injusto,  que  o  preço  do 
trigo  subisse  na  fase  que  precedia  a  colheita  e  fosse  muitíssimo  mais  elevado  em  épocas 
de  escassez  e  de  forne14*,  legitimava  na  prática  aqueles  mecanismos  de  crédito  (ver  o 
capítulo  5.b)  que  tomavam  como  base  as  variações  sazonais  regulares.  Com  efeito, 
perante  as  vendas  a  crédito,  que  conjugavam  uma  operação  comercial  com  um  emprés- 


141  Acerca  cia  concepção  da  moeda  enquanto  mero  instrumento  de  medida  dos  valores  ver:  E. 
Bridrey  (1906)  107,  1 10-1 1 1.  1 13-1 14,  145;  J,  Favier  (1982)  172-174;  ).  T.  Noonan  Jr.  (1957)  94. 
Recordar  igualmente  a  n.  4  do  capítulo  4. 

144  J.  T.  Noonan  Jr  ( 1957)  93. 

145  kl„  ibid..  53-54. 

146  É  id..  ibid..  57  quem  chama  a  atenção  para  este  aspecto  das  teses  de  Tomás  de  Aquino. 

147  Esta  dualidade  no  tratamento  escolástico  do  dinheiro  é  salientada  por  id.,  ibid..  152. 

148  Jd..  ibid.,  86. 


512 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


timo.  os  escolásticos  consideravam  justo  o  lucro  normal  de  venda,  condenando  porém 
como  usura  qualquer  ganho  obtido  através  do  crédito149.  Estas  subtilezas  eram  possí¬ 
veis  no  papel  e  na  cabeça  dos  doutrinários,  mas  os  negócios  fundiam  tão  intimamente 
ambos  os  aspectos  que  a  fronteira  entre  eles  perdia  qualquer  razão  de  ser.  O  mercador 
podia  cobrar  juros  na  venda  a  crédito  desde  que  apresentasse  como  justo  preço  o  preço 
a  crédito  e  como  desconto  o  preço  mais  baixo,  pago  a  pronto15”.  Por  outro  lado,  só  de 
maneira  muito  confusa  e  contraditória  os  escolásticos  eram  capazes  de  defender  a  legi¬ 
timidade  dos  lucros  auferidos  no  quadro  de  uma  sodeias  e,  ao  mesmo  tempo,  de  con¬ 
denar  como  usura  o  fiemts  nattticum 15 1 .  Perante  as  incongruências  da  ideologia,  como 
de  costume  prevaleceu  a  prática.  O  lucro  legítimo  na  actividade  financeira  continuou 
sempre  a  ser  considerado  uma  exeepção,  não  a  regra,  mas  as  excepções  acabaram  por 
ser  tão  numerosas  que  puseram  a  regra  em  risco,  e  os  escolásticos  analisaram  uma  mul¬ 
tiplicidade  de  casos  concretos  em  que  seria  legítimo  ao  mutuante  aceitar  uma  compen¬ 
sação  sem  que  este  facto  o  expusesse  à  acusação  de  usura15-.  Assim,  na  vida  corrente  a 
posição  adoptada  pelos  escolásticos  deixou  um  vasto  campo  aberto  aos  investimentos 
dos  negociantes15-1  e  limitou  a  usura  a  um  número  reduzido  de  situações154,  até  que  afi¬ 
nal  a  regra  prevaleceu  apenas  no  plano  doutrinário.  O  aparecimento  das  Ordens  Mendi¬ 
cantes.  profundas  conhecedoras  do  meio  urbano,  onde  actuavam,  deu  um  impulso  deci¬ 
sivo  a  este  processo  de  adaptação  da  teoria  aos  imperativos  da  vida  comercial155.  E 
uma  ironia  recorrente  ao  longo  da  história  que  movimentos  surgidos  com  um  objectivo 
sejam  transformados  e  invertidos  de  maneira  tal  que  acabam  por  prosseguir  o  objectivo 
contrário,  e  o  mesmo  se  passou  quando  os  Mendicantes,  apologistas  iniciais  da 
pobreza,  aceitaram  não  só  o  enriquecimento  dos  seus  conventos,  mas  se  converteram 
em  ideólogos  dos  negociantes.  Que  restou,  afinal,  da  doutrina?  Conseguiu-se  mesmo 
pôr  de  parte  o  tradicional,  e  tão  belo.  argumento  teológico  contra  a  usura,  que  a  consi¬ 
derava  injustificável  porque  ela  representaria  uma  compra  do  tempo,  e  o  tempo  seria 
propriedade  divina,  dada  por  Deus  a  todos  os  seres  humanos  em  comum156.  Os  legistas 
de  Bolonha,  os  canonistas  e  teólogos  depois  deles,  e  por  fim  até  o  papa  Inocêncio  IV 
inverteram  o  raciocínio  e  justificaram  o  juro  através  do  sacrifício  que  o  mutuante  fazia 
do  seu  próprio  tempo157. 

Esta  ambiguidade  do  aparelho  ideológico  da  Igreja  pode  ser  observada  de  uma 
maneira  evidente  a  respeito  de  algumas  modalidades  inovadoras  de  crédito.  Nos  mea¬ 
dos  do  século  XII  o  papa  condenou  como  usurário  um  tipo  de  empréstimo,  muito  usado 


144  Id..  ibid.,  92-93;  A.  Vauehez  (1992)  215. 

156  J.  Gilchrist  (1969)  60. 

151  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  135  e  segs. 

Ií-  Id..  ibid.,  101  e  segs. 

151  Id..  ibid.,  152. 

154  Id.,  ibid.,  153. 

155  N.  Guglielmi  (1986)  50;  L.  K.  Little  ( 1974)  452-457;  B.  W.  Rosenwein  et  al.  ( 1974)  29-30;  A. 
Vauehez  ( 1992)  217. 

Do  mesmo  modo  que  as  Ordens  religiosas  tradicionais  haviam  acabado  por  santificar  o  uso  da 
força,  observa  L.  K.  Little  (1974)  459,  também  os  Mendicantes  santificaram  o  uso  do  dinheiro. 

156  N.  Guglielmi  ( 1986)  50;  J.  Le  Goff  (1960)  4 1 7-418. 

157  N.  Guglielmi  ( 1986)  51,  52. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  demento  do  regime  senhorial 


513 


pelos  mosteiros,  ern  que  o  mutuário  entregava  como  penhor  um  dado  terreno,  ficando  a 
sua  exploração  por  conta  do  mutuante,  que  se  apoderava,  enquanto  juros,  da  totalidade 
da  colheita,  embora  tivesse  de  suportar  os  custos  de  produção158.  Poucos  anos  depois 
outro  papa  proibiu  os  eclesiásticos,  e  especialmente  o  clero  regular,  de  procederem 
àquela  forma  de  empréstimo159,  o  que  deixa  crer  que  a  condenação  anterior  não  teria 
surtido  efeitos  sensíveis.  Mesmo  desta  ve2,  como  se  autorizava  a  aceitação  enquanto 
penhor  de  algumas  fontes  de  rendimentos,  em  particular  aquelas  que  o  estabelecimento 
religioso  reivindicasse  como  tendo  pertencido  ao  seu  património,  fomecia-se  um  pre¬ 
texto  para  que.  pelo  menos  em  certas  regiões,  a  prática  continuasse  muito  difundida160. 
Quanto  aos  leigos,  na  medida  em  que  a  decisão  pontifícia  só  passou  a  abrangê-los 
numa  decretai  dirigida  ao  arcebispo  de  Cantuária  e  aos  prelados  seus  sufragâneos,  nas 
outras  regiões  eles  não  se  sentiram  implicados  na  proibição161.  É  curioso  verificar  que 
precisamente  nesta  época  os  estabelecimentos  eclesiásticos  começaram  a  manifestar 
sintomas  de  interesse  por  uma  nova  modalidade  de  crédito  em  que,  apesar  de  recebe¬ 
rem  também  como  penhor  um  dado  terreno,  ou  dados  direitos,  o  cultivo  ficava  a  cargo 
do  mutuário,  que  por  conseguinte  arcava  com  todos  os  custos  de  produção.  Parece, 
assim,  que  as  considerações  de  ordem  económica  teriam  ditado  a  evolução  dos  sistemas 
de  crédito  mais  do  que  as  admoestações  pontifícias.  Neste  novo  tipo  de  empréstimo, 
que  se  generalizou  muitíssimo  tanto  na  economia  rural  como  na  urbana,  o  mutuante 
adiantava  uma  quantia  em  dinheiro,  cujo  reembolso  definitivo  não  podia  exigir,  mas  a 
troco  da  qual  o  mutuário  se  obrigava  a  entregar  anual  ou  semestralmente,  enquanto 
juros,  os  rendimentos,  em  geral  fixos,  decorrentes  da  terra  ou  dos  direitos  que  consti¬ 
tuíam  o  penhor16*.  Ora,  esta  nova  modalidade  era  usualmente  considerada  lícita  pelas 


158  Acerca  deste  tipo  cie  empréstimo,  denominado  em  francês  mort-gage ,  ver  a  n.  42  do  capítulo 
5.  Quanto  à  condenação  do  mort-gage  enquanto  usura  pelo  papa  Eugênio  111  ver:  C.  B.  Bouchard 
(1987)  223:  R.  Génestal  ( 1901 )  78  e  segs.:  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  18. 

'■',9  Acerca  da  condenação  do  mort-gage  pelo  papa  Alexandre  111,  no  concílio  de  Tours.  em  1 163. 
ver:  A.  Chédeville  (1974)  317;  H.  van  Werveke  (1929)  55-56. 

160  Quanto  às  excepções  admitidas  ver  A.  Chédeville  ( 1974)  3 1 7  e  H.  van  Werveke  ( 1929)  56-57. 
Todavia,  enquanto  André  Chédeville,  em  op.  cit..  ibid.,  referindo-se  ao  oeste  da  França,  afirma  que, 
embora  por  razões  económicas,  o  sistema  do  mort-gage  declinou  rapidamente  a  partir  de  então.  Hans 
van  Werveke,  em  op.  cit..  55  e  59-60,  pretende  que  nos  Países  Baixos  continuou  a  recorrer-se  com 
muita  frequência  a  este  tipo  de  empréstimos. 

161  H.  van  Werveke  (1929  )  56,  59  60. 

I6-  Quanto  a  este  sistema  de  crédito,  denominado  rente  constiwée  em  francês  e  census  em  inglês, 
remeto  para  a  n.  44  do  capítulo  5.  M.  M.  Postan  (1954)  75  considera  que  set  pode  ser  classificada 
como  empréstimo  a  venda  de  uma  rente  constituée  referente  a  novas  exacções,  estabelecidas  por  oca¬ 
sião  desta  transacção,  quanto  às  compras  e  vendas  futuras  daquela  rente,  elas  seriam  apenas  sucessi¬ 
vas  imobilizações  e  mobilizações  de  fundos,  do  mesmo  modo  que.  nos  nossos  dias,  o  adiantamento  de 
capital  reside  exclusivamente  na  compra  de  acções  no  momento  da  sua  emissão,  e  não  nas  transacções 
subsequentes  de  que  tais  acções  possam  ser  objecto. 

A  crer  em  G.  Duby  ( 1962)  493-495,  as  rentes  constituées  tomaram-se  mais  frequentes  na  segunda 
metade  do  século  XIII.  Também  R.  Génestal  ( 1901 )  84  e  87,  referindo-se  aos  mosteiros  da  Norman- 
dia,  considera  que  no  século  XIII  se  operou  a  transição  do  sistema  de  mort-gage  para  a  rente  consti- 
tuée,  e  relaciona  (p.  86)  esta  evolução  com  o  facto  de  a  rente  constituée  ser  mais  vantajosa  para  o 
mutuante.  A  cronologia  parece  antecipar-se  no  oeste  da  França,  onde  até  meados  do  século  XII  se  uti¬ 
lizou  o  mort-gage.  para  em  seguida  se  recorrer  cada  vez  mais  à  rente  constituée.  que  teria  surgido 


514 


Articularão  entre  as  Formas  1,  II  e  III  do  dinheiro 


autoridades  religiosas,  e  se  uma  tal  atitude  se  pode  compreender  quando  o  juro  era 
pago  em  géneros,  porque  neste  caso  a  situação  assemelhava-se  a  uma  compra  e  venda 
antecipada  da  colheita,  cuja  legitimidade  a  Igreja  admitia,  já  as  bases  da  doutrina  per¬ 
deram  muita  da  sua  firmeza  quando  se  generalizou  o  pagamento  em  dinheiro  e  este  tipo 
de  empréstimo  começou  desde  início  a  ser  fixado  em  termos  pecuniários.  A  operação 
só  podia  escapar  à  condenação  da  usura  se  fosse  classificada  não  como  um  adianta¬ 
mento  de  fundos,  ou  seja,  uma  troca  de  dinheiro  por  dinheiro,  protelada  no  tempo,  mas 
como  uma  compra  de  bens,  efectuada  no  presente.  A  dificuldade  consistia  em  determi¬ 
nar  qual  o  bem  que  era  objecto  dessa  compra  e  venda.  As  discussões  eram  muitas,  e 
continuaram  sempre  a  sê-lo,  o  que  não  espanta  num  tal  tecido  de  sofismas,  mas  para  a 
opinião  mais  corrente  tratar-se-ia  da  compra  de  um  direito  a  receber  dinheiro.  E  deste 
modo  se  chegava  à  vaporosa  distinção  entre  o  dinheiro  e  o  direito  a  recebê-lo,  evitando- 
-se  à  justa  reconhecer  que  aquelas  operações  prosseguiam  no  plano  estritamente  pecu¬ 
niário,  o  único  onde  seriam  acusadas  de  usura16’.  A  evolução  da  doutrina  eclesiástica 
acompanhara,  em  suma,  a  transformação  operada  no  crédito,  e  a  Igreja  passara  a  legiti¬ 
mar  um  sistema  em  que  os  empréstimos  nunca  ficavam  cancelados  e  sustentavam  uma 
relação  perpétua. 

A  ambiguidade  não  foi  menor  relativamente  aos  títulos  da  dívida  pública  consoli¬ 
dada  nas  cidades  italianas,  outra  forma  de  crédito  inovadora  em  que  a  relação  se  pro¬ 
longava  também  indefinidamente.  Apesar  das  grandes  controvérsias  entre  os  especialis¬ 
tas  acerca  dos  juros  nos  empréstimos  obrigatórios  emitidos  pelo  poder  soberano,  no 
final  do  período  a  maior  parte  dos  escolásticos  aceitava  a  legitimidade  deste  procedi¬ 
mento,  enquanto  compensação  de  prejuízos,  e  não  o  classificava  como  usura164.  Mas 
como  aplicar  aqui,  sem  a  existência  de  qualquer  base  fundiária,  a  distinção  sofística 
entre  dinheiro  e  direito  a  receber  dinheiro?  É  certo  que  estas  argúcias  do  espírito  não 
necessitavam  de  referências  reais,  mas  não  podiam  existir  sem  coerência  ideológica,  e  o 
dilema  era  irresolúvel.  Ao  admitir-se  que  a  aquisição  de  títulos  da  dívida  pública  não 
implicava  qualquer  usura  e  se  situava  no  quadro  da  troca  de  bens.  porque  se  tratava  da 


entre  os  séculos  XII  e  XIII.  conforme  indica  A.  Chédeville  (1974)  314  e  320;  este  especialista  atribui 
ainda  (pp.  317-318)  às  vantagens  económicas  da  rente  constituée.  c  não  às  proibições  pontifícias,  o 
facto  de  os  estabelecimentos  eclesiásticos  terem  abandonado  o  sistema  de.  mort-gage.  Nos  Países 
Baixos,  porem,  e  a  crer  em  H.  van  Werveke  ( 1929)  60.  o  mort-gag e  só  no  século  XIV  teria  cedido  o 
lugar  à  rente  constituée  e  a  outras  modalidades  cie  crédito,  embora  a  maior  pane  dos  contratos  de 
mort-gage  que  chegaram  até  nós  date  do  século  XIII  (p.  71).  No  final  do  período,  J.  T.  Noonan  Jr. 
(1957)  154  coloca  a  hipótese  de  a  rente  constituée  ter  sido  mais  frequente  do  que  o  tipo  de  emprésti¬ 
mos  representado  pela  soeietas.  Ainda  quanto  aos  inconvenientes  económicos  do  mort-gage,  que 
levaram  à  sua  substituição  por  outros  tipos  de  crédito,  ver  J.  Malafosse  (1951)  141. 

Acerca  da  legitimação  da  rente  constituée  pelos  escolásticos  ver  sobretudo  J.  T.  Noonan  Jr. 
(1957)  154-164.  Consultar  igualmente  A.  Chédeville  (1974)  321.  S.  Homer  (1963)  75-76  e  A.  P. 
Usher  (1932-1934)  413.  Afirma  Sidney  Homer  em  op  cit.,  74  que  o  juro  era  admitido  desde  o 
começo  do  contrato  se  não  fosse  superior  ao  ganho  que  teria  resultado  de  um  investimento  do 
dinheiro  na  compra  da  terra  ou  dos  direitos  que  serviam  de  penhor.  Ainda  a  este  respeito  ver  a  opinião 
de  Jean  de  Gerson,  relatada  na  n.  1 74. 

|f>4  Os  problemas  decorrentes  da  legitimação  pelos  escolásticos  da  compra  de  títulos  da  dívida 
pública  são  analisados  com  algum  detalhe  por  J.  T.  Noonan  Jr.  <  1957)  165-166  e  169  Ler  também:  S. 
Bertelli  ( 1978)  124;  S.  Homen  1963)  74. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


5J5 


compra  do  direito  a  receber  dinheiro,  tornava-se  muito  difícil  evitar  que  também  no 
caso  dos  usurários  fosse  reconhecido  que  ocorria  a  compra  do  direito  a  receber  no 
futuro  uma  soma  de  dinheiro,  sendo  o  preço  deste  direito  estabelecido  pelo  mercado, 
em  função  da  procura  de  dinheiro16-'  -  e  lá  se  dissolveria  então  a  usura  no  justo  preço! 
Quanto  a  estes  assuntos  -  e  eram  eles  os  mais  urgentes  -  as  necessidades  económicas 
prevaleceram  sobre  o  corpo  doutrinal  e  impediram  os  escolásticos  e  os  canonistas  de 
extrair  consequências  que.  embora  lógicas  no  plano  teórico,  arruinariam  na  prática  os 
interesses  gerais  e,  portanto,  também  os  do  clero. 

Mas  a  margem  de  ambiguidade  foi  maior  ainda  e,  como  se  não  bastassem  as  contra¬ 
dições  envolvidas  pela  doutrina,  as  autoridades  eclesiásticas  introduziram  sistematica¬ 
mente  factores  subjectivos  na  descrição  da  usura166.  Já  no  tempo  de  Carlos  Magno  os 
capitulares  tinham  definido  como  usura  a  prática  de  pedir  mais  do  que  aquilo  que  havia 
sido  entregue167,  o  que  se  me  afigura  uma  maneira  de  permitir  que  o  mutuante,  mesmo 
não  exigindo  explicitamente  mais.  acabasse  na  realidade  por  receber  mais.  Mas  foi  no 
período  que  agora  estou  a  analisar  que  o  factor  subjectivo  se  converteu  num  elemento 
constitutivo  da  doutrina.  Urbano  III,  pontífice  na  penúltima  década  do  século  XII,  atri¬ 
buiu  à  intenção  um  papel  relevante  na  definição  da  usura,  considerando  que  esta  prática 
ocorreria  desde  que  o  mutuante  tivesse  o  desejo  de  ganhar  com  o  empréstimo168,  e  no 
começo  do  século  seguinte  Guilherme  de  Auxerre  invocou  também  a  intenção  de  usura 
como  critério  para  o  reconhecimento  da  prática  usurária169,  sendo  a  mesma  tese 
seguida  por  outros  autores  desse  século170  e  tomando-se  clássica  entre  os  escolásti¬ 
cos1'1,  nomeadamente  entre  os  teólogos  das  Ordens  Mendicantes17-.  Tomás  de  Aquino, 
o  representante  mais  notável  desta  corrente  de  pensamento,  avaliava  as  operações 
comerciais  através  da  intenção  do  comerciante  e  não  mediante  a  natureza  objectiva  dos 
actos,  confiando  o  estabelecimento  do  justo  preço  não  ao  legislador,  mas  à  consciência 
humana17’.  Parece-me  indubitável  que  o  apelo  a  um  critério  inteiramente  subjectivo 
implicava  a  redução  do  escopo  da  usura,  deixando  ao  confessor  uma  latitude  de  indul¬ 
gência  que  não  teria  cabimento  se  a  norma  fosse  estipulada  rigorosamente1'4.  Com 


lf>í  Esta  situação  paradoxal  em  que  se  encontrou  a  doutrina  escolástica  é  exposta  por  J.  T.  Noonan 
Jr.  (1957)  169. 

166  Na  questão  da  usura,  afirma  S.  Homer  (1963)  73,  prevaleceu  a  doutrina  da  intenção.  E  J. 
Gilehrist  (1969)  62  observa  que  a  lei  canónica  permitia  aos  negociantes  uma  latitude  tão  grande  de 
opções  práticas  que  as  normas  de  conduta  tinham  de  abandonar  o  plano  objectivo  e  passavam  a  decor¬ 
rer  da  consciência. 

167  S.  Homer  ( 1963)  70. 

I6X  J.  T.  Noonan. Ir.  (1957)20. 

l6'’S.  Homer  (1963  )  71. 

170  N.  Guglielmi  ( 1986)  52;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  33. 

171  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  90  e  segs.  Ver  igualmente;  N.  Guglielmi  (1986)  51-52:  A.  Vauchez 
(1992)214.216. 

|7-  L.  K.  Little  (1974)  454-455;  B.  W.  Rosenwein  et  al.  ( 1974)  29-30. 

173  A.  Sapori  ( 1 946)  1 96,  2 1 1  -2 1 3. 

174  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957  )  32  e  I (X)  pretende  que  o  critério  da  intenção  se  destinava  a  impedir  que 
a  usura  fosse  camuflada  sob  a  forma  de  outros  tipos  de  contrato,  tomando  portanto  a  condenação  mais 
severa.  Todavia,  contra  a  opinião  de  que  a  rente  eonstituée.  ou  census.  oprimia  os  pobres  e.  na  medida 
em  que  consistia  numa  venda  de  dinheiro,  se  expunha  à  condenação  da  usura,  o  Joctor  ehristianissi- 


516 


Articulação  entre  as  Formas  1,  II  e  UI  do  dinheiro 


efeito,  ao  ameaçar  de  censura  eclesiástica  os  cristãos  que  se  mantivessem  associados  a 
judeus  culpados  de  usura  pesada  e  imoderada,  o  quarto  concílio  de  Latrão,  reunido  em 
1215,  deu  oportunidade  para  que  os  bispos  e  as  autoridades  laicas  argumentassem  que  a 
usura  praticada  por  aqueles  penhoristas  que  eles  autorizavam  a  exercer  a  profissão  não 
era  pesada  nem  imoderada1  /5. 

Além  de  todas  aquelas  restrições  e  ressalvas  doutrinárias,  a  Igreja  enunciou  outras 
limitações  no  plano  da  aplicação  prática  da  teoria  da  usura,  quando  distinguiu  a  forma 
notória  da  forma  dissimulada  e  fez  pesar  sobre  a  primeira  uma  severidade  a  que  a  outra 
era  poupada.  A  usura  dissimulada  sofria  penas  meramente  espirituais,  beneficiando 
aliás  de  grande  benevolência  por  parte  dos  confessores,  enquanto  os  usurários  manifes¬ 
tos  estavam  sujeitos  à  jurisdição  externa  da  Igreja.  Segundo  os  ensinamentos  eclesiásti¬ 
cos,  o  que  tomava  notória  a  usura  não  era  a  dimensão  dos  empréstimos  concedidos  nem 
a  sua  classificação  como  crédito  ao  consumo,  mas  o  carácter  patente  e  público  da  acti- 
vidade176.  Ora.  no  interior  das  operações  levadas  a  cabo  pelos  grandes  negociantes  a 
usura  não  podia  existir  senão  de  maneira  discreta,  entretecida  com  as  iniciativas  comer¬ 
ciais.  Mesmo  quando  os  mercadores  procediam  a  empréstimos  contra  penhores  não  o 
faziam  enquanto  profissionais  regulares  deste  ramo  e,  portanto,  mais  uma  vez  se  tratava 
de  usura  dissimulada.  A  prática  manifesta  da  usura  limitava-se.  afinal,  aos  penhoristas 
especializados,  que  se  ocupavam  de  uma  actividade  muito  menos  rentável  do  que  aque¬ 
las  em  que  intervinham  os  grandes  homens  de  negócios.  Afastados  do  exercício  da  fun¬ 
ção  de  banco  de  depósitos  e,  por  isso,  não  podendo  mobilizar  fundos  alheios  para 
adiantar  os  empréstimos,  os  penhoristas  viam-se  na  necessidade  de  empatar  montantes 
de  capital  proporcionalmente  muito  superiores  àqueles  que  os  cambistas-banqueiros 
usavam  nas  suas  operações.  E  esta  a  razão  do  elevado  nível  das  taxas  de  juro  aplicadas 
no  crédito  contra  penhores177,  o  que  serviu  à  Igreja  de  pretexto  para  converter  numa 
questão  moral  em  detrimento  dos  profissionais  da  usura  o  que  na  verdade  era  um  meca¬ 
nismo  económico  que  favorecia  os  demais  mutuantes.  Foram  só  eles,  os  pequenos  pres¬ 
tamistas,  o  alvo  das  perseguições171*.  Quaisquer  que  tivessem  sido  as  intenções  doutri¬ 
nárias,  se  da  condenação  religiosa  da  usura  resultaram  alguns  efeitos  práticos  estes 


mus  Jean  de  Gerson,  chanceler  da  Universidade  de  Paris,  referido  precisamente  por  John  T.  Noonan 
Jr.  em  op.  vii.,  158,  replicava  que  as  boas  intenções  do  comprador  da  rente  constituée.  ou  seja,  o 
mutuante,  o  qual  tinha  a  intenção  de  agir  licitamente,  faziam  com  que  não  se  tratasse  de  usura,  ainda 
que  na  sua  forma  e  nos  seus  efeitos  a  operação  se  assemelhasse  á  usura.  Seria  impossível  demonstrar 
de  maneira  mais  dara  como  o  factor  subjectivo  era  empregue  para  reduzir  o  escopo  das  condenações. 

175  B.  N.  Nelson  (1949)  16. 

|7t'  Quanto  à  distinção  operada  pela  Igreja  entre  usura  notória  e  usura  dissimulada  e  aos  critérios 
com  que  uma  e  outra  eram  avaliadas  ver  id.  ( 1947)  107-109.  1 12-1 13  e  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  34. 
Porém,  S.  Homer  ( 1963)  76  estabelece  uma  relação  entre  os  usurários  manifestos  e  os  empréstimos  ao 
consumo. 

177  Ver  no  capítulo  10  as  nn.  317  a  319. 

178  J.  K.  Hyde  (1966)  189;  B.  N.  Nelson  (1947)  1 17  e  segs..  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  34;  C.  Tihon 
(1961)360-363. 

No  final  do  século  XIII  distinguiam-se.  a  crer  em  R.  S.  Lopez  (1979)  6-7,  três  categorias  de 
mutuantes:  os  negociantes-banqueiros,  respeitados  enquanto  elite  da  profissão,  os  cambistas  e  ban¬ 
queiros  de  depósitos  e.  finalmente,  os  penhoristas,  considerados  como  pecadores  públicos,  do  mesmo 
modo  que  as  prostitutas,  c  condenados  às  penas  do  inferno. 


As  relações  pecuniárias  e  comerc  iais  como  elemento  do  regime  senhorial 


517 


resumiram-se,  em  primeiro  lugar,  a  confinar  os  Judeus,  os  lombardo  ,  os  cahorsins  e 
outras  figuras  de  pouco  relevo  nos  empréstimos  de  consumo  contra  penhores  mobiliᬠ
rios,  que  eram  os  menos  lucrativos,  e  a  deixar  as  modalidades  mais  rentáveis  de  crédito 
aos  principais  banqueiros  e  comerciantes,  que  nesta  situação  ficaram  duplamente  bene¬ 
ficiados.  Enquanto  membros  dos  governos  urbanos,  eles  concediam  autorizações  de 
exercício  da  profissão  a  usurários  notórios  e  recorriam,  portanto,  à  lei  civil  para  perse¬ 
guir  os  penhoristas  que  se  dedicassem  a  esta  actividade  sem  ter  pago  ao  governo  a  res¬ 
pectiva  patente.  E  como.  nos  seus  empreendimentos,  era  à  acusação  de  usura  dissimu¬ 
lada  que  se  expunham  os  negociantes  da  elite,  eles  podiam  contar  com  a  indulgência  do 
clero,  ao  mesmo  tempo  que  gozavam  de  todo  o  apoio  das  autoridades  civis,  representa¬ 
das  evidentemente  por  eles  próprios179. 

Talvez  a  condenação  eclesiástica  da  usura  tivesse  ainda  suscitado  um  segundo  tipo 
de  efeitos  práticos,  e  pode  admitir-se  que  a  Igreja,  através  do  ataque  aos  prestamistas, 
estivesse  a  defender  a  sua  supremacia  na  esfera  do  mundium.  Quanto  menos  os  pobres 
se  apresentassem  corno  mutuários  perante  os  usurários  laicos,  tanto  mais  circulariam 
enquanto  clientes  em  torno  das  instituições  religiosas.  E  como  se  declarava  lícito  o  tipo 
de  crédito  concedido  por  prazos  superiores  ao  ano  agrícola  e  destinado  a  aumentar  a 
capacidade  produtiva  dos  terrenos,  de  que  estas  mesmas  instituições  religiosas  eram  as 
maiores  proporcionadoras  no  meio  rural  (ver  os  capítulos  5,b  e  7,e),  as  redes  de  clien¬ 
tela  que  por  um  lado  se  difundiam  na  camada  de  rendimentos  inferiores  através  da  cari¬ 
dade  poderiam,  por  outro  lado.  ampliar-se  mediante  o  crédito  nas  demais  camadas  ser¬ 
vis.  e  até  entre  senhores  com  necessidade  de  fundos.  Se  esta  for  a  leitura  exacta  dos 
textos  dos  escolásticos  e  dos  canonistas.  tratar-se-ia  de  um  grande  programa  de  supre¬ 
macia  do  clero  no  interior  da  classe  senhorial.  A  Igreja  teria  assim  criado  a  justificação 
ideológica  para  ser  uma  fornecedora  maciça  de  crédito,  e  mesmo  do  tipo  de  crédito  a 
curto  prazo  e  destinado  a  sustentar  directamente  o  consumo  privado  ou  de  qualquer 


179  A  imunidade  de  que  os  grandes  homens  de  negócios  beneficiavam  relativamente  à  condenação 
eclesiástica  da  usura  é  analisada  por  B.  N.  Nelson  (1947)  1 12-1 13.  Também  J.  K.  Hyde  (1966)  189- 
-190  e  R.  S.  Lopez  <  1979)  7  chamam  a  atenção  para  esle  aspecto.  Um  concílio  de  1317  excomungou 
os  governantes  que.  através  de  taxas,  participassem  nos  lucros  dos  penhoristas,  mas  J.  T.  Noonan  Jr. 
(1957)  34  adverte  que  a  sanção  não  parece  ter  surtido  efeito. 

J.  Day  (1994)  204  argumenta  que,  na  medida  em  que  lodos  os  comerciantes  emprestavam  a  juros 
quando  deparavam  com  a  ocasião  e  todos  os  prestamistas  profissionais  se  dedicavam  ao  comércio,  a 
demarcação  entre  as  duas  categorias,  importante  sob  o  ponto  de  vista  da  doutrina  da  usura,  nem  sem¬ 
pre  era  simples  de  se  fixar  na  prática.  No  que  dizia  respeito  aos  negociantes,  porém,  a  distinção  funda¬ 
mental  era  a  que  separava  o  crédito  empregue  nas  operações  mercantis  do  crédito  destinado  a  colma¬ 
tar  a  falta  de  fundos  do  mutuário  na  sua  vida  privada.  E,  quanto  aos  penhoristas,  ao  analisar  a  situação 
dos  lombardos  na  Flandres.  R.  de  Roover  (1948)  134-136  esclarece  que,  embora  ocasionalmente  eles 
pudessem  participar  em  empreendimentos  de  longo  curso,  aplicando  fundos  que  de  momento  estavam 
ínaetivos,  em  regra  a  sua  intervenção  na  vida  comercial  limitava-se  à  venda  dos  penhores  referentes  a 
dívidas  que  não  haviam  sido  pagas,  sendo  também  raro  que  investissem  no  artesanato.  Em  Montpel- 
lier,  K.  L.  Reyerson  (1985)  64  considera  que  lodos  os  tipos  de  negociantes  praticavam  o  crédito  ao 
consumo  contra  penhores  de  carácter  pessoal,  pelo  que  a  actividade  de  penhorista  não  parece  ter  sido 
exercida  por  profissionais  especializados.  Mas  decerto  os  pequenos  usurários  não  investiam  em  negõ 
cios  avultados,  embora  os  grandes  negociantes  pudessem  eventualmente  interessar-se  pela  pequena 
usura,  e  assim  a  distinção  não  deixaria  de  se  verificar. 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  c  III  do  dinheiro 


518 


fomia  alheio  aos  negócios,  pois  iniciativas  de  carácter  tão  acentuadamente  religioso 
como  eram  as  peregrinações  armadas  serviram  de  ocasião  para  que  os  mosteiros  adian¬ 
tassem  empréstimos,  contra  penhores  fundiários,  a  senhores  impecuniosos  que  preten¬ 
diam  participar  nas  expedições IX().  O  mesmo  corpo  de  doutrina  que  condenava  a  usura 
inspirava  o  pretexto  para  lançar  contra  os  infiéis  hostes  devidamente  providas  de  fundos 
graças,  entre  outros  meios,  à  actividade  usurária  das  instituições  eclesiásticas.  E,  como 
vimos  (no  capítulo  lO.a),  também  a  emissão  e  a  circulação  da  Forma  III  do  dinheiro, 
com  todas  as  oportunidades  dadas  à  criação  de  crédito,  contaram  com  a  participação, 
embora  em  plano  secundário,  de  algumas  Ordens  religiosas. 

Mas  o  argumento  tentador  que  consiste  em  afirmar  que  a  Igreja  perseguia  os  usurᬠ
rios  para  poder  ela  mesma  praticar  a  usura  com  menos  concorrência  encontra-se  enfer¬ 
mado  pelo  facto  de  o  clero  e  as  instituições  religiosas  contraírem  também  numerosas 
dívidas.  Talvez  aqueles  ideólogos  fossem  os  únicos  a  acreditar  na  especificidade  social 
do  clero,  porque  a  impossibilidade  de  estabelecer  qualquer  clivagem  real  entre  os 
senhores  laicos  e  os  senhores  eclesiásticos  e  a  inclusão  de  todos  eles  numa  classe  domi¬ 
nante  única  impediam  que  da  visão  doutrinária  dos  teólogos  e  dos  eanonistas  surgissem 
consequências  práticas. 

Com  efeito,  parece  poder  documentar-se  que  aquelas  proibições  religiosas,  quando 
efectivamente  existiam,  não  tiveram  repercussões  na  actividade  económica,  ou  não  as 
tiveram  na  esmagadora  maioria  dos  casos181.  Aliás,  a  enorme  frequência  com  que  se 


180  A.  Bouton  (1975-1976)  11  619;  J.  Gilchrist  ( 1969)  40;  B.  N.  Nelson  (19491  7. 

181  Imediatamente  depois  de  afirmar  que.  embora  a  condenação  eclesiástica  du  usura  não  decor¬ 
resse  no  plano  legal,  mas  no  espiritual,  esta  sanção  seria  eficaz  em  viitude  da  acentuada  religiosidade 
dos  coevos.  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  35-36  escreve  que  no  plano  económico  a  proibição  da  usura  não 
era  respeitada.  O  fado  de  a  Igreja  proibir  a  usura  nem  impedia  os  prestamistas  de  exercerem  a  sua 
actividade,  indica  J.  Le  Goff  (1979)  25,  nem  prejudicava  o  desenvolvimento  dos  negócios.  Com 
efeito,  em  Metz,  por  exemplo,  os  financeiros  violaram  com  êxito  a  proibição  eclesiástica  da  usura, 
consoante  infonna  J.  Schneider  ( 1950)  267  e  segs.  Nos  séculos  XIII  e  XIV,  segundo  C.  Tihon  (1961 ) 
347  e  364.  apesar  de  certos  surtos  de  intransigência,  as  autoridades  religiosas  acabaram  também  por 
se  mostrar  conciliatórias  para  com  os  iombardos,  ou  cahorsins.  nos  Países  Baixos.  E  em  Arras,  na 
mesma  época.  G.  Bigwood  ( 1924-1925)  III  507-508  mostra  que  a  Igreja  admitia  a  actuaçào  dos  finan¬ 
ceiros.  não  obstante  eles  cobrarem  abertamente  um  juro  elevado,  e  até  permaneceu  sem  efeito  uma 
bula  papal  emitida  nos  últimos  anos  do  século  XIII  contra  uma  das  principais  famílias  de  financeiros. 
Ao  longo  do  século  XII  os  membros  da  corte  real  francesa  dedicavam-se  a  operações  de  finança, 
garante  E.  Boumazei  (1975)  90.  incluindo  empréstimos  contra  penhores,  e  A.-E.  Sayous  (1931 )  279 
recorda  que  durante  a  peregrinação  armada  dos  meados  do  século  XIII  o  rei  de  França  recorreu, 
enquanto  mutuário,  a  instrumentos  financeiros  que  implicavam  crédito  a  juros,  apesar  do  respeito 
deste  monarca  pelas  normas  da  Igreja  e  da  sua  profunda  devoção,  que  o  levaram  a  ser  canonizado 
pelo  papa  alguns  anos  depois  de  ter  morrido.  Nos  dois  últimos  séculos  do  período  as  censuras  religio¬ 
sas  não  impediram  a  frequência  dos  empréstimos  a  juros  no  Forez,  assegura  E.  Foumial  (1967)  700.  e 
o  mesmo,  a  crer  em  K.  L.  Reyerson  ( 1985)  62.  sucedeu  na  cidade  de  Montpellier,  onde  a  proibição  da 
usura  não  levantou  qualquer  obstáculo  sério  à  prática  do  crédito  (p.  108  n.  9).  Na  vizinha  Toulouse. 
porém,  a  situação  teria  evoluído  de  maneira  diferente,  pois  se  até  ao  início  do  século  XIII  os  juros 
eram  cobrados  explicitamente  e  os  mutuantes  apareciam  respaldados  num  grande  número  de  direitos, 
dessa  data  em  diante  ter-se-ia  reforçado  a  eficácia  prática  da  condenação  eclesiástica  da  usura,  o  que 
M.  Castaing  (1953-1954)  276  e  segs.  interpreta  como  uma  consequência  da  guerra  contra  os  Cátaros. 
Em  Itália,  Ph.  Jones  ( 1974)  1513-1515  observa  a  ausência  de  efeitos  práticos  das  pretensas,  ou  even¬ 
tuais.  proibições  da  usura.  Acerca  da  situação  em  Florença  ver  G.  A.  Brucker  ( 1962)  136.  No  século 


-U  relações  pecuniárias  t  vomerdais  corno  elemento  cio  regime  senhorial 


519 


repetiam  objurgações,  censuras  e  condenações  é  a  mais  segura  confirmação  de  que  não 
eram  respeitadas182.  Os  usurários  profissionais  nunca  desapareceram,  e  não  só  eram 
tolerados  como  muitas  ve/es  recebiam  autorização  oficial  para  se  instalarem,  com  toda 
a  legalidade18’.  E  estas  violações  práticas  não  se  deveram  às  pressões  do  desenvolvi¬ 
mento  económico,  nas  cidades  onde  os  negócios  fossem  mais  activos,  porque  em 
regiões  comercialmente  retardatárias  se  encontrava  o  mesmo  desrespeito  pelos  ditames 
religiosos  relativos  à  usura184.  É  flagrante  o  cinismo  com  que  alguns  mutuários  espe¬ 
cialmente  poderosos  recorriam  às  normas  teológicas  pura  e  simplesmente  para  não 
pagar  os  empréstimos  que  haviam  contraído  e  mesmo  para  se  apoderar  dos  bens  dos 
credores,  dispondo-se  em  seguida,  e  mediante  a  cobrança  apropriada  de  multas,  a  per¬ 
mitir  que  as  vítimas  regressassem  à  actividade,  para  eventualmente  as  submeterem  de 
novo.  mais  tarde,  ao  mesmo  tipo  de  espoliação185,  o  que  mostra  que  o  pavor  das  san- 


Xm.  J.  E.  Madden  (1963  )  345  indica  que  o  rei  de  Inglaterra  recorria  a  judeus  para  servirem  de  inter¬ 
mediários  em  operações  usurárias  com  os  fundos  da  coroa.  Reciprocamente,  R.  W.  Kaeuper  (1973) 
118-119  mostra-se  convencido  de  que  todos  os  monarcas  ingleses  pagaram  juros  pelos  empréstimos 
contraídos  junto  das  companhias  italianas.  Na  segunda  década  do  século  Xiíi,  afirma  M.  Riu  (1979) 
136,  o  rei  de  Aragâo  autorizou  os  cidadãos  de  todas  as  cidades  e  vilas  decorrentes  do  domínio  da 
coroa  a  emprestarem  dinheiro  a  juros,  confirmando  assim  uma  prática  comum  desde  o  segundo  terço 
do  século  XII.  E  em  Portugal,  na  primeira  década  do  século  XIV,  encontro  referido  em  A.  Castro 
(1964-1979)  Hl  387  um  empréstimo  adiantado  pelo  rei  de  Portugal  a  uns  pescadores. 

I8-  F.  Rõrig  (1967)  1 19. 

181  M.  B.  Becker  ( 1967-1968)  1  48;  G.  A.  Brucker  ( 1962)  137;  S.  Homer  (1963)  72;  K.  L.  Reyer- 
son  (1985)  62,  67-68;  G.  Székely  ( 1964)  32;  C.  T.hon  (1961)  364. 

R.  de  Roovcr  (1948)  99  e  segs.  pretende  que  os  penhoristas  pagavam  a  um  soberano  para  que  ele 
lhes  permitisse  o  prosseguimento  da  sua  actividade  e  os  protegesse  das  perseguições  da  Igreja.  O 
argumento  não  é  convincente,  porque  também  estava  sujeito  a  uma  taxa  o  exercício  público  de  nume¬ 
rosas  profissões,  sem  que  as  doutrinas  religiosas  em  nada  as  incomodassem.  Sobre  esta  questão  recor¬ 
dar  o  que  lemos  há  pouco  na  n.  181. 

184  Assim,  no  Forez,  por  exemplo,  nos  séculos  XIII  e  XIV,  E.  Foumial  (1967)  700  indica  que  as 
censuras  eclesiásticas  não  impediram  que  os  empréstimos  a  juros  se  tivessem  tornado  uma  prática 
corrente,  prosseguida  sem  excepção  por  todos  os  comerciantes  e  homens  de  negócios.  Muito  curiosa¬ 
mente,  B.  N.  Nelson  ( 1947)  1 13  interpreta  esta  situação  ao  contrário,  pretendendo  que  a  variedade  de 
negócios  existente  nos  grandes  centros  comerciais  possibilitava  investimentos  que  não  violavam  a 
proibição  religiosa  da  usura,  enquanto  nas  cidades  onde  a  vida  económica  era  menos  activa  as  oportu¬ 
nidades  de  investimento  ficavam  muito  limitadas  e  os  empréstimos  usurários  tornavam-se,  por  isso, 
relativamente  frequentes.  Este  historiador  esquece,  porém,  que  o  crédito  não  constituía  uma  alterna¬ 
tiva  distinta  das  demais  formas  de  negócio  e  estava-lhes  indissoluvelmente  ligado. 

185  Ver  em  geral  R.  S  Lopez  (1965)  306.  No  último  quartel  do  século  XIII  o  conde  da  Holanda, 
invocando  as  recentes  decisões  eclesiásticas  contra  os  prestamistas,  expropriou  a  fortuna  dos  lontbar- 
dos,  dos  quais  era  devedor,  e  poucos  anos  depois  admitiu,  mediante  a  percepção  de  uma  taxa,  que  as 
suas  vítimas  de  há  pouco  procedessem  a  empréstimos  contra  penhores  e  confiou-lhes  em  seguida  a 
administração  das  finanças  condais  em  várias  cidades;  os  lombardos  aproveitaram,  aliás,  a  sua  nova 
posição  de  autoridade  para  fazer  com  êxito  concorrência  aos  cahorsins  e  aos  Judeus.  Pode  seguir-se  a 
descrição  destes  acontecimentos  em  G.  Székely  ( 1964)  32.  Outro  caso  notável  é  relatado  por  C.  Tihon 
(1961 )  351.  Nos  primeiros  anos  do  século  XIV  o  duque  do  Brabante  comunicou  ao  papa  que  outrora, 
seguindo  a  opinião  de  maus  conselheiros,  permitira  oficialmente  aos  lombardos  o  exercício  da  usura  e 
jurara  que  jamais  invalidaria  tal  decisão,  mas  agora,  arrependido  e  temendo  pela  salvação  da  sua 
alma,  pedia  à  suprema  figura  da  Igreja  a  anulação  daquele  juramento.  Logo  que  o  pontífice  acedeu,  o 
duque  recorreu  a  este  pretexto  para  não  pagar  as  av  ultadas  dívidas  que  contraíra  junto  dos  lombardos, 
mas  não  os  expulsou  e  continuou  a  pedir-lhes  empréstimos.  Recorda  R.-H.  Bautier  (1992)  77  que  na 


520 


Articulação  entre  as  Formas  I,  //  e  lll  do  dinheiro 


ções  cia  Igreja  estava  longe  de  ser  tão  forte  como  presumem  muitos  historiadores.  Reci¬ 
procamente.  o  grande  número  de  condenações  e  prisões  por  dívidas,  em  contraste  com 
a  escassez  das  acções  judiciais  contra  pessoas  culpadas  de  usura,  mostra  quais  os  inte¬ 
resses  que  os  tribunais  defendiam186.  No  começo  do  último  terço  do  século  XIV  e  de 
novo  nos  anos  iniciais  do  século  seguinte  as  autoridades  genovesas  não  invocaram 
questões  de  doutrina  religiosa  ao  decidirem  em  favor  dos  homens  de  negócios  contra  os 
devedores  que  os  haviam  convocado  perante  os  tribunais  eclesiásticos  por  prática  da 
usura,  mas  limitaram-se  a  afirmar  que  seria  impossível  prosseguir  a  actividade  comer¬ 
cial  sem  recorrer  aos  instrumentos  financeiros  necessários187.  Aliás,  a  própria  Igreja 
tinha,  pelo  menos  em  algumas  regiões,  o  hábito  de  excomungar  pessoas  por  dívidas,  não 
só  mutuários  em  empréstimos,  mas  também  pobres  camponeses  que  se  atrasavam  no 
pagamento  dos  tributos  eclesiásticos188.  Este  rigor  manifestado  para  com  os  devedores 
menos  afortunados  completava  a  benevolência  que  favorecia  os  mutuantes  mais  ricos. 


passagem  do  século  XIII  para  o  século  XIV  o  rei  de  França  não  se  limitou  a  mencionar  a  usura  e  a 
sujeitar  os  lombardos  a  espoliações  fiscais,  mas  pilhou-os  directamente  sempre  que  pôde.  e  os  suces¬ 
sores  seguiram-lhe  o  exemplo,  chegando  mesmo  um  deles  (p.  80).  que  ocupou  o  trono  no  segundo 
quartel  do  século  XIV,  a  apresentar  como  medida  antiusurária  o  confisco  em  seu  benefício  dos  crédi¬ 
tos  devidos  à  totalidade  dos  banqueiros.  Acerca  da  actuação  de  Filipe  IV,  o  Belo,  e  dos  seus  sucesso¬ 
res  ver  igualmente  K.  L.  Reyerson  (1985)  68  e  84.  No  reino  da  Sicília,  J.  M.  Powelt  (19621  519 
afirma  que  as  leis  de  Frederico  II  contra  a  usura  se  deveram  ao  facto  de  ele  ser  devedor  de  somas  con¬ 
sideráveis.  Casos  como  estes  invalidam  a  análise  de  J.  Schnetder  ( 1950)  271-272  acerca  de  Metz.  ao 
pretender  que  o  facto  de  o  bispado  e  as  abadias  não  terem  conseguido  libertar-se  das  dívidas  contraí¬ 
das  junto  dos  financeiros  da  cidade  impediu  os  juízes  eclesiásticos  de  perseguirem  aqueles  homens  de 
negócios  com  toda  a  severidade  das  normas  canónicas.  Na  verdade,  tal  situação  poderia  antes  ter  con¬ 
tribuído  para  que  os  dignitários  do  clero  recorressem  a  pretextos  doutrinários  com  o  objectivo  de  se 
emancipar  da  tutela  dos  credores. 

186  Nos  centros  urbanos  dos  Países  Baixos,  no  início  do  século  XIV.  C.  Tihon  ( 1961 )  359  indica 
que  foi  geralmente  aceite  o  acesso  dos  lombardos  à  cidadania,  o  que  lhes  permitiu  a  partir  de  então 
recorrer  à  justiça  local  contra  os  mutuários  maus  pagadores.  Em  Montpellier,  apesar  das  proibições 
que  visavam  o  empréstimo  a  juros,  K.  L.  Reyerson  (1985)  95  e  segs.  esclarece  que  os  credores  dispu¬ 
nham  de  várias  medidas  legais  contra  os  devedores  insolventes.  Não  muito  longe,  em  Toulouse.  pelo 
menos  até  ao  começo  do  século  XIII  a  legislação  da  cidade  garantia  em  justiça  os  direitos  do  credor, 
consoante  leio  em  M.  Castaing  (1953-1954)  273-274  e  276.  sendo  presas  as  pessoas  incapazes  de 
pagar  as  suas  dívidas.  E  quando  A.  Vauchez  (1966)  507  e  534-535  informa  que  as  campanhas  de 
pacificação  conduzidas  pelas  Ordens  Mendicantes  ern  cidades  do  norte  da  Itália,  na  passagem  do  pri¬ 
meiro  para  o  segundo  terço  do  século  XIII,  incluíram  a  libertação  de  pessoas  que  estavam  detidas  por 
dívidas,  não  posso  deixar  de  concluir  que,  para  além  dos  surtos  esporádicos  de  entusiasmo  religioso, 
era  essa  a  prática  corrente.  F.m  Florença,  desde  meados  do  século  XIV  foi  drasticamente  limitada  a 
jurisdição  dos  tribunais  eclesiásticos  sobre  os  casos  de  usura,  como  afirma  M.  B.  Beeker  (1967-1968) 
1  192,  o  que  dificultou  muito  o  recurso  a  acções  judiciárias  contra  investidores  que  cobravam  juro  em 
operações  desprovidas  de  risco.  A  situação  nesta  cidade  agravou-se  a  um  ponto  tal  que  em  Junho  de 
1378,  embora  o  Povo  de  Deus  não  tivesse  ainda  alcançado  a  condução  do  movimento  insurreccional. 
foram  as  preocupações  de  radicalização  social  que  levaram  à  destruição  das  terríveis  prisões  subterr⬠
neas  e  à  libertação  dos  prisioneiros,  muitos  deles  condenados  por  dívidas.  Ver  a  este  respeito  V. 
Rutenburg  (1974)  183.  Finalmente,  em  Inglaterra,  segundo  R.  H.  Bovvers  (1983)  62-64,  a  legislação, 
favorável  de  início  aos  devedores,  foi  profundamente  alterada  antes  do  final  do  século  XIII  e  de  então 
em  diante  os  credores  passaram  a  dispor  de  garantias  legais  eficazes. 

187J.  Day(  1994)  119. 

188  E.  Le  Roy  Ladurie  ( 1975)  562  observa  esta  prática  no  alto  Ariège. 


A.í  relações  pecuniárias  c  comerciais  corno  elemento  do  regime  senhorial 


521 


Não  parece  duvidoso  que.  ao  lado  das  regras  de  conduta  moral  propostas  pelos 
canonistas  e  pelos  escolásticos,  corressem  outras  regras,  aceites  muito  mais  generaliza¬ 
damente.  e  que  considerassem  a  uma  luz  diferente  os  tipos  de  crédito  visados  pela  cen¬ 
sura  religiosa189.  A  clivagem  era  então  praticamente  completa  entre  as  obras  de  teoria 
económica  e  a  vida  dos  negócios,  o  que  fazia  com  que  comerciantes  e  banqueiros  não 
tivessem  interesse  em  seguir  as  posições  dos  doutrinários  nem  pudessem  sequer  fazê- 
-lo190.  Assim,  ficou  sem  efeitos  práticos  o  apelo  do  quarto  concílio  de  Latrão.  reunido 
em  1215,  para  que  os  prestamistas  judeus  sofressem  um  boicote  económico191,  e  ao 
mesmo  tempo  os  lombardos,  os  cahorsins  e  os  demais  prestamistas  cristãos  prosse¬ 
guiam  a  sua  actividade,  insensíveis  às  condenações  eclesiásticas19’.  Aliás,  os  teólogos, 
ao  defenderem  que  a  usura  notória  podia  ser  tolerada  como  um  mal  menor193,  porque 
correspondia  a  uma  necessidade  social  e  o  seu  desaparecimento  teria  consequências 


189  A  fé  e  a  devoção  religiosa  dos  negociantes  eram  sinceras,  afirma  R.  S.  Lopez  (1965)  307,  mas 
apesar  disso  não  se  deixavam  persuadir  pela  doutrina  eclesiástica  da  usura.  kl.  (1979)  22  opina  que  a 
moral  comum  distinguia  entre  o  crédito  ao  consumo  e  o  crédito  efectuado  nos  negócios,  mas  as  impli¬ 
cações  desta  tese  ficam  atenuadas  pelo  facto  de  os  teólogos  e  os  canonistas  terem  procedido  exacta- 
mente  à  mesma  distinção,  como  vimos  na  n.  1 23.  Levantando  a  hipótese  da  coexistência  entre  os  dois 
códigos  de  conduta.  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  192  adianta  que  talvez  os  negociantes  considerassem 
como  usura  apenas  os  empréstimos  feitos  aos  pobres  a  taxas  de  juro  especialmente  elevadas,  enquanto 
os  seus  próprios  empréstimos  obedeceriam  a  taxas  bastante  menores.  Com  efeito,  em  Veneza,  onde  F. 
C.  Lane  ( 1973)  146  detectou  o  prevalecimento  de  normas  morais  laicas  para  separar  a  usura  do  ganho 
lícito,  no  crédito  ao  investimento  a  opinião  pública  aprovava  a  cobrança  de  juros  consoante  a  taxa 
vigente  no  mercado.  Por  fim.  ao  defender  a  tese  de  que  a  concepção  de  purgatório  apareceu  para  per¬ 
mitir  que  o  usurário  não  fosse  excluído  da  esfera  da  salvação,  escrevendo  nomeadantente  (p.  52)  que 
«o  nascimento  do  purgatório  corresponde  à  alvorada  da  actividade  bancária»,  J.  Le  Goff  ( 1979)  44  e 
segs.  está  a  propor  uma  maneira  de  conjugar  os  dois  tipos  de  moral  num  sistema  de  convicções  único. 

190  Observam  R.  S.  Lopez  et  al.  (1955)  408  que  assim  como  os  negociantes  não  escreviam  obras 
de  teoria  económica  também  os  teólogos  e  os  teóricos  da  política  ignoravam  a  prática  comercial. 
Neste  período,  afimia  J.  Day  em  lstituto  Internazionale  di  Storia  Economica  «F.  Datini».  V.  Barbagli 
Bagnoli  (org.  1982)  280.  o  Traité  de  I’ Origine.  N ature,  Droits  et  Mutations  des  Monnaies.  de  Nicole 
Oresme,  foi  a  única  especulação  teórica  a  alcançar  uma  efectiva  influência  sobre  a  prática  monetária 
de  um  soberano. 

191  J.T.  Noonan  Jr.  (1957)  35. 

192  ld.,  ibid.,  35  considera  inexplicável  o  motivo  pelo  qual  os  lombardos  permaneceram  insensí¬ 
veis  à  censura  da  Igreja. 

191  Id..  ibid..  34. 

A  partir  do  final  do  século  XII,  A.  Vauchez  (1992)  215  observa  que  lombardos,  caliorsins  e 
outros  profissionais  do  mesmo  ramo  beneficiaram  de  uma  grande  tolerância  por  parte  das  autoridades 
eclesiásticas.  Igual  situação  é  detectada  nos  Países  Baixos  durante  os  séculos  XIII  e  XIV  por  C.  Tihon 
(1961)  347.  Quando  o  concílio  de  Constança  proibiu  os  habitantes  desta  cidade  de  cobrarem  juros 
superiores  a  11%  nos  empréstimos  pecuniários,  como  relata  F.  Rõrig  (1967)  119.  parece-me  que 
eslava  a  legitimar  as  formas  mais  moderadas  de  usura.  Também  em  Florença  M.  B.  Beeker  (1967- 
-1968)  1  48  nota  que  a  actividade  dos  usurários  manifestos  era  aceite  na  prática  pela  própria  Igreja.  A 
situação  chegou  a  um  tal  ponto  que.  em  resposta  a  uma  opinião  muito  divulgada,  de  que  a  sociedade 
não  podia  dispensar  a  usura  notória,  Bemardino  de  Siena.  um  pregador  franciscano  reputado  pela  sua 
eloquência  e  activo  a  partir  do  final  da  segunda  década  do  século  XV,  afirmou  que  tal  blasfémia  só 
era  proferida  porque  quase  não  se  encontrava  ninguém  que  procedesse  a  empréstimos  gratuitos,  ape¬ 
sar  de  ser  tão  grande  a  necessidade  de  crédito.  Mas  o  santo  homem  não  conseguiu  resolver  a  contradi¬ 
ção  entre  os  seus  ideais  e  as  exigências  da  vida  corrente,  e  insistiu,  afinal,  na  condenação  da  usura. 
Ver  a  este  respeito  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  73  e  segs 


522 


Articulação  entre  as  Formas  I.  //  e  III  cio  dinheiro 


ainda  mais  prejudiciais  do  que  os  ganhos  indevidos  dos  penhoristas,  estavam  a  admitir 
a  cisão  entre  o  seu  próprio  código  moral  e  a  conduta  prática. 

Neste  contexto,  afigura-se-me  um  mero  eco  das  calúnias  coevas  a  tentativa  de  justi¬ 
ficar  a  difusão  do  catarismo  com  o  argumento  de  que  o  seu  clero  tolerava  a  usura,  ou  a 
via  mesmo  com  bons  olhos194.  Os  negociantes  da  época  não  precisavam  de  romper 
com  a  Igreja  e  de  sustentar  heresias  para  enriquecerem  na  actividade  de  mutuantes,  e  a 
tolerância  que  encontravam  na  nova  doutrina  não  deixava  de  existir  na  religião  tradicio¬ 
nal.  Mesmo  os  usurários  manifestos  não  tinham  grande  razão  para  recear,  na  prática,  as 
censuras  da  Igreja,  e  podiam  contar  com  a  benevolência  geral  da  sociedade.  Os  cléri- 


194  G.  Votpe  (1961)  99  pretende  que,  contrariamente  ao  que  afirma  ter  sucedido  com  a  Igreja 
católica,  os  Cátaros  aceitavam  os  empréstimos  a  juros,  contando  por  isso  usurários  entre  os  seus 
seguidores.  Uma  tese  do  mesmo  tipo  é  mencionada  por  H.  Kraus  ( 1979)  234  n.  38.  E.  referindo-sc  às 
cidades  italianas,  C.  Violante  (1968)  185  inclui  prestamistas  profissionais  nos  adeptos  do  catarismo, 
já  que  esta  heresia  não  rejeitava  a  economia  urbana  nem  se  opunha  aos  lucros  obtidos  através  do  cré¬ 
dito.  Por  sua  vez,  Ch.  P.  Bru  ( 1953)  51-57  fornece  uma  explicação  de  âmbito  geral,  recordando  que 
para  os  Cátaros,  em  oposição  ao  mundo  ideal  e  espiritual,  o  mundo  mau  consistia  na  sociedade  agrária 
e  senhorial,  em  cujo  fulcro  estava  o  sistema  de  propriedade  e  de  poder:  mas  Charles  Bru  comenta  que 
este  rigor  moral  se  coadunava  com  uma  certa  indulgência  para  com  os  compromissos  da  vida  cor¬ 
rente,  pois  a  parte  do  mundo  real  que  correspondia  às  novas  forças  económicas  e  sociais  e  à  activi¬ 
dade  dos  mercadores  era  valorizada  de  maneira  positiva.  Porém,  depois  de  admitir  que  os  Cátaros 
tivessem  apoiado  a  usura,  tal  como  eram  acusados.  L.  K.  Little  (1978)  143  chama  a  atenção  para  a 
inexistência  de  provas.  Mais  hesitante  é  a  atitude  de  M.  Erbstosser  ( 1988)  99  ao  estabelecer,  por  um 
lado,  que.  apesar  de  na  sua  doutrina  os  Cátaros  classificarem  o  mundo  material  como  o  reino  do  mal. 
eles  relegavam  para  segundo  plano  a  crítica  à  riqueza  urbana  e  manifestavam  tolerância  para  com  a 
elite  endinheirada  das  cidades:  assim,  embora  esta  heresia  não  estimulasse  a  usura  e  as  demais  tran- 
sacções  pecuniárias,  também  não  as  proibia.  Por  outro  lado,  Martin  Erbstosser  conclui  que  o  facto  de 
numerosos  homens  de  negócios,  sobretudo  os  novos  ricos,  se  terem  revelado  favoráveis  ao  catarismo 
não  significa  que  o  mesmo  sucedesse  com  os  usurários  profissionais,  pois  em  Toulou.se,  por  exemplo, 
no  início  do  século  XIII  muitos  prestamistas  permaneceram  fiéis  ao  catolicismo.  Antes  de  voltarmos 
ao  caso  de  Toulouse,  convém  saber  que  também  B.  Hamilton  ( 1979)  VIII  14-15  se  mostra  reticente  a 
respeito  da  situação  geral,  observando  que  não  há  provas  de  que  os  Cátaros  tivessem  efeetivamente 
encorajado  a  usura  e  que,  além  disso,  existiam  muitas  maneiras  de  contornar  na  prática  a  condenação 
eclesiástica;  embora  este  especialista  reconheça  que  os  Cátaros  nada  faziam  que  impedisse  o  desen¬ 
volvimento  económico  e  a  circulação  pecuniária,  ele  adverte  que  os  negociantes  mais  ricos  não  lhes 
foram  geralmeme  favoráveis.  M.  D.  Lambcrt  (1977)  113  e  !  1 X  confirma  que  tanto  no  Languedoc 
como  na  Itália  os  principais  homens  de  negócios  estavam  mais  interessados  na  defesa  do  catolicismo 
do  que  do  catarismo.  Mas  não  devemos  perder  de  visia  que  os  prestamistas  notórios,  os  únicos  que 
ficavam  expostos  às  iras  da  teologia  oficial,  não  pertenciam  aos  meios  da  elite.  Analisando  o  caso  dc 
Toulouse,  J.  H.  Mundy  (1954)  77-79  reconhece  igualinente  que  esta  heresia  não  encontrou  grandes 
simpatias  junto  dos  principais  comerciantes  e  escreve  que  foi  sobretudo  entre  a  aristocracia  e  os 
pequenos  artesãos  que  se  operou  o  maior  número  de  conversões.  Embora  confirme  a  existência  de 
uma  relação  entre  a  heresia  e  a  usura,  John  Hine  Mundy  invcrte  lhe  o  sentido,  para  afirmar  que  no 
final  do  século  XII  e  no  início  do  século  scgumte  a  ascensão  dos  novos  ricos  colocou  em  perigo  as 
posições  da  elite  tradicional  e,  ao  mesmo  tempo,  tomou  mais  insegura  a  situação  dos  artesãos  e  da 
arraia-miúda,  excitando  estas  várias  camadas  sociais  contra  a  usura,  que  era  assimilada  aos  grandes 
homens  de  negócios;  ora.  a  aversão  à  usura  tanto  se  manifestava  mediante  o  apoio  ás  alas  mais  orto¬ 
doxas  e  tradicionalistas  da  Igreja  conto  através  da  promoção  da  heresia.  Esta  análise  da  situação  de 
Toulouse  encontra-se  reproduzida,  nos  mesmos  termos,  por  R.  I.  Moore  ( 1977)  236  e  239.  Recorde-se 
que  para  M.  Castaíng  ( 1953-1954)  273  e  277. 278  a  usura  aparecera  explicitamente  em  Toulouse  nos 
contratos  realizados  antes  do  começo  das  campanhas  militares  contra  os  Cátaros. 


,4a  relações  pecuniárias  c  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


.5  2.1 


gos,  até  os  conventos  e  os  prelados,  e  o  próprio  sumo  pontífice  não  estavam  afastados 
dos  negócios  e  violavam  com  frequência  alguns  aspectos  das  normas  teológicas  contra 
a  usura,  tanto  quando  se  encontravam  na  situação  de  mutuários  como  quando  eram  eles 
os  mutuantes195. 

Em  resumo,  assim  como  procurei  repetidamente  mostrar  (nos  capítulos  15,c  e  19.b 
da  Parte  1,  8. a  e  8.b  da  Parte  II  e  6.d  desta  Parte  111)  que  os  dignitários  eclesiásticos  se 
confundiam  com  a  restante  classe  senhorial  e  que  não  existia  qualquer  razão  para  dis¬ 
tinguir  entre  os  interesses  da  aristocracia  religiosa  e  os  da  nobreza  laica,  também  agora 
vemos  que  a  Igreja  pertencia  ao  mesmo  mundo  de  negócios  em  que  actuavam  a 
nobreza  laica  e  a  elite  urbana196.  Aqueles  casos  extremos  em  que  o  edifício  religioso  e 
o  próprio  sacerdote  estavam  ao  serviço  das  operações  comerciais  realizadas  na  comuni¬ 
dade  dos  mercadores197  não  constituíram  uma  excepção,  mas  ilustraram  de  maneira 


,gs  O  comportamento  económico  da  Igreja,  declara  F.  Rõrig  (1967)  1 19.  era  oposto  ao  que  pre¬ 
tendiam  os  teóricos  de  moral  dessa  mesma  Igreja.  Em  1 157  o  capítulo  geral  da  Ordem  de  Cister 
determinou  que  os  seus  mosteiros  não  deviam  aceitar  mais  propriedades  como  penhor,  e  em  1 180 
estipulou  que  os  abades  que  as  haviam  recebido  deviam  devolvê-las  no  prazo  de  um  ano,  mas  C.  B. 
Bouchard  ( 1987)  223  previne  que  tais  decisões  não  foram  seguidas  de  efeitos  práticos.  Quanto  à  fre¬ 
quência  com  que  os  estabelecimentos  eclesiásticos  violaram  a  proibição  do  mort-gage  ver  neste 
capítulo  as  nn.  101,  160  e  162.  Depois  de  afirmar  que  durante  este  período  os  eanonistas  foram  un⬠
nimes  em  reconhecer  que  a  lei  religiosa  condenava  todas  as  transacções  a  crédito  implicando  lucro, 
inclusivamente  quando  respondiam  à  forma  cambial,  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  180-181  acrescenta  que 
o  mesmo  sucedia  com  os  comentadores  associados  de  mais  perto  à  cúria  papal,  o  que  leva  a  crer  que 
o  sumo  pontífice  não  pretendesse  proteger  os  banqueiros  ao  seu  serviço  invocando  o  câmbio  como 
pretexto  para  distinguir  os  vários  tipos  de  operações.  Referindo-se  a  Reims  nas  últimas  décadas  do 
século  XIII  e  nas  primeiras  décadas  do  século  seguinte.  P.  Desportes  (1979)  309-310  observa  que 
numerosos  membros  do  clero  secular  não  dispunham  de  qualquer  benefício  eclesiástico  e,  embora 
estivessem  proibidos  de  se  dedicar  ao  comércio  e  sobretudo  à  usura,  alguns  deles  eram  mercadores 
profissionais.  Ser-lhes-ia  decerto  muito  difícil  prosseguir  esta  aetividade  sem  entrarem  em  operações 
de  crédito,  e  na  mesma  situação  haveriam  de  se  sentir  os  eclesiásticos  de  origem  nobre  que  adqui¬ 
riam  residência  nos  centros  urbanos  do  Mâconnais,  onde.  segundo  G.  Duby  (1953)  406-407,  se  dedi¬ 
cavam  ao  negócio.  Em  Montpellier,  K.  L.  Reyerson  (1985)  74  indica  que  5%  dos  empréstimos  em 
dinheiro  adiantados  por  não-judeus  se  deveram  a  membros  do  clero,  o  que  é  uma  percentagem  pouco 
elevada,  mas  na  Itália  a  documentação  revela  a  existência  de  muitos  membros  do  clero  que  inves¬ 
tiam  parte  da  sua  fortuna  em  companhias  comerciais  e  bancárias,  recebendo  juros,  garante  R.  de 
Roover  (1948)  41 .  Com  efeito,  um  registo  notarial  genovès  do  primeiro  quartel  do  século  XIII,  estu¬ 
dado  por  E.  Bach  (1957)  389.  menciona  numerosos  empréstimos  efectuados  por  padres  e  outros 
eclesiásticos.  Finalmente,  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  400-401  escreve  que  na  Catalunha,  no  início  do 
período,  embora  os  mosteiros  só  muito  raramente  procedessem  a  empréstimos,  o  clero  urbano, 
sobretudo  quando  pertencia  às  hierarquias  inferiores,  contava-se.  junto  com  os  Judeus,  entre  os  que 
adiantavam  com  mais  frequência  dinheiro  a  crédito.  Ainda  acerca  deste  problema  ver  as  nn.  101 
e  102. 

Era  frequente  que  os  moedeiros  actunssem  como  representantes  discretos  dos  estabelecimentos 
eclesiásticos,  esclarece  R.  S.  Lopez  ( 1953  a)  27  n,  47.  Mas  no  século  XIV  os  funcionários  da  adminis¬ 
tração  financeira  do  papado  eram  quase  todos  clérigos,  que  executavam  o  cargo  com  pleno  profissio¬ 
nalismo  devido  à  sua  participação  habitual  nos  negócios,  afirma  Y.  Renouard  (1941)  15-16.  citando 
numerosos  exemplos  de  membros  do  clero  que  se  dedicavam  à  aetividade  económica,  alguns  deles  à 
frente  de  filiais  da  companhia  da  tamília  a  que  pertenciam,  e  sem  que  nada  disto  os  impedisse  de 
exercer  simultaneamente  funções  religiosas.  Também  J.  Gilchrist  (1969)  37  recorda  que  em  Avignon 
a  administração  papal  era  em  grande  parte  confiada  a  clérigos  oriundos  de  famílias  mercantis. 

I<)7  Ver  a  n.  148  do  capítulo  9 


524 


Articulação  entre  as  Formas  1,11  e  III  do  dinheiro 


particularmente  flagrante  a  regra  geral.  Na  sua  doutrina,  e  muito  menos  ainda  na  sua 
prática,  a  Igreja  não  ergueu  obstáculos  ao  desenvolvimento  dos  negócios198. 


c.  As  relações  senhoriais  como  quadro  dos  circuitos  monetários  e  das  operações 
mercantis 

O  facto  de  as  actividades  mercantil  e  bancária  não  só  não  se  terem  tomado  incompa¬ 
tíveis  com  a  prática  e  com  a  ideologia  do  regime  senhorial,  mas  terem  sido  indispensᬠ
veis  ao  seu  funcionamento  explica-se  porque  em  todo  este  período  nunca  o  comércio 
operou  como  causa  das  grandes  transformações  económicas  e  sociais,  devendo  sempre 
ser  entendido  como  uma  consequência  acessória.  O  uso  generalizado  do  dinheiro-moeda 
e  o  aparecimento  de  modalidades  de  dinheiro  estritamente  fiduciárias  resultou  da  evolu¬ 
ção  operada  nos  mecanismos  do  poder,  e  não  de  requisitos  comerciais.  As  formas  como 
ocorriam  as  transferências  de  bens  e  a  angariação  de  serviços  é  que  se  modificaram  para 
permitir  a  ampliação  e  a  multiplicação  dos  circuitos  pecuniários.  Esta  inversão  da  pers¬ 
pectiva  corrente  é  talvez  a  base  metodológica  fundamental  em  que  assenta  todo  o  estudo 
a  que  procedo  do  período  inaugurado  com  a  superação  da  grande  crise  dos  séculos  IX  e 
X.  Ao  considerarem  o  tráfico  mercantil  como  um  objectivo  último  e  não  como  um  sim¬ 
ples  mediador  social,  muitos  historiadores  não  conseguem  dar  conta  dos  fenómenos  que 
pretendem  explicar  ou  chegam  a  conclusões  que,  embora  capazes  de  elucidar  dadas 
situações,  são  postas  em  causa  por  outras  situações  que  conviria  igualmente  interpretar. 
No  capitalismo  a  produção  tem  sempre  como  objectivo  o  mercado  e  o  dinheiro  é  o  ins¬ 
trumento  exclusivo  dos  negócios,  mas  neste  período  do  regime  senhorial  o  dinheiro 
tomou-se  um  instrumento  das  relações  de  dependência  e  de  subordinação,  e  o  comércio, 
em  vez  de  ser  o  alvo  da  produção,  constituía  antes  de  tudo  uma  forma  de  permitir,  ou  de 
facilitar,  a  circulação  pecuniária.  Para  me  exprimir  de  maneira  paradoxal,  porque  dema¬ 
siado  extrema,  não  foi  a  economia  que  se  monetarizou.  mas  a  sociedade.  A  função 
última  dos  instrumentos  pecuniários  consistia  no  facto  de  o  servo  se  ver  obrigado  a  obter 
moedas  para  as  entregar  ao  senhor  e  de  os  circuitos  do  numerário  e  do  dinheiro  fiduciᬠ
rio  marcarem  ao  mesmo  tempo  a  hierarquização  da  classe  dominante  e  a  sua  coesão 
interna. 


198  Contrariamente  ao  que  Henri  Pirenne  imaginava,  a  Igreja  não  hostilizou  a  actividade  mercan¬ 
til,  afirma  Lestocquoy  ( l')46)  144,  e  ela  própria  tinha  preocupações  comerciais.  A  atitude  da  Igreja 
modificou  e  condicionou  o  desenvolvimento  da  economia,  escreve  A  P.  Usher  (1943)  138.  mas 
jamais  o  obstruiu.  E  B.  N.  Nelson  (1947)  121-123  chama  a  atenção  para  o  lacto  de  a  Igreja  ter 
apoiado  os  grandes  negócios  e  não  ter  impedido  o  crescimento  económico.  Sem  negar  o  carácter 
desenvolvimentista  assumido  pela  doutrina  de  Tomás  de  Aquino.  A.  Sapori  ( 1946)  196  e  226-227  é 
mais  circunspecto  nas  suas  conclusões  e  pretende  que  as  teses  do  grande  filósofo  escolástico  e  as 
medidas  práticas  por  elas  inspiradas  foram  um  elemento  moderador  do  crescimento  económico,  evi¬ 
tando  uma  subversão  brusca  das  estruturas.  É  lamentável  que  J.  Le  Goff  (1960)  oponha  a  Igreja  e  os 
mercadores  como  se  se  tratasse,  de  um  lado,  de  um  sistema  ideológico  e,  do  outro  lado.  económico- 
-  ideológico,  sem  aflorar  sequer  naquele  artigo  a  importante  actividade  que  a  Igreja  prosseguiu  no 
mundo  dos  negócios.  Este  é  mais  um  exemplo  das  conclusões  apressadas,  baseando-se  em  premissas 
sem  fundamento,  que  proliferam  na  obra  de  Jacques  Le  Goff. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  coma  elemento  cio  regime  senhorial 


525 


Na  Inglaterra  do  século  X,  por  exemplo,  a  implantação  das  oficinas  de  cunhagem 
obedecia  mais  às  conveniências  da  administração  real  do  que  a  qualquer  procura  de 
numerário  para  os  negócios199.  Sobretudo,  convém  ter  presente  o  que  se  passou  na 
Espanha  cristã,  onde  a  monetarização  da  economia  atingira  já  no  século  XI  um  grau 
muito  elevado.  Durante  bastante  tempo  as  grandes  quantidades  de  numerário  que  aí 
corriam  eram  sobretudo  de  origem  muçulmana,  já  que  a  cunhagem  dos  soberanos  cris¬ 
tãos  foi  relativamente  tardia20"  e  as  moedas  provenientes  de  além-Pirenéus  circularam 
então  apenas  a  norte  do  Douro,  sendo  aliás  desalojadas  pelo  avanço  das  peças  islâmi¬ 
cas201.  Esta  abundância  de  numerário  no  início  do  período  não  se  deveu  a  qualquer  flo¬ 
rescimento  do  comércio  no  interior  do  regime  senhorial.  Foram  as  peregrinações  para 
Compostela  que  difundiram  na  Galiza  a  cunhagem  francesa  de  prata202  e,  na  medida 
em  que  a  actividade  mercantil  contribuiu  para  aumentar  o  caudal  pecuniário,  tratou-se 
nessa  época  unicamente  de  um  tráfico  com  a  área  islâmica202.  Mas  na  sua  maior  parte 
as  moedas  eram  obtidas  através  do  saque.  A  forma  mais  directa  consistia  nas  pequenas 
razias  conduzidas  periodicamente  contra  o  território  muçulmano,  em  que  se  envolviam 
todas  as  camadas  sociais,  ou  nas  grandes  operações  militares  levadas  a  cabo  quando  os 
senhores  cristãos  se  sentiam  com  força  suficiente,  ou  percebiam  nos  inimigos  a  conve¬ 
niente  fraqueza204.  As  actividades  guerreiras  contribuíram,  porém,  de  dois  outros 
modos,  talvez  mais  importantes  ainda  em  virtude  da  sua  regularidade,  para  difundir  o 
numerário  islâmico  no  interior  das  sociedades  senhoriais  da  Espanha.  Durante  a  época 
em  que  os  Maometanos  se  repartiram  por  áreas  de  soberania  rivais,  digladiando-se 
entre  si  com  grande  frequência,  muitos  cristãos  alistaram-se  como  mercenários  nas 
hostes  destes  principados,  e  ao  regressarem  às  suas  regiões  de  origem  levaram  consigo 
somas  consideráveis,  acumuladas  não  só  graças  aos  soldos,  mas  às  pilhagens 
também205.  Em  segundo  lugar,  a  situação  de  fraqueza  em  que  aquelas  divisões  internas 
colocaram  os  Muçulmanos  permitiu  aos  soberanos  cristãos,  e  até  a  magnates,  extorqui¬ 
rem-lhes  tributos  de  guerra  regulares,  que  incluíram  avultadíssimas  quantidades  de 
moeda206.  Assim,  através  de  meios  mais  guerreiros  do  que  mercantis,  a  sociedade 
senhorial  ibérica  passou  a  dispor  de  enormes  somas  de  numerário207. 


,w  Ph.  Grierson  (1976  a)  82. 

200  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)  59,  64;  Ph.  Grierson  (1976  a)  151,  224;  A.  H.  O.  Marques  (1965) 
276;  C.  Sánchez- Albornoz  (1928)  3 1 3  e  segs.,  330. 

201  No  século  XII,  a  norte  do  Douro  o  uso  de  numerário  era  restrito,  indica  J.  Gautier-Dalché 
(1969)  61.  e  além  da  cunhagem  régia  circulavam  moedas  cristãs  estrangeiras;  mas  este  especialista 
acrescenta  (pp.  62-63)  que  na  passagem  do  primeiro  para  o  segundo  terço  do  século  XII,  e  durante 
várias  décadas,  o  dinar  almorávida  assumiu  bruscamente  a  hegemonia  em  toda  aquela  região,  excep- 
tuando  a  Galiza. 

202  Id.,  ibid.,  64. 

201  Id.,  ibid.,  63-64. 

204  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  383;  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)48.  63-64;  M.-C.  Gerbel  ( 1994)  14. 

2ft'  Era  o  que  sucedia  na  Catalunha,  a  crer  em  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  346  e  segs..  668. 

2<ltl  Id.,  ibid.,  665-668;  M.-C.  Gerbet  (1994)  14;  H.  Grassotti  (1964)  52.  55  e  segs.;  id.  (1969)738 
e  segs.;  J.  M.  Lacarra  ( 1968)  508-509;  C  Sánchez  Albornoz  (1968  a)  367. 

207  A.  U.  O.  Marques  ( 1965)  275  pretende  que  a  partir  dos  últimos  anos  do  terceiro  quartel  do 
século  Xll  o  recrudescimento  da  actividade  militar,  provocando  a  diminuição  do  comércio  entre  as 
duas  sociedades,  teria  originado  a  escassez  do  numerário  de  ouro  muçulmano  nos  reinos  cristãos. 


526 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  da  dinheiro 


Ora,  é  de  uma  importância  teórica  decisiva  verificarmos  que  esta  monetarização  não 
estimulou,  por  seu  turno,  a  actividade  comercial208.  Em  vez  disso,  a  abundância  de  peças 
cunhadas  permitiu  aos  reis  e  aos  potentados  cristãos  recrutarem  mercenários209,  além  de 
incentivar  também  a  concessão  de  senhorias  pecuniárias210,  acelerando  portanto  a  evolu¬ 
ção  das  relações  senhoriais211.  Em  suma,  quando  as  circunstâncias  permitiram  que  a 
sociedade  se  monetarizasse  sem  recorrer  intemamente  ao  comércio,  o  numerário  píxle 
servir  de  maneira  directa  os  seus  fins.  possibilitando  a  adopção  rápida  de  modalidades 
impessoais  do  hannum.  É  mais  difícil  seguir  o  processo  de  monetarização  na  outra  face 
da  senhoria  impessoal,  voltada  para  as  relações  de  dependência,  porque,  como  vimos 
(no  capítulo  4,b),  ao  cobrarem  as  prestações  em  géneros  os  senhores  evitavam  as  conse¬ 
quências  negativas  das  depreciações  e,  além  disso,  eles  podiam  ter  interesse  em  extor¬ 
quir  géneros  para  os  colocar  à  venda  no  mercado  e  em  requisitar  serviços  de  trabalho 
para  estimular  a  exploração  dontinial  directa,  também  com  intuitos  comerciais.  Todos 
estes  aspectos  influíram  na  cronologia  da  monetarização  das  exacções.  retardando-a.  ou 
invertendo-a  mesmo,  mas  apesar  disso  parece-me  indubitável  que,  na  medida  em  que  as 
peças  islâmicas  se  tivessem  difundido  no  meio  rural  da  Espanha  cristã212,  ficaria  facili¬ 
tado  o  emprego  de  numerário  nos  tributos  (ver  o  capítulo  2. a).  Também  por  este  lado, 
portanto,  as  operações  comerciais  foram  dispensáveis  e  os  outros  meios  de  difusão  da 
moeda  proporcionaram  directamente  o  desenvolvimento  da  senhoria  impessoal. 


Todavia,  não  foi  por  ler  criado  obstáculos  ao  tráfico  que  a  ofensiva  cristã  estancou  o  caudal  das  moe¬ 
das  islâmicas,  mas  por  ter  posto  fim  à  cobrança  dos  tributos  de  guerra  e  por  ler  encerrado  as  oportuni¬ 
dades  de  alistamento  de  cristãos  como  mercenários  ao  serviço  dos  potentados  maometanos. 

:as  J.  Gautier-Dalché  ( 1969)  62  observa  que  o  facto  de  a  moeda  muçulmana  ler  passado  a  circular 
com  abundância  nas  Astúrias  a  partir  das  quarta  e  quinta  décadas  do  século  XII  não  levou  a  que  se 
abandonasse  neste  reino  a  prática  do  escambo  nem  a  que  se  pusesse  de  lado  o  uso  de  géneros  agríco¬ 
las  para  executar  as  funções  de  dinheiro. 

2IM  No  último  quartel  do  século  XI  o  rei  de  Aragão  usou  o  dinheiro  dos  tributos  cobrados  aos 
pequenos  principados  maometanos  para  recrutar  uma  cavalaria  mercenária,  consoante  indica  J.  M. 
Lacarra  (1968)  508-509.  O  mesmo  fez  o  conde  de  Barcelona,  afirma  P.  Bonnassie  (1975-1976)  673,  e 
este  historiador  informa  também  fpp.  572-573)  que  a  pratica  se  difundiu  na  Catalunha  entre  outros 
níveis  da  aristocracia,  porque  durante  o  segundo  terço  do  século  XI  os  castelâos,  além  das  suas  hostes 
regulares,  formadas  pelos  cavaleiros  vinculados  à  fortaleza,  recorriam  ainda,  em  caso  de  necessidade, 
ao  serviço  de  mercenários.  De  igual  modo,  mostra  C  Sánchez  Albornoz  (1968  a)  367.  em  Leão  e  Cas¬ 
tela  os  reis  empregavam  as  somas  pilhadas  ou  extorquidas  aos  Muçulmanos  para  remunerar  o  serviço 
militar  dos  seus  cavaleiros  e  vassalos,  os  quais,  por  seu  tumo.  com  parte  deste  dinheiro  pagavam  o  ser 
viço  militar  dos  seus  próprios  homens.  Ainda  a  respeito  de  Leão  e  Castela  ler  H.  Grassotti  (1964)  52. 

2,0  Acerca  do  sucedido  na  Catalunha  ver  P.  Bonnassie  (1975-1976)  755-757.  Quanto  ao  reino 
astur-leonês  consultar  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  14  A  respeito  de  Leão  e  Castela  ver  H.  Grassotti  em  Cen¬ 
tre  National  de  la  Rcehcrche  Scientifique  (1968)  449-45(1  c  C  Sánchez  Albornoz  (1968  a)  367. 

211  Não  me  parece  que  C.  Sánchez  Albornoz  (1968  a)  368-369  tenha  razão  ao  considerar  que  os 
soldos  e  as  senhorias  pecuniárias  constituíram  um  obstáculo  ao  desenvolvimento  das  relações  senho¬ 
riais  de  subordinação  pelo  facto  de  permitirem  aos  reis  leoneses  a  ultrapassagem  de  certas  limitações 
do  sistema  vassálico.  As  modalidades  impessoais  do  poder  representaram  um  progresso  do  regime 
senhorial  e  não  a  sua  supressão  nem  a  sua  superação. 

2,2  P.  Bonnassie  ( 1975-1976)  382  afirma  que  na  Catalunha  do  início  do  período,  e  em  especial  na 
região  de  Barcelona,  contrariamente  ao  que  sucedia  em  Leão  e  Castela,  as  moedas  de  ouro  dc  prove¬ 
niência  muçulmana  circulavam  em  todas  as  categorias  sociais,  mesmo  no  médio  e  pequeno  campesi¬ 
nato  independente, 


As  relações  pecuniárias  e  <  omeri  iais  coma  elemento  do  regime  senhorial 


527 


Aliás,  este  tipo  de  situações  caracterizou  também  sociedades  muito  diferentes.  Car- 
tago,  por  exemplo,  conseguiu  ser  o  maior  empório  comercial  do  seu  tempo  no  Mediter¬ 
râneo,  e  mesmo  na  costa  atlântica  do  que  viria  depois  a  ser  a  Europa,  sem  que  na 
metrópole  se  fabricasse  moeda.  Quando  a  cunhagem  se  iniciou  na  cidade  de  Cartago, 
no  quarto  século  antes  da  nossa  era,  parece-me  ter-se  destinado  a  pagar  os  enormes 
exércitos  de  mercenários,  e  não  a  facilitar  as  transacções  mercantis213. 

No  regime  senhorial  o  dinheiro  desenvolveu-se  no  âmbito  do  bannum,  como  um  dos 
seus  instrumentos  principais,  e  o  comércio  transformou-se  e  adaptou-se  às  novas  neces¬ 
sidades  impostas  pelas  três  grandes  modalidades  pecuniárias.  A  actividade  comercial  e 
bancária  foi  um  mero  resultado,  num  campo  específico,  do  poder  impessoal  que  per¬ 
meava  e  dominava  toda  a  sociedade,  por  isso  os  negócios  jamais  romperam  os  quadros 
económicos  prevalecentes.  E  assim  o  sistema  dos  exclusivos  de  compra  e  venda  e  dos 
exclusivos  mantidos  sobre  variadíssimos  tipos  de  instalações,  que  constituíam  um  dos 
elementos  característicos,  e  mais  rentáveis,  da  senhoria  impessoal  (ver  na  Parte  II  os 
capítulos  8,d  e  lO.a).  serviu  também  de  modelo  às  operações  mercantis,  mesmo  nas 
fornias  evoluídas  do  tráfico  de  longo  curso,  e  inspirou  a  pletora  de  disposições  econó¬ 
micas  restritivas  que  a  partir  de  certa  altura  passaram  a  condicionar  o  comércio  de 
maneira  crescente.  Era  muito  íntima  a  conjugação  entre  as  normas  limitadoras  da  vida 
económica,  por  um  lado,  e,  por  outro,  a  busca  de  uma  auto-suficiência.  Todas  as  medi¬ 
das  restritivas  visavam,  afinal,  colocar  entraves  no  mercado,  quer  impedindo  o  fluxo  de 
mercadorias  quer  canalizando-o  em  dados  sentidos,  e  para  que  isto  não  provocasse 
crises  de  fome  e  uma  miséria  generalizada  era  imprescindível  que  o  abastecimento  esti¬ 
vesse  assegurado.  O  sistema  de  exclusivos  implantado  pelas  senhorias  impessoais  e  as 
restantes  formas  de  intervenção  no  mercado  tomaram  por  base  a  autarcia.  Tal  como 
sucedera  no  período  anterior,  a  auto-suficiência  económica  jamais  deixou,  neste 
período  também,  de  nortear  o  cálculo  dos  governantes  e  as  aspirações  da  população, 
tanto  rural  como  urbana214.  E  se  muitas  das  novas  disposições  restritivas  surgiram 
apenas  em  datas  relativamente  avançadas215,  isto  deveu-se  ao  facto  de  terem  até  então 
bastado  as  modalidades  tradicionais  de  autarcia.  A  multiplicação  das  operações  comer¬ 
ciais  e  o  carácter  cada  vez  mais  frequente  dos  negócios  conduzidos  com  portos  dis¬ 
tantes  obrigaram  a  adaptar  a  autarcia  às  novas  condições  em  que  vigorava  a  senhoria 
impessoal,  mas  as  determinantes  da  tendência  para  a  autarcia  continuaram  a  ser  as 
mesmas,  resultando  da  demarcação  entre  colectividades  e  entre  esferas  de  soberania 
bem  diferenciadas. 


-1  ■’  Esta  6  a  conclusão  que  creio  poder  lirar-se  de  B.  H.  Wamiington  (1981  i  447.  450  e.  457. 

-14  M.  Bloch  ( 1939-1940)  1  1 14;  R.  S.  I  .opcz  ( 1974)  209:  G.  Luzzatto  ( 1951 )  678;  A.-G.  Manry 
(org.  1974)  186;  A.  H.  O.  Marques  (1968)  14.  H.  E.  Mayer  ( 1972)  173;  P.  Touben  (1973  b)  254. 

-IS  Em  Itãlía.  até  ao  final  do  século  XII  não  se  conhecem  medidas  por  parte  das  autoridades  urba¬ 
nas  para  assegurar  o  abastecimento  das  cidades,  afirma  A.  Castagnetti  (1974)  363.  Por  seu  lado, 
D.  Merlihy  ( 1958  bi  1 10  considera  que  mesmo  antes  dessa  data  muitas  cidades  exerciam  já  uma  fisca¬ 
lização  considerável  sobre  a  produção  e  o  tráfico  de  cereais,  mas  a  sua  análise  (p.  111)  mostra  que 
numa  lase  inicial  os  governos  urbanos  se  preocupavam  sobretudo  em  usar  o  comércio  cerealífero 
como  fonte  de  rendimentos  fiscais.  Segundo  H.  A.  Mískimin  (1969)  77.  a  partir  do  século  XIII 
aumentou  muito  o  número  de  posturas  destinadas  a  garantir  a  oferta  de  alimentos  e  a  assegurar  o 
fluxo  regular  de  géneros  agrícolas  em  direcção  às  cidades. 


528 


Articulação  entre  as  Formas  /.  II  e  UI  tio  dinheiro 


No  quadro  da  auto-suficiência  económica  distinguíam-se  vários  tipos  de  medidas 
restritivas,  consoante  o  lugar  ocupado  pelos  bens  nas  cadeias  de  produção. 

No  caso  dos  bens  de  consumo  corrente  o  objectivo  consistia  em  manter  os  preços 
baixos  ou  opor  obstáculos  à  sua  elevação.  Foram  muito  numerosas  as  medidas  que.  no 
interior  até  das  mesmas  áreas  de  soberania,  proibiram  as  exportações  de  cereais  e 
outros  géneros  alimentares,  pelo  menos  ern  épocas  de  má  colheita,  de  maneira  a  não 
agravar  a  situação  de  fome216.  A  eficácia  destas  leis  e  posturas  é  muito  discutível,  em 
primeiro  lugar  porque  vários  lugares  e  regiões  procuravam  simultaneamente  impedir  as 
saídas  de  géneros  e  fomentar  a  sua  vinda217,  de  tal  modo  que  se  um  comerciante,  numa 
dada  localidade,  podia  temer  as  sanções  que  puniam  a  exportação  ilegal,  sentia-se  tam¬ 
bém  estimulado  pelos  ganhos  com  que  as  localidades  vizinhas  premiavam  a  importa¬ 
ção.  Todavia,  não  é  menos  certo  que  a  escassez  numa  dada  região,  provocando  uma  alta 
dos  preços,  tomava  mais  rentáveis  as  vendas  locais  e  diminuía,  por  conseguinte,  o  inte¬ 
resse  que  pudessem  oferecer  as  exportações.  Um  segundo  factor  de  ineficácia  das 
medidas  restritivas  consistia  na  insuficiência  da  fiscalização  e  na  corrupção  dos  fiscais, 
tanto  mais  fácil  quanto  os  grandes  mercadores  dispunham  de  fortuna  e  de  influência 
política218. 

Sucedia,  também  no  caso  dos  víveres,  que  os  soberanos  impusessem  um  baixo  preço 
nas  transacções.  de  maneira  a  reduzir  os  custos  de  abastecimento  dos  seus  exércitos; 
aliás,  se  não  o  fizessem  o  brusco  acréscimo  da  procura  de  alimentos  motivado  pela  con¬ 
centração  das  tropas  levaria  os  preços  de  mercado  a  atingirem  níveis  muito  elevados2  |g. 
As  medidas  deste  tipo  não  deparavam  com  dificuldades  de  fiscalização,  porque  os 
monarcas  e  os  príncipes  empregavam  destacamentos  militares  para  requisitar  géneros  e 
tinham  a  força  suficiente  para  pagá-los  quando  queriam  e  pelo  preço  que  pretendiam. 
Nestas  operações  a  pilhagem  era  muito  superior  à  componente  comercial22". 


216  Ver  no  capítulo  2  as  nn.  166  e  167. 

217  Ver  a  n.  1 7 1  do  capítulo  2. 

:is  Ver  as  nn.  168  a  170  do  capítulo  2. 

No  entanto.  E.  Perroy  (1949)  174  considera  que  a  cobrança  de  taxas  e  a  repressão  da  fraude  fiscal 
haviam  levado  os  governantes  a  reforçar  as  medidas  de  controlo  do  tráfico  e  do  comércio.  Em  Taras- 
con.  no  século  XIV,  M  Hebert  (1979)  164-165  refere  o  controlo  e  a  inspecção  de  todos  os  géneros 
que  entravam  na  cidade,  para  obrigar  os  mercadores  que  transportassem  trigo  a  pô-lo  à  venda  no  mer¬ 
cado  urbano.  Durante  a  grande  fome  que  assolou  o  Languedoc  em  1374-1375,  leio  em  M.-J.  Larenau- 
die  (1952)  33-34  que  as  autoridades  de  Castres  procederam  a  repetidas  vistorias  para  apreender  os 
excedentes  de  cereal  armazenados  em  residências  particulares,  e  esta  autora  informa  também  (p.  34) 
que  em  Toulouse  foram  fechadas  várias  portas  da  muralha  e  colocados  guardas  junto  as  restantes  de 
modo  a  impedir  a  saída  de  cereais  e  de  pão.  organizando-se  ainda  rondas  nocturnas.  D.  Herlihy  ( 1967) 
124  pretende  mesmo  que  a  baixa  dos  preços  do  trigo  em  Pistoia,  desde  os  meados  da  penúltima 
década  do  século  XIII  ao  final  da  quarta  década  do  século  seguinte,  se  teria  devido,  entre  outros  facto- 
res,  à  rigorosa  fiscalização  exercida  pela  comuna  sobre  o  mercado  de  cereais. 

21 *  M.  Prestwich  ( 1972)  118.  127-128. 

220  Em  Inglaterra,  escreve  id.,  ibid..  135,  não  se  conhecem  queixas  acusando  a  coroa  de  impor  aos 
vendedores  preços  anonnalmente  baixos,  embora  este  autor  especifique  que  eles  eram  inferiores  à  média 
do  reino.  Todavia,  o  termo  de  comparação  usado  por  Michael  Prestwich  não  mc  parece  adequado,  por¬ 
que  na  região  onde  as  tropas  estavam  concentradas  ocorria  um  grande  acréscimo  da  procura,  e  era  desta 
oscilação  do  mercado  que  os  vendedores  de  produtos  agrícolas  ficavam  impedidos  de  se  aproveitar. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  clememo  cio  regime  senhorial 


529 


Nos  centros  urbanos  os  problemas  suscitados  pelo  abastecimento  alimentar  foram 
mais  complexos  e  conjugaram  o  sistema  adoptado  por  cada  família  senhorial  com  o  sis¬ 
tema  adoptado  pela  cidade  enquanto  senhor  colectivo.  Em  grande  medida,  as  famílias 
senhoriais,  tanto  famílias  laicas  como  estabelecimentos  eclesiásticos,  consumiam  elas 
mesmas  a  sua  produção  dominial  e  os  tributos  em  géneros  trazidos  pelos  caseiros,  ou  as 
rendas  em  géneros  trazidas  pelos  devedores,  no  caso  de  certas  modalidades  de  cré¬ 
dito221.  Temos  aqui  uma  manifestação  de  sobrevivência  da  autarcia  clássica.  E  como  se 
pode  pensar  que  o  mercado  urbano  fornecia  sobretudo  a  gente  pobre,  aqueles  que  não 
possuíam  terras  de  cultura  na  cidade  ou  no  seu  território,  ou  não  as  tinham  em  extensão 
suficiente,  verificamos  que  de  novo  se  operava  uma  clivagem  no  mercado  de  acordo 
com  as  distinções  sociais. 

Mas  o  aprovisionamento  global  da  cidade  decorria  do  seu  carácter  de  senhor  colec¬ 
tivo.  A  adopção  de  medidas  económicas  restritivas  no  âmbito  urbano  revela,  por  com¬ 
paração  com  as  unidades  familiares  privadas,  que  se  tratava  da  transposição  da  autarcia 
para  um  contexto  impessoal,  tanto  mais  que  estas  disposições  foram  sistematicamente 
aplicadas  na  exploração  global  dos  camponeses,  como  mostrei  já  (no  capítulo  13,c  da 
Parte  II).  Cada  cidade  tendeu  a  tomar-se  o  pólo  regional  das  transacções,  obrigando  a 
população  rural  a  colocar  pelo  menos  uma  parte  dos  seus  excedentes  à  venda  no  mer¬ 
cado  urbano  e  a  comprar  aí  artigos  manufacturados,  e  não  é  difícil  calcular  quem  ficava 
beneficiado  e  quem  saía  prejudicado,  já  que  eram  as  autoridades  da  cidade  a  regula¬ 
mentar  o  mercado  e  os  sistemas  de  preços222.  Entende-se,  neste  contexto,  que  por  vezes 
uma  cidade  tomasse  obrigatórios  dados  tipos  de  cultivo,  de  modo  a  assegurar  a  conti¬ 
nuidade  do  fornecimento  do  seu  mercado22  '.  Por  outro  lado,  nas  ocasiões  de  escassez 
as  cidades  regulavam  o  tráfico  de  géneros  alimentares  através  das  medidas  proteccio- 
nistas  que  analisei  há  pouco. 

Nos  mercados  urbanos  podia  também  ser  adoptado  um  tabelamento  para  os  manti¬ 
mentos  de  consumo  corrente,  com  o  objectivo  de  levar  os  preços  de  retalho  a  baixa¬ 
rem224.  Além  desta  intervenção  permanente,  as  autoridades  fundavam  ainda  celeiros  e 


2:1  Segundo  G.  Duby  ( 1962»  493-495.  era  muito  frequente  que  a  renda  da  reme  constituée  fosse 
paga  em  géneros.  Acerca  desta  modalidade  de  crédito  recordo  a  n.  44  do  capítulo  5. 

222  No  capítulo  2,  ver  a  n.  190. 

222  Foi  o  que  sucedeu  em  numerosas  cidades  italianas,  esclarece  Ph.  Jones  ( 1966  b)  390. 

224  M.-J.  Larenaudie  ( 1952)  33  menciona  o  tabelamento  do  preço  do  trigo  em  Toulouse.  por  oca¬ 
sião  da  grande  crise  frumenta!  de  1374  1375.  mas  acrescenta  (p.  39).  referindo-se  à  generalidade  dos 
centros  urbanos  do  Languedoc.  que  só  de  má  vontade,  e  por  pressão  dos  funcionários  da  coroa,  as 
autoridades  locais  fixavam  os  preços.  Nas  cidades  italianas,  segundo  Ph.  Jones  (1966  b)  390,  decre¬ 
tava-se  quando  necessário  um  limite  dos  preços.  Com  efeito,  J.  K.  Hyde  (1966i  55-56  admite  a  hipó¬ 
tese  de  que  as  autoridades  de  Pádua  tivessem  controlado  o  preço  do  trigo  e  do  pão  e  afirma  (p.  56  n. 
I  >  que  desde  o  ultimo  quartel  do  século  XIII  o  preço  a  retalho  do  vinho  era  tabelado  em  cenas  épocas 
do  ano.  A  propósito  de  Pisa.  D.  Herlihy  (1958  b)  112-114  atribui  aos  governos  de  tendência  democrᬠ
tica  a  imposição  de  preços  máximos  no  mercado,  enquanto  os  governos  oligárquicos  defenderiam  a 
liberdade  de  preços.  Acerca  do  tabelamento  em  Florença  na  segunda  metade  do  século  XIV  consultar 
M.  B.  Becker  ( 1968)  1 15.  F.m  Siena,  no  final  do  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  seguinte, 
W.  M  Bowsky  (1970)  34  cita  medidas  de  fixação  dos  preços.  Enquanto  a  casa  de  Anjou  reinou  na 
Sicília,  embora  estivesse  prevista  a  aplicação  de  um  controlo  permanente  dos  preços,  M.  Boüard 
(1938)  492  informa  que  na  realidade  ele  vigorava  apenas  em  épocas  de  crise:  depois  (pp.  499-500)  a 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


530 


procuravam  mantê-los  aprovisionados.  de  maneira  a  conseguirem  distribuir  ou  vender 
cereais  nas  ocasiões  de  escassez,  contrariando  então  a  tendência  à  inflação225.  Este 
conjunto  de  medidas  integrava-se  no  processo  de  exploração,  já  que  visava  conservar 
baixos  os  salários,  nomeadamente  da  mão-de-obra  usada  no  artesanato  urbano,  mesmo 
que  isso  deixasse  insatisfeitos  certos  ramos  do  comércio,  em  particular  os  magarefes, 
como  tive  ocasião  de  mostrar  (no  capítulo  1  l.c  da  Parte  II).  E  convém  não  esquecer  que 
as  maiores  cidades,  ao  exercerem  directamente  a  soberania  em  territórios  mais  ou 
menos  vastos  ou  imporem  sobre  eles  um  ascendente  económico,  conseguiam  obrigar  os 
mercadores  que  transitavam  por  esta  área  de  hegemonia  a  passarem  pelo  centro 
urbano226.  Além  de  terem  de  pagar  uma  taxa  quando  eram  forçados  a  usar  os  armazéns 
da  cidade227,  esses  mercadores,  pondo  pelo  menos  uma  parte  dos  seus  artigos  à  venda 
no  mercado  local,  contribuíam  para  aumentar  a  oferta  e,  portanto,  para  baixar  os  pre¬ 
ços,  acentuando  mais  ainda  os  mecanismos  de  exploração  internos. 

Em  sentido  contrário,  eram  promulgadas  disposições  destinadas  a  aumentar  o  preço 
de  consumo  de  alguns  bens  essenciais,  em  especial  o  sal.  e  constituíam  uma  forma  de 
imposto  indirecto  muito  usada  pelos  soberanos  e  pelos  governos  das  cidades228.  Conhe¬ 
cem-se  também  casos  de  localidades  onde  certos  artigos  alimentares  se  apresentavam 
normalmente  com  tal  abundância  que  as  autoridades  proibiam  a  sua  importação,  ou  res¬ 
tringiam-na.  de  maneira  a  impedir  uma  queda  excessiva  dos  preços  e  a  preservar  os 
interesses  dos  produtores229. 

Outro  tipo  de  medidas,  destinado  igualmente  a  assegurar  preços  de  venda  elevados, 
visava  as  matérias-primas  empregues  nas  manufacturas  e  os  próprios  artigos  manufac¬ 
turados.  e  era  aplicado  através  da  fiscalização  da  produção  e  do  controlo  exercido  sobre 


coroa  procurou  instaurar  tabelamentos  em  Nápoles  e  em  Salemo,  Em  Portugal,  a  crer  em  H.  G.  Burros 
(1945-1954)  V  150.  era  raro  que  a  fixação  tios  preços  se  devesse  a  leis  gerais,  cabendo  normalmente  à 
iniciativa  de  cada  concelho,  mas  no  último  terço  do  século  XIV  (III,  p.  144)  foi  promulgada  legisla¬ 
ção  tabelando  os  preços  de  todas  as  mercadorias. 

2:5  W.  M.  Bowsky  (1970)  33;  id.  (1981)  203;  D  Herlihy  (1958  h)  1 14.  116;  G.  Luzzalto  (1951) 
679-680:  A.  H  O.  Marques  (1968)  1 17:  H.  A.  Miskimin  (1969)  70;  F.  Thiriet  (1959)  232. 

226  A  primeira  medida  proibindo  mercadores  de  efeeiuar  transacçòes  fora  do  mercado  da  cidade 
dataria  do  século  X  e  referir-se-ia  a  Aries,  estando  cm  vigor  na  comunidade  dos  negociantes  judeus, 
afirma  I.  A.  Agus  (1965)  215-216.  que  considera  que  os  Cristãos  teriam  adoptado  posteriormente  este 
tipo  de  disposições.  Todavia,  para  a  análise  que  estou  agora  a  prosseguir  não  importa  averiguar  as 
eventuais  precedências  históricas,  porque  o  desenvolvimento  dos  centros  urbanos  e  das  senhorias 
impessoais  conferiu  novas  virtualidades  àquelas  medidas.  A.  Gieysztor  (1971  b)  1 10-111  mostra 
como.  no  último  quartel  do  século  XIII  e  nos  anos  iniciais  do  século  XIV.  as  cidades  polacas  conquis¬ 
taram  progressivamente  ao  soberano  o  direito  de  obrigar  os  comerciantes  estrangeiros  a  transitarem 
pelo  seu  mercado  e  apropriaram-se  assim  da  respectiva  cobrança  de  taxas.  Acerca  da  forma  como 
Veneza  conseguia  pressionar  a  totalidade  dos  mercadores  em  viagem  pelo  norte  do  Adriático  a  passa¬ 
rem  pela  cidade  consultar  F.  C.  Lane  ( 1 973)  60,  62-63,  1 85  e  1 98. 

22  Ver  no  capítulo  2  a  n.  189. 

:2S  Ver  a  n.  181  do  capítulo  2. 

229  Foi  o  que  se  passou  relativamente  ao  vinho  em  Marselha  e  nas  colónias  marselhesas.  a  crerem 
R.  Pcmoud  (1949)  250  e  252:  além  disso,  acrescenta  esta  historiadora  em  ap.  rir ,  251,  estava  proi¬ 
bido  na  cidade  o  fabrico  de  outras  bebidas  alcoólicas,  de  maneira  a  não  prejudicar  o  comércio  do 
vinho.  Também  em  liália  E.  Fiumi  (1956)  60-61  refere  a  existência  de  comunas,  com  economia  pre- 
dominan temente  agrícola,  que  tomavam  medidas  destinadas  a  restringir  as  importações. 


,4t  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  demento  do  regime  senhorial 


531 


a  comercialização2  '0.  Como  a  ciasse  senhorial  detinha  a  autoridade  superior  sobre  os 
incultos,  ela  orientava  directamente  a  oferta  de  uma  grande  parte  das  fontes  de  energia 
e  das  matérias-primas231,  o  que  facilitava  a  imposição  das  normas  restritivas  e  das 
medidas  de  exclusivo.  O  encarecimento  que  estas  práticas  acarretassem  nos  custos  de 
fabrico  das  manufacturas  não  representava  um  obstáculo  intransponível,  porque  neste 
tipo  de  bens,  e  em  situações  em  que  o  mercado  externo  permanecia  em  boa  parte 
cativo,  tornava-se  possível  repercutir  o  aumento  sobre  os  preços  de  consumo  ou,  no 
caso  de  estar  em  vigor  o  sistema  empresarial,  eram  os  artesãos  a  sofrer  o  agravamento 
dos  custos  de  produção,  ficando  poupado  o  negociante.  Aliás,  quando  os  produtos  do 
artesanato  se  escoavam  através  do  tráfico  de  longo  curso  só  atingiam  geralmente  volu¬ 
mes  maciços  no  quadro  do  sistema  empresarial,  e  tudo  o  que  contribuísse  então  para 
aumentar  os  preços  de  venda  finais  promovia  os  lucros  dos  grandes  negociantes  e 
deprimia,  pelo  menos  em  termos  relativos,  a  situação  dos  pequenos  artesãos.  Na  extre¬ 
midade  inaugural  do  processo,  os  preços  de  venda  mais  elevados  das  matérias-primas 
eram  sustentados  pelos  mestres  das  oficinas,  em  benefício  dos  empresários;  e  na  extre¬ 
midade  final,  como  eram  os  empresários  quem  punha  à  venda  o  produto  acabado,  eles 
podiam  reduzir  as  remunerações  e  reorganizar  os  métodos  de  trabalho  de  maneira  a  evi¬ 
tar  que  o  aumento  dos  custos  se  repercutisse,  ou  se  repercutisse  totalmente,  numa 
subida  dos  preços  de  consumo,  pagando  então  os  artesãos  duplamente  os  ganhos  dos 
empresários232.  Afinal,  como  vimos  já  (no  capítulo  I2.b  da  Parte  II),  nos  centros  urba¬ 
nos  mais  desenvolvidos  a  generalidade  das  medidas  de  exclusivo  aplicadas  às  manufac¬ 
turas  constituía  um  factor  importante  do  processo  de  exploração  no  interior  das  cadeias 
de  fabrico.  H  mesmo  nos  casos  em  que  os  grandes  negociantes  se  limitavam  a  uma 
situação  de  intermediários,  o  aumento  dos  seus  lucros  fazia-se  em  detrimento  dos  fabri¬ 
cantes.  Quando  a  Hansa,  por  exemplo,  se  gabava  de  obrigar  a  Inglaterra  a  vender-lhe  a 
lã  a  baixo  preço  e  a  comprar-lhe  de  novo  a  lã  por  preço  elevado,  sob  a  forma  de  tecidos 
flamengos233,  estava  a  revelar  o  funcionamento  de  um  sistema  em  que  os  interesses  dos 
comerciantes  prevaleciam  sempre  sobre  os  dos  artesãos. 


2,(1  A  mahone  de  Chio  recebera  das  autoridades  genovesas  o  direito  a  controlar  a  extracçào  da 
resina  de  almácega  na  ilha.  bem  como  o  prático  exclusivo  da  comercialização  desta  matéria-prima,  e 
aplicava-os  com  grande  rigor  e  severidade,  de  maneira  a  manter  elevados  os  preços  de  exportação;  em 
seguida,  a  formação  de  uma  nova  mahone  levou  a  que  ambas  dividissem  aqueles  direitos  entre  si, 
sempre  com  o  objectívo  de  impedir  que  os  preços  de  venda  baixassem.  Encontra-se  em  M.  Baiard 
(1978)  742-748  uma  análise  detalhada  desta  situação.  Em  Veneza  houve  um  caso  de  maior  complexi¬ 
dade,  estudado  por  F.  C.  Lane  (1973)  162.  A  partir  da  penúltima  década  do  século  XIII  o  governo 
assumiu  o  exclusivo  da  importação  da  matéria-prima  usada  no  fabrico  das  cordas,  um  equipamento 
indispensável  aos  navios  em  que  assentava  a  fortuna  da  cidade;  a  matéria-prima  era  depois  revendida 
aos  mestres  artesãos,  e  embora  o  lucro  do  Estado  nestas  operações  seja  classificado  como  moderado, 
as  reclamações  foram  tantas  que  o  sistema  teve  de  ser  suspenso;  o  governo  limitou-se  então  a  tomar 
obrigatór  ia  a  armazenagem  da  matéria-prima  nas  suas  instalações,  cobrando  uma  taxa  por  este  ser¬ 
viço,  mas  mais  tarde  mandou  construir  uma  oficina  estatal  para  a  produção  de  corda. 

231  Ver  a  n.  180  do  capítulo  2. 

2,2  Ao  instaurar  taxas  sobre  a  exportação  de  là.  o  rei  de  Inglaterra  suscitou  um  acréscimo  dos  cus¬ 
tos  dc  fabrico  nas  manufacturas  flamengas,  que  os  empresários  procuraram  evitar  através  da  redução 
do  custo  da  mão-de-obra  e  mediante  a  regulamentação  mais  estrita  dos  processos  de  trabalho,  com  o 
inevitável  agravamento  das  tensões  sociais  Ver  a  este  respeito  M.  Mollat  et  al.  ( 1970)  42. 

- '  ‘  M  Beard  ( 1938)  81. 


532 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


Esta  série  de  disposições  revela  uma  diferença  muito  profunda  entre  os  princípios 
que  presidiam  à  produção  de  víveres  e  os  que  regiam  a  produção  artesanal.  As  manu¬ 
facturas  destinavam-se  a  laborar  para  o  mercado,  e  nos  grandes  centros  visavam  mesmo 
uma  clientela  de  massas  através  do  tráfico  de  longo  curso.  A  liberdade  comercial  recla¬ 
mada  para  os  produtos  do  artesanato  consistia  na  penetração  nos  mercados  estrangei¬ 
ros,  recorrendo-se  com  facilidade  a  meios  violentos  quando  não  bastava  a  mera  concor¬ 
rência  económica234.  Só  como  retaliação,  no  contexto  de  uma  guerra  ou  de  outras  situa¬ 
ções  de  hostilidade  sistemática,  é  que  um  soberano  decretava  medidas  destinadas  a 
limitar  as  exportações  de  matérias-primas  artesanais,  de  maneira  a  prejudicar  a  activi- 
dade  manufactureira  dos  seus  inimigos235.  De  resto,  era  a  promoção  das  exportações  a 
nortear  todas  as  facetas  da  economia  arlesanal,  sucedendo  mesmo,  quando  diminuía  a 
procura  de  certos  artigos  no  comércio  de  longo  curso,  que  as  autoridades  impusessem 
aos  intermediários  barreiras  proteccionistas.  proibindo  por  exemplo,  e  de  maneira 
muito  rigorosa,  a  importação  de  lanifícios  destinados  ao  acabamento  e  à  reexportação, 
para  facilitar  a  colocação  dos  produtos  autóctones  nos  mercados  estrangeiros236.  Em 
resumo,  no  que  dizia  respeito  à  comercialização  dos  produtos  manufacturados,  as  proi¬ 
bições  e  restrições,  se  ocorressem,  visavam  a  importação,  com  o  intuito  precisamente 
de  preservar  os  mercados  para  o  fabrico  local237. 

No  que  tocava  aos  géneros  alimentares,  porém,  neste  período  a  exportação  só  era 
aceite  depois  de  a  auto-suficiência  estar  inteiramente  garantida,  e  o  que  antes  de  mais 
se  procurava  era  a  importação.  Proibidas  e  perseguidas  em  épocas  de  fome.  as  exporta¬ 
ções  deste  tipo  de  bens  só  eram  incentivadas  quando  as  colheitas  se  revelavam  abun- 


-,J  A  guerra  praticamente  perpétua,  recorda  id..  ibid..  80.  era  a  condição  para  que  a  Hansa  manti¬ 
vesse  os  seus  privilégios  e  exclusivos.  E  a  guerra  de  Florença  contra  Pisa,  na  sétima  década  do  século 
XIV.  deveu-se  aos  interesses  da  manufactura  e  do  comércio,  escreve  M.  B.  Bccker  (1968)  117. 
Acerca  deste  problema  em  geral  consultar  também  J.  Day  1. 1994)  205. 

-35  Em  1270  o  governo  inglês  decidiu  opor  um  embargo  às  exportações  de  lã  para  a  Flandres, 
mas.  segundo  R.  W  Kaeuper  (1975)  142-144.  ele  foi  aplicado  com  muito  pouco  rigor,  e  só  Eduardo  I. 
depois  de  subir  ao  trono  em  1272,  tomou  disposições  mais  estritas.  Embora  este  autor,  em  op.  cit.. 
144,  levante  a  hipótese  de  tais  medidas  terem  servido  ao  monarca  sobretudo  como  preparativo  para  a 
imposição  regular  e  sistemática  de  uma  taxa  alfandegária  generalizada,  parece-me  indubitável  que 
elas  tiveram  eleitos  graves  sobre  a  manufactura  têxtil  e  o  comércio  de  tecidos  na  Flandres  e  no  norte 
da  França,  precipitando  uma  vaga  de  agitação  social,  como  referem  M.  Mollat  et  al.  (1970)  42.  Aliás, 
E.  Perroy  0  962-1963)  43  e  54  afirma  que  a  experiência  iniciada  em  1270  mostrou  à  coroa  inglesa  não 
só  que  a  lã  podia  constituir  uma  fonte  permanente  de  rendimentos  fiscais,  mas  que  era  também  possí¬ 
vel  empregar  com  vantagem  o  embargo  do  comércio  desta  matéria-prima  como  arma  política  contra 
outros  soberanos.  E,  com  efeito,  a  partir  de  1296  o  embargo  foi  novamente  decretado,  com  intuitos 
políticos,  como  esclarece  Édouard  Perroy  em  op  cit ,  54.  Por  fim,  na  quarta  década  do  século  XIV.  e 
igualmente  com  o  objectivo  de  prejudicar  as  manufacturas  flamengas,  o  rei  de  Inglaterra  promulgou 
um  grande  aumento  das  taxas  sobre  a  exportação  de  lã.  consoante  informa  J.  H.  Mutuo  ( 1977  )  231. 

*,f'  Foi  o  que  aconteceu  de  meados  do  século  XIV  em  diante  na  Flandres.  e  depois  noutras  regiões 
vizinhas,  relativamente  aos  têxteis  ingleses.  Ver  a  esie  respeito:  J.  H.  Munro  ( 1977 1  229-232.  235. 
243-249;  R.  Pemoud  ( 1948)  174,  176;  H.  van  der  Wee  ( 1675)  207. 

-1  Na  segunda  metade  do  século  XIV.  indica  M.  B.  Becker  (1968)  1 16,  tomou-se  cada  vez  mais 
frequente  que  as  manufacturas  florentinas  reclamassem  a  intervenção  do  governo  da  cidade  para  as  pro¬ 
teger  da  concorrência  estrangeira,  e  nos  últimos  anos  desse  século  foi  promulgada  a  primeira  legislação 
geral  que  estabeleceu  uma  taxa  de  montante  elevado  sobre  a  importação  de  tecidos  de  luxo  estrangeiros. 


As  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  do  regime  senhorial 


533 


dantes'38,  e  podia  mesmo  suceder  que  apesar  das  boas  colheitas  as  autoridades  locais 
não  se  mostrassem  interessadas  na  venda  para  o  exterior.  O  exemplo  de  Santarém  é 
muito  elucidativo.  De  acordo  com  vários  critérios  demográficos  e  económicos,  esta 
cidade  era  nos  séculos  XIII  e  XIV  uma  das  mais  importantes  em  Portugal,  ultrapassada 
apenas  por  Lisboa,  e  em  certos  aspectos  conquistando  até  a  precedência  ao  Porto234. 
Nessa  época  os  principais  campos  cerealíferos  localizavam-se  em  tomo  de  Santarém, 
tomando-a  o  primeiro  produtor  de  trigo  no  reino240.  Apresar  disso,  a  cidade  opôs-se  sis¬ 
tematicamente.  e  tanto  quanto  pôde.  às  vendas  de  cereais  para  fora  dos  limites  do  con¬ 
celho,  erguendo  ao  comércio  uma  multiplicidade  de  obstáculos,  enquanto  outras  locali¬ 
dades,  mais  ou  menos  ameaçadas  de  escassez,  pressionavam  os  monarcas,  em  sucessi¬ 
vas  petições,  para  as  autorizar  a  adquirir  trigo  ao  grande  centro  produtor241.  A  primazia 
em  matéria  de  cereais  não  levou  Santarém  a  promover  as  exportações,  mas,  pelo  con¬ 
trário,  reforçou  mais  ainda  a  sua  propensão  autárcica.  O  que  interessava  aos  seus  habi¬ 
tantes  era  aumentar  a  fartura  em  géneros,  e  não  aproveitá-la  para  o  negócio.  Quanto  aos 
cereais,  aos  legumes,  ao  vinho  e  à  carne,  a  liberdade  do  comércio  era  liberdade  de 
importação.  Conheço  poucos  casos  em  que  as  importações  de  bens  alimentares  fossem 
proibidas  ou  restringidas,  e  isto  sucedeu  apenas  quando  a  produção  local  era  normal¬ 
mente  tão  abundante  que  inundava  o  mercado  e  os  produtores  estavam  vitalmente  inte¬ 
ressados  em  sustentar  os  preços242. 

A  conjugação  entre  ambos  os  tipos  de  mercado  toma-se  evidente  ao  vermos  o  rei  de 
Portugal,  nos  meados  do  século  XIII,  promulgar  uma  lei  determinando  que  os  nego¬ 
ciantes  estrangeiros  não  podiam  comprar  nada  no  país  se  não  trouxessem  também  arti¬ 
gos  para  vender24'.  Sendo  aquele  reino  um  exportador  de  géneros  agrícolas  e  um 
importador  não  só  de  produtos  rurais,  mas  ainda  de  bens  manufacturados,  a  lei  visava 
limitar  tanto  quanto  possível  as  exportações  de  víveres  e  estimular  a  importação  de 
mais  víveres  e  de  produtos  do  artesanato.  A  diferença  entre  o  mercado  dos  artigos  arte- 
sanais,  vocacionado  para  a  exportação,  e  o  mercado  dos  géneros  agrícolas,  preocupado 
com  as  importações,  manteve-se  ao  longo  do  período,  e  a  população  das  maiores  cida¬ 
des.  embora  desse  mostras  de  cosmopolitismo  em  tudo  o  que  dizia  respeito  à  actívidade 
manufactureira.  fechava-se  no  mais  estreito  paruquiaiismo  quando  se  tratava  do  abaste¬ 
cimento  em  víveres244.  Mas  o  artesanato  ocupava  uma  percentagem  ínfima  da  globali¬ 
dade  da  vida  económica.  E  nos  grandes  centros  de  fabrico,  onde  uma  proporção  mais 
considerável  dos  habitantes  estava  afastada  dos  campos,  os  rendimentos  gerados  pela 
exportação  de  produtos  manufacturados  destinavam-se,  em  boa  medida,  a  melhorar  a 
segurança  alimentar,  sendo  usados  para  importar  cereais  ou  outros  víveres243.  Nesta 

-,i'  Ver  no  capítulo  2  a  n.  1 72. 

-,u  A.  H.  O.  Marques  ( 1965)  76-85.  87,  1 22  n.  48 

240  Id..  íbitl..  72. 

241  H.  G.  Barrost  1945-1954)  til  126-127.  A.  H.O  Marques  (1968)  130-131. 

242  Acerca  destes  casos  recorde-se  a  ».  229 

242  H.  G.  Burros  <  1945-1954)  V  147-148.  IX  317. 

244  G.  Luz/atto  (195 1 )  686  chama  a  atenção,  cm  termos  muito  vigorosos,  para  esta  dualidade  da 
vida  económica  e  das  mentalidades.  E.  referindo-se  à  Toscana,  D.  Herlihy  (1967)  158  afirma  que  as 
comunas  procuravam  limitar  as  exportações  aos  artigos  manufacturados. 

245  G.  Luzzatlo  1 1967)  155-156:  G.  Salvemini  ( 1957  1 47 1 . 


534 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


perspectiva  podemos  entender  melhor  as  razões  que  levavam  os  negociantes,  num  pro¬ 
cesso  já  nosso  conhecido,  a  investir  parte  dos  lucros  na  aquisição  de  terras,  Procurava- 
-se.  por  um  lado,  reforçar  a  auto-subsistência  da  família  e,  por  outro,  obter  melhores 
condições  para  especular  com  as  medidas  autárcicas  locais.  Em  todo  este  período  a 
economia  manufactureira  não  deixou  de  ser  uma  mera  subsidiária  da  economia  de  sub¬ 
sistência  alimentar  e,  portanto,  a  liberdade  de  comércio  representava  então  apenas  a 
necessidade  de  ampliar  o  escopo  da  autarcia. 

Toda  esta  actividade  comercial  se  exercia  num  quadro  que  conjugava  de  maneiras 
variadas  os  exclusivos,  o  tabelamento,  o  proteccionismo  e  a  livre  concorrência.  Uma 
vez  mais,  constatamos  que  a  doutrina  dos  eanonistas  e  dos  teólogos  a  respeito  do  justo 
preço  não  teve  qualquer  efeito  sobre  os  grandes  negócios.  O  açambarcamento  e  os 
exclusivos  eram  indubitavelmente  condenados  pelas  autoridades  religiosas,  enquanto 
impedimento  à  livre  formação  dos  preços  no  mercado-46,  mas  o  que  era  a  autarcia 
senão  uma  forma  de  açambarcamento  à  escala  de  uma  localidade  ou  de  uma  região?  A 
oferta  e  a  procura  não  podiam  articular-se  livremente  numa  situação  em  que  o  mercado 
estava  muitíssimo  fragmentado.  Mesmo  no  interior  de  cada  unidade  autárcica  os  cano- 
nistas  admitiam  para  a  formação  do  justo  preço  uma  excepção  colossal,  ao  aceitarem  a 
legitimidade  do  tabelamento  dos  preços  pelo  soberano  e  pelas  autoridades  locais247. 
Introduzia-se  assim  na  economia  uma  diferença  entre  a  razão  privada  e  a  razão  de 
Estado,  invalidando  quaisquer  pretensões  ao  universalismo  que  pudesse  ter  a  formula¬ 
ção  teórica  do  justo  preço24x.  Quando  muito,  as  críticas  dos  teólogos  e  dos  eanonistas 
ao  açambarcamento  e  à  prática  de  exclusivos  serviram  para  fazer  baixar  os  preços  nos 
retalhistas  e  nos  pequenos  artesãos,  ao  mesmo  tempo  que  era  dada  toda  a  latitude  à 
actuação  dos  grossistas  e  dos  negociantes  de  longo  curso  e  que  se  justificavam  os  altos 
preços  exigidos  pelos  vendedores  de  bens  de  luxo,  situados,  como  vimos244,  fora  do 
escopo  do  justo  preço.  Não  sendo  as  medidas  económicas  restritivas  mais  do  que  uma 
enorme  ampliação  do  sistema  de  exclusivos  vigente  na  senhoria  impessoal,  a  Igreja 
estava  a  legitimar  os  ganhos  dos  maiores  senhores  e.  antes  de  mais,  os  do  soberano. 

Assim,  já  no  final  deste  período  se  encontravam,  embora  ainda  não  reunidos  numa 
estrutura  unificada,  os  dois  grandes  conjuntos  de  elementos  económicos  e  sociais  que 
após  o  século  XV  haveriam  de  permitir  a  formação  gradual  do  sistema  mercantilista  e  a 
constituição  de  áreas  vedadas  pelo  proteccionismo,  incluindo  no  seu  interior  espaços 


246  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  SS;  A.  Sapori  <  1946)  204. 

247  R.  de  Roover  (1958)  42 1 ;  J.  Gilchrist  1 19691  6 1 . 

24íi  R.  de  Roover  ( 1958)  425  procura  salvar  a  situação  afirmando  que.  de  acordo  com  a  doutrina 
escolástica,  se  o  mercado  não  funcionasse  de  maneira  livre  concorrencial  as  autoridades  tinham  não 
só  o  direito,  como  o  dever  de  intervir  para  regulamentar  os  preços.  Todavia,  acabámos  de  verificar 
que  a  intervenção  sistemática  das  autoridades,  sobretudo  dos  governantes  locais,  foi  um  dos  maiores 
impedimentos  à  livre  concorrência.  O  que  Raymond  de  Roover  entende  neste  contexto  por  liberdade 
económica  fica  esclarecido  ao  lermos,  em  <>p.  eit..  428-429.  que.  para  imporem  o  respeito  pela  livre 
concorrência,  os  governos  urbanos  podiam  obrigar  o  campesinato  dos  arredores  a  trazer  os  seus  pro¬ 
dutos  para  a  cidade  e  a  vendê-los  direccameme  aos  consumidores  Basta  esta  estranha  liberdade  com¬ 
pulsória  para  demonstrar  que  a  livre  concorrência  não  teve  durante  este  período  qualquer  aplicação 
prática  e  que.  portanto,  o  conceito  de  justo  preço  era  economicamente  inadequado. 

249  Na  n.  1 55  deste  capítulo. 


A*  relações  pecuniárias  e  comerciais  como  elemento  Jo  regime  senhorial 


535 


dedicados  à  economia  de  plantação2-'".  Este  protomercantilismo  relacionava-se.  por  um 
lado,  com  as  disposições  tendentes  a  impedir  a  exportação  dos  metais  preciosos  e  a 
patrocinar  a  sua  importação,  que  analisei  já  a  propósito  da  política  monetária251.  E 
como  a  moeda  decorria  directamente  dos  soberanos,  as  regulamentações  restritivas  que 
visavam  os  metais  preciosos  foram  implementadas  desde  início  no  âmbito  das  áreas  de 
soberania,  enquanto  cada  conjunto  de  normas  destinado  a  assegurar  a  auto-suficiência 
alimentar  não  vigorava  em  geral  além  de  territórios  muito  reduzidos252.  Na  medida, 
porém,  ern  que  a  produção  manufactureira  se  manteve  sujeita  aos  interesses  da  auto- 
-suficiência  alimentar  e  o  tráfico  de  longo  curso  permaneceu  secundarizado  relativa¬ 
mente  ao  mercado  interno,  foi-se  tomando  gradualmente  possível  que  a  constituição  de 
áreas  de  soberania  cada  vez  mais  homogéneas  ampliasse  as  esferas  da  autarcia  até  elas 
atingirem  os  limites  de  cada  reino  ou  de  cada  principado.  Mas  são  séculos  de  história 
que  estão  para  além  do  fim  deste  livro.  Agora  interessa-me  apenas  salientar  que,  uma 
vez  mais,  o  dinheiro  exerceu  a  função  de  instrumento  imediato  do  poder,  independente¬ 
mente  da  sua  utilização  nas  operações  comerciais.  O  primeiro  passo  para  a  definição  de 
grandes  espaços  proteceionistas  foi  dado  pelos  soberanos  através  dos  circuitos  monetᬠ
rios,  e  só  em  seguida,  muito  progressivamente,  os  mercados  se  unificaram  no  interior 
destes  espaços,  acabando  as  barreiras  comerciais  por  se  sobrepor  às  fronteiras  políticas 
e  às  áreas  monetárias.  Veneza  foi  uma  precursora  quando  recorreu,  ainda  neste  período, 
a  uma  variedade  de  meios  de  controlo  e  de  fiscalização,  bem  como  a  infra-estruturas  de 
armazenagem  e  a  instrumentos  fiscais  e  financeiros,  para  integrar  as  suas  colónias 
bizantinas  num  conjunto  económico  único  e  para  instaurar  a  autarcia  no  âmbito  global 
da  área  de  soberania  da  cidade252.  E  podemos  seguir  o  processo  de  ampliação  do 
espaço  vedado  pelo  proteccionismo  ao  analisarmos  o  sucedido  depois  de  Florença  ter 
absorvido  definitivamente,  em  1351.  a  comuna  de  Pistoia.  Numa  fase  inicial.  Florença 
não  aboliu  as  medidas  restritivas  do  comércio  de  víveres  que  haviam  sido  instituídas 
por  Pistoia,  do  mesmo  modo,  aliás,  que  se  mantinham  em  vigor  as  disposições  deste 
tipo  estabelecidas  por  outras  comunas  que  Florença  colocara  também  sob  a  sua  sobera¬ 
nia;  só  em  1386  Florença  e  Pistoia  chegaram  a  um  acordo  para  liberalizar  o  tráfico  de 
produtos  agrícolas  entre  as  duas  cidades254.  Sem  o  alargamento  do  âmbito  das  medidas 


Depois  de  observar  que  o  proteccionismo  na  esfera  mercantil  e  o  huilionism  cm  matéria  mone¬ 
tária  constituíam  o  fundamento  do  mercantilismo,  J.  H.  Munro  (1977  )  229  indica  que  as  suas  primei¬ 
ras  manifestações  datam  do  século  XII  e  que  a  formação  efectiva  do  mercantilismo  enquanto  sistema 
ocorreu  durante  a  grande  crise  dos  séculos  XIV  e  XV;  não  me  parece,  no  entanto,  que  este  historiador 
tenha  razão  quando  restringe  as  raízes  do  proteccionismo  ao  âmbito  das  cidades,  porque  as  disposi¬ 
ções  autárcicas  vigoraram  igualmente  nas  comunidades  rurais.  M.  Balard  (1978)  749  observa  que  o 
controlo  sobre  a  extracção  da  resina  dç  almáccga,  concedido  pelas  autoridades  genovesas  à  mahone 
de  Chio.  e  o  exclusivo  da  comercialização  desta  matéria-prima  anteciparam  o  modelo  da  economia  de 
plantação,  ainda  que  os  camponeses  da  ilha  fossem  teoricamente  pessoas  livres.  Por  seu  turno,  M.  B. 
Bccker  (1968)  1 16  c  1 17  classifica  como  protomercantilismo  o  aumento  da  intervenção  do  governo 
de  Florença  na  economia  da  cidade  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV. 

Ver  a  n.  240  do  capítulo  2 

2y2  Quanto  à  proliferação  de  unidades  autárcicas  no  interior  das  mesmas  áreas  de  soberania  ver  a 
n.  167  do  capitulo  2. 

2S1  F.  Thiriet  ( 1989)  232-233.  274.  303-308.  318. 

254  D.  Herlihy  (1967)  159-160. 


536 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  ilo  dinheiro 


económicas  restritivas  não  se  tomaria  possível  a  transição  para  o  mercantilismo,  e  a 
determinante  deste  processo  continuou  a  ser,  tal  como  o  fora  ao  longo  de  todo  o 
período,  a  sujeição  do  comércio  e  das  operações  bancárias  e  pecuniárias  ao  exercício  da 
soberania  impessoal. 

Afinal,  as  transformações  operadas  no  próprio  poder  soberano  são  talvez  as  que 
melhor  nos  esclarecem  acerca  da  maneira  como  o  tráfico  de  longo  curso  e  as  principais 
casas  bancárias  serviram  o  desenvolvimento  do  regime  senhorial. 


CAPÍTULO  13 

OS  REIS  NA  CONVERGÊNCIA 
DAS  TRÊS  FORMAS  DO  DINHEIRO 


Ocupando  os  vértices  da  hierarquia  senhorial,  os  soberanos  estavam  no  centro  de 
todas  as  decisões  e  de  todos  os  problemas  relativos  às  Formas  I  e  II  do  dinheiro.  Por 
outro  lado.  enquanto  promotores  das  mais  volumosas  transferências  de  bens,  quer 
resultantes  da  cobrança  de  tributos  em  géneros  quer  da  participação  no  tráfico  de  longo 
curso,  e  também  enquanto  principais  devedores,  os  soberanos  situavam-se  no  centro  da 
rede  tecida  pela  Forma  III  do  dinheiro.  Todas  as  questões  pecuniárias  sentidas  pela 
generalidade  da  classe  senhorial  se  repercutiam  amplificadamente  nos  monarcas  e  prín¬ 
cipes.  Tanto  mais  que  desde  o  começo  do  período,  com  a  completa  assimilação  do  cam¬ 
pesinato  independente,  perdera-se  o  carácter  específico  da  coroa,  que  antes  do  século  X 
a  havia  destacado  do  bannum  dos  demais  magnates.  Na  actuação  dos  soberanos  reflec- 
tia-se  agora  em  escala  ampliada  tudo  o  que  afectava  os  demais  senhores  -  e  isto  apenas. 


a.  Hierarquização  dos  centros  de  cunhagem  e  formação  de  zonas  monetárias 

A  multiplicação  dos  centros  de  cunhagem  e  a  proliferação  de  tipos  de  moeda  foram 
indícios  da  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X  na  área  do  antigo  império  carolíngio.  É  certo 
que  durante  o  período  concluído  no  século  IX  mesmo  os  monarcas  mais  poderosos  não 
haviam  conseguido  manter  na  prática  o  exclusivo  da  cunhagem.  Contrariamente  à  opi¬ 
nião  de  muitos  especialistas,  procurei  (no  capítulo  28. g  da  Parte  I)  mostrar  que  a  aparente 
centralização  consistira  na  sobreposição  de  direitos  régios  a  uma  pluralidade  de  emissões 
particularizadas,  que  tinham  sempre  continuado  a  existir.  Assim,  no  plano  monetário  a 
grande  crise  do  regime  senhorial  caracterizou-se  pelo  abandono  dos  esforços  centraliza¬ 
dores  da  coroa,  subsistindo  sem  oposição  o  localismo  das  pequenas  cunhagens.  A  situa¬ 
ção  entre  o  encerramento  do  primeiro  período  do  regime  senhorial,  no  século  IX.  e  o 
século  XI,  quando  começou  o  segundo  período,  obedecera  inteiramente  à  divisão  em  três 
grandes  zonas,  consoante  as  manifestações  do  declínio  do  campesinato  independente 
(ver  na  Parte  II  o  capítulo  4):  uma  ocupando  o  continente  a  norte  dos  Pirenéus,  onde  a 
soberania  se  fragmentou;  outra  cobrindo  a  Espanha  cristã,  onde  as  monarquias  se  manti¬ 
veram  centralizadas;  e  uma  zona  de  características  intermédias,  a  Inglaterra,  onde,  apesar 
da  divisão  da  soberania,  se  verificava  a  tendência  a  uma  concentração  crescente  do  poder. 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


.5  3S 


Na  primeira  das  zonas  mencionadas,  o  fraccionamento  da  soberania  atingiu  um  grau 
extremo  em  França,  onde  se  contavam,  no  final  do  século  XI,  de  seis  a  oito  dezenas  de 
oficinas  de  cunhagem  activas,  apenas  cerca  de  vinte  decorrendo  do  rei1.  Chegara-se  a 
tal  ponto  que,  na  maior  parte  dos  casos  de  concessão  da  cunhagem,  o  facto  de  um 
monarca  ter  o  nome  inscrito  numa  das  faces  da  moeda  não  significava  que  exercesse 
autoridade  sobre  a  sua  emissão,  tratando-se  apenas  da  indicação  de  quem  tinha  proce¬ 
dido  à  concessão,  ou  a  havia  renovado2.  A  invocação  de  um  nome  de  soberano  servia, 
em  suma,  para  reforçar  os  direitos  do  concessionário,  que  detinha  a  cunhagem 
enquanto  senhoria  vassálica3.  E  mesmo  quando  a  coroa  não  procedeu  a  concessões 
monetárias  em  benefício  dos  condes,  isto  não  os  impediu  de  se  apropriarem  da  emissão 
e  de  mandarem  depois  bater  moeda  em  seu  próprio  nome4.  Ao  abrir-se  o  segundo 
período,  no  território  que  começava  a  ser  o  reino  da  França  o  numerário  cunhado  sob  a 
autoridade  régia  descera  ao  estatuto  de  emissões  locais  com  área  de  circulação  bastante 
reduzida,  como  quaisquer  outras5. 

Em  Inglaterra  a  política  monetária  evoluiu  inicialmente  em  sentido  oposto  ao  da 
França.  Os  monarcas,  que  desde  cedo  haviam  concedido  autorizações  de  cunhagem  a 
sete  dignitários  eclesiásticos,  cancelaram  no  começo  do  século  X  o  direito  dos  senhores 
religiosos  baterem  moeda  em  nome  próprio  e  procuraram  obrigar  as  emissões  particu¬ 
lares  a  obedecer  ao  padrão  das  reais6.  Mas  durante  esse  século  e  o  século  seguinte,  até 
ao  final  da  era  anglo-saxónica.  a  dificuldade  que  alguns  soberanos  sentiram  em  contro¬ 
lar  as  oficinas  monetárias  mostra  que,  não  obstante  as  afirmações  de  que  a  cunhagem 
teria  permanecido  em  regra  um  exclusivo  da  coroa7,  o  que  ocorreu,  tal  como  no  conti¬ 
nente  durante  o  apogeu  dos  Pepínidas,  foi  uma  persistente  estratégia  centralizadora,  em 
que  os  monarcas  sempre  insistiram,  mesmo  tendo  sido  repetidamente  frustrados  nos 


1  Th.  N.  Bisson  (1979)  3. 

2  J.  Lafaurie  (1970)  1 34. 

Todavia.  J.  Duplessy  (1985)  13  pretende  que  era  enquanto  homenagem,  e  por  vontade  própria, 
que  alguns  raros  senhores  admitiam  o  nome  do  rei  nas  peças  que  mandavam  cunhar.  Mas  talvez  esta 
versão  não  seja  contraditória  com  a  proposta  por  Jean  Lafaurie.  Inconciliável  parece-me  ser  a  explica¬ 
ção  adiantada  por  E.  Foumial  ( 1970)  148,  ao  considerar  que  os  bispos,  quando  faziam  gravar  o  nome 
do  monarca  nas  moedas  que  punham  em  circulação,  estavam  a  invocar  o  prestigio  da  coroa  para 
melhor  resistirem  às  pretensões  da  nobreza  laica. 

2  Th.  N.  Bisson  ( 1979).  que  pretende  (p.  2)  que  o  direito  de  bater  moeda  foi  sempre  considerado 
como  um  atributo  do  poder  reservado  ao  imperador  e  ao  rei.  afirma  (p.  4)  que  em  França  os  magnates 
não  concebiam  a  sua  cunhagem  própria  como  uma  concessão  vassálica,  mas  como  uma  participação 
num  direito  régio.  Este  historiador,  igual  a  tantos  outros,  aceita  enquanto  realidade  prática  as  formula¬ 
ções  dos  juristas  ao  serviço  da  coroa,  quando  elas  mais  não  eram  do  que  um  programa  ideológico. 
Aliás,  muito  paradoxalmente,  Thomas  N.  Bisson,  em  op.  cit..  5  e  xegx  .  escreve  que  na  França  dos 
séculos  XI  e  XII  os  senhores  tratavam  a  cunhagem  como  um  patrimônio,  e  não  como  uma  instituição 
de  interesse  público. 

4  J.  Belaubre  ( 1986)  51;  E.  Foumial  ( 1970)  66;  .1.  Lafaurie  (1970)  134-135;  P  Spufford  ( 1988)  56. 

M.  Castaing-Sicard  (1961 )  7  e  P.  Spufford  (1988)  56  fazem  notar  que  só  bastante  tempo  depois 
de  os  condes  terem  iniciado  uma  cunhagem  própria  é  que  começaram  a  inscrever  este  direito  nas 
moedas. 

s  J.  Duplessy  (1985)  13;  J.  Lafaurie  ( 1970)  136. 

6  K.  Jonssotí  (1987  )  180-181. 

7  R.  H.  M.  Dolleyet  al.  (1961)  155;  H.  R  Loyn(1961)  125-126. 


Os  reis  na  convergência  cias  três  formas  cio  dinheiro 


539 


seus  intuitos  (ver  na  Parte  I  o  capítulo  28.g).  Já  a  supremacia  alcançada  pelos  reis  nor- 
mandos  lhes  permitiu  proceder  com  mais  êxito.  Depois  de  adoptarem  o  sistema  pecu¬ 
niário  que  haviam  encontrado  na  ilha.  eles  fiscalizaram  de  maneira  tão  rigorosa  as  ofi¬ 
cinas  dos  quatro  dignitários  da  Igreja  a  quem  tinham  concedido  o  direito  de  fabricar 
moeda  que,  na  prática,  se  tratava  mais  de  um  direito  aos  lucros  da  emissão  do  que  ver¬ 
dadeiramente  à  cunhagem*. 

Foi  na  Espanha  que  a  acção  da  coroa  em  matéria  monetária  se  afirmou  de  maneira 
indiscutível.  Desde  o  momento  em  que  começaram  a  emiti-la  até  ao  termo  do  período 
os  monarcas  mantiveram  o  exclusivo  sobre  a  moeda9,  com  a  excepção,  no  século  XII. 
de  três  concessões  do  direito  de  cunhagem  a  estabelecimentos  eclesiásticos10,  e  mesmo 
nestes  casos  o  numerário  era  de  tipo  idêntico  àquele  que  a  coroa  punha  a  circular11. 

Qualquer  que  tivesse  sido  a  situação  inicial,  deduz-se  uma  regra  geral.  Ao  longo 
deste  período,  iniciado  com  a  superação  da  cnse  dos  séculos  IX  e  X,  a  formação  numa 
área  de  soberania  de  uma  hierarquia  única  e  sistemática  entre  as  oficinas  de  cunhagem, 
e  portanto  uma  hierarquia  entre  áreas  de  circulação,  correspondeu  à  centralização  do 
poder  pelo  soberano.  A  afirmação  de  autoridade  pressupunha,  e  ao  mesmo  tempo 
implicava,  a  centralização  da  emissão  monetária12.  Assim,  a  progressiva  cisão  material 
da  Forma  I  e  da  Forma  11  em  dois  tipos  de  numerário  diferenciados  e  as  sucessivas 
renovações  internas  dos  suportes  materiais  da  Forma  II  exprimiram  a  reorganização  das 
hierarquias  do  poder. 

É  curioso  considerar  que  até  em  França  a  dispersão  do  direito  de  cunhagem  nunca 
atingiu  o  mesmo  grau  que  a  dispersão  de  outros  direitos12,  como  se  a  própria  circulação 
da  moeda  constituísse  um  factor  de  agrupamento  do  bannurn.  A  centralização  da 
cunhagem,  com  a  vigência  da  moeda  régia  num  âmbito  superior  ao  local,  começou  a 
operar-se  em  França  com  um  monarca  vigoroso,  que  ocupou  o  trono  nas  duas  últimas 
décadas  do  século  XII  e  nas  duas  primeiras  do  século  seguinte14.  A  obra  foi  consoli- 


8  P.  Spufford  (1988)  94.  100-101. 

N.  J.  G.  Pounds  ( 1990)  101  menciona  apenas  os  arcebispos  de  Cantuária  e  de  York  e  o  bispo  de 
Durham  como  lendo  recebido  dos  reis  normandos  o  direito  de  cunhagem,  mas  P.  Spufford  (1988)  101 
refere,  além  desses  três  prelados,  o  abade  de  Burv  St.  Edmunds. 

4  Ph.  Grierson  (1976  a)  109;  C.  Sánehez-Albonioz  (1914)  283-286. 

10  Acerca  da  concessão  do  direito  de  cunhagem  ao  arcebispado  de  Compostela,  à  abadia  de  Saha- 
gún  e  à  igreja  de  San  Antolín.  em  Palença.  ver:  C.  Sánchez-Albomoz  ( 1914)  286-287;  id.  (1928)  321, 
329;  L.  G.  Valdeavellano  (1958)  254-255. 

11  H.  G.  Bamosl  1945- 1954)  1369-371. 

'  -  M.  Bloch  (1954)  16-17,  36. 

Depois  de  mencionar  o  início  da  emissão  regular  de  moeda  entre  os  Escandinavos,  os  Eslavos  e  os 
Magiares.  P.  Spufford  (1988)  83  comenta  que  logo  que  estas  sociedades  começaram  a  transitar  do  tri- 
balismo  para  um  Estado  monárquico  elas  adoptaram  o  cristianismo  católico  e  a  cunhagem  oficial.  E 
em  França,  em  diversas  festividades  de  tradição  pagã  e  de  carácter  carnavalesco,  que  implicavam  a 
eleição  de  um  rei  momo,  estes  monarcas  de  um  dia  tinham  o  direito  de  mandar  cunhar  moedas  de 
metal  vil,  eujo  desenho  reproduzia  o  das  peças  oficiais.  Ver  a  este  respeito  J.  Labrot  1 1989)  55. 

n  Th.  N.  Bisson  1 1979)  4;  P.  Spufford  ( 1988  )  57-59.  Ver  igualmente:  M.  Castaing-Sicard  (1961 ) 
8:  E.  Foumial  (1967)497. 

14  A  centralização  da  cunhagem  por  Filipe  II.  Augusto,  c  abordada  por:  Th.  N.  Bisson  (1979)  4;  J. 
Duplessy  (1985)  14:  3.  Lafauríe  1 1970)  136. 


540 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  do  dinheiro 


dada  durante  o  curto  reinado  do  seu  filho'5,  e  prosseguiu  e  desenvolveu-se  com  o  neto. 
defensor  não  menos  tenaz  das  prerrogativas  da  coroa,  que  assumiu  a  regência  directa  no 
final  da  primeira  metade  do  século  XIII.  até  morrer  um  quarto  de  século  mais  tarde.  A 
orientação  seguida  por  este  monarca  nas  questões  monetárias  teve  duas  vertentes:  em 
primeiro  lugar,  ele  procurou  restringir  a  circulação  da  moeda  de  cada  príncipe  à  área  do 
seu  principado,  e  ao  mesmo  tempo,  continuando  uma  tendência  que  se  acentuara  já  na 
primeira  metade  daquele  século,  esforçou-se  por  assegurar  que  o  seu  próprio  numerário 
corresse  em  todo  o  reino,  não  se  limitando  aos  domínios  da  coroa:  em  segundo  lugar, 
decretou  que  só  ele  e  os  seus  sucessores  tivessem  o  privilégio  de  emitir  novos  tipos 
monetários,  de  maneira  que  os  príncipes  ficassem  reduzidos  a  cunhar  os  tipos  tradicio¬ 
nais,  relegados  para  a  Forma  I  do  dinheiro,  e  não  pudessem  acompanhar  a  evolução 
pecuniária  nem  pôr  em  circulação  as  novas  peças  de  bom  conteúdo  metálico,  que 
davam  corpo  exclusivo  à  Forma  II16.  Mas  o  facto  de  estas  normas  terem  sido  repetidas 
frequentemente  por  sucessivos  monarcas  prova  que  não  eram  respeitadas'  \  Tratava-se 
mais  de  um  programa  da  coroa,  projectado  a  longo  prazo,  do  que  de  uma  qualquer 
modificação  súbita  do  sistema  monetário.  Em  algumas  vastas  regiões  do  reino  de 
França  as  emissões  autóctones  continuaram  prósperas  até  uma  época  muito  tardia, 
vários  séculos  após  o  encerramento  deste  período' s.  E  quando  um  príncipe,  apesar  da 
sua  subordinação  teórica  ao  monarca,  conservava  na  prática  um  grau  muito  elevado  de 
autonomia,  ele  mesmo  prosseguia  uma  acção  centralizadora  no  interior  das  fronteiras 
do  seu  principado.  Na  Normandia  e  na  Bretanha  os  duques  concentraram  a  cunhagem 
antes  de  o  rei  ter  começado  a  fazê-lo19,  e  também  na  Flandres  os  condes  se  reservaram 
o  exclusivo  das  emissões20.  Embora  o  condado  da  Flandres  constituísse  uma  senhoria 
vassálica  subordinada  à  coroa  francesa,  os  condes  conseguiram,  a  partir  do  começo  do 
segundo  terço  do  século  XIV,  manter  um  sistema  monetário  independente,  recorrendo 
ao  artifício  de  mandarem  geralmente  cunhar  em  duas  cidades  situadas  numa  parte  do 
território  inserida  no  império  germânico,  e  sobre  a  qual,  portanto,  o  rei  de  França  não 
exercia  soberania21.  Pela  mesma  época,  igualmente  para  escapar  às  pretensões  centrali¬ 
zadoras  da  coroa  francesa,  outros  príncipes  que  detinham  terras  na  área  do  império 
transferiram  para  lá  as  suas  oficinas  de  cunhagem22. 


15  J.  Duplessy  (19851  14  refere  a  participação  de  Luís  VIII  na  consolidação  das  reformas  monetᬠ
rias  iniciadas  por  Filipe  Augusto. 

16  A  acção  de  Luís  IX,  São  Luís,  na  centralização  da  cunhagem  é  mencionada  e  estudada  por:  M. 
Castaing-Sicard  ( 1961 )  75:  J  Duplessy  1 1985)  14;  J  Favier  1 1982)  177;  E.  Foumial  (1970)  83,  149:  J. 
Lafaurie  (1970)  137. 

17  E.  Foumial  ( 1970)  150-151. 

18  J.  Duplessy  (1985)  15;  J.  Favier(l982)  177. 

Todavia,  J.  Labrot  í  1989)  39-40  pretende  que  a  partir  do  final  do  século  XIII  os  príncipes,  perante 
as  restrições  impostas  à  cunhagem  da  sua  moeda,  passaram  a  fabricar  um  número  crescente  de  símbo¬ 
los  pecuniários  metálicos,  de  maneira  a  preservarem  simbolicamente  privilégios  que  na  realidade 
estavam  a  perder. 

19  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  4,  43. 

20  R.  de  Roover  ( 1 964)  91 . 

21  Id.  (1948)226. 

22  E.  Foumial  ( 1970,  155. 


Os  reis  na  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


54 1 


Aliás,  o  recíproco  da  regra  que  estabelece  a  relação  entre  as  oficinas  monetárias  e  o 
poder  soberano  observa-se  precisamente  na  Gennània,  onde  a  autoridade  imperial,  após 
um  esboço  incompleto  de  centralização  no  começo  do  período'-’,  se  foi  fragmentando 
posteriormente,  e  onde  as  pequenas  emissões  locais  prosseguiram  até  uma  época  muito 
mais  tardia  do  que  nos  outros  reinos24.  Além  disso,  é  interessante  considerar  que  tam¬ 
bém  na  Gennània  se  revelou  mais  difundido  e  duradouro  o  emprego  de  lingotes  de 
prata  não-cunhada  nas  transacções  comerciais,  malgrado  os  esforços  dos  senhores  e  do 
próprio  imperador  para  impedirem  esta  prática  e  obrigarem  o  metal  precioso  a  passar 
pelas  oficinas  de  cunhagem25.  Esta  situação  deve  comparar-se  com  a  da  Espanha  cristã, 
onde  a  resistência  do  campesinato  independente  fez  com  que  até  uma  data  bastante 
avançada  se  usassem  com  funções  de  dinheiro  produtos  agrícolas,  animais  e  outros 
géneros  correntes  (ver  o  capítulo  3).  E,  no  entanto,  este  mesmo  vigor  da  independência 
camponesa  sustentou  a  autoridade  dos  monarcas  sobre  os  demais  magnates  e  contri¬ 
buiu,  por  conseguinte,  para  uma  centralização  rigorosa  da  cunhagem.  Embora  pareça 
estranho,  na  sua  relutância  ao  emprego  da  moeda,  que  era  o  veículo  da  modalidade 
impessoal  das  relações  servis,  os  camponeses  independentes  da  Espanha  ajudaram  a 
coroa  a  manter  o  inteiro  controlo  da  cunhagem.  Talvez  este  paradoxo  indique  que  a 
autonomia  camponesa  estava  irremissivelmente  condenada,  já  que  as  consequências  da 
sua  força  aparente  lhe  minavam  a  própria  base  da  existência.  Assim,  afigura-se-me  que 
há  lugar  para  distinguir  entre  o  uso  de  bens  comuns  com  finalidades  pecuniárias,  que 
na  península  hispânica  não  pôs  em  causa  a  concentração  das  emissões  de  moeda,  e  o 
uso  enquanto  dinheiro  de  prata  e  ouro  em  barra  ou  em  pó,  que  representou  na  Germânia 
um  desafio  às  autoridades  monetárias  precisamente  a  respeito  dos  metais  preciosos,  o 
plano  em  que  elas  se  encontravam  mais  aptas  a  agir.  No  mesmo  sentido  observado  no 
império  germânico  traçou-se  a  evolução  da  política  monetária  no  reino  latino  de  Jerusa¬ 
lém,  onde  no  segundo  terço  do  século  XII  o  monarca  conservava  ainda  o  exclusivo  da 
cunhagem,  perdendo-o  em  seguida,  nos  últimos  tempos  do  reino,  quando  a  alta  nobreza 
obteve  poderes  cada  vez  maiores26.  A  autonomia  dos  grandes  conjuntos  senhoriais  tor¬ 
nou-se  mais  pronunciada  com  o  estabelecimento  do  segundo  reino  de  Jerusalém,  no 
início  do  segundo  quartel  do  século  XIII,  e  enquanto  ele  durou,  até  aos  meados  do 
século,  as  emissões  de  moeda  mantiveram-se  fragmentadas  e  dispersas27. 

É  nesta  perspectiva,  observando  o  nexo  entre  as  oficinas  de  cunhagem  e  as  modifi¬ 
cações  operadas  no  poder  soberano,  que  se  pode  entender  a  transformação  sofrida  pelos 
moedeiros.  No  começo  do  período,  mesmo  os  artesãos  das  oficinas  não  eram  gente 
comum  e.  como  não  havia  especialistas  dedicados  à  gravação  dos  cunhos  monetários, 
este  trabalho  era  executado  pelos  ourives,  que  constituíam  a  elite  da  profissão2*.  Os 
moedeiros  eram  verdadeiros  senhores,  gozando  de  poder  e  de  prestígio24,  que  haviam 


23  R.  Kiersnowski  ( 1968)457;  P.  Spufford  íl 988)  100;  P.  Strait  (1974)  8-9. 

24  P.  Spufford  (1988)  100,  104-105. 

25  S.  Bolin  (1954)  15;  P.  Spufford  (1988)  214-215. 

2h  J.  Prawer  ( 1969-1970)  I  470,  482. 

27  kf.ibid.,  H216-219. 

28  J.  Belaubre  ( 1986)  136. 
mR.S.  Lopeztl953a)  1. 


542 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  da  dinheiro 


recebido  enquanto  senhoria  vassálica  a  concessão  da  oficina  e  em  troca  deviam  servi¬ 
ços  de  ordem  pecuniária  e  não  militar10.  Aos  lucros  da  emissão  eles  adicionavam  os 
ganhos  obtidos  no  comércio  de  metais  preciosos  e  em  negócios  cambiais  e  bancários, 
acabando  por  acumular  fortunas  consideráveis11.  Algumas  famílias  de  moedeiros  inse- 
riram-se  na  nobreza  rural  e  desposaram  os  seus  interesses12,  outras  ajudaram  a  promo¬ 
ver  a  emancipação  das  cidades  e  ficaram  incluídas  entre  a  primeira  elite  urbana”,  e  em 
qualquer  dos  casos  esta  evolução  só  veio  continuar  e  enraizar  a  participação  dos  moe¬ 
deiros  na  classe  dominante.  Ao  mesmo  tempo  que  tal  sucedia,  porém,  a  concentração 
da  cunhagem,  onde  ela  teve  lugar,  liquidou  os  moedeiros  tradicionais14  e  levou  ao  apa¬ 
recimento  de  um  novo  tipo  de  profissionais.  No  império  germânico  as  velhas  famílias 
de  moedeiros  perderam  qualquer  contacto  prático  com  a  emissão  pecuniária  e  mantive¬ 
ram  uma  posição  subalterna  na  camada  inferior  da  nobreza1-.  E  em  França,  onde  conti¬ 
nuaram  a  dedicar-se  à  profissão,  os  antigos  moedeiros  declinaram  progressivamente, 
até  atingir  os  estratos  mais  baixos  do  artesanato  w. 

Centralizadas  por  reis  ou  por  príncipes  particularmente  poderosos  e  produzindo 
uma  quantidade  sempre  mais  considerável  de  peças  a  um  ritmo  cada  vez  maior,  desde  o 
século  XIII  que  as  emissões  monetárias  já  não  se  compadeciam  com  a  multiplicidade 
de  pequenas  oficinas  dispersas  e  exigiam  um  sistema  novo,  concentrando-se  a  cunha¬ 
gem  num  número  reduzido  de  grandes  oficinas  que  aplicavam  as  técnicas  de  divisão  do 
trabalho17.  No  final  do  período  estes  centros  de  fabrico  de  moeda  contavam-se  entre  os 
maiores  estabelecimentos  manufactureiros  então  existentes”,  sendo  geridos  por  uma 
hierarquia  complexa,  que  não  seguia  os  moldes  da  vassalidade.  mas  os  da  burocracia 


10  Id.,  ibid..  11. 

Em  Auxerre.  nos  primeiros  anos  do  século  XIII.  E.  Foumial  ( 1970)  13  menciona  a  existência  de 
uma  família  de  moedeiros  que  deiinha  hereditanamente  os  cunhos  da  oficina,  a  troco  da  vassalagem 
preferencial  que  havia  prestado  ao  conde.  R.  S.  Lopez  (1971  b)  29  pretende  que  em  Itália  os  moedei¬ 
ros  não  se  inseriam  nas  relações  de  subordinação,  mas  o  mesmo  historiador,  em  ( 1953  a)  35-36.  cita  o 
exemplo  do  genro  de  um  moedeiro  de  Milão  que  no  começo  do  século  XI  tinha  dois  vassalos. 

11  A.  Gieysztor  em  P.  Francastel  (org.  1960)  235;  K..  Jonsson  ( I9S7)  181;  R.  S.  Lopez  (1953  a) 
16,  21;  id.  ( 1979)  5;  J.  Manínez  Gijón  (1964)  81;  J.  H.  Mundy  ( 1954)  30.  242  n.  4. 

12  G.  Bami  et  al.  ( 1971  >  331;  R.  S.  Lopez  ( 1953  a)  1,  4;  id.  <  1979)  6;  L.  Musset  (1959)  290-294; 
J.-P.  Poly  et  al.  (1980)  380. 

33  G.  Bami  et  al.  (1971 )  331;  R.  S.  Lopez  (1953  a)  1. 4.  15-16,  41-43;  id.  (1955  e)  5:  id.  (1979)  6; 
J.  H.  Mundy  (1954)  242  n.  4. 

Não  compreendo  como.  perante  tantos  exemplos  em  contrário.  R.  S.  Lopez  (1971  b)  30  pode  afir¬ 
mar  que  em  Itália  os  moedeiros  não  pertenciam  à  elite  urbana. 

34  ld.  (1953  a)  2  e  4  relaciona  o  declínio  dos  moedeiros  tradicionais  com  o  desenvolvimento  da 
economia  pecuniária  e  comercial,  que  teria  trazido  oportunidades  de  enriquecimento  melhores  e  mais 
rápidas  do  que  as  que  se  ofereciam  aos  moedeiros.  E,  a  propósito  da  Itália,  id.  ( 1961  b)  88  pretende 
que  a  importância  social  dos  moedeiros  provinha  da  raridade  do  numerário  e,  por  isso.  o  seu  estatuto 
teria  declinado  quando  o  uso  do  dinheiro  se  generalizou.  Mas  o  que  na  verdade  se  passou,  como  vere¬ 
mos  em  seguida,  foi  a  substituição  de  um  tipo  de  moedeiros  por  outro.  Aliás,  id.  (1971  b)  34  mostra 
que  a  decadência  dos  antigos  moedeiros  se  relacionou  com  o  arrendamento  das  oficinas  de  cunhagem 
por  comerciantes  e  banqueiros. 

35  Id.  (1953  a)  4;  id.  (1971  b)  30. 

3f>  Id.  (1953  a)  4. 

37  P.  Spufford  ( 1984)  362;  id.  ( 1988)  187. 

33  Id.  (1984)  362. 


tís  reis  na  convergência  das  très  formas  do  dinheiro 


543 


régia34.  No  topo  encontravam-se  grandes  comerciantes  e  banqueiros,  frequentemente 
de  origem  italiana4”,  que  arrendavam  as  oficinas  do  mesmo  modo  que  investiam  nos 
demais  negócios41,  e  que  através  do  adiantamento  de  empréstimos  e  da  prestação  de 
outros  serviços  financeiros  privavam  já  com  os  soberanos  e  colaboravam  por  vezes  inti¬ 
mamente  com  as  administrações  reais.  Não  era  decerto  fácil  traçar  na  prática  uma  linha 
de  demarcação  rigorosa  que  separasse  os  funcionários  administrativos  e  fiscais  dos 
monarcas  ou  dos  príncipes  e  aqueles  comerciantes  e  banqueiros  que,  no  contexto  dos 
seus  negócios  com  os  soberanos,  exerciam  funções  importantes  na  administração  e  no 
fisco.  Esta  fluidez  explica  que  em  França  os  agentes  da  coroa  encarregados  de  controlar 
os  moedeiros  tivessem,  na  realidade,  sido  seus  cúmplices  sistemáticos  na  violação  das 
disposições  governamentais,  tanto  mais  que  os  moedeiros  estavam  unidos  por  interes¬ 
ses  económicos  comuns  e  possuíam  um  espírito  de  corpo  que  lhes  conferia  meios  de 
pressão  muito  fortes42.  Em  suma,  a  centralização  da  cunhagem  marginalizou  os  antigos 


39  M.  Rcy  1 1965  a)  127  e  129  descreve  a  hierarquia  que  vigorava  nas  oficinas  monetárias  france¬ 
sas  no  final  do  período. 

40  O  grande  prestígio  que  aureolava  o  florim,  como  veremos  em  breve  na  n.  51,  garantia  aos  Flo- 
rentinos  a  reputação  de  hábeis  moedeiros.  escreve  Y.  Renouard  (1941)  71  e  (1949)  136,  e  as  grandes 
companhias  sediadas  em  Florença  receberam  muitas  vezes  dos  soberanos  estrangeiros  a  incumbência 
de  bater  moeda.  G.  Székely  ( 1964)  55  indica  que  na  Boémia  do  século  XIV  se  encontravam  italianos 
encarregados  da  cunhagem,  tanto  de  peças  de  alto  valor  como  do  ínfimo  numerário  incluído  na  Forma 
1.  Um  ramo  da  célebre  família  florentina  dos  Burdi  ocupou  uma  posição  dominante  no  fabrico  de 
moedas  na  Hungria,  a  tal  ponto  que  inspirou  o  nome  hardus,  ou  obardos,  dado  às  peças  de  prata  emi¬ 
tidas  entre  1387  e  1389:  o  chefe  da  família,  que  se  tomara  um  verdadeiro  membro  da  boa  nobreza  do 
país.  detinha  em  1417  o  título  de  conde  de  todas  as  oficinas  monetárias  do  reino,  continuando  os  seus 
filhos  a  exercer  esta  função  e  superintendendo  a  totalidade  dos  estabelecimentos  de  cunhagem. 
Acerca  deste  caso  ver  id.,  ibid..  47-48.  No  Brabante,  a  crer  em  C.  Tihon  ( 1961 )  359,  os  lombardos. 
pelo  menos  no  princípio  do  século  XIV,  participavam  no  fabrico  da  moeda  ducal:  e  na  vizinha  Flan- 
dres  R.  dc  Roover  (1948)  21  afirma  que  os  mestres  das  oficinas  de  cunhagem  urbanas  eram  geral¬ 
mente  de  origem  italiana.  Em  França,  no  final  do  período,  segundo  M.  Bloch  (1953)  157,  os  nego¬ 
ciantes  italianos  arrendaram  com  frequência  as  oficinas  monetárias,  e  R.-H.  Bautier  (1992)  63 
informa  que  no  século  XIII  e  na  primeira  metade  do  século  XIV  os  lombardos  foram  auxiliares  indis¬ 
pensáveis  nas  operações  de  cunhagem  dos  príncipes  franceses.  Também  em  Inglaterra  se  encontra¬ 
vam  negociantes  italianos  arrendando  o  fabrico  da  moeda,  como  leio  em  R.  W.  Kaeuper  (1973)  1 10- 
-1 13  e  E,  Perroy  ( 1962-1963)  48.  Ainda  acerca  de  italianos  dirigindo  oficinas  de  cunhagem  em  nume¬ 
rosos  Estados  ver  Ph.  Jones  ( 1974)  1 745. 

41  Acerca  do  arrendamento  das  oficinas  de  cunhagem  ver,  em  geral,  R.  S.  Lopez  ( 1971  b)  34.  Em 
França,  no  final  do  período,  estes  arrendamentos  são  mencionados  por  M.  Bloch  (1953  )  157  e  M.  Rey 
(1965  a)  129;  mas  note-se  que  segundo  Maurice  Rey.  em  op.  cir..  130-1.71,  o  espírito  de  corpo  dos 
moedeiros  fazia  com  que  os  arrendamentos  se  repetissem  no  mesmo  meio  fechado,  de  tal  modo  que  o 
ofício  se  tomou  praticamente  hereditário  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  1 10.  114  e  E.  Perroy  ( 1962-1963)  48 
referem  o  arrendamento  dos  estabelecimentos  de  cunhagem  na  Inglaterra. 

42  Th.  N.  Bisson  (1979)  163-165  pretende  que  os  funcionários  da  administração  real  francesa  não 
possuíam  um  conhecimento  suficientemente  especializado  do  fabrico  da  moeda  para  poderem  contro¬ 
lar  rigorosamente  as  oficinas,  mas  E.  Bridrey  (1906)  564-565  afirma  que  uma  das  dificuldades  senti¬ 
das  na  aplicação  da  reforma  monetária  de  Carlos  V  resultou  da  coligação  entre  os  moedeiros,  a  quem 
não  interessaria  a  estabilidade  da  moeda,  e  os  funcionários  da  coroa  encarregados  de  os  controlar  e 
que  desempenharam  muito  mal  esta  função.  Com  efeito,  M.  Rey  ( 1965  a)  129  esclarece  que  os  moe¬ 
deiros  prestavam  reciprocameme  caução  aquando  dos  arrendamentos  das  oficinas  e  se  agrupavam  em 
companhias,  tácitas  ou  explícitas,  de  maneira  que  (p.  131)  a  administração  régia  se  revelava  impo¬ 
tente  para  fiscalizar  este  organismo. 


544 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


tnoedeiros,  que  eram  autênticos  senhores,  e  promoveu  uma  nova  camada  social  em  que 
se  conjugavam  grandes  negociantes  e  funcionários  administrativos,  aumentando  assim 
a  amplitude  das  burocracias  dos  monarcas  e  príncipes. 

Não  devemos  confundir  a  centralização  das  operações  de  cunhagem  com  a  unifica¬ 
ção  das  moedas  num  pequeno  número  de  tipos  de  ampla  difusão.  O  processo  centrali¬ 
zador  reflectia  directamente  a  coesão  das  pirâmides  da  hierarquia  vassálica  e  efectuava- 
-se  graças  a  mecanismos  políticos,  mediante  uma  ampliação  gradual  do  domínio  decor¬ 
rente  da  coroa.  Aliás,  podia  suceder,  como  em  França,  por  exemplo,  que  a  monarquia 
prosseguisse  a  centralização  da  cunhagem  através  de  padrões  distintos;  e  se  bem  que  o 
denier  parisis  e  o  denier  tournois  tivessem  acabado  por  ser  emitidos  em  todo  o  domí¬ 
nio  real,  e  não  apenas  nas  suas  regiões  de  origem,  e  se  tivesse  estabelecido  entre  eles 
uma  relação  contabilística  fixa,  a  supremacia  do  rei  em  matéria  monetária  não  condu¬ 
ziu  neste  caso  à  formação  de  uma  zona  pecuniária  homogénea,  e  só  muito  após  o  final 
do  período  o  tournois  viria  a  eliminar  completamente  o  parisis 4-\  Mesmo  a  tão  autori¬ 
tária  oligarquia  veneziana,  que  não  autorizava  a  cunhagem  nas  suas  colónias  bizantinas, 
com  a  excepção  única  de  Cândia,  e  fabricava  na  metrópole  o  numerário  destinado  ao 
ultramar,  aceitava  apesar  disto  que  circulasse  aí  o  numerário  dos  territórios  vizinhos, 
tanto  latinos  como  gregos44.  E  os  reis  normandos  da  Sicília,  embora  tivessem  conser¬ 
vado  o  exclusivo  da  cunhagem,  sem  jamais  o  concederem  a  vassalos,  não  procuraram 
uniformizar  os  tipos  monetários45. 

A  uniformização  monetária  decorreu  num  plano  distinto  da  centralização  da  cunha¬ 
gem,  não  exigindo  apenas  a  coerência  política  interna  da  area  de  soberania  onde  origi- 
nariamente  se  emitia  a  moeda  padrão,  mas  revelando  também  a  hegemonia  económica 
que  esta  área  exercia  sobre  muitas  outras  no  tráfico  de  longo  curso.  Foi  deste  modo  que 
progressivamente  se  constituíram,  e  se  foram  reorganizando,  zonas  monetárias,  obede¬ 
cendo  cada  uma  a  um  mesmo  padrão46.  Assim,  por  exemplo,  durante  a  fase  em  que  não 
se  cunhou  ouro  no  regime  senhorial  as  moedas  deste  metal  jamais  deixaram  de  circular, 
nomeadamente  sob  a  forma  de  peças  muçulmanas  e  bizantinas47.  Mas  só  podemos 
entender  as  implicações  profundas  dessa  situação  ao  observarmos  que  algumas  daque¬ 
las  moedas,  em  vez  de  serem  importadas,  haviam  sido  fabricadas  dentro  das  fronteiras 


41  J.  Duplessy  (1985)  14;  J.  Piquei  (1939)  155-! 56. 

J.  Duplessy  (1985)  18-19  observa,  aliás,  que  até  ao  termo  do  reinado  de  Filipe  Augusto,  em  1223. 
nenhuma  moeda  de  prata  assumira  ainda  o  papel  de  padrão  num  vasto  mereado  de  longo  curso. 

44  F.  Thiriet  (1959)  307. 

45  J.M.PowelK  1962 1506. 

Este  autor  acrescenta,  em  op.  eit.,  506-508,  que  só  Frederico  II  uniformizou  a  cunhagem  do  reino, 
na  terceira  década  do  século  XIII. 

46  Uma  zona  monetária,  define  C.  Trasselli  1 1982)  49,  era  um  conjunto  de  mercados,  com  frontei¬ 
ras  naturais  ou  artificiais,  estáveis  ou  variáveis  com  o  tempo,  que  não  se  dispunham  obrigatoriamente 
numa  continuidade  geográfica,  e  dentro  das  quais  uma  dada  moeda  circulava  mais  facilmente  do  que 
as  outras,  servindo  de  padrão  para  a  cunhagem  dos  países  pertencentes  a  esta  zona.  Para  deter  a  hege¬ 
monia  numa  zona  monetária,  esclarece  C.  M.  Cipolla  c  1956)  24,  uma  moeda  tinha  de  possuir  três 
características:  elevado  valor  de  cada  peça:  elevada  estabilidade  do  conteúdo  metálico  e  do  seu  teor; 
emissão  por  uma  potência  comercial  muito  activa  e  próspera  no  tráfico  de  longo  curso.  A  respeito  das 
zonas  monetárias  convém  ainda  recordar  a  n.  28  do  capítulo  4. 

47  M.  Bloch  ( 1933  o  12-17:  C.  M  Cipolla  (1956)  20. 


Os  reis  na  convergência  das  r rês  formas  do  dinheiro 


545 


do  regime  senhorial,  copiando  os  padrões  metálicos  e  o  desenho  do  numerário  estran¬ 
geiro48.  Não  se  tratava  de  falsificações,  mas  de  uma  forma  de  reconhecer  publicamente 
a  hegemonia  económica  num  plano  em  que  ela  não  era  veiculada  pelos  meios  usuais  da 
supremacia  política.  Do  mesmo  modo,  até  ao  começo  do  último  quartel  do  século  XIII 
foram  produzidas  no  regime  senhorial  numerosíssimas  imitações  da  moeda  islâmica  de 
prata,  empregues  no  tráfego  com  o  norte  de  África44. 

No  final  do  período,  de  maneira  mais  sistemática  e  movendo  quantidades  de  nume¬ 
rário  muitíssimo  superiores,  ocorreu  o  processo  de  formação  de  uma  zona  monetária  a 
partir  do  interior  do  regime  senhorial,  quando  as  grandes  cidades  mercantis  italianas 
não  só  conseguiram  para  a  sua  cunhagem  um  âmbito  de  circulação  incomparavelmente 
mais  vasto  do  que  os  territórios  onde  detinham  a  hegemonia  militar  e  política,  mas  tam¬ 
bém  ditaram  o  padrão,  o  formato  e  até  a  denominação  de  outras  peças,  cuja  circulação 
não  ultrapassava  a  área  de  soberania  em  que  haviam  sido  fabricadas.  O  caso  mais  notᬠ
vel  sucedeu  com  o  florim,  que  começou  a  ser  emitido  em  Florença  em  1 25250  e  gra¬ 
dualmente,  ao  longo  dos  cem  anos  seguintes,  passou  a  hegemonizar  um  enorme  espaço, 
desde  as  cidades  vizinhas  da  Toscana  e  outras  no  norte  da  península,  passando  pelos 
domínios  da  coroa  francesa  e  por  numerosos  principados  do  reino  de  França,  sobretudo 
no  sul  e  no  leste,  dos  Pirenéus  à  região  do  Ródano,  onde  tiveram  um  papel  decisivo  os 
pontífices  de  Avignon,  e  abarcando  também  no  vale  do  Reno  muitas  cidades  e  principa¬ 
dos  germânicos,  até  atingir,  ao  norte,  a  Flandres,  o  Brabante  e  outros  principados  limítro¬ 
fes.  Em  direcção  a  leste  houve  igualmente  príncipes  e  cidades  do  império  a  imitar  o  flo¬ 
rim.  e  o  mesmo  fizeram  o  imperador  e  os  reis  da  Boémia  e  da  Hungria.  Até  a  orgulhosa 
Veneza  seguiu  na  sua  cunhagem  do  ouro  o  modelo  florentino.  No  interior  desta  vastís¬ 
sima  zona  encontrava-se.  além  do  florim  propriamente  dito,  um  bom  número  de  réplicas, 
postas  em  circulação  por  reis.  príncipes  e  governos  urbanos,  e  que  copiavam  o  teor  metᬠ
lico  e  o  peso,  ou  mesmo  a  aparência  e  os  símbolos,  da  moeda  padrão.  Nem  sempre  foi 
possível  conservar  inalteradas  as  características  destas  peças  e.  por  outro  lado,  houve 
imitações  que  desde  início  não  corresponderam  exactamente  ao  peso  e  ao  teor  do  florim, 
enquanto  pelo  menos  por  duas  vezes  se  emitiram  peças  equivalentes,  em  peso  e  valor,  a 
dois  florins51.  Mas  esta  mesma  diversidade,  se  por  um  lado  mostrava  as  tensões  no  inte¬ 
rior  da  zona,  revelava  sobretudo  o  prevalecimento  de  uma  tendência  muito  mais  forte, 
que  erigia  a  moeda  de  ouro  florentina  em  termo  absoluto  de  comparação. 

A  diferença  entre  os  processos  de  centralização  e  de  unifomiização  não  foi,  todavia, 
absoluta.  Sabe-se  que  um  dos  reis  de  França  que  mais  contribuiu  para  afirmar  a  supre¬ 
macia  da  coroa  no  plano  pecuniário  favorecia  a  cunhagem  dos  príncipes  que  eram 
membros  da  sua  linhagem,  esperando  assim  reduzir  a  área  de  circulação  das  peças  emi¬ 
tidas  pelos  príncipes  que  lhe  eram  hostis52.  Quando  um  dos  irmãos  deste  monarca  her- 


4!s  M.  Bloeh  1 193?  c)  19-20.  23-24;  A.  M.  Watson  ( 1967)  1  n.  2. 

4SI  A.  M  Watson  (.1967)  1 1-15. 

50  Quanto  ás  controvérsias  acerca  da  data  inaugural  da  cunhagem  do  florim  ver  a  n.  46  do  capítulo  8. 

51  Acerca  da  constituição  da  zona  monetária  do  florim  ver  E.  Foumial  (1967)  580-582.  Consultar 
igualmente  C.  M.  Cipolla  ( 1956)  20-21. 

52  A  respeito  deste  aspecto  da  política  de  Luís  IX  ler  E.  Foumial  ( 1970)  83. 


546 


Articularão  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


dou  o  condado  de  Toulouse  começou  a  cunhar-se  no  Languedoc  o  denier  tournois.  a 
mais  importante  das  moedas  reais,  exigindo  o  conde  que  tanto  pessoas  como  colectivi- 
dades  lhe  pagassem  com  este  tipo  de  numerário.  E  embora  não  se  tivesse  constituído  de 
imediato  uma  zona  monetária  englobando  o  sul  do  reino  junto  com  os  domínios  da 
coroa  -  até  porque,  como  vimos  ha  pouco,  o  monarca  emitia  simultaneamente  outro 
tipo  de  denier  -  o  certo  é  que,  lentamente,  o  tournois  ampliou  a  sua  circulação  no  Lan¬ 
guedoc  e  passou  a  ser  usado  com  frequência  crescente  nas  próprias  transacções  entre 
particulares53.  Neste  caso,  portanto,  a  tendência  para  a  unificação  monetária  não  pros¬ 
seguiu  através  de  uma  qualquer  supremacia  económica,  devendo-se  directamente  à 
acção  política  centralizadora.  Do  mesmo  modo,  se  a  cunhagem  de  ouro  francesa  circu¬ 
lava  na  Flandres54  e,  apesar  da  autonomia  assumida  pelas  emissões  pecuniárias  deste 
condado  desde  o  início  do  segundo  terço  do  século  XIV55,  se  formava  assim  uma  zona 
monetária,  decerto  isto  se  devia  menos  à  hegemonia  comercial  da  França,  cuja  activi- 
dade  económica  empalidecia  perante  a  flamenga,  do  que  à  supremacia  política  do  rei, 
que  era  senhor  superior  do  conde.  No  final  do  período,  graças  a  uma  conjugação  de 
mecanismos  políticos  e  económicos,  a  concentração  da  autoridade  na  cunhagem  e  a 
unificação  dos  tipos  monetários  haviam-se  fundido  num  processo  único,  tendente  a 
constituir,  a  prazo,  zonas  de  circulação  pecuniária  relativamente  homogéneas.  Mas 
como  estas  zonas  se  formaram  a  partir  de  diferentes  centros,  mais  importantes  uns  do 
que  outros  e  todos  mais  ou  menos  rivais,  o  perfil  de  cada  uma  não  obedecia  a  um  dese¬ 
nho  regular  e  estável.  No  interior  de  uma  zona  era  possível  definir  zonas  menores,  onde 
a  moeda  prevalecente  estava  sujeita  à  moeda  padrão  que  circulava  no  âmbito  mais  lato. 
Era  o  que  sucedia,  por  exemplo,  quando  o  numerário  de  ouro  francês  circulava  na 
Flandres,  não  obstante  ambas  as  áreas  de  soberania  pertencerem  à  vastíssima  zona  que 
encontrava  no  florim  o  seu  temio  de  referência.  Por  outro  lado.  as  zonas  monetárias 
podiam  cruzar-se,  de  modo  que  uma  região  se  incluísse  ao  mesmo  tempo  em  zonas 
rivais.  Em  cada  momento  tinha  de  se  estabelecer  uma  hierarquia  para  harmonizar  na 
prática  tantos  interesses  divergentes,  e  foi  destas  hierarquias  complexas  e  mutáveis  que 
vieram  a  resultar,  em  séculos  posteriores  aos  que  agora  me  ocupam,  as  grandes  zonas 
do  mercantilismo,  coerentes  e  bem  definidas. 

No  final  do  período,  a  delimitação  dos  territórios  que  obedeciam  a  uma  cunhagem 
centralizada  tendia  já  a  seguir  com  bastante  rigor  as  fronteiras  das  áreas  de  soberania, 
mas  ao  mesmo  tempo  estas  fronteiras  eram  ultrapassadas  pela  constituição  de  zonas 
monetárias.  Numa  tal  dualidade,  a  mistura  de  hostilidade  e  de  convivência  que  sempre 
caracteriza  as  relações  entre  Estados  manifestava-se,  em  primeiro  lugar,  na  proibição  de 
fazer  circular  numerário  estrangeiro56.  Sem  isso,  perderia  todo  o  significado  a  centrali- 


53  M.  Castaing-Sicard  (1961)  76-82  estuda  a  difusão  progressiva  do  denier  tournois  no  Langue¬ 
doc. 

54  R.  deRoover<l948)226. 

55  Id„  ibid.,  226. 

56  J.  Lafaurie  (1970)  134;  H.  A.  Miskimin  (1963)  1 1;  J.  H.  Munro  (1979)  173;  J.  Piquet  (1939) 
154-155. 

Na  Nomiandia.  no  início  do  período,  Th.  N.  Bisson  ( 1979)  23-24  indica  que  os  duques  não  procu¬ 
raram  excluir  as  outras  moedas  da  sua  área  de  soberania.  Em  Franca,  Luís  IX  estabeleceu  o  princípio 


Os  reis  na  convergência  das  r rês  formas  do  dinheiro 


547 


zação  da  cunhagem,  que  os  soberanos  haviam  conseguido  tão  penosamente  graças  a  um 
esforço  multissecular.  As  peças  emitidas  noutras  áreas  de  soberania  eram  desmonetiza- 
das,  ainda  que  tal  não  implicasse  necessariamente  a  sua  fundição  e  consistisse  apenas 
na  redução  do  seu  valor  ao  valor  do  conteúdo  metálico57.  Mesmo  as  moedas  padrão, 
cuja  estabilidade  e  valor  elevado  lhes  asseguravam  um  curso  geral,  circulavam  habitual¬ 
mente  na  sua  área  de  soberania  originária  a  uma  cotação  superior  àquela  que  lhes  era 
conferida  nas  demais  áreas  da  mesma  zona  monetária58. 

Em  segundo  lugar,  porém,  esta  tentativa  de  preservação  das  fronteiras  pecuniárias 
era  contrariada  pela  acção  da  lei  dita  de  Gresham.  Se  recordarmos  a  sua  formulação  (no 
capítulo  4.a),  sabemos  que  a  moeda  com  melhor  conteúdo  metálico  era  retirada  de  cir¬ 
culação,  sendo  entesourada,  fundida  ou  exportada,  quando  na  mesma  esfera,  e  numa 
relação  cambial  fixa,  passava  a  circular  uma  moeda  com  conteúdo  metálico  deterio¬ 
rado.  Assim,  as  modificações  que  um  soberano  introduzisse  no  seu  numerário  podiam 
repercutir-se  nas  peças  emitidas  por  outros  soberanos,  pelo  que  o  funcionamento  da  lei 
dita  de  Gresham  implicava  uma  relação  de  antagonismo  entre  áreas  de  soberania  vizi¬ 
nhas  ou  entre  mercados  que.  embora  distantes,  estivessem  relacionados  pelo  tráfico. 
Dificilmente  se  arranja  um  melhor  exemplo  da  hostilidade  política  pressuposta  nesta  lei 
económica  do  que  o  sucedido  nos  territórios  conquistados  pelos  Cristãos  na  Palestina, 
onde  no  terceiro  quartel  do  século  XII,  ou  talvez  antes,  começou  a  cunhar-se  ouro,  em 
imitação  do  modelo  maometano.  As  cópias  cristãs  eram,  todavia,  de  menor  peso  e  de 
teor  metálico  menos  puro  do  que  as  peças  originais  e,  por  isso,  entre  os  vizinhos 
muçulmanos  a  boa  moeda  áurea  começou  a  ser  guardada  ou  exportada,  deteriorando-se 
a  um  tal  ponto  a  qualidade  do  numerário  em  circulação  que  na  passagem  do  terceiro 
para  o  quarto  quartel  daquele  século  a  Síria  deixou  de  bater  ouro  e  passou  a  fabricar 
peças  de  boa  prata59. 


de  que  a  moeda  real  .seria  a  única  a  circular  nos  territórios  directamente  submetidos  à  coroa,  bem 
como  nas  terras  dos  príncipes  desprovidos  do  direito  de  cunhagem.  Consultar  a  este  respeito:  M.  Cas- 
taing-Sicard  (19611  75:  J.  Favier  (1982)  177;  E.  Foumial  (1970)  149.  Recorde-se  também,  como 
vimos  há  pouco,  que  Veneza  autorizava  a  circulação  nas  suas  colónias  bizantinas  do  numerário  dos 
territórios  vizinhos,  convertível  em  moeda  veneziana,  a  crer  em  F.  Thiriet  ( 1959)  307.  Na  Inglaterra 
dos  séculos  X  e  XI,  P.  H.  Sawyer  ( 1962)  96  garante  que  a  proibição  de  circular  prata  estrangeira  era 
eficaz  na  prática  e  que  as  moedas  importadas  eram  fundidas  e  cunhadas  de  novo.  Também  a  respeito 
da  Inglaterra.  R.  de  Roover  (1948)  245  n.  100  menciona  que  era  ilegal  a  circulação  de  numerário 
estrangeiro  e  M  Prestwich  (1979)  99  acrescenta  que  a  coroa  exercia  sobre  estas  questões  uma  fiscali¬ 
zação  muito  severa.  Apesar  disso,  H.  A.  Miskimin  ( 1963)  1 1  apresenta  o  grande  número  de  leis  pro¬ 
mulgado  em  França  e  na  Inglaterra  para  impedir  a  circulação  de  moeda  estrangeira  como  indicação  de 
que  não  seriam  certamente  cumpridas  à  letra  e  o  mesmo  raciocínio  é  proposto  por  Étienne  Foumial, 
em  op.  cit..  1 5 1 .  a  respeito  da  reforma  monetária  decretada  em  França  por  Luís  IX. 

57  J.  H.  Munro  ( 1979)  174. 

M.  Bioch  (1953)  152  indica  que  as  moedas  em  circulação  no  interior  das  mesmas  áreas  de  sobera¬ 
nia.  e  até  dos  mesmos  mercados,  tinham  uma  multiplicidade  de  proveniências.  Mas  a  questão  funda¬ 
mental  consiste  em  saber  se  estas  peças  eram  ou  não  avaliadas  pelo  seu  estrito  conteúdo  metálico  e, 
portanto,  se  corriam  consoante  critérios  distintos  dos  empregues  para  a  cunhagem  autóctone. 

5*J.H.  Munro  (1979)  173.  174. 

-w  A.  M.  Watson  (1967  )  10-11. 


548 


Articulação  entre  as  Formas  1,11  e  III  do  dinheiro 


Finalmente,  em  terceiro  lugar,  na  complexa  avaliação  das  taxas  cambiais  exprimia- 
-se  a  rivalidade  existente  entre  soberanos60.  A  partir  do  final  do  século  XIII,  as  autori¬ 
dades  que  cunhavam  simultaneamente  o  ouro  e  a  prata  passaram  a  proibir  a  exportação 
de  metal  precioso,  com  o  intuito  de  evitar  que  a  instabilidade  do  mercado,  alterando  o 
equilíbrio  de  preço  dos  dois  metais,  prejudicasse  a  relação  nominal  estabelecida  em 
cada  área  de  soberania  entre  aqueles  dois  tipos  de  moeda61.  Com  o  mesmo  intuito 
Veneza  exercia  um  controlo  severo  sobre  todas  as  emissões  de  câmbio62.  E  em  Siena  os 
cônsules  da  corporação  dos  grandes  comerciantes,  além  de  tomarem  as  decisões  relati¬ 
vas  à  emissão  monetária,  determinavam  as  taxas  de  câmbio  entre  a  boa  moeda  de  prata 
da  cidade  e  a  moeda  de  ouro  florentina.  o  que  era  essencial  para  os  negócios63.  Mas  em 
geral  os  interesses  económicos  eram  demasiado  fortes  para  serem  contidos  por  obstácu¬ 
los  de  carácter  jurídico,  e  os  próprios  lucros  proporcionados  pelo  tráfico  ilegal  de 
metais  preciosos  permitiam  corromper  as  entidades  fiscalizadoras.  A  exportação  e  a 
importação  de  ouro  e  prata  prosseguiam  clandestinamente  quando  não  podiam  realizar- 
-se  de  maneira  explícita64,  e  as  cotações  do  mercado  de  longo  curso  não  deixaram  de 
perturbar  os  valores  nominais  fixados  pelos  vários  soberanos. 

A  impossibilidade  de  harmonizar,  no  plano  doutrinário,  os  problemas  práticos  resul¬ 
tantes  da  circulação  pecuniária  dentro  e  fora  das  fronteiras  explica  que  os  juristas,  por 
um  lado,  considerassem  a  moeda  como  um  mero  instrumento  de  medida,  cujo  valor 
nominal  decorria  exclusivamente  dos  decretos  do  soberano  e,  por  conseguinte,  era  defi¬ 
nido  no  interior  de  uma  mesma  área  de  soberania,  enquanto,  por  outro  lado,  eles  afir¬ 
mavam  que  o  valor  da  moeda  era  determinado  pelo  valor  atribuído  aos  lingotes  de 
metal  precioso  no  mercado  de  longo  curso,  ou  seja,  na  circulação  entre  áreas  de  sobera¬ 
nia  distintas65.  Seria  possível  conjugar  as  variações  do  mercado  com  os  interesses 
mutáveis  de  cada  soberano? 

Como  algumas  modalidades  de  dinheiro  fiduciário,  em  especial  a  letra  de  câmbio, 
se  combinavam  com  as  operações  cambiais  e  ultrapassavam  as  fronteiras  políticas  e  o 
traçado  das  zonas  monetárias66,  pode  dizer-se  que,  no  contexto  do  poder  impessoal,  só 


60  Numa  dada  área  de  soberania  as  taxas  de  câmbio  oficiais,  escreve  J.  H.  Munro  <  1979)  174, 
davam  preferência  à  cunhagem  autóctone. 

61  R.  de  Roover  (1948)  185;  id.  (1953)  58;  E.  Foumial  (1967)  278;  W.  E.  Lunt  (1939-1962)  ü 
203-204;  A.  H.  O.  Marques  (1965)  279-280:  J.  H.  Munro  (1979)  174;  J.  Piquet  (1939)  148;  A.  M 
Watson  ( 1967)  15. 

Note-se  que  em  Portugal,  como  indica  A  H.  O.  Marques  ( 1 965  >  279-280.  data  dos  meados  do 
século  XIII  a  primeira  de  uma  série  de  leis  proibindo  a  exportação  dos  metais  preciosos. 

62  F.  Thiriet  (1959)  308. 

63  W.  M.  Bowsky  (1981 )  225-227. 

64  A.  M.  Watson  ( 1967)  15  e  segs. 

Na  Flandres  a  lei  estipulava  que  os  cambistas  deviam  entregar  às  oficinas  de  cunhagem  todo  o 
metal  precioso  que  tivessem  em  seu  poder,  mas  R.  de  Roover  (1948)  236  afirma  que  eles  só  o  faziam 
se  não  conseguissem  vender  particularmente  o  metal  por  um  preço  mais  elevado. 

6í  J.  Favier  (1982)  172-174  chama  a  atenção  para  esta  contraditoriedade  doutrinal.  Acerca  das 
teses  que  atribuíam  à  moeda  as  funções  estritas  de  instrumento  de  medida  ver  no  capítulo  12  a  n.  143. 
Nicole  Oresme,  segundo  E.  Bridrey  ( 1906)  235,  defendia  a  concepção  de  que  a  moeda  era  uma  mer¬ 
cadoria  como  as  dentais,  e  não  um  mero  instrumento  de  medida. 

h6  Depois  de  observar  que  o  uso  de  letras  de  câmbio  para  funções  de  transferência  de  valores  per- 


Os  reis  nu  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


549 


no  plano  pecuniário  os  Estados  desenvolveram  um  sistema  de  relaçõe_  exteriores  coe¬ 
rente  e  estável.  Nesta  perspectiva  compreende-se,  como  vimos  (no  capítulo  lO.c).  que 
os  soberanos  pretendessem  exercer  sobre  a  Forma  III  do  dinheiro  a  mesma  hegemonia 
que  detinham  nas  outras  duas  modalidades,  e  compreende-se  igualmente  que  não  o 
conseguissem.  A  Forma  III  do  dinheiro  não  respeitava  os  obstáculos  habituais  da  sobe¬ 
rania,  desafiando  a  autoridade  de  monarcas,  príncipes  e  governos  urbanos,  e  superava 
até  os  limites  da  hegemonia  económica  manifestada  pelas  grandes  potências  comerciais 
no  interior  das  zonas  monetárias.  Os  soberanos  não  dispunham  de  qualquer  arma  que 
fosse  suficientemente  eficaz  para  circunscrever  o  dinheiro  fiduciário  às  fronteiras  entre 
os  Estados  ou  sequer  às  rotas  do  comércio  de  longo  curso. 


b.  O  crédito  e  a  reorganização  fiscal 

As  modificações  operadas  no  regime  senhorial  ao  longo  deste  período  levaram  os 
soberanos,  nos  séculos  XIII  e  XIV,  a  debater-se  com  uma  necessidade  crescente  de  dis¬ 
ponibilidades  em  dinheiro.  Acima  de  tudo,  a  profunda  transformação  sofrida  pelas  rela¬ 
ções  de  subordinação  propiciara  a  difusão  das  senhorias  pecuniárias  e  determinara  o 
recrutamento  de  um  número  cada  vez  maior  de  mercenários  (ver  o  capítulo  7.b  e  7.c). 
Ora,  o  pagamento  dos  vassalos  e  das  tropas  em  numerário  exigia  novos  impostos67.  Por 
outro  lado,  também  a  burocracia  se  tomava  sempre  mais  abundante,  o  que  requeria 
ainda  maiores  receitas  fiscais68. 

Não  era  fácil,  porém,  ultrapassar  a  resistência  que  todas  as  camadas  sociais  mani¬ 
festavam  perante  o  acréscimo  da  carga  tributária.  Por  um  lado,  a  insatisfação  latente 
dos  camponeses  e  da  gente  pobre  das  cidades  podia  explodir  se  os  impostos  atingissem 
bruscamente  níveis  excessivos69.  Por  outro  lado,  os  senhores  pretendiam  evitar  que  a 
coroa  lhes  carregasse  com  impostos  a  classe  servil  e  reduzisse,  assim,  o  volume  das 
exacções  que  eles  próprios  ambicionavam  extorquir70.  De  ambos  os  lados  o  fisco  trope- 


mitia  evitar  os  problemas  decorrentes  da  divisão  em  áreas  monetárias,  J.  H.  Munro  (1979)  173-174 
pretende  que  a  proibição  de  exportar  metal  precioso  contribuiu  para  generalizar  o  recurso  àquela 
modalidade  fiduciária. 

67  R.  W.  Kaeuper  (1973)  75,  177  e  segs.:  T.  H.  Lloyd  (1982)  175;  B.  D.  Lyon  (1951)  173:  .1. 
Piquet  ( 1939)  8-10;  M.  Prestwich  ( 1972)  38-39.  203,  222;  J.  Schneider  (1950)  305;  G.  Soldi  Rondi- 
nini  (1982)  352;  P.  Spufford  ( 1984)  370;  J.  R.  Strayer  ( 1977)  273-274: 1.  Vemus-Moutin  (1990)  1 14. 

Era  sobretudo  para  sustentarem  as  expedições  militares  que  os  reis  precisavam  de  fundos,  afirma 
J.  K.  Hyde  (1973)  164.  mas  T.  H.  Lloyd  (1982)  207  adverte  que  não  se  deve  exagerar  o  papel  das 
companhias  no  financiamento  das  despesas  de  guerra,  em  detrimento  do  crédito  adiantado  durante  as 
épocas  de  paz. 

**  R.  W.  Kaeuper  (1973)  75;  J.  Schneider  (1950)  305;  P.  Spufford  ( 1984)  370. 

69  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  75;  M.  Prestwich  1 1979)  79. 

70  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  75. 

M.  M.  Postan  (1978  a)  194  observa,  a  propósito  da  Inglaterra,  que  os  impostos  cobrados  pelos 
monarcas  aos  senhores  eram.  totalmente  ou  na  sua  maior  parte,  repassados  pelos  senhores  aos  campo¬ 
neses.  de  maneira  que  a  carga  fiscal  diminuía  sobre  a  classe  dominante  e  aumentava  sobre  a  classe 
servil.  O  problema,  no  entanto,  vinha  do  facto  de  este  processo  reverter  em  benefício  do  monarca  e 
não  dos  restantes  senhores.  A  este  respeito  ver  igualmente  R.  Hilton  ( 1973  a)  146. 


550 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


çava  com  obstáculos  sociais.  E  de  pouco  vale  observar  que.  na  generalidade  dos  casos, 
os  soberanos  conseguiram  apenas  apropriar-se  de  uma  pequeníssima  fracção  do  rendi¬ 
mento  global71,  porque,  numa  época  em  que  a  margem  de  excedentes  agrícolas  era 
muito  reduzida,  um  acréscimo  percentual  dos  impostos  que  hoje  se  classificaria  de 
diminuto  podia  ditar  a  diferença  entre  uma  relativa  abundância  e  a  escassez  mortal  ’. 
Não  era  o  mau  humor,  mas  a  necessidade  de  preservar  um  mínimo  vital,  que  ocasio¬ 
nava  as  revoltas  contra  o  fisco.  Além  disso,  o  ritmo  da  cobrança  dos  impostos,  forçosa¬ 
mente  muito  moroso  nas  condições  de  então,  não  correspondia  ao  ritmo  das  despesas, 
que  tinham  de  fazer  face  a  encargos  súbitos  e  avultados73.  Assim,  os  soberanos  defron¬ 
taram-se  com  um  duplo  problema  de  tesouraria,  resultante  de  uma  inadequação  das 
receitas  aos  gastos,  quer  sob  o  ponto  de  vista  do  volume  queT  do  processo  temporal. 
Tomava-se  indispensável  a  reorganização  do  fisco. 

A  partir  dos  meados  do  século  XIII.  um  dos  expedientes  imediatos  usados  pelos 
soberanos,  incluindo  os  governos  das  cidades  independentes,  para  aliviar  as  pressões 
fiscais  consistiu  no  pedido  de  fundos  a  sociedades  mercantis  e  bancárias,  ou  mesmo  a 
usurários  e  penhoristas.  Tratava-se  de  uma  actualização,  nas  condições  do  poder  impes¬ 
soal,  do  que  no  período  anterior,  sob  o  poder  pessoal,  havia  sido  o  recurso  aos  profis¬ 
sionais  do  tráfico  de  longo  curso  que  serviam  de  agentes  mercantis  a  monarcas  ou  a 
grandes  senhores74.  E  certo  que  já  antes  dos  meados  do  século  XI II  os  soberanos 
tinham  contraído  empréstimos,  mas  faziam-no  então  de  forma  apenas  ocasional, 
enquanto  a  partir  daquela  data  a  prática  se  tomou  sistemática  e  atingiu  somas  muitís¬ 
simo  elevadas75.  Apelando  para  a  intervenção  dos  homens  de  negócios,  os  reis,  os  prín¬ 
cipes  e  os  governos  urbanos  pretenderam  resolver  a  dupla  inadequação  entre  as  receitas 
fiscais  e  o  montante  das  despesas  e  entre  os  prazos  da  cobrança  e  os  dos  gastos,  tor¬ 
nando  assim  muito  mais  maleável  e  eficaz  a  actuação  política7*.  As  grandes  campanhas 


71  Exceptuando  algumas  épocas  especiais  e  certos  lugares  em  particular.  C.  M.  Cipolla  ( 1976)  47 
considera  que  os  soberanos  não  conseguiam  apropriar-se  de  mais  de  5%  a  8%  do  rendimento  global. 

72  É  este  o  raciocínio  que  ta/  I.  Kershaw  ( 1973)  47  a  propósito  da  Inglaterra  durante  as  fornes  e  a 
crise  agrária  de  1315-1322. 

72  R.  W.  Kaeuper{1973)  75. 

74  Os  Riecardi.  escreve  td..  ibid..  82.  mantinham  uma  relação  de  tipo  especial  com  a  coroa 
inglesa,  como  se  fossem  men  atores  regis.  E.  com  efeito,  leio  neste  autor  (p.  99 1  que  a  associação  dos 
Riecardi  com  os  reis  de  Inglaterra  começou  enquanto  vendedores  de  artigos  de  luxo. 

75  Acerca  dos  empréstimos  contraídos  pelos  soberanos  junto  de  usurários,  banqueiros  e  socieda¬ 
des  ver.  de  uma  maneira  genérica:  R.-H.  Bautier  (1992)  63;  M.  Beard  ( 1938)  84,  131:  Ch.  N.  L.  Brooke 
et  al.  (1975)  227-228,  233;  R.  de  Roover  ( 1948)  10:  Ph  Dollinger  (1964)  79-80;  E.  Dupré  Theseidcr 
(1952)  239;  P.  Elman  (1936-1937)  151;  J.  A.  Gade  ( 1951  >  20;  A.  Gieysztor  ( 1971  b)  170-171:  G.  L. 
Harriss  (1975)  204;  J.  N.  Hiligarth  ( 1976-1978)  I  272;  J.  K.  Hyde  (1973)  164;  D.  Jacoby  ( 1973)  901; 
Ph.  Jones  ( 1974)  1704.  1745:  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  46.  76  e  segs.;  J.  Lestocquoy  ( 1952)  94,  1 14:  id. 
(1954)  51-52;  T.  H.  Lloyd  (1982)  174  e  segs.:  H.  A.  Miskímin  f  1969)  93;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360; 
J.  Piquet  (1939)  8-10.  25:  M.  Prestwich  (1972)  39,  205  e  segs.:  id.  ( 1979)  79.  87.  Y.  Renouard  ( 1941 ) 
60,  92,  357,  361-362:  id.  (1949)  134;  M.  Riu  (1979)  144.  145,  J.  Schneider  1 1950)  305,  314;  J.  R. 
Strayer  (1969-1970)  1 13;  id.  (1977)  273-275:  S.  L.  Thrupp  (1948  )  53:  C.  Tihon  (1961 )  351.  359. 

Ph.  Jones  (1974)  1705  e  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  76  situam  nos  meados  do  século  XIII  o  momento 
em  que  os  soberanos  começaram  a  recorrer  sistematicamente  a  empréstimos. 

7b  R.  W.  Kaeuper  (1973)  255;  T.  H.  Lloyd  ( 1982)  207;  J.  Piquet  i  1939)  35;  M.  Prestwich  0972) 
161. 218;  id.  ( 1979)  79;  P.  Spufford  (1984)  370. 


Os  reis  na  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


55J 


militares  deste  período,  as  maiores  peregrinações  armadas  que  embarcaram  para  a 
Palestina,  a  própria  fundação  do  reino  latino  de  Jerusalém,  a  colocação  de  uma  dinastia 
latina  no  trono  de  Constantinopla,  tal,  aliás,  como  a  reconquista  do  Império  do  Oriente 
pelos  Paléologos,  a  conquista  do  reino  das  duas  Sicílias  por  Carlos  de  Anjou,  as  guerras 
conduzidas  pelo  papado  a  coberto  de  pretextos  religiosos,  as  guerras  dinásticas  e  a 
maior  de  todas  elas,  o  conflito  secular  que  opôs  as  coroas  francesa  e  inglesa,  tudo  isto 
foi  financiado  pelos  grandes  negociantes77. 

Em  troca  da  abertura  de  crédito  ao  soberano,  era  possível  que  nos  séculos  XI  e  XII 
o  prestamista  recebesse  senhorias  como  penhor,  apoderando-se  da  colheita  a  título  de 
juro78.  Em  alguns  casos  o  penhor  consistia  em  artigos  preciosos79,  até  as  jóias  da 
coroa80,  mas  é  outro  tipo  de  caução,  de  carácter  estritamente  fiscal,  que  aqui  me  inte¬ 
ressa  considerar.  Com  efeito,  os  negociantes  e  sobretudo  as  sociedades  comerciais  e 
financeiras  podiam  obter  como  garantia  o  direito  à  cobrança  de  certos  rendimentos, 
nomeadamente  os  impostos  ordinários,  e  nestes  casos  o  fisco  passava  em  grande 
medida  a  repousar  nos  credores,  que.  se  por  um  lado  antecipavam  as  receitas,  ficavam, 
por  outro,  encarregados  da  arrecadação  e  da  transferência  dos  impostos81.  Na  passagem 
do  século  XIII  para  o  século  XIV,  a  comparação  da  situação  em  França,  onde  o  rei 
tinha  bastante  dificuldade  em  obter  empréstimos  avultados  e  regulares,  com  o  que  ocor¬ 
ria  em  Inglaterra,  onde  a  coroa  dispunha  de  um  fluxo  permanente  de  crédito  atingindo 


77  H.  G.  Barros  (1945-1954)  X  239;  Ch.  N.  L.  Brooke  et  al.  (1975)  233;  J.  Day  (1994)  199;  Ph. 
Jones  ( 1974)  1744;  M.  Prestwich  ( 1972)  206. 

Note-se  que  o  papel  desempenhado  pelas  grandes  companhias  toscanas  aquando  da  conquista  das 
duas  Sicílias  por  Carlos  de  Anjou  acentuou-se  com  os  seus  sucessores,  e  no  começo  do  século  XIV 
toda  a  economia  do  reino  de  Nápoles  estava  sob  o  controlo  de  banqueiros  florentinos,  consoante  indi¬ 
cam  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  360. 

78  Nos  séculos  XI  e  XII  os  imperadores  germânicos  e  muitos  príncipes  dos  Países  Baixos  contraí¬ 
ram  numerosos  empréstimos  em  sistema  de  mort-gage,  afirma  H.  van  Werveke  (1929)  65  e  segs. 
Acerca  desta  modalidade  de  crédito  nas  relações  entre  senhores  ver  no  capítulo  7  a  n.  236.  Mais  tarde, 
na  Morea  latina,  o  príncipe  concedia  senhorias  vassálicas  a  famílias  da  elite  das  cidades  italianas  que 
o  ajudavam  com  empréstimos,  segundo  indica  D.  Jacoby  ( 1973)  901 . 

79  C.  M.  Cipoila  ( 1956)  64;  R.  de  Roover  (1948)  1 18-120. 

80  J.  A.  Gade  ( 1951)  20;  Y.  Renouard  (1949)  134. 

81  C.  Batlle  (1991)  240:  R.-H.  Bautier  (1992)  63;  M.  Beard  (1938)  131;  E.  Dupré  Theseider 
(1952)  239;  J.  A.  Gade  (1951)  20;  Ph.  Jones  (1974)  1705.  1745;  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  125-126;  M 
Prestwieh  ( 1972)  207;  Y.  Renouard  (1941 )  69;  id.  (1949)  134;  P.  Spufford  (1984)  370. 

Nào  entendo  como  Y.  Renouard  (1941)  68-69  pode  pretender  que  as  companhias  se  mostravam 
relutantes  em  arrendar  a  cobrança  dos  rendimentos  dos  soberanos  a  quem  adiantavam  empréstimos, 
por  considerarem  estas  operações  demasiado  incertas  para  serem  lucrativas.  Depois  de  recordar  que  o 
desenvolvimento  de  um  sistema  de  impostos  centrais  suscitou  grande  hostilidade  por  parte  dos  súbdi¬ 
tos.  R.  W.  Kaeuper  (1973)  258-259  observa  que  a  sua  associação  com  as  companhias  financeiras  aju¬ 
dou  as  monarquias  a  ultrapassarem  uma  fase  difícil  na  reforma  do  fisco.  No  entanto.  Ph.  Jones  (1974) 
1748  refere,  no  final  do  século  XIII  e  no  começo  do  século  seguinte,  as  explosões  de  cólera  da  popu¬ 
lação  contra  os  financeiros  italianos  que  se  haviam  encarregado  da  cobrança  dos  impostos.  Segundo 
D.  Herlihy  ( 1958  b)  87-88,  nos  meados  do  século  XIII  a  cidade  de  Pisa  cedeu  a  uma  companhia  de 
banqueiros  o  rendimento  de  um  novo  imposto,  como  remuneração  de  um  empréstimo,  mas  a  arreca¬ 
dação  não  estava  a  cargo  dos  mutuantes  e,  até  ao  acerto  anual  de  contas,  o  dinheiro  era  confiado  a 
dois  membros  de  Ordens  Mendicantes,  especialmente  designados  para  zelar  por  ele.  Tratar-se-ia  de 
uma  fase  transitória  entre  a  mera  recepção  de  certas  receitas  fiscais  e  a  sua  cobrança? 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


montantes  muito  consideráveis,  mostra  que  um  soberano  só  podia  basear  a  sua  política 
no  recurso  aos  financeiros  se  ele  próprio  tivesse  já  implantado  um  sistema  global  de 
impostos  relativamente  estável82.  Fora  isto  que  conseguira  o  monarca  inglês  ao  instau¬ 
rar,  logo  no  começo  do  último  quartel  do  século  XIII.  uma  nova  taxa  aduaneira  sobre  a 
exportação  de  lã,  que,  sendo  cobrada  com  facilidade  e  garantindo  um  rendimento  regu¬ 
lar,  tinha  condições  óptimas  para  servir  de  caução  a  empréstimos  continuamente  reno¬ 
váveis;  os  banqueiros,  geralmente  companhias  toscanas.  abriam  uma  linha  de  crédito 
permanente  e  eram  reembolsados  graças  à  cobrança,  também  permanente,  de  receitas 
fiscais,  cabendo  a  primazia  às  taxas  alfandegárias83.  Assim,  o  desenvolvimento  do  fisco 
não  se  deveu  apenas  à  acção  directa  dos  banqueiros  ou  das  sociedades  mercantis  que  se 
encarregavam  de  colectar  os  impostos,  e  o  mero  desejo  de  apelar  para  estes  homens  de 
negócios  estimulava  os  soberanos  a  encetarem  previamente  a  remodelação  dos  meca¬ 
nismos  fiscais84.  A  partir  do  momento  em  que  não  puderam  mais  dispensar  o  crédito, 
os  soberanos  passaram  a  encontrar  conselheiros  especializados  entre  os  chefes  das 
grandes  companhias,  além  de  contarem  com  eles  para  exercer  as  funções  de  agentes 
financeiros  e  fiscais8"'.  Através  dos  empréstimos,  os  negociantes  intervieram  no  poder 
público,  a  tal  ponto  que  acabaram  por  participar  na  gestão  das  finanças  de  certos 
monarcas,  quando  não  as  administravam  mesmo  inteiramente86. 

Tomando-se  indissoluvelmente  ligados,  o  fisco  e  o  crédito  combinaram  estreita- 
mente  as  três  formas  do  dinheiro.  Com  efeito,  se  os  impostos  lançados  sobre  a  esmaga¬ 
dora  maioria  da  população  se  processavam  através  da  Forma  I  do  dinheiro,  a  Forma  II 
era  usada  pelos  grandes  senhores  quando  eles  tinham  de  satisfazer  o  fisco  do  soberano 
e  era  empregue  igualmente  pela  elite  mercantil  para  pagar  as  taxas  que  oneravam  o 
comércio  de  longo  curso.  Por  outro  lado.  a  relação  entre  um  soberano  e  as  sociedades 
mercantis  e  bancárias  pressupunha  inevitavelmente  o  recurso  a  instrumentos  fiduciá- 


82  É  esta  a  conclusão  a  que  chega  J.  R.  Strayer  ( 1 969- 1970)  1 13- 1 15  através  da  comparação  entre 
o  sucedido  na  França  de  Filipe  IV,  o  Belo.  e  na  Inglaterra  de  Eduardo  I.  Ver  ígualmente  R.  W.  Kaeu- 
per(1973)  85. 

84  Para  a  descrição  deste  sistema,  que  vigorou  a  partir  do  reinado  de  Eduardo  I.  ver:  P.  Elman 
(1936-1937)  151-152;  G.  L.  Harriss  (1975)  203;  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  79-82,  105,  135-155.  209;  T. 
H.  Lloyd  (1982)  175.  177-180:  H.  A.  Miskimin  (1969)  93;  M.  Prestwich  (1972)  211.  213,  216;  id. 
(1979)  79. 

84  A  melhoria  do  sistema  administrativo,  escreve  G.  L  Harriss  (1975)  217  a  propósito  da  Ingla¬ 
terra,  facilitou  a  obtenção  de  crédito  pela  coroa. 

85  M.  Prestwich  (1972)  217;  Y.  Renouard  ( 1949)  135. 

86  C.  Batlie  (1991)  240;  M.  Beard  (1938)  136-141;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  360;  M.  Prestwich 
(1972)  212;  Y.  Renouard  ( 1 94 1 )  94;  G.  Soldi  Rondinini  <  1982)  353-354;  C,  Tthon  ( 1961 )  359. 

Em  Inglaterra,  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  82-83  observa  que  a  companhia  dos  Riccardi  se  converteu 
num  verdadeiro  órgão  governamental,  complementando  o  e.xchequer  e  o  wardrohe.  Também  a  propó¬ 
sito  da  Inglaterra,  mas  um  pouco  mais  tarde,  já  no  final  do  período.  S.  L.  Thrupp  ( 1948 )  55  afirma  que 
os  mercadores  que  adiantavam  empréstimos  á  coroa  não  aspiravam  a  prosseguir  uma  carreira  política, 
interessando-lhes  apenas  o  aumento  das  oportunidades  de  negócio  e  a  obtenção  de  cargos  que.  apesar 
de  serem  menores,  eram  muito  proveitosos.  E.  embora  esteja  aqui  a  referir-me  a  banqueiros  laicos  e  a 
sociedades,  não  é  descabido  recordar  que,  antes  de  os  Templários  serem  vítimas  da  própria  importân¬ 
cia  que  haviam  adquirido  e  enquanto  serviram  de  credores  e  agentes  financeiros  à  coroa  de  França,  o 
tesoureiro  da  sede  da  Ordem  em  Paris  tinha  assento  no  conselho  do  rei  e  participava  na  elaboração  de 
todas  as  medidas  financeiras.  Ver  a  este  respeito  J.  Piquet  (1939)  26. 


Os  reis  na  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


553 


rios,  estimulando  portanto  o  desenvolvimento  da  Forma  III  do  dinheiro.  Além  disso,  os 
próprios  bancos  que  negociavam  com  os  soberanos  recebiam  depósitos  em  qualquer 
tipo  de  numerário87  e  emitiam  dinheiro  fiduciário,  articulando  por  seu  lado  as  três 
modalidades  pecuniárias88.  O  agravamento  dos  problemas  fiscais  levou  a  Forma  111  do 
dinheiro  a  adquirir  uma  importância  crucial  na  actividade  económica  dos  monarcas  e 
dos  príncipes  e.  assim,  a  estreitar  mais  ainda  a  sua  conjugação  com  as  Formas  I  e  II. 

Se  nas  novas  condições  de  soberania  impessoal  as  autoridades  não  teriam  podido 
governar  sem  o  recurso  ao  dinheiro  fiduciário  gerado  no  quadro  das  sociedades  comer¬ 
ciais  e  financeiras,  também  esta  forma  de  dinheiro  não  teria  assumido  tão  grande 
expansão  se  não  fossem  as  oportunidades  oferecidas  pelas  iniciativas  económicas  dos 
soberanos.  Como  já  sabemos  com  certo  detalhe  (ver  o  capítulo  lO.e),  os  monarcas  e  os 
príncipes  mais  poderosos  pretenderam  frequentemente  livrar-se  da  tenaz  em  que  os  cin¬ 
giam  as  sociedades  bancárias,  e  para  isso  recorreram,  nesta  economia  que  ilusoria¬ 
mente  se  nos  afigura  comercial,  a  um  dos  elementos  mais  característicos  do  sistema  de 
troca  de  presentes  -  a  pilhagem.  Mandando  prender  ou  expulsar  os  banqueiros  e 
fazendo  mão  baixa  nos  seus  fundos,  a  coroa  assegurava-se  de  uma  margem  de  mano¬ 
bra.  Mas  tratava-se,  afinal,  de  uma  trégua  temporária,  e  as  suas  consequências  negati¬ 
vas,  perturbando  as  relações  financeiras  à  escala  de  todo  o  regime  senhorial,  superavam 
sem  dúvida  os  efeitos  positivos.  Algum  tempo  depois  destas  razias  de  outro  tipo,  os 
soberanos  deparavam  com  os  mesmos  problemas  e  tinham  de  recoirer  a  novos  emprés¬ 
timos.  Por  seu  lado,  os  financeiros  respondiam,  nos  termos  pecuniários  que  eram  os 
seus,  àquelas  operações  de  saque  onerando  o  adiantamento  de  fundos  aos  monarcas  e 
aos  príncipes  com  taxas  de  juro  muitíssimo  mais  elevadas  do  que  as  aplicadas  no  cré¬ 
dito  comercial  e  artesanal  comum89.  Uma  vez  mais  podemos  constatar  que  não  se  pro- 


147  Ver  no  capítulo  1 1  a  n.  27. 

88  Encontra-se  em  J.  Schneider  ( 1950)  263  e  295  e  segs.  uma  análise  ilustrativa  das  relações  entre 
os  cambistas-banqueiros  de  Metz  e  os  príncipes  vizinhos. 

89  C.  M.  Cipolla  ( 1956)  64  mostra  imperadores  e  reis  a  pagarem  juros  entre  30%  c  40%.  enquanto 
nos  séculos  XIV  e  XV  os  comerciantes  e  artesãos  italianos  contraíam  empréstimos  a  taxas  entre  7%  e 
15%.  No  princípio  do  século  XIV,  a  crerem  G.  Salvemini  (1957)  471.  era  de  36%  o  juro  aplicado 
normalmeme  pelos  banqueiros  florentinos  nos  seus  empréstimos  a  soberanos,  mas  podendo  por  vezes 
atingir  os  62%.  Todavia,  R.  W.  Kaeuper  (1973)  1 19  indica  que  Eduardo  III  de  Inglaterra  pagava  26% 
de  juro.  Acerca  dos  elevados  juros  que  oneravam  o  crédito  adiantado  aos  soberanos  consultar  igual¬ 
mente:  P.  Elman  <  1936-1937)  152:  G.  Soldi  Rondinini  (1982)  352-353;  P.  Spufford  ( 1984)  382. 

J.  Piquei  (1939)  52  pretende  que  os  Templários  podiam  não  cobrar  juros  no  crédilo  que  abriam 
aos  monarcas  porque  se  .sentiríam  suficientemente  compensados  pela  gestão  das  finanças  da  coroa.  Na 
mesma  perspectiva,  depois  de  escrever  que  não  existem  provas  de  que  os  banqueiros  recebessem 
juros  nos  empréstimos  adiantados  ao  papa,  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  46-47  observa  que  eles  eram  reem¬ 
bolsados  dos  montantes  que  apresentavam  como  tendo  constituído  prejuízos,  além  de  lucrarem  com  o 
facto  de  a  cúria  lhes  entregar  enormes  somas  em  depósito  a  longo  prazo  e  de  beneficiarem  em  geral 
da  protecção  do  sumo  pontífice.  Também  Y.  Renouard  (1941)  537  considera  que  o  papado  não 
pagava  juros  pelos  empréstimos  que  contraía  junto  aos  banqueiros.  R.  L.  Reynolds  (1952)  364-365 
coloca  o  problema  noutros  termos,  assegurando  que  as  grandes  companhias,  além  de  receberem  juros 
pelos  empréstimos  feitos  aos  soberanos,  gozavam  ainda  de  isenções,  privilégios  e  oportunidades  de 
negócio.  A  ligação  íntima  entre  todos  estes  tipos  de  remuneração  esclarece-se  ao  lermos  em  Y. 
Renouard  (1941)  69  e  ( 1949)  134  que  na  Inglaterra  e  no  reino  da  Sicília  os  monarcas,  embora  não 
pagassem  juros,  dispensavam  as  companhias  credoras  da  sujeição  a  taxas  aduaneiras,  referentes  à 


554 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


cessou  neste  período  qualquer  tendência  para  uma  unificação  do  mercado  financeiro,  e 
transacçôes  que,  de  acordo  com  as  nossas  concepções  actuais,  classificaríamos  como 
estritamente  económicas,  eram  na  realidade  condicionadas  por  factores  sociais  que  as 
repartiam  por  planos  distintos.  Neste  caso  a  diferença  entre  taxas  de  juro  representava 
verdadeiras  clivagens  sociais.  Mas  os  mercadores  nem  sempre  se  limitaram  a  opor  aos 
soberanos  as  armas  da  finança.  Na  penúltima  década  do  século  XIV,  por  exemplo, 
numerosos  negociantes  de  Londres  ajudaram  com  empréstimos  o  filho  bastardo  de  um 
rei  de  Portugal  a  apoderar-se  do  trono  e.  para  se  reembolsarem  das  somas  adiantadas, 
apresaram  embarcações  portuguesas  nos  portos  da  Inglaterra  e  apreenderam- lhes  as 
mercadorias,  fazendo-o  mesmo  depois  de  assinado  o  tratado  que  aliou  a  nova  dinastia 
de  Aviz  à  coroa  inglesa90.  Nem  do  lado  dos  reis  nem  do  lado  dos  negociantes  era 
possível  estabelecer  qualquer  demarcação  rigososa  entre  as  operações  financeiras  e  as 
acções  de  saque. 


c.  Imposto  central  e  cortes  gerais 

Embora  os  soberanos  ocupassem  um  lugar  de  relevo  na  utilização  da  Forma  IH  do 
dinheiro,  os  mecanismos  de  emissão  do  dinheiro  fiduciário  estavam  à  disposição  da 
generalidade  dos  membros  da  classe  senhorial  (ver  o  capítulo  lO.c.l,  enquanto  que  eram 
os  soberanos  quem  detinha  o  exclusivo  da  emissão  das  outras  duas  modalidades  pecu¬ 
niárias.  Por  isso  a  sua  posição  aí  foi  mais  destacada  ainda. 

Mas  os  soberanos  defrontavam-se  com  um  dilema.  Por  um  lado,  não  podiam  senão 
depreciar  as  peças  inseridas  na  Forma  1  do  dinheiro.  Como  vimos  (nos  capítulos  2.d  e 
4.a),  perante  a  insuficiência  da  oferta  de  prata  só  as  consecutivas  deteriorações  do  con¬ 
teúdo  metálico  possibilitavam  uma  circulação  pecuniária  capaz  de  veicular  as  relações 
de  dependência.  Além  disso,  e  devido  à  morosidade  dos  mecanismos  de  cobrança  dos 


exportação  de  lã  num  caso  e  de  cereais  no  outro,  num  montante  que  equivalia  aos  juros  do  emprés¬ 
timo.  Num  sistema  deste  tipo  afigura-se-me  desprovida  de  sentido  a  afirmação  de  que  o  rei  não  estava 
obrigado  a  juros.  Faço  o  mesmo  comentário  a  respeito  das  teses  de  M.  Prestwich  ( 1979)  84-85.  para 
quem  a  coroa  inglesa  só  teria  pago  juros  no  pnmeuo  terço  do  século  XIII,  mudando  a  situação  ao 
longo  do  segundo  terço,  de  modo  que  a  partir  do  terço  final  do  século  deixaram  de  ser  mencionados 
juros  e  os  banqueiros  passaram  a  ser  reembolsados  apenas  dos  custos  e  prejuízos  ocasionados  pelos 
empréstimos,  o  que  lhes  deixava  uma  margem  de  benefício;  além  disso  tpp.  88,  90-91 ).  os  credores 
adquiriam  diversas  vantagens  comerciais,  fiscais  e  judiciárias.  Este  historiador  acrescenta  tpp.  86-87) 
que  só  quando  depararam  nos  Países  Baixos  com  situações  fiscais  panicuiarmente  melindrosas 
Eduardo  I  e  Eduardo  III  se  viram  obrigados  a  recorrer  a  empréstimos  onerados  com  verdadeiros  juros, 
mas  nestes  casos  as  somas  haviam  sido  adiantadas  por  usurários  locais  e  não  pelos  banqueiros  habi¬ 
tuais  da  coroa.  Posicionando-se  contra  estas  teses,  Richard  W.  Kaeuper.  em  op.  dt.,  118-121,  admite 
que  os  Riccardi  decerto  obteriam  juros  pelo  crédito  aberto  a  Eduardo  I.  sendo-lhes  ígualmente  confe¬ 
ridos  privilégios  (pp.  121-123)  enquanto  remuneração  suplementar.  Também  T.  H.  Lloyd  (1982)  198 
garante  que  em  Inglaterra,  alétn  de  se  verem  gratificados  com  os  favores  do  monarca,  os  banqueiros 
da  coroa  recebiam  indubitavelmente  juros,  sendo  talvez  uma  excepçâo  os  empréstimos  forçados  lan¬ 
çados  por  Eduardo  I.  Note-se  que  já  P.  Elman  ( 1936-1937)  1 52  mencionara  os  juros  pagos  pela  coroa 
inglesa  em  virtude  dos  empréstimos  que  contraia. 

90  H.  O.  Barros  <  1945-1954)  X  239. 


Os  reis  na  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


555 


tributos,  os  soberanos  dispunham  apenas  de  dois  processos  rápidos  para  reunir  somas 
avultadas:  os  empréstimos  contraídos  junto  das  grandes  casas  bancárias  e  as  quebras  de 
moeda91.  Nesta  perspectiva,  a  depreciação  monetária  fazia  parte  do  mesmo  conjunto  de 
recursos  a  que  pertenciam  os  pedidos  de  crédito  e  a  reorganização  do  fisco9’,  o  que 
constitui  uma  maneira,  talvez  inesperada,  de  articular  os  problemas  da  Forma  I  do 
dinheiro  com  os  da  Forma  III.  E  não  podemos  também  esquecer  que  a  quebra  da  moeda 
beneficiaria  os  soberanos  quando  eles  tivessem  de  efectuar  pagamentos  com  numerário 
depreciado.  Por  outro  lado,  porém,  a  degradação  do  conteúdo  metálico  da  cunhagem 
diminuía  os  rendimentos  resultantes  das  exacções  lançadas  sobre  os  camponeses,  no 
caso  de  elas  continuarem  a  ser  cobradas  em  moeda.  Como  tive  já  oportunidade  (no  capí¬ 
tulo  4.a)  de  constatar,  se  a  depreciação  do  numerário  obedecia  a  algumas  condicionantes 
muito  simples,  ela  era  também  afectada  por  situações  de  grande  ambiguidade,  e  os  efei¬ 
tos  da  lei  dita  de  Gresham.  assim  como  a  relação  entre  as  Formas  I  e  II.  davam  ainda 
maior  complexidade  ao  problema.  Para  agravai  as  complicações,  os  historiadores  rara¬ 
mente  distinguem  as  duas  modalidades  da  moeda  quando  se  referem  à  alteração  do  seu 
conteúdo  metálico,  o  que  impede  muitas  vezes  qualquer  avaliação  correcta  da  situação. 

Tal  como  os  soberanos  se  viam  favorecidos  por  certos  aspectos  da  quebra  da  moeda 
ao  mesmo  tempo  que  outros  aspectos  os  podiam  prejudicar,  decerto  entre  os  súbditos 
não  faltavam  debates  a  este  respeito.  Mais  provavelmente,  e  tendo  em  conta  que  eram  a 
nobreza  laica  e  o  alto  clero  quem  sobretudo  se  fazia  ouvir,  tratar-se-ia  de  evitar  que  a 
depreciação  atingisse  as  emissões  decorrentes  da  Forma  II  do  dinheiro  (ver  o  capítulo  8). 
Assim,  na  França  do  século  XIV.  por  exemplo,  as  vozes  que  se  pronunciaram  em  repre¬ 
sentação  das  províncias  de  língua  de  oil  mostraram-se  favoráveis  a  uma  moeda  forte, 
com  a  notável  excepção  da  elite  de  Paris,  que  preferia  a  depreciação.  Pareceria  seguro, 
em  tal  contexto,  concluir  que  enquanto  a  nobreza  rural  se  preocupava  com  a  estabilidade 
da  Forma  II  da  moeda,  a  aristocracia  urbana,  directamente  interessada  no  desenvolvi¬ 
mento  das  manufacturas,  pretendia  agravar  o  desfasamento  entre  a  Forma  I  e  a  Forma  II. 
cujos  efeitos  no  processo  de  exploração  da  mão-de-obra  assalariada  conhecemos  já 
(desde  o  capítulo  1 1 ).  O  raciocínio  é  sedutor,  mas,  como  tudo  o  que  diz  respeito  à  depre¬ 
ciação  do  numerário,  encontra  argumentos  igualmente  fortes  em  sentido  oposto,  já  que 
as  notabilidades  do  Languedoc  se  declararam  repetidamente  partidárias  da  conservação 
da  moeda  forte,  apesar  de  representarem  uma  província  com  numerosos  centros  urbanos, 
que  à  primeira  vista  deveria  desposar  a  posição  da  elite  parisiense93.  Por  outro  lado,  é 
possível  também  que  a  população  pobre  estivesse  disposta  a  contribuir  para  impostos 
que  impedissem  a  disparidade  entre  as  Formas  I  e  II  de  atingir  níveis  extremos. 

Os  soberanos  pretenderam  obviar  de  várias  maneiras  às  consequências  prejudiciais 
-  ou  prejudiciais  para  certas  camadas  da  sociedade  -  da  quebra  da  moeda.  Mas  a  prin¬ 
cipal  das  medidas  tomadas,  pelo  menos  pelas  suas  repercussões,  consistiu  no  lança- 


91  Ver  a  n.  8  do  capítulo  4. 

9-  Para  os  soberanos,  as  quebras  de  moeda  cumpriam  as  funções  de  um  imposto,  afirma  J.  Piquet 
( 1939)  155.  e  R.  Cazelles  ( 19661  273  e  1 1982)  530  procede  à  mesma  observação. 

Acerca  dos  debates  em  tomo  da  questão  monetária  na  França  do  século  XIV  ver:  E.  Bridrey 
(1906)  170.  475-476.  484.  489  e  segs.:  R.  Cazelles  (1982)  536-538. 


556 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  UI  do  dinheiro 


mento  de  impostos  especiais  com  o  objectivo  exclusivo  de  evitar  a  depreciação,  ou  de 
estabilizá-la  a  um  dado  nível.  Desde  que  pudesse  contar  com  a  receita  proveniente  do 
novo  imposto,  o  soberano  comprometia-se  a  dispensar  o  rendimento  que  lhe  adviria  da 
quebra  generalizada  de  moeda94.  Estes  impostos,  porém,  se  apareciam  como  uma  con¬ 
dição  para  satisfazer  as  reivindicações  de  certos  grupos  sociais  e  se  colmatavam  algu¬ 
mas  necessidades  do  fisco,  em  nada  contribuíam  para  solucionar  um  problema  básico,  a 
emissão  de  um  volume  suficiente  de  peças  que  veiculasse  as  relações  dc  dependência. 
Nesta  perspectiva,  as  conveniências  particulares,  incluindo  as  do  fisco,  entravam  em 
contradição  com  as  exigências  globais  da  senhoria  impessoal.  A  complexidade  destes 
problemas  requeria  um  quadro  de  decisões  em  que  se  pudessem  conciliar  tantos  inte¬ 
resses  divergentes  ou,  no  pior  dos  casos,  em  que  através  de  concessões  recíprocas  se 
pudesse  estabelecer  uma  plataforma  de  acordo.  Para  este  fim  os  soberanos  começaram 
com  certa  frequência  a  convocar  representantes  de  todos  os  estratos  da  classe  domi¬ 
nante,  desde  a  mais  alta  nobreza  até  aos  camponeses  prósperos  recém-promovidos  à 
condição  senhorial,  e  desde  a  aristocracia  dos  campos  até  à  elite  urbana. 

Contrariamente  aos  conselhos  que  monarcas  e  príncipes  consultavam  por  vezes  no 
início  do  período  e  em  que,  além  dos  dignitários  do  seu  séquito,  participavam  de 
maneira  esporádica  e  ocasional  alguns  nobres  residentes  nas  imediações  do  palácio  ou 
do  castelo  onde  o  soberano  estivesse9-',  as  cortes  gerais,  em  primeiro  lugar,  abrangiam 
toda  uma  área  de  soberania.  Podia  suceder,  como  no  império  germânico,  que  a  autori¬ 
dade  central  fosse  demasiado  débil  para  convocar  cortes46,  e  as  assembleias  deviam-se 
neste  caso  à  iniciativa  de  soberanos  locais.  Mesmo  em  França  não  se  reuniram  cortes 
gerais  antes  do  século  XIV,  e  ainda  então  era  frequente  que  elas  se  realizassem  no  qua¬ 
dro  de  cada  província97.  De  qualquer  maneira,  porém,  as  cortes  davam  voz  a  áreas  de 
poder  relativamente  homogéneas.  Em  segundo  lugar,  as  cortes  gerais  eram  convocadas 
formalmente,  correspondendo  a  uma  instituição  própria.  Assim,  em  Portugal,  por 
exemplo,  quando  a  assembleia  do  palácio  se  ampliava  e,  além  dos  vassalos  do  rei.  eram 
chamados  os  principais  nobres  e  os  prelados,  num  processo  evolutivo  que  haveria  de 
conduzir  às  cortes  gerais,  estas  reuniões  alargadas  revestiam-se  de  grande  solenidade98. 


94  H.  G.  Barros  (1945-1954)  111  135-139:  E.  Bridrey  (1906)  136.  170.  474-475;  R.  Cazelles 
(1966)  105;  J.  Favier(1982)  180;  J.  Mattoso  [  1994  bj  135,  140.  253.  276. 

H.  G.  Barros  ( 1945-1954)  I  152  n.  1  informa  que  em  Castela  a  palavra  moneda  não  designava 
tanto  o  direito  de  bater  moeda  como  sobretudo  o  imposto  pago  para  evitar  as  alterações  no  valor  do 
numerário. 

9?  R.  S.  Lopez  ( 1965)  338,  339.  Ver  ainda:  J.  Mattoso  [1994  b]  276. 

96  R.  S.  Lopez  (1965)  343. 

97  Ver.  em  geral,  id..  ibid.,  343.  Referindo-se  aos  meados  do  século  XIV,  E.  Bridrey  ( 1906)  170, 
475-476  e  483-484  menciona  a  reunião  de  assembleias  separadamente  no  Languedoe  e  nas  províncias 
de  língua  de  oíl.  Em  1380,  segundo  L.  Mirot  ( 1905)  28  e  segs..  as  províncias  de  língua  de  oíl  reuniram 
cortes.  O  processo  de  formação  das  cortes  gerais  da  Nomtandia  a  partir  dc  1315  é  citado  por  M. 
Bouard  (org.  1970)  212.  No  Delfinado.  I.  Vemus  Moutin  ( 1990)  1 13  indica  o  aparecimento  de  uma 
assembleia  representativa  nos  meados  do  século  XIV.  A  cronologia  foi  mais  tardia  no  Forez,  onde  a 
convocação  de  cortes  não  parece  anterior  ao  final  do  segundo  terço  daquele  século,  a  crer  em  E.  Four- 
nial  (1967  )  377. 

J.  Mattoso  11994  b]  276. 


Os  reis  rui  convergência  das  três  formas  do  dinheiro 


557 


E,  em  terceiro  lugar,  os  delegados  que  tinham  assento  nas  cortes  gerais  representavam  a 
pluralidade  de  interesses  da  classe  senhorial.  É  importante  deixar  claro  que  nenhum 
antagonismo  impediu  a  participação  das  várias  camadas  da  aristocracia  rural,  tal  como 
o  predomínio  da  nobreza  não  criou  obstáculos  à  intervenção  da  elite  urbana,  bem  pelo 
contrário,  como  revela  o  sucedido  em  Inglaterra.  Até  ao  final  do  século  XIII  o  monarca 
inglês  reuniu  geralmente  apenas  os  grandes  vassalos  nas  assembleias  consultivas,  e  só 
algumas  sessões  puderam  contar  com  figuras  da  pequena  nobreza  e  da  elite  mercantil. 
Ora,  foi  precisamente  durante  a  revolta  dos  magnates  que,  no  final  do  segundo  terço  do 
século  XIII.  o  chefe  dos  sublevados  convocou  uma  assembleia  na  qual  deveriam  estar 
presentes  dois  elementos  da  pequena  nobreza  por  cada  circunscrição  administrativa  e 
dois  membros  da  elite  urbana  por  cada  cidade  dispondo  legalmente  de  autonomia.  Num 
momento  crucial  para  a  defesa  dos  seus  interesses,  o  estrato  superior  da  nobreza  reco¬ 
nhecia  a  conveniência  de  se  manter  ligado  aos  pequenos  senhores  rurais  e  aos  grandes 
negociantes.  Aliás,  foi  este  modelo  de  cortes  gerais,  antecipado  pelos  rebeldes,  que  o 
rei  usou  quando  ele  mesmo  reuniu  cortes,  no  final  desse  século,  apelando  então  tanto 
para  a  alta  como  para  a  baixa  nobreza  e  para  a  elite  urbana09.  Apesar  das  aparências,  a 
situação  talvez  não  tivesse  sido  muito  diferente  na  chamada  comuna  de  Acre,  durante  o 
segundo  reino  latino  de  Jerusalém.  Embora  estivesse  estruturada  com  base  numa  con¬ 
fraria  de  carácter  religioso  e  reproduzisse  a  organização  das  comunas  urbanas,  a 
comuna  de  Acre  assemelhava-se  na  realidade  às  cortes  gerais,  e  tanto  na  sua  origem 
revolucionária  como  no  seu  objectivo  de  aliar  a  nobreza  à  elite  da  cidade  ela  antecipou 
os  ensaios  de  assembleia  representativa  que  a  sublevação  dos  barões  tentaria  depois 
instaurar  em  Inglaterra  l0°.  Em  suma,  nos  Três  Estados101  refleetia-se  a  globalidade  da 
aristocracia,  com  todos  os  seus  componentes  -  a  nobreza  laica,  os  dignitários  eclesiásti¬ 
cos  e  a  elite  urbana.  E  através  da  elite  urbana,  nos  centros  de  menor  porte,  a  representa¬ 
ção  abria-se  igualmente  à  baixa  aristocracia  de  novos-ricos  rurais,  que  frequentava  a 
cidade.  E  secundário  que  em  alguns  casos  cada  um  dos  estados  reunisse  separada¬ 
mente.  enquanto  noutros  as  deliberações  se  tomavam  em  comum.  O  resultado  funda¬ 
mental  consistiu  na  criação  de  um  quadro  institucional  em  que  os  problemas  eram 
debatidos  e  se  podia  chegar  a  acordos  e  compromissos. 

No  âmbito  das  cortes  gerais  abordavam-se  em  perspectivas  diversificadas  os  proble¬ 
mas  respeitantes  às  Formas  I  e  II  do  dinheiro,  e  no  final  do  período  a  esmagadora  maio¬ 
ria  das  cortes  reivindicava  a  participação  na  administração  do  numerário10*.  Todas  as 


w  Para  a  descrição  do  sucedido  em  Inglaterra  consultar  R.  S.  Lopez  ( 1965)  341-342. 

100  J.  Prawer  ( 1 969-1970)  II  24 1  mo.stra  que  a  comuna  de  Acre  cumpria  na  realidade  os  objectivos 
das  cortes  gerais  e  compara-a  ao  parlamemo  inglês  resultante  da  revolta  dos  barões. 

101  Note-se  que  nos  territórios  da  coroa  de  Aragão  as  cortes  reuniam  quatro  estados,  sendo  dois 
para  a  nobreza  laica,  a  alta  e  a  baixa,  um  para  os  dignitários  do  clero  e  outro  para  a  elite  urbana.  Ver  a 
este  respeito  M.-C.  üerbei  1 1994)  139. 

102  Th.  N.  Bi.xson  (1979)  2. 

F.m  França,  indica  E.  Briilrey  (1906)  437-438.  foram  as  cones  gerais  de  Dezembro  de  1355  que 
pela  primeira  vez  assumiram  o  controlo  da  moeda:  e  em  Novembro  desse  ano,  e  de  novo  cm  Outubro 
do  ano  seguinte,  as  cortes  das  províncias  de  língua  de  oíl  pretenderam  passar  do  controlo  das  questões 
monetárias  ao  controlo  das  questões  fiscais  e  exigiram  mesmo  a  participação  na  administração  geral 


558 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  v  III  da  dinheiro 


polémicas  em  tomo  da  moeda  se  converteram  assim  em  polémicas  fiscais,  e  eram  os 
delegados  das  camadas  sociais  que  pretendiam  a  estabilidade  monetária  quem  apoiava 
os  novos  impostos,  enquanto  os  representantes  hostis  ao  acréscimo  da  carga  fiscal  se 
revelavam,  por  isto  mesmo,  favoráveis  à  depreciação.  Mas  a  relação  entre  o  fisco  e  a 
convocação  de  assembleias  depressa  ultrapassou  o  quadro  restrito  das  questões  pecu¬ 
niárias,  e  a  reunião  sistemática  de  cortes  gerais  tomou-se  inseparável  da  cobrança  de 
um  imposto  central  regular.  A  ampliação  crescente  das  burocracias  e  a  irreversível  difu¬ 
são  do  dinheiro  no  contexto  das  relações  vassálicas  obrigavam  os  soberanos  a  despen¬ 
derem  quantias  cada  vez  mais  consideráveis,  sendo  para  isso  insuficientes  os  rendimen¬ 
tos  que  cobravam  tradicionalmente,  tanto  mais  que  a  suspensão  dos  desbravamentos  e  a 
interrupção  das  vagas  migratórias  levaram  no  final  do  período  a  um  clima  geral  de 
declínio  económico,  com  a  redução  do  montante  total  das  exacções103.  E  logo  em 
seguida,  na  segunda  metade  do  século  XIV  e  no  começo  do  século  XV,  a  agudização  e 
a  generalização  das  revoltas  camponesas  determinou,  como  veremos  (no  capítulo  15), 
uma  diminuição  da  taxa  de  exploração,  agravando  a  crise  dos  rendimentos  da  classe 
dominante.  Talvez  de  imediato  os  reis  e  os  príncipes  procurassem  aumentar  os  seus 
recursos  procedendo  a  uma  administração  mais  eficiente  dos  conjuntos  senhoriais,  mas 
depressa  o  imposto  lhes  apareceu  como  a  solução  do  défice  financeiro1314.  As  dificulda¬ 
des  económicas  em  que  se  debatiam  os  soberanos  precipitaram  uma  crise  fiscal,  e  a 
necessidade  de  reorganizar  o  sistema  de  impostos  levou  à  convocação  periódica  de 
cortes  gerais.  Foi  esta  a  origem  das  novas  instituições  representativas103,  que  deram 
outro  corpo,  ou  talvez  outros  membros,  ao  poder  régio. 


do  reino,  como  menciona  id.,  ibid.,  49.  475-476  e  483-484.  Aliás,  segundo  id..  ibid.,  209  e  segs., 
Nicole  Oresme,  no  seu  Traité  de  V Origine,  N ature.  Droits  et  Murattons  des  Monnaics,  deu  uma 
expressão  teórica  à  supremacia  que  a  assembleia  representativa  reivindicava  sobre  a  política  monetᬠ
ria.  Aos  direitos  do  soberano  sobre  a  moeda  Oresme  substituiu  os  direitos  da  comunidade,  exercidos 
através  das  cortes  gerais  (pp.  236  e  segs.,  297. 437). 

103  No  século  XIII,  considera  R.  W.  Kaeuper  (1973)  75,  o  acréscimo  dos  gastos  com  os  exércitos 
e  as  burocracias,  bem  como  das  despesas  sumptuárias  das  cortes,  foi  superior  aos  recursos  resultantes 
das  receitas  tradicionais,  o  que  precipitou  as  monarquias  numa  severa  crise  fiscal.  Depois  de  observar, 
a  propósito  do  sucedido  em  França,  que  as  guerras  constituíam  o  principal  determinante  das  despesas 
extraordinárias  da  coroa.  R.  C aze  lies  ( 1966)  273-276  admite,  um  tanto  perversamente,  que  os  reis  se 
lançassem  em  campanhas  militares  para  terem  assim  o  pretexto  de  agravar  os  impostos.  Recordar 
igualmente,  neste  capítulo,  as  nn.  67  e  68.  E  outra  a  perspectiva  tomada  por  A.  R.  Lewis  (1958  a) 
482-483  e  J.  E.  Madden  ( 1963)  350,  ao  chamarem  a  atenção  para  o  facto  de  o  encerramento  do  pro¬ 
cesso  de  desbravamentos  e  de  colonização  externa  e  interna  ter  provocado  um  declínio  dos  recursos 
económicos  e  financeiros.  Na  Inglaterra  e  em  França  as  receitas  correntes  da  coroa  não  bastavam  para 
sustentar  os  exércitos  de  mercenários,  escreve  J.  R  Sirayer  <  1 977 1  273-274.  enquanto  E.  Bridrey 
( 1906)  154-155  afirma  que  o  alargamento  da  esfera  de  soberania  dos  reis  de  França  levou  a  que  fos¬ 
sem  insuficientes  os  rendimentos  oriundos  do  conjunto  senhorial  da  coroa.  As  grandes  despesas  oca¬ 
sionadas  em  Inglaterra,  a  partir  do  final  do  século  XIII.  pela  remodelação  do  sistema  militar  são  evo¬ 
cadas  por  G.  L.  Harriss  (1975)  56-59;  e  M.  Prestwich  (1972)  39  sublinha  que  elas  eram  sistematica¬ 
mente  superiores  às  receitas  da  administração  régia.  Em  Leão  e  Castela,  H.  Grassotti  (1969)  842 
detecta  a  existência  de  um  desequilíbrio  crescente  entre  as  receitas  da  coroa  e  o  montante  total  das 
senhorias  pecuniárias. 

104  G  L.  Harriss  (1975)  16-17;  Ch.  M.  La  Roneière  1 1968)  140 

105  M.  Bloeh  (1960-1961)  1  179-180;  M.  Beuard  (org.  1970)  212;  E  Foumial  (1967)  378;  H. 


Os  reis  na  convergência  das  três  formas  da  dinheiro 


559 


Uma  análise  minuciosa  do  sucedido  na  Flandres,  na  Normandia  e  nos  territórios 
directamente  submetidos  à  coroa  francesa  revela  que  a  evolução  da  organização  fiscal 
foi  norteada  pela  distinção  gradual  entre  os  rendimentos  regulares  do  soberano,  prove¬ 
nientes  principalmente  do  seu  conjunto  senhorial,  e  as  suas  receitas  extraordinárias  e 
esporádicas,  que  a  partir  da  segunda  metade  do  século  XII  foram  adquirindo  a 
primazia106.  Nas  duas  últimas  décadas  do  século  XIV  e  nas  duas  primeiras  do  século 
seguinte,  o  imposto  rendia  já  ao  rei  de  França  somas  quatro  a  cinco  vezes  superiores  às 
que  resultavam  do  conjunto  senhorial  da  coroa107.  Um  processo  exactamente  idêntico 
ocorreu  em  Inglaterra,  onde  de  início  a  administração  real  geria  as  receitas  próprias  da 
coroa  da  mesma  maneira  que  os  rendimentos  pessoais  do  monarca108.  Só  progressiva¬ 
mente,  a  partir  do  começo  do  século  XIII,  passou  a  operar-se  uma  demarcação  entre  as 
duas  esferas,  mas  sem  que  ocorresse  ainda  qualquer  distinção  clara,  nem  sequer  no 
plano  prático,  quanto  ao  uso  a  dar  a  cada  um  desses  tipos  de  rendimento109.  Foi  a  din⬠
mica  interna,  desenvolvendo  um  destes  aspectos  em  detrimento  do  outro,  que  esclare¬ 
ceu  os  coevos  acerca  do  rumo  a  tomar  na  administração  fiscal,  pois  durante  a  vigência 
da  dinastia  que  permaneceu  no  trono  inglês  desde  os  meados  do  século  XII  até  ao  der¬ 
radeiro  ano  do  século  XIV  as  receitas  decorrentes  do  poder  político  da  coroa  tomaram- 
-se  muito  superiores  às  que  resultavam  do  conjunto  senhorial  do  monarca1 10 

No  processo  de  desenvolvimento  do  imposto  central  a  Normandia  foi  precursora, 
porque  no  século  XI  o  duque  era  o  único  príncipe  francês  a  cobrar  impostos  directos  e 
dispunha  já  de  um  fisco,  tanto  directo  como  indirecto,  especialmente  bem  organi¬ 
zado111.  Também  a  coroa  inglesa  se  revelou  precoce.  O  antigo  tributo  de  guerra  pago 
pelos  reis  anglo-saxónicos  aos  rapinantes  escandinavos  serviu  de  pretexto  para  perpe¬ 
tuar  um  sistema  tributário  genérico  e  centralizado,  aplicável  a  todas  as  terras,  mesmo  as 
concedidas  em  senhoria  vassálica,  e  que  os  novos  monarcas  se  apressaram  a  utilizar  em 
benefício  próprio,  tal  como  o  haviam  feito  os  seus  predecessores112.  E  no  começo  do 
século  XII  registou-se  na  ilha  uma  tentativa  por  parte  da  coroa  para  substituir  o  serviço 


Grassotti  (1969)  844  e  n.  302:  G.  L.  Harriss  ( 1975)  26  e  segs..  75,  78-79.  87.  97;  M.  Hebert  (1979) 
194;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  278-279;  A.  R.  Lewis  (1958  a)  483:  R.  S.  Lopez  (1965)  342-343: 
M.  Prestwich  1 1972)  13,  39.  184;  M.  Rey  ( 1965  b)  15-16;  I.  Vemus-Moutm  (1990)  1 13. 

Na  Boémia  do  século  XIV  distinguiam-se  oficialmente  duas  esferas,  providas  de  mecanismos 
governativos  diferentes.  O  rei  não  necessitava  da  aprovação  de  cones  gerais  para  lançar  um  imposto 
sobre  as  terras  do  seu  conjunto  senhorial,  incluindo  aquelas  que  tivesse  concedido  a  vassalos,  nem 
sobre  as  terras  eclesiásticas  e  sobre  as  cidades  reais.  Nesta  esfera  sucedia  por  vezes  que  o  monarca 
convocasse  assembleias  dos  seus  vassalos,  mas  elas  eram  desprovidas  de  funções  deliberativas.  No 
restante  território,  porém,  a  autoridade  suprema  cabia  a  um  órgão  sustentado  pela  aristocracia,  que 
podia  inclusivamente  citar  o  próprio  rei.  Ver  a  este  respeito  J.  M.  Klassen  (1978)  48-49. 

106  A.  Verhulst  1 1966  b)  3 1 .  .39. 

107  M.  Rey  (1965  a)  163. 

I0S  J.  Boussard< 1958)  478. 

lw  G.  L.  Harriss  1 1975)  128,  130.  159. 

110  ld.,  ibíd.  131:  M.  M.  Postan  ( 1978  a)  192-193. 

111  M.  Bouard  (org.  1970)  107,  126.  163. 

1 '-  J.  Boussard  ( 1 958 i  478  refere  a  existência  do  danegeld  no  último  terço  do  século  XI  e  no  terço 
inicial  do  século  seguinte,  mas  G.  L  Harriss  ( 1975)  9  afirma  que  o  danegeld  foi  reintroduzido  nos 
derradeiros  anos  do  século  XII. 


560 


Articulação  entre  as  Formas  1. 11  e  III  do  dinheiro 


armado  por  um  imposto  central  e  generalizado1 1  \  Assim,  afigura-se-me  uma  inovação 
menos  considerável  do  que  se  pretende  habitualmente  aquele  imposto  geral  sobre  os 
bens  móveis  e  imóveis  e  sobre  todos  os  rendimentos  cobrado  no  reino  latino  de  Jerusa¬ 
lém  na  penúltima  década  do  século  XII.  quatro  anos  apenas  antes  da  conquista  por 
Salah  ad-Din114.  As  urgências  da  situação  militar  haviam  decerto  ditado  uma  medida 
tão  extrema,  mas  o  quadro  em  que  ela  se  inseriu  vinha  já  a  ser  definido  na  generalidade 
do  regime  senhorial.  Na  década  inicial  do  século  XIII  a  coroa  inglesa  lançou  uma  taxa 
sobre  os  bens  móveis,  que  constituiu  uma  experiência  inovadora  de  imposto  geral  uni¬ 
forme,  proporcionando  uma  receita  elevada11',  mas  no  primeiro  terço  do  século 
seguinte,  embora  os  impostos  se  tivessem  tomado  já  muito  frequentes,  não  haviam 
adquirido  ainda  um  grau  de  continuidade  que  os  levasse  a  perderem  o  carácter  de  medi¬ 
das  anómalas"6.  Em  França,  durante  o  século  XIII,  os  reis  fizeram  proliferar  as  contri¬ 
buições  excepcionais1 17.  e  nas  décadas  de  transição  deste  século  para  o  século  seguinte 
o  sistema  financeiro  da  monarquia  francesa  caracterizou-se  pela  instabilidade118.  O 
mesmo  fenómeno  de  desdobramento  fiscal,  justificado  pela  necessidade  de  financiar 
campanhas  militares,  verificou-se  na  Sicília  na  passagem  do  século  XIII  para  o  século 
XIV119.  E  também  a  coroa  castelhana,  no  princípio  do  século  XIV.  multiplicou  impos¬ 
tos  e  taxas1 2().  Este  tipo  de  situações  representava  uma  fase  anterior  à  tentativa  de  cen¬ 
tralização  fiscal.  Em  geral,  os  soberanos  começaram  por  seguir  a  pressão  das  circuns¬ 
tâncias  e  procuraram  solucionar  problemas  particulares  lançando  de  cada  vez  impostos 
extraordinários,  que  logo  se  institucionalizavam  e  continuavam  vigentes  muito  depois 
de  se  ter  extinguido  o  seu  pretexto  inicial121.  O  emaranhado  de  tributações  parciais 
daqui  resultante  não  podia  ser  mais  confuso. 

Só  numa  fase  posterior  se  procurou  introduzir  alguma  ordenação  naquele  quadro, 
com  o  intuito  de  generalizar  a  cobrança  regular  de  um  imposto  central.  O  momento  da 
transição  é  perceptível  em  Inglaterra  durante  o  reinado  que  cobriu  o  último  quartel  do 
século  XIII  e  a  primeira  década  do  século  seguinte.  Apesar  de  a  administração  régia  ter 
então  multiplicado  os  impostos,  tributando  uma  pluralidade  de  fontes  de  rendimento,  e 
embora  muitos  destes  expedientes  fiscais  tivessem  precedentes  sob  os  dois  monarcas 
anteriores,  eles  foram  integrados  numa  estrutura  muito  mais  coerente  do  que  as  conhe¬ 
cidas  até  aí122,  de  maneira  que  um  processo  que,  numa  das  suas  vertentes,  decorria 
ainda  da  fase  dos  impostos  extraordinários  antecipava,  na  outra  vertente,  a  fase  da 
cobrança  fiscal  regular  e  sistematizada.  Talvez  mais  reveladora  ainda  seja  a  evolução  do 
aparelho  fiscal  do  papado,  já  que  tinha  de  operar  em  toda  a  Cristandade  ocidental  e 


ll?  J.  Boussard  (1945-1946)  192. 

114  J.  Prawert  1969- 1970)  1  617. 

M  'G.  L.  Harriss  (1975)  9  e  segs.;  M.  Prestwich  ( 1972)  184 
1 16  G.  L.  Harriss  ( 1975)  79. 

1 1 '  R.  S.  Lopez  ( 1965)  336. 

1  '*  ld.,  ibid.,  336:  J.  R.  Strayer  ( 1969-1970)  1 14. 

119  H.  Bresc  (1988  )  238. 

'-°  H.  Grassotti  ( 1964)  103- 104. 

1:1  Ch.  M.  La  Rcmcière  <  1 968 )  140 

122  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  79,  135.  142.  199,  258-259. 


Os  reis  na  convergência  das  irès  formas  da  dinheiro 


5f)l 


muitas  vezes  em  relação  estreita  com  as  cobranças  locais  e  regionais  de  impostos.  No 
século  XIII,  com  o  pretexto  de  financiar  as  expedições  contra  a  Palestina  ou  as  suas 
guerras  em  Itália,  o  pontífice  romano  começou  a  enviar  agentes  aos  vários  reinos  e 
principados  católicos,  mas,  como  as  contribuições  que  eles  estavam  encarregados  de 
receber  eram  de  carácter  extraordinário,  estes  funcionários  não  tinham  um  estatuto  per¬ 
manente.  Só  no  século  seguinte,  com  a  multiplicação  dos  impostos  lançados  pela  cúria 
sobre  os  rendimentos  eclesiásticos,  foi  necessário  criar  um  corpo  de  funcionários  fis¬ 
cais  regulares.  Porém,  sendo  frequente  que  o  papado  concedesse,  ou  fosse  obrigado  a 
conceder,  toda  ou  parte  da  arrecadação  aos  soberanos,  a  conjugação  de  sistemas  fiscais 
tomava-se  bastante  estreita,  o  que  obriga  a  nunca  perder  de  vista  a  situação  interna  de 
cada  esfera  de  soberania12'.  No  final  do  segundo  terço  do  século  XIV  a  coroa  francesa 
esforçou-se  por  transformar  num  imposto  geral  e  permanente  a  contribuição  extraordi¬ 
nária  que  havia  lançado  sobre  todo  o  reino,  em  anos  sucessivos,  com  o  fim  de  reunir  a 
enorme  soma  necessária  para  resgatar  o  monarca  preso  pelos  Ingleses124;  e.  com  efeito, 
na  transição  do  século  XIV  para  o  século  XV  o  imposto  havia  já  perdido  em  França  as 
características  de  uma  instituição  extraordinária  e  provisória  e  convertera-se  num 
recurso  regular12'.  Outro  tipo  de  generalização  fiscal  ocorreu  na  Boémia  no  último 
terço  do  século  XIV.  quando  o  soberano  reivindicou  o  direito  de  onerar  com  impostos 
as  terras  que  a  nobreza  detinha  enquanto  património  independente126. 

As  tentativas  de  instauração  de  um  sistema  fiscal  ordenado  e  unificado,  que  simpli¬ 
ficasse  e  regularizasse  em  todo  o  território  a  pluralidade  de  pagamentos  que  a  coroa 
tinha  a  haver  dos  seus  vassalos  e  dos  súbditos  em  geral,  depararam  com  a  resistência  da 
nobreza  e  da  elite  urbana127.  Tanto  para  os  teóricos  franceses  do  final  do  século  XIV 
como  para  a  opinião  pública  então  dominante  no  reino,  o  monarca  devia  limitar-se  aos 
rendimentos  provenientes  do  seu  conjunto  senhorial,  e  toda  a  colecta  que  não  fosse  jus¬ 
tificada  por  circunstâncias  extraordinárias  era  considerada  uma  prepotência  e  um 
roubo128.  Só  com  muita  pertinácia  e  o  emprego  metódico  do  terror  conseguiram  os 
soberanos  sujeitar  as  populações  à  cobrança  regular  de  um  imposto  central.  Sem  isso. 
jamais  teria  sido  possível  a  implantação  do  Estado  moderno.  Mas  decerto  não  foi  ape¬ 
nas  o  acréscimo  da  carga  tributária  a  suscitar  os  protestos,  porque  ao  associar-se  ao 
fisco  dos  monarcas  e  dos  príncipes,  através  das  deliberações  das  cortes  gerais,  a  aristo¬ 
cracia  obtinha  mais  um  elemento  no  processo  de  exploração  da  classe  servil  e  das 


123  Acerca  da  evolução  do  aparelho  fiscal  do  papado  ver  Y.  Renouard  ( 1941 )  12.  26  e  segs.,  29  e  97. 
Segundo  escreve  R.  S.  Lopez  1 196?)  336-337.  o  soberano  que  reinou  em  França  na  passagem  do 

século  XIII  para  o  XIV  apropriou-se  de  maneira  cada  vez  mais  sistemática  da  receita  dos  tributos 
eclesiásticos.  E  na  Inglaterra  Eduardo  I,  por  exemplo,  que  reinou  de  1272  até  1307,  apoderou-se  dos 
fundos  resultantes  de  uma  taxa  religiosa  que  havia  sido  lançada  a  pretexto  de  promover  uma  expedi¬ 
ção  contra  a  Palestina,  como  mostra  R.  W.  Kaeuper  ( 1973)  199-201. 

1 24  E.  Bridrey  (1906)  508,  580. 

125  M.  Rey  (1965  a)  163. 

126  J.  M.  ÍCIassen  <  1978)  47-48. 

127  E.  Bridrey  (1906)  155.  562.  578-579;  R.  W.  Kaeuper  (1973)  75,  136-137:  J.  M.  Klassen 
(1978)  47-48;  L.  Mirot  (1905)  6  e  segs..  90  e  segs.;  M.  Rey  (1965  a)  164-166;  J.  R.  Srrayer  (1969- 
-1970.)  1 14-115. 

1214  M.  Rey  (1965  a.)  41. 


562 


Articulação  entre  as  Formas  /,  II  e  III  cio  dinheiro 


camadas  pobres  das  cidades.  E  além  de  o  montante  dos  novos  impostos  ser  fixado  nas 
cortes  pelos  delegados  da  classe  dominante,  eram  também  os  senhores  quem  decidia 
localmente  a  forma  como  se  repartia  o  imposto,  oneranoo  sobretudo  os  pobres  e  pou¬ 
pando  relativamente  os  ricos.  E  verdade  que  (como  vimos  no  capítulo  Ó.d  da  Parte  II) 
os  camponeses  abastados,  se  por  um  lado  serviam  de  agentes  do  poder  senhorial  no 
interior  das  comunidades  rurais,  apareciam  por  outro  lado  como  chefes  e  representantes 
destas  comunidades.  O  carácter  duplo  daquele  estrato  social  elucida  mais  uma  vez  cer¬ 
tos  mecanismos  das  relações  de  classe  e.  neste  caso,  explica  por  que  razão  as  cortes 
gerais  conseguiram  eventualmente  alcançar  uma  representatividade  mais  ampla  do  que 
à  primeira  vista  poderíamos  supor.  Este  motivo  talvez  contribuísse  em  parte  para  que 
alguns  delegados  às  cortes  se  opusessem  ao  imposto  central.  A  animosidade  foi.  no 
entanto,  mais  generalizada  e  teve  razões  muito  mais  profundas,  devendo-se  às  altera¬ 
ções  que  o  novo  sistema  fiscal  introduzia  no  relacionamento  entre  o  soberano  e  os  súb¬ 
ditos.  A  conversão  dos  elos  de  subordinação  e  de  dependência  numa  hierarquia  de 
pagadores  de  imposto  implicava  uma  abertura  nos  canais  de  mobilidade  social  e  alte¬ 
rava  todas  as  relações  de  maneira  drástica.  Não  importa  que  a  noção  de  representativi¬ 
dade  elaborada  pelos  teóricos  da  monarquia  no  final  do  período  fosse  profundamente 
hierárquica129,  porque  a  novidade  desta  concepção  consistia  em  fazer  corresponder  tal 
hierarquia  mais  ao  escalonamento  gradual  do  dinheiro  do  que  às  clivagens  abruptas  da 
sociedade  senhorial1’0.  Posteriormente,  a  multiplicação  das  isenções  fiscais  implicou 
que  mesmo  o  estatuto  de  privilegiado,  apesar  de  decorrer  de  um  carácter  específico  e 
originário,  passasse  a  ser  definido  em  função  de  uma  pauta  única,  comum  a  toda  a 
população.  Até  ao  encerramento  deste  período  não  estava  ainda  desenvolvida  uma  base 
económica  e  social  suficientemente  firme  para  ser  capaz  de  sustentar  a  plena  conversão 
da  nobreza  em  riqueza,  mas  a  linha  condutora  da  evolução  transparecia  já  claramente. 
De  então  em  diante  seria  só  uma  questão  de  tempo. 

Graças  ao  imposto  central  e  às  assembleias  representativas,  o  soberano  pôde  come¬ 
çar  a  tratar  os  súbditos  enquanto  colectividade  de  elementos  indiferenciados,  todos 
sujeitos  à  coroa  por  meio  das  relações  impessoais  veiculadas  pelo  dinheiro.  Com  efeito, 
o  modelo  do  imposto  central  variável,  destinado  a  responder  a  necessidades  financeiras 
também  irregulares,  fora  primeiro  aplicado  pelas  autoridades  municipais1’1.  Afinal,  as 
monarquias  copiaram,  em  grande  escala,  os  sistemas  fiscais  urbanos,  e  com  a  convoca¬ 
ção  de  cortes  gerais  os  soberanos  adicionaram  ao  seu  aparelho  político  tradicional  um 
mecanismo  de  carácter  novo,  decorrente  de  princípios  governativos  vigentes  no  interior 
de  colectividades.  Cada  reino  acabou  por  se  transformar  numa  colectividade  e  o 
governo  do  reino  no  governo  de  uma  colectividade.  Foi  o  instrumento  pecuniário  a  per- 


i:g  R.  S.  Lopez  (1965)  340. 

130  A  propósito  da  Inglaterra.  M.  M.  Postan  (1978  a>  193  observa  que  os  impostos  sobre  bens 
móveis  cobrados  pela  coroa  sobretudo  do  século  XIV  em  diante  perderam  qualquer  conotação  senho¬ 
rial  e  passaram  a  incidir  em  iodas  as  pessoas  possuidoras  de  bens  ou  de  rendimentos. 

131  M.  Hebert  ( 1979)  194. 

Referindo-se  às  várias  regiões  componentes  do  que  e  hoje  a  Bélgica,  M.-A.  Arnould  (1966)  14  e 
18  observa  que  até  ao  século  XVI  só  as  cidades  conseguiram  cobrar  impostos  indirectos,  tendo  fracas¬ 
sado  todos  os  esforços  dos  príncipes  neste  sentido. 


Os  reis  na  convergência  Jas  ires  formas  do  dinheiro 


563 


mitir  que  as  grandes  áreas  de  soberania  se  apresentassem  como  colossais  famílias  artifi¬ 
ciais.  numa  desmesurada  ampliação  da  domesticidade  do  soberano,  em  que  a  classe 
senhorial,  cujos  principais  expoentes  se  concentravam  obrigatoriamente  em  tomo  do 
monarca  ou  do  príncipe,  cumpria  as  funções  de  camada  superior,  sendo  a  camada  infe¬ 
rior  preenchida  pela  demais  população.  Tratava-se.  em  suma.  de  dilatar  à  dimensão  de 
todo  o  reino  a  concepção  da  senhoria  impessoal. 

Para  que  o  sistema  fiscal  se  autonomizasse  da  cunhagem  e  adquirisse  uma  consis¬ 
tência  própria  foi  necessária  a  conjugação  de  transformações  sociais  muito  profundas  e 
variadas.  Em  termos  sintéticos,  isso  só  pôde  suceder  quando  o  carácter  impessoal  das 
relações  assumiu  completa  hegemonia  e  quando  as  monarquias  passaram  a  dispor  de 
uma  burocracia  nova,  apta  a  lidar  com  os  mecanismos  abstractos  do  dinheiro132.  A 
noção  de  fisco  obteve  então  uma  conotação  suprapessoal  e  adquiriu  continuidade,  tor¬ 
nando-se  independente  da  figura  do  soberano  que  em  cada  momento  exercesse  o 
poder133.  E  ao  mesmo  tempo  que  se  combinava  no  imposto  a  face  abstracta  do  Estado  e 
a  impessoalidade  mediatizada  pelo  dinheiro,  a  ideia  da  colectividade  dos  súbditos 
enquanto  família  do  soberano  encontrou  um  instrumento  adequado  nas  fórmulas  gené¬ 
ricas  e  abstractas  do  direito  romano134.  Ocorreu  então  a  renovação  da  jurisprudência,  e 
a  coroa,  reunindo  as  cortes  gerais,  era  apresentada  pelos  juristas  como  a  legítima  conti- 
nuadora  da  república  romana.  A  problemática  das  três  formas  do  dinheiro  reestruturou 
de  cima  a  baixo  o  exercício  do  bannum. 


152  O  desenvolvimento  de  uma  verdadeira  organização  fiscal  do  Estado,  que  ocorreu  a  partir  do 
século  XIV,  teve  como  condição  prévia  a  generalização  do  uso  do  dinheiro  nas  finanças  do  soberano, 
observa  A.  Verhtilst  (1966  b)  37.  No  mesmo  sentido  consultar:  M.  Bloch  (1939-1940)  II  214-215:  A. 
Gieysztor  (1971  b)  139. 

33  G.  L.  Harriss  ( 1975 )  1 30- 131. 

134  R.  S.  Lopez  <  1965)  338  e  340  observa  que  a  colaboração  entre  a  assembleia  e  o  soberano, 
embora  tivesse  sido  conceptualizada  graças  às  normas  do  direito  romano,  fizera  parte  da  doutrina  tra¬ 
dicional  das  monarquias  senhoriais.  E.  com  efeito,  a  noção  abstracta  de  soberania  era  perfeitamente 
conjugável  com  um  quadro  ideológico  arcaico.  Na  Boémia.  F.  Graus  (1961)  56-57  mostra  que  se 
desenvolveu  muito  precocemente  um  conceito  abstracto  do  poder  exercido  pelo  soberano,  na  medida 
em  que  a  população  era  designada  como  «família  de  São  Venceslau»  e  o  país  como  «terra  de  São 
Vcnceslau».  Para  os  coevos  o  santo  não  era  um  mero  padroeiro,  mas  o  verdadeiro  monarca,  sendo  o 
príncipe,  depois  o  rei,  apenas  o  seu  representante  temporário.  Segundo  Frantisek  Graus,  em  ap.  cil.. 
56-58,  o  facto  de  esta  concepção  abstracta  de  soberania  ter  surgido  aqui  tão  cedo  dever-se-ia  a  uma 
reacção  contra  a  ameaça  permanente  de  intervenção  do  imperador  e  dos  príncipes  germânicos  vizi¬ 
nhos.  Mas  qualquer  que  fosse  o  motivo,  e  mesmo  admitindo,  com  Roberto  Sabatino  Lopez.  que  na 
perspectiva  tradicional  o  exercício  da  soberania  requeresse,  ou  comportasse,  a  consulta  de  assem¬ 
bleias.  o  certo  é  que  tudo  isto  fora  apresentado  anteriormente  dentro  de  um  sistema  de  relações  pes¬ 
soais.  enquanto  a  circulação  pecuniária  difundiu  um  sistema  impessoal.  As  novas  doutrinas  da  sobera¬ 
nia  não  supunham  apenas  um  poder  abstracto.  mas  também  impessoal,  e  esta  dupla  caracterização 
encontrou  uma  expressão  já  elaborada  nas  normas  do  direito  romano.  Referindo-se  à  Espanha,  J.  N. 
Hiligarth  ( 1976-1978)  I  99-104  relaciona  a  influência  alcançada  pela  tradição  jurídica  romana  com  o 
desenvolvimento  das  cortes  gerais,  com  a  centralização  da  monarquia  e  com  o  aparecimento  de  uma 
hierarquia  de  funcionários.  Com  efeito,  na  segunda  metade  do  século  XIII  Afonso  X  de  Castela 
apoiou  no  direito  romano  as  suas  pretensões  ao  poder  absoluto,  afirma  M.-C.  Gerbet  ( 1994)  74.  E  se 
em  França  a  cerimónia  da  sagração  do  rei  foi  declinando  em  importância  à  medida  que  a  autoridade 
da  coroa  adquiria  uma  conotação  mais  abstracta  e  impessoal,  como  indicam  E.  Perro y  et  al.  (1955) 
373,  esta  transformação  não  foi  alheia  à  primazia  conferida  ao  direito  romano. 


564 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  III  tio  dinheiro 


Assim,  em  toda  a  área  do  regime  senhorial  a  antiga  autoridade  pessoal  do  soberano, 
envolvida  na  aura  que  emanava  da  sua  família  e  dele  mesmo,  e  indistinguível  do  seu 
património  tradicional,  cruzou-se  com  uma  noção  nova,  assente  nos  rendimentos  fiscais 
da  coroa  e  derivada  do  exercício  impessoal  do  poder  de  Estado.  Só  numa  sociedade  em 
que  o  dinheiro  permeava  já  todas  as  relações  era  possível  diferenciar  o  bannum  pessoal 
de  um  soberano  e  a  autoridade  da  coroa.  O  fundamento  desta  abstracção  foi  o  dinheiro 
e,  portanto,  toda  a  esfera  do  poder  público,  tal  como  começou  a  partir  de  então  a  ser 
concebida  e  serviu  depois  para  apresentar  o  Estado  moderno,  exprime  a  nova  base 
pecuniária  da  política.  Durante  vários  séculos  ambas  as  perspectivas,  apesar  da  clareza 
com  que  se  formulou  a  sua  demarcação  e  até  a  sua  divergência,  articularam-se  intima¬ 
mente  na  prática,  o  que  explica  tantos  aspectos  -  que  hoje  parecem  paradoxais  -  de 
uma  realeza  ao  mesmo  tempo  mágica  e  burocrática.  Por  seu  turno,  a  própria  burocracia, 
que  por  um  lado  se  caracterizava  já  pela  racionalidade  e  por  uma  mentalidade  laica, 
mantinha  por  outro  lado  uma  estreita  proximidade  com  o  meio  clerical1  ?\  Só  depois  de 
um  longo  processo  de  transformações  internas  a  burocracia  política  adoptou  o  perfil 
que  hoje  lhe  conhecemos  e  que  muitos  julgam  tê-la  caracterizado  sempre,  e  seriam 
ainda  necessárias  grandes  revoluções  para  liquidar  o  carácter  sagrado  do  rei  e  deixar  no 
seu  lugar  apenas  o  aparelho  impessoal  e  anónimo  da  autoridade  estatal.  Mas  nada  per¬ 
mitia  aos  soberanos  dos  séculos  XIII  e  XIV  vislumbrarem  que  a  edificação  de  um  sis¬ 
tema  fiscal  centralizado  havia  de  agravar,  ao  ponto  de  rompê-las.  as  tensões  internas  da 
monarquia.  Tudo  isso  foi  a  história  futura,  que  passou  muito  além  do  termo  deste  livro. 

Se.  por  um  lado,  os  problemas  monetários  e  fiscais  levaram  á  convocação  de  assem¬ 
bleias  representativas,  por  outro  lado,  a  reorganização  do  fisco  e  a  reunião  periódica 
dos  delegados  da  classe  dominante  foram  elementos  de  um  absolutismo  em  gestação. 
Pode  afirmar-se  que  o  absolutismo  correspondeu  ao  máximo  desenvolvimento  das  rela¬ 
ções  pecuniárias  no  quadro  do  regime  senhorial.  Na  transição  do  primeiro  para  o 
segundo  período,  o  poder  da  coroa  mantivera-se  tanto  mais  firme  quanto  menos  pro¬ 
nunciada  fora  a  crise,  ou  seja.  quanto  mais  acentuada  havia  sido  a  continuidade  do 
campesinato  independente,  e  por  isso  (ver  o  capítulo  4  da  Parte  II)  foi  na  Inglaterra  e 
sobretudo  nos  reinos  cristãos  da  Espanha  que  mais  cedo  a  monarquia  se  apresentou 
com  uma  autoridade  forte.  Mas  não  devemos  confundir  esta  situação  com  o  absolu¬ 
tismo  emergente  no  século  XIV.  Também  se  deve  distinguir  o  absolutismo  da  reorgani¬ 
zação  das  esferas  de  soberania  ocorrida  no  início  deste  segundo  período,  mais  ou 
menos  rapidamente  consoante  as  regiões.  Tratara-se  então  apenas  de  uma  forma  de 
constituição  das  pirâmides  senhoriais,  que  acabavam  por  adoptar  um  vértice  único, 
numa  área  territorial  maior  ou  menor,  e  consolidavam  a  autoridade  do  soberano  através 
de  um  escalonamento  rigoroso  das  subordinações  e  da  dependência.  Enquanto  que 
agora,  com  a  modalidade  de  exercício  da  soberania  que  se  anunciou  no  final  deste 
período  e  que  seria  mais  tarde  a  forma  política  do  mercantilismo,  surgiu  algo  diferente, 
uma  relação  directa,  embora  impessoal,  entre  o  monarca  e  todos  os  seus  súbditos.  Foi 
isto  o  absolutismo.  Nos  termos  gerais  em  que  estou  aqui  a  considerar  o  problema,  ana- 


lj5  Ver  no  capítulo  7  as  nn.  312  a  314. 


Os  reis  na  convergência  (ias  rres  formas  do  dinheiro 


565 


lisando  apenas  a  sua  génese,  antecipadora  de  tendências  que  só  se  revelariam  plena- 
mente  após  o  final  deste  período,  não  importa  que  em  alguns  reinos,  como  na  Ingla¬ 
terra,  na  Boémia  ou  na  Espanha  cristã,  o  poder  absoluto  tivesse  emanado  do  próprio 
monarca,  enquanto  na  Germânia,  e  também  na  França  a  partir  da  segunda  metade  do 
século  XIV,  foram  os  príncipes  a  encabeçar  o  poder  absoluto,  e  na  Itália  ele  coube  aos 
governos  daquelas  cidades  que  haviam  conseguido  dominar  territórios  mais  ou  menos 
vastos.  Não  se  trata  tanto  de  saber  quem  exercia  este  poder  como  sobretudo  de  definir 
as  novas  modalidades  em  que  ele  era  exercido. 

Contrariamente  às  aparências,  o  surgimento  de  instituições  representativas  e  o 
desenvolvimento  de  uma  monarquia  absoluta  inseriram-se  num  mesmo  processo,  e  não 
foram  aspectos  antagónicos.  No  contexto  do  regime  senhorial,  o  absolutismo  define-se 
como  uma  relação  directa  do  soberano  com  a  totalidade  dos  súbditos,  através  de  meca¬ 
nismos  fiscais  e  em  completo  alheamento  das  hierarquias  vassálicas  e  das  dependências 
servis  particulares.  Para  chegarem  a  este  estádio  os  soberanos  tiveram  de  agrupar  os 
súbditos  numa  colectividade,  e  com  este  fim  foram  usadas  as  cortes  gerais.  A  partir  do 
momento  em  que  passaram  a  estar  regularmente  instituídos  os  mecanismos  de  relacio¬ 
namento  entre  a  coroa  e  a  globalidade  dos  súbditos,  ou  seja,  quando  os  impostos  pude¬ 
ram  ser  cobrados  com  normalidade,  tomou-se  dispensável  a  convocação  das  cortes  e  a 
representativ idade  mostrou  o  seu  verdadeiro  objectivo  -  o  estabelecimento  de  um  elo 
directo  entre  cada  um  dos  súbditos  e  o  soberano.  À  medida  que  as  cortes  gerais  iam 
declinando  ou  deixavam  mesmo  de  ser  convocadas,  reforçava-se  o  papel  dos  conselhos 
governativos  que  assessoravam  os  soberanos,  e  que  eram  compostos  por  membros  do 
clero,  da  nobre/a  rural  e  das  elites  urbanas,  providos  com  frequência  de  uma  formação 
jurídica136.  É  por  demais  sabido  que  a  ascensão  do  absolutismo  acarretou  o  declínio 
das  famílias  da  velha  nobreza  rural,  que  se  haviam  destacado  na  época  de  fragmentação 
da  soberania,  e  correspondeu  à  promoção  de  uma  nova  nobreza,  cujo  estatuto  e  títulos 
decorriam  apenas  das  funções  que  executava  na  administração  régia  ou  ao  serviço  da 
coroa,  e  cujos  membros  eram  geralmente  recrutados  na  pequena  aristocracia  e  na  elite 
das  cidades137.  A  nova  alta  nobreza  era,  afinal,  uma  burocracia  nobilitada,  e  a  sua  auto¬ 
ridade  não  lhe  vinha  de  qualquer  radicação  num  território  específico,  mas  apenas  da 
participação  nos  conselhos  governativos. 

Estes  conselhos  foram  um  órgão  central  na  implantação  do  absolutismo,  o  que  toma 
tanto  mais  importante  recordar  que  a  sua  criação  fizera  parte  do  mesmo  movimento  que 
tinha  levado  à  convocação  regular  das  cortes.  Em  vários  casos  chegou  a  haver  um  elo 
institucional  entre  as  cortes  e  os  conselhos.  Assim,  em  França,  por  exemplo,  foram  as 
próprias  cortes  gerais  reunidas  no  final  de  1355.  precisamente  as  primeiras  a  assumi¬ 
rem  o  controlo  sobre  a  moeda,  que  estabeleceram  uma  comissão  permanente  destinada 
a  orientar  na  prática  a  política  monetária13*.  Na  Catalunha  as  cortes  possuíam  uma 


i:<h  E.  Boumazel  <  1975)  161  e  segs.,  169;  M.-C.  Oerhet  ( 1994)  75;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  II 
194;  J.  Mattoso  11994  b)  275-277. 

1,7  G.  Duby  (1953)  579-580,  583;  M.-C.  üerbel  (1994)  99,  1 1  |.  1 14;  J.  N.  Hillgarth  ( 1976-1978) 
I  401:  R.Hiltoni  1973  a.)  49-50. 

138  E.  Bridrey  ( 1906)  437-438. 


566 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  III  do  dinheiro 


delegação  permanente,  que  a  partir  da  passagem  do  segundo  para  o  terceiro  terço  do 
século  XIV  começou  a  superintender  na  prática  as  finanças  da  província,  e  este  sistema 
depressa  foi  imitado  nos  reinos  de  Valência  e  de  Aragão13''.  Aliás,  lembremos  (do  capí¬ 
tulo  7.f)  que  o  desenvolvimento  de  uma  burocracia  régia,  condição  do  exercício  do 
poder  absoluto,  se  iniciara  durante  o  apogeu  das  cortes,  quando  os  soberanos  haviam 
tido  de  ampliar  o  seu  aparelho  administrativo  para  poderem  implantar  o  novo  sistema 
fiscal,  o  que  confirma  que  o  absolutismo  não  progrediu  rejeitando  a  noção  de  represen- 
tatividade,  mas  dentro  do  quadro  inspirado  por  tal  noção. 

Tive  já  oportunidade  de  observar  (no  capítulo  7.g)  que  a  dialéctica  das  instituições 
familiares  ao  longo  destes  dois  períodos  do  regime  senhorial  não  poderia  ter  sido  mais 
paradoxal,  e  constatamo-lo  agora  outra  vez.  Reduzindo -se  progressivamente  o  âmbito 
das  unidades  familiares,  para  se  dar  lugar  a  vínculos  e  relações  de  solidariedade  exte¬ 
riores  ao  quadro  da  família  propriamente  dito,  acabou-se  no  desmedido  engrandeci¬ 
mento  da  domesticidade  do  soberano,  enquanto  forma  artificial  sustentada  pelos  circui¬ 
tos  do  dinheiro.  E  a  autoridade  da  coroa,  que  no  período  anterior  se  concentrara  no 
palácio  e  se  exercera  através  das  pessoas  que  o  frequentavam,  tanto  magnates  como 
agentes,  no  final  deste  período  desdobrou-se  numa  multiplicidade  de  tentáculos  que, 
lançados  pela  burocracia  palatina,  permeavam  de  maneira  estável  e  regular  toda  a  área 
de  soberania.  Os  grandes  funcionários  já  não  eram  só,  como  antes  haviam  sido,  asses¬ 
sores  de  uma  administração  que  se  localizava  no  palácio:  eles  mudaram  radicalmente 
de  características  e  converteram-se  em  chefes  de  uma  vasta  burocracia  que  abarcava  a 
globalidade  do  reino.  Para  cobrarem  impostos  em  todo  o  território  e  para  convocarem 
regularmente  cortes  gerais,  as  domesticidades  soberanas  tiveram  de  ampliar  muito  o 
número  dos  seus  agentes  e,  mais  do  que  isso,  foram  obrigadas  a  inaugurar  novas  técni¬ 
cas  de  gestão.  A  partir  de  então  a  burocracia  passou  a  apresentar-se  como  depositária 
de  uma  autoridade  ideal  e  anónima140.  Enquanto  o  rosto  do  rei  se  tomava  cada  vez 
mais  simbólico,  esta  burocracia  era  desprovida  de  face,  como  convinha  a  um  poder 
impessoal  e  abstracto.  Durante  os  séculos  seguintes  a  burocracia  régia  alargaria  cada 
vez  mais  as  suas  funções,  até  que  o  palácio  acabou  por  se  abrir  totalmente  para  o  exte¬ 
rior,  e  nisto  consistiu  a  monarquia  absoluta.  A  passagem  do  poder  pessoal  ao  poder 
impessoal  completou-se  mediante  a  desagregação  do  que  restava  das  famílias  amplas  e 
a  reconstituição  da  domesticidade  soberana  em  moldes  artificiais.  Senhoria  impessoal, 
relações  parafamiliares  e  circulação  das  várias  formas  de  dinheiro  foram  aspectos  de 
um  mesmo  processo. 

O  absolutismo,  aplicado  globalmente  em  toda  a  área  de  soberania,  tinha  um  carácter 
inteiramente  impessoal  porque  era  veiculado  pelo  dinheiro,  no  pagamento  do  imposto, 
e  apresentava  uma  forma  abstracta.  já  que  concebia  o  exercício  da  justiça  nos  quadros 
do  direito  romano.  Foi  neste  processo  de  desenvolvimento  de  um  poder  impessoal  e 
abstracto  que  o  ba n num  se  converteu  em  Estado.  É  só  a  partir  de  então  que  se  pode  ver¬ 
dadeiramente  falar  de  povo  e  que  começaram  a  esboçar-se  as  identidades  nacionais. 
Não  é  raro  depararmo-nos  ainda  hoje  com  autores  que,  na  continuação  da  historiografia 


134  J.  N.  Hillgarth  <  1976-1978)  II  192. 
140  E.  Perroy  et  al.  (1955)  373. 


Os  reis  na  convergência  das  três Jorntas  do  dinheiro 


567 


romântica  do  século  XIX.  consideram  o  povo  como  aliado  natural  do  rei.  Mas  que  povo 
era  este.  quando  o  campesinato  independente  tinha  desaparecido  desde  há  muito  e  os 
membros  reconhecidos  do  «terceiro  estado»  se  limitavam  à  fracção  urbana  da  aristocra¬ 
cia?  Não  era  o  povo  que  se  oferecia  como  aliado  natural  do  rei.  mas  a  monarquia  que, 
para  afirmar  uni  poder  cada  vez  mais  absoluto,  tinha  de  converter  em  povo  toda  a  popu¬ 
lação  dos  seus  territórios.  O  povo  não  foi  a  condição  política  do  absolutismo.  Pelo  con¬ 
trário,  foi  o  absolutismo,  ao  apresentar-se  como  Estado,  que  gerou  o  povo.  NTa  sua  rela¬ 
ção  directa  com  a  coroa  os  súbditos  transformaram-se  em  povo.  e  a  enormíssima 
domesticidade  artificial  do  monarca,  percorrida  e  animada  pelos  circuitos  pecuniários, 
tomou-se  uma  nação.  A  nação  é  um  Estado  vitalizado  por  um  povo. 

A  revolução  inglesa  dos  meados  do  século  XVII  e  a  revolução  francesa  cento  e  cin¬ 
quenta  anos  depois  foram  o  derradeiro  acto  possível  daquele  povo.  Ao  deceparem  às 
majestades  a  cabeça,  os  insurrectos  cometeram  um  gesto  de  radicalismo  sem  par.  pois 
liquidaram  assim  a  chefia  da  família  ampla  que  englobava  todo  o  reino.  Cortado  -  em 
sentido  plenamente  físico  -  este  último  elo  com  o  velho  poder  pessoal,  remanescente 
na  pessoa  do  rei,  o  carácter  impessoal  do  Estado  pôde  desenvolver-se  sem  limites.  Mas. 
ao  cometerem  o  regicídio,  os  súbditos  sublevados  destruíram  a  sua  própria  razão  de  ser 
enquanto  povo,  eliminando  a  figura  sem  a  qual  nada  mais  uniria  numa  classe  única  ele¬ 
mentos  económica  e  socialmente  tão  diversos.  Por  isso  aquelas  revoluções,  ao  mesmo 
tempo  que  puseram  fim  à  última  das  formas  assumidas  pelo  regime  senhorial,  desagre¬ 
garam  também  o  povo.  Libertas  deste  espartilho  incómodo  e  abandonando  os  obsoletos 
termos  de  referência  à  domesticidade  soberana,  as  contradições  entre  os  súbditos,  e  em 
especial  entre  os  elementos  da  plebe,  revelaram-se  bruscamente  como  antagonismos 
inconciliáveis,  e  deste  modo  inauguraram  uma  nova  estrutura  social  e  deram  vida  ao 
modo  de  produção  capitalista. 

Os  fios  desta  história,  que  se  desembaraçaram  só  alguns  séculos  depois  do  período 
que  agora  me  ocupa,  começaram  no  entanto  a  tecer-se  quando  os  soberanos  procede¬ 
ram  às  primeiras  quebras  sistemáticas  de  moeda. 


CAPÍTULO  14 


LEI  DO  REGIME  SENHORIAL 
(SEGUNDA  VERSÃO) 


No  segundo  período  do  regime  senhorial,  desde  o  século  XI  até  ao  século  XIV,  a 
conjugação  entre  o  bannurn  e  o  mundiurn  continuou,  tal  como  no  primeiro  período,  a 
sustentar  a  exploração  da  classe  servil  e  a  fornecer  o  quadro  das  relações  sociais  no 
interior  da  aristocracia.  Mas  a  extinção  do  campesinato  independente  e  o  desenvolvi¬ 
mento  das  formas  impessoais  do  poder  alteraram  significativamente  a  maneira  como 
operavam  aqueles  dois  grandes  campos  institucionais,  o  que  obriga  a  reformular  a  lei 
do  regime  senhorial.  Talvez  ao  comparar  a  segunda  versão  desta  lei  com  a  sua  primeira 
versão  possa,  finalmente,  entender  o  regime  senhorial  nas  suas  características  mais  pro¬ 
fundas. 

Se  recordarmos  a  primeira  versão  da  lei  do  regime  senhorial  (ver  na  Parte  I  o  capí¬ 
tulo  17),  constatamos  que  também  neste  segundo  período  a  exploração  resultava  da 
articulação  entre  as  exacções,  impostas  no  âmbito  do  bannum,  e  as  benesses  senhoriais, 
canalizadas  pelo  mundiurn.  Mas  dos  quatro  aspectos  que  haviam  caracterizado  o  regime 
até  à  grande  crise  dos  séculos  IX  e  X,  só  dois  continuaram  a  vigorar. 

Manteve-se  a  reciprocidade  dos  deveres  e  a  possibilidade  de  os  desfasar  no  tempo, 
mas  agora  foi  o  dinheiro  a  veicular  tanto  a  aparente  simetria  de  circunstâncias  como  o 
adiamento  da  reciprocação.  Os  servos  usavam  nas  suas  prestações  aquelas  mesmas 
moedas  que  haviam  recebido  da  classe  senhorial,  e  neste  vaivém  do  numerário  parecia 
haver  equivalência  entre  os  intervenientes.  Mas  como  eram  os  maiores  senhores  a  deter 
o  exclusivo  da  cunhagem  e  a  dominar  os  mecanismos  do  mercado,  os  servos  inseriam- 
-se  num  circuito  de  que  não  controlavam  a  origem  nem  o  decurso,  revelando-se  assim  a 
reciprocidade  dos  deveres  como  uma  absoluta  desigualdade  estrutural  e,  portanto, 
como  um  sistema  de  exploração.  Mesmo  quando  pagas  em  géneros  ou  em  serviços,  as 
prestações  eram  avaliadas  em  termos  de  dinheiro  contabilístico,  e  como  neste  tipo  de 
dinheiro  o  padrão  de  referência  era  uma  peça  efectivamente  cunhada,  também  em  lais 
casos  a  dependência  não  fugia  aos  circuitos  monetários.  A  dependência  agravava-se 
duplamente  quando  se  alteravam  os  prazos  das  obrigações.  Se,  da  parte  do  senhor,  fos¬ 
sem  concedidos  auxílios  suplementares  em  anos  de  más  colheitas,  então  ficavam  refor¬ 
çados  os  deveres  de  quem  recebia  as  benesses.  E  se.  da  parte  do  servo,  não  houvesse 
possibilidade  de  executar  os  compromissos  no  momento  estipulado,  então  eles  iam-se 
tomando  progressivamente  mais  pesados.  O  dinheiro  permitiu  a  veiculaçâo  de  ambos 


570 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  do  dinheiro 


estes  mecanismos,  e  o  adiamento  da  reciprocação  das  obrigações  passou  a  ser  regido 
pelo  crédito,  o  que  agravou  a  exploração.  Assim,  verificamos  que  através  do  dinheiro 
continuava  em  vigor  o  sistema  de  troca  de  presentes,  que  tinha  na  reciprocidade  dos 
deveres  e  no  seu  possível  desfasamento  temporal  as  características  definidoras.  Porém, 
a  circulação  pecuniária  alterou  profundamente  a  aparência  daquele  sistema  e,  além 
disso,  deu-lhe  outra  maleabilidade  e  permitiu-lhe  ampliar  e  aprofundar  a  sua  penetração 
social.  Sem  perderem  a  aura,  as  moedas  foram  capazes  de  servir  de  instrumento  a  rela¬ 
ções  de  dependência  mais  vastas  e  reforçadas. 

Nas  formas  que  assumira  tradicionalmente,  enquanto  troca  directa  não  mediada  pelo 
dinheiro,  nem  sequer  pelo  dinheiro  contabilístico,  o  sistema  de  presentes  começou  a  ser 
relegado  para  ocasiões  solenes  e  para  o  plano  das  relações  cerimoniosas.  É  esclarece¬ 
dor  que.  quando  se  destinavam  exclusivamente  a  estes  rituais,  as  peças  cunhadas  não  se 
integrassem  em  qualquer  das  duas  fornias  em  que  divido  o  numerário  neste  período. 
Desde  o  século  X  ou  XI,  e  mesmo  muito  depois  de  ter  recomeçado  a  cunhagem  siste¬ 
mática  do  ouro  no  interior  do  regime  senhorial,  usaram-se  com  certa  frequência  moe¬ 
das  de  ouro  estrangeiras  ou  mandaram-se  fabricar  propositadamente  moedas  de  ouro  de 
tipo  arcaico  para  efectuar  alguns  pagamentos  simbólicos,  por  vezes  de  carácter  reli¬ 
gioso,  e  rodeados  por  um  cerimonial  mais  vasto1.  E  a  ser  exacto  que  estas  peças  fossem 
mandadas  fundir  por  quem  as  recebia2 *,  o  facto  de  se  destinarem  a  uma  única  operação 
e  de  não  sustentarem  qualquer  circulação  destacava-as  ainda  do  numerário  corrente. 
Não  é  menos  elucidativo  que  alguns  dos  tipos  de  dinheiro  usados  neste  contexto  não 
resultassem  de  tradições  obsoletas  nem  fossem  empregues  num  ambiente  social  retró¬ 
grado.  As  cunhagens  especiais  reservadas  ao  exercício  da  caridade,  por  exemplo,  só 
começaram  a  encontrar-se  passado  o  século  X\  No  outro  extremo  das  hierarquias, 
quando  sucedeu  que  em  França  o  serviço  militar  dos  vassalos  passasse  a  ser  substituído 
por  uma  taxa  pecuniária,  frequentemente  o  vassalo  dispensado  dos  deveres  de  comba¬ 
tente  entregava  ao  seu  senhor  superior  um  objecto  simbólico4,  o  que  revela  o  estatuto 
atribuído  às  peças  cunhadas  se  fossem  elas  a  circular  no  mesmo  contexto.  Tanto  assim 
que  ao  longo  de  todo  o  período  se  conhecem,  também  em  França,  vários  exemplos  de 
vassalos  dando  moedas  de  ouro  aos  senhores  superiores  em  reconhecimento  do  direito 
último  de  propriedade  que  estes  mantinham  sobre  as  senhorias  concedidas;  não  se  tra¬ 
tava  de  conferir  uma  participação  nos  rendimentos  gerados  pela  senhoria  vassálica.  mas 
de  realizar  um  acto  solene,  em  que  cabia  à  moeda  a  função  de  materializar  as  relações 
de  subordinação5.  Mesmo  numa  data  tão  avançada  como  o  final  do  século  XIII  e  a  pri¬ 
meira  metade  do  século  XIV,  e  em  Siena.  num  meio  onde  o  dinheiro  atingira  já  expres¬ 
sões  muito  evoluídas,  sabe-se  que  nas  festas  anuais  em  honra  da  padroeira  da  cidade  os 
senhores  e  as  comunidades  rurais  sujeitos  à  soberania  de  Siena  tinham  de  contribuir 


1  Ph.  Grierson  (1954  c)  298-300.  301-302  n  14.  302.  304-306:  id.  (1976  a)  69.  84,  Ver  igualmente: 
P.  D.  A.  Harvey  í  1973)  28. 

2  Ph.  Grierson  (1976  ai  69. 

'  Ver  as  nn.  17  e  1 8  do  capítulo  5. 

4  F.  L.  Ganshof  ( 1968  b)  85. 

5  A.  Blanchet  (1955)  1  147  e  segs. 


Lei  do  regime  senhorial  <  segunda  versão) 


571 


com  somas  simbólicas,  ao  mesmo  tempo  que  deviam  levar  até  à  catedral  círios  de  pesos 
especificados6.  Ora.  se  recordarmos  a  relação  existente  entre  a  cera  e  o  dinheiro  em 
alguns  contextos  de  inspiração  religiosa7,  podemos  presumir  que  também  naqueles 
casos  as  moedas  pagas  à  cidade  de  Siena  desempenhassem  funções  estritamente  ceri¬ 
moniais.  Haveria  decerto  todo  um  trabalho  de  pesquisa  a  ser  feito,  tentando  dilucidar 
em  que  medida  as  modalidades  tradicionais  de  troca  de  presentes  pressionariam  ao 
emprego  de  tipos  de  dinheiro  arcaicos.  Na  mesma  perspectiva,  seria  necessário  ainda 
averiguar  se  a  monetarização  do  sistema  de  presentes  suprimiu  o  potlatch  ou,  pelo  con¬ 
trário,  o  manteve  em  formas  diferentes.  Se  a  documentação  relativa  à  procura  de  crédito 
pelos  membros  da  nobreza  fosse  relida  sob  o  ponto  de  vista  da  sua  eventual  conjugação 
com  o  potlatch,  estou  convencido  de  que  ficariam  esclarecidos  muitos  aspectos  obscu¬ 
ros  relativos  aos  juros  aplicados. 

Por  outro  lado,  a  guerra,  que  era  um  dos  elementos  mais  importantes  do  bannum  dos 
soberanos  e  que  servia  de  fundamento  a  muitos  dos  percursos  da  troca  de  presentes, 
monetarizava-se  cada  vez  mais.  com  a  crescente  substituição  do  serviço  de  armas  vas- 
sálico  por  prestações  em  dinheiro  e  com  a  difusão  das  senhorias  pecuniárias  e  dos  exér¬ 
citos  de  mercenários.  Até  o  saque,  um  dos  componentes  mais  brutalmente  explícitos  do 
sistema  de  presentes,  adquiriu  uma  feição  pecuniária  quando  os  soberanos  e  os  gover¬ 
nos  urbanos  começaram  deliberadamente  a  proceder  a  bancarrotas,  ou  quando  as  comu¬ 
tações  monetárias  do  serviço  de  guerra  dos  vassalos  deram  lugar  a  múltiplas  especula¬ 
ções  de  ordem  financeira.  E  deste  modo,  numa  época  em  que  a  violência  foi  cada  vez 
mais  organizada  de  acordo  com  os  ditames  do  dinheiro,  só  os  duelos  de  honra,  conver¬ 
tidos  num  mero  ritual,  mantiveram  as  características  obsoletas  da  troca  de  injúrias. 

Nasceu  assim  uma  profunda  cisão  no  comportamento  económico.  Quanto  mais  as 
três  formas  de  dinheiro  permeavam  as  relações  entre  as  pessoas,  tanto  mais  claramente 
se  demarcavam  ocasiões  e  circunstâncias  em  que  por  norma  se  deviam  oferecer  presen¬ 
tes8.  E  se  entre  estes  se  incluíssem  somas  monetárias,  elas  eram  apreciadas  de  acordo 
com  critérios  distintos  dos  que  prevaleciam  nos  outros  tipos  de  pagamento,  porque  nas 
ofertas  não  se  exprimia  só  o  respeito  por  quem  recebia,  mas  reflectia-se  igualmente  o 
prestígio  de  quem  dava*5.  A  dualidade  de  comportamentos  demorou  um  certo  tempo  a 


6  W.  M.  Bowsky  ( 1970)  47-48.  62. 

7  Segundo  Ph.  Doliinger  ( 1949)  145,  332  e  35 1,  do  século  X  até  ao  século  XIII  esteve  muito  difun¬ 
dida  nas  senhorias  eclesiásticas  do  sul  e  do  oeste  da  Germânia,  da  Flandres  e,  em  menor  medida,  do 
norte  da  França  uma  categoria  privilegiada  de  servos  que,  embora  se  mantivessem  em  situação  de 
dependência  pessoal  hereditária,  ficavam  dispensados  das  prestações  típicas  da  ausência  de  liberdade, 
graças  ao  pagamento  anual  de  um  tributo  pessoal,  de  montante  variado,  tradicionalmente  estabelecido 
em  moeda.  Porém,  este  tributo  podia  na  prática  ser  pago  em  géneros,  nomeadamente  em  cera,  uma 
matéria  provida  de  forte  simbologia  religiosa.  Ver  a  este  respeito  a  n.  12  do  capítuio  3.  Haveria  que 
estudar  em  que  medida  seria  comum  a  substituição  do  numerário  pela  cera  em  certas  ocasiões  rituais. 

s  Acerca  do  hábito  de  oferecer  regularmente  presentes  aos  soberanos  e  ao  sumo  pontífice  numa 
época  em  que  prevaleciam  já  as  relações  pecuniárias  ver,  por  exemplo:  W.  E.  Lunt  ( 1939-1962)  1181, 
482-483,  513-516;  L.  Mirot  (1905)  27.  É  sugestivo  recordar,  com  R.  I.  Moore  (1977)  64,  que  no 
começo  do  século  XII  o  pregador  herético  Tanchelm  se  comportava  como  um  rei  da  plebe,  recebendo 
dádivas  dos  seus  partidários.  Acerca  de  Tanchelm  ver,  na  Parte  II,  a  n.  183  do  capítulo  17. 

4  Os  dois  irmãos  Polo  e  o  filho  Marco  ofereciam  artigos  sumptuosos  aos  governantes  dos  países 
que  atravessavam,  recebendo,  ao  partirem,  dádivas  adequadas  à  magnificência  do  governante. 


572 


Articulação  enire  as  Formas  I.  II  e  III  do  dinheiro 


desvendar-se.  e  na  primeira  metade  do  período,  pelo  menos  em  várias  regiões  da 
França,  é-nos  difícil  hoje  separar  as  doações  das  vendas,  que  só  a  partir  do  começo  do 
século  XIII  passaram  a  apresentar-se  de  maneira  claramente  diferenciada10.  Talvez 
fosse  a  propósito  do  vinho  que  a  economia  pecuniária  e  comercial  mais  intimamente  se 
conjugou  com  a  economia  de  presentes.  Substituto  ritual  do  sangue,  o  vinho,  através  do 
brinde,  cumpria  -  ainda  hoje  o  faz  -  a  função  que  outrora  havia  cabido  à  troca  de  san¬ 
gues  e  sen' ia  para  criar  laços  de  fraternidade  artificial.  Assim,  o  vinho  que  alguém  pro¬ 
duzia  nas  suas  próprias  terras  era  um  objecto  especial  de  oferta  aos  hóspedes  e  aos  con¬ 
vidados11,  o  que  não  impedia  a  produção  vinícola  de  se  contar,  paradoxalmente,  entre 
as  mais  interessadas  pelo  mercado.  A  situação  foi  igualmente  complexa  nos  rituais  tau- 
matúrgicos  da  coroa  inglesa,  em  que  se  entremearam  de  forma  muito  estreita  as  rela¬ 
ções  pecuniárias  e  o  sistema  de  presentes,  e  as  peças  cunhadas  especialmente  para  as 
cerimónias  de  cura  dos  doentes  oscilaram  durante  bastante  tempo  entre  a  circulação 
monetária  e  as  funções  de  talismã12.  Mas  gradualmentc  o  plano  dos  interesses  econó¬ 
micos  correntes  distanciou-se  do  plano  da  amabilidade,  e  ainda  hoje,  em  pleno  capita¬ 
lismo.  a  mesma  cisão  se  verifica  em  todo  o  mundo,  com  a  possível  excepção  da  socie¬ 
dade  norte-americana.  Com  efeito,  nos  Estados  Unidos,  para  onde  os  imigrantes  de  ori¬ 
gem  europeia  não  levaram  quaisquer  vestígios  do  regime  senhorial,  todas  as  relações, 
até  as  de  cortesia,  são  regidas  pelas  normas  do  dinheiro,  e  é  daí  que  provém  a  sensação 
de  profunda  grosseria  que  para  nós  emana  daquele  povo.  Nos  demais  países,  enquanto 
os  mecanismos  pecuniários  passaram  a  reger  a  infra-estrutura  económica,  as  relações 
de  cortesia  foram  transpostas  para  outra  esfera,  onde  continuou  a  prevalecer  outra  eco¬ 
nomia.  obedecendo  a  modalidades  arcaicas  da  troca  de  presentes. 

Haveria  ainda  que  analisar  na  mesma  perspectiva  os  jogos  de  azar.  que  tanto  se  difun¬ 
diram  no  regime  senhorial  ao  longo  deste  período12.  É  sabido  que  o  jogo  constitui  um 
substituto  ritual  da  guerra,  e  pode  admitir-se  também  que,  no  seu  funcionamento  econó- 


Segundo  F.  C.  Lane  1 1973)  81,  a  diferença  de  valor  entre  ambos  os  conjuntos  de  presentes  assegurava 
a  estes  mercadores  lucros  muito  consideráveis.  E  ao  ler  em  H.  Grassotti  <  1964)  59  que  Afonso  VI,  rei 
de  Leão  e  depois  também  de  Castela,  mandou  os  servidores  repudiarem  os  sucessivos  presentes  que 
perante  ele  depunham  os  embaixadores  dos  reis  de  taifas,  concluo  que  o  monarca  cristão  estava  deste 
modo  a  realçar  o  seu  próprio  prestígio,  colocando-o  muito  acima  das  preciosidades  trazidas  pelos 
representantes  dos  reis  muçulmanos,  ao  mesmo  tempo  que  estava  a  apoucar  o  estatuto  de  quem 
enviava  as  ofertas. 

1(1  B.  Vigneron  (1959)  17-18,  33-36, 41-43. 

L.  K..  Little  (1978)  31  chama  a  atenção  para  o  facto  de  os  reformadores  eclesiásticos  do  século  XI 
considerarem  como  simonia  a  antiga  prática  que  consistia  em  conceder  um  presente  em  troca  do  favor 
alcançado,  neste  caso,  efectuar  um  pagamento  pecuniário  em  troca  da  obtenção  de  um  cargo  religioso. 
O  movimento  de  reforma  da  Igreja  estava,  portanto,  a  classificar  como  compra  e  venda  um  tipo  de 
relação  que  para  os  participantes  continuava  a  ser  uma  troca  de  presentes. 

11  G.  Duby  (1962)518. 

'-  M.  Bloch  ( 1924)  320-322  e  394-395  mostra  que  as  moedas  que  os  reis  ingleses  distribuíam  aos 
doentes,  embora  tivessem  passado  a  ser  fabricadas  em  cunhagens  especiais,  continuaram  até  ao  pri¬ 
meiro  quartel  do  século  XVII  a  correr  como  numerário. 

13  C.  M.  Cipolla  (1976)  23  chama  a  atenção  para  a  grande  importância  assumida  pelo  jogo  nesta 
época  e  Ph.  Dollinger  ( 1964)  224  menciona  a  frequência  com  que  os  mercadores  hanseáticos  proce¬ 
diam  a  apostas  a  dinheiro. 


Lei  do  regime  senhorial  (segunda  versão) 


573 


mico,  ele  tivesse  continuado  as  antigas  regras  do  sistema  de  presentes,  contribuindo  por¬ 
tanto  para  manter  na  vida  quotidiana  a  vitalidade  de  uma  economia  arcaica.  Mas  talvez 
sucedesse  igualmente  que  a  economia  dos  jogos  tosse  cada  vez  mais  penetrada  pelos  cir¬ 
cuitos  do  dinheiro,  por  exemplo  quando  se  recorria  ao  jogo  para  obter  fundos  destinados 
ao  financiamento  de  negócios14.  E  neste  caso,  assim  como  servia  para  perpetuar  formas 
tradicionais,  o  jogo  abria-se  já  às  novas  modalidades  de  comportamento.  Não  se  tratava 
de  uma  divisória  fixa,  mas  de  um  permanente  restabelecimento  das  demarcações. 

Os  outros  dois  aspectos  do  regime  senhorial  que  observei  no  período  anterior,  o 
carácter  pessoal  dos  deveres  dentro  de  cada  contexto  familiar  e  o  seu  conteúdo  con¬ 
creto,  extinguiram-se  neste  período  e  deram  lugar  a  uma  rede  de  vínculos  impessoais. 
Na  medida  em  que  os  movimentos  da  troca  de  presentes  puderam  ser  desfasados  tem¬ 
poralmente.  deixando  de  limitar  a  obrigação  de  reciprocidade  a  pares  de  agentes  para 
passarem  a  incluir  outros,  em  perímetros  populacionais  cada  vez  mais  vastos,  a  circula¬ 
ção  dos  objectos  económicos  tomou-se  capaz  de  atenuar  a  individualização  dos  partici¬ 
pantes.  Isto  foi  possível  porque  um  dos  tipos  de  bens  transferidos  assumiu  uma  forma 
cada  vez  mais  simbólica,  representando  os  presentes  a  receber  no  futuro  e  desempe¬ 
nhando,  assim,  as  funções  de  dinheiro.  A  reciprocidade  e  o  protelamento  das  obriga¬ 
ções  haviam  começado  a  operar-se  entre  o  senhor  de  um  território  e  a  população  cam¬ 
ponesa  indiferenciada  que  nele  habitava,  e  o  dinheiro  foi  ao  mesmo  tempo  a  expressão 
e  o  veículo  da  indiferenciação. 

A  este  respeito  vale  a  pena  observar  que  os  escolásticos,  ao  definirem  o  valor  como 
preço  de  mercado,  resultante  do  cruzamento  entre  a  oferta  e  a  procura15,  consideravam 
que  a  procura  prevalecia  sobre  a  oferta16.  O  ponto  de  equilíbrio  temporário  era  enten¬ 
dido  como  uma  relação  entre  o  volume  de  um  dado  bem  colocado  no  mercado  e  a 
necessidade  que  as  pessoas  sentiam  deste  bem,  conjugando-se  portanto  uma  perspec¬ 
tiva  abstracta.  um  valor  geral,  com  uma  perspectiva  concreta,  o  carácter  subjectivo  da 
definição  da  utilidade  daquele  bem  para  o  lado  da  procura17.  É  certo  que  os  escolásti¬ 
cos  estabeleciam  a  utilidade  da  mercadoria  em  função  de  um  comprador  genérico,  sem 
referirem  cada  transacção  a  figuras  individuais.  No  seu  ponto  de  vista,  porém,  era  a 
subjectividade  da  procura  que  predominava,  pois  eles  consideravam  que  só  as  necessi¬ 
dades  humanas  ocasionavam  a  oferta  de  bens18,  não  se  dando  conta  de  que  são  os  pró¬ 
prios  mecanismos  da  produção  a  criar  as  necessidades  do  consumidor.  Assim,  o  justo 
preço  caracterizava-se  por  um  estatuto  decididamente  ambíguo  e  permanecia  em  equilí¬ 
brio  instável  entre  o  abstracto  e  o  concreto,  por  isso  ele  era  muito  variável  e  os  escolás¬ 
ticos  aceitavam  uma  grande  margem  de  liberdade  na  sua  fixação19.  Por  outro  lado. 


14  C.  M.  Cipolla  (1976)  23. 

15  J.  Gilchrist  (1969)  59;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  85.  88-89. 

16  J.  Gilchrist  (1969)  60:  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  85. 

17  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  87-88  afirma  que  a  definição  do  justo  preço  através  da  oferta  e  da  pro¬ 
cura  no  mercado  ocorria  socialmente,  sem  depender  das  necessidades  específicas  de  cada  pessoa  con¬ 
creta,  mas  este  especialista  sublinha  também  (pp.  83-84)  o  carácter  subjectivo  da  definição  da  utili¬ 
dade  de  um  bem  na  teoria  do  justo  preço. 

18  ld„  ibid..  85. 

19  J.  Gilchrist  (1969)  60;  J.  T.  Noonan  Jr.  (1957)  85;  A.  Sapori  (1946)  225. 


574 


Articulação  entre  as  Formas  I,  II  e  lll  cio  dinheiro 


aqueles  comentadores  que  admitiam  como  um  dos  factores  determinantes  do  justo 
preço  a  conveniência  de  garantir  o  nível  de  vida  do  comerciante  e  da  sua  família*11  esta¬ 
vam  a  reforçar  a  conotação  subjectiva  do  preço,  estipulando-a  igualmente  do  lado  da 
oferta.  A  doutrina  escolástica  do  justo  preço  situou-se  a  meio  do  processo  secular  de 
passagem  das  relações  concretas  e  pessoais  para  as  relações  abstractas  e  impessoais, 
sem  conseguir  conjugar  ambos  os  termos  de  maneira  coerente. 

Tendo  em  conta  os  aspectos  que  se  mantiveram  da  primeira  versão  da  lei  do  regime 
senhorial  e  aqueles  que  caducaram,  posso  definir  a  lei,  no  período  compreendido  entre 
os  séculos  XI  e  XIV,  como  tona  troca,  espaçada  no  tempo,  de  presentes  constituídos 
por  objectos  económicos  de  função  desigual,  sendo  indiferenciados  os  agentes  da  troca 
e  indeterminado  materialmente  o  conteúdo  das  obrigações.  Ao  compararmos  com  a 
definição  que  propus  para  o  primeiro  período,  constatamos  que  os  circuitos  do  dinheiro 
substituíram  tanto  a  pessoalização  dos  agentes  económicos  como  o  carácter  concreto 
dos  objectos  económicos;  e  o  crédito  permitiu  que  se  operasse  o  adiamento  da  recipro- 
cação  em  termos  que  haviam  deixado  de  ser  pessoais  e  particularizados.  Mas  se  resu¬ 
mir  esta  formulação  da  lei,  de  maneira  a  sublinhar-lhe  os  traços  decisivos,  direi,  tal 
como  antes,  que  se  tratava  de  uma  troca  de  funções  desiguais. 

A  troca  de  funções  desiguais,  que  constitui  o  mecanismo  central  do  sistema  de  pre¬ 
sentes,  define  o  regime  senhorial  em  qualquer  dos  períodos  da  sua  existência.  Tanto 
enquanto  as  estruturas  familiares  continuaram  a  justificar  a  permanência  dos  vínculos 
pessoais,  e  portanto  o  carácter  sempre  concreto  e  particularizado  dos  objectos  económi¬ 
cos  transferidos,  como  depois,  quando  a  redução  do  âmbito  das  unidades  familiares 
passou  a  fomentar  a  impessoalidade  das  relações  e  a  indetemiinaçâo  dos  objectos  eco¬ 
nómicos,  os  mecanismos  essenciais  do  sistema  de  troca  de  presentes  permitem  com¬ 
preender  o  funcionamento  do  regime  senhorial. 

Definida  no  nível  da  exploração,  que  sustenta  toda  a  sociedade,  a  lei  geral  de  um 
regime  cobre  também,  na  sua  formulação  aparente,  os  demais  tipos  de  vínculo.  Assim, 
as  relações  no  interior  da  classe  dominante,  tanto  as  que  se  processavam  entre  a  genera¬ 
lidade  dos  senhores  como  as  que  decorriam  das  grandes  operações  mercantis  e  bancᬠ
rias,  podem  ser  pensadas  como  modalidades  da  troca  de  funções  desiguais,  veiculada 
esta  troca  agora  pelo  dinheiro.  Na  Forma  II  do  dinheiro  a  estabilidade  da  cunhagem  era 
um  requisito  das  condições  fundamentais  de  igualdade  que,  apesar  das  hierarquias  vas- 
sálicas,  estavam  supostas  na  própria  noção  de  classe  dominante.  Esta  diferenciação  no 
interior  da  igualdade  encontrava  a  sua  expressão  na  reciprocidade  com  que  os  senhores 
permutavam  objectos  económicos  não-equivalentes.  Sendo  impessoais  as  relações,  a 
ausência  de  equivalência  revelava-se  nos  mecanismos  do  crédito,  precisamente  os  mes¬ 
mos  mecanismos  que  eram  indissociáveis  da  emissão  da  Forma  III  do  dinheiro.  Por 
outro  lado,  o  carácter  estritamente  fiduciário  deste  último  tipo  de  dinheiro  supunha  uma 
paridade  entre  os  intervenientes,  ou  seja,  a  sua  colocação  em  condições  de  acentuada 
reciprocidade  social. 

A  diferenciação  das  relações  no  interior  da  classe  dominante  resultava  exclusiva¬ 
mente  dos  vários  graus  em  que  cada  uma  das  famílias  senhoriais  explorava  a  classe 


:ü  J.  Gilchrist  ( 1969)  58;  J.  T.  Noonan  Jr.  ( 1957)  86-87;  A.  Saport  <  1946)  198-200 


Lei  do  regime  senhorial  f  segunda  versão) 


575 


servil,  enquanto  que  entre  senhores  e  servos  a  clivagem  era  absoluta.  Mas  o  próprio 
funcionamento  dos  mecanismos  da  exploração  implica  a  reprodução  de  todo  o  edifício 
social  e  portanto,  paradoxalmente,  a  conservação  de  formas  de  coesão.  É  esta  a  dialéc- 
tica  íntima  da  exploração  em  qualquer  regime,  cindindo  a  sociedade  em  classes  e 
ditando  as  condições  em  que  tal  cisão  pode  ser  de  cada  vez  ultrapassada.  Neste  caso, 
tratava-se  de  conjugar  a  Forma  I  do  dinheiro,  reveladora  dos  antagonismos  de  classe, 
com  as  Formas  II  e  III,  decorrentes  das  relações  no  seio  da  classe  dominante.  Foi  o 
dinheiro  contábil ístico  que  articulou  as  três  modalidades  pecuniárias  num  sistema 
único,  permitindo  que  a  sociedade,  ao  mesmo  tempo  que  marcava  as  suas  divisões,  fun¬ 
cionasse  de  maneira  coerente.  E  encontro  então  uma  correspondência  imediata  entre  o 
dinheiro  contabilístico  e  a  linguagem,  que  também  ela  se  destina  a  revelar  e  ocultar 
simultaneamente. 

A  imposição  do  dinheiro  contabilístico  enquanto  quadro  geral  de  apreciação  foi.  na 
esfera  ideológica,  o  factor  decisivo  para  a  generalização  de  um  novo  tipo  de  abstracção 
e  para  o  prevalecimento  do  raciocínio  quantitativo.  Esta  profunda  transformação  mate- 
rializou-se  no  relógio  mecânico,  que  não  é  mais  do  que  um  meio  de  avaliar  o  tempo  de 
maneira  homogénea  e  gradativa,  segundo  os  critérios  implícitos  no  dinheiro.  O  que  se 
mede  no  relógio  é  o  decurso  do  tempo  tal  como  ele  é  percebido  pelo  utilizador  do 
dinheiro.  Como  sempre  sucede,  as  invenções  técnicas  limitam-se  a  dar  corpo  a  modifi¬ 
cações  que  vinham  já  a  operar-se  na  sociedade.  No  século  XII,  muito  antes  de  se  terem 
fabricado  os  primeiros  mecanismos  de  relojoaria,  já  os  comerciantes  italianos  regista¬ 
vam  nos  seus  contratos  não  só  o  dia,  mas  a  hora  em  que  haviam  sido  lavrados,  e  no 
século  seguinte  tinham  substituído  a  pluralidade  de  calendários  tradicionalmente 
empregues  por  uma  divisão  do  ano  uniforme,  destinada  a  facilitar  a  contabilidade’1.  O 
aparecimento  do  relógio  não  seria  possível  sem  estas  transformações  prévias. 

Foi  assim  que  o  dinheiro  permeou  o  âmago  das  relações  de  exploração  e  a  partir  daí 
se  difundiu  até  aos  aspectos  mais  epidérmicos  desta  sociedade,  permitindo  então  inserir 
todas  as  suas  manifestações  num  quadro  ideológico  unificado.  Por  isso  as  compras  e 
vendas,  caracterizadas  pela  reciprocidade  dos  movimentos  e  pela  impessoalidade  dos 
agentes,  surgiram  no  segundo  período  do  regime  senhorial  como  o  modelo  não  só  do 
novo  sistema  de  dependência,  de  carácter  impessoal,  mas  também  das  relações  internas 
da  classe  dominante  e  mesmo  de  todos  os  tipos  de  relacionamento  social.  A  posição 
central  ocupada  nas  especulações  filosóficas  daquela  época  pelo  tema  dos  universais, 
quer  dizer,  pelas  questões  decorrentes  da  contradição  entre  um  padrão  ideal  e  uma  plu¬ 
ralidade  de  formas  de  realização  concretas,  variadas  e  mutáveis,  não  se  pode  entender 
sem  recordarmos  que  um  dos  problemas  fundamentais  na  vida  económica  resultava  das 
frequentes  alterações  do  valor  da  moeda  e  do  facto  de  várias  moedas  circularem  ao 


21  Ph.  Jones  <  1974)  1757. 

Indiquei  já,  na  n.  198  do  capítulo  12,  que  não  me  parece  aceitável  a  perspectiva  usada  por  J.  Le 
Goff  (1960)  424-426.  ao  opor  um  tempo  da  Igreja  a  um  tempo  dos  mercadores.  Na  realidade,  e  como 
mostrei  muitíssimas  vezes  ao  longo  desta  obra,  os  estabelecimentos  eclesiásticos  não  só  se  dedicavam 
activamente  ao  comércio,  como  se  encarregavam  também  da  maior  parte  do  crédito  no  meio  rural.  A 
nova  noção  de  tempo  suscitada  pelo  prevalecimento  do  dinheiro  contabilístico  difundiu-se  em  toda  a 
sociedade,  e  não  apenas  em  alguns  meios  restritos. 


576 


Articulação  entre  as  Formas  I.  II  e  lll  do  dinheiro 


mesmo  tempo,  o  que  tomava  urgente  e  quotidiana  a  comparação  entre  um  padrão  de 
valores  e  o  conteúdo  metálico  efectivo.  Mais  tarde,  quando  a  contabilização  em  termos 
pecuniários  se  impôs  verdadeiramente  no  dia-a-dia.  a  filosofia  aprenderia  a  reduzir  os 
saltos  de  qualidade  a  diferenças  gradativas  de  quantidade,  promovendo  esta  descoberta 
a  uma  das  maiores  operações  do  espírito.  Por  fim,  o  dinheiro  inspirou  até  os  sonhos 
mais  íntimos,  a  tal  ponto  que  seria  difícil  separar  o  comportamento,  o  carácter,  a  pró¬ 
pria  psicologia,  do  modelo  da  compra  e  venda  e  da  circulação  monetária.  Não  era  da 
libido,  mas  da  pecunia,  que  vinham  as  pulsões  obscuras. 

E  ao  chegar  aqui,  a  este  limite  extremo  -  temporal  e  ideológico  -  da  sociedade 
senhorial,  que  rnais  se  faz  sentir  a  insuficiência  da  noção  de  regime,  desprovida  do 
carácter  de  generalidade,  e  portanto  do  rigor,  que  caracteriza  o  conceito  de  modo  de 
produção.  Mas  talvez  seja  possível  debruçar-me  um  pouco  sobre  o  que  fica  por  dizer. 

A  perenidade  do  sistema  de  troca  de  presentes  enquanto  lei  do  regime  senhorial  per¬ 
mite  conceber  -  numa  perspectiva  que  prefiro  demasiado  ousada  a  demasiado  prudente 
-  a  existência  de  um  modo  de  produção  multimilenário,  e  vastíssimo  na  amplitude  geo¬ 
gráfica,  que  encontrava  nas  estruturas  familiares  o  seu  principal  elemento  de  organiza¬ 
ção  e  na  troca  de  presentes  o  mecanismo  do  seu  funcionamento.  Como  que  em  colos¬ 
sais  movimentos  citoplásmicos,  este  modo  de  produção  teria  por  vezes,  em  algumas 
das  suas  áreas,  talvez  preferencialmente  na  periferia,  desagregado  as  unidades  familia¬ 
res  e  gerado  relações  de  carácter  parafamiliar;  e  o  dinheiro  serviria  -  tal  como  sucedeu 
naquela  área  a  que  depois  se  chamou  Europa  -  de  veículo  a  essas  relações  parafamilia- 
res.  Este  subproduto  seria  o  regime  senhorial,  que  transformou  num  relacionamento 
entre  famílias  distintas  as  formas  de  desigualdade  que  antes  haviam  vigorado  no  âmbito 
familiar,  gerando  assim  tanto  os  elos  de  dependência  como  os  de  subordinação.  O 
mesmo  veio  a  acontecer,  já  na  vigência  do  regime  senhorial,  entre  os  próprios  servos, 
convertendo-se  muitas  vezes  em  relações  de  exploração  as  antigas  diferenças  de  esta¬ 
tuto  no  seio  da  família  camponesa.  O  desenvolvimento  do  poder  impessoal  aparece 
como  o  passo  seguinte  na  transformação  das  estruturas  familiares,  e  o  dinheiro,  nas 
suas  três  formas,  foi  o  instrumento  que  permitiu  esta  remodelação.  O  dinheiro  não  per¬ 
meou  só  os  contactos  entre  o  senhor  e  os  servos,  e  entre  o  senhor  superior  e  os  vassalos, 
mas  mesmo  no  seu  interior  a  família  sofreu  alterações  profundas  pela  intervenção  do 
dinheiro,  na  medida  em  que  o  assalariamento  se  difundiu  onde  antes  se  tinham  articu¬ 
lado  as  camadas  superior  e  inferior  de  uma  mesma  domesticidade,  e  em  que  a  fideli¬ 
dade  guerreira  e  diversas  obrigações  de  parentesco,  que  até  então  haviam  estruturado  a 
camada  superior  das  famílias  senhoriais,  deram  lugar  a  relações  pecuniárias.  No  longo 
processo  de  transição  gradual  das  relações  intrafamiliares  para  relações  interfamiliares, 
o  período  do  regime  senhorial  compreendido  entre  os  séculos  XI  e  XIV  caracterizou-se 
pelo  desenvolvimento  da  impessoalidade  e  peia  sua  veiculação  através  do  dinheiro,  res¬ 
tabelecendo  em  novas  condições  o  sistema  de  troca  de  presentes. 

Mas,  ao  constituir-se  como  suporte  dos  contactos  sociais,  o  dinheiro  permitiu  que  os 
elos  de  tipo  familiar  se  reestruturassem  no  plano  impessoal.  Assim  como  a  redução  do 
âmbito  das  famílias  servis  correspondeu  a  um  reforço  dos  vínculos  comunitários  e  a 
circulação  monetária  serviu  de  instrumento  à  reformulação  do  comunitarismo  rural, 
também  o  dinheiro  possibilitou  que  as  relações  parafamiliares  de  tipo  impessoal  atin- 


Lei  do  regime  senhorial  (segunda  rersáol 


577 


gissem  em  cada  reino,  ou  em  cada  principado,  uma  desmesurada  amplitude  e  que  todos 
os  súbditos  fossem  apresentados  como  membros  da  domesticidade  do  soberano.  Suce¬ 
deu  afinal,  à  escala  das  fronteiras,  o  que  havia  acontecido  já  dentro  das  muralhas  urba¬ 
nas,  onde  os  mecanismos  fiscais  converteram  todos  os  cidadãos  em  sócios  da  cidade  e 
ao  mesmo  tempo  serviram  para  renovar  entre  eles  clivagens  muitíssimo  profundas.  Mas 
o  recurso  ao  dinheiro  operara  uma  transformação  decisiva,  porque  no  plano  pecuniário 
as  distinções  sociais  qualitativas  são  reduzidas  a  meras  diferenças  de  quantidade.  Tal 
como  se  verificara  nas  cidades,  também  as  áreas  de  soberania  começaram  a  aparecer 
povoadas  por  classes  e  camadas  sociais  que,  apesar  das  suas  irredutíveis  oposições,  se 
inseriam  todas  num  sistema  de  avaliação  único,  de  maneira  que  a  dilaceração  dos  con¬ 
flitos  pôde  não  ser  incompatível  com  uma  elevada  coesão.  Foi  o  dinheiro  -  e  no  seu 
centro,  enquanto  escala  unificada  de  valores,  o  dinheiro  contabilístico  -  que  sustentou 
este  paradoxo.  O  regime  senhorial,  iniciado  com  a  desagregação  das  famílias  amplas 
numa  miríade  de  unidades  domésticas  distintas,  acabou  por  gerar  um  reduzido  número 
de  enormes  domesticidades  artificiais  e  impessoais.  Cumprido  assim  o  seu  percurso,  o 
regime  senhorial  chegou  ao  termo  da  evolução  quando  recompôs  as  antigas  unidades 
familiares  num  âmbito  nunca  antes  antigido  e  numa  modalidade  de  relacionamento 
também  sem  precedentes. 

Foi  graças  a  esta  operação  que,  nos  séculos  XVII  e  XVIII.  o  sistema  económico  tra¬ 
dicional  entrou  na  crise  decisiva  e  que  nas  suas  ruínas  surgiu  o  capitalismo. 


Conclusão 

DIACRONIA 

CRISE  DOS  SÉCULOS  XIV  E  XV 


CAPÍTULO  15 


SINAIS  DE  CRISE 


Mostrei  já,  com  numerosíssimos  exemplos  (no  capítulo  14  da  Parte  II),  que  o 
grande  movimento  de  arroteamento  de  novas  terras,  ao  qual  se  ficou  a  dever  a  supera¬ 
ção  da  crise  dos  séculos  IX  e  X,  não  foi  provocado  por  qualquer  aumento  da  população, 
deparando  sempre,  pelo  contrário,  com  os  obstáculos  decorrentes  de  um  número  insufi¬ 
ciente  de  braços.  A  subida  dos  preços  dos  géneros  agrícolas,  que  certos  autores  invo¬ 
cam  como  argumento  em  abono  de  uma  alegada  pressão  demográfica  sobre  o 
mercado1,  resultou,  como  sabemos  (ver  o  capítulo  4.b),  das  repetidas  quebras  da 
moeda2,  indispensáveis  à  difusão  do  numerário  entre  a  gente  humilde.  E  mesmo  que 
em  seguida  os  novos  espaços  colonizados  tivessem  aberto  oportunidades  de  cresci¬ 
mento  populacional,  este  processo  não  atingiu  a  dimensão  que  vários  historiadores  lhe 
atribuem.  A  colonização  de  novos  territórios  e  a  fundação  de  novas  povoações  não  sig¬ 
nificavam  que  se  erguessem  obrigatoriamente  outras  aldeias  ao  lado  das  antigas.  Os 
novos  centros  estabeleceram-se  e  prosperaram  graças  ao  declínio  ou  ao  desapareci¬ 
mento  de  centros  anteriores'.  O  que  ocorreu  não  foi  a  multiplicação  do  número  de 
lugares  habitados,  mas  uma  vasta  reordenação  do  habitat,  de  maneira  a  formarem-se 
territórios  compactos,  necessários  para  a  implantação  das  senhorias  impessoais.  E 
quando  algumas  comunidades  rurais  revelavam  a  presença  de  excedentes  demográficos, 
esta  situação  não  indicava  qualquer  tendência  geral  e  denotava  apenas  que  uma  certa 


1  São  muitos  os  autores  que  atribuem  a  um  presumido  aumento  populacional  a  alta  dos  preços 
agrícolas.  Ver  por  exemplo:  G.  Duby  (1962)  217;  B.  H.  Slicher  van  Bath  (1966  a)  105.  Também  R. 
Boutruche  (1968-1970)  II  27-28  e  Ph.  Ziegler  (1997)  17-19  pretendem  que  a  procura  de  alimentos  se 
manteve  superior  à  oferta  ao  longo  de  todo  o  período,  não  tendo  os  desbravamentos  sido  suficientes 
para  resolver  o  problema.  Todavia,  M.  Mollat  et  al.  (1970)  276  consideram  que  o  preço  dos  cereais 
teria  começado  a  declinar  na  primeira  metade  do  século  XIV.  apesar  de  calcularem  que  nessa  época  a 
tensão  demográfica  era  ainda  muito  acentuada.  Com  uma  cronologia  mais  rigorosa,  E.  Perroy  ( 1949) 
171-172  afirma  que  a  crise  das  colheitas  ocorrida  entre  1314  e  1320  levou  a  uma  subida  dos  preços 
agrícolas,  mas  que  logo  em  seguida  eles  desceram  muito  abaixo  do  nível  verificado  antes  da  crise. 

-  J.  Day  (1994)  80  critica  os  historiadores  que  interpretam  o  movimento  dos  preços  neste  período 
em  função  dos  problemas  demográficos  e  que  esquecem  a  questão  monetária  e  as  variações  das  reser¬ 
vas  metálicas. 

1  H.  G.  Barros  (1945-1954)  IV  38;  M.  Beresford  (1954)  151-152:  id.  (1971)  6:  R.  Boutruche 
(1968-1970)  II  27. 


582 


Diacrunia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


rigidez  de  estruturas  impedira  o  fraccionamento  das  famílias  nas  suas  unidades  conju¬ 
gais.  Todo  aquele  enorme  movimento  de  ampliação  dos  limites  externos  e  intentos  do 
regime  senhorial  se  deveu  a  uma  população  escassa,  e  a  fraca  densidade  populacional 
caracterizou  também  os  novos  territórios.  O  mecanismo  motor  dos  desbravamentos  não 
é  na  demografia  que  se  encontra,  mas  na  fuga  ao  peso  das  exacções. 

Pelo  menos  durante  uma  fase  inicial  (recorde-se  o  capítulo  14  da  Parte  II),  os  servos 
em  terras  recentemente  desbravadas  conseguiram  impor  aos  senhores  taxas  de  explora¬ 
ção  menores  do  que  aquelas  que  vigoravam  nas  áreas  de  colonização  antiga.  E  o  movi¬ 
mento  generalizou-se  depois,  porque  também  nos  territórios  de  povoamento  tradicional 
os  senhores  foram  obrigados  a  reduzir  a  taxa  de  exploração,  se  não  queriam  ver  os  seus 
camponeses  migrar.  Aliás,  a  classe  senhorial  não  deixava  de  beneficiar  com  a  situação, 
porque  o  fraccionamento  das  famílias  rurais  e  o  aumento  do  número  de  parcelas  culti¬ 
vadas  ocasionaram  uma  multiplicação  das  prestações,  e  portanto  o  seu  volume  total 
aumentou  sem  ser  necessário  agravar  a  taxa  de  exploração.  Presos,  porém,  nas  malhas 
do  poder  impessoal,  que  se  estabelecia  de  maneira  cada  vez  mais  compacta  e  homogé¬ 
nea,  e  sujeitos  suplementarmente  às  novas  senhorias  pessoais,  organizadas  de  modo 
perfeitamente  regular,  os  camponeses  foram  perdendo  a  iniciativa  social.  E  assim 
esmoreceu  o  impulso  das  migrações  e  dos  desbravamentos,  que  declinaram  e  final¬ 
mente  se  esgotaram. 

Iniciou-se  então  uma  fase  de  retracção  económica,  e  para  que  não  diminuísse  o 
volume  dos  seus  rendimentos  os  senhores  tiveram  de  impor  exacções  mais  pesadas.  O 
uso  generalizado  do  dinheiro  permitiu  à  classe  dominante  proceder  de  maneira  muito 
eficaz  à  drenagem  dos  excedentes.  Além  disso,  todas  as  melhorias  da  produtividade,  e 
mesmo  da  produção  bruta,  serviram  aos  senhores  para  forçarem  os  camponeses  a  acei¬ 
tar  um  aumento  das  prestações4.  Ora.  nas  condições  da  época,  quando  se  vivia  muito 
próximo  do  limiar  da  subsistência,  um  agravamento  da  taxa  de  exploração,  por  pequeno 
que  fosse,  podia  ter  resultados  catastróficos.  Com  efeito,  uma  parte  fixa  da  colheita 
devia  ser  reservada  para  a  sementeira  do  próximo  ano  agrícola  e  outra  parte  destinava- 
-se  ao  pagamento  dos  tributos,  quer  directamente  em  géneros  quer  através  do  dinheiro 
obtido  pela  venda  dos  géneros  no  mercado;  assim,  as  variações  no  volume  da  colheita 
incidiam  apenas  numa  porção  muito  pequena,  dedicada  ao  consumo  da  família  campo¬ 
nesa5.  E  convém  recordar  que  o  aumento  da  quantidade  de  géneros  agrícolas  colocada 
no  mercado  significava  que  os  servos  tinham  de  conseguir  mais  dinheiro  para  satisfazer 
as  exigências  senhoriais,  em  detrimento  do  seu  consumo  próprio,  e  portanto  a  aparente 
abundância  representava,  para  eles,  uma  situação  de  verdadeira  escassez6.  Nestes  ter- 


4  Quanto  a  este  processo  em  geral  ver  W.  Kula  ( 1970)  46.  Também  L.  Genicot  lorg.  1973)  142 
verifica  que  na  Baixa  Lorena  de  expressão  francesa  o  aumento  da  produção  agrícola  ao  longo  do 
período  levou  os  senhores  a  agravarem  as  exacções. 

5  W.  Kula  (1970)  46. 

No  entanto,  por  comparação  com  o  que  havia  sucedido  no  período  anterior,  neste  período  as 
colheitas  deficitárias  já  não  esgotavam  parte  da  semente  destinada  ao  ano  seguinte  e,  portanto,  as  flu¬ 
tuações  da  produtividade  deixaram  de  ter  consequências  tão  nocivas,  observa  R.  S.  Lopez  (1974)  62. 
Mas  este  historiador  acrescenta  (p.  212)  que  era  muito  baixo  o  nível  médio  da  produtividade  agrícola. 

h  E.  Miller  (1964)  34. 


Sinais  Je  crise 


583 


mos.  quanto  maior  fosse  a  parte  ocupada  pelas  exacções  na  produção  total  tanto  mais 
se  fariam  sentir  as  oscilações  da  colheita,  aumentando  a  probabilidade  de  que  um  ano 
agrícola  viesse  a  ser  considerado  mau7.  As  notícias  cada  vez  mais  frequentes  de  maus 
anos  agrícolas  reflectem  as  pressões  da  exploração,  e  não  quaisquer  acréscimos  demo¬ 
gráficos  ou  mudanças  climatéricas*.  Agravada  assim  a  retracção  da  economia  rural, 
podia  até  suceder  que  o  aumento  da  taxa  de  exploração  não  fosse  suficiente  para  com¬ 
pensar  o  declínio  das  exacções  totais.  E  então,  além  de  piorar  o  nível  de  vida  das  famí¬ 
lias  camponesas,  passava  a  suceder  o  mesmo  com  as  famílias  senhoriais.  Quanto  mais  a 
aristocracia  se  apercebia  de  que  o  seu  trem  de  vida  estava  a  ser  comprometido  tanto 
mais  procurava  exacerbar  a  exploração,  contribuindo  afinal  para  aprofundar  a  crise. 
Progressivamente,  ao  longo  do  século  XIII  foram-se  multiplicando  os  anos  de  fome9,  a 
tal  ponto  que  os  casos  de  antropofagia,  de  que  não  havia  memória  desde  o  final  do  pri¬ 
meiro  terço  do  século  XI,  parece  terem-se  tomado  bastante  frequentes  no  termo  do 
século  XIII  e  no  começo  do  século  seguinte10. 


7  O  facto  de  uma  boa  colheita  permitir  aos  senhores  agravar  as  exacções  levava  à  subida  da  taxa 
média  de  exploração  e.  por  conseguinte,  aumentava  o  número  de  anos  agrícolas  considerados  maus, 
observa  W.  Kula  (1970)46. 

s  M.  W.  Beresford  ( 1971 )  20.  por  exemplo,  sustenta  que  se  verificou  uma  deterioração  do  clima 
em  toda  a  Europa  ocidental  no  final  do  século  XIII.  M.  Bouard  (org.  1970)  215  defende  que  a  muta¬ 
ção  climática  foi  um  dos  principais  factores  que  contribuíram  para  desencadear  a  crise  agrícola  na 
Normandia  no  século  XIV.  Por  sua  vez,  E.  Foumial  (1967)  323-324  sugere  a  hipótese  de  que  a  conti¬ 
nuação  do  declínio  populacional  mesmo  após  a  mortandade  provocada  pela  Peste  Negra  se  tivesse 
devido  a  variações  no  clima.  Numa  perspectiva  oposta,  e  protestando  contra  o  emprego  de  explica¬ 
ções  extra-sociais  para  os  fenómenos  históricos.  J.  Le  Goff  et  al.  (1965)  19  observam  que  alguns  auto¬ 
res  atribuem  às  variações  do  clima  o  recuo  da  cultura  cerealífera  em  dadas  regiões  e  épocas,  precisa¬ 
mente  quando  se  sabe  que  na  mesmo  ocasião  e  nos  mesmos  lugares  prosperavam  certos  tipos  de  cul¬ 
tivo  absolutamente  incompatíveis  com  aquelas  pretensas  alterações  climáticas. 

v  J.  Dhondt  (1976)  266-267  assegura  que  a  última  das  grandes  fomes  anteriores  ao  século  XIII 
ocorreu  no  final  do  pnmeiro  terço  do  século  XI  e  assolou  toda  a  Europa,  desde  a  Grécia  até  à  Ingla¬ 
terra.  Também  G.  Duby  (1962)  217  e  548  admtte  que  as  fomes  generalizadas,  que  no  primeiro  terço 
do  século  XI  se  haviam  ainda  manifestado  de  maneira  dramática,  tomaram-se  mais  raras  ou  mesmo 
desapareceram,  para  surgirem  de  novo  a  partir  dos  meados  do  século  XIII.  Em  M.  Chaume  (1925- 
-1937)  II  251-256  encontra-se  uma  lista  de  más  colheitas  e  outras  calamidades  sofridas  pela  Borgonha 
desde  o  final  do  segundo  terço  do  século  VHI  até  à  grande  fome  que  grassou  nos  últimos  anos  do  terço 
inicial  do  século  XI.  Segundo  J.  W.  Thompson  (1959)  763,  toda  a  área  do  regime  senhorial  foi  devas¬ 
tada  pela  falta  de  alimentos  na  passagem  do  primeiro  para  o  segundo  quartel  do  século  XIII.  no 
começo  do  segundo  terço  desse  século  e  novamente  na  sua  penúltima  década,  e  outra  fome  fez  nume¬ 
rosas  vítimas  na  segunda  década  do  século  seguinte.  No  entanto,  a  cronologia  defendida  por  Jan 
Dhondt  e  Georges  Duby  é  posta  em  causa  por  James  Westfall  Thompson  em  op.  cit.,  ibid..  ao  referir 
que  teria  hav  ido  uma  fome  generalizada  nos  meados  do  século  XII  e  outra  nos  últimos  anos  desse 
século.  Por  seu  lado,  R.  Fossier  torg.  1974)  124-125  escreve  que,  até  ao  século  XIV,  as  últimas  gran¬ 
des  fomes  da  Europa  ocidental  ocorreram  no  pnmeiro  ou  no  segundo  quartel  do  século  XII;  e  H.  G. 
Barros  (1945-1954)  V  125-126  indica  que  toda  a  Europa  foi  assolada  por  uma  fome  no  final  do  ter¬ 
ceiro  quartel  do  século  XII.  C.  M.  Cipoila  (1976)  152-153  pretende  mesmo  que  só  a  baixa  densidade 
populacional  limitou  os  efeitos  das  fomes  e  epidemias  ocorridas  desde  o  século  XI  até  ao  século  XIII, 
mas  com  a  acumulação  do  crescimento  demográfico  no  século  XIV  e  a  concentração  de  habitantes  nas 
cidades  a  situação  se  teria  modificado,  de  maneira  que  a  partir  de  então  a  peste  se  tomou  endémica. 

10  Segundo  J.  W.  Thompson  ( 1959)  124,  conhecem-se  casos  de  antropofagia  em  Itália  nos  mea¬ 
dos  do  século  VI.  quando  as  campanhas  militares  iniciadas  às  ordens  do  imperador  do  Oriente  acarre- 


584 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  AW  e  XV 


A  ameaça  da  fome  tomou-se  tanto  mais  presente  quanto  a  alimentação  dos  campo¬ 
neses  sofreu  profundas  transformações  ao  longo  deste  período,  passando  os  cereais  a 
ocupar  uma  posição  hegemónica  e  diminuindo  substancialmente  o  consumo  de  legu¬ 
mes  e  de  produtos  dos  incultos;  além  disso,  a  carne,  ou  pelo  menos  certo  tipo  de  carne, 
ficou  reservada  para  os  privilegiados1 '.  Sabemos  já  (ver  na  Parte  1  o  capítulo  22. a)  que 
no  período  anterior  tanto  os  incultos  como  os  espaços  de  cultura  intensiva  haviam  for¬ 
necido  uma  boa  parte  do  sustento  da  população  rural,  mas  os  desbravamentos  e  a  difu¬ 
são  da  senhoria  impessoal  alteraram  a  situação,  por  três  razões,  estreitamente  conjuga¬ 
das  entre  si. 

O  recuo  dos  bosques  foi  o  primeiro  destes  motivos,  mas  não  o  mais  importante,  por¬ 
que,  apesar  de  tudo  (ver  o  capítulo  16.c  da  Parte  II),  os  incultos  não  ficaram  tão  distan¬ 
tes  dos  lugares  de  habitação  que  o  seu  acesso  fosse  completamente  impossível,  nem  a 
sua  extensão  se  reduziu  ao  ponto  de  tomar  rara  a  variedade  de  alimentos  que  antes  pro¬ 
porcionavam.  Sob  este  ponto  de  vista,  o  factor  decisivo  consistiu  na  autoridade  rigorosa 
que  os  senhores  passaram  a  impor  sobre  os  incultos,  dificultando  ou  vedando  aos  cam¬ 
poneses  uma  utilização  que  antes  havia  sido  aberta  e  generalizada  (ver  o  capítulo  8.d  da 
Parte  II).  Foi  o  exercício  mais  severo  do  bannum  que  obrigou  a  gente  rural  a  dispensar 
da  sua  alimentação  géneros  a  que  tradicionalmente  recorrera12. 

A  redução  drástica  da  variedade  dos  alimentos  e  a  concentração  da  dieta  num  único 
mantimento  básico  expuseram  os  servos  às  crises  agrícolas,  impedindo-os  de  suprir  a 
escassez  temporária  de  cereal  pelo  recurso  a  outros  víveres,  tanto  mais  que.  em  terceiro 
lugar,  a  monetarização  das  prestações  levara-os  a  ampliar  a  superfície  plantada  com  os 
géneros  mais  facilmente  comercializáveis.  Era  necessário  vender  no  mercado  para 


taram  enormes  destruições  e  uma  miséria  generalizada.  E  voltou  a  comer-se  carne  humana  no  império 
carolíngio,  durante  uma  fome  ocorrida  na  última  década  do  século  VIII.  como  indicam  R.  Doehaerd 
( 1971)  58  e  H.  Fichtenau  (1963)  150.  Em  op.  cii..  59.  Renée  Doehaerd  cita  outros  exemplos  de  antro¬ 
pofagia  por  ocasião  das  grandes  fomes  de  868  e  1005.  No  sul  da  França  e  na  Itália,  D.  Herlihy  (1958 
a)  31  regista  a  ocorrência  de  antropofagia  e  de  necrofagia  no  século  X.  Depois,  durante  a  grande  fome 
que  grassou  no  final  do  primeiro  terço  do  século  XI,  e  a  que  me  referi  já  na  nota  anterior.  James  West- 
fall  Thompson  em  op.  cit..  763  volta  a  evocar  a  prática  da  antropofagia  e  R.  Latouche  ( 1956  c)  345 
acrescenta  mesmo  que  na  feira  de  Toumus.  na  Borgonha.  não  longe  de  Cluny,  se  vendeu  então  carne 
humana  cozinhada.  A  partir  dessa  data  não  encontro  mais  menções,  até  ler  em  Ph.  Ziegler  (1997)  19 
que  a  antropofagia  se  tomara  comum  no  final  do  século  XIII  e  no  início  do  século  XIV.  Mais  circuns¬ 
pectos  são  L.  Genicot  (1966  b)  673,  que  admite  apenas  a  possibilidade  de  episódios  de  antropofagia 
na  Alsácia  durante  as  grandes  fomes  da  primeira  metade  do  século  XIV.  e  I.  Kershaw  (1973)  9-10, 
que  se  limita  a  indicar  a  eventualidade  de  actos  de  antropofagia  na  Inglaterra  em  virtude  da  fome  de 
1316. 

1 1  M.  Montanari  (1980)  80-83:  id.  ( 1985)206. 

Não  sei  com  que  fundamento.  G.  Duby  ( 1962)  570-571  pretende  que  na  época  de  crise  teria  ocor¬ 
rido  uma  mudança  nos  hábitos  alimentares,  diminuindo  o  consumo  de  pão  e  aumentando  o  consumo 
de  carne  e  de  lacticínios. 

12  M.  Montanari  (1985)  204-205  e  211-212  mostra  como  as  relações  sociais  foram  responsáveis 
pelas  modificações  operadas  na  dieta  da  classe  senil.  Todavia,  a  propósito  da  França.  G.  Antonetti 
(1963)  257  pretende  que  a  crise  dos  séculos  XIV  e  XV,  levando  a  uma  redução  da  população  e  da 
área  cultivada  e  a  um  aumento  da  superfície  inculta,  fez  com  que  os  senhores  opusessem  menos  difi¬ 
culdades  à  utilização  dos  bosques  pelos  camponeses.  No  mesmo  sentido  pode  ler-se  Th.  Sclafert 
( 1959)  94  a  respeito  do  sucedido  na  alta  Provença. 


Sinais  de  crise 


585 


obter  o  numerário  com  que  se  devia  pagar  o  tributo,  e  os  cereais  eram  o  produto  agrí¬ 
cola  que  gozava  de  maior  procura.  Assim,  a  área  de  cultura  extensiva  dilatou-se  em 
detrimento  não  só  dos  incultos,  mas  igualmente  da  cintura  de  cultura  intensiva,  reme¬ 
tendo  portanto  também  os  produtos  das  hortas  para  um  lugar  marginal  na  subsistência. 
Na  verdade,  as  consequências  deste  processo  foram  ainda  agravadas.  Como  variava 
muito,  consoante  os  anos,  a  percentagem  da  colheita  que  os  servos  deviam  vender  para 
obter  a  soma  de  dinheiro  exigida  pelos  senhores,  tomava-se  necessária  a  precaução  de 
plantar  com  cereal  uma  área  muito  mais  vasta  do  que  aquela  que,  na  maior  parte  dos 
casos,  bastaria  ao  cumprimento  das  exacções13.  E  com  o  agravamento  da  taxa  de  explo¬ 
ração,  quanto  mais  frequentemente  se  sucediam  os  anos  considerados  maus  tanto  mais 
extensa  tendia  a  ser  a  superfície  destinada  aos  cereais.  A  situação  apresentava-se  da 
mesma  maneira  quando  os  tributos,  embora  pagos  em  géneros,  eram  avaliados  pelo 
preço  que  tais  géneros  obtinham  no  mercado.  Bastava  a  sua  integração  no  quadro  do 
dinheiro  contabilístico  para  que  ocorresse  a  monetarização  das  prestações.  Pagos  os  tri¬ 
butos  e  posta  de  lado  a  parte  da  colheita  requerida  para  semente,  o  cereal  que  sobrasse 
servia  para  o  sustento  da  própria  família  servil.  E  deste  modo  a  difusão  das  exacções 
em  dinheiro,  alterando  o  conteúdo  do  autoconsumo,  contribuiu  também  para  a  modifi¬ 
cação  dos  hábitos  alimentares  dos  rurais,  que  em  grande  medida  passaram  a  depender 
de  um  género  único.  Uma  crise  na  colheita  de  cereal  deixou  de  poder  ser  compensada 
pela  criação  de  gado,  pela  apanha  de  alimentos  nos  incultos  e  pela  produção  das  hortas: 
e  a  sustentação  dos  servos,  além  de  todos  os  inconvenientes  resultantes  da  falta  de 
variedade,  ficou  exposta  aos  mecanismos  da  exploração  e  às  suas  repercussões  sobre  o 
mercado.  Compreende-se.  então,  que  não  só  as  grandes  fomes  se  tivessem  tomado  sem¬ 
pre  mais  frequentes,  mas  que  mesmo  nos  anos  considerados  normais  a  deficiência  ali¬ 
mentar  fosse  a  regra,  dando  origem  a  uma  subnutrição  crónica14. 

Como  uma  população  sistematicamente  subnutrida  ficava  com  menor  resistência 
física  às  doenças,  tomaram-se  mais  comuns  e  mais  mortíferas  as  epidemias15;  e  como 
eram  os  pobres  quem  se  alimentava  pior,  as  epidemias  faziam  relativamente  menos  víti- 


13  G.  Duby  ( 1%2)  571. 

14  Perante  esta  situação,  é  estranho  que  A.  H.  O.  Marques  ( 1968)  151  sustente  que  as  crises  de 
subsistências  só  se  faziam  sentir  no  meio  urbano,  já  que  mesmo  em  épocas  de  escassez  os  campone¬ 
ses  disporiam  geralmente  do  suficiente  para  não  morrer  de  fome. 

15  O  grande  perigo  não  era  a  fome  aguda,  observa  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  84.  mas  a  falta 
prolongada  de  alimentos  suficientemente  nutritivos;  este  especialista  acrescenta  que  a  subnutrição  sis¬ 
temática  aumentava  a  probabilidade  de  difusão  de  epidemias  e  agravava  a  mortalidade  que  elas  pro¬ 
vocavam.  Ver  igualmente:  J.  Cliapelot  et  al.  (1980)  21-22;  G.  Duby  (1962)  219:  G.  Fourquin  (1975) 
299-301;  D.  Herlihy  (1967)  114,  119;  R.  H.  Hilton  (1951)  29-30;  E.  Miller  (1964  )  34;  E.  Perroy 
(1949)  179;  Ph.  Ziegler  ( 1997)  21.  Os  arquivos  episcopais  de  Winchester  relativos  à  segunda  metade 
do  século  XIII  e  à  primeira  metade  do  século  XIV  revelam  que  as  oscilações  da  curva  da  mortalidade 
acompanhavam  de  muito  perto  as  oscilações  da  curva  das  colheitas,  como  explica  G.  Dubv  (1962) 
219. 

Entre  o  século  X  e  o  século  XIII  não  se  generalizaram  epidemias  na  área  do  regime  senhorial,  tal¬ 
vez  com  excepçáo  da  lepra,  afirma  R.  S.  Lopez  (1965)  120,  acrescentando  que  deixaram  de  ser  men¬ 
cionadas  grandes  pestes  e  que  a  malária  assumiu  uma  forma  mais  benigna.  E  o  mesmo  historiador,  em 
(1974)  48.  assegura  que  desde  a  peste  de  742-743  até  à  Peste  Negra  não  se  registou  na  área  do  regime 
senhorial  qualquer  grande  calamidade  generalizada. 


586 


Diacronia.  Crise  tios  séculos  XIV  e  XV 


mas  entre  as  famílias  abastadas16.  Este  processo  culminou  na  grande  peste  dos  meados 
do  século  XIV17,  a  Peste  Negra18,  que  devastou  a  área  do  regime  senhorial  entre  1347  e 
1353  e  foi  seguida  por  surtos  periódicos  de  moléstia.  Há  quem  justifique  o  apareci¬ 
mento  da  Peste  Negra  com  a  indicação  de  que  ela  começara  algures  no  Oriente,  talvez 
na  Ásia  central,  e  que  a  partir  daí  grassara  em  várias  direcções  com  uma  violência 
invencível,  nada  sendo  mais  natural  do  que  a  sua  difusão  na  Europa19.  As  doenças, 
porém,  do  mesmo  modo  que  as  técnicas  e  as  ideologias,  não  se  propagam  onde,  e 
quando,  não  houver  condições  para  isso.  Aquelas  terríveis  mortandades  foram  a  expres¬ 
são  biológica  mais  drástica  da  evolução  das  relações  de  exploração,  mas  os  fenómenos 
demográficos  servem  a  muitos  historiadores  precisamente  para  ocultar  os  antagonismos 
entre  as  classes  por  detrás  da  aparência  das  manifestações  da  natureza.  Ao  atribuírem- 
-se  a  causas  naturais  as  consequências  das  contradições  sociais  os  sistemas  de  explora¬ 
ção  ficam  absolvidos  das  suas  responsabilidades  e,  ao  mesmo  tempo,  fica  desestrutu- 
rada  a  história,  já  que  os  fenómenos  da  natureza  são  apresentados  sempre  como  cata¬ 
clismos  exteriores.  Os  historiadores  que  invocam  razões  demográficas  para  explicar  a 
grande  peste  dos  meados  do  século  XIV  pretendem  que  ela  constituiu  a  reacção  a  um 
alegado  excedente  populacional,  que  viria  a  acumular-se  desde  o  século  XII,  de 
maneira  que  a  mortandade  restabeleceria  o  equilíbrio  entre  a  quantidade  de  habitantes  e 
o  volume  de  recursos  agrícolas20.  Todavia,  os  adeptos  deste  tipo  de  estimativas  afir¬ 
mam  igualmente  que  a  população  estava  em  decréscimo  algumas  décadas  antes  dos 
meados  do  século  XIV21.  Se  assim  foi,  os  mecanismos  reguladores  da  demografia 
teriam  já  entrado  em  funcionamento  e  é  inexplicável  que  se  pudesse  desencadear  uma 
reacção  tão  violenta  como  a  Peste  Negra  só  para  abater  um  eventual  excedente  popula¬ 
cional  que  estaria  a  ser  corrigido  por  outros  meios. 

Como  assinalei  (no  capítulo  15.a  da  Parte  II),  o  próprio  facto  de  algumas  regiões  se 
terem  conservado  imunes  ao  percurso  da  epidemia22  ajuda-nos  a  esclarecer  as  condi¬ 
ções  que  propiciaram  a  doença,  já  que  em  casos  como  este  as  excepções  são  fundamen- 


16  D.  Herlihy  (1967)  1 1 1  admite  que  as  epidemias  fizessem  mais  vítimas  entre  os  pobres  do  que 
entre  os  ricos.  Os  arquivos  do  bispado  de  Winchester,  que  mencionei  na  nota  anterior,  mostram  a  rela¬ 
ção  entre  o  nível  de  fortuna  e  o  grau  de  mortalidade  nas  epidemias,  consoante  indica  G.  Duby  (1962) 
219.  E  o  mesmo  historiador  considera  (pp.  535-337,  565)  que.  em  geral,  entre  os  camponeses  mais 
pobres  e  os  jornaleiros  a  taxa  de  mortalidade  era  superior  à  média. 

17  Ph.  Ziegler  (1997)  12.  14-16  e  28-29  indica  que  a  terrível  epidemia  dos  meados  do  século  XIV 
conjugou  três  formas  de  peste:  a  bubônica,  a  pneumónica  e  a  septicémica. 

18  Id.,  ibid..  5  adverte  que  a  expressão  Peste  Negra  só  no  século  XVIII  se  tomou  de  uso  comum 
para  designar  a  grande  calamidade  dos  meados  do  século  XIV,  e  que  nomes  semelhantes  haviam  ser¬ 
vido  frequentemente  para  denominar  outras  epidemias. 

19  Id..  ibid..  12  e  segs. 

20  C.  M.  Cipolla  ( 1976)  154:  M.  Devèze  (1966)  CCXXXV  380.  E.  Fournial  (1967)  323:  M.  Mol- 
lat  et  al.  (1970)  275;  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  89 

21  M.  Beresford  (1954)  202:  id.  (1967)  305-306;  F.  L.  Carsten  ( 1954)  101;  J.  Chapclot  et  al.  (1980) 
167;  G.  Duby  (1962)  218-219,  553-555,  565;  P.  Feuchère  ( 1952-1957)  39;  F.  Gies  et  al.  ( 1987)  226. 
228-229;  D.  Herlihy  (1967)  1 16;  id.  (1968)  270.  R  H.  Hilton  (1951)  24;  I.  Kershaw  <  1973)  48.  50;  R. 
S.  Lopez  ( 1974)  50;  M.  M.  Postan  ( 1966)  569;  id.  ( 1978  a)  42;  Th.  Sclafert  <  1959)  87. 

22  Encontra-se  uma  representação  cartográfica  dos  progressos  da  grande  epidemia  e  das  áreas  que 
ela  poupou  em  G.  Barraclough  (org.  1979)  142-143 


Sinais  de  crise 


5S7 


tais  para  se  estabelecer  a  regra.  Verificamos,  então,  que  a  única  área  de  vastas  dimen¬ 
sões  em  que  a  Peste  Negra  não  fez  vítimas  foi  a  Polónia23,  prectsamente  onde  o  movi¬ 
mento  migratório  e  colonizador  se  mantinha  activo  nos  meados  do  século  XIV  e  na 
segunda  metade  desse  século.  Beneficiando  da  vizinhança  polaca,  a  Boémia,  sobretudo 
na  fronteira  com  a  Silésia,  sofreu  uma  devastação  menor  do  que  a  experimentada  pela 
generalidade  das  regiões24.  Se  a  epidemia  poupou  a  Polónia  e  se  continuava  aí  aberta  a 
possibilidade  de  atenuar  as  tensões  sociais  através  da  colonização  de  novos  territórios, 
é  muito  possível  que  tivesse  sido  esta  mesma  a  razão  por  que  não  ocorreram  pogroms 
nesse  reino  nos  meados  do  século  XIV25.  E  será  ocasional  que  a  grande  peste  também 
tivesse  evitado  em  boa  medida  a  Flandres26,  quando  sabemos  que  na  Baixa  Lorena  de 
expressão  francesa,  e  igualmente  na  Holanda,  pouco  se  fez  sentir  a  crise  da  economia 
rural27?  Ora,  de  todas  as  regiões  de  povoamento  tradicional,  foram  os  Países  Baixos 
que  sustentaram  até  mais  tarde  um  amplo  caudal  de  emigrantes  (ver  na  Parte  II  o  capí¬ 
tulo  15.b).  Aliás,  constatamos  que  já  na  primeira  metade  do  século  XIV  as  áreas  da 
Inglaterra  mais  afectadas  pelos  sintomas  da  crise  agrária,  e  talvez  também  por  uma 
queda  demográfica,  se  caracterizavam  por  uma  menor  densidade  populacional,  precisa¬ 
mente  por  serem  tradicionalmente  as  mais  pobres28.  Devemos  ainda  reflectír  sobre  o 
facto  de  a  peste  não  se  ter  transmitido  directamente  da  Crimeia  a  Moscovo  e,  em  vez 
disso,  ter  seguido  as  rotas  do  tráfico  de  longo  curso  desde  a  Crimeia  até  aos  portos 
meridionais  do  regime  senhorial,  devastando  então  rapidamente  as  áreas  rurais  e  urba¬ 
nas  deste  regime  e  sendo  depois  levada  por  mercadores  dos  portos  hanseáticos  para 
Moscovo29.  Não  espanta  que  as  grandes  cidades,  onde  chegava  gente  vinda  de  muito 
longe  e  que  tinham  péssimas  condições  sanitárias,  fossem  atingidas  com  relativa  facili¬ 
dade  pelas  doenças.  Mas  o  facto  de  as  regiões  rurais  da  Rússia  não  terem  deixado  pas¬ 
sar  uma  peste  que  grassou  nos  campos  do  Ocidente  é  revelador.  O  périplo  da  epidemia 


2  3  Ph.  Ziegler  <  1 997  >  94. 

24  J.  M.  Klassen  ( 19781  15:  Ph.  Ziegler  1 1997)  94.  202. 

25  Ph.  Ziegler  (1997)  87  considera  possível  que  a  ausência  de  pogroms  na  Polónia  se  tivesse 
devido  ao  facto  de  uma  amante  do  rei  ser  judia.  Mas  conhecem-se  bastantes  casos  em  que  os  sobera¬ 
nos  pretenderam  evitar  a  chacina  da  população  judaica  sem  o  conseguirem,  pois  o  anti-semitismo  era 
um  fenómeno  predominantemente  plebeu,  e  mesmo  quando  os  reis  e  príncipes  se  viravam  contra  os 
Judeus,  eles  faziam-no  com  o  apoio  da  geme  humilde.  A  especificidade  da  Polónia  deveu-se  certa¬ 
mente  mais  aos  súbditos  do  que  ao  monarca,  e  se  os  episódios  sentimentais  não  foram  importantes 
como  causa,  talvez  o  tivessem  sido  como  sintoma  de  uma  situação  em  que  o  anti-semitismo  não  assu¬ 
mira  a  virulência  que  o  caracterizou  no  restante  regime  senhorial. 

2tl  ld.,  ibid.,  94  indica  que  a  epidemia  poupou  uma  área  entre  a  França,  a  Germânia  e  os  Países 
Baixos. 

27  Se  se  puder  extrapolar  para  toda  a  região  o  que  se  conhece  acerca  do  Namurois,  parece  que  a 
Baixa  Lorena  francófona  não  sofreu  a  crise  agrícola  do  século  XIV.  Ver  a  este  respeito  L.  Genicot 
(1943-1995)  III  117  e  id.  (org.  1973)  142.  Estudando  os  arquivos  da  abadia  cisterciana  de  Douai. 
cujas  terras  se  espalhavam  pela  Vaiónia  e  pelo  Artois,  R.  Fossier  et  al.  (1955)  I  438-441,  444  e  446 
chegam  à  conclusão  de  que  as  flutuações  da  produção  agrícola  deste  conjunto  senhorial  ao  longo  do 
século  XIV  se  deveram  a  guerras  e  a  levantamentos  camponeses,  e  não  à  grande  peste,  e  que  a  crise 
poupou  em  boa  medida  aquelas  duas  regiões.  Por  seu  lado,  G.  Duby  (1962)  545  escreve  que  não  foi 
sentida  na  Holanda  a  recessão  económica  no  século  XIV. 

2S  1.  Kershaw  <  1973)  48-49. 

24  Ph.  Ziegler  (1997)  28-29. 


588 


Diucronia.  Crise  cios  séculos  X TV  e  XV 


confirma  que  a  situação  em  que  vivia  nos  meados  do  século  XIV  a  esmagadora  maioria 
da  população  sujeita  ao  regime  senhorial  a  expunha  particularmente  ao  contágio. 

Depois  de  ter  procurado  provar  que  a  Peste  Negra  foi  um  efeito  de  processos  ocorri¬ 
dos  no  plano  social,  vou  tentar  mostrar  que  mesmo  as  suas  consequências  foram  menos 
drásticas  do  que  usualmente  se  supõe.  É  certo  que  a  margem  entre  o  número  de  nasci¬ 
mentos  e  o  número  de  mortes  era  relativamente  estreita  naquela  época,  e  por  isso  uma 
alteração  ligeira  podia  ter  repercussões  muito  consideráveis-30.  Mas  o  colapso  popula¬ 
cional  provocado  pela  grande  epidemia  ocorreu  num  prazo  curto  e  não  serve,  por  si  só, 
para  explicar  fenómenos  de  longa  duração.  Além  de  ser  muito  concentrado  no  tempo,  o 
acréscimo  da  taxa  de  mortalidade  atingiu  preferencialmente  as  camadas  etárias  mais 
vulneráveis,  ou  seja,  as  crianças  e  os  idosos,  poupando  em  especial  os  adultos  jovens.  E 
como  eram  precisamente  estes  quem  tinha  possibilidade  de  procriar  e  de  reconstituir  a 
população,  a  queda  demográfica  da  segunda  metade  do  século  XIV  foi  demasiado  pro¬ 
longada  para  que  possa  ser  atribuída  à  peste.  Esse  declínio  populacional  não  se  deveu 
tanto  a  um  aumento  da  taxa  de  mortalidade  como  sobretudo  a  uma  diminuição  da  taxa 
de  nascimentos,  que  vinha  já  a  revelar-se  desde  as  primeiras  décadas  do  século  XIII. 
Foi  a  crise  dos  nascimentos  que  perdurou  a  longo  prazo,  impedindo  a  população  de  vol¬ 
tar  aos  seus  níveis  normais  a  seguir  à  peste.  Ora,  dos  vários  elementos  que  contribuíam 
para  as  variações  demográficas,  era  a  taxa  de  natalidade  que  mais  directamente  reflectia 
as  condições  económicas  e  sociais.  A  generalização  da  pobreza  aumentava  o  número  de 
famílias  incapazes  de  sustentar  muitas  crianças  e.  portanto,  influenciava  os  nascimentos 
em  sentido  negativo.  Só  neste  quadro,  e  dentro  destes  limites,  é  que  as  questões  demo¬ 
gráficas  se  converteram,  de  efeito,  num  factor  acessório,  contribuindo  para  agravar  a 
crise  mais  geral31. 

Aliás,  uma  análise  da  cronologia  mostra  que  vários  fenómenos  muitas  vezes  atribuí¬ 
dos  à  Peste  Negra  ou  se  iniciaram  antes  ou  assumiram  as  suas  formas  mais  pronuncia¬ 
das  numa  data  demasiado  tardia  para  poderem  ser  considerados  como  um  efeito  da  ter¬ 
rível  mortandade.  Para  estudar  épocas  em  que  não  se  registavam  estatisticamente  todos 
os  habitantes,  a  demografia  não  tem  outro  recurso  senão  os  indícios  indirectos.  Mas 


-,0  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  83. 

31  Num  trecho  notável,  D.  Herlihy  (1967)  11 1-120  e  145  esclareceu  este  processo,  observando 
que  o  declínio  demográfico  posterior  à  Peste  Negra  se  deveu  mais  às  variações  da  taxa  de  nascimen¬ 
tos  do  que  às  da  taxa  de  mortalidade,  e  mostrando  as  determinantes  económico-sociais  que  actuavam 
sobre  a  taxa  de  nascimentos.  Também  Ph.  Jones  (1974)  1486-1487  destaca  a  importância  da  taxa  de 
natalidade  para  explicar  as  mudanças  demográficas  e  acrescenta  que  o  controlo  dos  nascimentos 
representa  uma  reacção  às  condições  económicas  prevalecentes:  este  autor  inclina-se  tpp.  1487-14X8) 
a  atribuir  às  modificações  económicas  a  prioridade  causal  sobre  as  alterações  demográficas.  Por  seu 
lado.  Ph.  Ziegler  ( 1997)  20-21.  embora  critique  as  teses  nialtusianas  e  considere  que  elas  não  expli¬ 
cam  o  facto  de  a  população  ter  continuado  a  diminuir  durante  décadas  após  o  grande  travão  demogrᬠ
fico  constituído  pela  Peste  Negra,  pretende  que  é  desconhecida  a  solução  do  problema.  Quanto  ao 
facto  de  aigunias  crónicas  coevas  terem  tendência  a  dar  um  relevo  indevido  às  mortes  de  adultos 
jovens,  ver  Philip  Ziegler.  op  cit..  61.  Este  autor  referindo  Josiah  Cox  Russell.  indica  (p.  140)  que  a 
peste  vitimou  sobretudo  as  pessoas  idosas,  sendo  maior  a  resistência  manifestada  pelos  adultos 
jovens;  mas,  contrariamente  ao  afirmado  por  David  Herlihy  em  u/>  <•«..  III.  acrescenta  que  a  resis¬ 
tência  das  crianças  foi  superior  à  de  todas  as  outras  faixas  etariax 


Sinais  de  crise 


589 


o  problema  é  que  qualquer  destes  indícios  pode  perfeitamente  assinalar  situações  muito 
diferentes. 

Comecemos  pela  queda  dos  preços  cerealíferos32  e  pela  crise  dos  rendimentos 
senhoriais'',  que  tantos  autores  gostam  de  invocar  a  propósito  da  segunda  metade  do 
século  XIV  e  dos  inícios  do  século  XV.  O  facto  de  os  rendimentos  da  aristocracia  terem 
sido  afectados  não  revela,  por  si  só,  qualquer  crise  económica  e  assinala  uma  diminui¬ 
ção  da  taxa  de  exploração,  resultante  das  revoltas  camponesas  e  de  outros  factores 
objectivos34.  Ora,  sendo  dada  a  relação  dos  servos  com  o  mercado,  em  que  o  produto 


«  Ph.  Dollinger  (org.  1970)  140;  G.  Duby  (1962)  570-571.  583-585,  618-619;  L.  Genicot  (1966 
b)  662-663;  E.  Perroy  et  al.  ( 1955)  473-474;  B.  H.  Slicher  van  Bath  (1966  a)  106,  178. 

A  crer  em  J.  Valdeón  Baruquc  ( 1976)  88,  no  reino  de  Castela  o  preço  do  trigo  aumentou  em  ter¬ 
mos  absolutos  ao  longo  do  século  XIV,  mas  diminuiu  relativamente,  por  comparação  com  a  subida 
dos  outros  preços. 

E.  Baratier  (org.  1969)  197;  E.  L.  Carsten  (1954)  107-108;  G.  Duby  (1962)  571-572,  597;  E. 
Foumial  ( 1967)  362;  G.  Fourquin  ( 1964)  279;  Ch.  Higounet  (org.  1971)  228;  R.  H.  Hilton  (1969)  43; 
id.  ( 1975)  58;  D.  Ntcholas  (1976)  19-20;  E  Perroy  et  al.  (1955)  475-479;  M.  Postan  ( 1938-1939)  166- 
-167;  id.  (1978  a)  194. 

Analisando  a  situação  da  alta  nobreza  na  Inglaterra  durante  a  segunda  metade  do  século  XIV.  G. 
A.  Holmes  (1957)  90,  1 14-1 16  e  119-120  conclui  que  o  declínio  catastrófico  dos  rendimentos  não  foi 
provocado  pela  grande  peste  e  que  ocorreu  posteriormente,  no  último  terço  daquele  século. 

14  E.  Perroy  ( 1949)  182  admite  que  a  crise  iniciada  no  século  XIV  tivesse  reduzido  as  diferenças 
sociais,  atingindo  por  um  lado  os  senhores,  mas  melhorando  por  outro  lado  a  posição  dos  assalariados 
e  dando  lugar  ao  enriquecimento  de  bastantes  camponeses.  Também  C.  M.  Cipolla  (1976)  201-202  e 
D.  Herlihy  (1968)  275-276  asseguram  que  na  segunda  metade  do  século  XIV  e  ao  longo  do  século 
seguinte  os  camponeses  viram  a  sua  situação  prosperar  reiativamente  à  dos  senhores.  No  mesmo  sen¬ 
tido.  e  depois  de  chamar  a  atenção  para  o  facto  de  não  se  dever  referir  uma  crise  da  economia  global- 
mente  considerada,  G.  Duby  (1962)  543  afirma  que  a  crise  dos  sistemas  de  exploração  senhoriais  per¬ 
mitiu  a  transferência  de  forças  produtivas  da  aristocracia  para  os  camponeses,  de  maneira  a  poder 
encetar-se  a  recuperação  económica  na  segunda  metade  do  século  XIV.  Por  seu  turno.  E.  A.  Kos- 
minsky  ( 1957)  560-563  e  568  circunscreve  ã  Inglaterra  a  depressão  económica  dos  séculos  XIV  e 
XV,  observando  em  seguida  (pp.  565,  567)  que  uma  decadência  representa  sempre  o  crescimento  de 
algo  que  é  novo  e.  neste  caso.  a  redução  da  taxa  de  exploração  teria  suscitado  condições  propícias  ao 
desenvolvimento  do  capitalismo,  encabeçado  pelos  camponeses  abastados.  Referindo-se  ígualmente  à 
Inglaterra.  M.  M.  Postan  (1966)  595-597  conjuga  a  crise  sofrida  pela  classe  senhorial,  sobretudo  pelos 
grandes  senhores,  com  a  melhoria  de  situação  conseguida  pelos  camponeses  mais  prósperos.  R.  H. 
Hilton  (1951)  30  escreve  também  que  os  camponeses  abastados  beneficiaram  da  crise  da  economia 
senhorial  e  deram  lugar,  séculos  depois,  à  classe  dos  capitalistas  rurais;  mas  o  mesmo  historiador,  em 
(1977-1978)  279-281,  considera  verosímil  que  na  segunda  metade  do  século  XIV  e  na  primeira 
metade  do  século  XV  tivesse  sido  o  campesinato  médio,  mais  do  que  o  rico,  a  aproveitar  a  conjuntura 
e  a  melhorar  as  suas  condições  económicas.  Aliás,  as  opiniões  de  Rodney  H.  Hilton  acerca  deste 
assunto  têm  oscilado,  porque  em  (1949-1950)  133  ele  admitia  que  na  Inglaterra,  a  seguir  à  Peste 
Negra,  os  camponeses  abastados  estivessem  em  posição  de  inferioridade  perante  os  senhores  quanto  à 
angariação  de  jornaleiros.  Em  Portugal,  segundo  A.  Castro  (1964-1979)  III  255-256.  263.  413,  XI  197 
e  A.  Cunhal  (1963)  112-114.  1 16-1 17,  teriam  sido  os  desejos  de  enriquecimento  do  campesinato 
abastado,  a  expensas  tanto  da  classe  senhorial  como  dos  rurais  mais  pobres,  a  inspirar  a  legislação  do 
rei  Fernando  I  promulgada  no  final  do  terceiro  quartel  do  século  XIV, 

J.  Valdeón  Baruque  1 1976)  22-23  e  90-93  mostra  que  a  situação  evoluiu  de  maneira  oposta  no 
reino  de  Castela  O  desfecho  da  guerra  dinástica,  com  a  instalação  da  dinastia  dos  Trastâmara  no 
trono,  permitiu  aos  senhores  pôr  cobro  ao  declínio  que  lhes  afectava  os  rendimentos  e.  através  do 
reforço  da  sua  posição  política,  eles  agravaram  as  exacções  c  o  estatuto  dos  camponeses  piorou. 


590 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


das  vendas  se  destinava  a  pagar  os  tributos,  um  declínio  da  taxa  de  exploração  impli¬ 
cava  uma  redução  da  oferta  mercantil  de  géneros  agrícolas.  E  esta  redução  não  levava  a 
qualquer  subida  do  preço  dos  cereais,  porque  constituía  a  outra  face  de  um  aumento  do 
autoconsumo  dos  camponeses,  ou  seja.  de  uma  diminuição  da  procura  no  mercado, 
determinando  portanto  uma  pressão  para  a  baixa  dos  preços35.  Estes  processos  podem 
ser  vistos  como  sinais  de  crise  ou  de  depressão  pelos  historiadores  que  os  abordam  na 
óptica  da  classe  dominante,  mas  para  a  classe  senil  tratava-se.  pelo  contrário,  de  uma 
séria  melhoria  das  condições  materiais  de  vida. 

Quando  eram  capazes  de  dedicar  ao  consumo  próprio  uma  porção  mais  considerᬠ
vel  da  sua  colheita,  as  famílias  camponesas  afrouxavam  os  laços  que  as  prendiam  ao 
mercado,  enfraquecendo  assim  as  teias  do  poder  impessoal,  e  por  isso  mesmo  davam 
mais  coesão  aos  elos  de  solidariedade  que  as  uniam  entre  si.  O  reforço  do  comunita- 
rismo  foi  a  expressão  social  daquele  processo  que,  no  plano  económico,  nos  aparece 
como  a  redução  da  oferta  mercantil  e  o  aumento  do  autoconsumo.  Compreende-se, 
neste  contexto,  que  a  subida  dos  salários  dos  trabalhadores  prebendados  temporários  na 
segunda  metade  do  século  XIV  não  se  tivesse  devido  fundamental  mente  a  razões 
demográficas,  que  só  de  maneira  indirecta  influíram  na  questão.  Sabemos  (desde  o 
capítulo  2.c)  que  a  quantidade  de  mão-de-obra  disponível  para  o  trabalho  prebendado 
estava  em  relação  inversa  com  a  solidez  das  comunidades.  Mesmo  que  a  grande  parte 
da  população  rural  se  mantivesse  em  situação  de  subemprego,  o  assalariamento  siste¬ 
mático  recaía  apenas  sobre  as  pessoas  excluídas  das  comunidades  ou  que  nelas  ocupa¬ 
vam  uma  posição  precária  e  marginal.  Assim,  tudo  o  que  reforçasse  os  vínculos  entre 
vizinhos  contribuía  para  reduzir  a  oferta  da  força  de  trabalho  temporária  e,  portanto, 
para  elevar  o  montante  das  suas  remunerações3'1.  Ao  mesmo  tempo,  aumentava  a  pro- 


,s  No  modelo  que  apresenta  para  a  análise  deste  sistema  económico.  W.  Mula  (1970)  22  refere 
que  o  sector  monetarizado  era  primordial  para  os  senhores,  prevalecendo  para  os  servos  o  sector  não- 
-monetarizado.  B.  H.  Slicher  van  Bath  ( 1966  a)  178  nota  que  durante  a  época  de  crise  os  preços  dos 
cereais  diminuíram,  mas  que  se  mantiveram  relativamente  firmes  os  preços  dos  produtos  da  pecuária 
e  das  culturas  destinadas  a  servir  de  matéria-prima  às  manufacturas.  A  mesma  dicotomia  é  observada 
por  E.  Perroy  et  al.  (1955)  473-474.  Ora,  parece-me  impossível  explicar  em  lermos  demográficos  esta 
divergência  de  preços  que,  pelo  contrário,  se  entende  perfeítamente  ao  recordarmos  que  o  aumento  do 
autoconsumo  dos  servos  reduziu  a  procura  mercantil  de  cereais,  enquanto  a  procura  de  came  e  de  arti¬ 
gos  do  artesanato  se  devia  sobretudo  aos  senhores. 

36  W.  Kula  (1970)  23  mostra  que  o  aumento  dos  salários  não  indicava  qualquer  declínio  demogrᬠ
fico,  já  que  a  oferta  de  mão-de-obra  no  mercado  de  trabalho  dizia  apenas  respeito  a  uma  parte  mínima 
da  população  camponesa.  E,  referindo-se  à  Inglaterra  na  época  anterior  a  Peste  Negra,  G.  A.  Holmes 
( 1957)  91  afirma  que  era  muito  reduzida  a  elasticidade  da  oferta  de  força  de  trabalho  e  que.  por  isso, 
qualquer  variação  temporária  da  procura  afectava  os  salários. 

A  tese  de  que  a  subida  dos  salários  se  deveu  ao  declínio  populacional  porte  encontrar-se,  por 
exemplo,  em:  Ph.  Dollinger  (org.  1970)  140;  G  Duby  ( 1962)  567-569,  576-577;  L.  Genieot  1 1966  b) 
688  e  segs.;  J.  N.  Hiilgarth  (1976-1978)  II  4;  J.  M.  Klassen  (1978)  15;  E.  Perroy  et  al.  (1955)  473- 
-474;  M.  M.  Postan  ( 1966)  566-569;  Th.  Sclalert  (1959)  92;  Ph  Ziegler  <  1997  >  204,  206-207.  Os  sor¬ 
tilégios  da  demografia  permitem  a  alguns  historiadores  justificar  comodamente  as  situações  mais  con¬ 
traditórias.  Ao  mesmo  tempo  que  afirma  que  a  queda  demográfica  resultante  das  epidemias  dos  sécu¬ 
los  XIV  e  XV  ocasionou  a  escassez  de  força  de  trabalho  e  levou  à  subida  dos  salários,  tanto  em  ter¬ 
mos  monetários  como  em  termos  reais,  B.  H  Slicher  van  Bath  1 1966  a)  106  explica  o  aumento  dos 
salários  reais  nos  séculos  XII  e  XIII  com  o  argumento  de  que,  apesar  do  crescimento  populacional,  a 


Sinais  de  crise 


591 


cura  de  mão-de-obra  assalariada,  porque  o  declínio  dos  serviços  de  trabalho  levava  os 
senhores  a  recorrerem  mais  sistematicamente  a  jornaleiros  e  o  mesmo  faziam  os  cam¬ 
poneses  ricos,  cujo  número  se  multiplicou  no  final  do  período  em  virtude  da  crescente 
diferenciação  da  população  rural37.  Por  outro  lado,  quanto  mais  se  dispensassem  os 
géneros  na  remuneração  tanto  mais  elevado  tinha  de  ser  o  seu  montante  em  numerᬠ
rio38.  Vemos  que  os  movimentos  salariais  no  campo  se  podem  explicar  num  plano  exte¬ 
rior  à  demografia.  Aliás,  é  curioso  considerar  que  aqueles  historiadores  que  invocam 
em  abono  da  tese  de  um  declínio  populacional  as  medidas  legislativas  destinadas  a  res¬ 
tringir  as  deslocações  dos  camponeses  e  a  ftxá-los  ao  solo  parecem  ignorar  que  precisa- 
mente  na  Polónia,  por  onde  não  passou  a  terrível  epidemia,  as  primeiras  limitações  à 
mobilidade  rural  foram  tomadas  também  nos  meados  do  século  XIV39. 

E  o  grande  número  de  povoações  abandonadas  e  de  campos  deixados  sem  plantar, 
que  tantos  historiadores  interpretam  em  termos  exclusivamente  demográficos,  revela 
antes,  por  um  lado,  o  progresso  da  criação  de  gado  em  grande  escala,  que  exigia  muito 
menos  força  de  trabalho  do  que  a  necessária  para  o  cultivo.  Tratou-se,  para  os  senhores, 
de  uma  das  formas  de  reagir  à  crise  que  os  afectava,  e  com  este  intuito  muitos  deles 
vedaram  vastas  áreas,  expulsaram  os  camponeses  que  antes  as  lavravam  e  passaram  a 
dedicá-las  ao  pastoreio40.  Mas  mesmo  nestas  situações,  em  que  o  habitat  foi  tão  pro¬ 
fundamente  alterado  e  em  que  se  deixaram  arruinar  as  casas,  pôde  por  vezes  suceder 
que  persistissem  no  plano  social  as  comunidades  de  aldeia  e  que  os  seus  antigos  parti¬ 
cipantes.  imigrados  em  cidades  da  região,  mantivessem  entre  si  as  relações  de  solidarie¬ 
dade  que  antes  se  haviam  justificado  pela  proximidade  nas  fainas  rurais41.  Nada.  na 
economia  e  na  demografia  deste  período,  se  pode  explicar  se  esquecermos  o  vigor  do 
comunitarismo  camponês,  indissociável  da  senhoria  impessoal,  como  duas  faces  da 
mesma  realidade. 

Por  outro  lado,  muitos  senhores  reagiram  à  crise  dos  seus  rendimentos  incentivando 


procura  de  mão-de-obra  não  podia  ser  satisfeita,  a  tal  ponto  era  acentuado  o  desenvolvimento  econó¬ 
mico.  Por  seu  lado.  E.  Perroy  (1955- 1956)  238-239  considera  que  a  subida  dos  salários  se  teria  verifi¬ 
cado  em  Inglaterra,  onde  o  declínio  demográf  ico  teria  sido  superior  à  queda  da  produção,  mas  não  em 
França,  onde  a  crise  económica  teria  sido  ainda  mais  grave  do  que  a  crise  populacional. 

37  A.  Castro  (1964-1979)  111  401:  R.  H.  Hilton  (1969)  32-33.  37;  G.  A.  Holmes  (1957)  119;  E. 
Kosminsky  ( 1955  b)  28. 

38  E.  Kosminsky  ( 1955  b)  28. 

39  M.  Ma/ovvist  (1957)  574-575. 

40  Acerca  do  aumento  de  interesse  dos  senhores  pela  pecuária  ver:  H.  G.  Barros  (1945-1954)  VIU 
318-319;  G.  Duby  (1962)  624-625;  Ph.  Jones  (1966  b)  394;  M.  M.  Posían  ( 1966)  595-596;  id.  (1978 
a)  128;  B.  H.  Slicher  van  Bath  (1966  a)  178. 

41  Analisando  o  sucedido  durante  os  séculos  XIV'  e  XV'  na  região  de  Aix.  onde  o  despovoamento 
das  aldeias  se  deveu  em  grande  parte  à  emigração  dos  habitantes  para  a  cidade.  N.  Coulet  ( 1969)  85- 
-86  e  88-90  mostra  que  as  comunidades  rurais  sobreviveram  no  meio  urbano,  continuando  mesmo  a 
efecuiar  actos  jurídicos,  enquanto  colectividades.  Ora.  quando  sabemos,  graças  a  G.  Duby  (1962)  628, 
que  nas  áreas  de  bosque  da  Germânia  do  noroeste  muitas  aldeias  foram  abandonadas  porque  os  seus 
moradores  afluíram  às  vilas  vizinhas,  que  ficaram  assim  convertidas  em  pequenas  cidades,  podemos 
imaginar  que  talvez  nestes  casos  a  antiga  comunidade  rural  tivesse  igualmente  subsistido.  Em  suma, 
como  conclui  Noel  Coulei  em  op.  cir..  91,  uma  aldeia  podia  continuar  a  existir  no  plano  social, 
mesmo  que  tivesse  desaparecido  materialmente. 


592 


Dum  otua  Crise  dvs  séculos  XIV  e  .VI 


não  a  pecuária,  mas  a  cultura  extensiva.  Procederam  então  a  uma  profunda  reorganiza¬ 
ção  dos  espaços  dedicados  à  produção  de  cereais,  abandonando  os  solos  menos  adequa¬ 
dos  e  concentrando  o  cultivo  em  campos  onde  as  fainas  agrícolas  eram  determinadas 
em  comum.  Para  isso  os  senhores  deviam  também  concentrar  o  habitat,  esvaziando 
lugarejos  marginais  ou  casas  dispersas,  de  maneira  a  aumentarem  o  seu  controlo  sobre 
a  população  rural.  Com  efeito,  o  reordenamento  das  culturas  extensivas  exigia  a  cola¬ 
boração  de  todos  os  vizinhos  e,  portanto,  reforçava  a  solidariedade  entre  eles.  E  se  os 
senhores,  ao  agrupar  os  camponeses  em  aldeias  de  boas  dimensões,  corriam  o  risco  de 
dar  mais  força  às  comunidades,  em  contrapartida  podiam  fiscalizá-las  de  mais  perto, 
tentando  evitar  que  elas  assumissem  autonomia  social  e  consolidassem  a  sua  capaci¬ 
dade  reivindicativa42.  Assim,  mesmo  admitindo  que  tivesse  ocorrido  um  grande  declí¬ 
nio  populacional,  não  se  deve  explicar  em  termos  demográficos  o  abandono  de  campos 
e  de  povoações,  que  representou  uma  das  consequências  da  remodelação  operada  na 
economia  agrária.  O  aparente  despovoamemo  correspondeu  a  uma  sistematização  do 
habitat43  e  estimulou  -  em  vez  de  comprometer  -  o  comunitarismo  rural. 

Foi  nestas  condições,  em  que  o  campesinato  médio  se  sentia  amparado  pela  coesão 
das  suas  comunidades  e  em  que  melhoravam  as  perspectivas  de  sobrevivência  dos  tra¬ 
balhadores  prebendados,  que  a  plebe  rural  adquiriu  uma  nova  confiança  e  pôde  encetar 
uma  vaga  de  lutas  na  segunda  metade  do  século  XIV  e  durante  o  século  XV.  O  desfe¬ 
cho  destas  insurreições  consistiu  invariavelmente  na  derrota  da  gente  pobre,  o  que 
aumentou  as  tensões  intentas  das  comunidades  e  alargou  o  caminho  para  que  prosse¬ 
guisse  a  sua  desagregação.  Do  lado  da  classe  servil  nenhum  freio  se  opunha  já  à  ascen¬ 
são  e  ao  enriquecimento  dos  camponeses  abastados,  que  puderam  a  partir  de  então  acu¬ 
mular  tantas  mais  terras  quanto,  do  lado  da  classe  senhorial,  a  crise  afectara  muitas 
famílias  da  nobreza  tradicional,  obrigando-as  a  vender  porções  consideráveis  do  seu 
património.  Esta  acumulação  de  uma  fortuna  fundiária  nas  mãos  dos  camponeses  ricos 
teve  como  consequência,  no  outro  extremo  da  sociedade  rural,  o  grande  aumento  do 
número  de  jornaleiros.  E  assim,  progressivamente,  desenvolveram-se  os  elementos  de 
uma  economia  não-senhorial,  com  donos  de  terras  que.  em  vez  de  explorarem  directa- 
mente  o  labor  de  servos,  e  sem  deterem  também  quaisquer  direitos  senhoriais  de  carác¬ 
ter  impessoal,  exploravam  trabalhadores  assalariados.  Ao  mesmo  tempo,  a  crise  econó¬ 
mica  nas  cidades  e  as  agitações  da  arraia-miúda  levaram  muitos  negociantes-empresá- 


4:  Quanto  a  esta  reorganização  do  habitat  ver  G.  Duby  í  1962i  61 }. 

44  «Em  vez  de  representar  um  aumento  ou  um  declínio  da  população»,  escreve  R.  Boutruehe 
( l%8- 1970)  II  27,  «o  aparecimento  de  umas  aldeias  e  o  abandono  de  outras  indicam  mutações  e  reor¬ 
ganizações  na  repartição  dos  homens  e  nas  estruturas  sociais».  M.  Beresford  ( 1954)  158- 160  e  ( 1971) 
8-H)  previne  que  em  Inglaterra  a  Peste  Negra  exerceu  sobre  o  povoamento  efeitos  muito  mais  reduzi¬ 
dos  do  que  se  julgava.  E  quando  M.  Bloch  ( 1960-1961 11119  indica  que  durante  os  séculos  XIV  e 
XV,  em  algumas  regiões  da  França,  ocorreu  um  despovoamemo  completo,  seguido  por  um  repovoa¬ 
mento  efecluado  exclusivamente  com  imigrantes,  a  tal  ponto  que  chegaram  a  ser  mudados  os  nomes 
das  povoações,  parece-me  que  o  ilustre  historiador  está.  na  realidade,  a  descrever  uma  reorganização 
do  habitat,  e  não  tinia  crise  demográfica.  Por  sua  vez,  e  referindo-se  ao  sucedido  nos  séculos  XIV  e 
XV.  G.  Duby  1 1962)  568  observa  que  o  abandono  de  terras  e  a  reordenação  dos  campos  em  sistemas 
de  carácter  comunitário  não  indicam  unia  crise  agrícola  nem  uma  queda  populacional  muito  pronun¬ 
ciada,  revelando,  pelo  contrário,  o  crescimento  da  produção  de  cereais. 


Sinais  de  crise 


593 


rios  a  interessar-se  cada  vez  mais  pelo  aproveitamento  da  mão-de-obra  artesanal  exis¬ 
tente  nas  áreas  rurais  e  a  implantar  aí,  fora  do  controlo  exercido  pelas  corporações 
urbanas,  um  número  crescente  de  estabelecimentos  de  manufactura  têxtil.  Também 
neste  plano  se  desenvolveram,  portanto,  formas  económicas  e  sistemas  de  trabalho  que 
ultrapassavam  o  regime  senhorial. 


CAPÍTULO  16 

DA  NOVA  JERUSALÉM  À  NOVA  REALIDADE 


A  partir  dos  meados  do  século  XIV,  precisamente  quando  o  agravamento  da  taxa  de 
exploração  atingira  limiares  biologicamente  insustentáveis,  as  lutas  da  classe  servil 
começaram  a  apresentar  características  novas  e  alcançaram  uma  dimensão  que  só 
encontra  precedentes  nos  Bacaudce  que  quase  mil  anos  antes  haviam  precipitado  o  fim 
do  Império  Romano1.  A  insurreição  comandada  por  Dolcino  de  1304  a  1307  (ver  o 
capítulo  I7.d  da  Parte  II )  assinalara  já  a  radicalização  dos  movimentos  heréticos,  não  só 
pelo  recurso  às  armas,  mas,  sobretudo,  pela  junção  das  inquietações  espirituais  à  insa¬ 
tisfação  económica  do  campesinato.  Mas  na  segunda  metade  do  século  XIV  mudou 
decisivamente  o  ponto  de  apoio  das  convulsões  ideológicas,  que,  em  vez  de  resultarem 
da  mobilização  prosseguida  em  tomo  de  alguns  iluminados  ou  da  acção  de  pregadores 
heréticos,  passaram  a  basear-se  directamente  nas  reivindicações  económicas  da  classe 
servil  e  em  vários  casos  também  da  arraia-miúda  urbana.  É  certo  que  a  vaga  de  cólera 
que  em  1 358  agitou  os  camponeses  do  norte  da  França,  embora  tivesse  sido  aproveitada 
pela  elite  dos  negociantes  de  Paris,  não  pareceu  entusiasmar  a  arraia-miúda  (ver  o  capí¬ 
tulo  13.C.3  da  Parte  II).  Reciprocamente,  insurreições  muito  importantes,  como  a  do 
Povo  de  Deus  na  Florença  de  1378.  agitaram  os  pobres  da  cidade  com  alheamento, 
quando  não  mesmo  com  oposição,  da  plebe  dos  campos  (ver  o  capítulo  13.C.1  da  Parte 
II),  manifestando  assim  as  clivagens  determinadas  pela  actuação  das  sociedades  urba¬ 
nas  enquanto  senhores  colectivos.  Mas  nesta  segunda  metade  do  século  XIV  surgiram 
vários  casos  em  que  as  preocupações  tradicionais  das  heresias  adquiriram  virtualidades 
novas  ao  servirem  para  selar  a  conjugação  da  classe  servil  e  da  aTTaia-miúda  nas  mes¬ 
mas  movimentações  anti-senhoriais.  Não  é  talvez  possível  saber  em  que  medida  as 
doutrinas  heréticas  teriam  contribuído  para  animar  a  longuíssima  revolta  dos  Tuchins 
nos  campos  e  nas  cidades  do  sul  da  França.  Embora  me  pareça  errado  esquecer  que  o 
Languedoc  se  mostrara  desde  há  muito  tempo  receptivo  a  heresias  variadas,  não  encon¬ 
tro  referência  aos  temas  da  contestação  religiosa  entre  os  historiadores  que  se  debruça¬ 
ram  sobre  aquele  conflito.  Mas  a  situação  é  muito  mais  clara  relativamente  à  subleva¬ 
ção  inglesa  de  1381  e  à  grande  revolução  hussita. 


1  R.  H.  Hilton  (1951)  24-25. 


596 


Diaaonia.  Crise  dos  séculos  XA'  e  XV' 


Alguns  autores  consideram  que  a  dissidência  religiosa  não  teria  feito  parte  das  preo¬ 
cupações  dos  insurrectos  ingleses  de  1381-.  No  entanto,  para  mostrar  que  a  heresia  não 
devia  andar  longe  basta  o  importante  papel  desempenhado  por  tantos  membros  do 
baixo  clero  na  condução2 3  de  um  movimento  que,  pelo  menos  no  Kent.  reivindicava  a 
distribuição  aos  camponeses  da  maior  parte  das  terras  da  Igreja,  destinando-se  o  res¬ 
tante  a  assegurar  a  subsistência  de  um  clero  voluntário  e  mantido  pelo  apoio  dos  cren¬ 
tes4.  Aliás,  seria  difícil  assassinar  um  arcebispo  por  motivos  estritamente  económicos,  e 
se  a  aura  religiosa  que  dele  emanava  não  o  protegeu  aos  olhos  dos  revoltosos,  é  porque 
eles  eram  já  fiéis  de  outra  fé5 *.  Muitos  dos  padres  pobres  que  inspiraram  ou  mesmo  ani¬ 
maram  o  levantamento  eram  discípulos  de  John  Wyclif1,  um  teólogo  que  exerceu 
enorme  influência  na  promoção  da  dissidência  religiosa,  decerto  muito  além  das  suas 
próprias  intenções. 

Com  efeito,  as  doutrinas  de  Wyclif  eram  ambíguas  e  tiveram  implicações  sociais 
divergentes  ou  mesmo  francamente  antagónicas.  Se  o  programa  de  reforma  religiosa 
concebido  e  divulgado  por  Wyclif  interessou  tanto  a  coroa  e  algumas  figuras  cimeiras 
da  alta  nobreza  laica,  isto  não  se  deveu  às  propostas  de  secularização  dos  bens  eclesiás¬ 
ticos,  pois  mostrei  abundamemente  (no  capítulo  6.d)  que  a  entrega  de  senhorias  à  Igreja 
constituía  uma  forma  de  preservar  a  estrutura  familiar  da  classe  dominante.  A  aristocra¬ 
cia  não  ficava  prejudicada,  mas  beneficiada,  com  tais  alienações  de  terras  e  de  direitos7. 
Foi  ao  pôr  em  causa  a  autoridade  judiciária  da  Igreja  e  ao  defender  que  o  clero  só  devia 
desempenhar  funções  estritamente  religiosas  que  Wyclif  favoreceu  as  tendências  cen¬ 
tralizadoras  da  monarquia8,  e  do  mesmo  modo  ele  considerava  que  competia  também 


2  R.  R.  Bem  1 1955)  487;  E.  Wemer  (1959-1960)  362. 

Pareee-mc  paradoxal  que  R.  H.  Hilton.  enquanto  em  ( 1973  a)  210  escreve  que  o  levantamento  de 
1381  conjugava  o  radicalismo  social  com  o  radicalismo  religioso,  afirme  em  1 1973  b)  89  que  os  insur¬ 
rectos  não  perfilhavam  heresias.  N.  Cohn  ( 1957)  216  detecta  a  existência  de  esperanças  milenaristas 
entre  os  rebeldes  de  1381.  No  mesmo  sentido  ver  G.  Fourquin  (  1972)  1 34 

1  Muitos  curas  conduziram  os  seus  paroquianos  na  insurreição,  escrevem  Ph.  Lindsay  et  al.  [s,  d.] 
65,  acrescentando  (p.  1 57 1  que  o  movimento  fora  preparado  pelas  pregações  de  padres  contesiatários. 
Acerca  da  participação  do  baixo  clero  na  direcção  da  revolta  de  1 381  ver  igualmeme:  N.  Cohn  ( 1957) 
216;  G.  Fourquin  (1972)  183;  R.  Hilton  ( 1973  a)  124-125,  207-210:  M  D.lambert  1 1977)  237;  B.  H. 
l.andsberger  et  al.  ( 1973)  123-124. 

Ph.  Ziegler  (1997)  206  esclarece  que  na  Inglaterra  dos  meados  do  século  XIV.  antes  da  Peste 
Negra,  havia  pelo  menos  quinze  mil  padres  para  8.670  paróquias,  e  que  em  Janeiro  de  1 349.  a  crer  em 
certos  cálculos,  contar-se-iam  três  padres  sobreviventes  para  cada  duas  vagas  provocadas  pela  epide¬ 
mia.  Seria  fácil,  neste  contexto,  presumir  que  a  situação  precária  de  muitos  membros  do  baixo  clero 
os  tivesse  levado  a  tomar  atitudes  políticas  radicais.  No  entanto.  R.  Hilton  ( 1973  a)  209-210  adverte 
que,  tal  como  houve  camponeses  abastados  a  participar  na  insurreição,  também  no  interior  das  paró¬ 
quias  sucedeu  que  clérigos  mais  prósperos  acompanhassem  na  revolta  os  menos  afortunados. 

4  E.  A.  Kosminsky  (1956)  140,  359;  Ph.  Lindsay  ei  al.  |s.  d.l  1 14-1 15.  128. 

s  Segundo  M.  Wilks  (1972)  109.  o  arcebispo  de  Canterbury  foi  assassinado  durante  a  revolta.  R. 
R.  Betts  ( 1955  )  487-488  pretende  que  monges  e  clérigos  encontraram  a  morte  às  mãos  dos  insurrectos 
por  motivos  sociais  e  não  religiosos.  E  uma  distinção  demasiado  subtil  para  explicar  um  acto  que.  em 
si  mesmo,  tinha  implicações  religiosas  directas. 

-  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  54.  61. 

7  Ver  a  n.  270  do  capítulo  6. 

*  M.  D.  Lambert  (1977)21 5;  G.  Leff  ( 1967 1  544.  M  Wilks ;  1 972)  1 1 9.  1 2 1  - 1 22. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


597 


ao  poder  secular  do  reino  dirigir  a  Igreja9.  Por  este  motivo  Wyclif  atribuía  ao  Estado  a 
incumbência  de  remodelar  as  instituições  eclesiásticas,  afirmando,  portanto,  que  a 
reforma  política  devia  necessariamente  anteceder  a  reforma  religiosa10.  Para  ele  o 
apoio  da  massa  dos  fiéis  destinar-se-ia  apenas  a  facilitar  a  acção  reformadora  do 
Estado,  cabendo  a  iniciativa  aos  governantes11.  Wyclif  defendia  o  reforço  das  prerroga¬ 
tivas  régias12,  e  era  natural  que  uma  doutrina  deste  tipo  encontrasse  boa  recepção  na 
corte  e  no  conselho  do  rei13.  Em  sentido  contrário,  porém,  Wyclif  não  aceitava  incondi¬ 
cionalmente  o  exercício  do  poder.  Se,  por  um  lado.  podia  ser  usada  para  sustentar  a 
ordem  estabelecida  a  sua  tese  de  que  a  autoridade  senhorial  legítima  era  um  efeito  da 
graça  divina,  por  outro  lado  ele  admitia  que  a  perda  da  graça,  através  do  pecado  mortal, 
tomava  o  poder  ilegítimo,  convertendo  num  tirano  quem  o  exercia,  mesmo  que  se  tra¬ 
tasse  do  monarca14.  E  precisamente  enquanto  se  adensavam  os  movimentos  de  protesto 
que  levariam  ao  levantamento  cie  1381,  Wyclif,  decepcionado  com  a  falta  de  interesse 
dos  governantes  por  uma  remodelação  radical  da  Igreja,  parece  ter  aceitado  como  alter¬ 
nativa  que  ela  se  devesse  à  acção  dos  fiéis,  guiados  pelos  reformadores15. 

Em  1381  a  ambiguidade  do  pensamento  de  Wyclif  revelou-se  num  sentido  revolu¬ 
cionário.  E  sempre  conveniente  distinguir  entre  mestre  e  discípulos,  e  neste  caso  é-o 
tanto  mais  quanto  os  seguidores  de  Wyclif  -  a  quem  os  adversários  chamavam  Lollards 
-  se  repartiam  por  vários  grupos  relativamente  autónomos,  unidos  apenas  por  propa¬ 
gandistas  itinerantes16.  Embora  expressasse  simpatia  pelos  objectivos  anticlericais  da 
insurreição,  Wyclif  condenou  os  camponeses  e  a  arraia-miúda  por  terem  recorrido  à 
violência  e,  sobretudo,  criticou-os  por  não  terem  agido  em  conjunto  com  a  aristocracia 
laica,  além  de  censurar  aos  Lollards  as  suas  crescentes  propensões  revolucionárias17. 


9  H.  Kaminsky  (1967)  145;  M.  Wilks  <  1972>  119. 

10  M.  D.  Lambert  (1977)  227;  M.  Wilks  (1972)  116.  123. 

11  M.  Wilks  (1972)  124. 

12  G.  Leffl  1967  )  543. 

13  K.  B.  McFarlane  ( 1955)  217. 

14  A  crer  em  A.  G.  Diekens  ( 1971 )  829,  fora  Richard  Fitzralph,  arcebispo  de  Armagh.  quem  pri¬ 
meiro  ampliara  o  escopo  da  tese  que  afirmava  que  o  estado  de  pecado  mortal  tomava  ilegítimo  aos 
laicos  o  exercício  do  poder,  estendeudo-a  ao  clero.  Por  sua  vez.  John  Wyclif,  ao  adoptar  a  doutrina  de 
Fitzralph.  tê-la-ia  tomado  ainda  mais  radical,  ap!icando-a  aos  direitos  de  propriedade  dos  membros  da 
Igreja.  Parece-me.  portanto,  que  o  facto  de  ter  dirigido  aquela  tese  contra  a  Igreja  não  implica  que 
Wyclif  tivesse  deixado  de  considerar  segundo  o  mesmo  princípio  os  senhores  laicos.  Com  efeito.  H. 
Kaminsky  (1967)  87  escreve  que  para  Wyclif  a  perda  da  graça  tomava  ilegítima  a  autoridade  laica, 
indusivamente  a  autoridade  do  soberano  Perante  isto  não  entendo  como  o  autor,  em  op  eii.,  39,  pode 
pretender  que  tanto  Wyclif  como  Jan  Hus  se  abstiveram  de  aplicar  aos  laicos  a  doutrina  da  invalidade 
do  poder  exercido  por  alguém  que  tivesse  caído  em  pecado  mortal,  e  que  ambos  os  teólogos  reserva¬ 
ram  esta  norma  para  os  dignitários  eclesiásticos.  Esta  ultima  posição  é.  no  entanto,  adoptada  por  M. 
D.  Lambert  ( 1977)  227-228.  ao  assegurar  que  para  Wyclif,  embora  os  sacerdotes  que  não  estivessem 
em  estado  de  graça  não  pudessem  ser  intermediários  na  salvação  da  alma,  o  pecado  mortal  não  invali¬ 
daria  a  autoridade  do  rei  e  dos  restantes  senhores  laicos. 

15  M  Wilks  (1972)  124-125. 

Todavia.  M  D.  Lambert  ( 1977)  229  pretende  que  Wyclif  nunca  perdeu  a  esperança  de  ver  os 
senhores  laicos  encabeçarem  a  reforma  da  Igreja. 

16  G.  Leff  ( 1967)  574.  Ver  ainda:  R.  Hilton  (1973  a)  213. 

17  Quanto  à  atitude  de  Wyclif  relativamente  á  insurreição  de  1381,  sigo  M.  Wilks  (1972)  127. 


598 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


Mas  o  facto  de  Wyclif  defender  uma  reforma  religiosa  que  não  afectasse  a  estrutura 
económica  e  social  não  significa  que  muitos  insurrectos  não  se  tivessem  inspirado  na 
sua  doutrina,  tomando  dela  o  que  lhes  serv  ia  e  abandonando  o  restols.  Talvez  seja  certo 
que  o  padre  John  Bali,  o  mais  célebre  dos  pregadores  que  encorajaram  e  conduziram  os 
revoltosos  de  1381,  não  se  tivesse  contado  entre  os  discípulos  de  Wyclif,  e  aliás  Bali 
era  já  um  inimigo  público  da  ortodoxia  religiosa  muitos  anos  antes  de  Wyclif  ter  come¬ 
çado  a  expor  as  suas  teses  heréticas.  Mas  é  difícil  admitir  que  alguém  que,  como  o 
padre  Bali,  interviera  durante  duas  ou  três  décadas  nas  questões  sociais,  sendo  exco¬ 
mungado  e  sofrendo  repetidas  detenções,  ignorasse  a  obra  do  mais  célebre  dos  refor¬ 
madores  da  sua  época  ou  fosse  alheio  aos  problemas  que  nela  se  levantavam.  Nem  me 
parece  viável  pretender  que  os  sermões  de  John  Bali  versariam  mais  os  temas  sociais 
do  que  os  religiosos,  porque  era  impossível  denunciar  a  cobrança  de  tributos  pela 
Igreja,  atacar  os  ricos,  defender  uma  sociedade  sem  classes  e  apelar  para  o  extermínio 
dos  senhores,  dos  prelados  e  dos  monges  sem  pôr  explicitamente  ern  causa  toda  a  ideo¬ 
logia  religiosa  que  justificava  o  regime  senhorial19. 

Ora,  a  importância  da  heresia  nas  agitações  de  1381  é  tanto  mais  assinalável  quanto, 
como  sabemos  (ver  na  Parte  II  os  capítulos  2.  7.a  e  17.e).  a  Inglaterra  havia  permane¬ 
cido  até  então  desprovida  de  movimentos  de  contestação  religiosa  significativos.  O  lei¬ 
tor  recordar-se-á  talvez  que  procurei  explicar  a  brandura  dos  conflitos  sociais  na  Ingla¬ 
terra  e  a  prática  ausência  de  heresias  pelo  facto  de  o  ímpeto  dos  desbravamentos  só  ter 
começado  a  declinar  na  ilha  durante  o  século  XIII  e  sobretudo  ao  longo  do  século  XIV 
(ver  na  Parte  II  os  capítulos  3.c  e  15. b).  O  levantamento  de  1381  assinala,  portanto,  o 
agravamento  da  situação  na  Inglaterra.  Aliás,  não  se  tratou  de  uma  irrupção  imprevista, 
mas  do  culminar  de  um  longo  processo20.  Apesar  disso,  não  bastam  as  circunstâncias 
do  país  para  explicar  a  insurreição  de  1381.  pois  as  enormes  proporções  que  ela  tomou 
mostram  até  que  ponto  a  crise  do  regime  se  tomara  profunda  e  se  generalizara. 

O  objectivo  principal  dos  insurrectos  ingleses  foi  reorganizar  de  cima  a  baixo  a 
sociedade  tomando  por  modelo  a  comunidade  camponesa,  de  maneira  a  que  o  reino 
correspondesse  a  uma  federação  de  comunidades,  algo  como  uma  comunidade  de 
comunidades.  Ao  reclamar  a  abolição  do  estatuto  de  ausência  de  liberdade  e  o  cancela- 


Acerca  desta  questão  consultei  igualmente  M.  D.  Lambert  (197?)  228.  Por  seu  lado.  G.  Leff  ( 1967) 
559  afirma  que  Wyclif  denunciou  a  violência  dos  revoltosos  e  criticou  a  evolução  dos  Lollwds  para 
perspectivas  cada  vez  mais  radicais.  Mas  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.)  52,  depois  de  confirmarem  que 
Wyclif  não  desejava  o  levantamento,  acrescentam  (pp.  71 ,  150)  que  não  está  demonstrada  a  existência 
de  qualquer  relação  entre  os  Loltards  e  o  movimento  de  1381 .  R.  Hilton  1 1973  a)  213  admite,  todavia, 
que  pudesse  ter  havido  uma  ligação  dos  Lollwds  com  a  insurreição. 

18  M.  D.  Lambert  ( 1977)  232  e  segs.;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.)  71. 

19  Acerca  de  John  Bali  ver:  R.  Hilton  ( 1973  a)  213:  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  61, 70-71,  150:  T.  B. 
Pugh  ( 1971 )  18-19.  É  R.  R.  Bens  ( 1955)  488  quem  pretende  que  Bali  pregava  mais  a  igualdade  social 
do  que  a  reforma  religiosa.  No  entanto,  N.  Cohtt  1 1957)  209-21 1  indica  que  a  transposição  da  Idade 
do  Ouro  do  passado  para  um  futuro  possível  se  encontra,  possivelmente  pela  primeira  vez.  nos  ser¬ 
mões  atribuídos  a  John  Bali. 

20  Alguns  historiadores  chamam  a  atenção  para  os  movimentos  de  protesto,  tanto  rurais  como 
urbanos,  que  precederam  e  prepararam  a  insurreição  de  1381 :  R.  H.  Hilton  ( 1949-1950)  117,  122-130; 
id.  (1969)  25:  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d  ]  62  e  segs. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


599 


mento  dos  serv  iços  de  trabalho,  o  chefe  dos  revoltosos,  Wat  Tyler,  não  estava  a  exigir 
nada  que  comprometesse  a  continuidade  do  regime  senhorial.  Mas  quando  sabemos 
que  no  mesmo  programa  ele  incluía  a  anulação  do  poder  judiciário  dos  senhores  e  dos 
seus  privilégios  legais,  bem  como  uma  redução  drástica  da  extensão  dos  conjuntos 
senhoriais,  o  arrendamento  dos  campos  a  uma  taxa  igual  e  fixa  por  superfície,  o  reco¬ 
nhecimento  de  direitos  de  caça  e  pesca  à  gente  humilde  e  a  abertura  de  todos  os  espa¬ 
ços  incultos  ao  uso  comum,  a  abolição  das  leis  do  trabalho,  a  autorização  do  porte  de 
armas  pela  população  em  geral  e  a  igualdade  de  todos  no  mercado21,  vemos  que,  no  seu 
conjunto,  se  tratava  de  exigências  absolutamente  incompatíveis  com  a  ordem  vigente. 
Se  tais  medidas  fossem  adoptadas  os  senhores  ficariam  reduzidos  a  camponeses  provi¬ 
dos  de  títulos  nobiliárquicos  e  deixariam,  portanto,  de  existir  elementos  exteriores  às 
comunidades.  Aliás,  para  analisarmos  as  implicações  da  revolta  não  devemos  limitar- 
-nos  sequer  às  reivindicações  específicas  adiantadas  pelos  seus  porta-vozes,  pois  ao 
lançarem  fogo  a  arquivos  senhoriais,  destruindo  a  documentação  onde  estava  registado 
o  montante  das  prestações22,  e  ao  queimarem  igualmente  as  listas  dos  impostos  e 
numerosos  documentos  judiciários23,  todos  os  insurrectos  manifestaram  de  modo  claro, 
na  prática,  a  vontade  de  abolir  a  condição  serv  il  e  de  impedir  o  funcionamento  das 
senhorias24.  E  como  o  programa  apresentado  por  Tyler.  ao  mesmo  tempo  que  recla¬ 
mava  a  revogação  do  poder  judiciário  da  aristocracia,  pedia  que  este  poder  fosse  atri¬ 
buído  às  aldeias  e  aos  centros  urbanos  e  parece  que  exigia  também  o  estabelecimento 
de  um  governo  em  cada  circunscrição  administrativa25,  não  há  razão  para  duvidar  que 


-1  Os  vários  pontos  do  programa  reivindicativo  apresentado  por  Wat  Tyler  sao  enunciados  em  Ph. 
Lindsay  et  al.  [s.  d.]  114  e  128-129. 

22  G.  Fourquin  (1972)  186:  R.  Hilton  <  1973  al  227;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  83,  85,  153,  160,  163- 
-164:  M.  M.  Postan  (1978  a)  171. 

22  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  81, 83.  85,  153,  160,  163-164. 

24  Invocando  o  facto  de  entre  os  revoltosos  de  1 38 1  se  incluírem  camponeses  abastados  e  até  ele¬ 
mentos  da  nobreza,  G.  Fourquin  (1972)  183-184  pretende  que  não  se  tratava  de  uma  luta  de  classes. 
Guy  Fourquin  está,  porém,  a  aplicar  um  modelo  de  análise  que  só  é  válido  no  capitalismo,  não  se 
dando  conta  de  que  no  regime  senhorial  o  quadro  fundamental  dos  conflitos  sociais  era  a  comunidade 
camponesa,  com  a  diversidade  interna  de  fortunas  e  de  estatutos  que  pressupunha.  Por  seu  lado,  G. 
Duby  (1962)  604-605  considera  que  as  sublevações  ocorridas  no  século  XIV  não  visavam  tanto  o 
regime  senhorial  como  sobretudo  o  tipo  específico  de  exploração  encabeçado  pelos  soberanos  e  pelos 
chefes  militares.  Parece-me.  contudo,  que  ao  incendiarem  os  arquivos  senhoriais  os  insurrectos  ingle¬ 
ses  mostraram  a  sua  oposição  à  globalidade  dos  mecanismos  de  exploração,  não  só  os  que  se  deviam 
à  acção  do  Estado,  mas  também  os  que  beneficiavam  directamente  os  senhores  particulares.  É  preci¬ 
samente  esta  a  opinião  de  Ph.  Lindsay  et  al.  (s.  d.]  que.  apesar  de  atribuírem  (pp.  59-60.  76-77)  espe¬ 
cial  importância  ao  lançamento  de  um  novo  imposto  regressivo  para  explicar  a  eclosão  dos  protestos 
de  1381.  afirmam  íp.  83)  que  o  facto  de  os  camponeses  terem  lançado  fogo  à  documentação  onde 
estavam  registados  os  montantes  das  exacçôes  revela  a  sua  vontade  de  abolir  a  condição  servil  e  de 
destruir  a  estrutura  das  senhorias.  Ainda  quanto  ao  carácter  anti-senhorial  do  movimento  ver  R.  Hilton 
(1973  a)  223-224.  226  e  230.  Não  entendo  como  Georges  Duby.  em  op.  eii.,  604.  para  sustentar  a  tese 
de  que  as  revoltas  do  século  XIV  se  teriam  limitado  a  atacar  esporadicamente  a  fortuna  dos  senhores, 
pode  pretender  que  só  o  prazer  da  destruição,  uma  cobiça  boçal  e  os  ressentimentos  pessoais  levaram 
os  eontestatários  a  pilhar  as  residências  da  gente  rica.  Recusar  a  lição  das  acções  práticas  e,  sem  qual¬ 
quer  motivo  plausível,  atribuir-lhes  um  fundamento  psicológico  que  nega  as  suas  consequências 
objectivas  é  uma  maneira  ilegítima  de  fazer  história. 

’  25  Ph.  Lindsay  et  al.  fs.  d.|  1 15,  128 


6  00 


Diacrorua.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


os  revoltosos  pretendessem  substituir  o  regime  senhorial  por  um  sistema  assente  nas 
comunidades. 

E  certo  que  os  dois  principais  programas  reivindicativos  formulados  durante  a 
sublevação  exprimiram  interesses  de  diferentes  camadas  do  campesinato.  Mas  deve 
notar-se  que  se  tratava  exclusivamente  de  uma  diferença  sócio-geográfica,  não  repre¬ 
sentando  qualquer  cisão  interna  das  comunidades  nem  acarretando  sequer  o  seu  enfra¬ 
quecimento.  Embora  numa  segunda  fase  a  revolta  se  tivesse  estendido  a  numerosos 
lugares  da  Inglaterra,  chegando  pelo  menos  até  York.  no  norte,  e,  no  ocidente,  até 
Devon.  e  atingindo  igualmente  diversas  circunscrições  do  sudoeste,  foi  nas  duas  princi¬ 
pais  regiões  do  sudeste,  Kent  e  Essex,  que  o  movimento  se  iniciou  e  que  conseguiu  um 
grau  de  organização  mais  elevado-6.  No  Kent  haviam-se  difundido  desde  cedo  os  tribu¬ 
tos  pecuniários  e,  por  isso.  a  esmagadora  maioria  dos  camponeses  gozava  aí  de  liber¬ 
dade  jurídica  e  o  comércio  era  muito  activo.  Mas  já  no  século  XIII  esta  prosperidade 
económica  vinha  a  ser  acompanhada  pelo  empobrecimento  da  massa  rural,  sendo 
numerosas  as  pessoas  desprovidas  de  terra,  ou  detentoras  de  pequenas  parcelas.  Assim, 
as  reivindicações  apresentadas  pelos  insurrectos  do  Kent  visaram  o  uso  comum  dos 
incultos  e  o  confisco  e  repartição  das  senhorias  eclesiásticas,  bem  como  a  abolição  das 
medidas  legais  que  prejudicavam  os  jornaleiros,  a  generalidade  dos  assalariados  e  os 
camponeses  pobres.  Foram  os  interesses  dos  assalariados  e  da  gente  com  menos  terras 
a  ocupar  aqui  o  primeiro  plano27.  No  Essex  os  problemas  eram  outros,  e  as  principais 
reivindicações  dos  revoltosos  consistiram  na  abolição  do  estatuto  de  ausência  de  liber¬ 
dade  e  no  cancelamento  dos  serviços  de  trabalho,  acompanhados  pela  reclamação  de 
tributos  pecuniários  de  baixo  montante  e  pela  anulação  dos  entraves  postos  à  actividade 
comercial  dos  camponeses.  Aqui  o  movimento  reflectiu,  portanto,  as  aspirações  das 
camadas  rurais  média  e  superior,  para  quem  as  exigências  dos  senhores  representavam 
sobretudo  um  obstáculo  ao  enriquecimento2”.  Assim,  a  revolta  pôde  conjugar  orienta¬ 
ções  sociais  diferentes  sem  que  isto  comprometesse  a  coesão  das  comunidades.  Pelo 
contrário,  cada  distrito  avançava  com  o  programa  mais  apto  a  reforçar  a  coerência  das 
comunidades  locais,  a  tal  ponto  que  o  exército  dos  insurrectos  se  dividia  em  compa¬ 
nhias  consoante  as  regiões  de  origem29.  A  diversidade  representava  uma  força  do  movi¬ 
mento.  que  fora  capaz  de  ultrapassar  o  localismo  e  de  abraçar  numa  mesma  aspiração 
colectiva  regiões  muito  amplas  e  socialmenle  variadas. 


:b  Quanto  à  extensão  geográfica  da  revolta  ver  id  .  ibid..  153-154.  Consultar  igualmente:  R.  Hilton 
(1973  a)  141.  165-166. 

-7  E.  A.  Kosminsky  (1956)  139-140.  193,  317-318.  359.  Ver  acessoriamente:  G.  C.  Homans 
(1937-1938)  56:  Ph.  Lindsay  et  al.  |s.  d.J  77. 

28  E.  A.  Kosminsky  ( 1956)  193-195.  317-318.  359.  Ver  acessoriamente:  G.  A.  Holmes  ( 1957)  1 16. 

Num  texto  de  1898  Ch.  Petit-Dutaillis  citado  por  Ph.  Ziegler  ( 1997)  219  considera  que  uma  das 
causas  da  revolta  foi  a  contradição  entre  a  ascensão  económica  de  certas  categorias  sociais  e  o  baixo 
estatuto  legal  que  lhes  era  atribuído.  Uma  tese  similar  encontra-se  em  R.  H.  Hilton  ( 1949-1950)  130- 
-131  e  135,  que  refere  como  um  dos  motivos  de  insatisfação  os  impedimentos  legais  que  os  senhores 
opunham  à  acumulação  de  riqueza  por  parte  dos  camponeses  mais  prósperos.  Mas  este  problema  veri¬ 
ficava-se  sobretudo  no  Essex.  Uma  apresentação  bastante  confusa  da  situação  no  Essex  encontra-se 
em  id.  ( 1973  a)  170-174  e  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.)  77.  85. 

2‘'  Ph.  Lindsay  et  al.  fs.  d.l  103. 


Da  nova  Jerusalém  d  nova  realidade 


601 


Hoje,  o  decurso  da  história  mostra  que  aqueles  programas  foram  divergentes30,  mas 
na  época  a  diferença  não  era  sentida  como  uma  oposição  de  perspectivas.  E  aliás  não  o 
seria,  ou  tê-lo-ia  sido  de  outra  maneira,  se  -  o  se  impossível  em  história!  -  os  insurree- 
tos  tivessem  triunfado.  A  própria  forma  de  organização  da  revolta  obedeceu  às  imposi¬ 
ções  da  comunidade,  e  os  ensaios  de  coordenação  do  movimento  e  de  estabelecimento 
de  uma  direcção  comum  seguiram  igualmente  os  moldes  do  comunitarismo31.  Os 
rebeldes  chegaram  a  usar  o  aparelho  administrativo  dos  distritos32,  ou  mesmo  o  quadro 
de  organização  senhorial33,  para  fomentar  a  mobilização  dos  descontentes  e  para  coor¬ 
denar  a  actuação  das  aldeias  sublevadas.  Assim,  não  só  a  insurreição  foi  possível  por¬ 
que  as  comunidades  rurais  eram  suficientemente  coesas  para  sustentá-la,  como  também 
o  desenvolvimento  do  processo  de  contestação  contribuiu  para  fortalecer  a  solidarie¬ 
dade  interna  das  comunidades. 

Entre  os  chefes  do  levantamento  notabilizaram-se  pessoas  que  de  modo  algum  se 
podem  classificar  como  miseráveis,  encontrando-se,  além  de  camponeses  abastados34, 
um  ou  outro  membro  da  pequena  nobreza  rural35.  Mas  se  é  certo  que  os  camponeses 
ricos  operavam  como  um  agente  de  dissolução  das  comunidades,  eles  não  deixavam 
também  de  ser  os  seus  representantes  naturais.  E  neste  caso,  enquanto  se  batiam  contra 


3(1  E.  A.  Kosminsky  (1956)  317-318  e  359  mostra  que  o  programa  do  Essex  e  o  do  Kent  corres¬ 
ponderam  a  rumos  de  evolução  divergentes,  pressupondo  um  os  interesses  da  futura  burguesia  rural  e 
o  outro  os  do  futuro  proletariado  rural.  Mas  tal  contradição  só  foi  determinada  pelo  desenvolvimento 
histórico,  nas  modalidades  em  que  ele  se  veio  a  efectuar,  e  para  os  insurrectos  de  1381  o  horizonte 
podia  ser  muito  diferente. 

31  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.)  66-67,  74  e  segs..  86-87,  120  e  segs.,  157  e  172-173  salientam  o  grau 
de  organização  dos  revoltosos  e  chamam  a  atenção  (p.  67)  para  o  facto  de  uma  tal  situação  resultar  do 
prevalecimento  do  quadro  comunitário.  R.  H.  Hilton  (1949-1950)  128-129  refere  também  o  carácter 
organizado  do  levantamento  de  1381.  E  id.  ( 1973  a)  214-216  explica  que,  pelo  menos  numa  fase  ini¬ 
cial,  a  insurreição  não  obedeceu  a  qualquer  direcção  centralizada,  pois  a  sociedade  daquela  época  ali¬ 
cerçava-se  em  unidades  familiares  de  produção  reunidas  em  aldeias  e  em  pequenos  centros  urbanos; 
este  historiador  acrescenta  (pp.  216-217)  que  as  formas  de  funcionamento  da  comunidade  rural,  habi¬ 
tuando  os  camponeses  à  cooperação,  teriam  facilitado  a  preparação  da  revolta.  Acerca  dos  contactos 
entre  os  rebeldes  das  várias  localidades  ver:  id..  ibid.,  216,  219;  id.  ( 1973  b)  91;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s. 
d.)  67-69.  86-87.  R.  Hilton  1 1973  a)  219  mostra  que  a  coordenação  do  movimento  não  se  efectuou  a 
partir  de  um  centro  único  e  realizou-se  no  quadro  das  circunscrições  administrativas.  Ver  no  mesmo 
sentido  id.  (1973  b)  91. 

32  Id.  (1973  a)  217-218;  M.  Mollat  et  al.  (1970)  303 

33  R.  H.  Hilton  (1973  b)  91. 

34  Id.  (1949-1950)  130-131.  135;  id.  (1973  a)  180-181. 

Todavia,  id.  [1973  at  181-184  afirma  que  entre  os  revoltosos  as  percentagens  de  camponeses 
abastados,  médios  e  pobres  seria  idêntica  á  que  se  verificava  na  globalidade  da  população  das  regiões 
onde  a  insurreição  atingiu  maior  amplitude. 

35  Id..  ibid.,  184  pretende  que  os  nobres  que  participaram  no  movimento  não  formaram  qualquer 
minoria  substancial.  Parece-me.  no  entanto,  que  o  critério  mais  significativo  não  é  o  da  quantidade,  já 
que  a  percentagem  de  senhores  seria  forçosamente  reduzida,  mas  o  da  qualidade.  E,  nesta  perspectiva, 
depois  de  indicarem  (p.  162  )  que  muitos  elementos  da  pequena  nobreza  tomaram  o  partido  dos  insur- 
rectos,  Ph.  Lindsay  et  al.  Is.  d.]  esclarecem  que  no  Norfolk  a  maior  parte  dos  dirigentes  da  revolta  era 
constituída  por  nobres  (p.  159),  sendo  também  nobres  dois  dos  principais  chefes  na  área  ocidental  do 
Cambridgeshire  (p.  162).  Mas  Rodney  H.  Hilton  em  op.  eu..  185  afirma  que  os  nobres  não  tiveram 
qualquer  papel  de  comando  na  rebelião. 


602 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  AT 


os  obstáculos  postos  à  sua  ascensão  social,  os  rurais  mais  prósperos  enfrentavam  a  glo¬ 
balidade  da  nobreza  e  da  elite  urbana  e  exprimiam  os  interesses  de  todos  os  seus  vizi¬ 
nhos.  Do  mesmo  modo,  quando  os  padres  animavam  o  espírito  de  luta  dos  paroquianos 
ou  os  conduziam  na  sublevação36,  era  uma  vez  mais  a  comunidade  que  se  manifestava. 
Até  membros  da  pequena  nobreza  tiveram  ocasionalmente  um  papel  de  destaque 
porque,  numa  conjuntura  de  crise  económica,  era  profundo  o  rancor  que  sentiam  pela 
alta  nobreza37  e,  de  qualquer  modo,  os  pequenos  nobres  podiam  aparecer  também 
como  chefes  das  comunidades  locais.  Nesta  situação  contraditória,  o  êxito  obtido  pelas 
reivindicações  que  beneficiavam  de  maneira  especial  os  estratos  cimeiros  do  campesi¬ 
nato  contribuiu  para  destacar  das  comunidades  os  elementos  mais  ricos  e  para  projectá- 
-los  para  novas  vias  de  ascensão  social  e.  progressivamente,  para  um  novo  sistema  de 
exploração.  Mas  este  seria  o  futuro,  um  dos  futuros  possíveis  naquela  época,  e  não  o 
presente  que  então  se  vivia. 

A  ausência  de  um  programa  de  nivelamento  social  não  punha  em  causa  o  radica¬ 
lismo  daquele  tipo  de  reivindicações,  porque  o  factor  decisivo  era  a  defesa  das  comuni¬ 
dades  rurais  e  o  desenvolvimento  dos  elos  de  solidariedade  em  que  elas  assentavam.  As 
comunidades  admitiam,  ou  mesmo  pressupunham,  uma  certa  diferença  de  fortunas 
entre  as  famílias  que  as  integravam,  e  não  era  tanto  esta  desigualdade  que  as  compro¬ 
metia  intemamente  como.  sobretudo,  o  facto  de  os  camponeses  mais  ricos  promoverem 
sistematicamente  o  assalariamento  de  jornaleiros  sem  terra.  Quando  tal  sucedia,  as 
comunidades  viam  escapar-se-lhes  ao  mesmo  tempo  as  camadas  superior  e  inferior,  e 
viam  difundir-se  relações  pecuniárias  em  substituição  dos  tradicionais  vínculos  de  soli¬ 
dariedade  entre  vizinhos.  Foi  contra  o  processo  de  dissolução  do  comunitarismo  que  se 
ergueram  os  rurais  ingleses,  reivindicando,  por  exemplo,  a  devolução  dos  direitos 
comuns  sobre  os  incultos,  de  que  os  senhores  se  haviam  apropriado.  A  limitação  das 
fortunas  só  constituiria  um  objectivo  da  revolta  na  medida  em  que  impedisse  a  prolife¬ 
ração  de  gente  sem  terra  e  a  concomitante  ascensão  de  um  punhado  de  ricos,  desejosos 
de  se  introduzirem  nos  estratos  inferiores  da  aristocracia.  Mas  não  suscitava  apreensões 
uma  desigualdade  que  não  comprometesse  a  sobrevivência  das  comunidades. 

Aliás,  o  facto  de  um  número  muito  considerável  de  artesãos  rurais  ter  participado 
activamente  na  insurreição  de  138  1 38  mostra  que  haviam  sido  mobilizados  todos  os 
tipos  de  elementos  integradores  das  comunidades.  As  regiões  onde  o  movimento  alas- 


36  Ver  neste  capítulo  a  n.  3. 

R.  Hilton  (1973  a)  184  afirma  que  os  membros  da  nobreza  que  tomaram  parte  na  insurreição 
não  eram  típicos  da  sua  classe.  No  entanto,  afígura-se-me  mais  esclarecedora  uma  perspectiva  que 
aproveite  aquele  facto  para  salientar  as  contradições  no  interior  da  classe  dominante,  tal  como  se 
encontra  em  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  162,  quando  estes  autores  chamam  a  atenção  para  o  descontenta¬ 
mento  que  o  sistema  de  impostos  provocava  entre  muitos  elementos  da  pequena  nobreza. 

38  R.  Hilton  (1973  a)  179. 

Note-se.  porém,  que.  segundo  id.,  ibid..  184,  os  camponeses  e  os  artesãos  se  encontravam  na 
mesma  proporção  entre  os  insurrectos  e  no  conjunto  da  população  nas  regiões  onde  o  movimento  foi 
mais  significativo.  Noutra  perspectiva,  depois  de  admitirem  que  Wai  Tyler  talvez  fosse  um  tiler,  ou 
seja.  um  ladrilhador  ou  colocador  de  telhas.  Ph.  Lindsay  et  al.  |s.  d.]  81  observam  que  naquela  época 
os  sobrenomes  começavam  já  a  tomar-se  fixos  e  por  isso  é  impossível  conhecer  de  maneira  incontro¬ 
versa  a  profissão  do  chefe  da  revolta. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


6  03 


trou  mais  depressa  e  assumiu  as  formas  mais  agudas  foram  aquelas  onde  mais  tinham 
progredido  os  mercados  rurais  e  o  artesanato  rural,  por  isso  as  comunidades  de  aldeia 
não  poderiam  estar  plenamente  representadas  se  a  agitação  não  incluísse  os  profissio¬ 
nais  daqueles  sectores  da  economia. 

Foi  também  porque  conceberam  o  reino  como  uma  vasta  comunidade  formada  por 
comunidades  menores  que  os  camponeses  puderam  arrastar  consigo  diversas  cidades,  e 
algumas  das  mais  importantes39.  Canterbury,  por  exemplo,  foi  tomada  pelos  revoltosos 
de  acordo  com  a  sua  população,  e  centenas  de  habitantes  integraram-se  no  exército  dos 
insurrectos40.  O  facto  de  em  boa  parte  dos  casos  a  agitação  urbana  ter  vindo  na  sequên¬ 
cia  de  velhas  reivindicações  parece-me  secundário,  pois  o  fundamental  em  1381  foi  que 
estas  lutas  não  se  circunscreveram  aos  muros  de  cada  cidade  e  inseriram-se  no  movi¬ 
mento  geral41.  A  contestação  camponesa  pôde,  assim,  conferir  outra  expressão  às  cliva¬ 
gens  sociais  existentes  no  meio  urbano.  No  caso  de  Londres,  o  mais  notável,  operou-se 
uma  verdadeira  junção  dos  interesses  dos  rurais  com  os  da  arraia-miúda42. 

É  neste  contexto,  em  que  o  problema  da  coesão  das  comunidades  assumiu  a  prima¬ 
zia,  que  deve  abordar-se  a  questão  da  classe  revolucionária.  O  assalariamento.  entendido 
de  maneira  estrita  como  remuneração  em  dinheiro,  não  era  então  suficientemente  siste¬ 
mático  para  poder  definir  o  perfil  de  uma  camada  social:  e  a  mão-de-obra  prebendada, 
que  se  repartia  por  uma  multiplicidade  de  situações,  estava  desprovida  de  homogenei¬ 
dade.  Não  foi  no  regime  senhorial,  mas  só  depois,  no  modo  de  produção  capitalista,  que 
os  assalariados  vieram  a  constituir  a  classe  revolucionária.  No  regime  senhorial  eram  os 
servos  a  classe  revolucionária,  e  todas  as  potencialidades  da  sua  contestação  convergiam 
na  elevação  das  comunidades  rurais  a  modelo  de  uma  sociedade  alternativa 

Compreendem-se  nesta  perspectiva  as  esperanças  que  os  insurrectos  de  1 38 1  depo¬ 
sitaram  no  rei43,  a  quem  as  concepções  arcaicas  haviam  conferido  a  função  de  coman¬ 
dar  o  conjunto  das  comunidades  camponesas.  Para  eles  a  responsabilidade  de  uma  má 
política  não  se  devia  ao  monarca,  mas  exclusivamente  aos  seus  conselheiros44,  e  por 
onde  quer  que  passassem  os  revoltosos  exigiam  um  juramento  de  fidelidade  «ao  Rei 


39  N.  Cohn  ( 1957)  216;  G.  Fourquin  (1972)  135,  183;  R.  H.  Hilton  (1949-1950)  135;  kl.  (1973  a)  186 
esegs.:  Ph.  Lindsay  et  al  .  (s.  d.]  84-85. 1 12-113.  140,  158.  159,  16L.M.  M.  Postan  (1978  a)  171-172. 

A  propósito  da  ocupação  de  Norwich  pelos  insurrectos,  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d  l  158  afirmam  que 
esta  cidade  era  a  segunda  ou  terceira  mais  importante  no  reino.  Mas  Ph.  Ziegler  ( 1997)  146  adverte 
que  Norwich  ocupara  o  segundo  lugar  entre  as  cidades  inglesas  nos  meados  do  século  XIV,  sofrendo 
depois  um  acentuado  declínio  demográfico  em  virtude  da  Peste  Negra  e  perdendo  muita  da  sua 
importância. 

40  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  84-85,  140. 

41  Afigura-se-me  indevida  a  importância  que  R.  Hilton  ( 1973  a)  186  confere  ao  facto  de  por  vezes 
a  participação  das  cidades  no  movimento  estar  na  continuidade  de  conflitos  anteriores,  especifica¬ 
mente  urbanos. 

42  ld„  ibid..  141.  186-192;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  88-89.  103;  M.  Mollat  et  al.  (1970)  205-206; 
S.  L.  Thnipp  (1948)  26. 

Note-se,  todavia,  que,  segundo  G.  Fourquin  (1972)  186-187,  Ph.  Lindsay  et  al.  |s.  d.]  103  e  M. 
Mollat  et  al.  ( 1970)  206.  alguns  grandes  negociantes  londrinos  se  manifestaram  igualmente  favoráveis 
à  insurreição. 

43  N.  Cohn  1 1957)  216,  413. 

44  Ph.  Lindsay  et  al.  fs.  d.|  101 . 


604 


Diacronid.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


Ricardo  e  ao  Verdadeiro  Povo»4-'’.  Ao  manterem  este  ideal,  eles  prosseguiam  uma  tradi¬ 
ção  que,  como  sabemos  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  17. d),  caracterizara  secularmente  as 
lutas  rurais  e  cujos  efeitos  se  tornaram  ainda  mais  perversos  a  partir  do  século  XI. 
quando  a  coroa  perdeu  a  especificidade  relativamente  à  nobreza  e  só  continuou  a  apre¬ 
sentar-se  com  uma  aura  sagrada  graças  à  fé  que  nela  depositavam  os  camponeses. 
Ansiando  pelo  restabelecimento  da  independência  da  sociedade  rural,  os  servos  tinham 
como  objectivo  a  vigência  de  comunidades  chefiadas  directamente  pelo  monarca,  sem 
que  existissem  senhores  a  atribuir-se  a  si  mesmos  as  funções  de  intermediários  no  exer¬ 
cício  do  poder46.  Enquanto  reclamavam,  por  um  lado.  o  cancelamento  dos  direitos  judi¬ 
ciários  da  aristocracia  e  a  anulação  de  todos  os  privilégios  face  à  lei  e  exigiam  uma 
limitação  drástica  da  extensão  dos  conjuntos  senhoriais,  os  revoltosos  ingleses  admi¬ 
tiam,  por  outro  lado,  que  as  terras  da  coroa  mantivessem  as  suas  enormes  dimensões  e 
que  o  monarca  beneficiasse  de  um  estatuto  legal  superior  aos  demais47.  Aliás,  ao  ver¬ 
mos  que  era  também  pedida  a  inclusão  de  lodo  o  reino  num  só  bispado,  para  que  a  cir¬ 
cunscrição  religiosa  básica  fosse  a  paróquia  e  não  se  interpusessem  hierarquias  entre  os 
fiéis  e  um  bispo  único48,  podemos  concluir  que  os  insurrectos  procuravam  instaurar 
uma  correspondência  do  poder  régio  no  plano  eclesiástico,  de  modo  a  ficarem  reforça¬ 
das  as  características  divinas  do  soberano.  A  persistência  deste  mito  de  uma  monarquia 
fundada  no  campesinato  revela  até  que  ponto  eram  profundas  correntes  ideológicas  que 
não  deixaram  traço  na  documentação  escrita,  e  que  por  isso  são  desprezadas  pelo  eli¬ 
tismo  da  esmagadora  maioria  dos  eruditos.  Mas  os  rebeldes  de  1381  foram  mais  longe 
do  que  os  seus  precursores,  porque  investiram  da  imagem  da  realeza  os  próprios  chefes 
locais  da  insurreição49.  Quando  o  caudilho  do  levantamento  em  Norfolk,  um  simples 
artesão,  obrigou  quatro  nobres  a  servi-lo  como  criados,  e  os  fez  servirem  também 
outros  dirigentes  da  sublevação50,  estava  sem  dúvida  a  comportar-se  como  um  rei,  tanto 
assim  que  era  vitoriado  como  «rei  do  povo»51.  E  talvez  Wat  Tyler.  o  comandante  incon- 


45  É  assim  que  traduzo  ■  Wiih  King  Richard  and  lhe  True  Commons o  juramento  de  apoio  à 
revolta  mencionado  por  R.  Hilton  ( 1973  a)  225  e  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  79,  111. 

46  R.  Hilton  { 1973  a)  229;  Ph.  Lindsay  et  al.  (s.  d.)  1 14. 

R.  H.  Hilton  (1951)  25  pretende  que  os  insurrectos  ingleses,  ial  aliás  como  os  participantes  na 
Jacquerie  do  norte  da  França,  teriam  dirigido  a  sua  raiva  mais  contra  os  cobradores  de  impostos  do 
que,  como  havia  até  então  sido  habitual,  contra  os  agentes  senhoriais.  Isto  não  impede  Rodney  H.  Hil¬ 
ton,  em  op.  cie.  24-25.  de  observar  que  a  vaga  de  revoltas  ocorrida  no  século  XIV  não  se  limitava  já  a 
exprimir  simples  descontentamentos  locais  e  manifestava  a  insatisfação  com  o  próprio  sistema  social. 
Para  compreendermos  a  lógica  que  preside  a  esta  aparente  contradição  convém  saber  que  para  Hilton 
as  crescentes  pretensões  fiscais  da  coroa  ajudariam  a  ampliar  o  escopo  da  mentalidade  rural  e  a  alar¬ 
gar  o  sentido  de  solidariedade,  já  que  os  camponeses  dos  vários  lugares  passavam  a  defrontar-se  com 
um  motivo  de  reivindicação  comum.  Ver  id.  (1973  a)  146-147  e  150-152.  Parece-me,  todavia,  que 
este  historiador  está  a  aplicar  anacronicamente  um  modelo  de  tipo  capitalista,  pois  o  que  caracterizou 
a  insurreição  inglesa  de  1381  foi  o  prevalecimento  do  quadro  comunitário,  e  portanto  a  luta  contra  os 
senhores,  e  não  qualquer  confronto  com  o  Estado,  que  os  sublevados  identificavam  com  o  rei. 

47  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  128.  129. 

48  R.  Hilton  (1973  a)  229;  Ph.  Lindsay  et  al.  fs.  d.j  1 28-129. 

44  R.  Hilton  (1973  al  219-220,  225. 

50  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  160. 

-1  «King  of  lhe  Commons  •>  era  como  os  seus  seguidores  lhe  chamavam,  a  crer  em  id.,  ibid.,  161. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


605 


testado  da  revolta,  aparecesse  igualmente  corno  um  monarca-2.  O  rei  Ricardo  seria 
então  um  verdadeiro  imperador,  o  rei  de  todos  estes  reis  menores  ou  maiores,  a  cabeça 
de  uma  comunidade  única  que  reproduziria,  a  nível  global,  a  estrutura  de  cada  comuni¬ 
dade  local.  Esta  tentativa  de  emancipação  -  se  assim  pudermos  entender  a  atribuição  de 
um  carácter  régio  aos  chefes  revolucionários  locais  -  ficou,  todavia,  enredada  nas  suas 
limitações.  Com  a  extinção  do  campesinato  independente,  os  soberanos  haviam  perdido 
completamente  a  especificidade  que  os  caracterizara  há  vários  séculos  atrás,  e  agora 
eles  eram  só  os  mais  poderosos  de  todos  os  senhores,  não  podendo  já  servir  de  suporte 
prático  às  aspirações  dos  servos. 

'  Numa  jornada  memorável,  a  14  de  Junho  de  1381,  o  jovem  rei  jurou  aceitar  as  rei¬ 
vindicações  dos  sublevados  e  os  seus  desejos''1,  para  pouco  depois  os  trair,  procla¬ 
mando  que  não  eram  válidas  as  concessões  que  havia  feito54.  O  perjúrio,  este  crime  tão 
grave  para  o  mais  exaltado  dos  membros  de  uma  classe  social  que  reputava  a  honra 
como  grande  virtude,  decerto  não  era  significativo  se  os  ludibriados  fossem  gente 
humilde.  Segundo  os  mecanismos  do  potlatch,  que  resultavam  do  desenvolvimento,  em 
momentos  de  crise,  dos  princípios  gerais  do  sistema  de  troca  de  presentes,  a  honra 
manifestava-se  para  assegurar  a  supremacia  entre  os  pares,  e  não  tinha  lugar  no  relacio¬ 
namento  com  aqueles  que  estivessem  definitivamente  numa  situação  de  inferioridade. 
O  rei  era  visto  pelos  insurrectos  como  o  chefe  desejado  do  conjunto  das  colectividades 
rurais  autónomas,  mas  na  realidade  social  os  soberanos  estavam  já  reduzidos  a  uma 
simples  expressão  da  classe  senhorial.  Esta  contradição  comprometeu  o  sucesso  da 
revolta.  No  dia  15  de  Junho,  quando  Wat  Tyler,  depois  de  ter  enunciado  o  programa  rei¬ 
vindicativo.  foi  assassinado  perante  o  monarca55  e  aos  olhos  de  muitos  milhares  dos 
seus  seguidores56,  sem  que  o  crime  suscitasse  qualquer  reacção  destes  homens  que  até 
então  se  tinham  revelado  indómitos  e  entusiastas,  que  indica  isto  senão  que,  para  eles,  o 
rei  havia  tomado  directamente  o  comando  do  movimento57?  Matar  um  chefe  era  a 
forma  mais  drástica  de  o  destituir,  e  se  o  rei  Ricardo  se  substituía  a  Wat  Tyler  isto  signi¬ 
ficava,  então,  que  estavam  alcançados  os  objectivos  políticos  últimos  dos  revoltosos. 
Com  esta  serena  confiança  eles  dispersaram-se''*,  obedientes  ao  monarca,  julgando  que 


Durante  uma  semana  Wat  Tyler,  em  nome  dos  commons,  a  plebe,  tomou-se  chefe  de  uma 
grande  parte  do  sudeste  da  Inglaterra,  consoante  indicam  id.,  ibid.,  81. 

51  Id„  ibid..  117-118. 

54  G.  Fourquin  0972)  187  188;  R.  Hilton  (1973  a)  224;  Ph.  Lindsay  elal.  [s.  d.)  136-137. 

55  B.  H.  Landsberger  et  al.  (1973)  98;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  129-130. 

Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  126  afirmam  que  o  assassinato  de  Tyler  fora  planificado  antecipadamente 
pelos  conselheiros  do  rei. 

56  Id.,  ibid..  1 19  esclarecem  que  permaneciam  então  em  Londres  trinta  mil  insurrectos.  na  maior 
parte  provenientes  do  Kent.  precisamente  a  região  natal  de  Wat  Tyler. 

57  Depois  de  assassinado  Tyler,  B.  H.  Landsberger  et  al.  ( 1973)  98  indicam  que  o  monarca  falou 
aos  insurrectos,  proclamando-se  seu  chefe,  prometendo  satisfazer-lhes  as  reivindicações  e  apelando 
para  que  o  seguissem.  E  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.l  130-131  comentam  que  a  confiança  que  os  rebeldes 
depositavam  no  rei  fez  com  que  não  reagissem  e  continuassem  a  obedecer-lhe. 

5S  B.  H.  Landsberger  et  al.  (1973)  98;  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.]  131. 

Para  compreender  a  rápida  dispersão  dos  insurrectos  convém  recordar,  com  Ph.  Lindsay  et  al.  [s. 
d.]  111,  que  eles  não  constituíam  um  exército  profissional.  Camponeses  e  artesãos  que  viviam  do  seu 
trabalho  não  podiam  manter-se  muito  tempo  em  campanha. 


606 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


haviam  triunfado  quando  acabavam,  com  efeito,  de  ser  derrotados.  Na  Inglaterra  de 
1381  revelaram-se  com  iniludível  clareza  as  consequências  do  duplo  carácter  das  comu¬ 
nidades  rurais,  ao  mesmo  tempo  quadro  das  solidariedades  camponesas  e  elemento  de 
controlo  senhorial  (ver  na  Parte  II  o  capítulo  9.d).  O  rei,  chefe  mítico  das  comunidades, 
usou  os  elos  do  comunitarismo  para  restabelecer  a  hegemonia  aristocrática.  Fechara- 
-se  uma  vez  mais  sobre  a  classe  servil  a  armadilha  em  que  esta  contradição  sempre  a 
prendera59. 

E  é  esta  dicotomia  que  devemos  ter  presente.  Os  historiadores  que  consideram  as 
heresias  do  final  do  século  XIV  e  do  começo  do  século  XV  apenas  como  um  primeiro 
ensaio  do  estabelecimento  de  Igrejas  nacionais60  estão  a  ver  só  um  dos  lados  do  pro¬ 
blema.  Foi  o  fracasso  da  insurreição  inglesa  de  1381  que  levou  a  ambição  de  incluir  todo 
o  reino  num  bispado  único61,  que  para  os  revoltosos  fizera  parte  do  programa  de  reorga¬ 
nização  da  sociedade  segundo  o  modelo  de  uma  federação  de  comunidades,  a  converter- 
-se  num  dos  elementos  do  plano  que  haveria  de  colocar  o  soberano  absoluto  na  chefia 
suprema  da  Igreja  do  reino.  E  foi  o  longo  processo  de  desarticulação  interna  da  revolu¬ 
ção  na  Boémia  e  na  Morávia  e  o  triunfo  final  da  nobreza  conservadora,  reduzindo  a  dou¬ 
trina  hussita  aos  aspectos  estritamente  religiosos,  a  permitir  que  o  antigo  direito  de 
patrocínio,  tão  importante  para  Jan  Hus  e  para  os  seus  discípulos  na  estratégia  de 
reforma  da  Igreja,  passasse  a  servir  ao  príncipe  para  determinar  qual  deveria  ser  a  reli¬ 
gião  na  sua  área  de  soberania62.  As  confissões  protestantes  de  âmbito  nacional  resulta¬ 
ram  da  derrota  dos  movimentos  de  contestação  religiosa  e  da  sua  assimilação  pelo  pro¬ 
cesso  de  ampliação  da  domesticidade  do  soberano,  em  formas  parafami liares  que  inte¬ 
graram  a  totalidade  dos  súbditos  no  interior  do  Estado  absolutista.  Para  os  insurrectos  da 
Inglaterra,  todavia,  como  quarenta  anos  depois  para  os  revolucionários  boémios,  tratava- 
-se  de  algo  muito  diferente,  e  basta,  aliás,  recordar  a  importância  da  participação  no 
movimento  hussita  de  pessoas  oriundas  de  fora  das  fronteiras  para  mostrar  que  não  exis¬ 
tiam  entre  os  sublevados  quaisquer  atitudes  que  pudéssemos  hoje  classificar  como  nacio¬ 
nalistas65.  Pelo  contrário,  os  dirigentes  da  ala  radical  preocuparam-se  em  não  excluir  a 


59  Foi  a  confiança  que  depositavam  no  rei  que  levou  os  insurrectos  de  1381  à  derrota,  observa  R. 
H.  Hilton  (1976)  234 

60  Ver.  por  exemplo:  R.  R.  Betts  (1955)483-486,  497;  M.  Wilks  (1972)  1 10. 

61  Ver  neste  capitulo  a  n.  48. 

62  J.  M.  Klassen  (1978)  100.  Acerca  da  importância  do  direito  de  patrocínio  no  movimento  hussita 
ver  neste  capítulo  as  nn.  98  e  99. 

63  Embora  M.  Mollat  et  al.  (1970)  251  previnam  que  não  se  deve  insistir  nos  aspectos  étnicos  do 
movimento  hussita.  vários  historiadores  pretendem  que  desde  o  início  ele  teria  assumido  declarada¬ 
mente  uma  postura  antigermânica.  Apagando  os  seus  antagonismos  internos  e  apresentando-os  como 
se  constituíssem  uma  tendência  única.  M.  Erbstõsser  ( 1988)  1 1  afirma  que  aquele  movimento  conju¬ 
gou  doutrinas  heréticas,  intenções  reformadoras,  luta  de  classes  e  aspirações  nacionais  e  que  se  teria 
tratado  da  «primeira  forma  de  revolução  burguesa».  No  mesmo  sentido,  R.  Hilton  (1973  a)  134  define 
a  ala  radical  dos  discípulos  de  Hus,  encabeçada  pela  colectividade  de  Tabor.  como  um  movimento 
nacional  e  social  beneficiando  do  apoio  do  campesinato.  Também  G.  Fourquin  (1972)  136.  depois  de 
comentar  que  na  Boémia  a  maior  pane  dos  prelados  era  formada  por  germanos,  escreve  que  as  rivali¬ 
dades  nacionais  teriam  eclodido  com  a  execução  de  Hus  em  1415.  Por  sua  vez,  N.  Cohn  (1957)  218 
considera  que  a  antipatia  que  a  população  da  Boémia  sentia  pelo  clero  foi  reforçada  pelo  facto  de  pes¬ 
soas  de  origem  germânica  serem  especialmente  numerosas  nos  altos  cargos  eclesiásticos,  e  acrescenta 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


607 


população  de  origem  germânica64,  revelando  assim  que  não  confundiam  os  inimigos  da 
doutrina  de  Hus  com  a  globalidade  dos  habitantes  do  império.  Se  é  certo  que  em  meios 
profissionais  específicos,  como  entre  os  operários  das  minas,  os  Boémios  entraram  então 
em  confrontos  violentos  com  os  Germanos65,  na  sua  generalidade  o  movimento  evoluiu 
de  maneira  oposta  e  superou  as  fronteiras.  Aliás,  alguns  dos  principais  pensadores  hussi- 
tas  eram  germanos66.  Também  entre  a  gente  mais  pobre  de  Tabor,  a  principal  das  colecti- 
vidades  hussitas  radicais,  com  mais  de  quarenta  mil  membros67,  se  contavam  assalaria¬ 
dos  urbanos  de  origem  germânica,  bem  como  jornaleiros  e  operários  vindos  da  Áustria, 
da  Stíria.  da  Eslováquia  e  da  Polónia68.  O  objectivo  da  ala  radical  dos  Hussitas,  que 
orientou  o  movimento  no  seu  apogeu,  era  a  multiplicação  das  colectividades  igualitárias 
não  só  por  toda  a  Boémia,  mas  por  toda  a  Cristandade69.  E  se  é  sabido  que  o  plano  não 
teve  êxito,  pelo  menos  a  doutrina  de  Hus  e  o  exemplo  da  revolução  da  Boémia  encontra¬ 
ram  posteriormente  eco  e  simpatia  em  várias  regiões  de  expressão  alemã70,  tal  como 
noutros  lugares  mais  distantes,  na  Grande  Polónia,  na  Hungria,  em  terras  do  que  haveria 
mais  tarde  de  ser  a  Roménia,  na  Flandres,  na  Sabóia,  em  França,  até  nas  Espanhas71.  O 
quadro  em  que  os  herejes  e  os  reformadores  religiosos  radicais  procuraram  consolidar  e 
dar  estabilidade  às  novas  doutrinas  não  foi  definido  pelo  poder  político  do  Estado  centra¬ 
lizado  e  pelo  seu  corolário  sócio-geográfico,  a  nação,  mas  pela  comunidade  rural,  que 
podia  ser  multiplicada  ilimitadamente.  Algo  de  muito  importante,  de  verdadeiramente 


(p.  221),  a  propósito  da  insurreição  de  Praga  em  Julho  de  1419.  que  a  elite  desta  cidade  era  em  boa 
medida  de  proveniência  germânica.  J.  Macek  (1968)  244  afirma  igualmente  que  o  ressentimento  con¬ 
tra  a  elite  de  Praga  foi  agravado  pela  situação  étnica,  já  que  os  Boémios  constituíam  a  maioria  entre 
os  habitantes  da  cidade.  Todavia,  em  op.  cit..  246  Josef  Macek  adverte  que  a  luta  contra  a  elite  urbana 
não  se  deveu  a  motiveis  xenófobos,  e  Michel  Mollat  e  Philippe  Wolff  em  op.  cit..  251  chamam  a  aten¬ 
ção  para  o  facto  de  a  atitude  das  cidades  boémias  relativamente  ao  movimento  hussita  ter  sido  inde¬ 
pendente  da  sua  composição  étnica  ou,  pelo  menos,  da  composição  étnica  dos  seus  meios  dirigentes. 
Segundo  Josef  Macek  em  op.  cit..  251-252  n.  22,  o  nacionalismo  ter-se-ia  manifestado  no  movimento 
hussita  sobretudo  depois  de  1420,  com  a  mobilização  organizada  contra  as  expedições  católicas,  e 
também  H.  Kaminsky  ( 1967)  429  detecta  já  em  1421  uma  propensão  nacionalista  entre  as  correntes 
menos  extremistas  daquele  movimento. 

64  Em  1421,  um  dos  chefes  da  facção  hussita  radical  de  Praga  nomeou  pregadores  germânicos 
destinados  aos  hussitas  de  expressão  alemã  que  haviam  permanecido  na  cidade,  consoante  leio  em  J. 
Macek  ( 1968)  246.  O  recíproco  ocorrera  anteriormente  entre  os  Valdenses,  pois  o  facto  de  esta  here¬ 
sia,  segundo  M.  D.  Lambert  (1977)  295-296,  ler  sido  levada  para  a  Boémia  pelos  imigrantes  germâni¬ 
cos  não  a  impediu  de  se  difundir  entre  a  população  autóctone,  já  que  existiam  relações  entre  ambas  as 
comunidades,  como  observa  H.  Kaminsky  ( 1956)  1 14-1 15  e  ( 1967)  178. 

65  R.  R.  Betts  (1955)498. 

66  M.  Mollat  et  al.  (1970)  251. 

61  Para  o  número  dos  fundadores  de  Tabor  ver  J.  Macek  ( 1958)  36. 

h8  ld„  ibid..  39;  id.  ( 1968)  248. 

64  ld.  (1958)41. 

70  Acerca  da  repercussão  do  movimento  hussita  nas  regiões  de  expressão  alemã  ver:  G.  Fourquin 
(1972)  141-142:  J.  Macek  (1958)  110-111;  id.  (1968)249. 

71  Quanto  à  repercussão  da  revolução  hussita  para  além  das  fronteiras  do  império  germânico  ver: 
G.  Fourquin  (1972)  141:  A.  Gieysztor  ( 1971  b)  171:  J.  Macek  (1958)  83-86.  113-1 14;  id.  (1968)  249: 
M.  Mollat  (1978)  266.  Apesar  de  o  clero  lhes  fazer  essa  acusação,  escreve  G.  Fourquin  (1972)  142, 
não  é  absolutamente  certo  que  os  movimentos  camponeses  na  Borgonha  e  no  Lyonnais  tivessem  sido 
influenciados  pelos  Hussitas. 


608 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


fundamental,  se  modificara  na  dissidência  religiosa.  Se  recordarmos  (ver  o  capítulo  17. d 
da  Parte  II)  que  anteriormente  a  maioria  dos  pregadores  heréticos  havia  contestado  todas 
as  formas  de  organização  social  existentes,  procurando  precipitar  os  discípulos  numa 
completa  marginal ização,  verificamos  que  agora,  ao  fundir  as  esperanças  de  renovação 
espiritual  com  os  vínculos  da  solidariedade  comunitária,  a  heresia  adquiriu  enfim  uma 
base  social  estável  e.  ao  mesmo  tempo,  conferiu  um  programa  ideológico  à  raiva  e  ao 
desespero  dos  camponeses  e  da  arraia-miúda  das  cidades. 

O  que  estes  insurrectos  pretendiam  não  era  um  Estado  absoluto,  tal  como  aqueles  a 
que  as  Igrejas  reformadas  vieram  depois  a  prestar  os  seus  serviços,  mas  uma  federação 
de  comunidades,  obedecendo  ela  mesma  ao  modelo  da  comunidade  2.  O  comunita- 
rismo  não  era  então  apenas  um  tema  de  tradições  imemoriais,  que  adquirira  novo  vigor 
-e  outro  sentido  -  ao  ligar-se  indissociavelmente  à  senhoria  impessoal.  Para  além  des¬ 
tes  factores  de  longa  duração,  na  passagem  do  século  XIV  para  o  século  XV  os  resulta¬ 
dos  positivos  da  luta  contra  a  exploração  permitiram  aos  camponeses  reduzir  as  suas 
vendas  de  cereal  no  mercado,  que  se  destinavam  a  obter  o  dinheiro  necessário  ao  paga¬ 
mento  das  prestações.  Ora,  nas  condições  da  época,  esta  diminuição  da  oferta  mercantil 
representava  um  aumento  do  autoconsumo,  reforçando-se  no  mesmo  processo  os  vín¬ 
culos  comunitários.  Como  vimos  (no  capítulo  15),  quando  diminuía  a  pressão  dos  tri¬ 
butos  e  as  famílias  rurais  eram  capazes  de  gastar  em  proveito  próprio  uma  fracção  mais 
substancial  da  sua  colheita,  elas  afrouxavam  os  laços  que  as  prendiam  ao  mercado,  ou 
seja,  a  um  dos  instrumentos  mais  eficazes  do  poder  senhorial,  e  davam  por  isso  um 
novo  vigor  aos  elos  de  solidariedade  que  as  ligavam  reciprocamente.  Na  transição  do 
século  XIV  para  o  século  seguinte  a  comunidade  rural  adquiriu  outra  dinâmica,  corres¬ 
pondente  às  aspirações  servis. 

A  figura  do  Bom  Pastor  foi  então  investida  de  uma  dimensão  ao  mesmo  tempo 
sagrada  e  profana,  na  medida  em  que  o  ideal  das  comunidades  consistia  em  obedece¬ 
rem  à  autoridade  benevolente  de  um  rei,  um  verdadeiro  soberano  bíblico.^Ys  relações 
internas  de  um  tal  sistema  eram  sentidas  e  vividas  como  uma  comunhão  religiosa,  e 
encontraram  a  sua  expressão  nas  ideias  e  nos  rituais  das  novas  heresias.  Como  não 
detectar  nestas  modalidades  os  traços  da  antiga  conjura,  da  cerimónia  do  comer  e  beber 
em  comum,  que  havia  tido  uma  tão  grande  importância  entre  o  campesinato  pagão? 
Afinal,  o  paganismo,  que  sem  dúvida  inspirara  alguns  aspectos  das  primeiras  heresias 
surgidas  no  regime  senhorial  (ver  o  capítulo  2  da  Parte  II),  subsistia  ainda  nessa  tradi¬ 
ção  multimilenária  e  assegurava  a  sua  sobrevivência  dando  uma  nova  feição  aos  ternas 
evangélicos.  Após  a  derrota  destes  movimentos  de  contestação,  porém,  a  tão  desejada 
relação  paternal  entre  o  monarca  c  os  súbditos,  veiculada  por  uma  prática  religiosa  dis¬ 
sidente  e  operando  no  quadro  do  comunitarismo,  foi  usada  para  vestir  com  roupagens 
atraentes  um  outro  tipo  de  relação  directa  entre  o  monarca  e  os  súbditos,  estabelecida 
no  âmbito  do  Estado,  enquanto  domesticidade  artificial  do  soberano,  e  veiculada  pelo 
dinheiro.  Assim  como  os  Estados  nacionais  foram  o  resultado  da  derrota  das  aspirações 
comunitárias  dos  camponeses  e  da  arraia-miúda  das  cidades  e,  ao  mesmo  tempo,  o  seu 


72  A  longa  cadeia  de  revoltas  que  foi  desde  as  Jacqueries  até  à  grande  revolução  de  1789  repre¬ 
sentou  a  lula  da  comunidade  rural  contra  a  senhoria,  escreve  M.  Bloch  ( 1960-1961 1 1  173-174. 


Da  nora  Jerusalém  à  nora  realidade 


609 


travestixsement,  também  o  protestantismo  oficial  constituiu  a  inversão  dos  temas  propa¬ 
gados  pelos  heréticos  radicais  no  tema^jo  século  XIV  e  ao  longo  do  século  XV. 

A  reforma  político-religiosa  conceKída  e  propôs^  por  John  Wyclif  é  um  perfeito 
exemplo  destà  transformação,  em  que  a  aspiração  camponesa  a  um  conjunto  de  comu¬ 
nidades,  unidas  numa  comunidade  global  sob  a  condução  do  rei,  inspirou  um  modelo 
que.  na  prática,  tinha  efeitos  éxactaniente  opostos  e  levava  à  dissolução  de  todas  as 
ordens  jurídicas  particulares  e  à  formação  de  uma  nação  sob  a  égide  de  um  Estado73. 
Wyclif  ocupou  a  charneira  deste  processo,  e  se  os  seus  escritos  puderam  oferecer  um 
quadro  ideológico  aos  revoltosos,  eles  foram  igualmente  úteis  para  as  manobras  de 
John  of  Gaunt,  João  de  Gand,  o  duque  de  Lancaster74.  Este  tio  do  jovem  monarca,  o 
mais  rico  e  poderoso  senhor  inglês  e  um  dos  principais  inimigos  da  insurreição  de 
1 38 1 75,  pretendia  reforçar  o  governo  central  e  minar  a  autonomia  política  adquirida 
pelos  prelados76,  expressora,  sem  dúvida,  da  autoridade  que  procuravam  manter  as  aris¬ 
tocracias  regionais.  Também  seria  interessante  estudar,  sob  o  ponto  de  vista  da  recupe¬ 
ração  pela  classe  dominante  de  um  movimento  originariamente  plebeu  e  radical,  a 
intluência  que  João  de  Gand  pudesse  ter  exercido  sobre  as  lutas  sociais  travadas  em 
Portugal  de  1383  a  1385,  quando  a  insatisfação  da  arraia-miúda  e  dos  camponeses 
auxiliou  um  bastardo  a  conquistar  o  trono. 

Tratou-se  de  um  conflito  complexo,  que  acabou  reduzido  a  uma  guerra  dinástica, 
mas  que  se  iniciou  como  um  levantamento  animado  pela  arraia-miúda  de  Lisboa  e  con¬ 
duzido  pela  elite  urbana7',  com  a  participação  resoluta  do  campesinato78.  Foram  os 
artesãos  quem  forçou  o  timorato  mestre  de  Aviz  a  candidatar-se  ao  trono,  e  obtiveram 
em  contrapartida  o  direito  a  participar  na  eleição  dos  magistrados  da  cidade  e  no  lança¬ 
mento  dos  impostos;  quanto  à  elite  de  Lisboa,  que  se  dispôs  a  financiar  as  campanhas 
militares  do  mestre,  conseguiu  em  troca  uma  série  de  privilégios  de  carácter  econó¬ 
mico  y.  Neste  contexto,  os  elementos  da  nobreza  que  se  mostravam  descontentes  com  a 


73  H.  Kaminsky  ( 1 967 1  145:  M.  Wilks  (1972)  119. 

74  K.  B.  McFarlane  (1955)  217  pretende  que  a  intluência  dos  Lollards  na  corte  e  no  conselho  de 
Ricardo  lí  se  deveria  não  a  João  de  Gand,  mas  ao  circulo  que  rodeava  o  seu  irmão  Eduardo,  o  Prín¬ 
cipe  Negro,  herdeiro  do  trono,  que  morreu  antes  de  seu  pai  e  passou  a  sucessão  ao  seu  filho,  Ricardo 
II.  Menos  peremptório,  M.  D.  Lambert  ( 1977)  222  limita-se  a  afirmar  que  Wyclif  entrou  ao  serviço  do 
rei  a  convite  ou  do  Príncipe  Negro  ou  de  João  de  Gand.  No  entanto,  como  o  Príncipe  Negro  faleceu 
cinco  anos  antes  da  grande  insurreição,  o  problema  aqui  mais  importante  consiste  em  saber  qual  era, 
em  1381,  a  relação  entre  João  de  Gand  e  Wyclif.  Ora,  Ph.  Lindsay  et  al.  [s.  d.)  53  e  56  garantem  que, 
embora  Wyclif  não  tivesse  simpatia  pelos  objectivos  de  João  de  Gand.  que  se  utilizava  das  suas  dou¬ 
trinas  de  maneira  oportunista,  ele  aproveitava  esse  apoio  para  se  proteger  das  autoridades  eclesiásticas 
e  difundir  as  suas  teses  heréticas.  Ainda  quanto  às  relações  entre  João  de  Gand  e  Wyclif  ver:  Ph. 
Lindsay  et  al.  fs.  d.J  54-55:  M.  W'ilks  (1972)  121. 

75  R.  Hilton  (1973  a)  158-160. 

76  M.  Wilks  (1972)  121. 

77  A  elite  de  Lisboa  só  apoiou  o  mestre  de  Aviz  porque  se  sentiu  exposta  à  pressão  violenta  dos 
artesãos,  afirma  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  395.  Adoptando  a  perspectiva  complementar.  A.  B. 
Coelho  (1981)  73-75  observa  que,  em  vez  de  ser  ela  própria  a  chefiar  o  movimento,  a  arraia-miúda 
pressionou  a  elite  a  assumir  o  comando. 

78  A  originalidade  do  movimento  de  1383-1385,  escreve  A.  B.  Coelho  (1981)  146,  foi  ter  sido 
sustentado  não  só  pela  elite  urbana,  mas  também  pelos  camponeses  abastados. 

79  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  395. 


610 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


eventual  passagem  do  trono  para  o  rei  de  Leão  e  Castela  temiam  o  aprofundamento 
social  do  conflito,  com  tanta  mais  razão  quanto  começavam  a  alastrar  revoltas  rurais80  e 
no  Alentejo  os  camponeses  pobres  e  os  jornaleiros  estavam  já  a  dar  um  rumo  próprio 
aos  acontecimentos.  Esta  gente  humilde  dos  campos  do  sul  aprisionara  e  expulsara 
várias  figuras  de  destaque  da  elite  urbana  da  região,  que  apoiavam  o  mestre  de  Aviz  só 
enquanto  ele  se  revelasse  capaz  de  impedir  a  radicalização  do  movimento81.  Aliás,  é, 
curioso  observar  que  os  historiadores  portugueses  de  formação  marxista,  que  susten» 
tam,  e  muito  acertadamente.  o  carácter  plebeu  da  candidatura  do  mestre  de  Aviz82# 
parecem  ignorar  um  dos  elementos  decisivos  em  abono  de  tal  tese.  Com  efeito,  o  facto 
de  o  pretendente  castelhano  à  coroa  portuguesa  ser  um  Traxtâmara.  de  uma  dinastia 
identificada  com  o  reforço  do  poder  senhorial,  ajuda  a  compreender  a  razão  por  que 
uma  boa  pane  da  alta  nobreza  apoiou  o  monarca  do  reino  vizinho  e  por  que  a  plebe  se 
manifestou  contia  ele83. 


M.  Mollat  et  al.  (1970)  272  consideram  que  entre  a  elite  de  Lisboa  e  do  Porto  o  apoio  ao  mestre 
de  Aviz  se  deveu  sobretudo  aos  elementos  de  recente  extracção  popular. 

80  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  1  395. 

81  A.  B.  Coelho  (1981)  85. 

82  Já  H,  G.  Barres  (1945-1954)  II  475  classificara  como  «eminentemente  popuiar»  a  guerra  civil 
que  levou  o  mestre  de  Aviz  ao  trono.  A.  Cunhal  ( 1963)  104.  1 10  e  118  elucida  algumas  importantes 
linhas  de  tensão  dos  conflitos  de  1383- 1 385.  com  a  condição  de  traduziimos  para  as  categorias  sociais 
do  regime  senhorial  a  sua  classificação  anacrónica,  válida  apenas  no  modo  de  produção  capitalista. 
Empregando  a  terminologia  que  tenho  usado  nesta  obra,  ocorreu  uma  luta  pelo  poder,  em  que  a  elite 
urbana  e  o  campesinato  mais  abastado  se  aliaram  aos  artesãos  e  aos  restantes  camponeses.  Mas  como 
Álvaro  Cunhal  considera,  em  op.  cit.,  108-109,  que  os  interesses  sociais  dos  negociantes  e  dos  arte¬ 
sãos  eram  antagónicos  aos  da  aristocracia  laica  e  eclesiástica  ele  pode  sustentar  (p.  1 10)  que  em  1383- 
- 1 385  não  só  os  camponeses  ricos  mas  igualmente  os  membros  da  elite  urbana  se  opunham  ao  regime 
senhorial,  o  que  o  leva  a  atribuir  uma  conotação  revolucionária  ao  conjunto  do  movimento.  Se,  no 
fim,  a  nobreza  acabou  por  triunfar,  para  Álvaro  Cunhal  isto  ter-se-ia  devido  (pp.  118-1 19)  ao  agrava¬ 
mento  das  contradições  entre  os  camponeses  abastados  e  a  elite  urbana,  pois  os  comerciantes  das 
cidades  do  litoral  estariam  muito  mais  dispostos  a  conciliar-se  com  o  regime  senhorial  do  que  o  esta¬ 
vam  os  rurais,  cuja  prosperidade  exigia  o  enfraquecimento  dos  senhores.  Também  A.  B.  Coelho 
(1981)  76  e  segs,  pretende  que  o  movimento  de  1383  se  dirigia  contra  a  nobreza  senhorial.  Tratar-se- 
-ia,  para  ele.  em  op.  cit..  234,  de  uma  revolução  anti-senhorial,  conduzida  pela  elite  urbana  e  pelos 
rurais  mais  ricos,  activamente  apoiada  pela  arraia-miíída.  pelos  camponeses  pobres  e  pelos  jornalei¬ 
ros,  e  contando  com  a  participação  de  alguns  nobres.  Todavia.  A.  Castro  ( 1964-1979)  é  mais  nuancé 
nas  apreciações.  Depois  de  insistir  (XI.  pp.  195  e  segs.)  na  contradição  entre  o  campesinato  mais  prós¬ 
pero  e  os  senhores,  revelada  pelos  acontecimentos  de  1383-1385,  ele  afirma  (XI.  pp.  201-202)  que  o 
mestre  de  Aviz  foi  o  candidato  da  plebe  rica,  classificada  como  «burguesia»,  contra  a  facção  senho¬ 
rial.  Segundo  Armando  Castro,  em  op.  cit..  XI  209  e  221  e  segs..  esta  «burguesia»,  composta  por  mer¬ 
cadores.  armadores  navais  e  grandes  lavradores  e  criadores  de  gado.  apoiava-se  nos  explorados  dos 
campos  e  das  cidades  para  prosseguir  o  confronto  com  os  senhores.  Mas  este  historiador  acrescenta 
(XI,  pp,  228,  233.  235)  que  a  falta  de  força  social  da  «burguesia»  e  das  «classes  populares»  as  impe¬ 
diu  de  pôr  em  causa  as  estruturas  senhoriais. 

83  Os  historiadores  marxistas  portugueses  ocuparam-se  em  encenar  no  passado  a  mesma  dialéctica 
social  e  política  com  que  pretenderam  derrubar  o  fascismo,  e  por  isso  analisaram  a  guerra  dinástica  de 
1383-1385  em  termos  de  uma  unidade  nacional  contra  interesses  estrangeiros.  Ver  a  este  respeito  A. 
B.  Coelho  (1981)  234  e  A.  Cunhal  ( 1 963)  1 1 8.  Na  realidade,  o  que  caracterizou  aqueles  acontecimen¬ 
tos  foi  precisamente  eles  não  terem  sido  condicionados  pelas  fronteiras.  Os  nobres  portugueses  que 
combatiam  ao  lado  do  rei  de  Leão  e  Castela  não  traíram  uma  pátria  que  não  existia  ainda  nem  como 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


6  ll 


Foi  neste  momento,  quando  os  acontecimentos  prometiam  -  a  uns  -  ou  ameaçavam 
-  aos  outros  -  tomar  uma  feição  anti-senhorial,  que  se  reordenou  o  jogo  de  forças  entre 
os  partidários  do  mestre  de  Aviz.  Para  liquidar  pelas  armas  a  agitação  rural  decidiu-se  o 
envio  de  tropas  para  o  Alentejo,  sob  a  chefia  do  mais  hábil  dos  comandantes  militares 
do  mestre  e  contando  com  a  participação  em  lugares  de  destaque  de  algumas  das  figu¬ 
ras  da  elite  urbana  do  sul  que  haviam  sido  expulsas  pelos  camponeses  em  fúria84.  A 
partir  de  então  ficou  ciafõso  programa  da  pequena  nobreza  que  apoiava  o  mestre.  Por 
um  lado,  procurou  restringir  ao  exército  a  mobilização  da  gente  pobre  das  cidades  e  dos 
campos,  para  que  a  disciplina  militar  impedisse  os  camponeses  e  a  arraia-miúda  de 
prosseguirem  interesses  próprios  no  plano  social.  Por  outro  lado,  tentou  compensar 
com  a  participação  da  plebe  a  fraqueza  das  suas  armas  no  confronto  com  as  hostes  ini¬ 
migas,  de  maneira  a  vencer  a  alta  nobreza  que  defendia  a  candidatura  do  rei  de  Castela 
e  a  forçá-la  ao  exílio  definitivo,  captando-lhe  os  conjuntos  senhoriais  e  os  privilégios. 
Em  ambos  os  objectivos  a  pequena  nobreza  teve  êxito.  A  colaboração  da  plebe  permitiu 
ao  chefe  militar  do  novo  monarca  adoptar  tácticas  inovadoras,  que  destroçaram  sem 
apelo  a  cavalaria  dos  grandes  senhores  castelhanos  e  portugueses.  E  o  mestre  de  Aviz, 
tanto  antes  como  depois  de  ser  proclamado  rei,  aceitou  o  reforço  dos  privilégios  nobi¬ 
liárquicos  e  determinou  o  confisco  das  terras  de  quem  adoptasse  a  causa  contrária,  dis¬ 
tribuindo-as  aos  nobres  que  o  apoiavam,  ou  mesmo  a  muitos  membros  da  elite  urbana, 
e  criando  assim  poderosíssimas  casas  senhoriais*^.  A  entronização  da  nova  dinastia 
permitiu,  em  suma.  remodelar  os  quadros  da  alta  nobreza  portuguesa  e  dar  ao  reino 
uma  outra  dinâmica  social,  que  viria  a  projectá-lo  para  além  dos  mares. 

A  forma  rápida  e  hábil  como  os  nobres  ^partidários  do  mestre  de  Aviz  conseguiram 
liquidar  as  aspirações  da  plebe  e  ao  mesmo  tetnpo  aproveitar-se  delas  talvez  revele  que 
tivessem  reflectido  sobre  os  episódios  da  insurreição  inglesa  de  1381.  São  conhecidos 
os  estreitos  contactos  comerciais  entre  Portugal  e  a  Inglaterra,  e  decerto  os  negociantes 
não  deixariam  de  trazer  notícias  de  uma  agitação  que  assumira  as  maiores  proporções 
precisamente  nos  lugares  onde  o  tráfico  era  mais  activo.  Por  outro  lado,  se  o  sempre 
receoso  mestre  de  Aviz,  no  começo  do  processo  revolucionário  de  que  acabaria  por 
aceitar  o  comando,  teve  a  intenção  de  fugir  para  Londres86,  isto  revela  que  mantinha  já 
contactos  políticos  com  a  Inglaterra.  Com  efeito,  em  Dezembro  de  1383,  quando  uma 
assembleia  reunida  em  Lisboa  o  proclamava  Regente  e  Defensor  dos  Reinos,  os  seus 
partidários  enviavam  a  Inglaterra  uma  embaixada  com  pedidos  de  auxílio87.  Ora,  o  per- 


realidade  sócio-política  nem  como  conceito.  Limitaram-se  a  defender  os  seus  interesses  económicos  e 
sociais,  localizados  geograficamente  em  Portugal,  A  questão  é  correctamènte  colocada  par  Jí  bif  Hill- 
garth  (1976-1978)  1392,  ao  mostrar  que  a  nobreza  do  baixo  Douro  simpatizava  com  o  tipo  de  regime 
estabelecido  em  Leão  e  Castela  por  Henrique  II  de  Trastâmara,  enquanto  os  negociantes  de  Lisboa 
não  lhe  eram  favoráveis.  Acerca  da  forma  como  os  senhores  castelhanos  haviam  beneficiado  com  a 
entronização  da  nova  dinastia  ver  J.  VSldeón  Baruque  ( 1 976)  'ZÉZ3  ¥  90-93. 

S4A.  B.  Coelho  (1981)  86. 

85  H.  G.  Barros  ( 1943-1954)  II  475:  A.  Casiro  (1964-1979)  XI  228;  J.  N.  Hillgarth  (1976-1978)  I  395. 

Foi  contra  a  sua  vontade  que  o  mestre  se  viu  convertido  em  chefe  de  partido,  indica  A.  Castro 
(1964-1979)  XI  203  e  204. 

87  Id..  ibid..  XI  128. 


612 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


sonagem  central  nas  relações  políticas  entre  os  dois  reinos  não  era  outro  senão  João  de 
Gand,  duque  de  Lancaster.  o  senhor  mais  poderoso  da  Inglaterra,  que  em  1381  esteve 
no  centro  das  manobras  contra-revolucionárias.  Ele  tinha  desposado  em  segundas  núp¬ 
cias  a  herdeira  de  Pedro  1  de  Leão  e  Castela,  o  qual  fora  deposto  em  1 369  e  assassinado 
pelo  innão  bastardo,  Henrique  de  Trastâmara.  Com  esta  base  precária  João  de  Gand 
apresentara  a  sua  candidatura  ao  trono  castelhano  contra  a  nova  dinastia  dos  Trastâma- 
ras,  e  aliara-se  ao  rei  português,  Fernando  I,  que  havia  tomado  a  iniciativa  de  intervir 
contra  Henrique  na  guerra  dinástica.  Neste  contexto,  parece-me  especialmente  elucida¬ 
tivo  que  a  ida  de  tropas  inglesas  para  Portugal  se  tivesse  destinado  mais  a  reprimir  as 
revoltas  da  plebe,  que  então  eclodiram,  do  que  a  auxiliar  Fernando  I  contra  o  ocupante 
do  trono  castelhano88.  Dez  anos  mais  tarde,  quando  a  dinastia  dos  Trastâmaras  se  viu 
outra  vez  envolvida  em  conflitos,  agora  em  virtude  da  crise  dinástica  portuguesa,  as 
esperanças  de  João  de  Gand  renasceram  e  ele  deu  o  seu  apoio  ao  mestre  de  Aviz,  já  que 
ambos  defrontavam  um  inimigo  comum.  A  aliança  foi  selada  em  1387  através  do  casa¬ 
mento  do  novo  rei  de  Portugal  como  uma  das  filhas  do  duque,  mas  não  me  parece  arris¬ 
cado  admitir  que,  desde  cedo,  nos  contactos  políticos  travados  entre  João  de  Gand  e 
João  1  de  Portugal  se  tivessem  abordado  os  problemas  resultantes  de  uma  participação 
activa  da  plebe  no  conflito  dinástico  e  que  o  medroso  mestre  de  Aviz  tivesse  benefi¬ 
ciado  da  experiência  do  seu  protector  inglês.  Se  assim  sucedesse,  então  as  lutas  sociais 
travadas  em  Portugal  entre  1383  e  1385  dariam  continuidade  não  à  insurreição  inglesa, 
mas  à  contra-revolução  que  fora  organizada  em  tomo  do  rei  Ricardo. 

Não  fõi  com  o  malogrado  ensaio  português,  mas  no  outro  extremo  do  continente,  na 
Boémia  e  na  Morávia,  que  pela  primeira  vez  os  camponeses  e  a  arraia-miúda  consegui¬ 
ram  imprimir  à  sua  contestação  um  rumo  inteiramente  autónomo^Se  a  revolta  inglesa 
de  1381  aparece  como  a  derradeira  das  lutas  do  segundo  período  do  regime  senhorial8^ 
e  o  levantamento  português  de  1 383  como  uma  experiência  frustrada,  a  revolução  boé¬ 
mia  iniciada  em  1419  assinala  sem  dúvida  a  abertura  de  um  período  novo.,  É  certo  que, 
antes  de  a  agitação  ter  começado  verdadeiramente,  Jan  Hus  ocupou  também  um  lugar 
de  charneira,  pregador  com  uma  grande  audiência  entre  a  plebe  de  Praga'*'  e,  ao  mesmo 
tempo,  reitor  da  universidade91  e  personagem  influente  na  corte9*.  Por  um  lado,  Hus 
tomara  posições  muito  claras  em  defesa  dos  interesses  dos  servos,  afirmando  nomeada¬ 
mente  que  o  trabalho  de  cultivar  uma  terra  ao  longo  dos  anos  devia  conferir  sobre  ela 
um  verdadeiro  direito  de  propriedade93.  Mas,  por  outro  lado.  na  sequência  das  doutri¬ 
nas  de  Wyclif,  Hus  concebia  a  Igreja  no  quadro  do  Estado94  e  nunca  deixou  de  se  aliar 


88  A.  Cunhal  (1963)  113. 

89  Enquanto  movimento  camponês,  sublinha  R.  H.  Hilton  ( 1969)  25,  a  insurreição  inglesa  de  1381 
foi  mais  um  epílogo  do  que  um  começo. 

90  N.  Cohn  ( 1957)  218-219;  J.  Macek  ( 1958)  22-23. 

91  N.  Cohn  ( 1957)  218-219;  H.  Kaminsky  ( 1967)  146 

92  N.  Cohn  (1957)  218-219. 

De  início  o  rei  protegera  o  movimento  de  reforma  religiosa  prosseguido  por  Hus.  como  mostram 
H.  Kaminsky  (1967)  146^  M.  D.  Lambert  ( 1977)  289  e  M.  Wilks  ( 1972)  128. 

92  J.  M.  Klassen(1978)77.  , 

94  H.  Kaminsky  (1967)  145-146.  153-154.  Ainda  quanto  â  filiação  das  doutrinas  de  Hus  nas  de 


Da  nova  Jerusalém  a  nova  realidade 


6 13 


aos  poderosos  para  prosseguir  o  movimento  de  reforma  religiosa.  Tanto  assim  que, 
depois  de  ter  rompido  com  o  rei  em  14 1295,  Hus  procurou  o  apoio  da  aristocracia  e 
encontrou-o  não  só  entre  a  pequena  nobreza  como  igualmente  junto  dos  grandes  senho¬ 
res96.  Não  devemos  imaginar,  como  fazem  muitos  historiadores,  que  tivesse  sido  o 
desejo  de  se  apoderar  das  terras  eclesiásticas  a  excitar  a  hostilidade  da  aristocracia  laica 
contra  o  clero97.  Como  recordei  a  propósito  do  auxílio  prestado  a  Wyclif  por  algumas 
figuras  da  alta  nobreza,  a  entrega  de  bens  à  Igreja  ajudava  a  preservar  a  estrutura  fami¬ 
liar  da  aristocracia,  que  era  a  primeira  interessada  por  este  tipo  de  operações.  Já  com 
virtualidades  muito  diferentes  se  apresentava  o  direito  de  patrocínio,  inserido  nos  meios 
de  exercício  de  um  poder  de  tipo  impessoal  sobre  áreas  compactas  e  coerentes,  em 
detrimento  dos  esforços  centralizadores  da  coroa.  Ora,  os  mestres  hussitas  da  universi¬ 
dade  fundavam  a  estrutura  eclesiástica  precisamente  no  direito  de  patrocínio,  entendido 
de  maneira  lata,  o  que  responsabilizava  os  nobres  por  uma  missão  reformadora  da 
Igreja  que  Wyclif  havia  atribuído  ao  rei98.  Sem  dúvida  foi  este  um  dos  factores  mais 
notáveis  a  estimular  a  simpatia  de  muitos  senhores  para  com  as  doutrinas  hussitas99. 


Wyclif  ver:  M.  D.  Lambert  ( 1977)  272,  281  e  segs.;  Ph.  Lindsav  et  al.  [s.  d.]  53-54;  J.  Macek  ( 1958) 
22-23:  M.  Wilks  (1972)  109-110. 

95  Foi  a  venda  de  indulgências  que  levou  em  1412  à  ruptura  da  aliança  entre  os  reformadores  hus¬ 
sitas  e  a  coroa,  dados  os  lucros  que  o  poder  secular  obtinha  com  estas  transacções  religiosas.  Ver:  M. 
D.  Lambert  (1977)  291;  H.  Kaminsky  ( 1967)  80-81,  146;  J.  M.  Klassen  ( 1978)  46.  75.  86;  M.  Wilks 
(1972)  129-130 

96  H.  Kaminsky  (1967)  146-147,  149-150  n.  32;  J.  M.  Klassen  (1978)  1,  44.  46,  85;  M.  D.  Lam¬ 
bert  (1977)  295. 

A  propósito  do  facto  de  várias  centenas  de  nobres  da  Boémia  e  da  Morávia  terem  protestado 
publicamente  contra  a  execução  de  Hus,  M.  D.  Lambert  (1977)  300  comenta  que  pela  primeira  ve/ 
uma  vasta  facção  da  classe  senhorial  defendia  uma  heresia.  E.  ao  contrário  do  que  havia  sucedido  em 
França  aquando  do  proselitismo  cátaro,  observa  J.  M.  Klassen  ( 1978)  4.  a  nobreza  católica  da  Boémia 
e  da  Morávia  não  tomou  a  inicitativa  de  organizar  campanhas  militares  contra  a  nobreza  dissidente. 
Os  senhores  católicos  nem  sequer  puseram  em  causa  os  direitos  de  patrocínio  que  a  outra  facção  da 
classe  dominante  empregava  em  benefício  do  clero  hussita.  acrescenta  John  Martin  Klassen  em  op. 
cie,  115  e  124. 

97  M,  Mollat  et  al.  ( 1970)  258.  por  exemplo,  mencionam  as  numerosas  operações  de  secularizaçâo 
dos  bens  eclesiásticos  em  beneficio  da  aristocracia  hussita.  Mas.  depois  de  admitir  que  a  doutrina  de 
Hus,  ao  defender  a  secularizaçâo  dos  bens  da  Igreja,  era  atractiva  para  os  senhores  laicos,  H. 
Kaminsky  ( 1967)  151  comenta,  muito  justificadamente,  que  os  nobres  que  combateram  do  lado  cató¬ 
lico  não  deixaram  por  isso  de  receber  senhorias  eclesiásticas  como  penhor  de  empréstimos  ou.  mais 
simplesmente,  de  se  apoderar  delas  graças  à  confusão  reinante. 

98  H.  Kaminsky  (1967)  152.  154,  190. 

99  ld„  ibid.,  151-152 

J.  M.  Klassen  (1978)  2-3,  34  e  98  observa  que.  apesar  de  em  mais  de  6(1%  das  paróquias  o  padre 
ser  nomeado  por  uma  família  nobre,  de  início  apenas  uma  minoria  de  senhores  entregou  as  suas  paró¬ 
quias  a  hussitas,  preferindo  os  restantes  o  clero  católico.  Só  a  partir  de  1417.  já  depois  da  execução  de 
Hus.  acrescenta  este  historiador  em  op.  i  ie,  101.  é  que  a  nobreza  começou  a  usar  sistematicamente  os 
seus  direitos  de  patrocínio  em  beneficio  do  clero  hussita.  No  entanto,  John  Martin  Klassen  informa 
também  (p.  99)  que  em  Setembro  de  1415.  dois  meses  após  a  morte  de  Hus,  os  nobres  hussitas  forma¬ 
ram  uma  liga  destinada  a  entregar  as  paróquias  que  eles  controlavam  a  padres  dissidentes  e  a  sustentar 
reciprocamente  estas  nomeações.  Por  seu  lado,  H.  Kaminsky  ( 1956)  124  afirma  que  em  1416  e  1417 
se  conhecem  bastantes  casos  de  nobres  hussitas  encarregando  de  paróquias  os  padres  seus  correligio¬ 
nários  e  desalojando  para  isso  padres  católicos.  Ver  igualmente:  M.  D.  Lambert  (1977)  295. 


614 


Diacronia.  Crise  das  séculos  XIV  e  XV 


Não  podemos  prever,  evidentemente,  qual  teria  sido  a  evolução  de  Jan  Hus  se  ele  não 
tivesse  ido  a  Constança  ou  se  os  prelados  reunidos  no  concílio  tivessem  respeitado  o 
salvo-conduto  com  que  o  haviam  munido  e  não  o  tivessem  condenado  e  feito  morrer. 
Mas  sabemos  que  as  ideias  de  Hus  se  situaram  na  Boémia  e  na  Morávia  na  mesma 
posição  que  as  teses  de  Wyclif  haviam  ocupado  em  Inglaterra  quatro  décadas  antes, 
inspirando  aos  camponeses  e  à  arraía-míúda  o  fervor  com  que  lutaram  por  uma  socie¬ 
dade  diferente  e  fornecendo  à  nobreza  rural  e  à  nova  elite  urbana  o  programa  de  reforço 
da  sua  autoridade  secular10".  As  principais  clivagens  sociais  e  as  cisões  políticas  mais 
dramáticas  não  ocorreram  entre  os  seguidores  do  papado  e  os  adeptos  de  Hus,  mas  no 
interior  do  próprio  movimento  hussita101. 

Em  vez  de  oferecer  o  perfil  habitual  de  uma  revolta  camponesa  desvirtuada  pela 
classe  senhorial,  ou  a  imagem  de  uma  arraia-miúda  arrastada  pelas  famílias  da  elite  nos 
seu&riacessanCB&xonflitos,  a  revolução  hussita,  que  se  iniciara  como  mais  uma  das 
manobras  da  pequena  e  média  aristocracia  rural  na  sua  longa  luta  contra  o  reforço  do 
poder  da  coroa102  e  como  uma  contestação  por  parte  das  camadas  populares  de  Praga 
contra  a  elite  oligárquica103,  rapidamente  desenvolveu  no  seu  interior  um  movimento 
específico  da  classe  servil104  e  da  arraia-miúda105.  Nunca  antes  uma  conjugação  de 
lutas  do  3o  e  do  4o  tipos  havia  dado  lugar  a  uma  luta  do  2-  tipo.  A  sublevação  hussita 
constituiu,  para  a  classe  dominante,  a  mais  aguda  revelação  da  crise  dos  séculos  XIV  e 
XV  e.  para  a  gente  pobre,  um  alvorecer  de  esperanças  novas. 

Esta  revolução  destacou-se  tanto  mais  dos  movimentos  precedentes  quanto  a  agita¬ 
ção  dos  campos  se  fundiu  então  com  a  das  cidades  num  processo  único100,  a  tal  ponto 


100  A  radicalização  do  movimento  depois  da  morte  de  Hus  ultrapassou  muito  a  sua  obra  teórica, 
que  era  relativamente  moderada,  observa  H.  Kaminsky  (1967)  33-35,  acrescentando  (pp.  75  e  segs.) 
que  mesmo  antes  de  ele  ser  condenado  à  morte  se  encontravam  discípulos  mais  avançados  do  que  o 
mestre. 

101  M  Mollat  et  al.  (1970)  252. 

102  Ao  ser  conhecida  a  execução  de  Hus,  a  nobreza  tomou  o  comando  da  revolta  contra  a  hierar¬ 
quia  religiosa,  como  mostra  N.  Cohn  (1957)  219. 

I0'  Embora  gozassem  de  uma  boa  situação  económica,  observa  id.,  ibid.,  221.  os  artesãos  de 
Praga  estavam  inteiramente  excluídos  da  administração  da  cidade,  e  a  insurreição  deu  às  corporações 
de  ofícios  o  controlo  efectivo  sobre  o  governo  urbano.  Consultar  igualmente:  J  M.  Klassen  ( 1978) 
18-19. 

104  O  movimento  hussita  encontrou  um  apoio  sólido  e  maciço  entre  os  camponeses:  N.  Cohn 
(1957)  222;  G.  Fourquin  (1972)  137;  M.  D.  Lambert  (1977)  295;  J.  Macek  (1968)  246:  M.  Mollat 
(1978)265. 

105  Quanto  ao  acolhimento  entusiástico  prestado  pela  arraia-miúda  de  Praga  às  doutrinas  de  Hus 
ver:  N.  Cohn  (1957)  221-222;  G.  Fourquin  (1972)  136-137;  M.  D.  Lambert  (1977)  293;  J.  Macek 
(1958)  44-46;  id.  (1968)  245;  M.  Mollat  (1978)  265.  Note-se  que  ao  longo  das  décadas  anteriores  o 
número  de  assalariados  não  qualificados  aumentara  muito  em  Praga  e  a  sua  situação  económica  dete¬ 
riorara-se.  Ver  a  este  respeito:  R.  R.  Betts  (1952)  27-28;  N.  Cohn  (1957)  221:  J.  M.  Klassen  (1978)  19 
e  segs.  Além  disso.  M.  D.  Lambert  (1977)  292  e  J.  Macek  ( 1968)  245  indicam  que  os  indigentes  atin¬ 
giam  cerca  de  40%  da  população  de  Praga.  Ora,  como  esta  cidade  era  então  a  mais  populosa  da 
Europa  central,  a  crer  em  M.  D,  Lambert  em  op.  cit.  ibid..  trata-se  de  números  muito  consideráveis 
tanto  em  termos  relativos  como  absolutos. 

,<IA  J.  Macek  (1968)  248  afirma  que  uma  característica  importante  do  movimento  hussita  foi  a 
união  das  cidades  e  do  campo  no  processo  revolucionário,  tendo-se  aliado  de  maneira  mais  consis- 


Da  nova  Jerusalém  a  nova  realidade 


615 


que  é  impossível  indicar  em  que  meio  social  a  efervescência  começou,  se  entre  os  servos 
se  nos  centros  urbanos107.  O  próprio  Jan  Hus  foi  pregar  para  as  áreas  rurais  quando  se 
viu  expulso  de  Praga108,  e  após  a  sua  morte  os  discípulos  começaram  a  organizar  a  resis¬ 
tência  dos  servos109.  Desde  a  sua  génese,  portanto,  que  o  movimento  hussita  uniu  numa 
torrente  comum  a  insatisfação  dos  camponeses  e  a  da  gente  pobre  das  cidades,  apesar  de 
elas  terem  motivos  específicos  diferentes.  Isto  confirma,  aliás,  que  a  revolução  da  Boé¬ 
mia  e  da  Morávia  não  foi  circunstancial,  mas  obedeceu  a  razões  muito  profundas  e  cor¬ 
respondeu  a  uma  crise  global  do  regime,  senhorial.  E  depois,  ao  longo  do  processo  revo¬ 
lucionário,  as  formas  de  contestação  nos  meios  urbanos  e  nas  áreas  rurais  completaram- 
-se  reciprocamente,  numa  estratégia  única,  O  caso  de  Praga  é  exemplar.  Aproveitando  a 
sublevação  da  arraia-miúda  em  Julho  de  1419  e  a  expulsão  da  antiga  elite,  os  populares 
apropriaram-se  do  governo  e  instauraram  a  hegemonia  da  ala  moderada  do  movimento 
hussita.  Ora,  dois  meses  mais  tarde,  não  foi  a  gente  pobre  da  cidade,  mas  a  dos  campos, 
quem  pôs  seriamente  em  risco  a  posição  da  nova  elite  de  extracção  popular.  Ao  percor¬ 
rer  as  ruas  de  Praga,  em  Setembro  daquele  ano,  urna  peregrinação  de  camponeses  radi¬ 
cais  levantou  os  ânimos  da  arraia-miúda,  e  todos  se  uniram  contra  a  facção  moderada, 
que  só  conseguiu  manter-se  no  poder  concluindo  um  pacto  com  a  hierarquia  eclesiástica, 
a  nobreza  e  a  coroa.  Deparando  com  uma  coligação  de  forças  que  lhes  era  superior,  os 
Hussitas  radicais  abandonaram  Praga,  numa  iniciativa  que  contribuiu  decisivamente  para 
atear  a  revolução  noutros  centros1 10  Neste  episódio  crucial  é  impossível  distinguir  entre 
a  participação  dos  servos  e  a  da  arraia-miúda,  que  puderam  a  partir  de  então  pôr  em 
comum  as  suas  esperanças  e  que  realizaram  juntos  as  experiências  mais  ousadas1  n. 

E  se,  por  um  lado,  as  comunidades  camponesas  inspiraram  aqui  também  um  ideal 
de  sociedade,  por  outro  lado,  a  cidade  pensada  pela  arraia-miúda,  onde  deveria  vigorar 
o  colectivismo  mais  extremo,  fundiu-se  com  aquele  modelo  rural  de  comunidade.  Pela 
primeira  vez  se  conjugaram  num  só  movimento  de  massas  o  tema  do  comunitarismo, 
que  constituía  o  aspecto  central  da  contestação  servil,  e  o  tema  do  igualitarismo  e  do 
nivelamento  das  fortunas,  que  a  arraia-miúda  promovia  para  deixar  de  ser  excluída  da 
cidadania.  E  assim  confluíram,  numa  linha  de  pensamento  única  e  positiva  as  duas  gran¬ 
des  perspectivas  críticas  que  antes  tinham  subsistido  separadamente,  confinada  uma  às 
heresias  rurais  e  a  outra  à  dissidência  urbana.  O  colectivismo,  que  até  então  exprimira 
apenas  utopicamente  a  aspiração  da  arraia-miúda  a  beneficiar  do  carácter  de  senhor 
colectivo  que  definia  a  cidade  (ver  o  capítulo  I7.d  da  Parte  II),  ultrapassou  na  Boémia  e 


tente  e  duradoura  do  que  sucedera  em  Inglaterra  em  1381  (p.  254  n.  42).  E  o  mesmo  historiador,  em 
(1958)  17,  observa  que  na  revolução  hussita  os  pontos  de  vista  dos  camponeses  e  da  arraia-miúda  das 
cidades  eram  muito  próximos. 

107  Ao  mesmo  tempo  que  ocorria  a  revolução  em  Praga,  em  Julho  de  1419.  registavam-se  escara¬ 
muças  pelos  campos  da  Boémia,  esclarece  id.,  ibid.,  34-35.  Todavia,  o  mesmo  autor,  em  (1968)  243, 
pretende  que  foram  as  cidades  a  oferecer  o  apoio  mais  precoce  e  mais  sólido  à  doutrina  de  Hus. 

10)<  Id.,  ibid.,  247. 

109  J.  M.  Klassen  ( 1978)  1 13;  M.  D.  Lamberu  1977)  295;  J.  Macek  (1968)  247. 

1,0  Para  os  acontecimentos  em  Praga  desde  Julho  até  Setembro  de  1419  ver  J.  Macek  ( 1958)  44-46. 

1,1  No  núcleo  constitutivo  de  Tabor,  a  principal  das  colectividades  hussitas  radicais,  predominava 
numericamente  a  gente  humilde  dos  campos  e  a  arraia-miúda,  vindo  em  seguida  os  artesãos  pobres  e 
depois  a  pequena  nobreza,  consoante  indica  id.,  ibid.,  38-39.  Ver  igualmente  id.  (1968)  247-248. 


616 


üiacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV 


na  Morávia  os  muros  dos  centros  urbanos  e  fundiu-se  com  o  comunitarismo  rural,  per¬ 
mitindo  idealizar  uma  comunidade  onde  a  igualdade  das  fortunas  serviria  de  cimento  a 
novas  e  reforçadas  solidariedades.  Por  isso  pôde  encontrar  eco  entre  os  camponeses 
extremistas  o  tema  da  liquidação  dos  elos  familiares  e  da  emancipação  sexual,  que  até 
então  obtivera  verdadeiramente  audiência  apenas  no  interior  de  algumas  seitas 
heréticas11*.  Constituindo  uma  só  unidade  de  propriedade  e  apresentando-se  como  uma 
única  família  artificial,  a  colectividade  desejada  pelos  adeptos  mais  revolucionários  de 
Hus  parecia  ser  imune  a  qualquer  cisão  interna  e  exprimir  de  maneira  perfeita  os  inte¬ 
resses  comuns  dos  seus  membros. 

Compreende-se,  neste  contexto,  que  ba  ala  radical  do  movimento  a  autonomia  de 
classe  fosse  completa.  Não  houve  rei  ou  príncipe  para  que  os  insurrectos  apelassem* lí, 
senão  para  o  maior  de  todos,  o  Senhor  Jesus,  para  que  regressasse  e  instaurasse  o  milé¬ 
nio  de  justiça.  Parece  que  já  os  rebeldes  ingleses,  na  fase  final  do  levantamento,  depois 
de  traídos  pelo  soberano,  haviam  passado  a  recusar  a  legitimidade  da  família  rei¬ 
nante114.  Será  que  esta  lição  prática  fora  aprendida  na  Boémia  e  na  Morávia?  Ou  ter-se- 
-iam  aqui  os  antagonismos  sociais  desenvolvido  a  um  ponto  tal  que  as  comunidades  já 
não  projectavam  os  desejos  de  emancipação  em  nenhum  monarca  de  carne  e  osso  e 
reservavam  para  este  papel  a  figura  central  da  sua  teologia?  A  hipótese  de  uma  reper¬ 
cussão  directa  exercida  pelos  episódios  mais  marcantes  da  insurreição  de  1381  não  é 
desprovida  de  fundamento,  porque  não  oferece  dúvidas  a  influência  dos  discípulos  de 
YVyclif  sobre  o  pensamento  de  Hus  e  dos  seus  seguidores 1 !  \  e  os  Lollards  não  deixa¬ 
riam  decerto  de  se  referir  aos  acontecimentos  ingleses.  Por  outro  lado,  o  facto  de  na 
Boémia  o  rei  ter  favorecido  inicialmente  a  reforma  religiosa  para  depois  abandonar  Hus 
e  deixar  que  o  condenassem  contribuiu  sem  dúvida  para  forjar  uma  profunda  descon¬ 
fiança  pela  monarquia.  Fosse  como  fosse,  o  movimento  hussita  desenvolveu-se  num 
plano  de  autonomia  relativamente  à  coroa,  o  que  lhe  permitiu  ultrapassar  os  limites 
habituais  e  inaugurar  uma  era  nova;  Na  Primavera  de  1420,  ao  proclamar  a  abolição  de 
todos  os  elos  senhoriais,  dos  tributos  e  serviços  de  trabalho116,  a  ala  radical  do  movi¬ 
mento  hussita  estava,  na  realidade,  a  anunciar  o  fim  de  um  regime. 

Este  mesmo  espírito  inspirou  a  organização  interna  das  novas  colectividades, 
quando,  no  início  de  1420.  muitos  milhares  de  entusiastas  venderam  todos  os  seus 


1 12  Os  Pikarts,  uma  minoria  extremista  que  cindiu  de  Tabor  e  decerto  continuava  a  manter  con¬ 
tacto  com  os  simpatizantes  na  colectividade  de  origem,  proclamavam  o  fim  do  estado  de  pecado  origi¬ 
nal  para  os  crentes  e.  portanto,  a  procriação  sem  pecado  e  a  inutilidade  dos  elos  matrimoniais,  prati¬ 
cando  a  emancipação  sexual  e  o  nudismo  ritual,  consoante  afirmam  H.  Kaminsky  1 1967)  429  e  E. 
Wemer  ( 1959-1960)  .346-347. 

Para  o  clero  de  Tabor,  esclarece  J.  M.  Klassen  (197H)  127,  a  organização  social  não  necessi¬ 
tava  de  uma  monarquia.  Com  efeito,  a  crer  cm  J  Macek.  (1958)  54-55.  Nicolau  de  Hus.  um  nobre 
empobrecido  que  representava  em  Tabor  a  gente  humilde  e  mais  radical,  opunha-se  à  restauração  da 
monarquia,  mas  Jan  Zizka,  mais  moderado  e  ligado  aos  populares  e  a  pequena  nobreza,  defendia  a 
candidatura  de  um  príncipe  polaco. 

114  R  Hilton  (1973  a)  226. 

i  is  Ver  a  n  94  qCS[C  capítulo. 

1,6  N.  Cohn  (1957)  231;  G.  Fourquin  (1972)  140:  H  Kaminsky  (1967)  386;  E.  Wemer  <1959- 
-1960)345. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


617 


bens117,  por  vezes  incendiaram  as  suas  próprias  casas,  onde  não  iriam  mais  habitar  e 
que  os  prendiam  ao  passado118,  e,  deixando  despovoadas  dezenas  de  aldeias119,  deman¬ 
daram  os  novos  centros,  a  meia  dúzia  de  cidades  eleitas  que  estavam  sob  o  controlo  dos 
pregadores  radicais120,  ou  então,  em  procissões  conduzidas  também  por  pregadores 
radicais,  dirigiram-se  ao  alto  de  montes  e  de  colinas121,  a  esses  lugares  elevados  que 
eram  eixos  do  mundo  e  mais  facilmente  veiculavam  o  contacto  com  os  céus122.  Aí  esta¬ 
beleceram  colectividades  igualitárias,  onde  ficava  abolida  a  propriedade  privada,  depo¬ 
sitando  em  cofres  comuns  o  produto  da  venda  dos  bens  e  elegendo  representantes  que 
administrassem  estes  fundos  e  os  repartissem  entre  os  fiéis  consoante  as  necessidades 
de  cada  qual123.  De  então  em  diante,  os  vínculos  de  solidariedade  já  não  seriam  só  um 
factor  de  coesão  a  contrabalançar  a  autonomia  das  unidades  familiares,  e  a  colectivi- 
dade  deixaria  de  articular  contraditoriamente  o  seu  âmbito  comum  e  o  particularismo 
dos  seus  membros.  Para  os  Hussitas  radicais,  os  elos  solidários  confundiam-se  com  a 
própria  colectividade,  que  a  eles  se  resumia.  Por  isso  acolheram  de  bom  grado  jornalei¬ 
ros  sem  terra  e  assalariados  das  cidades124,  vadios  e  outros  marginais125,  cada  um  deles 
tão  desprovido  de  bens  como  o  estavam  agora  os  demais  membros  destas  colectivida¬ 
des.  Conhecem-se  mesmo  casos,  na  revolução  de  Praga  de  Julho  de  1419  e  na  tomada 
de  praças-fortes  da  nobreza,  em  que  os  rebeldes  destruíram  as  jóias,  o  dinheiro,  as  pre¬ 
ciosidades  que  os  ricos  ai  haviam  acumulado126.  A  apologia  da  pobreza  evangélica 
confitndiu-se  então  com  o  potlatch,  e  ao  procederem  assim  os  Hussitas  desafiavam  a 
aristocracia  a  reconhecer  a  superioridade  da  nova  sociedade  colectivista.  Deliberada  e 
conscientemente,  aquelas  colectividades  representavam,  de  forma  prática  e  real,  uma 
antítese  da  sociedade  senhorial127. 


1 17  N.  Cohn  (1957)  229-230;  G.  Fourquin  (1972)  140. 

Só  para  a  fundação  de  Tabor  reuniram-se  mais  de  quarenta  mil  pessoas,  a  crer  em  J.  Macek 
(1958)  36. 

118  N.  Cohn  ( 1957)  230. 

119  J.  Macek  (1968)  248  indica  que  nas  imediações  de  Tabor  a  migração  colectiva  deixou  sem 
habitantes  treze  aldeias. 

120  N.  Cohn  (1957)  230.  J.  Macek  (1958)  37;  id.  (1968)  247. 

121  J.  Macek  ( 1958)  .36;  id.  (1968)  247;  E.  Wemer  (1959-1960)  345. 

Segundo  H.  Kaminsky  (1967)  283.  a  primeira  assembleia  de  fiéis  no  lugar  que  viria  a  ser  Tabor 
terminou  com  a  maior  parte  dos  peregrinos  regressando  às  suas  terras  de  origem,  embora  rapidamente 
se  constituísse  um  gmpo  permanente,  que  se  tomou  o  núcleo  de  assembleias  repetidas  e  atraiu  pessoas 
de  regiões  cada  vez  mais  distantes.  Este  autor,  em  op.  cit..  284,  informa  também  que,  por  ocasião  de 
certas  festividades,  muitos  peregrinos  se  juntavam  temporariamente  àqueles  que  se  haviam  fixado  de 
maneira  estável.  Por  seu  turno,  J.  Macek  (1968)  254  n.  37  cont.  indica  que  os  Hussitas  só  se  reuniam 
no  cimo  de  montes  nas  regiões  onde  não  tinham  as  cidades  sob  o  seu  controlo. 

122  M.  Eliade  (1979)  316-319. 

121  N.  Cohn  (1957)  229-230;  G.  Fourquin  (1972)  140;  H.  Kaminsky  (1962)  171;  M.  D.  Lambert 
( 1977)  317:  J.  Macek  (1958)  40-41;  id.  (1968)  247.  254  n.  39:  E.  Wemer  (1959- 1960)  345. 

124  J.  Macek  (1958)  38-39. 

125  G.  Fourquin  (1972)  137. 

126  J.  Macek  (1958)  42-43. 

127  H.  Kaminsky  (1967)  .318,  360. 

É  deveras  estranho  que  G.  Leff  (1967)  617  possa  pretender  que  mesmo  a  ala  radical  do  movi¬ 
mento  hussita  estava  exclusivamente  preocupada  com  a  reforma  espiritual  e  não  com  a  remodelação 
da  sociedade. 


618 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV' 


Um  tão  completo  igualitarismo  em  nada  se  confunde  com  as  aspirações  comunistas 
nascidas  sob  o  capitalismo,  porque  estes  radicais  colectivizaram  a  distribuição  dos 
géneros  de  consumo,  e  não  o  uso  dos  meios  de  produção,  a  terra  e  os  instrumentos  agrí¬ 
colas.  ou  as  oficinas  do  artesanato.  Eles  deixaram  mesmo  de  lavrar  os  campos  porque, 
ao  romperem  com  a  sociedade  senhorial  e  fundarem  colectividades  assentes  na  solida¬ 
riedade  recíproca,  estavam  a  inaugurar  um  novo  tempo  histórico,  o  milénio  de  justiça, 
quando  a  gente  piedosa  se  livraria  enfim  da  condenação  de  não  poder  viver  sem  o  suor 
do  seu  corpo.  Cada  um  deles  era  um  novo  Adão.  cada  uma  delas  uma  nova  Eva,  a  resta¬ 
belecerem  o  paraíso128.  E  se  o  milénio  tardou,  e  os  fundos  se  esgotaram,  e  as  colectivi¬ 
dades  de  entusiastas  se  viram  obrigadas,  para  sobreviver,  a  extorquir  tributos  aos  cam¬ 
poneses  e  a  sujeitá-los  a  exacções  cada  vez  mais  pesadas,  explorando  não  só  quem  não 
tinha  aderido  ao  movimento,  mas  até  aqueles  que,  embora  apoiassem  a  doutrina  hus- 
sita,  não  se  haviam  integrado  nas  colectividades129,  que  era  isto  senão  um  sinal  de  que 
Deus  pretendia  punir  todos  os  que  não  tinham  ainda  rompido  com  a  sociedade  da  injus¬ 
tiça?  Colectividades  fraternais  e  combatentes,  com  o  seu  proselitismo  armado  elas 
difundiam  a  nova  esperança  e  cobravam  os  tributos  que  lhes  permitiam  manter  o  iguali- 
tarismo  interno,  apressando  deste  modo  a  vinda  do  Redentor  e  a  instauração  dos  mil 
anos  de  justiça. 

Estas  colectividades  eram  ao  mesmo  tempo  estáveis  e  nômadas,  praças  fortes  de 
exércitos,  também  igualitários  e  desprovidos  de  bens,  que  prosseguiam  as  suas  campa¬ 
nhas  e  percorriam  o  país  lutando  pela  palavra  do  Cristo130.  Não  foi  só  graças  ao  entu¬ 
siasmo  de  cada  um  e  à  devoção  colectiva  que  as  hostes  hussitas  obtiveram  êxitos  tão 
sistemáticos  e  admiráveis  contra  os  exércitos  senhoriais  bem  preparados  e  melhor 
armados.  Se  os  Hussitas  inauguraram  tácticas  militares  completamente  inovadoras,  que 
deixaram  surpreendidos  os  capitães  católicos,  e  se  revelaram  capazes  de  enorme  mobi¬ 
lidade  e  rapidez,  impossível  de  ser  imitada  pelos  cavaleiros  da  nobreza,  isto  deveu-se  à 
organização  social  de  que  se  haviam  dotado.  O  desembaraço  com  que  se  deslocavam 
não  é  de  estranhar  em  homens  que  se  tinham  desprendido  dos  seus  bens.  queimado  as 
suas  habitações,  cortado  as  raízes  que  os  prendiam  à  velha  sociedade,  e  para  quem  a 
vida  de  então  em  diante  se  resumia  a  uma  peregrinação  para  o  milénio.  Por  isso  os 
carros  tiveram  tão  grande  importância  nas  manobras  dos  exércitos  hussitas.  Estes  exér¬ 
citos  dispunham  os  seus  numerosos  carros  em  cercas  defensivas,  quando  estacionavam 


l2s  N.  Cohn  0957)  230-231;  G.  Fourquin  0  972)  140. 

129  N.  Cohn  ( 1957 1  23 1  escreve  que  as  colectividades  militantes  confiscaram  os  bens  do  clero,  da 
nobreza  laica  e  dos  ricos  em  geral,  expropriando  depois  os  camponeses  que  não  haviam  aderido  ao 
movimento;  e.  apesar  de  na  Primavera  de  1420  terem  proclamado  o  fim  das  exacções  senhoriais,  em 
Outubro  estas  colectividades  começaram  a  cobrar  tributo  mesmo  aos  camponeses  que  se  haviam  colo¬ 
cado  sob  a  sua  protecção.  Ver  ainda:  G.  Fourquin  (1972)  140;  H.  Kaminsky  (1962)  171;  id.  (1967) 
386;  M.  D.  Lamber!  ( 1977)  317;  M.  Mollat  et  al.  (1970)  267.  Pretende  Norman  Cohn  em  op.  cit..  231 
que.  ao  sentirem-se  autorizadas  a  apoderar-se  dos  bens  de  quem  não  pertencia  às  colectividades.  os 
Taboritas  prosseguiam  os  ensinamentos  dos  adeptos  do  Livre  Espírito,  que  também  eles  se  considera¬ 
vam  com  o  direito  de  roubar.  Porém,  se  bem  entendo  o  que  é  afirmado  por  J.  M.  Klassen  ( 1978)  67.  a 
corrente  extremista  que  cindiu  de  Tabor,  e  entre  a  qual  se  contavam  os  mais  directos  herdeiros  do 
Livre  Espírito,  recusava  este  tipo  de  cobrança  de  tributo. 

1,0  N.  Cohn  (1957)  230;  H.  Kaminsky  <  1967)  318.  336-337.  385;  M.  D.  Latnbert  ( 1977)  317. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


61 9 


em  acampamentos  provisórios,  e  com  eles  formavam  também  verdadeiras  muralhas 
ambulantes,  enquanto  se  deslocavam,  usando-os  além  disso  para  transportar  os 
canhões,  numa  antecipação  daquela  artilharia  móvel  que  ditaria  vitórias  vários  séculos 
mais  tarde.  Não  se  encontravam  entre  os  Hussitas.  como  os  havia  tão  numerosos  entre 
os  católicos,  cavaleiros  da  nobreza  retardando  o  galope  dos  cavalos  com  o  peso  das 
armaduras,  nem  mercenários,  devotados  só  enquanto  lhes  pagavam.  Nos  conselhos  con¬ 
sultivos  que  assessoravam  os  capitães  hussitas,  a  gente  pobre  dos  campos  e  a  arraia- 
-miúda  das  cidades  estavam  representadas  ao  lado  da  pequena  nobreza  e  dos  novos 
dirigentes  urbanos.  E  o  igualitarismo  social  «aspirador  das  colectividades  explica  que  a 
infantaria  estivesse  abundantemente  dotada  de  arcabuzes,  armas  sofisticadas  que  o 
espírito  de  classe  reinante  nos  exércitos  senhoriais  não  deixava  divulgar  entre  os 
peões1 31t  Talvez  tivesse  sido  nas  suas  forças  armadas  que  o  carácter  socialmente  revo¬ 
lucionário  do  movimento  hussita  se  manteve  durante  mais  tempo,  ainda  perceptível 
mais  de  uma  década  depois  da  liquidação  da  ala  extremista132.  Não  foram  apenas 
hostes  inimigas  que  se  enfrentaram  nos  campos  de  batalha,  mas  princípios  de  organiza¬ 
ção  social  antagónicos. 

Nos  vínculos  que  uniam  os  seus  participantes,  as  colectividades  fundadas  pelo  radi¬ 
calismo  hussita  afirmaram-se  completamente  alheias  ao  regime  senhorial,  enquanto 
forma  de  cultivar  a  terra  e  de  explorar  o  trabalho.  Este  carácter  inovador  é  igualmente 
perceptível  na  orientação  que  os  revoltosos  deram  ao  pensamento  herético.  A  origem 
imediata  dos  acontecimentos  situara-se  no  plano  ideológico,  quando  Jan  Hus  sustentou 
que  no  momento  mais  importante  do  principal  ofício  litúrgico.  a  eucaristia  durante  a 
missa,  não  se  devia  distinguir  entre  o  clero  e  a  massa  dos  fiéis,  e  que  ambos  deviam 
comungar  no  pão  e  no  vinho133.  Defender  esta  tese  correspondia  a  negar  que  os  sacer¬ 
dotes  tivessem  aos  olhos  de  Deus  um  estatuto  diferente  dos  demais  cristãos,  deixando 
assim  destruídas  nos  seus  alicerces  as  justificativas  invocadas  pela  hierarquia  eclesiás¬ 
tica134.  Mais  tarde,  mesmo  depois  de  a  agudização  dos  confrontos  no  interior  do  movi¬ 
mento  hussita  ter  ocasionado  clivagens  intransponíveis  entre  moderados,  radicais  e 
extremistas,  todos  eles  mantiveram  o  princípio  fundamental  da  liturgia  enunciado  por 
Hus,  o  de  que  tanto  os  fiéis  como  os  sacerdotes  comungavam  nas  duas  espécies1  3-\  A 
remodelação  do  culto  ocupou,  portanto,  um  lugar  primordial  neste  movimento,  e  o 
clero  radical  abandonou  completamente  a  pompa  das  cerimónias  católicas  e  passou  a 


131  A  forma  de  organização  do  exército  comandado  por  Janáizka  é  descrita  e  comentada  por  J. 
Maeek  (1958  )  67-68.  ~ 

l3-  H.  Kaminsky  ( 1967)  486-487. 

133  M.  Wilks  (1972)  116. 

Segundo  H.  Kaminsky  ( 1 967)  97,  só  por  volta  do  século  XII  a  Igreja  católica  teria  deixado  de  ofe¬ 
recer  aos  fiéis  a  comunhão  nas  duas  espécies,  estando  o  novo  ritual  generalizado  no  século  XIV  sem 
que  ninguém,  antes  de  Jan  Hus,  o  tivesse  posto  em  causa. 

134  ld.,  ibid.,  108  e  segs.,  123  e  segs.;  M  Mollat  et  al.  ( 1970)  258. 

G.  Leff  ( 1967)  617  defende  que  mesmo  a  ala  radical  do  movimento  hussita  estava  exclusivamente 
preocupada  com  a  reforma  espiritual,  não  com  a  remodelação  da  sociedade,  e  pretende  que  a  transfor¬ 
mação  operada  no  ritual  da  comunhão  não  se  teria  devido  a  quaisquer  preocupações  igualitárias.  Esta 
tese  parece-me  insustentável. 

135  J.  M.  Klassen  1 1978)  128. 


620 


Diacronia.  Crise  dos  séculos  XIV  e  XV' 


insistir  na  função  didáctica  e  colectiva  do  ofício  sagrado,  convertendo-o  no  principal 
cimento  ideológico  da  comunidade.  Quanto  à  minoria  extremista  que  se  destacou  da  ala 
radical,  ela  chegou  ao  ponto  mais  avançado  que  era  possível  atingir  no  plano  religioso, 
proclamando  que  qualquer  verdadeiro  cristão,  mesmo  uma  mulher,  estava  habilitado  a 
baptizar.  a  consagrar  e  a  ouvir  em  confissão,  o  que  equivalia  a  negar  a  necessidade  de 
um  clero  e  a  confundir  a  Igreja  com  o  corpo  dos  fiéis136.  Muito  simplesmente,  os  extre¬ 
mistas  praticavam  a  fusão  do  ritual  com  as  manifestações  centrais  da  vida  quotidiana  da 
gente  humilde,  e  para  eles  a  eucaristia  não  deveria  distinguir-se  de  uma  refeição  nor¬ 
mal,  transformando nü u*  iXM^M  muma  comunidade  de  homens  e  mulheres  sem 
pecado,  urna  verdadeira  assembleia  de  eleitos^7.  As  implicações  de  uma  tamanha  modi¬ 
ficação  da  liturgia,  não  só  a  extremista  mas  até  a  promovida  pela  maioria  dos  radi¬ 
cais,  não  podiam  ser  mais  devastadoras  para  a  autoridade  senhorial,  pois  isto  corres¬ 
pondia.  com  efeito,  a  dar  uma  consagração  religiosa  à  própria  vida  humilde  dos  campo¬ 
neses.  O  tema  da  pobreza  evangélica  adquiriu,  neste  movimento,  raízes  sociais  muitís¬ 
simo  profundas. 

Dentro  do  âmbito  do  cristianismo,  seria  impossível  restabelecer  o  velho  cerimonial 
do  comer  e  beber  em  comum  de  maneira  mais  explícita  do  que  o  fez  a  eucaristia  hus- 
sita.  O  círculo  completara-se,  afinal,  porque  a  comunhão  dos  Cristãos  não  fora,  origina- 
riamente,  senão  uma  adaptação  dos  festins  pagãos  (ver  o  capítulo  2  da  Parte  II).  Ao  rea¬ 
tarem  as  raízes  da  Igreja  primitiva.  Hus  e  os  seus  discípulos  estavam  -  sem  o  saber  -  a 
dar  nova  vida  a  multimilenárias  tradições  de  paganismo  que  haviam  sido,  séculos  atrás, 
uma  das  inspirações  das  primeiras  heresias,  e  isto  permitiu-lhes  incorporar  numerosos 
elementos  das  manifestações  precedentes  de  radicalismo  religioso.  Tendo  conseguido 
dissimular-se  ao  longo  de  muitas  décadas,  por  vezes  durante  centenas  de  anos,  esca¬ 
pando  aos  olhos  atentos  da  Igreja  e  à  ferocidade  dos  seus  braços  armados,  sobreviviam 
ainda,  espalhadas  pelo  continente,  várias  das  antigas  heresias.  Alguns  dos  seus  seguido¬ 
res.  ou  até  comunidades  inteiras,  haviam  permanecido  na  Boémia138,  e  o  progresso  da 
revolução  fez  com  que  aparecessem  livremente  à  luz  do  dia  e  pudessem  sem  peias  pro¬ 
clamar  as  suas  crenças.  Outros,  fixados  mais  longe,  por  vezes  em  regiões  bastante  dis¬ 
tantes,  demandaram  a  pátria  dos  Hussitas  e  para  lá  levaram  a  sua  esperança,  os  seus 
ideais  e  a  memória  do  seu  sofrimento.  Todos  estes  sectários  de  heresias  de  longa  data. 
tanto  os  do  país  como  os  imigrantes,  exerceram  sobre  os  partidários  radicais  ou  extre¬ 
mistas  de  Hus  uma  influência  decisiva,  contribuindo  para  fundir  numa  torrente  única 
diversas  doutrinas  que  até  então  se  haviam  mantido  separadas139.  Pela  primeira  vez,  a 


136  R.  R.  Betts  ( 1955  )  499:  N.  Cohn  (1957)  223. 

137  J.  M.  Klassen  ( 1978)  67. 

138  H.  Kaminsky  (1956)  114  considera  muito  possível  que  no  final  do  século  XIV  a  Boémia 
tivesse  sido  um  centro  de  difusão  de  heresias  por  toda  a  Europa  central.  Acerca  da  existência  de  Val- 
denses  na  Boémia  ver:  H.  Kaminsky  (1956)  1 13-1 14:  id.  (1967)  170  e  segs.;  M.  D  Lambert  (1977) 
216;  J.  Macek  (1968)  246,  253  n.  31. 

139  Observa  L.  Mirot  ( 1905)  83-86  que  as  revoltas  do  final  do  século  XIV.  embora  se  tivessem 
devido  a  causas  comuns  e  se  tivessem  processado  em  circunstâncias  similares,  não  constituíram  uma 
conspiração  em  que  os  vários  movimentos  se  interligassem.  Parece-me  ser  este  mais  um  motivo  para 
salientar  o  carácter  inovador  da  revolução  hussita,  quando  peia  primeira  vez  chefes  heréticos  de  várias 


Da  nora  Jerusalém  a  nova  realidade 


621 


contestação  religiosa  começou  a  produzir  um  corpo  ideológico  unificado  ou,  pelo 
menos,  a  pôr  em  comum  os  seus  temas  e  o  modo  de  os  abordar.  E  a  importância  deste 
movimento  deu  uma  nova  voz  à  dissidência  e  ampliou-lhe  as  repercussões.  Até  nas 
Espanhas  houve  camponeses  a  ouvir  a  mensagem  hussita,  e  de  então  em  diante,  em 
muitos  lugares,  surgiram  revoltosos  que  encontraram  nela  ânimo  e  inspiração t4ü. 

Os  insurrectos  tinham  tudo  o  que  necessitavam  para  vencer?  Propunham  um  modelo 
global  de  sociedade  que  não  era  uma  utopia  irrealizável,  porque  se  fundava  nas  comu¬ 
nidades  camponesas,  a  célula  básica  daquela  época,  de  cuja  viabilidade  económica 
decorria  precisamente  o  regime  senhorial.  Contavam  com  a  arraia-miúda  para  aprofun¬ 
dar  o  tema  do  igualitarismo  e  cimentar  as  comunidades  em  verdadeiras  colectiv idades. 
Possuíam  uma  ideologia  à  dimensão  das  suas  aspirações,  dando  uma  nova  conotação  ao 
sagrado  e  aproximando-o  do  quotidiano  dos  humildes.  A  Nova  Jerusalém  convertera-se 
plenamente  numa  nova  realidade,  e  esta  realidade  era  susceptível  de  se  multiplicar  e  de 
desagregar  o  regime  de  opressão.  A  influência  que  o  movimento  hussita  exercia  sobre 
os  heréticos  de  outras  regiões,  mesmo  distantes,  confirmava  plenamente  a  sua  capaci¬ 
dade  para  se  expandir  e  proliferar  até  aos  limites  da  Cristandade.  E  se  além  do  dom  da 
profecia  estes  iluminados  tivessem  a  capacidade  de  antever  a  história,  ou  parte  dela, 
decerto  os  exaltaria  saber  que  nos  anos  seguintes,  por  todo  o  continente,  a  doutrina  de 
Hus  haveria  de  se  propagar  e  a  revolução  da  Boémia  e  da  Morávia  serviria  de  exemplo 
a  outras  insurreições  de  camponeses  e  de  gente  humilde  das  cidades.  Que  mais  era 
necessário  para  confirmar  a  razão  prática  deste  movimento? 

Não  tinha  Deus  mostrado  que  abençoara  as  hostes  hussitas,  ao  permitir  que  elas 
desbaratassem  repetidamente  os  exércitos  católicos  da  Igreja  papal  e  dos  soberanos141? 
Assumindo  a  plena  autonomia  social  e  ideológica,  colectividades  formadas  por  campo¬ 
neses  e  artesãos,  que  até  então,  com  o  seu  suor  e  as  suas  privações,  haviam  sustentado  a 
aristocracia,  destruiriam  essa  sociedade  odiada.  Já  ia  ser  derrotada  a  ala  moderada  do 
movimento,  os  pequenos  e  médios  senhores  com  os  seus  desejos  egoístas  de  engrande¬ 
cimento  à  custa  de  uma  Igreja  que  fora  dos  magnates,  a  nova  elite  urbana  com  as  suas 
clientelas,  que  tinha  enriquecido  graças  aos  bens  confiscados  à  velha  elite14-  e  que 
governava  praticamente  no  lugar  do  antigo  rei143.  Já  a  aristocracia,  toda  ela,  a  católica  e 


regiões  da  Europa  compartilharam  as  suas  experiências  e  os  seus  desejos.  Com  efeito,  H.  Kaminsky 
(1956)  1 16  escreve  que  uma  multiplicidade  de  correntes  convergiu  no  movimento  hussita  e  considera 
que  isto  confirma  a  profundidade  desse  movimento.  No  mesmo  sentido  ver:  N.  Cohn  ( 1957)  222-223; 
H.  Kaminsky  <  1967)  287.  352  e  segs.  Por  seu  lado.  M.  Erbstósser  ( 1988)  212-213  afirma  que  alguns 
pregadores  valdenses  se  juntaram  ao  movimento  hussita  e  que,  em  sentido  inverso,  as  doutrinas  de 
Hus  se  difundiram  entre  os  seguidores  de  Valdo.  Outros  historiadores  mencionam  também  a  partici¬ 
pação  dos  Valdenses  no  movimento  hussita:  H.  Kaminsky  (1956)  104,  1 12-1 13  n.  6;  id.  (1967)  124- 
-125,  170  e  segs.,  254  e  segs.,  339;  J.  Macek  (1958)  25.  34,  73,  111.  Acerca  do  problema  da  influência 
valdense  sobre  o  movimento  hussita  note-se,  todavia,  que  H.  Kaminsky  (1967)  179  considera  impos¬ 
sível  passar  de  um  forte  grau  de  presunção  para  uma  certeza  absoluta.  Finalmente,  M.  D.  Lambert 
(1977)  295-296  duvida  que  as  crenças  dos  Valdenses  tivessem  reforçado  a  ala  radical  dos  Hussitas. 

140  Ver  as  nn.  70  e  7 1  deste  capítulo. 

141  J.  Macek  (1958)  5 1-52. 

I4::  N.  Cohn  ( 1957)  221;  G  Fourquin  ( 1972)  137;  J.  Macek  (1968)  245. 

,4-'  Desde  1419  os  governantes  de  Praga  haviam  passado  a  desempenhar  as  funções  dos  antigos 
magistrados  da  coroa  e  eram  eles  quem  governava  o  país,  a  crer  em  J.  Macek  (1968)  246  e  252  n.  24. 


622 


Diucronia.  Crise  dos  séculos  À/V  e  XV 


a  hussita  moderada,  ia  ser  exterminada.  A  grande  colectividade  de  Monte  Tabor  estava 
fundada,  a  primeira  de  muitas,  decerto,  a  primeira  de  todas  as  outras.  E,  depois  da  cisão 
ocorrida  no  interior  de  Tabor,  a  pequena  minoria  extremista  criara  a  poucos  quilóme¬ 
tros  de  distância,  junto  à  fortaleza  de  Pribenice,  uma  nova  colectividade.  onde  se  via 
enfim  livre  de  pressões  e  de  compromissos  e  podia  dar  ao  movimento  um  outro 
impulso144.  Na  doutrina  e  na  prática  destes  dissidentes  extremistas  a  emancipação 
social  colectiva  anunciada  pelos  profetas  milenaristas  fundia-se  com  a  libertação  indivi¬ 
dual  interior  conseguida  pelos  místicos  do  Livre  Espírito145,  dando  início  a  uma  espe¬ 
rança  revolucionária  sem  precedentes.  Nem  seria  necessário  sequer  empregar  a  força 
das  armas  para  sustentar  a  nova  colectividade  extremista  dos  eleitos,  que  a  fé  e  o  exem¬ 
plo  bastariam  para  impô-la146.  Já  ia  ser  posto  de  parte  o  clero  da  maioria  radical  que 
pregava  em  Tabor,  e  que  pouco  a  pouco  estava  a  tomar  o  controlo  dos  fundos 
comuns147  e  a  convertê-los  na  base  de  subsistência  de  uma  Igreja  organizada148.  Já  a 
massa  dos  fiéis  ia  ser  convencida  da  razão  dos  extremistas.  A  emancipação  definitiva 


Ver  igualmente:  J.  Kejr  ( 1968)  159:  G.  Leff  ( 1967)  610.  A  federação  urbana  chefiada  por  Praga  reu¬ 
nia  mais  de  vinte  cidades,  as  principais  da  Boémia,  deixando  em  segundo  plano  a  federação  urbana 
encabeçada  por  Tabor.  que  se  limitava  a  sete  cidades.  Reunida  em  Junho  de  1421,  a  assembleia  de 
Cáslav  entregou  provisoriamente  o  governo  do  país  a  uma  comissão  de  vinte  membros,  sendo  oito 
deles  representantes  da  federação  praguense,  quatro  dos  quais  representavam  Praga.  Ver  J.  Macek 
(1958)  60-61. 64  e  (1968)  246,  251  n.  21.  252  n  24.  Note-se  que,  segundo  id.  (1958)  60,  a  federação 
urbana  chefiada  por  Praga  incluiria  vinte  e  uma  cidades,  mas  id.  (1968)  246  e  252  n.  24  menciona 
vinte  e  trés  cidades. 

144  Acerca  desta  minoria  extremista,  conhecida  como  Pikarts  e  designada  pelos  historiadores 
como  Adamitas.  ver:  H,  Kaminsky  (1967)  429:  J.  Macek  1 1958)  56  e  segs, 

145  H.  Kaminsky  (1967)  356.  358-359.  429. 

Acerca  da  influência  exercida  em  Tabor  pelos  adeptos  do  Livre  Espírito  ver  id..  ibid..  352  e  segs. 
Quanto  à  influência  do  Livre  Espírito  sobre  os  Pikarts  ver  E.  Wemer  ( 1959-1960)  349.  Por  seu  lado, 
R.  E.  Lemer  (1972)  120-124  sustenta  que  os  adeptos  do  Livre  Espírito  não  teriam  tido  repercussão 
sobre  o  movimento  hussita,  argumentando  que  aquela  corrente  mística  v  isava  apenas  o  aperfeiçoa¬ 
mento  individual,  enquanto  os  Hussitas  radicais  procuravam,  além  da  elevação  espiritual,  a  perfeição 
material  da  colectividade.  Parece-me,  contudo,  que  a  experiência  prática  da  revolução  na  Boémia  e  na 
Morávia  permitiu  aos  adeptos  do  Livre  Espírito  alargarem  os  seus  horizontes  e  interessarem-se  activa- 
mente  pela  emancipação  social  colectiva  prevista  pelos  milenaristas.  Aliás,  como  mostrei  (no  capítulo 
17.d  da  Parte  II),  já  antes  de  1419  os  adeptos  do  Livre  Espírito  haviam  dado  mostras  de  se  preocupar 
com  os  problemas  sociais, 

146  J.  M.  Klassen  (1978)  67. 

147  H.  Kaminsky  (1967)  385-386,  389-390. 

I4!<  Em  Setembro  de  1420  foi  eleito  um  bispo  em  Tabor,  consoante  indica  id.  ( 1962)  171  e  (1967) 
385-386.  Este  historiador,  em  (1967)  359-360,  mostra  de  maneira  brilhante  como  certas  opções,  que 
de  início  haviam  sido  meramente  ideológicas  e  organizacionais,  adquiriram  em  Tabor  uma  realidade 
no  plano  sócio-económico  e  levaram  assim  ao  aparecimento  de  uma  contradição  insanável  entre  a 
corrente  hussita  filiada  na  tradição  valdense  e  a  corrente  hussita  influenciada  pelos  adeptos  do  Livre 
Espírito.  Para  a  tendência  valdense  tratava-se  de  fundar,  no  presente,  uma  nova  Igreja  institucionali¬ 
zada,  enquanto  a  tendência  do  Livre  Espírito  continuava  a  projectar-se  para  o  futuro,  negando  radical¬ 
mente  a  ordem  social  existente  e  ansiando  por  uma  vida  inteiramente  nova.  Em  suma.  com  a  fundação 
de  Tabor  o  reformismo  valdense  deixou  de  operar  como  um  eventual  estágio  preparatório  para  a  aqui¬ 
sição  do  Livre  Espírito,  e  as  duas  heresias,  que  até  à  Primavera  de  1420  tinham  sido  complementares, 
ficaram  convertidas  em  quadros  sociais  antagónicos. 


Da  nova  Jerusalém  à  nova  realidade 


623 


da  gente  humilde  não  era  só  possível,  passara  a  ser  real.  A  prática  viera  confirmar  as 
mais  exaltadas  visões  dos  insurrectos.  Tudo  estava  próximo,  imediato. 

Mas  em  Abril  de  1421  as  tropas  da  maioria  radical  de  Tabor.  comandadas  por  Zizka, 
começaram  a  perseguir  e  a  cercar  os  extremistas149,  e  — 


I4V 


ld.  (1967)  430-431:  J.  Macek  ( 1958)  56-58. 


REFERÊNCIAS 


As  obras  assinaladas  com  um  asterisco  têm  a  menção  completa  nas  referências  da  Parte  I;  com  dois 
asteriscos,  nas  referências  da  Parte  II. 

Os  autores  encontram-se  ordenados  consoante  o  primeiro  nome  mencionado  por  extenso  nas  notas. 
Quando  um  nome  inclui  de  ou  van,  estas  partículas  iniciarão,  ou  não.  a  referência  segundo  os  usos  prevale¬ 
centes  nos  vários  países.  Os  nomes  começados  na  forma  abreviada  Mc  consideram-se  como  se  estivessem 
escritos  na  forma  completa  Mac. 

Para  a  ordenação  dos  nomes  não  são  levadas  em  conta  as  variantes,  tanto  as  devidas  à  inclusão  de  mais 
ou  menos  nomes  próprios  como  à  junção  de  outro  nome  de  família,  ou  ainda  as  devidas  a  diferentes  trans¬ 
crições  de  nomes  eslavos.  As  referências  a  um  mesmo  autor  encontram-se  agrupadas  independentemente 
destas  eventuais  variações. 

Entre  parênteses  rectos  constam  indicações  bibliográficas  que  não  estão  especificadas  na  própria  obra. 

A  data  mencionada  entre  parênteses  é  a  da  edição  consultada,  que  pode  não  corresponder  à  primeira 
edição  da  obra. 

Nas  notas,  os  números  romanos  maiusculos  indicam  os  volumes  e  os  minúsculos  referem-se  a  páginas 
numeradas  em  romano 


Abadal  i  de  Vinyals.  Ramon  d'  (1955)  * 

Abels.  Richard  P.  ( 1988)  * 

A<  >i  i  Aiih  Nibto.  Santiago  f  19881  * 

Acus,  living  A.  (1965)  * 

Amann,  Émile  e  Dumas.  Auguste  (1948)  * 

Anderson,  Perry  1 1974)  -  Passares  from  Antiqidty  to  FeudoUsm.  Londres:  NLB. 

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índice  de  Assuntos 
dos  três  volumes 


4j  menções  em  itálico  indicam  que  o  assunto  vem  tratado  exclusivamente  em  nora. 


Absolutismo:  III  43.  62.  6 J. 
86.  183  ,  264.  286-287. 
291-293.  475.  484.  564- 
-567.  597.  606-608-609. 
Agentes  mercantis:  I  202. 
414-415.  447.  449-450. 
4.15,  466-467.  490.  545. 
559,  562;  III  79.  357.  371. 
382,  384-385.  393.  411. 
414-415.  418.  429.  431- 
-432,  434,436,  451,  550 
Agentes  senhoriais 

em  gerai:  I  32.  51-52.  66. 
93,  108,  126,  133,  143- 
-144.  364.  367.  374,  378: 

II  59,  227,  288-289.  336. 
353-356,  375,  380.  382. 
386.  391,  579-580.  588. 
592,  623-624;  III  62.  162. 
164.  175 .  177.  178,  182- 
-184.  185,  203.  211.  218- 
-219,  232.  233,  239.  245. 
279-280,  284,  288,  293. 
333,  433-434,  490-491. 
492. 

ver  também:  Burocracia. 
Agricultura:  ver  Sistemas 
agrários. 

Anti-semitismo:  II  94,  615- 
-627,  636-637,  666-669: 

III  436-437,515-517,587. 
Arraia-miúda 

em  geral:  II  377-378,  395, 
406,  408-410.  412,  413, 
417-423,  430-437.  439- 
-453,  466,  489,  508.  553. 
554,  559,  609.  646-647; 
III  142,  340.  448-451, 


454,  457-461,  463-466, 
480, 610, 621. 
ver  também:  Lutas  sociais 
-  manifestações  autóno¬ 
mas  da  arraia-miúda. 

Arrendamentos:  II  332-340. 
342,  346-348,  356-357. 
494,  534;  III  55,  72.  84, 
99. 102.  128, 133. 

Artesanato,  artesãos 

em  geral:  I  29.  46, 48, 117. 
122,  125,  205,  220.  326- 
-327,  359-366,  378-380, 
384,  386,  411-413.  418, 
421,423,  437.441,581;  II 
233-241,  247,  252,  374, 
378,  399.  401.  402-403. 
412-413,  430-437,  439- 
-443,  461.  466.  468,  495- 
-504.  609,  631-632,  637, 
653-654;  III  23, 24. 67-68, 
73.  75  ,  79.  95.  122,  152- 
-153,  154,  259,  269.  396, 
423.  509.  530-534,  602- 
-603, 609, 6/0,  6 14. 
formas  parafamiliares  nas 
associações  de  artesãos: 
UI  328-329.  331, 345-346. 
353-354. 

ver  também:  Corporações; 
Serviços  de  trabalho  - 
artesanais:  Servos  -  servos- 
-artesãos;  Sistema  empresa¬ 
rial;  Técnicas  -  artesanais. 

Assalariados,  assaiariamento 
em  geral:  II  449.  495;  III 
125.  290-291,  293,  477- 
-482, 603,  610. 


rural:  II  281-284,  286-287, 
342-348,  420,  437-439. 
486.  111  21.  66-72,  83-85, 
142-143,  404,  589.  590- 
-593.600,602,617. 
urbano:  II  420,  425-427, 
437.  439-444,  485.  654; 
III  124.  384-385.  387-388. 
530,6/4,617. 
formas  parafamiliares  no 
assaiariamento:  III  25- 
-26,  36-41,  85,  318.  346, 
353. 

ver  também:  Arraia- 
-miúda:  Greves:  Mercenᬠ
rios;  Prebendados  tempo¬ 
rários;  Prebendas;  Sistema 
empresarial. 

Autarcia  económica:  I  353- 
-389,  417-418.  419 ,  437- 
-438,  443,  445,  467:  II 
439;  III  48,  85.  119,  121- 
-123,  132.  134,  149.  151. 
187.  492,  502,  527-536, 
590,  608. 

Bancos,  banqueiros 

em  geral:  III  121,  147- 
-148.  154,  266.  271-273, 
277,  283-284,  328,  330. 
362-380,  445,  449.  454, 
463,  469-471,  478.  483, 
486.  488.  490,  516-517, 
518, 542,  543. 
cambistas-banqueiros:  III 
147.  369-371,  391-392, 
395  ,  405-420,  424-427, 
430,  433.  446-447.  448. 
469,  470, 516. 


648 


índice  de  assuntos 


negociantes- banqueiros: 
III  268.  364.  371.  372. 
383,  392-393,  423-424. 
428, 446-448. 516. 
usurários:  III  147.  149. 
153  .  405  ,  423-424,  507. 
515-519.521-522.550. 
lontbardos:  II  625-626;  III 
274.  324.  395,  423,  424, 
517. 518-520.  521, 543. 
ver  também:  Anti-semitis- 
mo;  Crédito;  Dinheiro  - 
dinheiro  fiduciário.  Forma 
III;  Sociedades  mercantis 
-  companhias;  Sociedades 
mercantis  -  mahones:  So¬ 
ciedades  mercantis  -  for¬ 
mas  parafamiliares  nas 
sociedades  mercantis. 
Bannum 

cm  geral:  I  208,  225-236, 
269,  347-348,  407;  II  127. 
129.  146,  151-152,  179- 
-193.  202.  206.  209.  2/5, 
300.  303-324,  371,  466: 
111  21.30.42,83.86,  141, 
143-145,  154,  188,  268- 
-269,  271,  274,  299,  428, 
435-437,  448,  471-472. 
485,  511.  527.  563-564, 
566,569.571. 
símbolos  do  hamuim:  I 
227-228,  239.  386-388. 
428.  433.  438-439,  456. 
479-480,  506-507.  510- 
-512,  544,  557-568,  574; 
II  192,  216-217.  305-306. 
331:  III  46,  57,  64-65, 
163-165.  172 ,  185-186, 
238,  292,  538.  544-545. 
Bens  e  serv  iços 

de  consumo  torrente.  I 
383-384.  388.  396-399. 
409-411,  413-427.  433, 
441:  III  365-366.  479. 
481.  509,  528-530.  532- 
-534. 

necessários,  embora  não 
de  emprego  corrente:  I 
386.  390,  396-399.  4(36, 
411-413,  417-426,  441- 
-442.  531-534. 
de  luxo:  I  383-384,  386- 
-388,  399-408.  413,  421. 
423 ,  426-428,  433-440, 
461,  464.  466 ,  475  .  530, 
533.  535,  538.  541,  542. 


544-547,  557;  III  59,  75- 
-76.  444.  509,  531-534. 
550. 

Burocracia 

em  geral:  II  280.  288,  299. 
355,  411.  5/5.  548.  58S. 
III  62.  63.  112-1/3.  121. 
180,  212-213,  279-291. 
293,  336,  341,  365.  454- 
-455,  460,  497,  542-544. 
549,  552,  558.  561,  563- 
-566. 

ver  também:  Agentes  se¬ 
nhoriais. 

Cambistas 

em  geral;  II  398;  III  121. 
324.  362,  369-372.  375. 
391-392.  423.  425,  486, 
489, 503,  508. 
ver  também:  Bancos,  ban¬ 
queiros  -  cambistas-ban¬ 
queiros;  Dinheiro  -  letras 
de  feira;  Dinheiro  -  letras 
de  câmbio 

Camponeses  independentes 
em  geral:  I  37-38,  40-41, 
54.  60-61,  67-69.  71-73. 
75-79,  83.  84,  85,  91-92. 
94-96.  103-104,  111-113. 
132-135,  147-149.  152- 

-161,  167.  173-176,  190. 

216,  241-244,  247-249, 

259,  293,  315,  372.  384, 
387,  405-407,  417.  442. 
574,  579-580:  II  30,  56. 
61-64.  67-68.  77,  80-85, 
103.  124,  141-142.  144. 
185,  197-199,  211-215. 

217,  223,  226,  228,  230. 

232-233.  249-261.  276- 
-277,  293,  304,  306.  323. 
350.  543.  598:  111  22.  30. 
103-106.  139-140.  153, 

178,435.506,541. 

ver  também:  Família  - 
família  do  campesinato 
independente;  Pobres. 
Caseiros  de  origem  indepen¬ 
dente:  I  28-30.  37,  40,  45- 
-50.  60.  65.  68.  73.  77,  80- 
-81.  90,  96-97,  100-101. 
103-104.  111,  118-119, 

121-122.  132-135.  138- 
-139.  147-148.  152.  159. 
161-163.  175.  177-178. 

406.  483.  II  23.  26.  29-31. 
56.261:  III  148. 


Castelos  e  fortificações:  I 
189.3/7,  372:  II  117-121, 
123,  195.  199.  206-225. 
314-315,  317.  319-320. 
321.  332.  396.  407-408, 
462.  467-468,  480.  502. 
547.  548.  549-550,  556, 
561.  579.  581-582,  585; 
III  76.  162.  165.  16 6.  170- 
-172.  183.  184.  189,  218. 
229.  238,  260,  321-322, 
331-332,  334,  338-340, 
343.  347.  351,  459.  486. 
489. 

Castração:  I  432. 

Cavalaria  popular:  I  111,  132. 
188:  II  145.  157.  244-245. 
277-279.  282.  290.  291. 
352,  359.  392.  506.  544- 
-545.  583:  III  201.  212. 
231.  256. 

Cidades 

em  geral:  I  366-380,  413. 
416,  441,  453-454,  457- 
-459.  578:  II  184.  365- 
-517.  544-546,  548.  553, 
555-559,  561-562.  564- 
-568.  571,  573,  582-583. 
586-587,  609-611,  644- 
-648,  654-657.  661,  661- 
-66 2:  III  73.  81,  147-148, 

218.  315-359.  361-364, 
368,  403.  450-471,  514- 
-515.529-530. 622. 
carácter  parafamiliar  das 
cidades:  I  372,  375.  378- 
-380;  11  372-373,  376. 
380.  384,  393.  408-409, 
415.  417,  455.  482.  516; 
III  144.  315,  340-344, 
362, 455.  577. 
associações  de  cidades 
mercantis:  II  39.  381.  399. 
442,  515-516;  III  305, 
319-320,  365.  366-368. 
428.  439,  443,  444.  450- 
-45 1 . 480.  494.  531. 532. 
ver  também:  Arraia-miúda; 
Assalariados,  assalariamcino 
-  urbano:  Burocracia;  Elite 
urbana;  Família  -  família 
urbana;  Lutas  sociais  - 
do  4L'  tipo:  Lutas  sociais 
manifestações  autô¬ 
nomas  da  arraia-miúda; 
Mercados  -  localidades 
mercantis  de  longo  curso; 


índice  de  assuntos 


wv 


Mobilidade  social  -  urbana; 
Populares. 

Clero 

em  geral:  l  35.  38,  53-54, 
74.  93,  147.  197-204.  213. 
258-259,  281-287.  295. 
367-371,  374.  440.  442. 
451,  568,  570-571, 573.  li 
35,  37,  43.  44,  48,  131. 
132.  135.  149.  170-172. 
180-205  ,  231.  241,  310, 
336-337,  340.  376,  378. 
496,  510,  538-539.  564, 
582,  587.  592-594,  629- 
-630.  638-639,  652-662: 
III  144.  146,  175.  184- 
-185,  188-221.  266.  268- 
-269.  270-275.  277.  283- 
-284,  287.  288.  290.  333- 
-337.  364-365,  372,  376- 
-377.  403,  416.  432.  445. 
493-494.  497-500,  503- 
-524. 557-552. 596 
ver  também:  Comunita- 
rismo  rural  -  comunidade 
dos  fiéis  de  uma  igreja; 
Família  -  os  estabeleci¬ 
mentos  eclesiásticos  como 
famílias  artificiais:  Servos 
-  servos-padres;  Simonia. 
Clientela,  clientes:  I  39.  68, 
72,  77.  104,  133-134,  141, 
147-148,  152,  160,  189, 
214-216.  2/9.  246,  269. 
374-375,  407.  439,  532;  II 
23,  29,  37,  56,  193.  284, 
350,  371-372.  374-383. 
389-391.  406,  407,  408- 
-409.  413-414.  430-437. 
442-444,  447-450,  503, 
517.  613.  657,  66/.  III  21, 
30,  76.  84-85.  142.  146, 
148,  153.  /64.  182.  186, 
196,  210-211,  214-215. 
237-238,  242,  269.  287. 
292,  318-319.  324.  325- 
-327.  333,  338,  339.  340- 
-342.  347-349.  351-352. 
357.  505.  517. 

Comerciantes:  ver  Mercadores. 
Compra  e  venda 

em  geral:  I  392-393.  397- 
-399.  402,  403.  410.  4/5. 
416,  441-443.  450.  475. 
480.  488-492.  494.  512. 
581-582;  II  250-251,  286. 
425,  439.  441,  443,  525- 


-526,  579;  III  31.  100- 
-101,  103,  148.  152,  154. 
165,  169.  171-172.  175. 
240,  266,  278,  299,  307. 
488, 503-504.  572,  575. 
ver  também:  Preços. 
Comunitarismo  rural 

em  geral:  I  79,  95.  96, 113. 
133,  147,  163.  333-349, 
364.  398.  411-412.  489- 
-490.  574;  II  2.5.  34-35, 
38,  40-41,  63.  72,  135. 
162,  174,  184,  191,  195- 
-199,  204-205,  212.  215. 
217,  220.  224-225.  227, 
230,  233.  236-239,  249- 
-302,  323-324,  330,  352. 
361,  418,  420.  471-472, 
548.  557.  578-581.  596- 
-597,  599, 642-644;  III  22. 
41-44.  74,  82-87.  180, 
237,  349,  590-592:  598- 
-609. 615-623. 
cooperação  no  cultivo:  I 
301.  308-313,  335-338;  II 
69.  108,  140-142.  144- 
-145.527.579. 
assembleias:  1  340-342;  II 
195.  197.  199.  270-271, 
273-274.  280.  288-289, 
298.  312. 

comunidade  dos  fiéis  de 
uma  igreja:  I  283.  341- 
-342;  il  159,  182.  184- 
-185,  191,  193-205.  220- 
-222.  314,  322;  III  170. 
189-190,  215-218,  596. 
602. 

diferenciação  social  no  in¬ 
terior  da  comunidade:  II 
145.  157,  198.  204,  224, 
239,  242-247,  250,  255, 
275-302.  304,  352.  406, 
419,  437-438,  487.  489. 
594:  III  82-85,  153.  178, 
423.  562 .599.  601-602. 
ver  também:  Confrarias; 
Conjuras;  Lutas  sociais  - 
do  T  tipo;  Lutas  sociais  - 
do  3-  lipo. 

Condados,  condes 

em  geral:  I  35.  38.  53.  54. 
58-60.  74,  86.  94,  110. 
129.  142.  143.  153-154. 
270-272.  368-369,  373. 
374.  569-570:  II  115.  117. 
121.  232-233,  271,  309. 


310,  318-320.  349,  478, 
488-489,511:  III  166-167. 
183.  236,  420.  538. 
ver  também:  Principados, 
príncipes. 

Conflitos  sociais:  ver  Anti-se¬ 
mitismo;  Confrarias;  Con¬ 
juras;  Desbravamentos; 
Fugas;  Greves;  Herejes. 
heresias;  Lutas  sociais; 
Migrações;  Mobilidade 
social;  Peregrinações. 
Confrarias:  II  35-36,  38-40. 
192-193,  196,  197.  200, 
244,  278.  296.  358.  379, 
397-398,  418.  654;  III 
144,  214.  349,  353,  378- 
-379.  397. 

Conjuras:  I  356:  II  34-41, 43, 
50,  184,  372-373,  377- 
-382.  384-385.  389-390, 
397.  415,  445-446.  518: 
III  350,608. 

Corporações:  II  39.  40.  380- 
-382,  390-391,  397-405, 
409-410,  412-415.  418- 
-423,  430-433.  435.  436, 
441,  452,  653;  III  144. 
295.  335.  347.  353,  378- 
-379,  461.  478.  480.  482. 
499,  614. 

Cortes  gerais 

em  geral:  III  112.  117. 
281.  458.  556-558,  561- 
-566. 

ver  também:  Monarcas  - 
absolutismo. 

Crédito 

em  geral:  I  392.  403-409, 
432.  487,  571;  II  300. 
426-427,  441,  482-483, 
486.  622-626,  659-660, 
667-668;  III  40.  60,  61, 
74.  80.  90.  112,  1 13,  120. 
127.  128.  134-135.  145 
-155  ,  228.  266-279,  346. 
390-396.  399-401.  405- 
-428,  433,  441.  445-448. 
451-471,  478.  487.  499- 
-500.  503-524.  529.  550- 
-554.570-571,574. 
ver  também:  Bancos,  ban¬ 
queiros 

Cultura  extensiva:  I  28,  43, 
123.  325-330,  335-338;  11 
265-269.  272.  458;  Hl  T% 
-76,  82, 584-585, 592. 


650 


índice  de  assuntos 


Cultura  intensiva 

em  geral:  1  28,  43,  123, 
317,  332;  (I  195,271,333, 
339-340,  458.  459.  466. 
584-585. 

ver  também:  Vinhas,  vinho. 
Demografia:  I  308,  322-323, 
329.  376-377;  II  60-62. 
128,  129-130,  344,  365, 
526,  529-533;  III  35-36, 
84,  581-592. 
Desbravamentos 

em  geral:  I  34,  44-45,  87, 
106,  118-119,  121-123, 

155.  157,  305-307,  327, 
335-338,  581:  II  59-74, 
79,  82-83  ,  85,  104 ,  105- 
-108,  127.  130-131.  132, 
133-134.  136,  138-157. 

160-163,  165-166.  168. 
195,  198.  212,  219,  221- 
-222,  225.  246,  254.  257, 
267-268.  283,  339.  471. 
523-540.  559-587.  592- 
-599.  602-603,  605,  607- 
-608,  610,  665.  669-670; 
III  36,  39,  48-49,  52-54, 
57-59:  98.  146.  164,  180. 
188,  204.  320.  403,  581- 
-582, 584,  587. 
ver  também:  Herejes,  here¬ 
sias  -  relação  com  os 
incultos;  Incultos  e  pasta¬ 
gens;  Migrações. 

Dinheiro 

em  geral:  I  397-398,  403. 
473-582;  II  615,  6 28,  631; 
III  45.  46.  62-65,  100. 

137- 138.  248.  292-293, 
524,  535.  569-577. 
dinheiro-géneros:  I  403. 
403-404.  478-479,  482- 
-483,  486.  492,  494-501, 
508,  514.  524,  574-582; 
III  47.  95.  98-107,  129, 

138- 139.  307,  404,  417. 
526,  541. 

dinheiro-escravos:  I  496- 
.497. 499. 

dinheiro-talismã:  I  474- 
-475,  494,  502,  517.  541, 
544,  560:  III 63,  572. 
dinheiro-metal  não  cunha¬ 
do:  I  501-509,  515,  516- 
-517.  524;  111  89.  105. 
127,  298.  299.  307-310. 
372-373,541.547. 


dinheiro-moeda,  em  geral: 
I  478-479.  482-484.  494, 
509,  513.  514-515  ,  524, 
531.  537-5.38,  564-566, 
574-582;  íü  19,  46,  57, 
111-112.  127-128.  511, 

525-527.  535.  537-549. 
dinheiro- moeda.  Forma  1: 
III  46.  58-59,  64-99.  103. 
109-155,  297-298  .  300. 

304- 305,  306-307.  307. 
416.  421,  423-424.  477- 
-484, 539-540,  552-553. 
depreciação  monetária:  III 
88.  89-90,  94,  109-140. 
245.  297,  300-301,  303. 

305- 307,  421-422,  444. 
454,  477-482,  554-558. 
567. 

revalorização  monetária: 
III  109.  114-119,  124. 
300-301.  303-304.  306- 
-307.481. 

dinheiro-moeda.  Forma  II: 
UI  59,  64,  87.  88.  94.  1 14. 
115.  119-120,  128.  159. 
244-310.  416.  421-422. 
477-484,  539-540,  548, 
552-553.  574. 
zonas  monetárias:  III  301. 
304-305,  480.  535.  544- 
-549. 

dinheiro  fiduciário,  em 
geral:  I  519-523;  III  88. 
90-91,  106.  125.  261.  300, 
367,  369.  374-375,  379, 

422. 

dinheiro  fiduciário,  peças 
metálicas  simbólicas.  I 
523-524;  III  58.  90.  91- 
-94,  145.  261.  378-379, 

423.  539-540 

dinheiro  fiduciário.  Forma 
ni:  ni  89.  90.  119-120, 
361-472,  483,  518.  548- 
-549, 552-553,  574. 
letras  de  feira:  III  365. 
370.372-373.  396.412. 
letras  de  câmbio:  III  362, 
364.  365  36r>.  368.  369- 
-370.  371-374,  376.  377. 
392-393.  396,  412-417. 
422.  425-428.  432-433. 
471.  483,  503-504.  508. 
548. 

cheques:  III 369-370. 
dinheiro  contabilistico:  I 


481-483.  487-488.  499- 
-501.  503,  505-507,  513- 
-514,  524-526,  534,  576; 
III  54-55,  100,  106,  109. 
129,  130-131.  134-140. 

149,  151-152,  244-245. 

279.  295,  297,  300.  303. 
369-370.  371-373.  375, 
376  .  405-409,  411-412, 
422-423.  424-428.  432-433. 
455.  482-484,  544,  569, 
575-577,  585. 
ver  também:  Moeda;  Paga¬ 
mentos  simbólicos;  Pre¬ 
ços;  Senhorias  impessoais 

-  senhorias  pecuniárias; 
Serviços  de  trabalho  - 
comutação  em  tributos; 
Tributos  -  pagos  em 
moeda;  Tributos  -  impos¬ 
tos;  . 

Ecológicos:  1 322. 

Elite  urbana 

em  geral:  II  229.  367-415. 
417-418.  567;  III  126, 
134,  315-345,  351,  353. 
425.  448-451-471.  609- 
-611. 

ver  também:  Cavalaria 
popular;  Mobilidade  social 

-  urbana. 

Entesouramento:  ver  Tesou¬ 
ros. 

Epidemias:  ver  Pestes. 
Eremitas 

em  geral:  II  48.  54-60,  64. 
160-163.  166-167,  168, 

551,  608.  610-611,  6 13. 
642,  652,  6 53.  666;  III  24. 
220-221. 

ver  também:  Herejes,  here¬ 
sias  -  relação  com  os 
incultos. 

Escambo:  I  396-399,  402. 
403.  410.  413,  416.  441, 
443,  489-492,  494,  498- 
-501,  502.  526.  576;  III 
90,  100.  240,  405,  417. 
505, 526. 

Escravos 

domésticos:  I  30-31,  40, 
44-45,  51.  53.  61.  65-66, 
77,  80.  90,  94.  96-97.  100. 
101,  106-107.  125,  126, 
134.  140.  147.  208.  211. 
265,  298-300.  361-364. 
412;  II  24,  34,  93.  105, 


índice  de  assuntos 


6  51 


109,  118.  148-149,  252- 
-253.  336,  344.  354,  435, 
444-445,  560.  590.  596. 
601;  III  23-24,  29.  53. 
337. 

rasure  I  29-30.  44.  45-50. 
65-66.  73.  77.  80-81.  97, 
100-101.  107,  117-122. 

125,  131-132,  134,  138- 
-139,  162-163,  175,  181. 
208.  282,  284.  430;  II  23, 
26.  32-33.  61,  109.  252- 
-253.  327,  354. 
mercado  de  escravos:  I  29. 
420,  428-433.  435,  462:  II 
93,  252.  633;  III  23,  106. 
375,441-443. 
ver  também:  Dmheiro- 
-escravos;  Fugas  -  de 
escravos. 

Escrita 

em  geral:  I  227;  II  296- 
-299.  355;  III  279,  281- 
-282.  288-289,  428-436, 
456. 

ver  também:  Dinheiro  - 
dinheiro  contabilístico; 
Oral  idade. 

Esmolas 

era  geral:  I  213-214,  238. 
536.  581;  II  39,  49,  552, 
608.  629,  631.  636-637, 
655-656;  III  62-63.  90. 
92-93.  141-148.  378,  438, 
505.  570. 

ver  também:  Pobres 
Estrangeiros:  I  223.  445.  446- 
-449,  459-460,  462,  565; 
III  251-252.362,438. 
Família 

em  geral:  I  104.  175-176, 
299:  II  132,  276,532 ,638, 
643-644.  647,  665;  III  25. 
40, 235.  566.  576-577, 
quadro  familiar  da  posse: 
I  222.  304:  II  251,  259. 
III  22.  28-31.  33-34.  164- 
-167.  169-172,  179-189. 
191 

família  do  campesinato 
independente:  I  112.  132. 
133.  152,  153.  263-264. 
297-298.  300;  II  I  10.  128; 

III  22 

família  da  classe  servil:  1 
297-313;  II  60-61.  108, 
128,  138-143,  276  ,  281. 


526-527;  III  21-44,  219, 
237. 

autonomia  familiar  dos 
servos:  I  29-30,  47.  64-65, 
73,  97,  106-107,  118,  121, 
123-124.  163.  213.  299- 
-300,  302,  316;  II  68-70, 
79,  151.264,312. 
família  da  classe  senhorial: 
1  265-289.  358,  370-371, 
381-382;  II  128-129.  358: 
III  161-221. 

autonomia  familiar  dos 
vassalos:  I  34,  39.  52.  58- 
-59.  66-67,  85-86,  92-93, 
103.  108-110,  129-130,  142, 
145.  166,  208,  213.  272- 
-273. 277-279. 283;  III  239. 
família  dos  monarcas:  I 
291-295;  III  180-181.785. 
797.  254.  291-293. 
família  urbana:  II  365:  III 
142.315-353,510. 
família  artificial:  I  259. 
288-289.  299,  313,  463:  II 
36.  38.  40,  47.  80,  135, 
152,  171  172,  251.  274- 
-276,  278,  350,  358,  433- 
-435.  442-443,  629,  642- 
-644,  647-648:  III  21.  26. 
27,  29-32.  34,  56,  38-39, 
40,  41,  43,  62,  85.  164- 
-165,  169-171.  182.  186. 
191.  231-232,  237,  238. 
293.  319,  321-327.  331. 
340-345,  353-359,  362. 
378-379,  456.  490.  562- 
-567.  576-577,  616. 
os  estabelecimentos  ecle¬ 
siásticos  como  famílias  ar¬ 
tificiais:  I  283;  II  55-56, 
131.  162,587.592-594;  III 
144.  189,  190, 193.  376. 
ver  também:  Artesanato, 
artesãos  -  formas  para- 
familiares  nas  associações 
de  artesãos;  Assalariados, 
assalanamento  -  formas 
parafami  liares  no  assaia- 
riamento:  Cidades  -  carac¬ 
ter  parafamiliar  das  cida¬ 
des;  Clientela,  clientes; 
Confrarias:  Conjuras. 

Filhos  segundos;  Oração 
em  comum;  Refeição  em 
comum;  Servos  -  formas 
parafamiliares  na  relação 


servil;  Sociedades  mercan¬ 
tis  -  formas  parafamiliares 
nas  sociedades  mercantis; 
Transmissão  hereditária; 
Vassalidade.  vassalos  - 
formas  parafamiliares  na 
relação  vassálica. 

Feiras:  ver  Mercados  -  feiras. 
Feminismo:  III  316, 319. 

Fiéis  guerreiros:  I  32-34.  53, 
66?  81-82.  84,  93,  102, 
104.  108.  126-127.  140. 
143-144,  146,  790,  192- 
-193,  243.  417.  434;  II  26. 
28-29.  37.  132,  209,  222- 
-223,  547.  590;  III  185. 
227.  238,  243,  252.  255. 
259,  284. 

Filhos  segundos:  I  299;  U  61, 
127-136,  141-144.  150, 

7 52,  155.  162,  171-172. 
182,  372,  528,  547,  553- 
-555,  558.  589-594.  610. 
613,  619,  621.  632.  635- 
-636.  643.  647;  III  32,  39- 
-40.  86,  162-163,  166-168, 
169.  171.  172.  173.  176- 
-177.  188.  191-192,  195- 
-196.  198,  206.  212-213. 
215,217,234-237,  254. 
Fugas 

em  geral:  II  21-26,  28,  29. 
31-32,  34,  53-55,  58,  62- 
-65  ,  67-68,  70.  79.  127. 
136.  140.  144,  179.  526; 
III  467. 

de  escravos:  II  24, 30. 
de  servos:  II  30,  51,  63, 
79.  129.  137,  141,  254. 
257,  298,  329.  491,  493- 
-494,  527-528.  543:  III 
135. 

ver  também:  Migrações; 
Senos  -  mobilidade  dos 
senos. 

Greves:  II 431.  445-446,  448. 
Guerra:  ver  Saque. 

Herança:  ver  Transmissão  he¬ 
reditária. 

Herejes,  heresias 

em  geral:  II  31.  43-50,  52- 
-53.’  90,  159-174,  192. 
437,  447,  4~0.  553,  555, 
607-672;  III  143-144,  220. 
438. 571,  596,  598. 
relação  com  os  incultos:  II 
45-46.  49,  53-60.  192. 


652 


índice  de  assuntou 


194-195,  607-608.  6 11. 
635,6 51. 

Apostólicos:  II  641,  6 44. 
648-652;  III  595. 

Béguines  e  Be^hards:  II 
65.?,  656-657. 6 64, 666. 
Bogomilos:  II  77.?,  658. 
Cátaros:  I  224\  II  6/9, 
630.  631.  641.  643,  646. 
658-661.  666,  667:  III 
220.  260. 518.  522. 
Flagelantes:  II  621-622, 
643.  646,  66 4,  666.  670- 
-672. 

Franciscanos  Espirituais: 
II  6 30,  631,637.648,652. 
657. 

Hussitas:  III  606-608, 
612-623. 

Livre  Espírito:  II  641, 
663-665.  672;  III  618. 
622. 

Lollards .  III  596-598, 
609.616. 

magia:  I  474.  519;  II  45- 
-46.  58. 

maniqueísmo:  II  172-173, 
630.  6 60. 

paganismo:  I  251,  252- 
-254.  256,  258.  259.  281, 
324-325  .  347,  356,  440: 

II  43-47.  57-58,  98,  100, 

150-151,  159-160.  171. 

184.  194-195.  204-205, 

538,  539,  6 14.  653.  662; 

III  379.  429.  539.  608. 
620. 

Patarinos:  II  645. 

Pikarts:  III  616.  622. 
priscilíanismo:  II  47. 
Tafurs:  II  613-615,  628. 
Umiliati:  II  651.  653-656; 
III  504. 

Valdenses:  II  637,  648. 
653,  655-657.  667.  670; 
III  486. 607.  620-622. 
ver  também:  Anti-semitis¬ 
mo;  Eremitas;  Peregrina¬ 
ções;  Pobres  -  pobreza 
evangélica. 

Homossexualidade:  I  192- 
-193. 

Ideologia 

em  geral:  I  218-225.  233- 
-236,  239,  245.  245-247, 
249-259.  391,  393-395. 
404.  407408;  II  305.  320, 


357-358.  361,  441,  506, 
543,  558.  631.  632.  635. 
III  148.  164.  165,  177- 
-179.  184.  186,  195,  197- 
-198.  200.  228,  269,  299. 
335,  352,  429,  436-437. 
484.  501,  503-524,  534, 
538.  548.  558.  561-563. 
573-576. 

ver  também:  Anli-semitis- 
mo;  Herejes,  heresias;  Mo¬ 
narcas  -  caracter  sagrado 
das  famílias  dos  monarcas; 
Nobreza;  Peregrinações; 
Pobres  -  pobreza  evangé¬ 
lica;  Reificação:  Senhores 
-  carácter  sagrado  das 
famílias  senhoriais. 

Igreja;  ver  Clero. 

Impostos:  ver  Tributos. 
Imunidade:  I  37-38,  (8),  61. 
78-79,  125,  142-143,  148, 
159,  198-199;  II  216.  310- 
-311,  510,  586;  III  205- 
-206. 

Incultos  e  pastagens 

em  geral:  I  28.  31,  43,  55. 
73,97,  123,  157,  164.  263. 
318-322,  333-335,  420- 
-421,  441;  II  271-273. 
333.  340.  458,  552:  III 
320.  467,  584-585,  599- 
-600,  602. 

articulação  entre  cultivo  e 
incultos:  I  315-332.  339, 
355.  376-377;  II  59-61. 
133-134.  595-596.  601. 
602. 

controlo  dos  incultos  pelos 
senhores  e  monarcas:  I 
343-349.  375  .  416,  502. 
5/5,  527-531;  II  64,  67- 
-68.  72,  74,  119,  138.  141, 
154,  225-247,  307.  507- 
-508,  528,  534,  570.  578. 
579.600;  III  80,  165.  170, 
189.  435,  491.  492.  498. 
531.584,591. 
normas  para  a  preservação 
das  árvores:  I  323;  II  240- 
-247,  594. 

ver  também:  Desbrava¬ 
mentos;  Eremitas;  Herejes, 
heresias  -  relação  com  os 
incultos:  Sal.  salinas 
Jogo:  I  402;  III  572-573. 

Kuh:  I  475-476,  480,  485. 


Lutas  sociais 

em  geral:  II  166-167,  200, 
205 '  224.  233.  238.  239. 
252,  254,  261.  290,  311, 
607-608.  650-65 1 , 668:  III 
114.  119-120.  127.  550, 
551. 592, 608. 
do  V-  tipo:  II  25.  29-34. 
38.40-41,45.  56,  96,  110, 
150,  159.  204-205.  261. 
526.  530,  532.  538-539, 
548.  549,  577.  582.  587. 
642, 644. 

do  2“  tipo:  II  25,  29-34. 
36.  38,  41.  47,  56-57,  94, 
96-97,  136-138.  150-151, 
153.  154-155.  165-166. 

191-193,  205.  229,  487- 
-490.  502.  523,  608,  642, 
669;  III  595-623. 
do  3*  tipo:  II  26,  28-29. 
33-38.  41.  56.  94,  132. 
135,  152,  154.  162,  166. 
174.  179-180,  183-185. 

186.  188-192.  (99,  214. 
226,  255,  291-295,  324, 
350-351,  487-489.  503, 
515,  528.  552-555.  559- 
-560,  608,  630,  644.  6 51, 
652-653,  661;  III  105. 
239-240,  609-612. 
do  4”  tipo:  II  378,  380. 
382.  384.  386-388.  393. 
394  ,  404-410.  412,  430- 
-432.  436-437,  443-452. 
457.  474.  480-481,  485- 
-486,  488,  511-515,  625, 
630,  635  .  645-646.  652- 
-653.  655,  661;  III  142, 
331.  338,  340-344.  347. 
352.  358.  466-467,  603. 
609-612. 

manifestações  autónomas 
da  arraia-miúda:  II  442. 
449-452.  489,  502-504, 
517.  642,  669;  III  344, 
459.  463,  467-469,  480- 
-481, 603.614-623. 
Bacaudic:  II  21-28,  34. 
51-53.93-94. 

Ciompi:  II  403.  412-413, 
432.  447-449,  45045 1 . 487, 
509,  637:  III  78.  87,  344. 
461. 468.  481,520.595. 
Hussitas:  III  614-623, 
Jacquerie:  II  229,  447. 
504;  III  595,  604. 


índice  de  assuntos 


6  53 


Tuchins:  II  229.  490-401. 
503.  609;  III  467,  595 
ver  também;  Confrarias; 
Conjuras;  Greves;  Saque. 
Mana:  I  234-236, 39 3. 
Marginais;  ver  Vagabundos. 
Mercadores 

em  geral:  1  202,  22S.  382- 
-383.  398-399.  408.  413. 
416.  423-428,  431-432, 
437.  442.  445-453,  465- 
-466,  466-467.  492,  522- 
-523,  544,  562.  565-566: 
III  75.  78-79,  120-121. 
362-402,  405-436,  438- 
-451,  479-480.  508-512, 
515-517,  519.  520.  542. 
543. 

conversão  em  senhores:  I 
450-453;  II  373-374,  381- 
-383.  474-476.  504-517. 
654;  III  120.  142.  186- 
-187.  268.  350.  335.  408, 
439-441,  443-444,  453. 
470-471,  485-490,  534. 
543. 

ver  também:  Agentes  mer¬ 
cantis:  Bancos,  banqueiros 
-  negociantes-banqueiros: 
Cidades  -  associações  de 
cidades  mercantis:  Crédito; 
Mercados;  Rotas  mercan¬ 
tis;  Seguros:  Senhores  - 
actividade  comercial  dos 
senhores:  Sistema  empresa¬ 
rial;  Sociedades  mercantis. 
Mercados 

em  geral:  I  410-413.  453- 
-460.  578.  582. 
mercados  locais:  III  72- 
-82,  529-530,  599-600. 
608. 

localidades  mercantis  de 
longo  curso:  1  456-459. 
465.  562:  111  375. 
feiras:  III  77,  79,  363. 
364-365.  368,  371.  373. 
409-412,  417-420,  428, 
434, 489,  498. 

Mercenários:  II  96-97.  99, 
1 10.  192,  490,  491.  530. 
543,  545-546.  548,  6 58: 
III  88,  92.  112-113.  234. 
245.  250.  253-262,  265. 
267.  291-293.  379.  437. 
444  ,  451.  467.  501.  525- 
-527, 549, 558.  571. 


Migrações 

em  geral:  II  5 1  -53,  64.  67. 
79.  87-92.  130-136.  179. 
242.  254,  274,  292,  339, 
526-528,  535,  575-576, 
578.  581.  584,  594-595. 
609-611.615,670-671;  III 
39.  188,587,592. 
no  interior  das  fronteiras 
tradicionais  do  regime  se¬ 
nhorial:  II  63.69.  72.  138- 
-145.  151-157.  352.  463- 
-464.  532.  533,  534.  561- 
-576, 589. 

ampliando  as  fronteiras  do 
regime  senhorial:  II  62-63, 
65,  70-71,  77,  79-80,  83- 
-85.  105.  127.  129.  133, 
135.  146-151,  215.  243- 
-245,  259.  352,  468.  472, 
509,  530-533.  534.  535- 
-561.  567,  569-574,  579- 
-580,  584,  589.  662:  III 
202,320,441. 
de  outros  povos,  em  di¬ 
recção  ao  regime  senho¬ 
rial;  II  27-28*".  30,  37-38, 
77.  81.  87-125.  142-143. 
207-209;  III  258,439-441. 
ver  também:  Desbrava¬ 
mentos;  Fugas;  Peregrina¬ 
ções;  Vagabundos. 
Mobilidade  social 
em  geral:  III  562. 
rural:  II  45.  145,  209-210, 
276,  277.  289-291.  349- 
-359;  III  65.  83,  177-178, 
186,  215-216.  220.  224. 
242-243.  269.  280,  489. 
557,  569,  591-592.  600. 
602. 

urbana:  II  373-377.  392- 
-393.  402-403.  441,  452; 
III  186.  280.  318.  323- 
-325.  327,  333,  340,  342, 
344,  453-454,  459.  461, 
463-464.  489, 522. 
ver  também:  Cavalaria 
popular;  Comunitarismo 
rural  -  diferenciação  social 
no  interior  da  comunidade: 
Mercadores  -  conversão 
em  senhores. 

Moeda 

em  geral:  1  492-493,  509- 
-519,  525.  527-582;  III 
101-102.  205,570. 


moedas  de  ouro:  I  432. 
436,  482-483.  515.  517- 
-518.  533-535.  542-543. 
545-549.  551.  554-555, 
557-558,  563.  566.  568, 
575.  576.  577;  III  87,  88. 
89,  102.  137,  263  ,  297- 
-298.  299-300.  301-306, 
308,  310.  419-420.  421, 
424  .  454  .  477-478.  480. 
483. 52 6.  544-547.  570. 
moedas-ornamento:  I  516- 
-519.  538.567. 
moedas  em  túmulos:  I 
440.  518,  536-539,  568. 
ver  também:  Dinheiro  - 
dinheiro-moeda;  Senhorias 
impessoais  -  senhorias  pe¬ 
cuniárias:  Serviços  de  tra¬ 
balho  -  comutação  em 
tributos;  Tributos  -  pagos 
em  moeda:  Tributos  - 
impostos. 

Moedeiros:  I  379.  501.  514- 
-515,  531.  558,  561.  565, 
567-569.  571.  572-573;  II 
375,  429:  III  121.  336. 
541-544. 


Monarcas 


em  geral:  I  35- 

38,  53-56, 

59-60.  73-74.  76.  78,  82- 

-85, 

91.  93-94. 

.  108-109, 

112. 

127-128. 

132,  135, 

141, 

144-146. 

148-149. 

154. 

156-160. 

165-167, 

223-224,  229, 

241-259, 

438, 

456-459, 

461-466, 

506. 

509-510; 

11  28-29, 

36-38.  80-85. 

102-103. 

108. 

113-115. 

117-118. 

121-124,  186-1 

187,  189- 

-192. 

211.  232- 

•233.  256- 

-257. 

259-260, 

271.  294. 

303-304.  309. 

318-321. 

325. 

360-361, 

451-452, 

591. 

668;  III 

173-174, 

179-180,  435, 

475,  479, 

494-497.  500-501,  518- 

-520. 

537-567, 

603-606, 

616. 

carácter  sagrado 

das  fami- 

lias  dos  monarcas;  I  249- 

-259, 

292-293. 

402;  D 

164, 

166.  639-642;  III  63, 

180,: 

563,  564.  604.  608. 

ver  também:  Absolutismo: 

Burocracia:  Cones  gerais; 

654 


índice  de  assuntos 


Incultos  e  pastagens  -  con¬ 
trolo  dos  incultos  pelos 
senhores  e  monarcas;  Famí¬ 
lia  -  família  dos  monarcas; 
Palácio;  Transmissão  here¬ 
ditária  -  do  trono. 
Mundium 

em  geral;  I  213-215.  23 1  - 
-236,  289.  302.  400.  404- 
-407,  409,  477,  535-536, 
559;  II  278,  283;  III  30, 
62-64,  141-155,  164,  268- 
-269.  274,  279,  378.  495. 
505-506.507.  517,569. 
ver  também:  Crédito; 
Esmolas. 

Nobreza:  I  189-191, 284.  561; 
II  209-210.  216,  290,  291, 
350 ,  351-352,  354-355, 
356.  357-358,  359.  378, 
392.  41 1,  457,  473,  504- 
-510.  513.  616:  III  178. 
186-188.  485-486,  487. 
488-490,  501 . 

Oração  em  comum 

em  geral:  II  36. 40,  56. 
ver  também;  Confrarias. 
Oralidade 

em  geral:  I  227;  II  297- 
-299;  III  371,  428-436. 
ver  também:  Escrita. 
Pagamentos  simbólicos:  1  36. 
39.56.  III,  130-131,  143, 
195-196.  202,  209;  II  470. 
588:  III  47.  63-64.  101- 
-102,  205.  262-263,  298. 
460.  570-571. 

Palácio 

em  geral:  I  366.  373-375, 
380 ;  II  211.  213.  376:  III 
142  566. 

autoridades  palatinas:  I  33. 
35,  53.  59.  144-147,  270, 
273-274. 

frequência  do  palácio  por 
aristocratas  exteriores  à 
família  real:  I  35-36.  59. 
84,93,  102.  143-145.  166. 
271.  273-274,  276,  294, 
561:  II  40,  122,  320;  III 
173.  239. 

Peregrinações:  II  52,  163. 
549-558.  563-564,  576, 
583,  589-590,  608-620, 
627-629,  632-637.  641. 
647,  666.  670-671;  III 
143. 377.  525,  617-619. 


Pestes:  11  30.  48-49.  82  .  90- 
-91.  339.  541-542.  622. 
643,  666,668.  671;  III  37, 
135.  585-588. 592. 

Pobres 

em  geral:  I  215;  11  130. 
134-136.  181 ,  185,  418. 
439-440.  491,  508.  611- 
-616,  619-622.  627-639. 
647;  III  71.  142.  145, 149. 
318,  378,  517, 6/4. 
pobreza  evangélica:  II 
161,  164,  169-170,  611. 
6 15,  628-639,  646-649, 
653-656,  663,  665;  III 
143-144,  220, 620. 
ver  também:  Arraia-miúda; 
Esmolas;  Vagabundos. 
Populares 

em  geral:  II  391-415.4/7- 
-418,  567;  III  340,  342. 
345-347,  351,  353  .  448- 
-451,  454,  456.  457-461, 
463-466,  480.615.621. 
ver  também:  Mobilidade 
social  -  urbana. 

Potlatch:  I  213,  346.  400-403, 
405.  439-440.  536-539, 
568:  III  147.  298,  416, 
4/7,571.605.617. 
Prebendados  temporários 
em  geral:  I  30.  44,  100- 
-101,  106,  125.  140.  213. 
299.  361-363.  365,  382. 
411.581:  II  131,  1 35. 420: 
III  23.  25.  38,  39.  40.  66- 
-67,  70-72.  142,  154,  182. 
185,255,337.603. 
ver  também:  Assalariados, 
assalariamento. 

Prebendas:  I  33-34,  40.  47, 
52,  53,  59,  65,  82.  103. 
108.  117.  146,  163,  167. 
181.  184.  271,  438,  532- 
-533.  581;  II  343-344. 
433.  434.  438,  439,  442; 
III  66,  70.  72,  85,  227. 
238,  245.  248.  252-259. 
261,  291-292. 

Preços 

em  geral:  1  407.  410.  418. 
493;  II  30.  246.  341,  483- 
-484.  487:  III  74-82,  110. 
114-115.  116-117.  119, 

122,  129-130.  300.  394- 
-395,  440,  464,  477-481. 
491-492.  494-495.  499. 


508-511.  515.  528-531. 
533-534.  573.  581.  589- 
-590. 

inflação:  II  342:  III  60. 
74-75,  H0.  112.  120.  121  - 
-134,  495,  530. 
ver  também:  Dinheiro  - 
depreciação  monetária. 
Presentes 

em  geral:  I  238-239.  279. 
391-408,  412,  413.  436- 
-441.  443,  476,  489-492. 
531-536,  544,  560.  576;  II 
39-40.  180,  438;  III  45-46. 
63-65.  73.  100-101,  103, 
105.  143,  147,  148,  179, 
185,  190.  195-197,  207, 
240,  255  .  264.  275-279, 
298-299.  405  .  416-417. 
438,  446.  501.  505.  508, 
570-576. 

eontrapresentes:  I  396- 
-397,  406,  476-478.  480- 
-481;  III  100,  102-103. 
105.  263-264.276-278. 
parapresentes:  I  477-480. 
ver  também:  Esmolas: 
Potlatch;  Saque. 
Principados,  príncipes 

em  geral:  II  98-99,  107. 
109-125,  186-191,  226- 
-227,  293,  304.  318-319, 
360,  577-578.  584,  587;  III 
166.  192.  199-208,  210- 
-212,214,216,  220.540. 
ver  também:  Condados, 
condes. 

Produtividade  agrícola 

em  geral;  I  208.  326,  384; 

II  28 1 . 335. 345,  527,  542. 

595-605:  III  68-69.  75-76, 

79.  82,  145.  151 .  278,  487. 

517.582-583. 

ver  também:  Técnicas  - 

agrárias. 

Refeição  em  comum:  II  39, 
40,  43,  39 7.  450,  643:  III 
101,572,608.  620. 
Reificação 

em  geral:  1  393-394,  399, 
473-474,  488.  560,  582:  II 
161-163,  167,  171.216. 
ver  também:  Bannum  - 
símbolos  do  bannum. 
Dinheiro  -  dinheiro-talismã; 
Pagamentos  simbólicos. 
Reis:  ver  Monarcas. 


índice  de  assuntos 


655 


Rotas  mercantis 

em  geral:  I  422-426,  428- 
-429,  431-432,  448,  456. 
460-465,  530.  545,  547, 
551-562:  II  49,  316,  464. 
469,  476.  554.  559,  583: 
III  174-175,  194.302. 
ver  também:  Mercados  - 
localidades  mercantis  de 
longo  curso;  Mercados  - 
feiras. 

Roubo:  ver  Saque. 

Sal.  salinas:  I  320.  356-358, 
415-416,  421.  427,  456. 
498, 520,  522;  II  144,  153, 
251.  484,  566:  III  80,  103, 
458. 494-496.  530. 
Salários:  ver  Assalariados, 
assalariamento. 

Saque 

em  geral:  I  55,  201.  209, 
263.  407-408.  416-417. 
419-420.  430,  433-436. 
438-439.  442-443.  452. 

490,  539-541 , 544,  560;  II 
21-22,  29.  31.  34.  37-38. 
49.  51-54.  60.  93.  95-96. 
99-100.  104.  105.  116. 
119,  152.  135,  137.  141, 
180.  151,  183,  185.  192. 
209.  211.  252.  327.  359, 
444-446.  447,  451.  490. 

491.  506,  509-510.  543- 
-545,  552.  555-554.  608- 
-609,  611.  615,  618.  626- 
-629.  636-637,  651,  665: 
III  23,  69,  58,  155.  142. 
143.  180.  198,  250.  258, 
262.  267,  271.  276,  350, 
436-448,  495,  501,  519, 
520.  525,  526.  528.  532. 
549,  550-551,  553-554, 
558.  561,571.6/8. 

ver  também:  Escravos  - 
mercado  de  escravos;  Tri¬ 
butos  -  de  guerra. 

Seguros:  UI  397-402,  507. 
Senhores 

em  geral:  I  184,  187-204. 
207-218;  II  27-28.  200, 
586, 616;  III 425. 428. 
carácter  sagrado  das  famí¬ 
lias  senhoriais:  I  249-250: 
II  200.  306. 

actividade  comercial  dos 
senhores:  II  241-247.  341, 
380-382.  585,  399,  509. 


III  74-82,  132-133,  283, 
555.  424-425.  490-502. 
ver  também:  Bannum; 
Clero;  Condados,  condes: 
Elite  urbana;  Família  - 
família  da  classe  senhorial; 
Incultos  e  pastagens  -  con¬ 
trolo  dos  incultos  pelos 
senhores  e  monarcas;  Mer¬ 
cadores  -  conversão  em 
senhores;  Mundium:  No¬ 
breza;  Populares;  Principa¬ 
dos,  príncipes;  Transmis¬ 
são  hereditária  -  do  patri¬ 
mónio  senhorial;  Trans¬ 
missão  hereditária  -  da 
senhoria  vassálica:  Trans¬ 
missão  hereditária  -  dos 
cargos  de  autoridade;  Vas- 
salidade.  vassalos. 


Senhorias  impessoais 


em  geral: 

U  193 

1-194, 

201- 

-203. 

.  206 

.  209 

-210, 

212. 

215-; 

216. 

227, 

295 

-296. 

303- 

324, 

331-: 

349, 

352, 

360- : 

361, 

37 1  -: 

372, 

384- 

-385. 

.  462-464, 

481 

-483, 

528. 

546, 

577-589:  III  41- 

-44, 

53-54 

,  60, 

85-86 

.  99- 

-101. 

.  103. 

106, 

126. 

138. 

141, 

146, 

172. 

180. 

183, 

194. 

209- 

210. 

214. 

321, 

435, 

471-472. 

485. 

526- 

-527. 

562-567, 

573 

-574, 

576, 

581-582. 

senhorias 

pecuniárias 

:  III 

255, 

244 

-255. 

257' 

-259, 

261. 

263, 

266- 

267, 

291- 

-292, 

.  304, 

507. 

526, 

549, 

558. 

571. 

Senhorias  pessoais 

em  geral:  II  201.307,  324- 
-349.  361,  462-463.  528. 
579,  587-589.  592;  III  41- 
-44.  99-103,  106.  126, 
128,  146.  172,  179,  216, 
279.  32 1 , 582. 
em  que  o  cultivo  do  domí¬ 
nio  dependia  sobretudo  da 
força  de  trabalho  domés¬ 
tica:  I  28-31.  65,  72-73. 
80,  90-91.  97,  100- 101;  II 
336-337. 

articuladas  mediante  ser¬ 
viços  de  trabalho:  I  45- 
-50,  64-65,  89-91,  100. 
105,  117-118,  555.  363; 


II  31-32.  179,  334.  340- 
-342. 

articuladas  mediante  tribu¬ 
tos:  I  65.  90-91.  106-107, 
122-124;  II  179,334. 
Serviços  de  trabalho 

em  geral:  I  29-30.  46-49, 
61,  64-66.  73,  76,  78,  80- 
-81,  87.  89-91,  97,  100- 
-101,  105-106.  116-123, 
139.  163-164,  174,  181, 
405,  406.  581;  II  82.  137. 
179.  199-200,  209-211, 

215.  223-225,  251.  255. 
264.  312.  315  .  517.  329- 
-330.  552.  342-343,  557, 
469.  483.  526.  548.  560, 
587.  594-595,  596.  599. 
601,  605;  in  25,  36-38, 
39,  42.  46-47.  69-70.  83. 
99-100,  126.  151.  152- 
-153,  502.  598-600.  616. 
artesanais:  I  29.  44.  48, 
1 1 7,  360.  363.  378-379. 
de  transporte:  I  382.  410. 
415.  449.  450.  467.  II 
335-336.462;  III  81.492. 
comutação  em  tributos:  II 
335-336.  340.  344,  345- 
-346;  IU  48-54.  57,  60-61, 
68-69.  82,  132-133.  149. 
502. 

Servos 

em  geral:  I  175,  177-186, 
211-218.  375.  483-484;  II 
322-331.  339,  557,  559, 
560;  III  102,  423,  509. 
520, 571 .  603. 
fusão  servil:  I  46-47,  66. 
81.  90.  97.  122.  139.  176- 
-183:  II  23-24.  26.  64.  69, 
71.  179.  249-264.  276. 
295.  323.  493-194,  581, 
584.  586;  III  22,  43-45, 
60. 149.  598-600. 
servos-artesãos:  I  360-361, 
363-364,  382.  383.  412- 
-413. 

servos-padres;  I  203-204. 
282:  II  200-201,203-205. 
mobilidade  dos  servos:  I 
49-50.  81.  91.  112.  124, 
158.  139-140.  160,  162- 
-163.  179.  183-184,  221- 
-222;  II  31-32.  127.  224. 
263  ,  284.  327-330,  491- 
-494;  III 69.  591. 


656 


índice  de  assuntos 


formas  parafamiliares  na 
relação  servil:  I  175-176, 
184-186.  194,  220,  231- 
-233,  299.  302-313;  II 
512;  III  29-30,  146,  326. 
ver  também:  Caseiros  de 
origem  independente:  Es¬ 
cravos  -  easati;  Família  - 
família  da  classe  servil; 
Família  -  autonomia  fami¬ 
liar  dos  serv  os:  Fugas  -  de 
servos;  Mobilidade  social 
-  rural;  Serviços  de  traba¬ 
lho;  Transmissão  hereditᬠ
ria  -  do  casal;  Tributos. 

Simoma:  I  397;  III 199.  572. 

Sistema  empresarial:  II  400- 
-401,  413,  415.  423-430, 
438-441,  466,  495-502, 
653-654;  III  67.  87.  346, 
355,  383,  391,  487,  509. 
531.  592-593. 

Sistemas  agrários 

em  geral:  I  31.  51.  64,  77- 
-79,  101.  107,  123.  161. 
269-270,  315-316.  322;  II 
73,  150,  218-219,  247, 
265-269,  275.  546.  549, 
578-579,  598.  602:  III  81- 
-82,  122,492. 
unidades  agrárias:  I  300, 
302-313.  330-332.  334;  II 
60.  108, 129,  140. 
ver  também:  Comunitaris- 
mo  rural  -  cooperação  no 
cultivo;  Cultura  extensiva; 
Cultura  intensiva;  Desbra¬ 
vamentos;  Incultos  e  pasta¬ 
gens;  Produtividade  agrí¬ 
cola;  Técnicas  -  agrárias; 
Vinhas,  vinho. 

Sociedades  mercantis 

em  geral:  II  59;  III  78, 

380- 389,  402-404.  441. 
448-451,  456,  495-496. 
501.506.511-512. 
commende:  III  574,  380- 
-381,  384,  395.  402.  404, 
407, 450,501,506. 
societatis  maris:  III  386- 
-387,  402-404. 450. 
companhias:  III  282-283, 
319,  528-550.  554.  357- 
-358,  565.  571,  372,  576. 

381- 384,  392-393,  397. 402, 
415-416,431-432,444. 445- 
448, 450, 545.  550-553. 


mahunes  III  545.  358. 
374,  381,  397-398  .  470- 
-471 .531.535. 
formas  parafamiliares  nas 
sociedades  mercantis:  III 
319-320,  324.  326-331. 
343.  353-359.  362. 
ver  também:  Bancos,  ban¬ 
queiros  -  negociantes-ban¬ 
queiros;  Seguros;  Sistema 
empresarial. 

Tabu:  I  234-236. 

Técnicas 

em  geral:  II  233-235,  240. 
246. 427, 461.  604. 
agrárias:  I  338, 339.  343:  II 
62.  73.  108,  130.  133.  141. 
196,  225,  234-239.  267- 
-268.  270.  281,  283.  316, 
322,  335.  355-356,  503, 
529,  594-605;  III  145. 
artesanais:  II  235,  238, 
428-430,  495-497.  499. 
503,  599-600;  III  97. 
Tesouros:  I  491.  494.  519, 
529,  541-545,  546-547. 
560-561.  562-563;  III  89, 
90,95,  105, 115.  116.547. 
Transmissão  hereditária 
em  geral:  I  279:  II  259; 
III  22.36,  181, 545. 
do  casal:  128,  49,  81.312; 

II  263,  268.  337-338,  342; 

III  26,  27-28.  31-34.  37- 
-42,  86. 

do  palrimónio  senhorial:  I 
279-287:  II  128-129,  135- 
-136.  149;  III  161.  164- 
-169.  171-172.  181. 
da  senhona  vassálica:  I  36, 
38-39,  57-59,  67.  84-86. 
92,  110.  129-130,  142- 
-143.  165-166,  200,  278- 
-279,  560,  II  591;  III  167. 
172.  239-241,264. 
do  património  urbano:  III 
316-317.  317-318.  327, 
345 ,354.  356. 
dos  cargos  de  autoridade: 

II  115-116,  119,  121-122. 
124.  290.  579,  580;  III 
166-167.  770,317.340. 
do  trono:  I  255.  293-295; 

III  181. 

Tributos 

em  geral:  I  28-29.  37-38. 
46,  47.  60.  65.  73,  76.  78- 


-81,  90-91,  96-97,  100, 
105-106.  117,  119,  122- 
-124,  138.  148,  157-158. 

163,  164,  183.  344,  360- 
-361,  378  379.  382.  405. 
407.  417.  478:  II  40,  44- 
-45.  65-66,  68.  82,  137. 

164,  166-168,  179.  183, 
187.  198,  203-205,  209, 
215.  235.  240,  252.  256, 
259,  329,  651;  III  37,  39. 
99,  100.  101-102,  121- 
-134.  138.  148,  216.  263- 
-264,  349-350.  436-437. 
446,  495.  497.  498.  582- 
-583,616.618. 

sobre  o  transporte  e  as 
transacçòes:  1  453-456;  II 
316.  322;  III  74.  81.  530. 
532.  552. 

de  guerra:  1  433-434,  539- 
-541 , 555;  II  98,  105,  147- 
-148,  543:  III  234.  250, 
439,  525.  559, 
pagos  em  moeda:  I  414. 
483,  510,  579-582;  II  264. 
342;  III  42.  45-61.  100. 
102,  119.  122-123.  125. 
128.  129.  132.  133.  135, 
149,  234,  250,  502.  526. 
584-585.  600. 
impostos:  II  23-24,  26,  28, 
55.  483-485.  488-489,  512, 
587,  626;  III  55-56,  112. 
120.  127.  131.  254,  264, 
267.  284.  290-291.  398, 
451-471,  495.  549-552, 
555-566.  577, 599. 604. 
ver  também:  Pagamentos 
simbólicos;  Serviços  de 
trabalho  -  comutação  em 
tributos. 

Vagabundos:  1  30.  213-214; 
U  52.  130.  131-132,  135, 
144,  179,  200.  421,  434. 
439,  440.  445.  555,  61 1. 
613-614.  633.  635-636. 647: 
IO  21.  40.66,  71,  142,617. 
Vassalidade,  vassalos 

em  geral:  I  34-40,  52-59, 
66-68,  73-74,  78,  82-87, 
91-94,  98,  102-103,  108- 
-112,  127-131.  133-134. 
140-149.  161.  164-167. 

174-175.  188-189.  201- 
-203.  207-211,  216-218, 
223.  227-228.  243-245, 


índice  de  assunte-. 


657 


246.  272,  348.  407,  417. 
434.  442,  451.  477.  478- 
-480.  482,  560:  (I  79-80, 
83,  97,  106-107,  109,  122, 
124.  135,  145.  150,  154, 
186.  201.  215-216.  217 , 
221.  228,  318,  358-359. 
360-361.  372,  376.  456- 
-457.  507-509,  547,  558. 
559.  570.  578.  580.  587- 
-588,  590-593,  623;  III 
167.  214.  223-269.  276. 
290,  292.  333.  487.  488- 


-489,  501,  538,  542.  558, 
570-571 

fornias  parafamiliares  na 
relação  vassálica:  I  39-40, 
59,  108-109,  111,  129-130, 
145-147.  166,  175-176, 

191-197.  220,  231-233, 
272-273,  275,  276.  287- 
-289.  482;  n  547;  III  167. 
182.  230-232.  234-239. 
241-242,253-254,264. 
ver  também:  Família  -  auto¬ 
nomia  familiar  dos  vassa¬ 


los:  Transmissão  hereditᬠ
ria  -  da  senhona  vassálica. 
Vinhas,  vinho 

em  geral:  I  43,  123,  317, 
335.  356-357,  386,  413- 
-415,  420,  441.  483,  495, 
498:  II  68.  333,  345.  458, 
459,  560;  III  66.  75,  80, 
100.  149,  403,  458,  490. 
491.  496.  49S,  529-530, 
533. 572. 

ver  também:  Refeição  em 
comum.